27.2.04

Señor Tallon #38

Já há um rival para o clássico de Dale Carnegie, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. Trata-se de “The Pratical Writer”, um guia completo e detalhado, escrito por especialistas da Poets & Writers Magazine, onde se explica, passo por passo, a forma mais simples e rápida de alguém se tornar um escritor de sucesso. Só há um pormenor desagradável: são 384 páginas. Não será pedir de mais a jovens em princípio de carreira e talvez ainda com poucos hábitos de leitura?

Pequena antologia de obras-primas portuguesas de expressão inglesa #4.

Depois das experiências com os Gift e David Fonseca, Ricardo Carvalho oferece-nos mais um exemplo do excelente trabalho que está a ser feito pela nova geração de songwriters portugueses de expressão inglesa. Ladies and gentleman, we are proud to present you a poesia dos Ez Special.


MARGARIDA
Ez Special

Eu quero/ Que tu saibas,/ Que sinto a tua falta.// Se as estrelas começarem a brilhar,/ Continuarei a sentir a tua falta.// Ooh... E continuo a sentir a tua falta!// Vejo a tempestade,/ Vejo uma nuvem,/ Vejo-te a correr,/ continuo à tua espera./ Pequena Margarida...// Isto é uma canção,/ Lembra-nos do sempre./ Juntos!/ Isto é uma canção,/ Que não posso esconder./ (Ooooow)// La La La La La Oooh/ La La La La La Oooh/ La La La La La Ooooooh (bis)// Eu quero/ Que tu saibas/ Que sinto a tua falta// Se as estrelas começarem a brilhar/ Continuarei a sentir a tua falta// Isto é uma canção/ Lembra-nos do sempre./ Juntos!/ Isto é uma canção,/ Que não posso esconder./ (Ooooow)// La La La La La Oooh/ La La La La La Oooh/ La La La La La Ooooooh (bis)// Para sempre,/ Ouvir para sempre.../ (Tup Tururu Rum/ Tururu Rum)/ (Tup Tururu Rum/ Tururu Rum)// Continuo a sentir a tuuuuua falta!// La La La La La Oooh/ La La La La La Oooh/ La La La La La Ooooooh (bis)// Isto é uma canção/ Lembra-nos do sempre./ Juntos!/ Isto é uma canção,/ Que não posso esconder./ La La La La La Oooh (E continuo a sentir a tuuuuua falta!)/ La La La La La Oooh (Isto é uma canção, que não posso esconder)/ La La La La La Ooooooh (E continuo a sentir a tuuuuua falta!)

Tradução de Ricardo Carvalho.


Post Scriptum #159

De Nicolás Guillén (Cuba, 1902-1989), apresentamos um fragmento do poema Seis, pertencente ao seu livro “West Indies, Ltd”, de 1934, numa tradução de Nicolau Saião.


POEMA SEIS (fragmento)

Índias Ocidentais! Índias Ocidentais! West Indies!
Este é o povo hirsuto
de cobre, multicéfalo, onde a vida luta
com o lodo seco entranhado na pele.
Este é o presídio
onde cada homem existe de pés atados.
Esta é a grotesca sede das companies and trusts.
Aqui estão o lago de asfalto, as minas de ferro
as plantações de café
os port docks, os ferry boats, os ten cents…

Este é o povo do all right
onde tudo se encontra mal
Este é o povo do very well
onde nada está bem.

Aqui estão os servidores de Mr. Babbit.
Os que educam os filhos em West Point.
Aqui estão os que chilreiam: hello baby
e fumam “Chesterfield” e “Lucky Strike”.
Aqui estão os bailarinos de fox trots
os boys do jazz band
e os veraneantes de Miami e Palm Beach.
Aqui estão os que pedem bread and butter
e coffee and milk.
Aqui estão os absurdos jovens sifilíticos
os fumadores de ópio e marijuana
exibindo as suas espiroquetas
e mandando fazer um fato em cada semana.
Aqui está o melhor de Port-au-Prince
O mais puro de Kingston, o high life de La Habana…
Mas aqui estão também os que remam em lágrimas
galeotes dramáticos, galeotes dramáticos.
Aqui estão eles
os que trabalham com uma picareta
a dura pedra onde pouco a pouco se crispa
o punho de um titã. Os que acendem a chispa
vermelha, sobre o campo ressequido.
Os que gritam: “Cá estamos!” e a quem responde o eco
de outras vozes: ”Cá estamos!”. Os que em rude tumulto
sentem latir o sangue com sílabas de insulto.

Tradução de Nicolau Saião.

Outras traduções de Nicolás Guillén em português: “Antologia Poética”, numa tradução de Carlos Grifo (Presença, 1970), e "O Grande Zoo" (Centelha, 1973).

O Povo é Sereno #61

Pascal Remy, ex-redactor do poderoso Guia Michelin dos restaurantes, levanta o véu sobre os critérios de atribuição das famosas estrelinhas. A fazer fé nas denúncias de Remy, parece que andamos todos a ver estrelas a mais.

Señor Tallon #37


Domingo é dia de Oscar.

Post It #78

A literatura também contribui para aumentar a esperança de vida.

Post It #77


Os efeitos de um artigo de José António Saraiva nos homens do talho.

Magnificently posted by Repórter Lírico.

26.2.04

O Silêncio é de Ouro #41


Foi gravado em 1968, mas podia ter sido hoje. “Machine Gun”, de Peter Brotzmann Octet, é talvez o mais mítico dos discos do género “free jazz”. Denso, agressivo, poderoso. É um daqueles discos em que o conteúdo faz justiça ao título e vice-versa. Quem nunca o ouviu, pode começar a treinar.

Raul Silva

O Silêncio é de Ouro #40


Que extraordinária crítica não faria o prolífico Fernando Magalhães do Y sobre qualquer um destes discos?

O Povo É Sereno #60


Gosto desta linguagem directa e desprovida de adornos: «Este Governo é um desastre»; «A razão chama-nos à luta»; «O país precisa de tomar novo rumo». Há qualquer coisa de simultaneamente heróico e romântico nestes slogans - como, aliás, no sindicalismo em geral -, por mais excessivos que sejam. E a data da "luta", 11 de Março, é um achado!

Post Scriptum #158

Elytis #6
Ora, fossando na minha arca, tirei cá para fora este trecho do "Axion Estí", outro longo poema de Odysséas Elytis (1911-1996), segundo prémio nobel grego. O "Axion Estí" é um poema monumental, no sentido de que apresenta uma arquitectura que já foi comparada a uma catedral; pelo que só pode ser plenamente apreciado na sua totalidade. O trecho que se segue faz parte de uma série de "leituras" (como que homilias) em prosa que pontuam o texto e é quase, digamos, a explicação do mistério, como que a revelação do criminoso num romance policial.

SÉTIMA LEITURA

PROFECIA


MUITOS ANOS depois do Pecado a que chamaram Virtude nas igrejas e que bendisseram. Relíquias de velhos astros e recantos cheios de teias de aranha varridas pela borrasca que o espírito dos humanos há-de gerar. E, ao ajustar as contas dos antigos Dirigentes, a Criação estremecerá. E grande alvoroço cairá sobre o Hades e o chão cederá sob a grande pressão do sol. Que começará por reter os seus raios, sinal de que é tempo de os sonhos tirarem desforra. E depois falará, dizendo: Poeta exilado, no teu século, diz, que vês?
- Vejo as nações, antigamente tão arrogantes, abandonadas às vespas e às urtigas.
- Vejo as achas no ar fendendo os bustos dos Imperadores e dos Generais.
- Vejo os mercadores a cobrarem curvados o lucro dos próprios cadáveres.
- Vejo o encadear dos sentidos ocultos.

Muitos anos depois do Pecado a que chamaram Virtude nas igrejas e que bendisseram. Mas antes, eis o que acontecerá aos belos Filipes e Robertos que narcisam pelas esquinas. Trarão os anéis ao contrário, e pentear-se-ão com pregos, e enfeitarão o peito com caveiras para seduzirem a fêmea. E as fêmeas deslumbrar-se-ão e consentirão. Para que a palavra se torne verdade, que próximo é o dia em que o belo será entregue às moscas do Mercado. E indignar-se-á o corpo da prostituta por não ter já que invejar. E a prostituta há-de fazer-se acusadora dos sábios e dos grandes, trazendo como testemunho o esperma que fielmente serviu. E sacudirá de si a maldição, estendendo a mão para Oriente e gritando: Poeta exilado, no teu século, diz, que vês?
- Vejo as cores do Himeto na base sagrada do nosso novo Código Civil.
- Vejo a pequena Mirtó, a prostituta de Síkinos, como estátua de pedra na Ágora, com as Fontes e os Leões.
- Vejo os efebos e vejo as raparigas na Lotaria Anual dos Casais.
- Vejo alto, nos ares, o Erecteu dos Pássaros.

Relíquias de velhos astros e recantos cheios de teias de aranha varridas pela borrasca que o espírito dos humanos há-de gerar. Mas antes, eis que as gerações passarão a charrua sobre a terra estéril. E às ocultas os Dirigentes medirão a sua mercadoria humana, declarando guerras. Com o que se saciarão o Guarda e o Juiz Militar. Abandonando o ouro aos obscuros, para que estes cobrem o salário da soberba e do martírio. E grandes navios içarão bandeiras, as fanfarras invadirão as ruas, as varandas regarão de flores o Vencedor. O qual viverá com o cheiro dos cadáveres. E a boca da fossa a seu lado, a escuridão, abrir-se-á à sua medida, clamando: Poeta exilado, no teu século, diz, que vês?
- Vejo os Juízes Militares arderem como velas na grande mesa da Ressurreição.
- Vejo os Guardas ofertar o seu sangue de sacrifício à pureza dos céus.
- Vejo a revolução permanente das plantas e das flores.
- Vejo as canhoneiras do Amor.

E, ao ajustar as contas dos antigos Dirigentes, a Criação estremecerá. E grande alvoroço cairá sobre o Hades e o chão cederá sob a grande pressão do sol. Mas antes, eis que hão-de gemer os jovens e o seu sangue sem razão envelhecerá. Condenados tosquiados baterão com a gamela nas grades. E esvaziar-se-ão todas as oficinas e logo de novo serão enchidas por requisição para que produzam sonhos aos milhares em latas de conserva e engarrafem a natureza de milhares de formas. E virão anos lívidos e impotentes envoltos em gaze. E cada um terá alguns gramas de felicidade. E as coisas que terá dentro farão já belas ruínas. Então, não tendo outro exílio aonde possa ir lamentar-se, o Poeta, deixando esvaziar-se do seu peito a saúde da borrasca, voltará para ficar nas belas ruínas lá dentro. E a primeira palavra que o último dos homens há-de dizer será para que as ervas se ergam e a mulher a seu lado saia como raio do sol. E de novo adorará a mulher e a deitará na erva como está determinado. E os sonhos tirarão desforra e semearão gerações pelos séculos dos séculos!

Post It #76

Os escritores, esses especialistas em técnicas de autopromoção.

Post It #75

A emocionante vida de um poeta, segundo Posy Simmonds.

25.2.04

Post Scriptum #157

Mesquita Alves sugere-nos António Osório para este início de noite. Três poemas de “A Ignorância da Morte”, livro de 1978.



Não chegam a conter nem valem
todos estes versos uma lágrima tua.


VIA LÁCTEA

Caminhar por ela
como quem olha
e ama
plátanos velhos.


