30.6.05

Eu não acredito em bruxas

Eu não acredito em bruxas mas, que as há, há!

Uma das coisas que sempre me intrigou na Bélgica (país onde, de resto, perdi a virgindade), foram os problemas linguísticos e regionais e comunitários.

Digamos que o nível de conflitualidade é superior ao português (Porto/Lisboa)ou grego (Salónica/Atenas) e inferior ao Espanhol (Madrid/Catalunha, ou pior Madrid/País Basco).

Nesse sentido, evocarei diversos episódios neste capítulo, para chatear.

Primeiro episódio

Espanhol.

Tendo eu vivido num ambiente multicultural, deu para acontecer que um colega resolveu fazer um campeonato de futebol de cinco entre várias nacionalidades.

Chegou a altura de termos de jogar contra os espanhóis, nós, portugueses. Não querem saber que os castelhanos nos pediram para os levarmos no nosso carro para o jogo, porque não queriam ir com os catalães?

Não querem saber que um amigo meu de Madrid, uma vez em que o Porto jogava contra o Barcelona, me veio dizer muito em segredo ao ouvido, na bicha da cantina ("Espero que o Porto ganhe.") Não era qualquer um, era um que traduziu o Seféris em Espanhol, perdão, castelhano.

Claro que o Porto perdeu por 3-0.

Amanhã há mais.

S/Z

Segundo me informa o meu cão, um tal Barthes escreveu um livro chamado "S/Z", como outros livros se chamam desejo.

Isto explicaria muitas coisas, diz ele. Quem sou eu para desmentir um cão que toma as almofadas por cadelas insufláveis?

Aceitemos pois o que o mundo nos atira para cima. Chatice!

Ainda o petróleo

Em comentário a um post que aqui pus sobre o "fim do petróleo", o Bom Selvagem escreveu:

"Lamento pôr em causa esta recorrente ficção mas depois do petróleo virá o gás natural. Ainda vai dar para muitos anos e com uma transição suave, visto que os carros a gasolina podem, com uma pequena transformação, funcionar a GPL."

Será. Lembro apenas que recentemente se realizou em Lisboa uma conferência científica sobre o assunto na Fundação Calouste Gulbenkian (25 deMaio), a qual deve ter tido mais cobertura jornalística lá fora do que em Portugal. As comunicações e contributos para essa conferência encontram-se disponíveis na página da Universidade de Évora.

A Conferência chamava-se IV INTERNATIONAL WORKSHOP ON OIL AND GAS DEPLETION (sublinhado meu) e era organizada pela Associação para o Estudo do Pico de Produção do Petróleo e do Gás (ASPO). A tese central é a de que chegámos ou estamos a chegar ao pico de produção mundial de petróleo e gás, e que as consequências económicas e sociais serão profundas e gravíssimas.

Do Provincianismo

"Lisboa a Saque", texto de Eduardo Pitta no blogue "da literatura", encerra, na sua primeira parte, um acertado diagnóstico daquele que é um dos mais graves problemas estruturais de Lisboa: as flutuações demográficas que fazem com que existam vários modelos de cidade ao longo do dia. Isto a propósito da disputa eleitoral que opõe Carrilho a Carmona (entre outros). Mas é preciso saber ler nas entrelinhas, e, no último terço do texto, comete-se uma injustiça que de acidental não tem nada. A dada altura, a propósito do argumento, imputado a Inês Pedrosa, "de que Carrilho, enquanto ministro da Cultura, terá contribuído para a internacionalização da arte e da literatura portuguesas", fala-nos Eduardo Pitta de um "trio maravilha" que constitui excepção ao quase total desconhecimento, no estrangeiro, da literatura portuguesa: Pessoa, Lobo Antunes e Saramago. Enumera depois uma série de poetas e ficcionistas portugueses que "um inglês culto" não sabe quem são, e outros tantos que continuam inéditos em França ou nos Estados Unidos da América (a importância que nos damos...). Então e Eugénio de Andrade? Não conta? Sem querer aqui discutir o seu peso ou a sua importância na literatura portuguesa, pergunto se não seria mais honesto falar, em vez de um "trio maravilha", de uma quadrilha maravilha. Eugénio é "apenas" o poeta português mais traduzido depois de Pessoa, não se tratando, ainda para mais, de um autor das primeiras décadas do século XX, mas de um autor que escreveu até 2001, data do seu último livro de originais, "Os Sulcos da Sede".
Justamente, "se alguém entrar numa livraria inglesa, chinesa, italiana, argentina, checa, sul-africana, austríaca, canadense, indiana, dinamarquesa, neozelandesa, norueguesa, chilena, russa, americana, grega, marroquina, belga, australiana, irlandesa, japonesa, alemã, egípcia, sueca, cubana, holandesa, nigeriana, suíça, mexicana, turca, etc.," terá, em muitos dos casos, boas hipóteses de encontrar uma tradução da poesia do autor de "Ostinato Rigore". Eugénio está traduzido e editado nos E.U.A., no Reino Unido, no Canadá, na Alemanha, na Itália, em Espanha (com edições em castelhano, catalão e êuscara) no México, na Venezuela, na França, na Bélgica, no Luxemburgo, em Macau, na China, na Bulgária, no Japão, na Letónia, na Suécia ou em servo-croata, tendo somente em conta as traduções integrais de livros do poeta ou as antologias da sua poesia (de poemas dispersos por publicações periódicas ou antologias colectivas nem falo). Nada disto, como é óbvio, Eduardo Pitta ignora. Só o poema "O sorriso", inicialmente publicado em "O Outro Nome da Terra", de 1988, está traduzido em nada mais nada menos que nove línguas: inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, checo, búlgaro, letão e chinês. Penso que ninguém me contestará se eu disser que Eugénio também não precisou de Manuel Maria Carrilho para nada. Ou de Eduardo Pitta. Ou, para se "internacionalizar", de quem quer que fosse.
Sabem a que se deve o "lapso" de Eduardo Pitta? É muito simples e explica-se por duas razões. Primeira: Eugénio viveu e escreveu no Porto; segunda: Eugénio era um poeta "popular", simultaneamente lido por amantes sem dinheiro e por amantes endinheirados, sem que isso o furtasse às boas graças da crítica e dos estudiosos (como aconteceu noutros casos), algo que a "cream of the crop" alfacinha não consegue engolir. Nem mesmo agora que Eugénio já não pertence ao mundo dos vivos.
Como é da praxe, a elite lisboeta ignora ostensivamente o Porto (e não há pior forma de provincianismo do que ignorar a província). Aliás, o Porto nem conta, "vocês nem existem", dizia-me há tempos uma amiga, escritora, sem ponta de malvadez ou pingo de sarcasmo. Alguém fala de Jorge Sousa Braga, por exemplo, o único poeta português que, depois de O' Neill, soube aliar o humor - no sentido cómico do termo - ao lirismo mais agudo e subtil? E quantas décadas se passaram até que Manuel António Pina fosse "descoberto" pela elite lisboeta e justamente reconhecido como um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, o único que soube recuperar a herança pessoana e trespassar o esplendoroso vazio do quotidiano com versos de estóica e amarga ironia? Uma lástima.

A zona é abundante em caça grossa

"Vou comprar um abat-jour e adaptá-lo à minha cabeça para me ligar e desligar sempre que me apetecer."

Nota de rodapé

No original lê-se Springprozession. Esta procissão, que tem lugar na cidade de Esternach todos os anos, na terça-feira de Pentecostes, caracteriza-se pelo costume de, por cada três passos dados em frente, se recuar dois.

Usura dois

Pergunta jpp se não faltará um verso na Usura do Pound, um verso em que faltaria ouro a Duccio por causa da usura.

Que eu saiba, não. E também não sei se haverá outro poema em que o ouro, Duccio e a usura estejam reunidos.

Entretanto, e porque não quero que vos falte nada, e porque bolas isto é a internet, aí vai uma ligação para o original de Pound, com notas, remissões e explicações de nomes e circunstâncias em hipertexto.

Folk bizarra



Neutral Milk Hotel, "In the Aeroplane Over the Sea" (Merge, 1998).

A esta hora, as pessoas de bem ainda estão a dormir

Neste país, há uns tipos que se consideram os únicos e verdadeiros defensores do "direito à vida" e à "família"(?). Depois, há os outros. Quer dizer, aqueles que estão contra o "direito à vida". Quer dizer, os assassinos. Às vezes dá-me ganas, nem sei. Já que estou do lado dos que têm a fama de assassinos, deveria pelo menos tirar algum proveito disso.

O dia conseguido

Numa destas tardes, estando de férias, li finalmente o "Ensaio sobre o Dia Conseguido", de Peter Handke. 70 longas páginas para tentar definir o que é o "Dia Conseguido". Literatura a mais, filosofia a mais. Um grande desperdício. Qualquer pessoa sensata sabe que o "Dia Conseguido" exige apenas uma embalagem grande de amendoins, algumas cervejas e um joguito de bola na televisão.

Da abstracção

Existirá abstracção (na pintura, na escultura, na poesia)? Tenho as minhas dúvidas. Toda a arte abstracta pode ser considerada apenas como uma síntese do mundo, reduzindo-o a uma essência, talvez (nos casos extremos) atómica, mas ainda assim real, concreta. A relatividade do concreto (cuja poliédrica dimensão o torna tão fluido) permite-nos pensar que a abstracção é para uns uma utopia, para outros um papão inexistente.

Ruy Ventura

29.6.05

Poesia e usura

Decididamente decidido a estragar a digestão ao maior número possível de pessoas que venham aqui, sobretudo depois das sensacionais revelações dos últimos dias, então aí vai mais um insulto à poesia.

Ezra Pound tinha um programa de rádio de propaganda na Itália fascista. Porquê? Porque sinceramente, não acreditando forçosamente em tudo o que Mussolini dizia, adoptava o ponto de vista do artesão medieval, inimigo da usura, do juro.

O ponto comum entre ele e os fascistas era esse: a usura. Os fascistas, repositório de todos os ressentimentos, atacavam o capitalismo pelo lado da finança (usura), enquanto o ajudavam pelo lado da política (se não perceberam, metam explicador). Marinetti vogava alegremente nessas águas, ele que defendia a velocidade, a violência, a guerra, a técnica moderna.

Ezra Pound punha-se numa posição diferente: ele acreditava sinceramente no seu discurso. Ele era de facto um artesão, como o provam as inúmeras traduções-versões que nos legou. Mas a sua teoria não deixava de ser ingénua e manipulável.

Aí vai numa das várias traduções que correm em português (um dia em que me ache mais pachorrento, talvez perprete a minha versão):

Com a Usura



Com a usura nenhum homem tem casa de pedra firme
de blocos bem talhados
e bem lisos
para o desenho os recobrir na face,
com a usura
nenhum homem tem um paraíso pintado na sua igreja

harpes et luthes
nem sítio onde a Virgem receba a anunciação
e onde um feixe de luz jorre da ferida,
com a usura
nenhum homem vê Gonzaga os seus herdeiros e as suas concubinas
nenhum quadro é pintado para durar
ou viver com ele
é pintado mas é para vender,
para vender depressa
com a usura, pecado contra a natureza,
o teu pão é feito cada vez com piores farrapos
o teu pão é seco como o papel,
sem trigo da montanha, sem boa farinha
com a usura o traço torna-se grosseiro
com a usura não há fronteiras
e nenhum homem pode achar um lugar para a sua casa.
0 pedreiro fica longe da sua pedra o tecelão longe do seu ofício.
COM A USURA
a lã não chega aos mercados
os carneiros não ganham lã com a usura
A usura é uma peste, a usura torna romba a agulha nas mãos da virgem
e embaraça os gestos da fiandeira.
Pietro Lombardo não veio pelo caminho da usura.
Duccio não veio pela usura
Nem Pier della Francesca; Zuan Bellin` também não foi pela usura
nem foi com ela que pintaram «La Calumnia».
Não foi pela usura que veio Angelico; nem Ambrogio Praedis,
Nem veio a igreja talhada em pedra assinada: Adamo me fecit.
Não veio pela usura Santa Trófima
Não veio pela usura Santo Hilário,
A usura corrói o cinzel
Ela corrói a arte e o artesão
Ela enrodilha o fio no ofício
Ninguém aprende a bordar a ouro seguindo o modelo dela;
0 azul tem um cancro por causa da usura; o carmesim fica por bordar
A esmeralda não encontra Memling
A usura mata a criança ainda no ventre
Ela corta a carreira aos jovens
Ela leva à cama a paralisia, ela está deitada entre a jovem desposada e o seu esposo.
CONTRA NATURA
Levaram prostitutas a Eleusis
Ao banquete assentam-se cadáveres
A convite da usura.

