30.7.04

O Povo É Sereno #138



George W. Bush, Dick Cheney e outro gajo qualquer após o visionamento do último filme de Michael Moore, "Fahrenheit 9/11", na sala de cinema de um dos seus ranchos de férias. Segundo fontes da Casa Branca, o Presidente americano apreciou tanto o documentário que se deixou convencer pelas acusações que aí se fazem contra si, tendo ordenado a realização de um inquérito "livre e independente" sobre as circunstâncias em que foi desencadeada a guerra no Iraque (da qual, de resto, já não se lembrava bem).

O Silêncio É de Ouro #119



"Ritual de lo Habitual" (Warner Bros., 1990), dos recém-novamente-extintos Jane's Addiction, abriu os anos 90 como um dos melhores discos de rock - dessa e de outras décadas. Verdadeiramente viciante.

Post Scriptum #313



Diante dele estava Schiller - não esse Schiller do "Guilherme Tell" e da "Guerra dos Trinta Anos", mas o famoso Schiller, latoeiro da Rua Mechánskaia. Junto a Schiller estava Hoffmann - não esse Hoffmann escritor, mas o sapateiro bastante bom da Rua Ofitsérskaia, grande amigo de Schiller. Schiller estava bêbado e sentado numa cadeira, batendo o pé e falando com ardor de qualquer coisa. (...) Schiller estava sentado, expondo, de cabeça erguida, o seu nariz bastante grosso; Hoffman agarrava o dito nariz com dois dedos e movia a lâmina da sua faca de sapateiro rente a ele. (...) As palavras de Schiller eram as seguintes:
"não quero, não preciso de nariz! - dizia, com as mãos a abanar. - Só o nariz me gasta três libras de rapé por mês. (...) É uma roubalheira! Pergunto-te, amigo Hoffmann, não terei razão? - Hoffmann, também bêbado, respondeu afirmativamente. - Vinte rublos e quarenta copeques! Sou alemão da Suábia, tenho meu rei na Alemanha. Não quero ter meu nariz! Corta meu nariz! Eis aqui meu nariz!"

Nikolai Gógol, Avenida Névski. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Rui Manuel Amaral

Vai no Batalha #25

Era a confirmação que faltava (mas de que muitos já suspeitavam) para apimentar este estio despreocupado: o "sagrado matrimónio" é mesmo uma instituição em crise. O Le Nouvel Observateur chama ao fenómeno os "novos jogos amorosos" e convoca a douta opinião de meio mundo (francês, mas a parte e o todo confundem-se).

29.7.04

Post It #181

BOUTIQUE QUARTZO, FELDSPATO & MICA.



É com o maior prazer que lhe apresentamos o primeiro artigo da Boutique Quartzo, Feldspato & Mica. O original e belíssimo Pisa-Papéis QF&M. Concebido em granito de elevada qualidade e de acordo com as mais avançadas normas de higiene e qualidade. Um artigo que prestigia o seu proprietário. Com um preço de lançamento absolutamente imperdível: 563,99 euros a pronto ou em cinco suaves prestações de apenas 100,99 euros. Encomende já.

Em breve na Boutique Quartzo, Feldspato & Mica: a Pedra do Amor e a Pedra do Dinheiro.

Rui Manuel Amaral

O Silêncio É de Ouro #118



"Odelay" (DGC, 1996) é, entre outras coisas boas, também uma fabulosa colecção de "hinos" pop servida por uma capa (e site) inesquecível. Beck não costuma perdoar.

28.7.04

Post Scriptum #312

Mesmo em férias, o Rui Amaral não deixa de estar atento ao Quartzo, ainda que por interposta pessoa. Hoje enviou-nos Adília Lopes (Portugal, n. 1960).




Apanhei o cabelo
em rabo de cavalo
agora a minha solidão
vê-se melhor
vê-se tão bem
como a minha face

E a minha face
é desassombrada 
as sombras
não são minhas.


(Revista Relâmpago, nº 14, 4/2004)

Post Scriptum #311


Karawane

Poema de Hugo Ball (1886 - 1927), impossível de traduzir, lido pelo autor no Cabaret Voltaire em Zurique, em 23.6.1916.

27.7.04

O Povo É Sereno #137

Quem sai aos seus...

É só um pequeno pormenor. Mas é nos pequenos pormenores que se revelam as grandes almas. A propósito de Teresa Caeiro, que esteve para ser, mas já não foi, secretária de Estado na Defesa, Paulo Portas justificou a escolha dizendo que era filha e neta de militares.

Ora bem: quer isto dizer que, segundo Paulo Portas, a boa recomendação para um cargo é ser filho/a ou neto/a disto/a ou daquilo/a. Já viram justificação mais sorna do princípio dinástico? (E, de facto, abundam em tantos quadrantes, bem expostos, os filhos, netos e sobrinhos das boas famílias de antigamente...) 

De rir é que Marcelo, o professor público, tomando isto por ouro de lei, achou despropositado meter alguém sem experiência em tão Alto Posto Governativo. Ao que o PP (Partido Popular) retorquiu, dizendo que a referida 13a, também é (acessoriamente?) Auditora de Defesa. Sabem que mais? Eu sei, mas não digo.

Umbigo #56

Ora, isto aqui, sem o Rui, Manuel, Amaral, está um deserto, vê-se.

Volta depressa, pá. Aqui estou doente. Manda um cravo para a gente. Com um cheirinho de alecrim.

Bem, temos de postar nós.

E, a propósito, esse Fernando Rocha é o que eu chamo porco. Toda a gente sabe que nós, no norte, quer dizer, no Porto, falamos mal como o castanho. Mas ninguém leva a sério porque as palavras grosseiras, nas nossas bocas, não querem dizer o que dizem, tomam um significado derivado.

Ele, Rocha, consegue a proeza de lhes restituir o significado original, o que o torna subidamente porco.


Post Scriptum #310

Como se tornou moda para outros autores e criadores (por exemplo, Einstein), também Bertolt Brecht foi acusado de não ter escrito as suas peças, de ter explorado as mulheres com quem trabalhava, ou melhor, que trabalhavam para ele.

Brecht fez como muitos outros escritores: utilizava o trabalho de auxiliares (mulheres, mas não só), os quais lhe forneciam o material que depois ele revia, dando-lhe unidade de estilo.

O que é menos conhecido, é que Brecht também trabalhava para os outros, e inclusive, para Elisabeth Hauptmann, uma das mulheres que ele explorava segundo os críticos. De resto, uma das peças que Brecht escreveu, "Santa Joana dos Matadouros" é baseada numa peça de Elisabeth Hauptmann ("Happy End") que Brecht ajudou a escrever, nomeadamente "fornecendo" as partes em verso.