OS CAVALOS DE TRÓIA

Olhos de Água, por aí passei
de comboio e o nome que desandava
ensinaste tu ou o pai, trementes
no bamboleio daquela mesma janela
onde árvores, casas poucas, a mercearia
fugiam ao lado das cancelas e da mulher
que apresentava a arma omnipotente
de um lenço. Nunca parámos nesse
lugar sem apeadeiro. E o nome
continua a escapar-se, insignificante,
inapreensível como olhos de Deus.

O Povo É Sereno #59

Pronto, não se fala mais nisso!

A tradutora Katharine Gun, que, como indicámos há dias, fora acusada pelo Governo britânico de divulgar segredos de Estado, está livrinha da silva sem se retratar, como prevíramos. O Ministério Público preferiu não apresentar provas contra ela a meter-se numa alhada e ter que revelar coisas inconfessáveis.

Palminhas para a Katharine Gun. Mas o fundo da questão mantém-se de pé: a trapalhada das AMD no Iraque e as manobras diplomáticas na ONU tinham como objectivo apenas impor à força uma guerra que não se justificava pelas razões invocadas.

Post Scriptum #156

De Léopold-Sédar Senghor (1906-2001), autor senegalês que foi o primeiro presidente da República do Senegal e um dos fundadores da “Negritude”, existe uma vasta antologia poética em português, editada em 1977, pela Arcádia, e com tradução de Luísa Neto Jorge. Mais recentemente, em 2002, o Centro Internacional de Latinidade publicou um livrinho com onze poemas traduzidos por José Augusto Seabra. Esta é a tradução de Nicolau Saião do poema de Senghor “Para uma jovem negra de calcanhar róseo”.


PARA UMA JOVEM NEGRA DE CALCANHAR RÓSEO

No céu primitivo erguem-se imaculados os cantos dos pássaros
e o fresco cheiro da erva ágil com eles se ergue, Abril.
Ouço o respirar profundo da madrugada movendo as nuvens
brancas dos cortinados
e escuto a canção do sol nos taipais das janelas
melodiosas.
Sinto como que um hálito ou uma recordação de Naett
na minha nuca apaixonada e nua
E o meu sangue cúmplice, a despeito de mim, chocalha-me
nas veias.
És tu, minha amiga – ô! Escuta os suspiros escuta
os quentes suspiros neste Abril dum continente novo
Oh escuta, enquanto deslizam, no gelado azul, as asas
das andorinhas migratórias
e não te esqueça ouvir o murmúrio negro e branco das aves
de arribação
horizontais no extremo das suas velas desdobradas.

Escuta a mensagem da Primavera duma outra idade, dum outro
mundo
Escuta a mensagem da África longínqua e velha e a canção
do teu sangue
Pois eu estou ouvindo a seiva de Abril que nas tuas veias

cantando me desafia.

Tradução de Nicolau Saião

Post It #74

Nem de propósito. Ainda há dias falávamos dessa possibilidade: a de todos os romances poderem ser resumidos em duas ou três linhas. Repare-se, por exemplo, no que está a acontecer aqui.
Eis o enredo do "Ulysses" de James Joyce, em apenas 20 palavras:

Bloom walks, wanks, drinks, chats, fights, reads, ogles, and meets a mopey Stephen Dedalus on June sixteenth, nineteen oh four.

Post It #73

Regresso à blogosfera de cara destapada no dia em que o meu portátil windows pifou. É pois com prazer que volto a escrever no meu Mac azulinho. Já tinha saudades. E é verdade. Não há amor como o primeiro.

Rui Baptista, agora a solo. Aqui.

24.2.04

Se ainda não sabem, ficam a saber. A melhor festa de Carnaval da blogosfera está a decorrer aqui.

O Povo É Sereno #58

Histórias de barbeiros

Marcello é o meu barbeiro italiano. Sou-lhe fiel há muito tempo, desde a novela “Os Lobos”, quando o descobri. E digo “Os Lobos”, porque ele discutia comigo o enredo e o Sinde Filipe: é que Marcello vê a RTPi no café português que frequenta e está sempre pronto a falar do Guterres, do Figo, da Casa Pia, e, para mal dos meus pecados, do Vale de Figuredo (Vale e Azedo, rais parta que nunca acerto no nome!).

Bem, certo é que lhe sou fiel e tenho ido atrás dele por essa Bruxelas fora: o patrão tinha loja na Georges Henri, mas fechou-a e agora tenho de ir para a Rue de Laeken, muito mais sombria e decadente, mas vale a pena. Não só pela conversa (sobre as folhosas e as coníferas, sobre a alfarrobeira e uma espécie de espinafre selvagem que nos interessa a ambos), mas também porque o homem corta o cabelo depressa e bem e como um senhor artista. Que ele nestas coisas tem os seus princípios e não lhe falem em cortes à Abel Xavier. Isto é, fazer, fá-los, se o cliente quiser, mas não aprova: “mau gosto” – diz.

Penso nele e penso: afinal que tem ele de menos que os modernos cabeleireiros como o Olivier Dashkin, que tem lojas por todo o lado aqui e em Londres, Paris, Nova York? Os instrumentos são praticamente iguais, a rapidez e o preço idem, a qualidade do Marcello superior. Porquê? Porque é que este barbeiro vai infalivelmente acabar e não ser substituído por outro do género e os Olivier Dashkin vão prosperar?

Resposta, acho eu: falta de fôlego financeiro. A Olivier Dashkin (a empresa) tem dinheiro a rodos para publicidade e para alugar bons espaços em sítios privilegiados e várias cidades. Com a especulação imobiliária, só empresas destas conseguem sobreviver porque podem dar-se ao luxo de contratar um exército de jovenzinhos sem experiência a quem ensinam meia dúzia de cortes estereotipados e pronto está a andar...

E pergunto: qual a vantagem? A não ser para os donos da coisa?

Post Scriptum #155

Nikos Engonópoulos (1910-1985)

Um dos introdutores do surrealismo na Grécia, sobretudo pintor, mas também poeta. Hoje está em dois lugares, aqui neste blogue, e na Janela Indiscreta, que nos convidou para um assalto de carnaval. É com o maior prazer que procedemos a estes intercâmbios.

O VOCABULÁRIO DAS FLORES

a poesia ou a glória?
a poesia
a bolsa ou a vida?
a vida
Cristo ou Barrabás?
Cristo
Galateia ou uma cabana?
Galateia
a guerra ou a paz?
a paz

Hero ou Leandro?
Hero
a carne ou os ossos
a carne
a mulher ou o homem?
a mulher
o desenho ou a cor?
a cor
o amor ou a indiferença?
o amor
o ódio ou a indiferença?
o ódio
a guerra ou a paz?
a guerra

agora ou sempre?
agora
ele ou outro?
ele

tu ou outro?
tu
alfa ou ómega?
alfa
a partida ou a chegada?
a partida
a alegria ou a tristeza?
a alegria
a tristeza ou o aborrecimento?
a tristeza
o homem ou o desejo?
o desejo
a guerra ou a paz?
a paz

amar ou ser amado?
amar


23.2.04

Homenagem a Zeca Afonso



Zeca Afonso morreu há dezassete anos. Daquelas vozes que ecoam cá dentro. Músicas e letras que saltavam por cima de definições e iam direitas ao assunto, fosse ele qual fosse, e se cristalizavam nesse milagre que não sabemos definir, que nos faz sentir com todo o ser.

Homenagem aqui

O Silêncio é de Ouro #39

A família do cantor country americano Johnny Cash, morto no ano passado, proibiu a liberação do uso da música "Ring of fire" (em português, "anel de fogo") para um comercial de produto contra hemorróidas. A canção seria utilizada em merchandising idealizado pela produtora Sula Miller, da empresa Big Grin Productions. "Não deixaríamos que a música fosse rebaixada deste modo", justificou a filha de Cash, a também cantora Rosanne Cash.

Diário de S. Paulo, 20/02/04

Cimbalino Curto #69

Adriano S., angolano, idade na casa dos 30 ou 40 anos. Quadro do MPLA no exterior. Deixou de acreditar na bondade da classe política no poder em Angola. Órfão de mãe e pai (que morreu na guerra civil), viúvo (a mulher não resistiu a um atropelamento no Porto), com três filhos pequenos. Concluiu há pouco a licenciatura em Filosofia (ramo educacional) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desempregado. De vez em quando dá explicações ou substitui temporariamente um professor numa qualquer escola. Dorme onde calha, come quando pode, atravessa a cidade a pé para ir às entrevistas em busca de trabalho - e angustia-se com a perspectiva de não ter como alimentar os filhos. Porto (Europa), Fevereiro de 2004.

O Silêncio É de Ouro #38


Aos blogues, deu-lhes agora para desatarem a pôr quadros (por exemplo, aqui; há mais, há mais, mas estou com preguiça). Nós não somos menos do que os outros e, portanto, aí vai o meu Vermeer, não direi preferido, mas que considero mais intrigante. Tem não sei quê de contemporâneo.

O Povo É Sereno #57

Olha aí.

Que é isto? - pergunta o visitante. É um link, responde o meu gato. E um link para uma história pornográfica, cheia de som e fúria, sexo em grupo e violações e etc.

É também a reacção de um professor de história das religiões à embrulhada em que está metida a sua Universidade do Colorado, EUA, e a respectiva equipa de futebol (americano). Para encurtar razões: a fim de recrutarem jogadores para a sua equipa de futebol (americano), os dirigentes da mesma engodavam os jovens com raparigas e sexo em grupo (em certos casos, diz-se, com violações pelo meio).

O documento tem interesse: Ira Chernus, o referido professor, explica que as universidades, para obterem financiamentos, têm que recorrer a estes truques. A do Colorado é conhecida pela sua equipa de futebol, esta tem que vencer, para conseguir dinheirinho, e, portanto, tem que atrair os melhores jogadores de futebol (americano, não amaricado, not that I have anything against that), e, portanto...

Grande lição sobre a lógica das universidades geridas como empresas e etc.. A lenda diz-nos que o mercado reconhece e premeia as melhores universidades, só que o que acontece é que as universidades reconhecem e premeiam o mercado. Ínvios são os caminhos do Senhor.

Grande lição também sobre o sexo e o futebol (americano) e o seio da Janet Jackson e a final da Super Bowl e etc.

Post It #72

Neste sítio há uma colecção de entrevistas com pessoas que tiverem empregos estranhos ou pouco vulgares, realizadas por Suzanne Yeagley. Os textos são excepcionais. Apenas um reparo: esqueceram-se de mim.

Post Scriptum #154

Saídas recentes

Miguel de Unamuno, Antologia Poética, com tradução de José Bento, na Assírio & Alvim.

Horas de Fuga, uma antologia de poemas de outras línguas organizada por Luiz Cardim, na Asa.

Tonino Guerra, O Mel, numa tradução de Mário Rui de Oliveira, na Assírio & Alvim.

O Imenso Adeus – Poemas Celtas de Amor, na colecção Gato Maltês da Assírio & Alvim.

Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea, com organização e tradução de Albano Martins, na ASA.

Hélade - Antologia da Cultura Grega, a reedição da clássica antologia de Maria Helena da Rocha Pereira, na ASA.

Para a obtenção de mais um pequeno empréstimo pessoal, peça uma simulação no seu banco.

Post It #71

Vale a pena ler o texto do Alexandre Andrade, sobre a "polémica que agita o meio literário irlandês, a respeito do mérito real do 'Ulysses' de Joyce", à qual já tínhamos feito referência aqui.
Para mais informações, clique também aqui e aqui.