Ezra Pound

(Tradução de Goulart Nogueira)

Desafortunadamente

Desafortunadamente, alguns dos leitores deste blogue, e mesmo mais do que um, tomaram à letra uma ironia aqui transcrita. Não é que o problema não exista, mas a forma de o tratar era claramente irónica.

Para sossegar as almas inquietas, aqui deixo uma declaração do mesmo autor, veterano da internet em língua francesa, muito anterior à moda dos blogues, sobre as suas pretensões impertinentes:

A force de regarder mon nombril en quête d'ailleurs, j'ai décidé il y a quelques temps d'ouvrir mon bavoir au monde entier, au milieu des colifichets et des marchands du temple, coincé entre les poncifs.com et les dépressifs point à la ligne.

Voilà, c'était ma phrase d'accroche. Je ne l'ai pas changée depuis 3 ans.

Quand le doute m'assaille, n'ayant guère les moyens de retrouver les guerriers du même nom en Afrique, je ponds tel la poule des âneries passagères. Je me mégalomanise, je me célèbre, j'ai l'impression, ça m'occupe. Putain, je me trouve terriblement brillant ! Ah, ça mériterait un prix, des honneurs, une distinction ! C'est la grande classe qui m'irrigue, la verve en plume, je m'étonne encore. La poissonnerie du petit texte, de l'en-cas, de l'à-propos, oui, j'avoue, c'est moi, c'est ici. Ça ne vous coûtera rien, à vot'bon c?ur messieurs-dames, lisez-en un, je vous jure que c'est gratuit, que c'est de la bonne...

Mais bon.

Depuis quelques temps, de nombreux usurpateurs, et pas des moindres, des dilettantes, des libéraux, parfois même des Anglo-saxons, tentent de m'imiter sous la forme d'un machin, au néologisme étrange, "weblog" ou, pour les fainéants, "blogs". Ceux-là ne tiennent pas la comparaison, et crèvent rapidement par manque d'envie, de verve, de petit dégoût. Alors que moi, ah, MOI, ah ah ah ! J'ose l'avouer : moi !

28.6.05

Tiro o chapéu

Só hoje li isto.

Quem me dera ter tido a cabeça fria e o coração quente e a coragem para escrever o mesmo.

Poesia e especulação

André Gide era sobrinho do economista marginalista Charles Gide, que o educou. Curiosamente, no seu livro "Les Nourritures terrestres" há ecos da teoria do tio.

Eis um resumo da teoria marginalista no início do livro IV:

«O erro da minha vida foi pois não continuar longamente nenhum estudo, por não ter sabido tomar a decisão de renunciar a muitos outros. A esse preço, tudo e qualquer coisa se compraria demasiado caro, e os raciocínios não poderiam levar a melhor sobre a minha aflição. Entrar numa feira de delícias, não dispondo (graças a Quem?) senão duma soma mínima.»

[...]

«Mercadorias! Provisões! Porque não vos entregais sem resistência?»

Extraordinário é como Ménalque, o «eu poético» do poeta, resolveu a certa altura o enigma:

«Durante quinze anos, entesourei como um avarento: enriqueci-me com todas as minhas forças; instruí-me; aprendi línguas esgotadas e consegui ler muitos livros...

«Aos cinquenta anos, chegada a hora, vendi tudo e, como o meu gosto seguro e o meu conhecimento de cada objecto não me tinham feito possuidor de nada cujo valor não tivesse aumentado, realizei em dois dias uma fortuna considerável... Vendi absolutamente tudo, não querendo guardar nada de pessoal nesta terra; nem a mais pequena recordação de outrora.»

Esta é de facto a forma assumida pelo capitalismo contemporâneo, a especulação, a mais evanescente forma da alienação mercantil, o objecto, fora do circuito da produção, inteiramente despojado do seu valor de uso, transmudado em simples suporte de valor de troca, para realizar a mágica operação: do dinheiro fazer mais dinheiro. Melhor: o «eu poético» de Gide utilizou o valor de uso dos objectos, as suas propriedades concretas, como simples instrumento dessa alquimia.

Livre de todas as possessões, senhor duma fortuna considerável, poderia então gozar todas as coisas, todos os prazeres, todas as sensualidades, todos os «alimentos terrestres».

Há um poeta

Há um poeta a que poucos ligam. Chama-se Armando da Silva Carvalho. Como considero uma injustiça, aqui fica, em singela homenagem, um poema dele, tirado da recolha "Sol a Sol".

DE MANHÃ

O tamanho dum velho
Começa de manhã pelos seus sapatos.
A curva do cansaço procura
Os atacadores.
E não é ele o noivo.

A madrugada empurra.
A manhã desvia-se. Os animais da casa
Não vão obedecer-lhe.
Medem-se as intimidades
Palmo a palmo.

As paredes têm eco. Há sabedoria a mais
Nas prateleiras.
No duche disfarçado
Morre o fogo.
Os olhos da faiança estão a calcular.

Quem vive na insónia avalia
Os séculos.
Ouve o ressonar de César.
E sente sobre o peito
Os cascos dos cavalos de Napoleão.

Podia, se quisesse, tem altura que baste,
Não recear as coisas
Mas amá-las
E sobretudo obedecer à lei de ser coisa
- irmão das coisas do mundo.

Ao velho a miséria da filosofia
Não o vai deixar mais pobre
Nem mais pequeno.
Tudo é como era ontem.
O mundo não se mede aos homens.

[Nota: referências a O'Neill no quarto e quinto versos e a K. Marx na última estrofe. Pelo menos. MR]

Os Amish vão acabar por ganhar

Roubado aqui

J'étouffe dans un train vide mais plein d'une canicule, merguez-frites en camionnettes, huile bouillante entre les doigts, les narines et sous les bras. Voilà, nous y sommes, le réchauffement recommence, il ne s'arrête qu'à peine sur l'échelle humaine des perceptions. Le type qui ronfle tous les soirs a changé de place, c'est un miracle, parce que son corps à lui n'a jamais eu l'idée d'adopter les standards américains de l'évitement civilisationnel : il pue ce mec, infect. Je m'enlise en m'endormant, je lis un article sur la fin du pétrole*, une fille à moitié nue passe dans le couloir, dépensant sans compter cette énergie des corps qui pourrait faire saliver : mais il fait trop chaud. Lumière blanche, aveuglante, orages disparus, personne n'en demandait tant à l'été. D'ailleurs, personne ne demande plus rien je crois.

La femme de ma vie actuelle me disait hier soir sa préoccupation : avec toutes les conneries que je raconte, que vont devenir nos enfants ? Est-ce qu'on n'aurait pas dû éviter d'en faire ? Oui, sans doute. Continuer sans les bagages, en période de canicule et vers l'ère de la fin du pétrole, n'est pas une idée insensée. Sauf que les mômes, on pourrait pas trop s'en passer : qui nous jettera la dernière pierre une fois liquéfiés ?

A lire de plus près l'article, je comprends mieux pourquoi Airbus a vomi son gros porteur. La pénurie pointant son nez, le truc volera au maximum dix ans, avant d'être transformé en bateau dérivant à la rame sur le Pacifique, apanage des idées inutiles à la française, puisque des imbéciles et des idiotes n'ont rien d'autre à faire. Fin du tourisme intercontinental, fin du made in Taïwan, fin du fin. Resteront peut-être quelques connexions et surtout des potagers communautaires, où l'humus des bananes guadeloupéenne aura laissé la place aux râpes des carottes. (Sauf en Guadeloupe, ça va de soi).... Il n'y aura pas plus de pétrole sous terre que de poils pubiens sur les corps des actrices pornos encore jeunes. Certes, la vieille actrice porno, celle de ma génération (je n'ai pas de nom), pourrait nous rendre optimiste : chez elle, épilation oblige**, on ne compte plus l'arbre qui cache la forêt, et l'on pourrait imaginer qu'une razade hebdomadaire remplace les allumes-barbecues hors de prix chez Leclerc. Mais pour le chauffage central, c'est Landru qu'il nous faudrait. Et l'idée n'a rien d'enthousiasmant.

Il reste le solaire, mais il faut du pétrole pour produire les capteurs. Reste l'éolienne, mais les élus locaux français sont tellement cons qu'ils trouvent ça moche par chez eux. (Une centrale nucléaire, c'est beau, point à la ligne). L'uranium, évidemment, mais qu'on en consomme tous, au-delà des Tchernobyl de nos consciences, et la pénurie approchera aussi. Et puis faire rouler une bagnole au nucléaire...

Dans mon enthousiasme, je ne vois que de bons côtés à cette fin du pétrole. Fini les voyages longue distance désespérants, où l'on s'aperçoit que les Indiens d'Inde ne sont pas plus pacifistes que les flics de Mantes la jolie. Fini le couple en 4x4 au coin de la rue près de la maternelle. Ils viendront à pied, à moins d'être morts, et perdront peut-être ce superflu qui fait tant leurs ventres que leurs ambitions. Fini le CAC 40, fini le moral des ménages, fini la croissance, fini l'énorme baleine posée soudainement dans le siège d'en-face et qui croit encore que ce "surpoids" a des origines génétiques... (Elle maîtrise d'ailleurs beaucoup mieux l'astrologie que la génétique, ceci expliquant cela...). Fini la conquête de l'espace, fini la guerre moderne, il faudra s'entretuer au couteau, mais entre voisins, car seuls les peuples montant à cheval auront leurs chances de bouffer mes topinambours bio. Fini les vélos en carbone, il faut que je me dépêche.

Fini les ordinateurs en plastique, fini les bouteilles de même accabit, fini les engrais, fini l'agriculture intensive.

Les autoroutes seront d'immenses pistes cyclables dans vingt ans. Mais les routes pittoresques aussi ! Panoramas merveilleux, 35% de parts de marché pour les tandems, 10% pour les brouettes. La publicité aura disparu : que vendre sans pétrole ? Du local. Du d'ici. Du de là. Ton beurre dans mes épinards. Adieu les Américains. Plus un film produit pour de vrai à faire baver des adolescents ivres de jeux vidéo et d'une vie à laquelle personne n'osa les préparer. Virtual Potager 3D numéro 1 des ventes chez les 10-25 ans (période globale de l'adolescence actuellement, à revoir dans 20 ans).... Dans mon enthousiasme, j'oublie mon chauffage central, le coffre de la bagnole, le poids des bouteilles, les hivers rigoureux, l'économie de marché et la logistique. J'oublie mon étonnement la première fois que j'ai vu Witness, et le ridicule apparent des traditions amish.

Les Amish vont gagner la partie, Indiana Jones est un homme mort.

pizza au choix

pizza aux anchois
* Courrier International N° 764, p 38
** en français dans le texte

Economistas

Vejo uns economistas, amplamente responsáveis pela situação em que estamos (todos com altos cargos, professores de economistas, ex-ministros das finanças, etc.) a dar-nos lições sobre a situação em que estamos.

É no programa Prós e Contras, que geralmente tem um público que intervém. Neste caso, os economistas falam sozinhos. Porquê? Será porque estão acima do comum dos mortais? É de crer. Falam entre eles.

HAI CAMBIO EN GALICIA

Finalmente, e tras unha semana de espera, haberá cambio de goberno na Xunta. O futuro presidente será Emilio Pérez Touriño (PSdeG, Partido Socialista de Galicia, PSOE) con Anxo Quintana (BNG, nacionalistas galegos) como vicepresidente. O PPdeG non acadou a maioría absoluta ao conseguir tan só 15.371 votos en Pontevedra, o 49,6% do total. O PSdeG obtivo 13.518, o 43,6% e BNG 1.263, o 4,08%. Socialistas e populares case que empataron no voto da emigración e o PSdeG mesmo venceu ao PPdeG en Lugo.

Fraga prá reforma.