23.7.04

Umbigo #55 com beijinhos & abraços

E pronto. É a minha vez. É tempo de fazer-me à estrada e gozar umas imerecidas férias "cheias de cultura, charme e glamour"(1). Pela minha parte, agradeço a preferência e "despeço-me com amizade"(2). Deixo-vos na companhia dos restantes membros deste "grupo de trabalho fantástico"(3) que, durante os próximos dias, assegurarão os "serviços máximos"(4). Boas leituras e até já.

P.S.: Não resisto a fazer uma última sugestão cultural para estas férias: o último volume da trilogia "Portugal a Rir", de Fernando Rocha, o genial criador de personagens eternas como Matumbina, Tibúrcio e Rasteirinho.

(1) BOBONE, Paula, "Profissionalmente Correcto", Bertrand, s/d.
(2) VELOSO Sousa, "TV Rural", Volume LXIX, 1964.
(3) MOURINHO, José, Jornal "A Bola", 23/4/2003. p. 23.
(4) CORREIA, Palmira, "O Lado Oculto de Maya", Editora Garrido, 2002.

Ilha dos Amores #71



COMO TORDOS

Era um dos rostos mais marcados do cinema francês. Se calhar mundial. Pelo rol de enganos e desenganos que a vida nos tenta fazer passar sobre o esqueleto que se lhe reflectia na frontaria.
Os seus eram anti-heróis conscientes, gente a quem a polícia atinge em cheio na fronha, a quem o quotidiano marca que nem ginjas. E no entanto, de acordo com os amigos e confrades, era pessoa alegre, com um senso de humor a toda a prova, um ironista manso com eles no sítio. Aliás, olhando bem, distinguia-se nos seus olhos um brilhozinho de inteligente malícia. Lembram-se dele no "A vigésima quinta hora" na figura do anti-autoritário poeta Train Koruga? O amigo e vizinho do Anthony Quinn que passava as passas do Algarve com os nazis na pele de um camponês romeno. Pois, o do romance do Virgil Georghiu...
Diz-se que Bruno Coquatrix, quando estava à rasca de elenco no Olympia, se virava para um assessor e dizia com o charutão a crepitar: "Chamem-me o Reggiani...!". Era limpinho, ele garantia a sala cheia e duas três horas de emoções sem qualquer sabor a rolha... Recordam-se de "La barbe a papa", "L'armée du brouillard", "Les loups", "L'éxilé", "La vieillesse" entre tantos êxitos de estirpe real?
Estão a cair como tordos, neste Verão alucinante. Ele e Carlos Paredes (vai haver, no Tempo Dual, poema meu a assinalar o triste óbito), lá foram de braço dado, como dois "copains du petit jour", um para tocar guitarra e outro para cantar lá nos "transcendentes recantos" onde são outras as músicas.
Reggiani? Um gajo teso, um companheirão a toda a prova, um fulano que gostava de andar de cara levantada. E que cantava já não digo como um anjo, que a voz era mais de sereno aventureiro, mas que nos fazia pensar um bocado nas maravilhas que o mundo tem para nos dar se as soubermos ver com olhos intactos e generosos.


Nicolau Saião

Cimbalino Curto #104

Excelente, a peça de Andrea Cunha Freitas sobre a inauguração de um parque infantil na zona de Bessa Leite, presidida por Rui Rio e Paulo Cutileiro. A partir de um facto relativamente banal, a jornalista oferece-nos um fresco delicioso da política à moda do Porto.

O Silêncio É de Ouro #117



Hoje, uma corda partiu no nosso coração.
Ilustração inédita de Francisco Costa.


Post it # 180

A segunda morte de Saint Exupéry.

Post Scriptum #309

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

A princípio, pode dizer-se, nem ligou. Mais exactamente, nem sequer reparou.
Era um telelé educado, um profissional. De pequena estatura mas competente, fazendo o seu trabalho com aplicação, nem era bisbilhoteiro nem se metia na vida dos outros como alguns dos seus colegas. Discreto, um pouco tímido até, portava-se como um telelé honrado. Quem vai vai e quem está está era o seu lema de vida. O resto era com a central, onde às vezes se passavam cenas que... Mas cala-te, boca - não andava cá p'ra isso.
Ouviu a primeira conversa, ouviu a segunda...e qualquer coisa dentro se lhe pôs a abanar. Não era conversa entre políticos tratando de nefandas acções, não eram argentários tramando situações obscuras, não eram mesmo aficcionados falando de golos, de penalties, de foras de jogo, de espúrias combinações...
Não havia que enganar: era conversa de amores!
O telelé não tinha preconceitos. Muito ligado ao mundo, era tipo para aparar qualquer jogada. Dava para sentir tremeliques? Não dava, mas ele - quase sem querer - pôs o microfone atento, quase venerador e desbloqueado. Hum, hum!
Sentiu um certo baque, com mil diabos. Eles falavam sem cálculos, sem habilidadezinhas, sem matreirice. Com malandrice, é verdade, mas sentia-se nas ondas do seu éter uma inocência, uma naturalidade - quase uma inabilidade - que o telelé, aparelho de cu pelado, no entanto se comoveu: exprimiam-se mutuamente devoção, que não podiam passar um sem o outro, que eram o ar que respiravam, que preferiam morrer a não se terem, que por nada trocariam o seu amor. A conversa tátátá sempre igual e sempre diferente, mas...
Havia ali qualquer coisa que não era habitual. O telelé sentiu essa qualquer coisa entrar-lhe no coração da bateria. A sua frieza de máquina abalava-se irreparavelmente.
Curvou-se levemente, piscando com ternura postal. Uma nostalgia muito funda e fina lhe passava pelos circuitos. Lembrou-se com emoção, deixando o cinismo electrónico, da juventude feliz passada numa loja de electrodomésticos, quando ainda acreditava nos postes retransmissores e deitava a mirada a uma torradeira.
O seu apitado suspiro foi mesmo de emoção.
Depois - discreto, respeitoso, com um pouco de mercúrio ao canto do écran, foi-se abaixo, desligou-se mansamente e parou para sempre. Era um utensílio pundonoroso e já tinha a sua conta.
É que há coisas de tal modo privadas, perturbadoras e íntimas que nem um telelé pessoal se sente à-vontade para ter o direito de devassar...


Nicolau Saião

22.7.04

Post Scriptum #308

Ainda a propósito de "Watt", eis uma das páginas do manuscrito de Beckett.