Post Scriptum #153

Visita a Elytis #5

Mais um trecho do poema "Maria Nefeli", de Odysseas Elytis, que temos vindo a apresentar no Quartzo.

O Antifoneiro diz:

A SANTA INQUISIÇÃO

Tem cuidado porque a dor
do que te tira te acrescenta Homem
Conservadordealmas
que te vanglorias.
Luta quanto queiras
não tem calcanhares a Perfeição.
É necessário que avancemos
que enchamos todo o Vazio
e senão que nos autodestruamos tirando forças do passado.
Um tempo virá para trinar de pé como as aves
valentes ante a beleza.
Devagar ou rapidamente
as aves nos domesticarão.

Ide rapazes ...

A verdadeira valentia
deve ser baptizada no alto mar
e trazer algo do vento etésio
para os oito andares dos prédios
deve deixar os campos de batalha
desenvolver­‑se no amor e nos livros
sair com outro nome mais belo
e aí ficar à espera
de que se lhe atirem contra ela e a insultem
de que lhe atem as mãos por trás das costas e a julguem.

Cada época tem a sua Santa Inquisição.




O «vazio» existe
enquanto não caíres nele.

E Maria Nefeli:

SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Que lástima não se ter descoberto ainda o Linguaphone do
prazer!
Agora que a «natureza» empequenece e rareia o ar
e os homens apodrecem em bosques fantásticos
seria a mais alta filosofia os Santos reconciliarem­‑se com os seus
corpos
escutarem de novo cair a voz dos anjos
como fina chuva de Primavera
quando arde toda a espécie de conhecimento...
Não digais: também haverá justiça para nós.
Não espereis da política nem da ciência
nada. O mundo mais jovem é o mais antigo
mas ao contrário.

Não vos atormenteis em vão.

Eu com a minha beleza
abolirei o conceito de livro;
inventarei novas flores
e as colherei das minhas entranhas
e coroarei como rei no recanto dos meus músculos
a rosa popular.
Por ela soprará o vento
da inocência verdadeira
onde poucos homens sobreviverão
no entanto todas as aves
debicarão os meus mamilos.

Cada época tem o seu São Francisco de Assis.


Procura
conduzir a perfeição técnica
ao seu estado natura
l

Pequena antologia de obras-primas portuguesas de expressão inglesa #3.


Hoje retomamos a nossa antologia de lyrics de songwriters portugueses de expressão inglesa. E voltamos a David Fonseca. Ricardo Carvalho traduziu "My Friends", um dos temas mais conhecidos dos Silence 4, banda de sucesso liderada pelo principal songwriter português da nova geração. A versão original pode ser lida aqui.


MEUS AMIGOS
David Fonseca (Silence 4)

Estava tão perdido na minha dor, o medo fundia o meu cérebro,
Contava os dias para a insanidade, tinha medo de me mover
Medo de me magoar, mais do que tinha tido até aquele dia
Tudo em que acreditava, tudo aquilo porque tinha lutado
Estava agora sob os meus pés e o meu coração batia
Estava tão longe, não podia ser sentido por ninguém
Tão só que me dava arrepios
As minhas drogas meteram-me na cama subiram-me à cabeça
E eu realmente não quero depender
Então agarro-me aos

Meus amigos e meus amigos e meu carro e meus amigos
Meus amigos e meus amigos e meus cartões e meus amigos
Martini até ao fim
Jogar bilhar de novo

Nunca pensei que fosse assim
Ninguém me disse que era assim
Estou admirado estou admirado comigo
E o meu cérebro e a minha dor
E a minha dor e as minhas veias
Estão a entregá-la à minha saúde
A minha auto-estima foi quebrada enquanto a minha confiança foi tomada
E deixou-me com uma vida vazia e esta faca
Repousa no centro da minha cama, penso em todas as coisas que ela disse
Fecho os meus olhos e durmo
Todas estas drogas na minha cabeça, parece que já estou morto
E eu não quero mesmo depender
Então agarro-me aos

Meus amigos e meus amigos e meu carro e meus amigos
Meus amigos e meus amigos e meus cartões e meus amigos
Martini até ao fim
Jogar bilhar de novo

Não posso fumar mais não posso beber mais, mesmo assim faço-o, faço-o de novo
Perdi tudo o que tinha, longe da mamã, longe do papá
Agradeço a Deus pelos meus bons, bons amigos
Mas onde está este Deus que evoco? Onde está Ele agora?
Enquanto morro o mais lentamente que posso? Todos os meus planos, foram pelo cano
A minha vida não tem meta, e interrogo-me se isto valerá a pena
Mas os meus amigos tomaram a minha mão
Ajudaram-me a erguer-me de novo
E é por isso que eu sinceramente amo

Meus amigos e meus amigos e meu carro e meus amigos
Meus amigos e meus amigos e meus cartões e meus amigos
Martini até ao fim
Jogar bilhar de novo

Tradução de Ricardo Carvalho.

22.2.04

O Silêncio é de Ouro #37

Eu, triste inculto, me confesso: não consigo gostar das críticas de discos do suplemento “Y”, do jornal Público. Não consigo ter paciência para tantos discos “hipnóticos”, para a chuva semanal de músicos “visionários”, para a enxurrada de acordes “oníricos” que por lá se ouvem. Enfim, não consigo ter pachorra para o fogo cerrado de adjectivos e figuras de estilo que um simples disco pode despoletar.
Apenas um exemplo: o texto de Fernando Magalhães dedicado aos Einstürzende Neubauten, saído no Y de 13 de Fevereiro, a propósito do seu novo disco “Perpetuum Mobile”. Trata-se de uma espécie de visita guiada pela carreira dos alemães. Até aqui, tudo bem. Muito agradecido. O pior é quando ficamos a saber que, nos seus primórdios, os Neubauten provocavam “ventanias tóxicas” e libertavam “gases venenosos”. E que hoje, apesar de envergarem um aburguesado smoking, ainda são capazes de nos “romperem a pele com um bisturi”.
Mas há mais. O seu disco “Haus der Luege” (1989) é um álbum “inundado com esperma de cavalo” e “Silence is Sexy” (2000) traz consigo “um silêncio de mau agouro a envolver um erotismo sonoro malsão, com palavras que se infiltram na mente como agulhas de ponta incandescente e sons regurgitados das regiões mais recônditas do inconsciente”. Já “Perpetuum Mobile” pegou nesse silêncio e “insuflou-o de ar comprimido, fazendo a música subir como um balão que esconde nas suas entranhas uma colónia de vermes”. Portanto, “eles subiram pelo ar” e “é de lá que desencadeiam tempestades”.
E Magalhães congemina: “será ódio, será amor, o certo é que ‘Perpetuum Mobile”, apesar de cultivar, ainda e sempre, a agressão, não pretende ser repudiado mas ouvido”. E conclui: “Ponhamos também nós o nariz e as antenas no ar. Mas com cautela.” Depois de tudo isto, quem não a terá?

21.2.04

Oferta da Janela Indiscreta



A Lídia Pereira, da Janela Indiscreta, tirou esta bela foto da Primavera durante o encontro bloguístico no Porto no sábado 14 de Fevereiro de 2004 e teve a gentileza de a ceder para alegrar o nosso Quartzo.

20.2.04

O Povo é Sereno #56

Ainda a propósito dos putativos candidatos sociais-democratas às eleições presidenciais, publicamos mais dois textos, de Nicolau Saião e Ruy Ventura.

Cavaco? Vocês falam-me em Cavaco? Pois também eu vos poderia falar nesse homem de Estado e no alegrão (melhor dizendo: momentos de fruição hilariante) que ele me deu numa certa tarde em que o ouvimos, pela rádio, garantir - entre outras coisas mais sinistras - que se ia embora para casa porque a sua Senhora até já dissera que sentia a sua falta nos serões patriarcais.
Vou ser sucinto: tenho uma particular simpatia pela Senhora de Cavaco e Silva. E isto é tão verdade como eu chamar-me Nicolau. Esclareço-vos já: quem me vê não diz (ou dirá? Pavorosa questão…) que sou um distraídão de marca. Podia aqui contar-vos algumas que vos lançariam talvez em convulsões, mas sintetizo e digo-vos que lá pelos princípios do consulado do nosso estimado Professor houve um lançamento numa Livraria da capital que teve como alvo um livrito colectivo em que também perpetrei versalhada.
Enquanto os oradores e, depois, o João d’Ávila, faziam considerações à poemaria (d’Ávila foi para os declamar, aliás com acerto), eu olhava da mesa a assistência – e sentia que alguma daquela gente a conhecia não sabia bem donde.
No final, quando se entrou na parte mais gostosa (os comes e bebes e os autógrafos) eis que uma senhora de aparência digna e cordial se chegou ao pé de mim com o livrito na mão e me disse com lhaneza (que hoje, à puridade, agradeço): "Era para mim e para o meu marido…". Com diligente cordialidade, inquiri: "E o seu nome e de seu esposo?...". E a senhora, com toda a delicadeza:" Maria e Aníbal…". Já estão a ver, não é verdade? Mas o gesto senhoril ficou-me na memória.
A circunstância de estar ali tanta gente colunável devia-se - para além do amor à poesia bem típico dos nossos políticos - ao facto de que um dos autores era o Fernando Tavares Rodrigues, na época director-geral da Informação e sólido pêéssedê…
De modo que, escorado nessa cordialidade que em mim vive, eu peço à Senhora do distinto economista: não deixe, minha Senhora, que o seu marido vá a Presidente, sequer a candidato a tal ordálio. Terá de durante vários anos aturar toda a gente em geral e os doutores Santana e Marcelo em particular: um, pelo que se sabe. Outro, pelo que se calcula. Não falando ainda no engenheiro Guterres, no apreciado Coelho, no Miguel da TVI…
Eles não perdoam o mínimo deslize. E são tremendos. Piores mesmo que o celebrado Durão.
Seria uma inquietação permanente. E, depois, o estado da nação…não dá para finalizar em beleza.
O Professor que se deixe estar aí por casa, a ler uns poemazitos, a jogar à bisca-lambida com as visitas, a pensar em relatórios e contas… E que se lixe o tabu.
Valeu?
Fique, minha Senhora, com a estima e o respeito do
NS


Nicolau Saião



A minha resposta à contenda que se tem gerado em torno das eventuais candidaturas de Cavaco ou de Santana à presidência da república é pura e simples: entre um e outro, venha o diabo e escolha! Se um representa o populismo fácil, o outro é o emblema do autoritarismo tecnocrata – ao fim e ao cabo faces da mesma moeda. Santana agradará às moças e às senhoras de meia-idade versadas em lixo televisivo, Cavaco aos nostálgicos do tempo em que os estudantes e agentes sociais eram rigorosamente vigiados. Por sua vez, enquanto o primeiro é um bife para quantos gostam de branquear a promoção da mediocridade e da estupidificação (os cegos são muito mais fáceis de governar, já Salazar o pensava), o segundo representa aquilo que os nossos companheiros de União Europeia hoje criticam em Portugal: a aposta no império do betão em detrimento do investimento nas pessoas e na sua dignidade social e cultural. Pedro Santana Lopes afirma que quer ser presidente para manter no poder (e manipular) a coligação PSD/PP, jamais sufragada pelo voto popular, uma coligação que parece querer incendiar o país, como já afirmaram vários analistas políticos, alguns oriundos da freguesia social-democrata. Cavaco desejará o lugar para levar o PSD sozinho ao governo, puxando livremente os cordelinhos de Barroso. Haverá diferenças? Como diz um velho provérbio, a matéria é a mesma – só mudam os odores.
Pergunto apenas: será que algum deles se preocupa verdadeiramente com os portugueses, com milhares e milhares de portugueses com estão a sofrer perante a insensibilidade das autoridades, com milhões de cidadãos apreensivos com o futuro dos habitantes deste país?