27.6.05

Está quase

Con el 80% escrutado, el PP obtiene cinco puntos más que el PSOE, insuficientes para la mayoría absoluta.

Fraga prá reforma!

Ah, grandes anacolutos

Soube, por amigo comum, que o Rui Amaral não está (ele está, mas de férias) pelo que me sinto como que compelido a preencher este blogue com posts.

A minha natureza tem horror ao vácuo.

Aproveito portanto o vácuo para perplexidades.

É aquela história dos casmurros. Estive para lhes escrever (proclítico) mas mando-lhes (enclítico, ainda bem que não é pós) aqui um post aberto. Aproveito para informar que peço asilo político ao QFM pois fui vergonhosamente usado por esses senhores, que, ainda por cima, na minha ausência em São Pedro do Sul, no gozo de uma merecida terapia a que a classe trabalhadora tem mais do que direito, refocilam no prazer de me acoimar membro da classe servil. Queriam chá que lhes servisse (hipérbato)? É porque o não têm.

Eu não percebo como é que esses elitistas pseudo-ontelectuais (paronomásia), sobretudo um tal Baptista (que ainda me deve o subsídio de natalidade), se permitem gozar com as figuras do discurso! É que não sei o que eles querem. Quererão enveredar pelo ínvio e escorregadio caminho dos linguistas, que a única coisa que sabem é dizer que:

1) Há uma diferença entre

O cão mordeu o homem

e

O homem mordeu o cão

2) Como o Chomski (que eu muito admiro, mas não conseguiu ir muito além das orações principais e relativas, pudera, que a coisa lá para cima é complicada),

há um foco?

Não sei se eles querem dizer isso, ao gozar (mas estarão a gozar?) com as figuras do discurso. É claro que, aqui para nós, eu sou um simples camponês das chamadas letras, aprendi na oficina, e desconfio sempre dos professores. Nessa conformidade, desconfiado como qualquer camponês, sinto-me intimidado ao comentar os comentários deles. Será que não haverá ali algum segundo sentido? Será que eu não percebi bem? É de perguntar, não?

Mas, seja como for, todas essas esdrúxulas formulações com que eles tanto brincam, são uma forma (digamos, taxonómica) de nos mostrar o caminho das pedras, quando falamos. Isto é, quando utilizamos uma língua que foi feita imperfeita para o vasto mundo que tinha de reconstruir para o comércio linguístico entre semelhantes. Se era imperfeita, toca de a violar com figuras de discurso. A própria estranheza dos nomes mostra como ainda não se conseguiu melhor forma de descrever esses mecanismos.

Este que se assina,

Groucho (proletário das letras)

Grande emocion

Começaron a contar os botos dos emigrantes de Galicia, e eu tenho cá unha fé que o Fraga bai perder.

Está mui mal, que só tem 50 por cento dos botos e precisa de 66 por cento para ganhar.

Terrorismo electrónico



"I Love Presets" (Tigerbeat6, 2002), EP da britânica Kevin Blechdom. Óptima capa e melhor site, a não perder.

Ainda os privilégios da função pública

Um colateral meu está farto da função pública. Mas farto por dentro.

E porquê? Perguntará o leitor. Porque está farto de ouvir dichotes sobre a função pública, isto é, sobre ele próprio, lá no fundo. E diz: "Ganho X por mês. Se estivesse lá fora a vender os meus serviços ao Estado, ganharia isso num ou dois dias, que é o que cobram no mercado por certos trabalhos."

Está farto, porque chegado a uma certa idade, quase provecta, mesmo naquela borda em que dá não dá para se reformar ou pré-reformar, depende dos humores de Ferreiras Leites e equiparados, pode não pode vir-se embora.

Talvez dê o salto. Se o der, poderá gozar a chamada vida, e vender de vez em quando uns trabalhitos, e não se arreliar, acolchoado por uma magra reforma. Dadas as suas qualificações, um pouco especiais, é mais que provável que o seu serviço, não podendo contratar ninguém para o seu lugar, lhe vá encomendar os trabalhos que antes fazia (entre outras coisas), agora como privado. Toda a gente ganha, não é assim?

Quem sou eu para o criticar? Falar-lhe da nobre missão do serviço público que consiste em estar de pé a apanhar com tomates e ovos podres dos comentadores dos jornais e dos economistas de serviço? (Ou então a aproveitar-se, que é a solução aproveitada por alguns, assim assim, vários, muitos? Tipo enquanto o pau vai e vem folgam as costas?)

É o que inúmera gente nos prepara com o estúpido discurso sobre os funcionários públicos. Caros amigos, função pública quer dizer muitas coisas: engenheiros agrónomos que, para bem ou para mal, configuraram a agricultura que temos, construtores de estradas, gráficos, dinamizadores do artesanato e dos magros programas de formação profissional que ainda há (lembram-se dos escândalos que houve quando se semi-privatizou, com os fundos da CEE, a formação profissional? Pisc pisc). Funcionário público é também o professor. Funcionário público, o médico das urgências, o enfermeiro, o serralheiro que reparava os canos de abastecimento de água, o carteiro que levava à aldeia a carta, o vale do reformado.

Hoje, em nome duma modernidade retardada, vai-se vender esse património. Não obstante as experiências inglesa e francesa (Grã-Bretanha, os inúmeros acidentes nas linhas férreas, subsequentes às privatizações; França, a construção de impérios privados da água, a corrupção em grande escala, o poderio enorme desses concessionários, a água cara).

É neste contexto que não consigo perceber os discursos correntes sobre a função pública.

Ainda me recordo de um grande debate de sociedade que houve há uns tempos e consistia no seguinte: os funcionários públicos não pagavam impostos - horrível privilégio. Então, em nome da igualdade, que se fez? Ajustaram-se os salários brutos dos funcionários públicos, por forma a que os novos salários líquidos fossem equivalentes ao que antes recebiam e depois aplicou-se-lhes os competentes impostos. Ficou tudo na mesma, mas mais complicado.

Eu sei eu sei que este post não tem moral. Falta saber se a moral a tem.

26.6.05

Para ter êxito nos exames

(Estes conselhos úteis que dei à minha filha para o exame de Francês aplicam-se a qualquer disciplina da área das humanidades.)

Tu, minha filha, acalma-te, varre da cabeça a fantasia e essa preocupação de fazeres bem, ou não chegas a lado nenhum, incluindo no Francês.
Começa pela composição, que vale mais pontos, e faz como eu te ensinei: 1. Introdução, com os tópicos a), b), c)... que vais desenvolver no ponto 2. Desenvolvimento, seguindo rigorosamente os tópicos que queres explanar. Termina por uma 3. Conclusão curta e a teu gosto (moral, social... mas politicamente correcta).
Escreve frases curtas e simples, e certifica-te de que não têm erros. Se não tiveres a certeza, escreve uma frase ainda mais simples. Se possível repesca palavras, expressões e frases ligeiramente modificadas que encontres no texto de referência do exame, e assim terás a certeza de que não erras (não é plágio, é esperteza). Não interessa o que dizes, mas como o dizes.
Bem sei, minha filha, que te vais sentir burra, que vais sentir que prostituis a tua inteligência jovem e acutilante, que perdes a curiosidade e a sensibilidade até para leres o Prévert que eu te ofereci pelos teus anos, que estás a mentir-te, mas lembra-te: nos exames, como na vida, o que conta é a esperteza e não a inteligência, a curiosidade ou a sensibilidade. E lembra-te, um exame não é literatura, e a única pessoa que vai ler o que escreveste é o professor que te avalia, que nem te conhece e só quer o teu bem e o dele (mesmo assim, não te exponhas, sê fria e esperta, minha filha). Lembra-te, sobretudo: escreve só o que as pessoas estão à espera de ler, o que já foi escrito noutros lados.
Assim, minha filha, vais perder o interesse pelo Prévert, pela língua francesa e até pela leitura em geral, mas como sabes a gramática, o tempo, o espaço e a estrutura do récit, arrancas um 18 ou 19 e, embora não saibas um corno de francês, essa invejosa da doutora Carminda, lá por ter duas filhas na universidade, vai ter de engolir que tu também és uma linda menina inteligente e assisada.

Filipe Guerra

S. João pela televisão

Quem não teve oportunidade de comparecer pessoalmente no S. João do Porto, poderia usufruí-lo, com desvantagem, é certo, na televisão. A televisão, obviamente, concentrou-se no pior do S. João, a começar no Rui Rio, Roberto Leal e outros pimbas, e a acabar no tradicional martelinho de plástico.

Filipe Guerra

Poema de Safo

Como, depois de muitas buscas, não encontrei senão a versão inglesa truncada, aqui vai a sensacional notícia nessa língua. Um poema completo de Safo acabou de ser descoberto.

Vão aqui (se fazem favor, claro).

O poema é este, na versão de Martin West, que o apresenta no Times Litterary Supplement:

"[You for] the fragrant-blossomed Muses' lovely gifts
[be zealous,] girls, [and the] clear melodious lyre:

[but my once tender] body old age now
[has seized;] my hair's turned [white] instead of dark;

my heart's grown heavy, my knees will not support me,
that once on a time were fleet for the dance as fawns.

This state I oft bemoan; but what's to do?
Not to grow old, being human, there's no way.

Tithonus once, the tale was, rose-armed Dawn,
love-smitten, carried off to the world's end,

handsome and young then, yet in time grey age
o'ertook him, husband of immortal wife."

Words, words, words

Paroles, paroles, paroles...
(Dalida)

http://linux1.intershop.de/~wolf/Portugues/portdict/portugues.html

Isto é o que dá quando se introduz a seguinte pesquisa no Google:

«A função poética projecta o princípio da equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação»

Inspirado por certos casmurros vacilantes.

25.6.05

Say it with a ukulele

FOG

Say it with a ukulele

"Diz-lhe isso com um cavaquinho..."
O rouco fonógrafo grita;
Meu Deus, diz-me como o direi,
Se a solidão já me habita.

Com os acordeões que espremem,
Uns pobres, cautelosamente,
Clamam sem cessar pelos anjos
E seus anjos são tormento.

Os anjos abrem suas asas
Mas a névoa a terra cobre;
Deus louvado, que nos pilhavam,
As pobres almas como tordos!

A vida é fria pescadora;
- Assim vives? Que quer's que faça?
São tantos os que naufragaram
No fundo do mar oceano!

Os bosques parecem corais,
A que a cor tivesse fugido,
Os carros são como esses barcos
No fundo do mar esquecidos.

"Diz-lhe isso com um cavaquinho..."
Palavras, palavras, palavras?
Amor, diz-me onde o teu altar,
Que já me vai cansando este adro.

Ah! Fora a vida em linha recta,
Que bem levávamos a vida!
Mas nosso fado assim não quer,
E há que dobrar certa esquina.

E onde essa esquina? Quem o sabe?
Silêncio! A bruma não fala.
Iluminam a luz as luzes,
Trazemos nos dentes a alma.

Onde encontraremos consolo?
O dia trouxe a noite escura.
É tudo noite, é noite tudo,
Mas sempre encontra, quem procura...

"Diz-lhe isso com um cavaquinho..."
Recordo as unhas; e o verniz,
Como brilhava ao dar-lhe a luz!
E ouço-a ainda a tossir.

Giórgos Seféris
(Tradução: Manuel Resende)

Automóvel

AUTOMÓVEL


Na estrada, abraço de compasso,
Dois braços, um apelo,
Dedos de vento no cabelo,
Mil milhas no regaço,

Vamos os dois livres, sem cruz,
Chibata no olhar langue;
São­-nos enfeites alma e sangue,
E vamos nus! Nus! Nus!

...Nesse leito de alto espaldar
De almofadas de penas,
Ao longe fogem nossas penas,
Qual peixe à beira-mar.

E nos dois braços estendidos,
Apenas corpos, vamos,
Pelos dois lados, em dois ramos,
Corações repartidos.

Giórgos Seféris
(Tradução: Manuel Resende)

São João III

FOGUEIRAS DE SÃO JOÃO


O nosso destino, chumbo fundido, não pode mudar,
Não pode vir a ser nada.
Verteram o chumbo na água por sob as estrelas
e que se acendam as fogueiras.