Umbigo #54



IRENE, JOLMAR & COMPANHIA

Têm-se tornado quase gente do meu lidar estes e outros que, pelos melhores motivos, procuram nobremente beneficiar-me das mais diversas maneiras.
Neste tempo de governos caracoleantes na "silly season", de fogos que nos perturbam ou empolgam e de outras amenidades semelhantes, os nomes que cito - e que chegam até mim interactivamente - divertem-me e até me confortam pois sou pessoa muito agradecida a quem, não me conhecendo, busca contudo fazer de mim homem de quotidiano feliz e, presumo, de mais agradável perfil social.
Este Jolmar, que é certamente um médico prodigioso, mediante sucessivos mails alerta-me para o facto de que posso aumentar a tonelagem a certo órgão de que disponho para diferentes utilizações anatómico-fisiológicas, qual delas a mais agradável ou aliviante. E isto sem me ter observado in loco, o que diz bem da sua competência profissional, maior no entanto que o seu grau de previsão e conhecimento. Propõe-se também fornecer-me, por um preço muito em conta, pequenos utensílios muito úteis em épocas de superpovoamento. De passagem, caso não esteja interessado nesse funcional produto, negociará comigo, em moldes extremamente vantajosos, fotos de mui gratificante recorte confeccionadas nos entrepostos adequados do multirracial Brasil.
Irene - por seu turno - que deve ser uma jovem sincera e ternurenta, a atender ao que reza na sua espevitada publicidade, propõe-se ajudar-me a passar noites produtivas dum certo ponto de vista em Copacabana e se necessário em Belo Horizonte - e sem precisar de sair do quarto e sem ter de estar a jogar à bisca ou ao dominó. Não é isto dum desvelo perfeitamente comovedor?
E que dizer dos potenciais fornecedores de automóveis topo de gama ao preço da uva mijona, fenomenais casinos onde tudo é possível, especialistas honrados que me tratarão da contabilidade ou da potencial calvície com toda a competência e mansuetude? E que até me vão ensinar, se eu quiser, judo-savate com maviosas aplicações?
Obrigado Irene, obrigado Jolmar! Obrigado a tutti quanti se preocupam assim com a minha estabilidade terrena e com o bem-estar do meu agregado biológico. Há só um pequeno senão...
Por questões de cepticismo incontrolável sou um péssimo utilizador de gestos samaritanos de tão poderoso quilate.
E, ainda por cima, o meu erário é mais ou menos tão pouco solvente como o do nosso bíblico velho amigo Job...


Nicolau Saião

Ilha dos Amores #70



Fotografia de Francisco Costa.
Cartaz na Rua de Entreparedes, Porto.

Post Scriptum #307

EDWARD GOREY
(E.U.A., 1925-2000)



Edward St. John Gorey nasceu a 22 de Fevereiro de 1925, em Chicago, Illinois, filho de um jornalista e de uma funcionário do governo. Aprendeu a ler sozinho aos três anos e, aos cinco, já lera Drácula e Alice no País das Maravilhas, aos sete Frankenstein, e aos oito a obra de Victor hugo. Aos nove anos lê os livros da colecção Rover Boys que o marcarão para toda a vida, assim como os gatos, com quem começa a viver desde então e cuja companhia será constante até ao fim dos seus dias.



A julgar pelo que dele se diz, Edward Gorey será um dos melhores autores de qualquer coisa que não se sabe bem o quê do século XX. A bibliografia de Edward Gorey ascende a uma centena de livros. Boa parte deles são histórias desenhadas, alguns são alfabetos desenhados sem sequência narrativa, outros são limericks à maneira de Edward Leary, outros ainda séries de desenhos sem qualquer texto. Contam-se também diversas experiências noutros formatos e géneros, mas quantitativamente a parte mais relevante da sua obra são as histórias desenhadas.



A imagem de marca de Gorey é reconhecível por um traço reminiscente das gravuras em madeira, pela opção preferencial por um desenho em cada página e ainda pela luxúria vocabular (ninguém como ele consegue usar tantas palavras raras do Oxford English Dictionary em vinhetas tão sucintas) dos seus textos na mise en page. Concebendo as suas obras com labor artesanal, Gorey fazia questão de escrever à mão todas as histórias e até desenhar os números do ISBN nos livros.


[TEXTO RETIRADO DA NOTA INTRODUTÓRIA DE QUATRO ESTÓRIAS, ATÉ AO MOMENTO O ÚNICO LIVRO DE EDWARD GOREY EDITADO EM PORTUGAL, NUMA INICIATIVA DA ERRATA E COM TRADUÇÃO DA NOSSA MARGARIDA VALE DE GATO]

Post Perlimpimpim #1

A ver se consigo explicar da forma mais simples.
 
E o quê? O seguinte. No romance "Watt", Beckett tem uma cena hilariante com um comité universitário, perante o qual comparece um labrego, trazido pelo ilustre académico Louit.
 
O labrego descobre em menos de um minuto todas as raízes cúbicas dos cubos perfeitos até um milhão. Fantástico.
 
Os membros do comité, espantados (os que ao menos percebem o que é uma raiz cúbica, isto é, nem todos), tentam extrair de Louit o segredo de tal portento, ao que este último se escapa com diversas negaças espirituosas.
 
Ora, como alguém mais à frente no romance explica, o caso não tem nada de extraordinário. O labrego sabe que o cubo de cada algarismo termina sempre por um algarismo diferente. Isto é:
 
- o cubo de 0 dá 0, o de 1 dá 1, o de 2 dá 8, o de 3 dá 27, o de 4 dá 64, o de 5 dá 125, o de 6 dá 216, o de 7 dá 343, o de 8 dá 512, e o de 9 dá 729.
 
A partir daqui é fácil de topar uma raiz cúbica de números superiores. Vejam então, por exemplo, os cubos de 10 a 19:
 
- o cubo de 10 dá 1000, o de 11 dá 1331, o de 12 dá 1728, o de 13 dá 2197, o de 14 dá 2744, o de 15 dá 3375, o de 16 dá 4096, o de 17 dá 4913, o de 18 dá 5832, o de 19 dá 6859.
 
Ora, é facílimo de decorar os cubos das dezenas:
 
 - o cubo de 10 dá 1000, o de 20 dá 8000, o de 30 dá 27000, o de 40 dá 64000, o de 50 dá 125000, o de 60 dá 216000, o de 70 dá 343000, o de 80 dá 512000, o de 90 dá 729000 (e o de 100 dá 1000000).
 