Ruy Ventura

Post It #70


A última grande história de Malcolm Lowry, no TLS.

Agenda

Este fim-de-semana, a Biblioteca Pública da Blogosfera convida todos os interessados para uma visita às suas instalações. A visita será dirigida pelo próprio director da instituição, Sr. Dr. Rui Almeida, e na ocasião serão servidos biscoitos de canela e poemas.

Post Scriptum #152

Segundo poema de Emilio Adolfo Westphalen, numa tradução de Nicolau Saião. O primeiro e uma breve nota biográfica, encontram-se aqui. Ambos os poemas pertencem ao livro "Abolición de la muerte", editado em 1935.


Tristemente deixei descansar a minha cabeça
Na sombra que cai do ruído dos teus passos
Voltando à outra margem
Imponente como a noite para te negar
Abandonei as manhãs e as árvores cravadas na minha garganta
Deixei até a estrela que galopava entre os meus ossos
Larguei mesmo o meu corpo
Como o náufrago as barcas
Ou as lembranças quando as marés se vão
E espalham estranhos olhos sobre as orlas do mar
Abandonei o corpo
Como um cobertor para com a mão liberta
Apertar o cerne de uma estrela molhada
Não me ouves sou mais leve que as folhas
Porque me livrei de toda a ramaria
E o ar não consegue aprisionar-me
Nem as águas tampouco me detêm
Não me ouves chegar mais poderoso que a noite
E as portas que ao meu sopro não resistem
E as cidades quietas para que não note as suas presenças
E o bosque entreaberto como a madrugada
Que busca apertar o mundo entre os seus braços
Ave belíssima que no paraíso irá cair
A tua fuga derribou todas as tendas
E eis que os meus braços fecharam as muralhas
E até os ramos se inclinam para te impedir a passagem
Frágil corça deves temer a terra
E o ruído dos teus passos em cima do meu peito
Já se cerraram os cercos
E o peso da minha ansiedade far-te-á cair
Os teus olhos irão fechar-se sobre os meus
E a tua doçura brotará como os chifres novos
E a tua meiguice crescerá como a sombra que me envolve
A cabeça deixei que rodasse
O coração deixei que caísse
Já nada tenho que me assegure que irei alcançar-te
Pois que tens pressa e tremes como a noite
Talvez eu não atinja a outra margem
Porque não tenho mãos que abarquem o espaço
Entre o que está desperto e o que vai morrendo
Nem pés que pesem sobre o esquecimento
De tantos ossos e tantas flores mortas
Talvez eu não alcance a outra margem
Se a última folha já foi por nós lida
E a música entreteceu a luz em que hás-de cair
E os rios te impedem o caminho
E as flores te chamam mas com a minha voz
Rosa imensa chegou a hora de deter-te
O estio ressoa como degelo para os corações
E as madrugadas tremem como árvores ao acordar

Todas as saídas estão guardadas
Rosa imensa não irás tombar?

Tradução de Nicolau Saião.

Não tem nada a ver (cont.) (e fim?)


Zazie foi vista no Palácio de Cristal. Entretanto, voltámos a receber do senhor Dan Rhodes a prosa que se segue e que já tínhamos posto aqui no blogue, tendo voltado a retirá-la por a considerarmos ofensiva da pessoa em causa ("not that there is anything wrong with that!"). Dan Rhodes insiste e, com grande renitência, acedemos aos seus pedidos, alertando os nossos visitantes para o facto de os escritores serem muito amigos da efabulação e não resistirem a inventar coisas que estão muito longe da verdade dos factos. Dan Rhodes retorquiu-nos que os factos são parvos!

Explorações

Fui dar com a Zazie no leito de morte a beijar a sua melhor amiga na boca e a brincar com os seios dela. Fez-se um silêncio contrafeito e logo: “Sempre quis experimentar isto e o tempo vai-me faltando, por isso...” Nenhuma delas foi capaz de me olhar nos olhos. “Ela disse que me deixava, e ...”
– E então? Soube-te bem? – Eu tinha que saber. Estavam com ar constrangido. A certa altura, a Zazie ergueu as mãos para a face da amiga e sorriu. Soltaram umas risadinhas e começaram a explorar os corpos uma da outra. Senti-me intruso. E quando vinha a sair, chorando, o estertor da morte abalou o quarto. Não olhei para trás.

19.2.04

Europanto

O que se segue foi inspirado por este post do Driving Miss Daisy e foi tirado daqui. O Europanto é uma "língua" inventada por um antigo colega meu, Diego Marani, o qual tinha uma coluna bastante popular no jornal belga "Le Soir" chamada "De Europanto Brikpolitik".

Comme Herr Clinton sexuale costumes testare
Wat besogne:

Herr Clinton
Fidel castro
Arafat
Saddam Hussein
Woytila
5 sac poubelle
Mme Paula Jones
Mme Lewinsky
Mme Hilary

Enferme Clinton, Castro, Arafat, Saddam und Woytila in eine room.
Demande aan alles de lower seine pants und de put el sac poubelle on seine kopf. Let Mme Paula Jones, Mme Lewinsky und Hilary inside und make ellas sit in front des 5 men. Demande aan ellas welke bigolo (*) recognize.
Primo van alles, bitte notice dat de Arafat bigolo esse facile recognizable, porque' porte altime eine Keffieh foulardo und dat de Fidel bigolo esse tambien facile recognizable, porque' smoke altime eine Habana.
If alle tres recognize de Clinton bigolo, dann Clinton est guiltable.
If solo Hilary recognize de Clinton bigolo, Clinton est innocent.
If Mme Jones und Hilary recognize de Clinton bigolo aber Mme Lewinsky le recognize nicht, dann Mme Lewinsky est false.
If Hilary recognize de Saddam bigolo, er must de security van de Witte Haus well checked esse.
If nobody recognize de Clinton bigolo, Clinton est eine megalomanno.
If someuna recognize de Woytila bigolo, est sacrilegio.

(*) Bigolo = Pilinha

O Silêncio é de Ouro #36


Foi há exactamente 45 anos que se editou pela primeira vez o disco de jazz que mais cópias vendeu até hoje: "Kind of Blue", de Miles Davis. E outra coisa não seria de esperar de um disco que é, no mínimo, perfeito. Uma gravação ímpar na qual Miles Davis, acompanhado pelo seu quinteto (que incluía Coltrane e Bill Evans), levou mais longe a chamada "improvisação modal" no jazz. Obrigatório em qualquer discoteca. Mesmo para aqueles que a não têm.

Raul Silva

Post It #69

O Kafka está morto. Viva o Kafka.

O Povo É Sereno #55

Em adenda ao último texto do Nuno Corvacho, que subscrevo até às vírgulas, note-se um curioso paralelismo suscitado pela coincidência de, na mesma página onde é publicado o incisivo artigo do "rebelde" (no PSD) José Pacheco Pereira (JPP), chapar-se também a habitual cronicazinha de Eduardo Prado Coelho (EPC).

E o paralelismo, na minha óptica, é este: como bem sugere o Nuno, embora militando JPP no campo da direita, por vezes adopta posições que podem fazê-lo passar por um "intelectual de esquerda" (exemplo: aborto) - a demonstração disso é que há tanto povo de direita que o considera "herético" quanto povo de esquerda que se revê nalguns dos seus escritos (ainda que não o confesse, por algum ridículo tique de "vergonha ideológica"). No caso de EPC, as barbas são idênticas, o estatuto de intelectual também, o alinhamento à esquerda parece inquestionável e é frequentemente reafirmado pelo próprio (não vá alguém deixar de reparar) - mas há tanto povo de esquerda que não se revê nem em muitos dos seus escritos nem na sua trajectória política recente quanto povo de direita que olha para EPC como "visita lá de casa" (e não tem pejo em procurar seduzi-lo em público).

Eis como, num certo sentido (não faço disto lei universal nem sequer axioma de ciência política), um intelectual e político de "direita" (caso de JPP) pode estar mais próximo da "esquerda", tanto quanto um intelectual e político de "esquerda" (leia-se EPC) pode estar mais próximo da "direita". Confusos? Eu também já tive mais certezas sobre a facilidade de fazer corresponder alguns políticos às categorias ideológicas clássicas da esquerda e da direita.

Post Scriptum #151

Segue-se um texto de proveito e exemplo do surrealista belga Paul Nougé (1895-1967)

«Uma mulher pobre, como há para aí algumas, não podendo encarregar ninguém de tomar conta do filho pequeno, viu­‑se forçada a aproximar­‑se de um banco de comunhão com o menino nos braços. No instante em que o padre se preparava para introduzir a hóstia na boca entreaberta – e não é sem repulsa que convocamos aqui uma cena cuja banalidade não poderá esconder o espantoso carácter equívoco –, o menino, a quem essa coisa esbranquiçada podia ainda parecer desejável, estendeu a mão para a agarrar.

«Ninguém ignora a destreza de que um padre consegue dar mostras para evitar um escândalo exterior, e o leitor certamente já está a ver com que gesto untuoso e firme ele afastou a mão impertinente. Mas, por três vezes, o homem viu­‑se impedido de alcançar os seus fins. Bom psicólogo que era, sentiu que, naquela situação difícil, teria de recorrer a algum meio mais poderoso, e, juntando ao gesto a fala que convém à mais tenra idade, murmurou ao ouvido do miúdo uma palavra de eficácia certa. «Caca» – disse o padre.»


Para protestos, trocas e reclamações é favor dirigir-se aqui.

O Povo é Sereno #54

Desculpem a publicidade mas isto também não acontece todos os dias. Leiam aqui o Pacheco Pereira porque a crónica dele não é coisa que se perca. O homem lança uma crítica cheia de lucidez sobre o Santana Lopes, que é tanto mais interessante e potencialmente devastadora quanto provém de alguém do mesmo partido (por mais cara de intelectual de esquerda tenha ele...). Seria bom que, depois de um artigo destes, as ambições presidenciais do nosso ex-secretário de Estado da Cultura (aquele cujo principal contributo para o país foi a invenção dos Concertos para Violino de Chopin, lembram-se?) ficassem definitivamente reduzidas a cacos, demonstrada que foi a inanidade do seu pensamento político. Mas a palavra é o que é, ela pode atordoar, abalar, mexer com as cabecinhas, mas até agora ainda não inventaram nenhuma que tivesse efeitos verdadeiramente letais. E o homem lá seguirá impávido, protegido pela armadura coriácea da sua vaidade. Será que vamos ter mesmo de conviver com isto? Ele irá mesmo candidatar-se? Salve-se quem puder!!! Depois do florescimento da música pimba, da transformação das televisões num imenso e fétido "Big Brother", da desgraçada vitória dos "sound bytes" sobre as ideias, e do estado comatoso para que foi relegada a política, só nos faltava mesmo o Santana Lopes na Presidência da República. Emigremos, pois! Ou então... ou então... ou então... eh pá!, pronto, pronto, chamem lá o Aníbal de Boliqueime, a gente perdoa-lhe tudo!

Post Scriptum #150

Visita a Elytis #4

E aí vai mais um trecho de Maria Nefeli, esse longo poema de Odysséas Elytis, segundo Nobel grego, em que dialogam as personagens da musa, Maria Nefeli, e do poeta, o Antifoneiro. Abaddón (nome hebreu) ou Apollyon (nome grego), é o princípe das trevas, o anjo exterminador.