Deixa-te estar nua diante do espelho, à meia-noite - e hás-de ver
Ver o ser humano a passar no fundo do espelho
O ser humano dentro do destino que governa o teu corpo
Dentro da solidão e do silêncio do ser humano
Da solidão e do silêncio
E que se acendam as fogueiras.

Esse instante em que terminou um dia e não começou o outro,
Esse instante em que se deteve o teu corpo
E que a partir de agora e no princípio governou o teu corpo
Terás de o encontrar,
Terás de o exigir para que o encontre pelo menos
Alguém que há-de vir quando tiveres morrido.
São os jovens que acendem as fogueiras e gritam
Diante do fogo da noite quente.
(Talvez nunca existisse fogo que não o acendesse algum jovem, ó Eróstrato!)
E lançam sal nas chamas para que crepitem
(De que estranho modo nos fitam subitamente as casas e os fornos dos homens, quando as acaricia certo reflexo).

Mas tu que conheceste a alegria das pedras sobre a rocha batida pelo mar,
Na noite em que a serenidade desceu
Ouviste ao longe a humana voz da solidão e do silêncio
Dentro do teu corpo
Nessa noite de São João,
Quando se apagaram todas as fogueiras
E estudaste a cinza sob as estrelas.

Giórgos Seféris
(Tradução M. Resende)
Nota: Na Grécia, no São João, deitava-se (não sei se o costume se mantém) chumbo derretido numa bilha de água e adivinhava-se o futuro pelas formas que o chumbo fazia ao solidificar.

VIAGENS

Há muitas maneiras de viajar, já lá o dizia Ray Bradbury. Uns viajam até às Fidji (mais longe, mais perto...)outros até à Lua quando o romantismo aperta. Eu, aproveitando as modernas vias, fui-me para Cabo Verde.
Mas não se ponham a suspirar de inveja, ó meus amigos do peito...A viagem foi e será nas páginas do novo jornal "O Liberal" que com grande pujança surgiu no arquipélago e já começa a ser uma referência pelo seu perfil comunicativo.
Lembrando-se da minha ligação com aquela região do globo, Nuno Rebocho dirigiu-me um convite, irrecusável como se diz e neste caso é perfeitamente adequado. Devido a isso já lá estou como colunista na minha secção "Miradouro", na companhia de muita gente boa, todas as semanas - iniciadas nas quintas-feiras, que é quando o jornal se dá a lume. Para servir os ilhéus e a vasta comunidade cabo-verdiana espalhada pelo mundo.
Quem quiser ler basta clicar www.liberal-caboverde.com e um mundo de contacos com as ilhas se abrirá de imediato. Podem crer que vale a pena...e aos bem intencionados digo que sim senhor, também cá pelo rapaz - ra'is me partam mas não costumo deixar meus créditos por mãos alheias!
E também seria giro, caso tal não se desse, verem-me o espalhanço...
Bom, acho que já vos despertei a curiosidade mediante as mais modernas técnicas publicitárias... Agora é só digitar e clicar.
Cá lá ficamos à vossa espera!

23.6.05

S. João II

Sobre o post anterior, queria acrescentar uma ou duas coisas.

Gostaria de acreditar nisto: a diferença entre o São João do Porto e as marchas populares de Lisboa, é que o primeiro resulta verdadeiramente de tradições antigas, pagãs e genuinamente populares, enquanto as segundas foram invenção do António Ferro, propagandista do Salazar, para entreter as massas urbanas.

E gostaria de acreditar nisso porque sou do Porto.

Uma das coisas que mais me faz pensar que tenho razão é o carácter absolutamente desorganizado e aparentemente sem sentido do São João do Porto. Pura e simplesmente, as pessoas vêm para a rua a festejar, sem qualquer directiva: elas são a festa, não vão ver a festa. Não é preciso polícia, nada, nem ninguém a comandar.

[Desisti por exemplo de ir à passagem de ano em Bruxelas, porque há sempre traulitada.]

Haverá um teste a tentar: qual a percentagem de Carneiros e Peixes (signos) no Porto? Apostaria que é superior à do resto do país.

S. João (ou... Don Juan?)



"(...) se é talvez um mistério que o S. João tenha as celebrações que tem no Porto e não noutra cidade portuguesa, já não parece estranho que essas celebrações invoquem ou convoquem tanto a água (cascatas, orvalhadas, banhos, cântaros, fontes, abluções, etc.: curiosamente, até se fala no S. João marinheiro...), ou o fogo (fogueiras, balões, fachos, luminárias, fogos-de-artifício, iluminações...): trata-se sempre de uma semântica da purificação, da renovação, da fecundação (água) ou da destruição e da criação (fogo).
Mas os dois elementos privilegiados não se dissociam dos outros: a terra, que apontam não só as muitas ervas e plantas consumidas pelo S. João (cidreira, manjerico, alho-porro, alecrim, rosmaninho, murta, feto, alcachofra...) mas também as sementes, ou até as subterrâneas mouras encantadas de crenças sãojoaninas, e o ar, indicado em mastros, balões, fogos de artifício, ou em lendas de bruxas e duendes que talvez representem as mulheres e os rapazes travessos.
Festa dos elementos, o S. João é também uma festa dos sentidos e dos instintos: se a vista, limitada pela noite, conhece a ajuda das fogueiras ou das luzes, inclusive das flores; se o gosto é pouco favorecido na obrigatoriedade do anho, do cabrito e da sardinha, e pouco mais, já o ouvido (cantos, ditos, piropos), o tacto (mãos dadas, danças, apertos, toques com a mediação do alho ou do martelo...) e o cheiro (alecrim, rosmaninho, manjerico...) podem exercitar-se dentro de coordenadas e com liberdades desconhecidas ao longo do ano. (...) Quer isto dizer que o S. João é a festa menos religiosa (em sentido estrito) que se conhece. Não é por acaso que em quase todos os lugares dispense - como não dispensa nenhum outro santo - a missa (pelo menos a solene), a procissão, as orações, e até as representações (que só se vêem em cascatas)".

Arnaldo Saraiva. O S. João do Porto. In O Sotaque do Porto.
Porto, Afrontamento, 1996, pp.97-89.

Vamo-nos às cachopas (ou aos cachopos, consoante o caso); tratemos de saltar fogueiras; celebremos o Verão. Os nossos votos de um gaiteiro e fogoso S. João!

22.6.05

Mistérios

Na minha qualidade de emigrante, passados os primeiros tempos de perplexidade e de habituação a novos estilos de vida, passei a interrogar-me consistentemente (eh eh) sobre um mistério da vida portuguesa.

Como é possível (sobre)viver neste país, com preços europeus e salários portugueses?

Pouco a pouco, percebi.

1) Boutique C. Boutique C? Sim, boutique C. Para além dos hipermercados e centros comerciais, há as feiras espalhadas por esse país, onde a troco de um dois três euros se compram camisas lacoste, etc., de contrafacção fornecidas pelos chineses e vendidas pelos ciganos (Boutique C: stands dos ciganos).

2) CP. CP? Sim, CP. Casa dos Pais. Aí onde se vive até aos vinte e tal, trinta anos. Numa certa altura, não sei se ainda é assim, a CP era comprada em nome dos filhos ao abrigo do «crédito jovem».

3) "Privilégios" ocultos. Você vai ganhar pouco, caro amigo. Mas olhe que tem assistência médica melhor, nuns casos, olhe que tem uma carreira regulamentada, noutros casos, etc., etc., etc.

Subitamente, há um défice de quase 7%, escondido pelo Santana Lopes. E toca de invocar repentinamente os privilégios, a justiça social.

Como quem diz, os culpados são vocês, horríveis privilegiados.

Daqui a pouco, vão eliminar as boutiques C, as CP vão falir por causa das taxas de juro, os "privilégios" vão acabar

e

este país vai transformar-se num imenso «arrastão».

Entretanto, temos um Presidente da República furioso por não haver capital de risco para apoiar as novas economias. Que se esquece de dizer o que foi o circo, em 1999 e 2000, do capital de risco nos EUA, o circo das novas economias, empresas de ar e vento que rebentaram logo a seguir ao 9 de Março de 2000, dia do meu aniversário, em que o Nasdaq pela primeira vez ultrapassou o índice 5000, para logo cair a pique (nunca mais recuperou e está hoje a 2000).

ALEGRIA NO TRABALHO (8)



A mulher que renovou o conceito de contacto
Antes de irmos adiante, impõe-se uma palavra de advertência a todos os que ficaram a salivar intelectualmente assim que souberam pelas nótulas anteriores que Josefina Bamdarra iria figurar como depoente nesta folhetinesca antologia: recomendamos morigeração.
Efectivamente, nem revelações escaldantes (como referir que Jo foi companheira, durante algum tempo, do deputado Lionel Pimpão ou do antigo ministro Fonseca Regolaz ou até do cónego...mas cala-te boca!) nem tampouco detalhes picarescos aqui irão ter destaque.
Limitemo-nos a referir que a nossa depoente, como tantas outras de acordo com estudos académicos de peritos, teve seu percurso muito próprio enquanto se estava a licenciar. Para arredondar o pecúlio escasso, como é de norma. Mas deixemos que seja ela a contar:
"Quando estava na pós-graduação, um dia fui procurada por um "visitante", como se diz na gíria da profissão, que a-pás nas tantas desatou a chorar. O... desempenho não estava a correr bem e, vai não vai, confessou-se: era jornalista e, tendo que entregar até certa data um texto de análise sobre as condições em que vivem os produtores de chouriço da raia beirã, não lhe saía... Essa preocupação obsessiva determinava a sua concisão fisiológica, se assim me posso exprimir. E, num repente, surgiu-me uma ideia luminosa! Aproveitando os conhecimentos que adquirira na Faculdade, pus-me com ele ao trabalho e não te ponhas com ideias, refiro-me ao artigo... Pois foi uma maravilha! Num repente vi a minha oportunidade: tantos homens vegetam por este país, obcecados, transtornados: uns porque não conseguem articular um plano em termos para a sua empresa; outro porque não consegue que a novela in progress chegue a bom porto; ainda outro que não desarrinca o texto crítico que a revista literária lhe vai pagar por uma conta calada...E por aí fora!".
" Renovei, portanto, o conceito de call girl na nossa sociedade, com dinamismo e, digamo-lo sem sofismas, carinho"
- continuou sensatamente Josefina a revelar - "Nos intervalos, porque sou conscienciosa, fui estudando. Já cá cantam mais duas licenciaturas, estas nas áreas da ciência e da tecnologia...e outra vem a caminho, no ramo das línguas e literaturas comparadas! O trabalho é gratificante, sinto-me realizada. Ainda ontem, por exemplo, acabei eu e o Bibichinho, um que se tornou amigo muito querido, de escrever o seu novo livro de poesia que vai ser, não o duvidemos, um novo best-seller!".
De referir que até ao receber um modesto repórter como eu, Josefina Maria Moisés Bamdarra, nascida em Ouriçal do Campo donde se transpôs depois para a capital, mostrou ser uma senhora com um porte e um gosto impecáveis: as libações que acompanharam a nossa quase que breve conversa provinham de um Amontilhado 64 branco e rodeado de gelo seco.
O poema escolhido é da autoria de António Porto-Além:

Não tenham pena dos que amando choram
Ardentes lágrimas de sangue e fel.
Nem dos que em sonhos amam, se enamoram
E em sonhos têm sua lua de mel.
Que em vez de virgens pudicas adoram
As santas pecadoras do bordel
Essas que nesses negros antros moram
E não em leitos brancos de docel.
Dos que por uma ideia ou uma quimera
Apunhalam o peito olhando o céu
Que ao olhar moribundo mais se eleva.
Porque se um dia a esses nada espera
Talvez rompido enfim o espesso véu
A terra alumiarão da sua treva!

Nota - Por motivos alheios de carpe diem, o folhetim vai de férias até ao regresso de alguém das Ilhas Fidji.

Eliot revistado

"Faced with that literary troublemaker T.S. Eliot, a York University academic called in the FBI and now claims to have cracked the case of how The Waste Land was written."

Terapias de auto-ajuda


aguasfurtadas, Revista de Literatura, Música e Artes Visuais.
Número 7 já disponível nas boas livrarias. E nas outras também.