Os cubos das dezenas são como os das unidades mas multiplicados por mil (com três zeros à direita). É fácil de depreender que 148877 é um cubo cuja raiz cúbica termina por 3 (pois o cubo de 3 termina em 7), e como é superior a 125000 e inferior a 216000 terá de ser "cinquenta e tal", isto é, cinquenta e três.
 
Não sei se me fiz entender.
 
Se fiz, podem espantar os vossos amigos com a vossa capacidade de cálculo extraordinária. Mas perguntem primeiro se eles lêm o Quartzo.

21.7.04

Post Scriptum #306



Vasko Popa
(Sérvia, 1922-1991)


A LIÇÃO DE POESIA

Estamos sentados num banco todo branco
Sob o busto de Lenau

Abraçamo-nos
E entre dois beijos falamos
De poesia

Falamos de poesia
E entre dois versos abraçamo-nos

O poeta olha para longe através de nós
Através do banco branco
Através do saibro da alameda

Ele cala magnificamente
Os seus belos lábios de bronze

No jardim público de Verchatz
Aprendi pouco a pouco
O que é essencial num poema


Tradução de Jorge Sousa Braga.

Aqui pode ler-se uma outra versão deste mesmo poema, por Aleksandar Jovanovic.

Vai no Batalha #24

21 de Julho de 1969. Neil Armstrong pisa, pela primeira vez, o solo lunar. Decorridos 35 anos, surgem novas revelações sobre certos acontecimentos que rodearam aquele "grande passo para a Humanidade" e que, por "razões de estado", foram mantidos em segredo durante todo este tempo. Eis, por exemplo, um breve excerto da comunicação entre Armstrong e o Centro Espacial de Houston, finalmente livre de censura.

TRANQUILITY: I abso-fucking-lutely am standing on the surface of the fucking moon. I am talking to you from the goddammed fucking moon. Jesus H. Christ in a chicken basket.
HOUSTON: Holy Shit.
TRANQUILITY: Holy mother of fuck. The fucking moon. Over.


Continua aqui.

Umbigo #53

Não confirmo nem desminto.

Umbigo #52

Paul Éluard dizia que um blogue é como L'amoureuse: faz-nos falar, falar, falar sem termos nada para dizer.

20.7.04

O Silêncio É de Ouro #116



É um dos mais populares grupos de jazz de todos os tempos. O Modern Jazz Quartet foi fundado em 1951 por Milt Jackson, Kenny Clarke e Ray Brown, músicos que tinham pertencido à Big Band de Dizzy Gillespie. Mais tarde, e depois de várias mudanças na formação, o grupo acolheu também John Lewis, que assumiu a direcção musical. Com Lewis, e a sua invulgar e ecléctica capacidade de composição, o Modern Jazz Quartet conquistou definitivamente um lugar na história. Este é, na minha opinião, um dos melhores discos da sua carreira: "Lonely Woman" (1962), com um magnífico Ornette Coleman, ainda praticamente em início de carreira.

Raul Silva

Post Scriptum #305

Good Old Sam!
 


 
            Lembra­-se do Grehan? perguntou Mr. Hackett.
            O envenenador, disse o cavalheiro.
            O solicitador, disse Mr. Hackett.
            Conheci­-o vagamente, disse o cavalheiro. Seis anos, não foi?
            Sete, respondeu Mr. Hackett. Seis é muito raro.
            [...]
            Recebi uma carta dele esta manhã, disse Mr. Hackett. (?) A carta continha um anexo, disse Mr. Hackett, do qual, conhecendo o amor que você tem pela literatura, gostaria de lhe dar um cheirinho (...).
           
Mr. Hackett leu:
[...]
 
PARA NELLY
 
Sobre ti, doce Nell, quando anoitece,
Jug-jug! Jug-jug!
Aqui cativo tece
Meu pensamento ideias libertinas.
Inda com Hardy anda p'las esquinas?
Ou Val a mão na saia dela inserta,
Como dantes? Responde o Eco: Certes.
 
Está bem! Está bem! Que seja assim
Pu-uí! Pu-uí!
Muito longe de mim
Censurar brincadeira tão singela.
Arde com Hardy, e a Val revela
Tudo salvo o que é de Greh'n. Isso guarda.
Que a Vall se vele e com Hardy não arda!
 
Isso! Que é penhor ímpar de pureza!
Cucu! Cucu!
Tomara ter certeza
Que se daqui me libertar
Na donzela vou encontrar
Sob a flor de Cupido oh neni oh
De Diana o botão em statu quo.
 
A minh'alma ousa a luz obscuramente
Tuit! Tuô!
Quando em si se pressente
O sussurro subterrâneo
Qu'inda há-de ser epitalâmio.
E em mim Hímen orvalho já derrama
Do antegozo da nupcial cama.
 
Basta...

 
in Samuel Beckett, Watt, tradução de Manuel Resende


Post Scriptum # 304

Na "Montanha Mágica" de Thomas Mann, tanto quanto me lembro, no capítulo "A Noite de Walpurgis", Hans Castorp, que está no sanatório, declara-se a Mme. Clawdia e a certa altura diz "deixa-me beijar-te a Arteria Femoralis"; isto depois de ter descrito, em outros momentos, as lágrimas e o corpo em termos de água, albumina, sal, etc.

Manuel Gusmão, revista "Relâmpago", nº 14, 4/2004.


Arteria Femoralis

Post Scriptum # 303



Nizar Kabanni
(Síria, 1923-1998)

ONTEM...

2.
Por favor,
respeita o meu silêncio,
o silêncio é a minha melhor arma.
Escutaste as minhas palavras
quando fiquei silencioso?
Sentiste a beleza do que disse
quando não disse nada?

Tradução de Jorge Sousa Braga.

19.7.04

Umbigo #51



Viva o Santanismo!

Señor Tallon #65

Certos políticos não têm simplesmente "amigos".
Certos políticos têm "amigos pessoais". Muitos "amigos pessoais". E, tanto quanto é possível perceber, não é um passatempo barato, o de coleccionar "amigos pessoais". Parece que só se vendem em carteiras de duas dúzias ou mais.

Ilha dos Amores #69



Henri Rousseau, "Retrato de Pierre Loti", 1891.

Post it # 179

Nasceu o cão-polícia que ameaça vigiar todos os passos dos poetas norte-americanos. E, segundo parece, o bicho morde mesmo.