Maria Nefeli diz:

PATMOS

É antes de a conhecermos que a morte nos faz outros;
esquivamo-nos a viver com as suas impressões digitais sobre nós
semi­‑selvagens de cabelo revolto
gesticulando sobre harpas ininteligíveis. Mas
o mundo foge...
Ai ai duas vezes não vem a beleza
não vem o amor.

Que pena que pena mundo
dominam­‑te futuros mortos;
e ninguém calhou ninguém
calhou de ouvir
sequer a voz dos anjos sequer as muitas águas
sequer aquele «vem» que sonhei durante noites de grande insónia.

Ir ali ali a uma ilha rochosa
onde o sol caminha de lado como um caranguejo
e todo trémulo o mar escuta e responde.

Armada com dezasseis bagagens com sleeping bags e mapas
sacos de plástico fotómetros e teleobjectivas
caixas de garrafas de água mineral
pus­‑me em marcha – pela segunda vez – e nada.

Às nove no porto de Mykonos
Desaparecia já entre ouzos e palavras em inglês
frequentadora de um céu ligeiro onde tudo
pesa duas vezes o seu próprio peso
enquanto o cordão umbilical
se estira desde as estrelas
para se partir e te perderes...

Adormeci como só se pode adormecer
sobre uma cama que aqueceram outras costas;
como se caminhasse por uma praia deserta
onde a lua sangrasse e nada se ouvisse
senão os passos do vento na madeira podre.
Com água pelos joelhos comecei a brilhar
por dentro com uma melancolia insólita
abri as pernas
e lentamente começaram as minhas entranhas
a cair malvas azuis alaranjadas;
inclinando­‑me com afecto lavei­‑as uma a uma
atenta sobretudo aos sinais como
cicatrizes que deixaram as mordeduras do Invisível.

Até as recolher todas no meu avental
avançava sem me mover
soava a música e atirava­‑me
pedaços de mar mais aqui – pedaços de mar mais ali.
Deus meu aonde ir quando não temos destino
aonde ir quando não temos estrela
vazio o céu vazio o corpo
e só a amargura redonda cheia
agitando os seus espinhos no meio da lua
como um ouriço­‑do­‑mar fêmea
que nunca se consegue apanhar.

Acordei numa casa estranha;
tacteando na escuridão a minha mão
por sobre a tesoura das unhas encontrou a ponta.
Solução de continuidade da pele
a ponta como solução de continuidade do mundo.
Aqui a perdição – ali a salvação.
Aqui o mercurocromo o tensoplast
ali a fera devastando solidões
uivando mordendo
arrastando o sol por dentro do fumo.



Quando ouvires o vento
é a tranquilidade convertida em vampiro.

E o Antifoneiro:

O APOCALIPSE

Estreito é o caminho – nunca conheci o largo
a não ser uma só vez
quando te beijava e ouvia o mar...

E desde então é, digo, é o mesmo mar
que tem devorado a dura pedra ao entrar no meu sonho
e aberto as enormes distâncias. Palavras que aprendi
como verdes saltos de peixes
escritas com giz azul
delírios que esqueci ao acordar
mas que sentia outra vez ao submergir­‑me e interpretar
João dos Amores
de boca para baixo
sobre os cobertores da cama de um hotel de província
com uma lâmpada nua na ponta do fio
e uma barata negra parada sobre o lavatório.
Para quê para quê ser homem
o grau mais sumptuoso do reino animal
que significa
senão que quem tem ouvidos ouça
não tema o que vai sofrer.

Eu não senti medo
eu não me resignei com humildade
eu vi três vezes a morte
eu fui expulso das portas.
Se tens ouvidos ouve. Eu ouvi

um clamor como de conchas de alto mar
e voltando­‑me no meio da luz subitamente vi
quatro rapazes morenos
que sopravam e empurravam empurravam e traziam
um estreito pedaço de terra cingido ao muro de pedra
com só sete oliveiras
e entre eles um velho que parecia um pastor
descalço de pé sobre a pedra.

«Eu sou», disse­‑me, «não temas
pelo que está escrito que hás­‑de sofrer»
E estendendo a mão direita
mostrou­‑me na palma da mão sete profundas incisões:
«Estas são as grandes tristezas
que se escreverão na tua fronte
mas eu tas apagarei com a mesma mão
que as trouxe».

De repente por trás da sua mão vi – apareceu –
um magote de muitos homens excitados pelo medo
que gritavam e corriam corriam e se lamentavam
«Aqui vem Abaddón aqui chega Apollyon».
Senti grande inquietação e uma raiva
me dominou. Mas ele continuou:
«Quem cometeu injustiça injustiça cometa ainda. E o sujo
que se suje mais. E o justo que seja mais justo.» E como suspirei
com paz infinita estendeu a mão
devagar por sobre a minha cara
e era doce como mel mas se amargaram as minhas entranhas.
«Terás de pregar outra vez a povos e nações
e muitas línguas e reis »
disse. E lançando brancas chamas fundiu­‑se com o sol.

Tal foi o meu primeiro sonho que não consigo
ainda distingui­‑lo das vozes do mar
nem conservá­‑lo intacto.
O sonho não se forma nas palavras.
A minha mentira é tão verdadeira
que ainda ardem os meus lábios.


Se não apoiares um pé fora da terra nunca conseguirás manter­‑te sobre ela.

Post It #68

What technique do you recommend for delaying ejaculation?

Recite poems in your head. Maybe Auden or Lewis Carroll, because they're rhythmic. You don't want to lose the flow, but it's just enough to distract you a little.


Conselhos sexuais pelos autores da Painted Bride Quarterly.

Post It #67


Nicolau Saião, nosso prezado colaborador, está hoje no Tempo Dual.

18.2.04

Post Scriptum #149

O GLOBO: A senhora sempre se interessou pela vida após a morte. Como encara a morte?

HILDA HILST: Uma chatice. E a velhice também. Acredito na vida após a morte. Li tudo o que pude sobre o assunto e não cheguei a nenhum entendimento. Acredito porque tive algumas experiências que reforçaram minha crença. Mas a experiência na matéria é empolgante. É uma merda envelhecer e morrer.

(...)

O GLOBO: Como é viver de literatura no Brasil? Qual é a mágica? Que conselho daria aos escritores que estão começando?

HILDA HILST: Não sei o que é, financeiramente, viver de literatura. Acho que poucos escritores sabem. Não sei de conselhos para novos escritores. Quem sabe que tem que escrever, escreve de qualquer jeito. E ponto final.

HORA DA CRÓNICA

"Segredos de Polichinelo", por Nicolau Saião.

Eu gostava de ser muito ingénuo, muito doce, muito parecido com a Sãozinha, com a Santa da Ladeira (que era ingénua e doce até dizer basta) ou com o senhor ministro Bagão Félix ( que como nos ensinou Camões, por antítese da antítese, significa feliz). E que me parece ser, sem brincadeiras, uma santa alma.
Previno já os mal intencionados – ou seja os que não são doces, nem ingénuos e, espero eu, felizes – que não vejam maldade, ou malícia, nesta recolha estética. Justifico-me já: todas aquelas personalidades, uma no capítulo da quase santidade (o dr Bagão Félix), outra na administração de bens (a Sãozinha, pois uma alma salva é um sumo bem), a última no capítulo da doçura ética (a Santa da Ladeira, que só de lhe vermos o vulto branco e ouvirmos alguns dos pretéritos raciocínios espirituais até a alma nos entrava em levitação), são um exemplo para todos nós - por vezes malcatrazes, por vezes desaustinados, frequentemente pecadores com todas as veras da estrutura corporal.
E se nós poderíamos ganhar, e muito, com a frequentação daqueles convivas do etéreo, digamos assim, outra entidade há que nem se fala! Refiro-me, com modéstia, ao Estado Português.
E isto porque, depois de muitos raciocínios em jeito de santíssima vigília, operosa análise misturada com a leitura de muitas notícias apanhadas nos jornais, em livros e até nos discursos do presidente Pinto da Costa e do meu autarca preferido – e não estou a brincar! – dr. Santana Lopes, concluí que o Estado Português, apesar da contra-informação, não é uma pessoa de bem, como se diz em vernáculo jurídico.
Com efeito, como pode ser pessoa de bem uma entidade que leva dez anos a pagar uma indemnização a um indivíduo que ficou debaixo dum muro (esmagado como uma mosca ou um civil colectado) ao serviço e por culpa do próprio Estado? Como pode ser pessoa de bem uma entidade que mente sistematicamente no quotidiano público, que se aboleta com os dinheiros que obrigatoriamente lhe cedemos e depois, ao invés de os gastar ao serviço dos cidadãos (pois o Estado não tem dinheiros dele, é apenas uma entidade administrativa) o malbarata sabe-se lá onde, tripudiando sobre os nossos corpos e as nossas almas de gente vulgar mas de brios?
Tem sido uma ficção ardorosamente acatitada essa historieta do Estado sério e honrado. É um imperativo moral e ético referir ao menos isto: o Estado luso é, metaforicamente falando, muito parecido com esses bandoleiros das novelas de aventuras que, de espingarda nas manápulas e punhal à ilharga, ferozmente tocaiam os incautos nas curvas da sombria floresta em que se tornou a vida nacional.
Desaparecem uns sacos do "cobre"? Pois bem, foi uma derrapagem orçamental. Uns tantos calmeirões fizeram evolar-se, por artes mágicas, continhas caladas? Foi um acto de contabilidade criativa, como agora se diz.
Juro-vos: como poeta, sinto-me envergonhado por causa do meu poder efabulativo estar a muitas milhas das obras-primas de léxico estatal que por aí se manifestam. Sinto-me deprimido. Abananado.
A solução é, se calhar, pedir pelas alminhas um pouco de iluminação interior. À Sãozinha, à Santa da Ladeira.
Ao dr. Bagão talvez não, pois trabalheira a valer com outros assuntos ingentes já ele deve ter, pessoa séria e devotada que é inapelavelmente.


Nicolau Saião

Post It #66

Jovens de todo o mundo, chegou a vossa hora. A hora da emancipação.

O Povo É Sereno #53

Como todos os dias, ao almoço, pus-me a ver o noticiário da 1 hora da A2 (o equivalente em França ao primeiro canal da RTP em Portugal), que é uma x-a-r-o-p-a-d-a, feita para as "donas de casa de 50 anos", como eles dizem em França. Todo moralista, essas coisas: é patente que não atendem aos/às "don@s de casa de 55 an@s (esta foi boa!)" como eu, vind@s das lutas estudantis e de uma ou duas revoluções perdidas. Bem, não interessa.
Fiquei a saber, entre outras coisas, que, nas estações de ski, já têm equipamentos e pessoal para ajudar os cegos a praticar tão nobre desporto. É bom saber como há pessoas interessadas na humanidade.
E, neste departamento, qual não foi o meu espanto e incontido regozijo quando soube que a firma farmacêutica Sanofi tinha descoberto um medicamento para (segurai-vos às cadeiras) combater o tabagismo e (segurai-vos melhor!) a obesidade! Fantástico! Que bom!
Verifiquei depois que a tal de Sanofi está a tentar comprar uma rival, a Aventis, e que isto se destina a seduzir os accionistas da concorrente para o grande negócio. Que bela é a ciência, não? Espero que, em breve, descubram qualquer coisa que combata o pé de atleta e aquelas coisas da próstata, co'os diabos! E já agora, a queda de cabelo.
Perguntar-me-ão, não se passou nada de mais no mundo? Sim, passou: houve um tipo que desligou o sistema de segurança duma correia transportadora noutra estação de ski. Porquê? Porquê? Perguntam os jornalistas ansiosos.
E as canalizações de chumbo, meus amigos? Ui nem vos conto! Fica para outra vez.