Abrir aspas. Fechar aspas

"O meu avô afiava os lápis com uma faca. E tudo o que sabia escrever era o próprio nome, muito devagarinho, para não se enganar no desenho de cada uma das letras."

Fim de citação.

Povo que levas com o Rio


Inauguração da Marina do Freixo, no dia 29 de Janeiro de 2005.

"Os níveis de contaminação das águas do Rio Douro, que de acordo com as últimas análises estavam 122 vezes acima do limite, deverão agravar-se nos próximos meses devido à situação de seca, disse o cientista Bordalo e Sá. (...)
O investigador apontou como um dos locais 'mais dramáticos' em termos de poluição das águas a zona onde está instalada a Marina do Freixo, no Porto. 'A água em volta à Marina do Freixo apresenta um milhão de coliformes fecais', disse, considerando tratar-se de 'um valor inadmissível, porque o máximo recomendável para banhos no rio é de 100'.
Criticando a localização da marina, por ter sido construída numa curva e na saída de dois rios 'extremamente poluídos' (Tinto e Torto), Bordalo e Sá frisou que 'os níveis de contaminação deterioram de forma dramática a utilização da marina, além do mau cheiro que provoca'."

Comércio do Porto de ontem.


É pena. Mas tínhamos razão.


"Sofia". Fotografia de André Sousa Martins.

21.6.05

O fantasma ataca de novo

Constituição dos Estados Unidos da América:

"[...] Section. 8. The Congress shall have Power [...] Clause 8: To promote the Progress of Science and useful Arts, by securing for limited Times to Authors and Inventors the exclusive Right to their respective Writings and Discoveries; [...]"

Tratado Constitucional da UE:

N.º 2 do artigo II-77.º (na Carta dos Direitos Fundamentais)
«A propriedade intelectual é protegida».

Há quem se inquiete com esta formulação, por causa de exemplos anteriores muito deselegantes.

Declaração peremptória dirigida a todos os importantes

Saibam os pertinentes leitores deste blogue que não falo em função de esquemas pré-definidos, mas em função de uma experiência de vida. Sou eu próprio ex-funcionário público, embora de tipo especial.

Também no meu serviço, por diversas razões que, não são, no caso, baseadas na especiosa justiça social, também no meu ex-serviço vão aumentar a idade da reforma para os 65 anos. (Porque é o que está a dar. Nuns sítios por isto, noutros por aquilo.) Porém, ao mesmo tempo, introduziram, por motivos outros que têm a ver com a contenção orçamental, um programa ad hoc para dar pré-reforma, excepcionalmente, a um grupo de pessoas, entre as quais este vosso servidor.

As justificações invocadas (as pessoas com mais de 55 anos dificilmente se adaptam a estes tempos modernos, de alta tecnologia e internet e tal) eram completamente estranhas ao verdadeiro motivo. Calhou-me a pré-reforma. Visto isto, acham que acredite nesta gente, e nas razões que dão? Era o que me faltava.

Estas argumentações avulso dão-me vontade de rir e de vomitar, sucessivamente.

É que a razão de fundo é outra: reduzir o Estado nas suas funções sociais (mas expandindo o Estado nas suas funções policiais e militares). Poupar. Porque, dizem, não dá, cada vez há mais velhos. Etc.

Esquecem-se de nos dizer que cada vez é maior o fosso entre os de baixo e os de cima. E, em Portugal, estamos a atingir exageros estratosféricos. Com os salários miseráveis que vejo, vejo também o preço das casas e das rendas, e que os gestores ganham tanto como em qualquer país europeu. Essa é que é essa.

Onde estão os frutos do chamado progresso, do aumento da produtividade do trabalho que é hoje muito superior à de vinte anos atrás? Onde? Onde?

E outra coisa: quanto mais um país "evolui" (constrói estradas, pontes de Rio Tinto e alhures, universidades, escolas, porque precisa de mão-de-obra qualificada, não é assim?) mais precisa de fundos. É matemático. Onde ir buscá-los? Aos impostos, caros senhores. Pagos por todos, os de baixo e os de cima (e estes mais do que aqueles: no pós-guerra, nos EUA, havia taxas marginais de 90%). Só que os de cima não querem. Ai o meu rico dinheirinho...

Não, esta conversa não é a dum atrasado de Maio de 68. Esta conversa poderia ser dita, menos truculentamente, por Keynes, que não era um social-democrata (nunca pertenceu ao Partido Trabalhista), mas um reformador burguês e um grande economista, um dos poucos que merece respeito.

Mas hoje em dia, até Keynes está à esquerda do Partido Socialista. Isso é que é a verdade. Até Keynes passa por perigoso revolucionário, enquanto José Sócrates anda a catar pequenos privilégios no caixote do lixo da História.

ALEGRIA NO TRABALHO (7)



O Homem que juntou o Rock ao lirismo de cepa lusitana

Cheguei ao parque bem tratado que rodeia o moderno edifício de Santa Maria de Penaguial numa linda manhã de Maio em que o sol brilhava com toda a sua glória. E contudo...
Sentia-se no ar uma certa...amargura, uma certa...tristeza. Como Pöe afirmou num conto - traduzido por Guilhermina Valdechat num português impecável - "Há lugares onde paira a memória de dramas para além do entendimento". Com efeito, pensei, é neste parque sob os caramanchões e nos logradouros onde enfermos acompanhados de zelosas enfermeiras vão gozar as sombras da tardinha, que eles descansam da loucura de um mundo que os não soube estimar...
Na visita prévia eu soubera pelo administrador que era ali que estavam alojadas personalidades como a bailarina Marina Frota, o antigo empresário J. Isidro, o actor André Soviete, o pintor Leão Sarmento... Enfim, alguns dos que num passado não muito distante ocupavam as páginas das revistas prestigiadas e por vezes eram objecto de análise do pensador Edmundo P. Coelho (neste momento também internado numa clínica para catatónicos em Salcede-do-Vouga).
Enquanto me aproximava do edifício central um filme passou-me pela mente: Dionísio cantando na Praça de Touros do Cacém, entre milhares de espectadores em delírio, o seu "Tardes da Foz", Dionísio fazendo par com Marília Sanlúcar, a actriz andaluza no filme (co-produzido por Pedro Branco)"Cerca del Guadalquivir" galardoado com o Veado de Prata para a melhor canção original, Dionísio junto do presidente do município tripeiro e, após a sua vinda de Hollywood para participar como vedeta na campanha das outras legislativas, o lançamento do seu livro "Eu e a música" com prefácio de Fernando Manuel Viegas.
E, antes de entrar pela larga porta da modelar clínica orientada por esse expert da psiquiatria subliminar que é o Dr. Jorge Deusdado Vaz - cruzou-me a memória o súbito declínio: as acusações a Roberto Fininho de lhe ter plagiado um tema...o subsequente recebimento, por parte deste, do disco de platina...o processo retumbante movido por Dionísio e que encheu noticiários televisivos...a tentativa de estrangulamento do rival ao ver-se perante o injusto acórdão do colectivo de juízes (peritos em abandalhar o já de si abandalhado sistema)...a entrada no sanatório onde agora se encontrava...
Aprumando-me, contudo, dirigi-me de mão estendida para a figura que já me aguardava à porta da sala de visitas entre dois espadaúdos enfermeiros, tentando um sorriso acalentador!

(Biografia sucinta: Dionísio Luís Travassos Valdês nasceu em Oliveira de Azeméis. Seu pai era farmacêutico e sua mãe especialista em agricultura biológica pela Faculdade de Ciências de Santarém.
Depois de voltar da tropa teve a sorte de ser avaliado por um caçador de talentos que lhe propiciou uma carreira meteórica. Foi, com António P. Ribeiro, o grande renovador do rock lírico em Portugal. Obras mais conhecidas: "Romaria em Vilapouca", "Trip nortenho", "Noites da Boavista", "Luar do Douro" e a opereta "Meu Palácio de Cristal").
O poema escolhido é "Obsessão", de Francisco Bugalho:

Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu,

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E novamente no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa dum morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido
E o cantar recanta em mim!

Época de exames

Desculpem esta intromissão pessoal e sentimental. A minha filha saiu para fazer um exame importante do 12º ano; se o falhar, não entra na universidade, para o curso esquisito que escolheu. A rapariga, nestes últimos dias, nem namora e quase não dorme, desleixou a verve satírica e rebelde, não exige suplementos de mesada, ficou outra, coitadinha. A mãe dela, de tantos nervos, tornou-se insuportável. Eu também. Nesta espera de duas horas que dura o exame, o que é que eu fiz? Acendi uma velinha à Nossa Senhora. Sem ironia. Sou ateu activo e luto sobretudo contra as memórias salazaristas, das quais coloco à cabeça todas as Nossas Senhoras que nos têm drogado. No entanto, acendi uma velinha, e cuspo na cara de quem me acusar de incoerência. Explico: lembro-me dos meus jovens exames e das velinhas que as minhas velhas tias galegas acendiam para que Nossa Senhora me abrisse a «memória» enquanto durava o exame; elas até rezavam, e os meus tios, de cabeça baixa, pisavam o sobrado com mais respeito. Então, como se pode ironizar contra pessoas que, de tanto nos quererem bem, utilizavam todas as armas ao seu alcance, incluindo a velinha, para nos ajudar nos exames? Somos animais? E mais: se a greve dos professores prejudicar o exame da minha filha ou, de qualquer outro modo, lhe aumentar o sofrimento, sou contra a greve dos professores. Em tempo de exames, tornamo-nos sentimentais.

Filipe Guerra

Um verso

"Os mundos giram como mulheres velhas."

T. S. Eliot, Prelúdios (IV)


Teun Hocks, "Sem Título", 2000.

Geração viageira

"Tenho a impressão de que a minha geração é a primeira geração viageira da literatura nacional. Claro, por ser uma geração de contumazes viajantes não significa que somos melhores que os escritores que não viajavam ou viajavam pouco. Machado não saiu do país. Nem Mário de Andrade. Drummond só foi ali a Buenos Aires e voltou correndo. Vai ver que se tivessem viajado seriam ainda melhores. Mas não é certo: se a viagem por si motivasse a arte e a ciência, os pilotos e as aeromoças ganhariam o Prêmio Nobel."

Affonso Romano de Sant'anna

Pulido Valente

Valente Pulido adopta a táctica do seleccionador de bancada: diz sempre mal. Se a Selecção ganhar, ninguém se lembra. Se perder, diz: «Eu bem tinha dito.»

É fácil, é barato, dá milhões.

A Vã Glória de Mandar

Estou eu aqui no cantinho, quer dizer, no quentinho e pumba aparece-me o Manoel Doliveira em franciú.

20.6.05

Os Territórios de Quixote no Porto



"Os Territórios de Quixote." Exposição de fotografia de José Manuel Navia, no Centro Português de Fotografia, até ao dia 21 de Agosto.

A greve dos professores

Sempre estranhei que fossem precisamente os partidos, movimentos e organizações de esquerda (onde incluo os sindicatos, é claro), os tais que se deviam bater pela igualdade entre os trabalhadores e pela abolição dos privilégios, os primeiros a defender, com brio, os privilégios de tudo o que é casta ou corporação neste país. Os professores recusam-se a abdicar de certas regalias? A esquerda trauliteira, a esquerda pau-mandado, a esquerda controleira, a esquerda fiscalizadora, a esquerda moralista e pregadora, apoia.

O que é que se passa com o Porto?

Face à passividade e à inércia dos cidadãos do Porto (e da sua massa associativa) perante questões como a do túnel de Ceuta ou do circuito dos calhambeques na Avenida da Boavista (com direito ao abate indiscriminado de dezenas e dezenas de árvores), começo a convencer-me de que os portuenses, na realidade, acham que tudo não passa de uma birra da ministra Isabel Pires de Lima, no que ao túnel - e ao Museu Soares dos Reis - diz respeito, e que o circuito é uma grande obra de um grande autarca, oportuna, dignificante e a justificar plenamente o investimento. O Partido Socialista vai fazendo o que pode, mas, como se trata de um partido político, será sempre acusado, por mais razão que tenha, de estar a politizar o assunto. Também vos digo que se Rui Rio se fizer eleger de novo Presidente da Câmara os portuenses terão o autarca que merecem.