Señor Tallon #64

P. J. Harvey saiu do palco sob uma imensa chuva de aplausos.
Obviamente, constipou-se.

18.7.04

O Povo É Sereno #136

Ainda os fogos. Sabem que é possível eliminar o mato sem cortar o mato? Simples: queima­-se o mato. Fi-lo no meu terreno, isto é fê-lo um senhor que sabe disso, no Inverno, numa pequena parte bem controlada.
 
Mas quanto mais penso no assunto, mais me parece que a solução só pode ser uma revivificação do espaço rural
 
(Por exemplo, antigamente, também havia fogos, não pensem que não havia. Só que eram detectados mais cedo, e toda a aldeia era mobilizada para o combater, e HAVIA GENTE.)
 
e numa nova relação com a terra, não de exploração, mas de colaboração
 
Daí as experiências que tenho andado a fazer, e cujo objectivo longínquo se pode resumir numa palavra: permacultura, ou agro-floresta.
 
O que é? A floresta não precisa de adubos para produzir. De resto, os fogos são tão perigosos hoje porque a floresta abandonada a si mesma produz uma plétora de plantas que são excelente combustível. Então, uma hipótese de trabalho é tentar reproduzir algo parecido com o ciclo ecológico das florestas (a reciclagem na terra do material orgânico) com plantas menos combustíveis e mais comestíveis.
 
Isto é,~
 
em vez de arrasar a floresta e pôr a terra nua, para nela plantar ou semear uma única espécie, tratando todas as outras plantas como invasoras e daninhas (como se fosse uma guerra), com o resultado de uma mais ou menos rápida esterilização da terra, compensada depois com grandes quantidades de adubos e pesticidas que, se dão um alimento prestes e rápido para a cultura em questão, também, pela sua própria natureza poluem as águas subterrâneas e o solo,~
 
procurar reconstituir uma terra humífera que lentamente se alimente a si própria, pela combinação de culturas permanentes (árvores, arbustos, plantas perenes) e anuais (hortícolas e cereais de grande rendimento, mas frágeis). Os resultados, pelo menos nos primeiros tempos, não são produtivamente tão ?bons? como o da agro-indústria, mas a longo prazo, temos: um solo que não se empobrece, uma menor utilização de máquinas e pesticidas e nenhuma de adubos químicos, numa palavra, menos petróleo e seus derivados, nomeadamente.
 
Inversamente, se a floresta deixar de ser considerada apenas uma fonte de rendimento pela madeira menos nobre que se vende ao desbarato, sem cuidar da terra porque não há tempo, nem gente, não se poderia começar a pensar nela como um ser vivo com inúmeras potencialidades culturais? É claro que, e aqui vem dar o outro fio de raciocínio, é claro que, para isso, não se pode lavrar a terra, para não destruir o sistema radicular das árvores e os milhões de seres vivos que vivem em simbiose com ele.
 
E a tal coisa: é preciso gente no campo.
 
A agricultura tradicional já tem uma versão desta agricultura que se chama: sementeira directa. Sem lavrar a terra (pelo menos em profundidade), mantê­-la sempre coberta com o restolho e/ou uma cultura de cobertura.
 
Mas, meus amigos, isto tem muito pano para mangas, não saíamos daqui tão cedo. E a enormidade do trabalho a fazer quase desanima qualquer um, quando se vê o que ocupa as mentes do europeu médio. Pessoalmente, estou convencido de que a nossa sobrevivência como espécie depende disto. E penso também que é a grande vingança da poesia sobre o produtivismo.

Vai no Batalha #23 1/2

Sim, sim. Li o post do Rui Lage e sinto que estou a milhas da convivência social mais elementar. Preciso de me agarrar já às calças para não voar para Marte e ser lá apanhado nos binóculos do abrupto personagem, que gosta de andar por lá, por Marte.
 
De acordo, será difícil no norte, nas serras do norte, para as famílias exauridas, cortar galhos, urzes, giestas, tojos, etc. Aqui no Ribatejo, porém, onde estou, custa seis contos a hora de tractor, embora, é certo, admito, haja sítios, mesmo aqui, onde a ida do tractor é problemática. Mas, mesmo assim, vejam bem, seis contos a hora (isto é, uns 24 contos por hectare, vá, por ano), aqui, não é muito, não é desastroso. Pois olhem que estou num terreno rodeado por charneca maninha (maninha não quer dizer daninha, no meu calão), sempre à espera de que venha lá o fogo (já vi dois a coisa de 1 km, embora não este ano). Está bem isto?
 
Uma das causas do meu mal-estar. Garanto-vos que sem um bocadinho de alegria não se vive, e nos tempos que correm, a alegria é mais difícil de encontrar do que a "mão-de-obra disponível" do Rui.
 
Por falar em "mão-de-obra disponível", como me soa esquisita essa expressão! Para mim, o problema é outro, diferente. A ver se me explico: aqui há umas décadas, sem máquinas, o mato era roçado e reciclado como estrume, nas camas dos animais. "Mão-de-obra disponível"? Não, havia apenas uma relação com a terra mais "natural" (perdoem-me esta expressão, era a que estava mais à mão), isto é, havia gente nos campos.
 
Gente, não "mão-de-obra disponível". Aqui no Ribatejo, nas bermas da cintura industrial de Lisboa, ainda há gente no campo, operários em exercício, operários reformados, operários pré-reformados, que se lembram dos pais e cultivam os seus talhões. O senhor que veio cá, ao meu terreno, para limpar o mato, trabalha numa casa de pneus nas horas normais e às horas perdidas na horta e faz biscates para os outros.
 
Já me estou a perder. Se é certo que no interior mais interior não há gente que chegue, então é de perguntar que caminhos andámos a trilhar. A agricultura que se rege apenas pelos custos de produção e de mercado, não atende à necessidade de restituir à terra o que se lhe tirou, e também não atende à necessidade de manter condições sustentáveis de habitat humano.
 
O problema então seria o de desenvolver uma agro-floresta que permitisse aos humanos uma vida digna. Para isso, os humanos têm de deixar de encarar a terra apenas como fonte de rendimentos e de lucro, mas sim, como um "ser" com vida, de vida. Desconfio que não é possível em regime capitalista.
 
Já imaginaram que a floresta dá madeira para construção e repouso para a alma, que na floresta se podem cultivar muitas plantas alimentares, medicinais e outras, entre as árvores (não lavrando a terra, claro), que há indústrias de produção energética que se podem desenvolver a partir da agricultura, etc.? Não será então esta uma via, mais que bombeiros, polícias, exércitos, etc.?
 
Sei que isto é um pouco elíptico, mas foi o que se pôde arranjar.
 