Não tem nada a ver



Só para não me chatearem, aqui vai a Zazie irrompendo no céu, com mais alguns parabéns para a Janela Indiscreta. Até novas informações, a malta aqui do Granito gosta bastante de vocês (grau 2Y da escala de Lichter).

Post Scriptum #148

Elytis em visita #3

Continuando a vasculhar a arca, aí vai mais um trecho do poema "Maria Nefeli". Desconfio que nunca será publicado em livro. Quase todo o poema (mais de cem páginas) é um diálogo entre o poeta (o Antifoneiro) e Maria Nefeli (à letra Maria Nuvem, a jovem musa). Neste trecho, os nomes dos anjos mais estranhos foram totalmente inventados pelo poeta. "Sathes e Mirioni" não sei o que é.

O Antifoneiro diz:
O PARAÍSO ORIGINAL

Não percebo patavina de pecados originais
nem de outros inventos do ocidente.
Mas em verdade ali longe
na frescura dos primeiros dias
antes da cabana da nossa mãe
que bem se estava!

As roupas brancas dos anjos recordo que as fechavam
pela frente mas as deixavam desabotoadas
como as batas das raparigas que trabalham nos cabeleireiros
maravilha – e todos os gerânios
num amplo terraço caiado
virados ao vento moíam
sem parar a negra migalha do sol.

Dias frescos de ocre e siena
em que a ilha parecia uma Lasíthi infinita
suave e pousada apenas
sobre o deslumbrante vidro martelado do mar.

De perna cruzada
na areia que o vento riscava
todas chispas de ouro das esporas
via galopar recordo
raparigas do siroco de frescas nádegas
desatando os seus cabelos de cítiso;
o meu coração frente às montanhas nuas
ducu-ducu soava como um barco a gasolina.

Foi no tempo da Folha Brilhante
quando reinavam Sathes e Mirioni.

De noite eu fazia sentido – dava-‑o aos rouxinóis
e o sonho o doce sonho estava cheio de meias luas
de riachos em dó maior para viola d'amore.

Havia malmequeres que se podiam comer
e outros que ardiam na escuridão como fogo de artifício;
mugiam os acantos e faziam amor;
sob os meus pés passavam estrelas
como cardumes e o desfiladeiro
azul escuro avançava nas minhas entranhas –
que bem se estava!

Os anjos atormentavam-‑me; muitas vezes
Juntavam-‑se à minha volta e perguntavam-‑me:
«que é a dor?», «que é a doença?», mas eu não fazia ideia.
Nem o sabia nem nunca tinha ouvido falar da
árvore pela qual entrou a morte no mundo.
Então? Era verdade a morte? Não esta, a
que virá com o primeiro soluço do recém nascido? Era verdade
a injustiça? A loucura dos povos? E as canseiras do dia-‑a-‑dia?

No leito das plantas sugava a verbena.
e todos os Arcanjos Miguel Gabriel
Oriel Rafael
Gabudelón Aker Arfugitonos
Belukós Zabuleón se riam movendo
as suas douradas cabeças como milho;
sabendo que a única morte a única é a
que os homens construíram com o seu pensamento

E a sua grande mentira foi que nunca existiu a Árvore.






A verdade «constrói-‑se» exactamente
como se constrói a mentira.
E Maria Nefeli:

O COMETA

Mas olha que fui criada para cometa
Agradavam-‑me as alturas até quando
ficava de boca sobre a almofada
de castigo
durante horas e horas.
Sentia o meu quarto subir
não sonhava – subia
tinha medo e gostava.
O que via era como dizer
algo parecido com a «recordação do futuro»
árvores e árvores que fugiam montanhas que mudavam de aspecto
campos geométricos de bosquezinhos escuros
como púbis – tinha medo e gostava
de tocar ao de leve os campanários
acariciar-‑lhes os sinos como testículos e perder-‑me...

Pessoas com leves guarda-‑chuvas passavam de soslaio
e sorriam-‑me;
por vezes batiam à vidraça: «menina»
tinha medo e gostava.
Eram «os de lá de cima» assim as chamava
não eram como «os de cá de baixo»;
tinham barbas e muitos seguravam na mão uma gardénia;
alguns entreabriam a porta da varanda
e punham-me discos extravagantes no pick-up.
Recordo «Anita de sandálias»
«O Geyser de Spitzburg»
«Não mordemos o fruto não virá o mês de Maio»
(e lembro-‑me ainda doutros)
repito – não sonhava
de repente aquele «Entreabre o teu vestido tenho um passarinho para ti».
Tinha-‑mo trazido o Cavaleiro-ciclista
um dia em que estava sentada e fingia ler
tinha apoiado a sua bicicleta
junto à minha cama com todo o cuidado;
depois puxou o cordel e eu enfunei-‑me no ar
brilhava a minha roupa interior colorida
observava que diáfanos se tornam aqueles que amam
frutas tropicais e lenços do longínquo continente;
tinha medo e gostava
o meu quarto subia
ou eu – nunca o percebi.
Sou de porcelana e magnólias
a minha mão provém dos antigos Incas
deslizo pelas portas como
terramoto infinitamente pequeno
que só os meninos e os cães sentem;
deontologicamente devo ser um monstro
e contudo a oposição
sempre me alimentou mas isso compete
julgá-‑lo aos dos chapéus bicudos
que conversam às ocultas de noite
com a minha mãe. Uma vez
a voz da trombeta de longínquos soldados
enrolava-‑se em mim como uma serpentina e todos ao meu redor
aplaudiam – restos de tempos incríveis
suspensos no ar.
No banho contíguo as torneiras estavam abertas
de boca para baixo na almofada
contemplava as fontes de branco imaculado que me salpicavam;
que bom Deus meu que bom
caída no chão ser pisada
e guardar ainda nos meus olhos
um luto tão remoto pelo passado.



Também ao contrário se veste a fantasia
e em todas as suas medidas.

Post Scriptum #147

HAMLET: Bom senhor, de quem são estas forças?
CAPITÃO: Da Noruega, senhor.
HAMLET: E para onde vão, sabeis?
CAPITÃO: Algures para a Polónia.
(...)
HAMLET: Marchais contra o coração da Polónia ou só para os termos de qualquer fronteira?
CAPITÃO: A falar verdade e sem rebuços, vamos ganhar umas terrinhas sem proveito mas que sempre dão fama; nem que fossem só cinco ducados não seria eu quem as arrendaria - nem vendidas mais dariam à Polónia ou à Noruega!...
HAMLET: Por isso os Polacos nem sequer as defendem...
CAPITÃO: Isso é que sim! Já mandaram para lá uma guarnição.
HAMLET: Não chegarão duas mil almas e vinte mil ducados para remir questão que não vale uma palha...

Post It #65

O Torneiras de Freud é um dos meus blogues de leitura obrigatória. Um dos mais originais, espirituosos e inspirados da pequena blogosfera portuguesa. Entretanto, renovaram as canalizações e pintaram a casa. Ora, vejam lá!

Umbigo #6

Mais respeitinho, se faz favor!

Pede-se à blogosfera que se levante quando falar no granito!

A propósito, já repararam que há uma grande quantidade de blogues de arquitectos? O mais estranho é este, feito só para contabilizar visitas e que tem imensos primos e primas.

Post It #64

Milagres da Ciência e da Estatística ou do Relativismo como Arte Aplicada à Irresolução dos Principais Problemas Com Que se Defronta a Nossa Sociedade

Lido no saboroso português-alemão de "Quase em Português":

"(...) li um conjunto de artigos sobre a explosão dos custos do sistema de saúde alemão, que tem entre outras orígens, como o envelhecimento da população, o alastramento vertiginoso de velhas e também o aparecimento de inúmeras novas doenças. Assim triplicou, por exemplo, no ano passado na Alemanha o número dos que sofrem de excesso de colesterol no sangue. (Se me lembro bem, entre os adultos agora 60%). O SPIEGEL explicou que este crescimento se verificou mais precisamente num só dia: Quando foi acordado entre as entidades médicas competentes e os seguros de saúde, baixar os valores considerados críticos. O SPIEGEL não seria o SPIEGEL, se não insinuava que esta decisão não era completamente indesejada por parte dos laboratórios que fornecem os respectivos medicamentos e dos demais grupos envolvidos no tratamento correspondente... "

17.2.04

Post Scriptum #146

"Não conheço ninguém que goste de Ruy Belo e não goste de Vitor Matos e Sá." Quem o diz é o nosso leitor Mesquita Alves. E para o provar, sugere a leitura de "Companhia Violenta", de Vitor Matos e Sá (1926-1975).


COMPANHIA VIOLENTA

É preciso que saibam: este rosto
não está à venda. Há quarenta
e cinco anos que o trago apenas
para dar e receber o espanto
do amor e do tempo, do eco e da rosa
e a violenta companhia
insubstituível do mundo.

Os amigos mortos e sepultados
sob este sorriso, também não estão
à venda - é com eles que entro
na força dos versos em que falo
de nós todos. Estes olhos
já leram Platão (entre outros)
já viram chegar a noite
nas grandes cidades, corpos proibidos
homens e mulheres sem paixão
moribundos face a face com o absurdo
de um tempo já maior de quanto há neles

e casais cumpridores que não gastaram nunca
um tostão de amor a mais.

Já todos dormimos em má companhia
(mesmo se nos limitamos a dormir
inteiramente sós - e até por isso)

Meus prósperos e
devotos irmãos atarefados, deixai-me
em paz. Ou então dêem-me um pouco
de tabaco ou mandem-me
de férias um postal (mesmo
que morra). Um póstumo
postal. E sem remorso.
Já que não se morre apenas
de falta de correspondência...

In "Companhia Violenta", Coimbra, Centelha, 1980.


AGENDA

Dia 19, quinta-feira, António Pedro Ribeiro dá um espectáculo poético, intitulado "Até Estoirar - The King is Dead", no Bar Município, em frente à Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, a partir das 23h00. António Pedro Ribeiro diz textos da sua autoria, de Rimbaud, de Mário Cesariny, Fernando Pessoa, António Maria Lisboa, Jim Morrison, Lou Reed, Mário de Sá-Carneiro, Adolfo Luxúria Canibal e outros. Segundo a organização "A entrada é livre, como tudo deveria ser". Mais informações através do 229 270 069.

Esta noite é inaugurada a exposição de fotografia "um olhar sobre a belavista", de yuri valy, na galeria-bar S O U K, Rua Marechal Saldanha, 6, em Lisboa.

Entretanto, Ricardo Carvalho sugere e aconselha o concerto dos Zu, dia 22, domingo, no Maus Hábitos, no Porto. Dos Zu, disse John Zorn: "You have created a powerful and expressive music that totally blows away what most bands do these days!"