Anna Grigorievna Dostoiévskaia



Foi a segunda mulher de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, o profeta da Rússia, o antiliterato (como Tolstói), o homem sincero que seguia os movimentos das almas até ao fim, até à descida aos infernos, que nunca mentia, que assumia as suas fraquezas e as dos outros até não aguentar mais, até à abjecção, que punha tudo no papel, ora com um génio luminoso, ora com uma mediocridade comovente. Só uma Anna missionária e amante podia salvá-lo. Anna tinha 20 anos e foi encontrá-lo com 45, viúvo, pobre, doente (no auge da epilepsia), sozinho, rejeitado, enganado, mal pago (ganhava 150 rublos por caderno impresso quando Turguénev e Tolstói ganhavam 500), e mesmo assim era o amparo da família do falecido irmão (e responsável pelas dívidas deixadas por este). Anna, estenógrafa, começou por ajudá-lo a terminar a tempo O Jogador (que ele lhe ditava) e evitar assim que Fiódor Mikhailovitch se enredasse ainda mais na teia que lhe tecia um editor vigarista. Depois casou com ele e foi o seu anjo-da-guarda durante os 14 anos que o escritor ainda viveu. Ajudou-o a escrever os seus livros e deu-lhe os filhos por que ele ansiava. Soube compreender o vício do jogo e o ciúme doentio (ambos compulsivos) do marido. Amava-o infinitamente. «É certo que eu amava infinitamente o meu marido, mas não com aquele amor carnal ou apaixonado que acontece entre esposos da mesma idade; o meu amor era puramente cerebral, ideal. Tratava-se mais da adoração por um homem de grande valor moral diante de quem eu me inclinava. O meu coração enchia-se de enorme piedade por quem tanto havia sofrido, pelo ser privado de alegria e de felicidade que ele era, rejeitado por parentes que lhe deviam tudo, e por quem ele, no entanto, toda a vida mostrou grande bondade.» (Excerto de Memórias, de Anna Grigorievna Dostoiévskaia, publicado muitos anos depois da morte de Dostoiévski, a sair brevemente em tradução portuguesa). Tudo isto, a que tentei dar aqui algum esmero literário (como diria Dostoiévski), disse-o em linguagem de café de praia a um amigo, que me ripostou, à vista dos corpos na areia: «Amor não carnal, adoração, humm... Ainda bem que as memórias dela saíram depois da morte de Dostoiévski. Que homem, entre os 40 e 50 anos, gostaria que uma mulher tivesse pena dele e o amasse desta maneira?» Nós, leitores de Dostoiévski, aqui na praia pejada, é que não temos nada com isso, e em coro deveríamos gritar: obrigados, Anna Grigorievna, por lhe ter deitado a mão amante quando ele estava tão mal que já nem tinha vontade de escrever! Anna Grigorievna Dostoiévskaia morreu em 1918, quase trinta anos depois do marido.

Filipe Guerra

ALEGRIA NO TRABALHO (6)



UM ELO IMPORTANTE NA LITERATURA PÁTRIA

"...E foi então que através da minha modesta empresa ajudei a resolver o problema literário em Portugal!" - disse-nos Remígio Guerra no decorrer da conversa que com ele mantivémos na pequena vivenda perto da Quinta do Bispo, local de vilegiatura quando não está a gerir os seus negócios.
"O caso é bem simples! - acrescentou clareando a situação - "Devido à contínua desflorestação (leia-se M.Resende) as editoras nacionais estavam a entrar em crise por carência de papel. E foi então que eu e os meus doze colaboradores, pois criei 12 postos de trabalho que hoje dão o pão a cerca de trinta famílias, contribuímos decisivamente para resolver o assunto: relancei o cartão prensado como matéria-prima da substância literária!" - referiu com orgulho indisfarçável. E, enchendo de novo os copos com um excelente "Borba" branco gelado, aduziu: "Muitos dos melhores livros que por aí circulam, desde as peças de teatro experimentais do Prof. Diogo aos ensaios históricos do Chico Silva Tavares, passando pelas singulares novelas de Valter da Silveira, existem porque há papel em termos!". E concretizando:"O surto de desenvolvimento literário, que incide nos mais diversos sectores e permite um novo interesse da malta mais atenta (só assim se compreende que até um blog de reflexão filosófico-literária atinja a soma abracadabrante de cem entradas nas caixas de comentários) em parte é devido às novas condições ambientais no que às belas-letras diz respeito, estimuladas pela acção da empresa que erigi!".
Remígio Augusto da Fonseca Guerra nasceu em Sesimbra, sendo o único filho do guarda-fiscal Gualdino Guerra e de sua esposa D.Violante Maria da Paz, por alcunha a "Bem Formosa". A praia ficou sempre sendo um dos seus grandes gostos.
Na escola, que frequentou com um entusiasmo relativo, os seus dois apelidos concomitantes contribuíram para estabelecer frequentes escaramuças com os colegas mais informados e com um mais desenvolto sentido de humor. Devido a tal facto e segundo nos confidenciou no decorrer da entrevista, "Nunca pude com aquele Tolstoi!".
Curiosamente, veja-se o que são as coincidências da vida (e aqui revelamos um facto desconhecido dos nossos leitores): um dos seus primos preferidos viria mais tarde a ser um excelente tradutor de russo!

O poema seleccionado por este cidadão de sucesso é o "Para um novo livro de Cesário Verde", de Raul de Carvalho:

Eles tomam cerveja, ambrosia, licores
oleosos, sagrados como discos lunares.
Do azul da gravata ou da fímbria das ondas
retiram pensamentos ociosos e puros.

Recolhem-se de noite às oliveiras mansas
duma infância passada em louco desafio.
Ou então, nos portais, em amoroso convívio,
fingem que já não temem a noite nem o frio.

Já não têm família e mastigam, sozinhos,
um jovial jantar, colorido e minúsculo,
que haviam de comer, num domingo qualquer,
entre amigos cantando, entre mulheres amando.

Têm as caudas leves e subtis dum peixe,
têm um planeta adormecido e exangue,
têm os olhos líquidos, de asfódelo ou de cobre,
esses seres mitológicos que asfixiam a Terra.

São eles que caminham, irreais e aos tombos,
pondo nódoas de espanto por cima dos telhados.
Eles é que me deram o título deste poema:
A Cidade Está Cheia de Homens Assassinados.

Ciacconas, Bergamascas & Folias



Manhã de segunda-feira. Pilhas de trabalho no escritório. Longa semana em perspectiva. Rir com um olho, chorar com o outro.

Ora fazem o favor de desculpar

Ainda mais uma vex não falo de poesia.

Mas acontece que, en Galicia, Fraga perdeu a maioria dos botos, pola primeira vez. É munto claro: en 2001, el tube 51,6 por cento dos botos. Nas botações dontem tube 44,9 por cento dos botos.

Claro que os socialistas e os nacionalistas galegos tiberam xuntos a maioria dos botos, mas non tiberan a maioria dos escanos, pola forma da lei eleitoral no Estado Espanhol.

Neste momento, estamos a esperar da botação dos emigrantes. Como bão a botar os emigrantes na Argentina, na Bélgica, etc.? Grande incógnita, porque o Fraga só necessita um escano para apanhar e sobrepasar os socialistas e os nacionalistas.

Eu cruzo os dedos da mão direita. E da mão esquerda, também.

Nota: escrito em galaico-português de Santarém (variante III a), mas com um grande abraço ao Filipe Guerra. Talvez agora o lh vença o ll, sempre numa perspectiva internacionalista.

Galicia Portugal Unidade (inter)Nacional.

Anedota racista, mas que não ofende, dado o seu alto teor linguístico:

«Habla usted francês?»
«Yes.»
«Eso non es francês, es inglês.»
«Carago, enton falo dous idiomas.»

19.6.05

Soundbytes

Deu-me para brincar com os casmurros.

Alegoria: 1. Imagem careta e laboriosa com fundo moral.

Alentejo: 1. O único sítio do país onde as aldeias têm passeios.

Alqueva: 1. Estupidez comprovada pela prática prática. 2. Quero ver onde vão gastar a água. Campos de folg? Complexos turísticos? Desportos radicais?

Altermundialismo: 1. A ver. Ponho na agenda electrónica, para conferir em 2010.

Alves, Clara Ferreira: 1 Não conheço.

Amazónia: 1. Brincai, brincai.

América: 1. Continente que alguns confundem com um país.

Americanos: 1. Ver verbete anterior. A conferir: os espanhóis praticaram um genocídio directo; os portugueses, um genocídio indirecto. Mas onde estão os índios do hemisfério norte, quando comparados com os do hemisfério centro e os do hemisfério sul? Estes dois hemisférios são piada, claro.

ALEGRIA NO TRABALHO (5)

É já amanhã, dia de São Pancrácio de acordo com a hagiologia mais destacada, que se apresenta neste blog a intervenção de Remígio Guerra, conceituado industrial do ramo da recolecção cartonífera.
Homem de firmes convicções ideológicas - é, muito naturalmente, adepto do clube da Luz, o que lhe tem trazido dissabores não pequenos - o seu currículo constitui uma verdadeira lição de vida, já pelo dinamismo conceptual já pela constância que lhe permite andar de cabeça levantada perante as dificuldades da existência.
A todos os que por vezes se sentem atarantados ou azabumbados (expressão, como se sabe, muito usada por Remígio no seu falar vernáculo que junta a robustez da forma à graciosidade do conceito) por o mundo estar como está - ou seja, ligeiramente avacalhado - propomos, a finalizar esta nótula, algumas palavras do nosso homem em conversa informal com o seu fã brasileiro Floriano Martins aquando duma pequena reunião de trabalho literário que os juntou numa típica taverninha (tasca) de Alfama:

"Desilusão com o mundo a gente é bom ter na adolescencia, que ajuda a fortalecer o carácter. Depois perde a graça, não tem mais cabida.
Na idade adulta o mundo se divide em compassos e descompassos, nada mais!"

17.6.05

QUESTIONÁRIO - A resposta de Floriano Martins (Agulha)



1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
FM - Recuso tal impossibilidade. É fácil fazer e refazer listas de livros proibidos, ou pura e simplesmente viciar-se nelas. Além do que não tem piada alguma encarnar um livro lido e relido cuja condição de ícone talvez não seja senão fruto da proibitividade. Ao fogo o que é do fogo. A depender (sempre) da sensibilidade de cada um, dá para sair bastante chamuscado do convívio com The Devil: a mask without a face, de Luther Link (1995).

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?
FM - Não propriamente um personagem, em isolado, mas antes por um encontro entre dois personagens, entre Raskolnikov e Marmeladov, no romance Crime e Castigo, de Dostoievski, ou melhor, pelo dilema dilacerante que vivem ambos personagens e a maneira como o primeiro aprende com o segundo neste diálogo em uma taverna. Mas confesso que a maneira intrigante com que Raskolnikov padece as distorções entre o que se pensa e o que se pratica até hoje tem sido algo frequente em tudo o que escrevo.

3. Qual foi o último livro que compraste?
FM - Estou trabalhando na organização da Obra Poética do brasileiro Carlos Drummond de Andrade para a Fundación Biblioteca Ayacucho, da Venezuela, de maneira que há alguns dois meses me encontro completamente tomado por esta tarefa nada fácil. Esta e as próximas perguntas vão encontrar respostas completamente inseridas neste trabalho. O último livro que comprei foi A lição do amigo - Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade.

4. Qual o último livro que leste?
FM - Concluí hoje pela manhã a leitura de O Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto, mas este não vale como exemplo único, porque foi livro lido ao lado de muitos outros.

5. Que livros estás a ler?
FM - A obra completa de Drummond, uma biografia de Drummond, o diário do Drummond, um volume com a série de entrevistas radiofônicas com o Drummond e uns tantos livros de ensaios sobre Drummond...

6. Que livros (cinco) levarias para uma ilha deserta?
FM - Fosse eu para uma ilha deserta agora, agora, exausto como estou diante desta tarefa gigantesca de preparar a obra do Drummond, não levaria livro algum, menos ainda do Drummond [risos]. Contudo, pensando em livros que têm sido freqüentes em minha vida, penso que tais livros, considerada a intimidade imensa que devem guardar conosco, ao escolhê-los, já fazem tanto parte de nós que nem precisaríamos levá-los conosco fisicamente. No meu caso, por exemplo, penso em um livro como Os testamentos traídos, de Milan Kundera, ou A brutalidade dos fatos - a série de entrevistas que Francis Bacon concedeu a David Sylvester, dentre outros. Como desconfio seriamente da existência de uma ilha deserta, arriscaria não levar nenhum livro comigo. Para ler, talvez gibis.

7. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
FM - Pedirei ao acaso que escolha, no Outlook, alguns dos colaboradores mais frequentes da Agulha, por pura provocação.

Novidades literárias


Jornal gratuito "Metro", edição de hoje.

Moral da história

Raras são as histórias que têm uma moral. A começar pela própria História.


Comentário de Zé Povão a este post:

"Zé Povão said...

Algumas vezes tem. Algumas vezes, pelo menos. Exemplos:
- A tolice feita pelos vencedores da I Guerra Mundial com o Tratado de Versalhes. Moral: 'Quem semeia ventos colhe tempestades';
- A estupefacção de alguns 'progressistas' ocidentais ao 'descobrirem' (vai também entre aspas') que, afinal, a URSS não era o Sol da Terra, mas uma feroz ditadura. Moral: 'Nem tudo o que reluz é ouro';
- As invectivas frequentemente hipócritas de responsáveis do PS e do PSD nesta nossa triste III República. Moral: 'Alfaiate mal vestido, sapateiro mal calçado';
- As actuais desculpas do Vaticano em relação a vários desmandos ( e estou a ser extremamente benevolente!) que a Igreja praticou ao longo da História. Moral: 'Faz o que eu digo, não faças o que eu faço';
- As esperanças, cedo transformadas em desilusão, havidas durante a nossa I República. Moral: 'A sorte não dá, só empresta';
- A escolha de Santana como líder do PSD. Moral: 'antes que cases, vê o que fazes'."

(Retirado da caixa de comentários)

16.6.05

Revolução na Revolução

Estava decidido a entrar em ano sabático, a esconder-me debaixo dos lençóis, por muitas e diversas razões, mas o Osvaldo Manuel Silvestre e o Groucho vieram incomodar-me.

Então resolvi escrever este mail ao Groucho.

Caro Groucho:


É claro que as minhas observações eram e não eram objecções. Diz muito bem: eram mais complementos.

Se me permite mais deambulações, que se destinam a fazer-lhe perder tempo e a servir de terapia para mim, pois tenho pouco com quem falar a sério sem medo de dizer asneiras e sem desencadear acrimónias de tarados.

Veja esta.

Nós somos filhos do iluminismo, neste sentido (pelo menos eu sinto isso): pertencemos àquela massa que o iluminismo educou. E temos o direito de julgar a nossa herança, o património que nos foi legado. Inclusive de o renegar.

Nesse sentido, a poesia, eterna cornuda da História, tem algumas contas a pedir à vida quotidiana e mesmo até a muitos poetas e ainda à própria poesia, tantas vezes adorno de poderosos.

Sobre o movimento operário e a cultura. Ao desenraizar as massas camponesas do seu habitat multissecular, o capitalismo criou massas urbanas que tinham perdido grande parte da sua cultura antiga e não tinham tido tempo de criar uma nova. Nas cidades, só os artesãos guardavam uma memória. Nesse sentido, a acção das vanguardas operárias (não só comunistas, mas também anarquistas e sociais-democratas) foi, ironicamente, o exemplo mais puro de iluminismo: numa página em branco, dizia o Mao, que não tem a ver com esta tradição, mas para a citação serve, pode escrever-se o que quisermos.

Mas não se julgue que o povo trabalhador é apenas massa amorfa que recebe a luz do alto. Se assim fosse, não se explicariam certas formas de cultura popular que se desenvolveram nos bairros populares das cidades e, inclusive, as inúmeras associações inesperadas saídas das massas trabalhadoras: os movimentos esperantistas, naturistas, vegetarianos, etc.

Por outro lado, o capitalismo não é só economia. E os aparelhos dominantes também procuram influenciar a cultura das massas populares. Institui-se assim uma luta pelo coração e pela cabeça das massas populares.

O carácter ditatorial e burocrático dos partidos estalinistas resulta talvez parcialmente do choque dos iluminados iluminantes com esta realidade: afinal, não estão perante uma página em branco.

Saltando para outro aspecto diferente, mas aparentado: não creio que Marx fosse um iluminista ortodoxo. Porque quis ele dissolver a Associação Internacional dos Trabalhadores? Sim, havia divergências com os anarquistas, etc., mas podia ter insistido numa cisão e recriar uma seita vanguardista, para levar as luzes às massas; houve tantos que fizeram isso! Mas ele não o fez. (Repare-se que os anarquistas continuaram com a Associação Internacional dos Trabalhadores que ainda hoje existe de nome).

É claro que é difícil explicar isto aos marxistas ortodoxos, mas não a si, caro Groucho!

Por outro lado, confesso-lhe que tenho aqui o coração aos saltos. Sabe você que há aí uma revolução em curso? Pois é como lhe digo, embora não venha nos jornais.

E não é uma revolução clássica. Porque, aqui entre nós que ninguém nos ouve, a Revolução Russa e a Revolução Chinesa e a Revolução Cubana foram revoluções excêntricas, revoluções resultantes de reivindicações que pouco tinham a ver com o cerne da dominação: as relações quotidianas de trabalho e de vida, mas com circunstâncias extravagantes, decorrentes da exacerbação dos humores da história (guerras, ditaduras bananeiras), decorrentes dos efeitos periféricos da dominação. Lenine chamou a isso "o elo mais fraco do imperialismo".

A revolução boliviana, é dessa que falo, aproxima-se mais do cerne da questão, embora venha ainda matizada de contornos nacionais e latino-americanos e étnicos (os índios, que os espanhóis massacraram, mas afinal menos do que os americanos do norte); é uma revolução pelo controlo dos recursos naturais (petróleo, gás, água). É uma revolução não dirigida por um partido mas por várias e diversas organizações, está a colocar as suas reivindicações ao nível do político, articulando-as com o problema da democracia. Já deitou abaixo dois presidentes, mas a hidra tem hesitado em levar a violência (pacífica) ao ponto de destruir o poder político existente. Está a tentar pressionar os sucessivos presidentes a convocarem uma assembleia constituinte, por forma a substituir o parlamento actual, que nitidamente não representa o povo, por outra organização política, mais consentânea com o querer do mesmo povo.

Não estou lá, e desconfio sempre dos relatos, mas quer-me parecer, pelo que li, que há ali uma permanente discussão nas mais diversas assembleias e os chefes foram chamados à razão diversas vezes. Vários movimentos proclamaram recentemente tréguas, porquê? Porque temem substituir uma democracia corrupta por uma ditadura. Mas sabem que é preciso encontrar uma saída, uma forma de expressão democrática que reflicta verdadeiramente o querer do povo - e desconfiam do «diálogo» mediado pela igreja católica.

Este tipo de organização, em que não se trata já de transmitir a consciência da história às massas trabalhadoras, mas de criar uma consciência colectiva do conjunto dos indivíduos dessas massas pela discussão entre iguais (em assembleias onde os partidos continuarão a ter o seu lugar), é talvez o grande contributo do movimento altermundialista para a História com agá grande. Sem que eu queira sacralizar o movimento altermundialista, tão contraditório, tão imperfeito, como o partido do trabalho do presidente Lula.

Desculpe lá estes comentários descosidos. São coisas que me vêm à cabeça assim à noite.

Poemas de Oscar Wilde. Numa tradução inédita de Margarida Vale de Gato

Quarto e último poema

FANTAISIES DÉCORATIVES

I.
Le Panneau

Sob a sombra que baila da roseira
Há uma garotinha de marfim
Que arranca as folhas róseas e perladas,
Com unhas verde-água de jade.

As folhas rubras caem sobre o húmus,
As folhas brancas, uma a uma, entornam-se
Por uma taça azul, aonde o Sol
Tal um dragão de ouro se retorce.

As folhas brancas pairam pelo ar,
As folhas rubras descem langorosas,
Algumas sobre seu robe amarelo,
Algumas sobre seus negros cabelos.

E toca um alaúde de âmbar, ela canta,
E quando canta, um grou de prata
Começa a afagar seu papo roxo,
Com asas de metal a cintilar.

Toca um alaúde de âmbar, e brilha,
E lá do bosque denso onde se deita,
O seu amante, com olhos de amêndoa,
Espreita os gestos dela com deleite.

E ela solta então, de susto, um grito,
Começam a romper delgadas lágrimas,
Pois um espinho feriu com sua flecha
A rósea pele na concha do ouvido.

E agora ri em estrídulo alvoroço
Por tombar uma pétala de rosa
Aonde o cetim flavo deixa ver
A flor de veio azul do seu pescoço.
Com unhas verde-água de jade,
Há uma garotinha de marfim,
Sob a sombra que baila da roseira,
E arranca as folhas róseas e perladas.

II
Les Ballons

Contra estes densos céus de azul turquesa,
Mergulham como luas de cetim
Balões cheios de luz e de leveza,
Tais borboletas pairam, como seda.

E giram ao sabor da brisa esparsa,
Sobem, piruetam, como num baile,
Flutuam, perlas raras de cristal,
Caem, levitam, tal argêntea prata.

Agora ao rés das folhas se seguram,
Em pose graciosa, teatral,
E cada um é pétala de rosa
Que em corda de gaze se pendura.

Agora chegam às mais altas copas,
Como globos de ametista fina,
Opalas vagueando ao encontro
Dos galhos de rubi da lima.

Tradução de Margarida Vale de Gato

Nota: texto retirado da antologia Poems, a publicar em breve pela Relógio d'Água.


S. Brett Kaufman, "Portrait of Oscar Wilde and Lord Alfred Douglas", 1996.

ALEGRIA NO TRABALHO (4)



A MULHER QUE DEU LIÇÕES A MARCELO

Arminda de Jesus Mendes Raposo, a "Armindinha do arroz malandro" como é conhecida na sua área tanto pela sua jovial presença como pelas qualidades que comunica às iguarias que prepara, nasceu no Seixal, descendendo ainda, pela parte materna, dos Mendes que no nosso tempo dariam à pátria tanta gente ilustre, já no ramo da política já no ramo de outras actividades respeitáveis.
O seu pai, mecânico de automóveis e actor amador numa colectividade da terra, incutiu-lhe o amor pela função cénica, tendo de sua mãe D.Maria José (a célebre "Zézinha do vira-agora" das matinés dançantes herdado o feitio esfuziante, a simpatia natural e o dedo para os pitéus.
Colocada, em devido tempo e por concurso, como cozinheira na Escola C+S Leandro de Oliveira, Arminda era a breve trecho "a senhora da casa" como refere numa das suas expressões inolvidáveis a nossa poetisa Berenice de Medeiros, por juntar a competência à cordialidade.
Anos atrás e numa acção de campanha, o futuro presidente de todos os portugueses visitou aquele estabelecimento de ensino. Inteligente como é, às tantas meteu conversa com Arminda. Dada a comunicabilidade que a ambos caracteriza, enfronharam-se numa conversa em voz baixa, com alguns risos que adversários do benquisto homem público caracterizariam como "joviais e matreiros".
Ninguém sabe o que disseram, mas foi pouco depois que o grande comunicador reiniciou a carreira brilhante que já se dizia votada ao fracasso e, soube-se posteriormente, começou a confeccionar em termos a "vichyssoise".
Arminda, decerto por ser uma excelente e destacada profissional, foi no ano transacto feita Comendadora. E nunca, como recordarão, se viu uma comendadora de tão ridente expressão nos cinzentos corredores presidenciais...
O poema escolhido pela Srª Comendadora é o "Mística" de D.H.Lawrence, na tradução de João Almeida Flor:

Chamam mística a toda a sensação se pensam nela.
Assim qualquer maçã torna-se mística, quando nela saboreio
o estio e as neves, o tumulto selvagem da terra
e a insistência do sol.
Tudo isso posso saborear decerto numa boa maçã.
Embora certas maçãs, ácidas e húmidas, saibam
sobretudo a água
e outras a excesso de sol com a doçura salobra
de águas de laguna soalhenta em demasia.