Ah, pois, o Santana é pm, segundo a televisão. Ch! 

PS: Atenção, na minha filosofia, em muitos sítios, o mato não devia precisar de ser limpo, se houvesse uma boa "gestão" do solo, porque entre as árvores se cultivariam constantemente outras plantas: simplesmente, não haveria mato. Por outro lado, onde se limpasse, haveria que estudar outras possibilidades de aproveitamento e não a simples queima ou enterramento. Note-se que não percebo quase nada de agricultura, que estou a dar os meus primeiros passos. Portanto, admito que esteja a dizer alguma ou bastantes asneiras. Mas é com boa intenção.

16.7.04

O Silêncio É de Ouro #115


 
Uma das melhores capas da história da música e o mais surpreendente álbum da curta discografia de Nick Drake: "Pink Moon" (Hannibal, 1972).

Vai no Batalha # 23

 
Voltam os fogos florestais, na sua esmagadora maioria de origem criminosa, e volta o argumento demagógico da limpeza das matas que os proprietários de terras florestadas têm a toda a força que fazer. Fiquem a saber que não há quem faça esse trabalho de limpeza. Façam por favor a experiência, caso tenham oportunidade, e tentem arranjar trabalhadores que estejam dispostos a fazê-lo. Quando os há, o que é muito raro, pedem preços exorbitantes, altamente inflacionados, capazes de levar os proprietários à ruína em três tempos (os pequenos num estalar de dedos). Se não me espanta ouvir os nossos responsáveis políticos a proferir tais leviandades, já muito me espanta, por exemplo, ouvir os própios bombeiros dizê-lo, como se não tivessem conhecimento desta realidade. Mas há mais: uma coisa é limpar uma floresta num terreno plano e uniforme, onde uma máquina entra facilmente, outra coisa é limpar mato num terreno montanhoso, acidentado, rochoso e com declives acentuados. Aí, nada que tenhas rodas se consegue deslocar. Se os bombeiros muitas vezes não conseguem chegar aos fogos porque o terreno é demasiado acidentado, o que é que leva as pessoas a pensar que um tractor utilizado na agricultura o consegue fazer? Ora o nosso país, à excepção do Alentejo, não é um país de planícies, mas de terras montanhosas. Considerem-se as características do terreno do interior norte, por exemplo, onde está concentrada a maior parte da mancha florestal portuguesa. Poder-se-ia dizer que, não havendo mão-de-obra disponível para o trabalho de desmatação (pelo menos em Trás-os-Montes não a há, quer para a limpeza do mato quer para outra coisa qualquer), os próprios proprietários se deveriam ocupar de tal tarefa. Nada mais longe da realidade. Limpar mato é um trabalho perigoso, que implica uma grande experiência, uma grande preparação física, equipamento especializado e muito tempo disponível. Agora imaginem o que é o pai, a mãe e os filhos pequenos, ou um casal de idosos, de motoserras em punho, num terreno inclinado e escorregadio de quatro ou cinco hectares, a cortarem galhos, arbustos, raízes, bolbos, ervas, capim e afins no meio de uma nuvem de pó e serradura. Falar é fácil.

Post Scriptum # 302



COMO UM TAMBOR AO LONGE

Bate e palpita e não é um mar nem um tropel de pernas e braços que sobre um relvado arfa e se descompõe. Nem a revoada de palmas numa sala comicieira de gândulos esfaimados por prebendas, por coisas de muito mandar. Bate: quente, arfante, solitário, nítido como uma voz que reboa na manhã em que ainda se sente o sussurro da madrugada. Bate como um punho numa porta cerrada e depois aberta para o afago, o grito, o absoluto permanecer. Não é um bater de espingarda que se dispara, de aparelho (um piano, um frigorífico, uma mala enorme) que tomba num chão e faz um estardalhaço infernal. Nem um tum tum tum de maquineta enlouquecida.
No calor e no frio das terras e dos tempos, no afastado de salas e de quartos onde os mistérios se interpenetram como corpos de amantes, como corpos de amantes que ao mistério se dão, como um balão que rebenta mas de mansinho, na noite de muito possuir e na manhã de magia, ele efectua o seu ruído difuso, único, solar.
É um pássaro, um super-homem, uma nave que ultrapassa a barreira do som com um estampido?
Ou é soco violento numa mesa, muitos socos violentos sobre uma mesa, um rosto, uma situação?
Não é nem ronronar de máquina de navio, nem grasnar rouco de motor de avião, nem estrépito de cavalos no empedrado de uma calçada antiga.
Com efeito, esse toque toque toque, esse pulsar incógnito mas reconhecível, humilde mas fragoroso no interior do seu silêncio, reboante nas horas de que não há nem notícias nem mapas, esse pequeno ruído como o de um tambor ao longe é apenas, tão-só, simplesmente - o de um humano e apaixonado coração.


Nicolau Saião

Post it # 178

O Miniscente completa hoje um ano de boa actividade. Parabéns.

Post Scriptum # 301



Ontem, 15 de Julho, completaram-se 100 anos sobre a morte de Anton Tchekhov (pois, chegamos atrasados) e o Guardian tem vindo a dar, ao longo deste ano, um tratamento muito especial ao assunto. Este dossier preparado pelo jornal inglês é um delicioso e completo guia de viagem sobre a vida e obra do autor russo.

Entretanto, recordo que o blogue Enfermaria nº 6, cujo título é inspirado num dos contos mais famosos de Tchekhov, também merece uma visita.

Ilha dos Amores #68



Jim Andrews, Reader, s/d.

Agenda

A não perder. Hoje, dia 16 de Julho, a apresentação do nº 6 da revista de literatura, música e artes visuais "aguasfurtadas". Com a presença de vários colaboradores deste número e de João Paulo Costa, actor e encenador do Porto, que fará a leitura de alguns poemas nele incluídos. Será também apresentado e comentado, pelos músicos e compositores envolvidos, o CD que acompanha a "aguasfurtadas 6". Seguir-se-á um espaço de debate ou de convívio. Portanto, a festa promete. O lançamento terá lugar na sede do Jornal Universitário (Rua Miguel Bombarda, 187, no Porto), a partir das 21h30. Recordo que a "aguasfurtadas" é dirigida pelo Rui Lage e editada pelo Núcleo de Jornalismo Académico do Porto/ Jornal Universitário.

15.7.04

Umbigo #50

Olá, malta! Tudo fixe?
É só para comunicar que já tenho internet e posso blogar, se estiver bem disposto, coisa que não estou muito, por enquanto.