Post It #63

Estou a traduzir um ensaio de Alois Riegl, primeiro grande teórico da conservação dos monumentos. Diz a certa altura:
“Mas, mal a criação singular do ser humano ou da natureza toma forma, começa logo a sofrer a actividade destruidora da natureza, cujos agentes mecânicos e químicos tendem a decompor de novo o obecto singular nos seus elementos e a fundi-lo na grande totalidade amorfa da natureza.”
(Alois Riegls Schriften zur Denkmalpflege, p. 70)
É curioso que (embora noutro ponto afirme que a natureza, tal como o ser humano, cria entidades singulares com forma) Riegl (escrevia no princípio do séc. XX) não possa conceber a totalidade da natureza senão como amorfa. Vêm-me logo à ideia os quintais que vejo da minha janela: rectângulos bem comportados dentro dos quais as árvores e as plantas se insubordinam. Para logo pensar também: as florestas não têm forma? Claro que têm, a obra da natureza é uma criação/destruição constante de novas formas que segue as suas “leis”. As quais não têm que ser conformes com o espartilho que a propriedade privada e a apropriação privada lhe querem impor.
A faúlha da poesia só surge quando essa forma externa e a nossa forma interna se fundem por "milagre".

Post Scriptum #145

Mais Elytis

Ora aí está mais um excerto de "Maria Nefeli" de Odysséas Elytis, segundo grego a ser distinguido com o prémio Nobel de poesia. Elytis, um dos primeiros surrealistas gregos, que se desviou do movimento mas não o renegou, é difícil de apresentar, sobretudo num blogue, pois os seus poemas mais importantes têm a extensão de livros, cuja arquitectura é importante para o sentido. Assim, estes excertos só poderão ser considerados ligeiras amostras do que constitui a obra.


O Antifoneiro diz:

PAX SAINT TROPEZANA

Que paspalhona me saiu ultimamente a Terra!
Anda­-me a quatro e funga de alegria
sus sus!
Glória aos pais dos regimes
reina a paz
pequenos animais atrás dos grandes ali navegam barcos...

Mamas pintadas calças de duas cores
enormes chapéus de palha de todos os modelos
brasões de ricos príncipes candidatos a masoquistas
escritores à distância
actores de vinte e quatro horas
mijam no mar e dão pequenos gritos
centro-europeus:
u-u u-u!

Lá em cima no céu negros vazios
entreabrem-se e a osmose
das almas deixa transbordar um denso fumo.
De vez em quando surge o olhar de um Santo
mais feroz que nunca
«não tem importância a importância está noutro lado»
uma multidão multicolorida anda às apalpadelas
arrastando-se de olhos semi-cerrados
sus sus!
Pax
Pax Saint Tropezana
reina a paz.
Tudo se diz eurocentralmente
se faz se refaz
com facilidades a prestações.
Tempo de reposições:
rebenta pneu – põe-se pneu
perde-se Jimmy – encontra­-se Bob.
«C'est très pratique» dizia Annette
a bela empregada de mesa do Tahiti.
Dezanove amantes lhe gravaram o nome no peito
junto com o lugar de onde vinham
uma pequena geografia de ternura.

Mas creio que no fundo era homossexual.



Come o progresso
com as suas cascas e caroços.

E Maria Nefeli:

O PLANETA TERRA

Ah este planeta não é feito
apenas de galinhas e carneiros
e outras estúpidas criaturas curvadas.
No extremo do Universo o desleixado
com os seus oceanitos
com os seus Himalaiazinhos
com os seus quatro biliões de bípedes sem asas
que lutam sem parar por altares e lares
fontes de petróleo e outras férteis regiões.
Este não é um planeta
saqueado por ventos envenenados
exposto a chuvas de meteoritos
a pensamentos de filósofos
a grandes lutas pela liberdade
(sempre a nossa – nunca a dos outros).

Um xadrez para corvos amestrados
em ganhar sempre nos dois tabuleiros
«negras aves» a que chamam «negros augures».

Não não este não é um planeta
antes um errar que leva muito longe
a Zeus a Cristo a Buda a Maomé
que também a certa altura tiveram
que se fanar para que todos nós
por simples inércia
ficássemos na posição ajoelhada.

A contagem decrescente até à completa destruição.
A única coisa que ficará intacta
será a vingança.
O ferro e a pedra lá têm os seus recursos
hão-de abater-nos
e entraremos numa nova idade de pedra
tremeremos de medo entre brontossauros enlouquecidos;
então teremos talvez saudade
da exactidão e perfeição
de um relógio Patek Philippe.

E vós Senhores da Tecnocracia
um pouco mais para a direita por favor:
guardai-me um lugar em Alfa de Centauro
e logo se verá.


Infelizmente até a terra
gira à nossa custa.


Post Scriptum #144

JUÍZA: Qual é a sua profissão?
BRODSKII: Escrevo poemas. Faço traduções. Suponho...
JUÍZA: Guarde as suas suposições para si... De maneira geral, qual é a sua especialidade [como trabalhador]?
BRODSKII: Sou poeta. Poeta-tradutor.
JUÍZA: Quem decidiu que o senhor era poeta? Quem o classificou entre os poetas?
BRODSKII: Ninguém. E quem me classificou no género humano?
JUÍZA: E que estudos fez para esse fim?
BRODSKII: Qual fim?
JUÍZA: Para ser poeta. Não procurou fazer estudos superiores, preparar-se... aprender...
BRODSKII: Não pensava que isso se pudesse aprender.
JUÍZA: E então como se tornaria poeta?
BRODSKII: Penso que... é um dom de Deus...


Tradução de Carlos Leite.
Iosif Brodskii, Paisagem com inundação, Cotovia, 2001.

Cimbalino Curto #67


E ainda a propósito de certos acontecimentos que ocorrem nas bibliotecas do Porto, repare-se nesta imagem de Harry Bliss, concebida para a capa da revista New Yorker, de Junho de 2002.

Aqui há uma versão ampliada da imagem.

Hora da crónica. Por Ruy Ventura.

Comecei a publicar em inícios dos anos 90 em jornais de difusão regional, considerando (ontem como hoje) serem eles os mais discretos - e, muitas vezes, os mais importantes - mensageiros da informação que se aproxima das pessoas e de uma parcela fundamental da Cultura do nosso país. E, se mais valor não tivessem, bastar-lhes-ia serem talvez o único elo que vai ligando tantos portugueses à leitura, nesta "sociedade da informação" que informa pouco, entretém muito e manipula demais.
Muitos destes jornais vivem dentro de limites: limites no espaço da sua difusão, limites de tempo e económicos de quem os põe de pé mês após mês, semana após semana, limites de quem procura dentro deles um equilíbrio local (sempre instável), dentro de comunidades humanas quantas vezes fechadas, dominadas por caciques sinistros, na procura (nem sempre conseguida) de uma informação regional não provinciana. Alguns deles chegam mesmo a ser sufocados por interesses obscuros, encarnados por gente muito duvidosa que procura transformar a imprensa escrita em instrumento de poder, de autoritarismo e/ou de manipulação ideológica, em veículo de inveja, de mediocridade, de vingança e/ou de chantagem. Outros há, porém, que são autênticos exemplos de heroísmo cívico, resistindo com todas as forças de quem os escreve e dirige ao assalto anti-democrático de certa gente que utiliza como arma de arremesso social a legitimação popular emanada de eleições, que tenta enganar uns e outros invocando o nome de um Deus em que não acreditam, que se dizem defensores de uma paz (podre) que esconde apenas violência interior e cobardia. Pessoas que usam estes meios para camuflarem as suas reais intenções: calar vozes incómodas, alimentar clientelas políticas e de outra índole, acabar com a qualidade para que a sua mediocridade nunca se revele, estupidificar para que a cidadania não passe dum chavão - e assim possam saciar a sua sede de domínio.
Por tudo isto considero tanto a imprensa regional e local, pois tenho como certo e inegável o seu papel de discreta mensageira - veículo privilegiado de comunicação entre os membros de uma comunidade e desta com o exterior, ponte cuja extensão consegue ligar à terra (ao húmus materno, humilde e religador) quantos nela residem ou quantos dela partiram em busca de outra dignidade, retrato-memória de um tempo local(izado), de uma identidade enraizada - "uma memória qualificada de um tempo e de um modo de viver", para utilizar a expressão feliz de José do Carmo Francisco.
Isto anda tudo ligado - dizia Eduardo Guerra Carneiro (poeta-jornalista recentemente falecido e de que já temos saudades)... Num mundo consumista em que os "patos bravos" não têm atingido qualquer período de recessão, mas vários de infestação, num tempo em que a comunicação social se aproxima do inconcebível - contra a Ética e a Cidadania, a favor da chantagem e da destruição, procurando audiências a todo custo, nem que para isso seja preciso dar cabo da dignidade do Homem pondo em prática numa ditadura encapotada, os jornais regionais devem ser cada vez mais instâncias de qualidade e de dignidade. Concretizam assim uma missão importantíssima: aproximar a informação do cidadão, não para o apagar na sua individualidade mas para o elevar; levar à mesa dos portugueses a verdadeira Cultura, aquela que ilumina e abre horizontes; estimular a criatividade individual e colectiva; promover a liberdade de pensamento e de expressão; ajudar a construir - com todas estas pedras angulares - uma sociedade verdadeiramente democrática.


Ruy Ventura

16.2.04

O Povo É Sereno #52

Ética da tradução

Bem, lá pus a palavra "ética" de que gosto só assim assim, porque para mim costuma designar moral com gel, para brilhar melhor. Mas, não interessa. Este post é só para celebrar uma colega tradutora, Katharine Gun, a quem foi posto um processo por revelar segredos profissionais. Celebrar com atraso, mas ai, esta preguiça...

A dita trabalhava no GCHQ (Government Communications Headquarters), uma geringonça qualquer do governo inglês que faz uns biscates de espionagem juntamente com o MI5 e o MI6. Em Março foi detida por denunciar uma acção americana de espionagem contra um grupo de seis países que se preparavam para apresentar na ONU uma proposta alternativa relacionada com as armas iraquianas.

Katharine incorria em pesada pena por força do "Officials Secret Act" (lei que impõe o sigilo aos funcionários públicos), mas agora o governo inglês está sem saber que fazer. Os embaixadores do Chile e do México deram com a língua nos dentes e se Katharine for julgada as autoridades britânicas podem ser obrigadas a revelar pormenores que não queriam.

Post Scriptum #143

Fundador do Movimento Surrealista Peruano, Emilio Adolfo Westphalen (1911-2001) foi um dos mais importantes poetas da América Latina surgidos ao longo do último século. Escreveu, entre outras obras, "Las ínsulas extrañas", "Belleza de una espada clavada em la lengua", "Arriba bajo el cielo" e "Nueva serie de escritos", tendo alguns deles sido publicados originalmente em Lisboa, durante a sua estadia enquanto adido cultural da embaixada do Peru, nos anos 80. Hoje publicamos um dos seus poemas incluídos em "Abolición de la muerte", livro editado em 1935, numa excelente tradução de Nicolau Saião.


POEMA
Emilio Adolfo Westphalen

Amarrado à sua sombra o bosque
Abria caminho às pegadas ardentes
Os faunos carreavam os regatos
E nos cornos da Lua uma flauta trilava
A ninfa na encosta sobre o braço descansava
Estios de florais prestígios
Entreteciam desenredavam as brisas
Nas têmporas da bela adormecida
Como se dois meninos com ele folgassem
Tantas voltas dava o mundo
De mão em mão se via percorrido
De vermes com chapéu de copa e dignidade
Os rios não se atreviam
A tocar a orla das cidades
De longe as cantavam e em surdina
Para não quebrar a quietação das muralhas
Ou turvar no recinto
A clara canção dos menestréis
Ali aparecia a bela adormecida coberta de sóis
Os seus ardentes passos tanto mediam o solo
Como o firmamento
Uma sombra de oliveiras sob os olhos
Murmúrios de água para as mãos
No mar esses olhos flutuavam sempre
E esta rama de loureiro de horizonte a horizonte
Adorno dos sonhos pendentes do céu
Não viste um sorriso fiar uma paisagem
A moçoila rindo com o céu gotejando de suas mãos
Mais sombra me davam as pestanas dela
Que uma alameda sob o triplo peso
De folhas ventos e céus
Não viste entreabrir-se a alvorada
Sobre as neves como uma fronte
Alumiando o sol e as estrelas
E a mão mais clara que a água com seu rumor
Assim me atravessaram desde a manhã à noite
As músicas geladas os dedos de aço
Com cercaduras novas seu rosto não descansava
Já sobre a dália ou sobre a nevada
Já na brisa ou no próprio coração do inverno
E na outra mão o ceptro do estio
E no outro pé o sol do outono
Os olhares carregados de resplendores de oceanos ensolarados
Cruzando o Mediterrâneo os golfinhos saltavam
Nos ares quedavam-se as tartarugas
A moçoila não despertara ainda
A flor era a plenitude dos espaços.