Se disser que saboreio coisas assim numa maçã
chamam-me místico, isto é, mistificador.
A única maneira de comer maçãs é tragá-las que nem um porco
sem saborear nada
que seja real.
Mas ao comer maçãs, gosto de lhes dar a atenção dos meus sentidos.
Para mim, tragá-las que nem um porco é dar de comer aos mortos.

Será que nunca mais se acaba com isto?

Há muito que anunciaram a morte do comunismo. Intelectual, comunicador, fazedor de opinião que se prezem passaram a poder ser de toda a esquerda menos da comunista. O comunismo não só foi anunciado como morto mas também com uma memória passada de moda; foram desaparecendo paulatinamente dos espíritos mais inteligentes os conceitos de «povo», «classes», «luta», e quem nisto não alinhasse era tolo: o comunismo, finalmente, morrera. Agora morreram Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal; pois bem, e o que tinham preparado para a ocasião os espíritos mais inteligentes? Tinham preparado muita abertura, muita compreensão, muito humanismo, e também muito paternalismo superior, como só é possível ter por homens mortos representantes de uma coisa morta, recambiados para história morta. Era como se a árvore vermelha tivesse sido derrubada e desarreigada e agora apodrecessem de vez os seus últimos frutos. Na tarde quente fui ao enterro de Cunhal e vi tanto povo junto como já não via há décadas. O povo, pelos vistos, não morrera com o comunismo e estava ali com um espírito de pesar mas, ainda mais, de luta. A tarde ensombreceu, era como se enterrassem o sol. Aquilo era tão forte que, afinal, pensando bem e sentindo bem, o comunismo não morreu, há outras árvores vermelhas por esses pomares adentro. À noite vi nas televisões os espíritos mais inteligentes falando de Cunhal. As palavras moles que diziam não eram novas, mas a expressão sim, como se soubessem do enterro e concluíssem que, afinal, os mortos não morreram. Como se vissem um morto: uma expressão de espanto, perplexa, aturdida, embora inteligente como sempre.

Filipe Guerra

SOBRE "ALEGRIA NO TRABALHO"



O FOLHETIM SEGUE DENTRO DE MOMENTOS

Têm razão. Não coloquei. Mas foi por razões incontornáveis de gestão. A saber: por um lado a "máquina" fotográfica do JG emperrou devido a reuniões, preparação de exames... Essas coisas que acontecem, vocês percebem.
Quanto a mim, agora que já estou livre como um pardal, deitei até Cáceres ontem por ontem. Como não havia... foto - dei a mim mesmo esta desculpa, aliás pacífica e real. Não me casquem muito na tola!
À guisa de fraco consolo aqui vos deixo um boneco meu. Vai p'ra todos e em particular para a Margarida.
E como a... foto da nossa próxima depoente, a comendadora Arminda Raposo (pois ela foi galardoada no ano transacto devido à eficácia das suas iguarias) ainda vai chegar nesta manhã, o folhetim continuará logo para gáudio dos inúmeros expectantes...

Ideal para estes tempos de seca


aguasfurtadas, Revista de Literatura, Música e Artes Visuais.
Número 7 já disponível nas boas livrarias. E nas outras também.

15.6.05

As caixas de comentários...

Já se falou disto aqui. Eis o que o blog "da literatura", de Eduardo Pitta, teve que decidir. Ressuscita a questão que o Manel Resende levantou sobre as implicações legais.

"June 15, 2005 - Sem Comentários
Por motivos alheios à nossa vontade, fomos obrigados a fechar a caixa de comentários do blogue, uma vez que a mesma estava a ser invadida por textos insultuosos, predominantemente de teor anónimo, assim se desvirtuando completamente a possibilidade de se estabelecer uma interactividade pautada pelos rigorosos princípios éticos que, desde o início, têm caracterizado o da literatura. A liberdade exige responsabilidade. Por isso, quisemos que os nossos textos pudessem ser objecto de discussões, sempre sem receio do contraditório. O que não esperávamos é que um pequeno número de leitores não apresentasse a maturidade cívica suficiente para compreender isso. Não nos podemos responsabilizar por uma caixa com quase cem comentários, pois correríamos o risco de permitir, por impossibilidade de ler tudo, que matéria susceptível de acção judicial ou violadora dos princípios éticos por que nos regemos encontrasse aí abrigo. Temos a certeza de que a quase totalidade dos nossos leitores compreenderá esta decisão."

OS MEUS POEMAS DA VIDA DE MARCELO REBELO DE SOUSA

And without further delay (e desta vez sem grandes considerações), aqui vão dedicadas a minha amiga "anonymous 43" as escolhas da semana:

- "Um adeus português", de Alexandre O'Neill. Porque nada plasma tão bem o que José Gil quis dizer em "Portugal Hoje". O que eu lamento profundamente é que entretanto se tenham passado 5 décadas e a pequenez deste povo continue na mesma.

- "E por vezes", de David Mourão Ferreira. Porque é um excelente poeta, a quem bastou morrer para ficar esquecido.

- "Amor como em casa", de Manuel António Pina. Por tudo, por "Esplanada", por "Extrema-Unção", porque sim!

(E mai nada.)

Poemas de Oscar Wilde. Numa tradução inédita de Margarida Vale de Gato

Terceiro poema

IMPRESSION

I
Le Jardin

Cai a taça do lírio encarquilhada
Em torno do ouro em pó de sua haste,
E o derradeiro pombo arrulha e chama
Lá das faias que há nos campos vastos.

O girassol galhardo, leonino,
Pende do caule, negro e sem semente,
E, ao vento, no caminho do jardim,
As folhas mortas tombam tenazmente.

Folhas de alfena brancas como leite,
Sopra-as a brisa, empurra-as para a neve;
Como seda que em trapos foi desfeita
As rubras rosas jazem sobre a relva.

II
La Mer

Pelas enxárcias paira branca bruma:
A lua, olho feroz de um leão,
Brilha selvagem neste céu de chumbo
Sob uma juba de douradas nuvens.

Ao leme, o piloto embuçado
É uma sombra apenas na penumbra;
E na casa das máquinas que pulsam
Polidos cabos de aço longos pulam.

Há traços da tormenta escorraçada
Nesta enorme ogiva soluçante,
E os finos fios louros da espuma
Nas ondas são de renda desmanchada.

Tradução de Margarida Vale de Gato

Nota: texto retirado da antologia Poems, a publicar em breve pela Relógio d'Água.


Oscar Wilde. Gravura de Carlo Pellegrini, 1884.

Exit

Os estudantes queixam-se da falta de saídas profissionais. Os profissionais queixam-se simplesmente da falta de saídas.

Há uma data de gente a viver neste corredor

"Cunhal nunca compreendeu o soneto de Camões que diz 'mudam-se os tempos, mudam-se as vontades'", disse Mário Soares ao Público de ontem.

As coisas extraordinárias que Soares sabe sobre aquilo que Cunhal não sabia. Coitado do Cunhal. Não era um intelectual a sério. Há que ter compaixão. Ele não percebia muito bem as coisas. Cunhal não sabia fazer balanços, não percebia nada do que se estava a passar com a história. Muitos dizem que ele se deixou "ultrapassar pela história". Uma espécie de "rara avis in terris" a quem deram demasiada importância. Felizmente, temos o Soares para nos explicar as coisas tal como elas são ou não são. Soares, pelo contrário, compreende tudo muito bem. Ele, sim, esteve sempre do lado certo da história. Ele sabe do que fala. Quer dizer, ele lá sabe do que fala.

A opinião de Pacheco Pereira sobre a colecção POEMAS DA MINHA VIDA

em 4.6.05, no Abrupto

"Vale a pena falar de livros no meio desta barbárie futebolística, destas horas e horas monocórdicas de ruído televisivo, sinal da nossa miséria e pobreza de espírito?
Vale, no sentido do poema de O' Neill que Mário Soares escolheu para ler na publicidade televisiva à colecção "Os Poemas da Minha Vida", distribuídos com o Público:

História da Moral

Você tem-me cavalgado,
Seu safado!
Você tem-me cavalgado,
Mas nem por isso me pôs
A pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.

O mérito desta colecção (em que, declaro já o meu conflito de interesses, também irei colaborar) é o de através dos poemas da "vida" de cada um, nós os lermos, aos poemas, e à "vida" de quem os escolheu.
Vale mesmo a pena, porque pouca coisa reflecte mais a percepção que cada um tem de si próprio, ou o retrato público que desenha de si mesmo, do que os poemas que escolhe para serem da "sua vida", mesmo quando não o foram. Principalmente quando não o foram."

Mesa mais ou menos redonda com tradutores

They've been indispensable since the dawn of literature, laboring over the masterpieces of others, coaxing them into approximation. Four gifted translators-into-English of four very different works gave generously of their time for this roundtable, mostly concerning their experiences with a recent book.

Aqui.

14.6.05

Poemas de Oscar Wilde. Numa tradução inédita de Margarida Vale de Gato

Segundo poema

SINFONIA EM AMARELO

Como amarela borboleta
Cruza a ponte a diligência;
Um transeunte, intermitente,
Surge tal mosca inquieta.

Contra o molhe se arremessam
As lanchas de feno amarelo,
E a bruma vela o cais, um selo
Ou lenço amarelo de seda.

Amarelas, folhas fanadas
Caem dos olmos de Temple;
Verde, a meus pés, jaz o Tamisa
Tal vara de jade estriada.

Tradução de Margarida Vale de Gato

Nota: texto retirado da antologia Poems, a publicar em breve pela Relógio d'Água.


Oscar Wilde. Aguarela de Henri de Toulouse-Lautrec, 1895

ALEGRIA NO TRABALHO (3)



O Homem que disse não a Cavaco

Joaquim Maria Ceia Sacarreta, liquidador tributário de 1ª classe no 207º Bairro Fiscal, nasceu em Ovar em 1954, filho de um marceneiro e de uma funcionária da Caixa de Previdência. Sua avó Leopoldina, senhora muito distinta e filha natural do barão de Relhe, comunicou-lhe o amor das belas-letras e sólidos princípios morais visto ser leitora assídua da revista "Mãos de Fada".
Após uma infância feliz e uma adolescência indecisa e depois de sem cunhas assinaláveis ter entrado na função pública, acentuou os seus gostos artísticos e políticos. Ligado ao sector cultural do respectivo sindicato, participou em tertúlias diversas debruçando-se sobre autores como Alexandre Nortadas, Romão da Câmara ou J. Pacheco Pereira.
Cívicamente ficou muito conhecido por um caso sucedido durante o governo de Cavaco: estando o estadista em governação aberta na região e visitando a sua importante Repartição, no bar e rodeado pelo seu staff virou-se para Sacarreta e disse de forma imperativa: "Quererá o amigo tomar um cafezinho???". Joaquim Sacarreta respondeu, marcando bem as palavras: "Não, senhor primeiro-ministro!!!".
Os acompanhantes gelaram. E enquanto os guarda-costas - mansamente mas com decisão - retiravam Sacarreta por uma porta lateral, Cavaco lívido abandonava o local sem delongas.
É pois este o homem que nos apresenta o poema (...) de Francisco de Quevedo, numa tradução de José Bento:

Porque me amarga a verdade
quero lançá-la da boca;
e se a alma seu fel toca,
escondê-la é necedade.
Saiba-se, pois liberdade
gerou em minha moleza
a pobreza.
Quem faz o vesgo um D.João
e prudente o seu conselho?
Quem ao avarento velho
serve de rio Jordão?
Quem torna as pedras em pão
sem ser o Deus verdadeiro?
O dinheiro.
(...)
Quem os juízes com paixão
sem ser óleo, faz cristãos,
pois ao untar-lhes as mãos
lhes abranda o coração?
Quem desgasta a opilação
com ouro e sem o ferreiro?
O dinheiro.
Quem busca que se despeje
do solo a glória vã?
Quem, sendo toda cristã
tem uma cara de hereje?
Quem faz que o homem se aleije
em desprezo e em tristeza?
A pobreza.
Quem o monte faz curvar
ao vale? E a bela ao feio?
Quem alcança o que o anseio,
mesmo impossível, sonhar?
Quem o de baixo faz voar,
erguer no mundo, ligeiro?
O dinheiro.