Depois dou notícias. Agora, que este blogue está um luxo, está. Nem o reconhecia. Até me sinto mal. Vou ali tomar banho, vestir um fato como deve ser e já volto.

Manel

O Povo É Sereno #135

"Detesto a arrogância, detesto o militarismo. Detesto essas coisas. Não gosto do unilateralismo."

"A decisão sobre o Iraque foi a mais difícil que tomei enquanto primeiro-ministro. Nas conversações bilaterais com os EUA, apelei sempre ao multilateralismo."

"Odeio a arrogância dos Estados Unidos."

QUEM DISSE ESTAS FRASES?

a) FIDEL CASTRO
b) JOÃO PAULO II
c) JOSÉ BARROSO

"Muitas coisas que têm dito de mim são uma caricatura."

NÓS SUBSCREVEMOS.

O Silêncio É de Ouro #114



O melhor afro-pop vem do Mali: "Folon", de Salif Keita (Mango, 1995).

Post Scriptum # 300



César Vallejo
(Santiago de Chuco-Peru,1892 - Paris, 1938)

OS PASSOS REMOTOS

O meu pai dorme. O seu nobre semblante
é como um coração apaziguado;
está tão doce agora...
se há nele algo de amargo, serei eu.

Há solidão na casa; e reza-se;
e dos filhos não houve hoje notícias.
Meu pai acorda, considera
a fuga para o Egipto e um suspenso adeus.
Está agora tão perto;
se há nele algo distante, serei eu.

E minha mãe passeia além na horta,
saboreando um sabor já sem sabor.

Está agora tão suave,
tão longínqua, tão amorosa e nítida.

Há solidão no lar sem reboliço,
sem notícias, sem verdes criancices.
E se há algo quebrado nesta tarde
que diminui e crepita
são dois velhos caminhos brancos, curvos.

A pé, por eles vai meu coração.


Tradução inédita de Nicolau Saião

(Vide nota ao poema de C.O. de Amat)

Post it # 177

Críticos literários de todo o mundo, cuidado! A guerra começou. E, avaliar por este caso, pode deixar marcas.

Post it # 176

O melhor do mundo são as criancinhas. E os editores que o digam...

This year a teenage word-wizard has overtaken Harry Potter on the New York Times children's books best-seller list: Christopher Paolini's epic-fantasy "Eragon", written when he was 15, is now in the top spot. Meanwhile, Flavia Bujor's "The Prophecy of the Stones" - a best-seller in France and Germany in 2002, the year she turned 14 - has been sold to 20 publishers; one of them is Miramax, which printed 65,000 copies in April. Last month, the national media covered the death at 13 of one of America's best-selling poets - an invalid named Mattie Stepanek, who broke into print at 11.

Continua aqui.

O Povo é Sereno #134

A propósito do relatório Butler.



Cartoon de Steve Bell, no Guardian.

14.7.04

Cimbalino Curto #103

O velho Porto - popular e vermelho - desceu mais uma divisão.

Post Scriptum # 299



Carlos Oquendo de Amat
(Puno-Peru,1905 - Navacerrada-Espanha,1936)

MÃE

O teu nome chega devagarinho como as músicas humildes
e das tuas mãos esvoaçam pombas brancas

Na minha recordação vestes sempre de branco
como as crianças no recreio que os homens olham de longe

Nos teus braços morre um céu e outro nasce da tua ternura

Quando estou pensando o carinho abre-se a teu lado como uma flor

Entre ti e o horizonte
a minha palavra é primitiva como a chuva e os hinos

Porque ante ti se calam as rosas e as canções.


Tradução inédita de Nicolau Saião


(Tradução realizada a partir do livro "20 contos e 50 poemas peruanos", seleccionado e anotado por Victor Soracel, e oferecido ao tradutor por E. A. Westphalen, em 1982).

Post Scriptum # 298



Capa do primeiro livro de Carlos Oquendo de Amat, "5 Metros de Poemas", editado em 1927, na Editorial Minerva, de Lima, Peru.

O Silêncio É de Ouro #113



A quietude e o bucolismo segundo Perry Blake em "Still Life" (Naive, 1999).

13.7.04

Post Scriptum # 297



Srecko Kosovel
(Eslovénia, 1904-1926)

Kosovel é uma das principais referências literárias da Eslovénia e da poesia europeia do século XX. Apesar disso, ainda não existem traduções para o português. Esta tradução do poema "Delírio" é da autoria de Pedro Amaral e foi feita com base na versão inglesa. É a sua primeira colaboração neste blogue. A primeira de muitas, acreditamos nós.

Delírio

Martírio de pensamentos.
Um mar azul.
Uma prisão cinzenta.
Um soldado espetando pensamentos desesperados
com a sua baioneta
debaixo da janela.
Peço perdão. "Não faz mal."
Sigaretta.
Eine Edison.
Consigo ouvir o mar azul
batendo firmemente
no meu crânio.

Tradução inédita de Pedro Amaral

Delirium

Martyrdom of thoughts.
A blue sea.
A grey jail.
A soldier spiking desperate thoughts
with his bayonet
under the window.
Pardon me. "Never mind."
Sigaretta.
Eine Edison.
I can hear the blue sea
throbbing steadily
at my skull.

Post Scriptum # 296



NA MANHÃ CLARA E QUENTE

Não é soturna mas misteriosa. Um antigo lagar. Todos os dias a vejo, aquela casa casarão agora abandonada. Só frequentada, agora, por pombos. Segundo andar e sótão a toda a largura do edifício. E janelas, janelas de arcada, janelas em ogiva, janelas largas em sacada por onde se faziam subir as saquiladas de azeitona nos tempos da minha infância e adolescência. Todos os dias o vejo - que fica mesmo em frente do Museu aonde estaciono. Profissionalmente. A Casa do Poeta, sim. Mas de outro, do Régio. Esse companheiro...
Todos os dias? Todas as horas, que da janela do meu gabinete (até tenho gabinete...) o catrapisco sem ser sequer preciso virar a cabeça. Casarão à maneira do Lovecraft, que se ele o pisgasse logo o meteria em estória de espantações. Agora, deserto de presenças humanas, já com algumas vidraças partidas, é a guarida dos pombos, dos pombos que dantes lhe andavam sempre em volta - são dum columbófilo encartado, desses que fazem largadas de Oviedo, Sevilha, Vila Nova de Poiares, o mundo... - sem ousarem entrar. Netos, bisnetos, quero eu dizer, dos que por aqui esvoaçavam quando eu era tão-só um puto...
Mas vou-me já presto, com veloz galhardia, a traduzir então o Tardieu, o Carlos Oquendo de Amat, o César Vallejo, o Grandbois.
E palavra de índio alentejano não volta atrás. Antes que o nosso Rui Amaral, pela ausência, me atinja com presteza com um directo de esquerda...