Tradução de Nicolau Saião.

Alguns recursos sobre Emilio Adolfo Westphalen, aqui.

A Gerência Agradece.

O nosso espião informático, vulgo sitemeter, indica que praticamente todos os dias recebemos leitores que chegam através dos motores de busca pelos motivos mais bizarros. Não há aqui novidade nenhuma. Já muitos blogues trataram pormenorizadamente este assunto. Este fim-de-semana, porém, aconteceu algo que prova que estamos a fazer um bom trabalho. Alguém aportou a este blogue em busca de "poemas de Herberto Helder traduzidos para português". Este é definitivamente o nosso objectivo: oferecer alguma originalidade, por pouca que seja. Caro leitor, esperamos que a visita tenha valido a pena.

Cimbalino Curto #66

O Rui Amaral já tinha avisado: vale mesmo a pena ver "Ilhas", peça de José Carretas em cena na antiga Central Eléctrica do Freixo/CACE Cultural até 7 de Março. O texto e a encenação recriam com alma - característica já habitual em Carretas, para quem viu outra produção sua, "A Tituria", em 2001 - o quotidiano das ilhas, as relações entre os seus habitantes, os seus sonhos e desilusões, as suas idiossincrasias, os dias de festa e os momentos de solidão. Os actores, mescla de profissionais e "amadores", emprestam corpo e espessura ao enredo e conseguem aquilo que se espera, afinal de contas, do teatro: que nos faça rir e chorar quase ao mesmo tempo. E assim, ao cair do pano, percebemos que este retrato das ilhas não é mais do que um retrato do humano que há em nós, em todos nós, "ilhéus" ou não.

Umbigo #5

Portanto, fui visitar uns amigos à cadeia. Não exactamente à cadeia, mas às portas da cadeia. E esses amigos apresentaram-me a outros amigos. E fiquei impressionado com as coisas que me contaram. Quer dizer, com a quantidade e qualidade dos crimes que certas pessoas são capazes de cometer. Por exemplo, durante um ano, um perigoso gang de cinco tipos e mais três cúmplices entraram em não sei quantas casas e escritórios sempre pela janela. E o mais estranho é que não roubavam nada. Apenas se divertiam a bater nos olhos e na cabeça das pessoas. E que dizer de outra amiga deles que se fazia passar por uma respeitável vendedora de enciclopédias e era capaz de fazer trinta por uma linha ao leitor desprevenido? Perante isto, sou forçado a concordar com o ministro Portas: penas mais pesadas sobre estes malandros.
E pior do que tudo: fui e vim de lá com um piolho na cabeça.

O Povo É Sereno #51

Às vezes penso que realmente a nossa época é muito pretensiosa. Tomemos uma das coisas mais radicalmente novas: as novas (ora aí está) tecnologias.

Que são elas? A criação de códigos que armazenam informações e um conjunto de relações entre dados, os quais funcionam para obter determinados resultados e são depois materializados (e protegidos) em suportes materiais.

Reproduzir esse mecanismo é fácil, barato e dá milhões, (mas) criá-lo custa (só) trabalho (intelectual). Daí as lutas em torno da “propriedade intelectual”. Bem, com esta da “propriedade intelectual”, já estou a afastar-me um pouco do assunto, ou talvez não.

Isto é novo? Ora, isto é o que faz há milénios a mais antiga actividade económica da humanidade, a agricultura, na selecção de sementes. Daí as lutas em torno da “patenteação do vivo”. Bem, com esta da “patenteação do vivo” já estou a afastar-me um pouco do assunto. Ou talvez não?

Aqui se interrompe o manuscrito.

O Povo É Sereno #50

É extraordinário como os nossos instrumentos de pensamento «racional» ainda estão dominados pela mecânica (racional, precisamente) e como a nossa mente não está preparada para afrontar os problemas do presente e do futuro! Num artigo publicado no “Público” (onde havia de ser?), Salgado de Matos fala da clonização terapêutica, dizendo:

«Dentro de anos, não haverá morte: quando fraquejarem o coração, os pulmões, o fígado: o tecido doente será substituído por outro, saudável, produzido em laboratório. Este processo de substituição é susceptível de ser prosseguido sem termo: os hospitais porão no lugar de tecidos doentes outros, sãos (...) A eternidade está ao virar da esquina. O que, claro, agravará o défice da segurança social - excepto se a idade de reforma for diferida para os 17577 anos. »

Estende-se depois para outras questões de ordem ética que agora não me interessam. Interessa-me sim que ao autor nem sequer se põe a pergunta: e então como funcionará um coração de jovem num corpo de velho? É que não somos apenas uma soma de fígados, corações, etc., isto é, de peças mecânicas. Só para exemplificar: e todos os músculos e ossos envelhecidos e que têm decadência e morte marcadas nas suas células? Como reagirão a um coração sempre alerta a puxar por eles?

Teremos então de substituir todos os músculos e ossos (bem assim como o cérebro?) no ser em questão. Mas, isso é um clone total! A eternidade é então a construção de um novo ser “igual” ao antigo, mas que não vai viver as mesmas experiências e portanto é diferente. Não sei se me faço entender.

Aqui se interrompe o manuscrito.

15.2.04

Post Scriptum #142

Rubrica “Dia de S. Valentim é todos os dias”.

O BORDEL DA DANAIDE
Georges Bataille (França, 1897-1962)

Minha puta
meu coração.
Amo-te como quem caga
Empapa o cu na tempestade
rodeada de relâmpagos.
É o raio que te fode
brada na noite um louco
entesoado como um cervo.
Ó morte o cervo sou eu
devorado pelos cães
A morte ejacula em sangue

Tradução de Jorge Sousa Braga.
Qual é a minha ou a tua língua? – Cem poemas de Amor de outras línguas, Assírio & Alvim, 2003.

Umbigo #4

Ontem fui visitar uns amigos à cadeia. Ou melhor, à porta da cadeia. Amanhã falarei mais detalhadamente sobre este assunto.

P.S.: Quem viu, nos últimos dias, um helicóptero de guerra a sobrevoar estas páginas, viu mal.

14.2.04

Corações Vermelhos ao Alto

Aqui e aqui e aqui comemora-se o Dia de São Valentim de maneira especial.

Entretanto, este sábado, a Janela Indiscreta deve estar a comemorar um ano de blogosfera algures no Porto. Um grande abraço para todos e todas, amigos e amigas, conhecidos e primas.

13.2.04

Cimbalino Curto #65

O PORTO NO DIVÃ

Impedido que estou, por motivos profissionais, de acompanhar presencialmente o encontro organizado pela Reitoria da Universidade do Porto e dedicado ao tema "Porto Cidade Região", que hoje termina na Faculdade de Engenharia, resta-me procurar contribuir, através deste artigo necessariamente breve, para uma reflexão oportuna sobre uma cidade de quem se tem dito estar "deprimida".

Julgo ser facilmente constatável que, no Portugal contemporâneo e, em particular, desde a década de 80, nenhuma outra cidade como o Porto tem sido simultaneamente sujeito e objecto de tantas e tão exaustivas análises. Os portuenses dedicam uma parte não negligenciável do seu tempo a discutir apaixonadamente a sua cidade, sendo possível encontrar os mais diversos diagnósticos dos males que a afligem a cada esquina: na comunicação social, nos discursos políticos, nos estudos académicos, nos locais de trabalho, nas conversas de café e até nas refeições em família. Tudo é dissecado ao pormenor e as sentenças são quase sempre impiedosas: o Porto – como, aliás, o resto do país – é vítima da macrocefalia e do centralismo lisboetas; o seu tecido económico é excessivamente atomizado e vulnerável; não consegue fixar os seus melhores "cérebros" e quadros qualificados; a cena cultural portuense só aos poucos vai perdendo algum do seu provincianismo; a qualidade média dos seus líderes políticos e económicos é baixa; o futebol assume um peso exagerado na projecção externa da cidade; etc., etc..

Com efeito, o Porto não digeriu com facilidade a perda de importância política e económica a que foi submetido ao longo de décadas. Esvaziado, desde há muito, de poder político, concentrado no Terreiro do Paço, também os centros de decisão económica foram sendo progressivamente deslocados para a região de Lisboa, fruto da política de privatizações empreendida pelos governos de Cavaco Silva. Por outro lado, após uma década de governação socialista da cidade protagonizada por Fernando Gomes, e que lhe devolveu alguma da auto-estima perdida, foi a vez da entrada em cena de uma coligação de direita que fez da ruptura com o passado (fosse positivo ou negativo...) uma espécie de obsessão. Nem mesmo trunfos como a forte identidade artística e cultural da cidade, com exemplos em diversas áreas (Manoel de Oliveira no cinema, Siza Vieira na arquitectura, Agustina Bessa-Luís na literatura...), ou a existência da maior e uma das mais qualificadas universidades do país, foram suficientes para estancar este processo decadente da cidade. O Porto, outrora orgulhoso do seu carácter "invicto", sofria agora derrotas sucessivas – em que avultou a do referendo sobre a regionalização – e não se mostrava capaz de esboçar uma reacção eficaz.

No entanto, e não obstante as terapias para o estado negativo do Porto actual serem conhecidas e amplamente discutidas, elas tardam em ser concretizadas, seja por desinteresse do poder central, seja por incapacidade dos poderes locais – ou até pela acção conjugada de ambos os factores. Eis as propostas mais recorrentemente citadas como sendo essenciais para a redinamização do Porto: criação das regiões administrativas, abrindo caminho à correcção das assimetrias regionais; transferência das sedes de alguns serviços públicos para fora de Lisboa; recomposição da classe empresarial, culturalmente mais esclarecida e tecnicamente melhor preparada; renovação da liderança política através da substituição dos autarcas "dinossáuricos"; criação de meios de comunicação social autónomos, nomeadamente na televisão por cabo; investimento nas redes científicas, envolvendo universidades, centros de investigação e empresas; dinamização de políticas culturais activas, na esteira do trabalho encetado no âmbito do Porto 2001; promoção de políticas sociais capazes de atenuar as consequências do desemprego, da pobreza e da exclusão social; entre outras.

Se o Porto está "deprimido" devido ao pessimismo persistente das suas "elites", como afirma Rui Rio, ou se tal se deve às opções políticas do actual Governo e da actual gestão autárquica, que agravaram as feridas da cidade, é certamente tema para opiniões desencontradas. Mas o certo é que, coincidência ou talvez não, o discurso sobre a "depressão" só atingiu as actuais dimensões desde que o PSD e o PP tomaram conta do Porto e do país.

(Publicado n'O Primeiro de Janeiro de 13-02-04)