Nicolau Saião

Diário de Sophie#21

... e cheguei atrasada ao primeiro aniversário de um dos meus blogs favoritos. Um blog sem ideólogos nem Gurus. Com alguns Gnus, é certo, mas quase todos eles na caixa de comentários.

O Povo É Sereno #133



A direita anda mesmo em maré de sorte. Nas últimas semanas, de uma assentada, caíram-lhe do céu aos trambolhões um presidente da Comissão Europeia, um novo primeiro-ministro, uma maioria parlamentar renovada e um presidente da República amigo. Acto contínuo, a humilhação causada pela derrota nas eleições europeias foi esquecida. O desgaste do Governo após dois anos de erros políticos e de crise económica deu lugar a um novo impulso. A coligação, que começava a dar sinais evidentes de desunião e esboroamento, recompôs-se. O líder da oposição disse banzai e fez hara kiri. E tudo sem que Durão, Santana e Portas tenham precisado de mexer uma palha. Bastou ao primeiro aceitar um convite, ao segundo esperar pelo beneplácito presidencial e ao terceiro cavalgar a onda. A coroar esta maré, só falta que voltem a ganhar as eleições legislativas.

Ilha dos Amores #67



Louise Bourgeois, Spider, 1997.

O Povo é Sereno # 132

Medidas que poderão ser implementadas a qualquer instante pelo senhor Primeiro-Ministro:

1 - Subsidios ao Uisque de malte;

2 - Sardinhas assadas subsidiadas;

3 - Terapias que envolvam solários, curas de emagrecimento e idas a cabeleireiros para permanentar o cabelo com um ondulado prateado 'à chefe', passíveis de abatimento, em sede de IRS;

4 - Canalização de verbas de fundos estruturais para execução de modificações em palas de estádios de futebol - verbas especiais serão destinadas aos que foram recentemente construídos;

5 - Sardinhas assadas subsidiadas;

6 - Estabelecimento de protocolos de incentivo à natalidade, com empresas da especialidade (exemplos: Triumph, Maidenform, Maxmen ou discotecas da Avenida 24 de Julho);

7 - Sardinhas assadas subsidiadas;

8 - Destruição, em auto-de-fé, das obras completas de Chopin (no átrio do Centro Cultural de Belém ou, se estiver ocupado, no Terreiro do Paço, e em Santarém, ou no Algarve, se a descentralização ministerial avançar);

9 - Nacionalização da forma de jogar do FC Porto, a qual já revelou a sua eficácia;

10 - 10 milhões de portugueses obrigados a cantar as Janeiras à Porta do Palácio de Belém, para deleite do Senhor Presidente da República. Caso não haja espaço para os dez milhões, irão apenas os jovens mancebos que o Ministério da Defesa determinar;

11 - Sardinhas assadas de borla.

Como resistir, pois, ao reconhecimento da bondade desta política, mesmo que não tenha sido sancionada pelos eleitores?


Zé Povão

12.7.04

Notas soltas #4

TRÊS POEMAS DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS


BETWEEN WALLS

the back wings
of the

hospital where
nothing

will grow lie
cinders

in which shine
the broken

pieces of a green
bottle



ENTRE MUROS

as alas traseiras
do

hospital onde
nada

medrará acolhem
cinzas

onde brilham
os pedaços

partidos de uma garrafa
verde



THIS IS JUST TO SAY

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold



ISTO É SÓ PARA DIZER

Eu comi
as ameixas
que estavam dentro
da geladeira

as quais
estavas provavelmente
a guardar
para o pequeno-almoço

Perdoa-me
estavam deliciosas
tão doces
e tão frias



THE RED WHEELBARROW

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

besides the white
chickens



O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de

um carrinho de mão
vermelho

luzindo com água da
chuva

ao lado das galinhas
brancas.



(Boas férias... até Agosto.)

Notas soltas#3

JULHO nos LugaresComuns

O poeta de Julho, nos LugaresComuns é Francisco José Viegas.

Natural do Alto Douro (Vila Nova de Foz Côa) e conhecido sobretudo pela sua obra como romancista, é autor de uma obra poética envolvente e melancólica, onde a poesia é o lugar da perda e da inevitabilidade. As ilhas, e outros mundos mais a Norte como a Irlanda e a Escandinávia, são palco de um recorrente apelo ao ancestral em que a partida e o regresso reflectem, aturadamente, a eterna procura de um lugar onde mereça a pena existir. Jornalista de profissão, foi director de importantes publicações como a revista Ler e a Grande Reportagem, tendo-se igualmente notabilizado pela autoria de diversos programas de televisão sobre os livros e a leitura.

Na revista MAGAZINE ARTES, escrevo sobre o seu poema As Jovens. Para os LugaresComuns escolhi 5 outros poemas.



Post Scriptum # 295



Para assinalar os cem anos passados sobre o nascimento de Pablo Neruda, uma tradução inédita de uma sequência de cinco poemas do primeiro livro do poeta chileno, "Crepusculario", de 1923, que sairá brevemente em edição bilíngue nas Edições Quasi .


FAREWELL

1

Desde o fundo de ti, e ajoelhado
um menino triste, como eu, nos olha.

Pela vida que arderá nas suas veias
teriam que amarrar-se nossas vidas.

Por essas mãos, filhas das tuas,
teriam que matar as minhas mãos.

Pelos seus olhos abertos na terra
verei nos teus lágrimas um dia.


2

Eu não o quero, Amada.

Para que nada nos amarre
que nada nos una.

Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos,
nem os soluços junto à janela.


3

(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e partem.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e partem.

Uma noite deitam-se com a morte
no leito do mar.


4

Amo o amor que se reparte
em beijos, leite e pão.

Amor que pode ser eterno
ou que pode ser fugaz.

Amor que quer libertar-se
para voltar a amar.

Amor divinizado que se chega
amor divinizado que se vai.)


5

Já não se encantarão meus olhos nos teus,
já não abrandará junto a ti minha dor.

Mas onde quer que vá levarei o teu rosto
e onde quer que vás levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos demos
uma volta no caminho por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te amar,
do que colher no teu jardim o que eu semeei.

Vou-me embora. Estou triste: estou sempre triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

... Do teu coração diz-me adeus um menino.
E eu digo-lhe adeus.



PABLO NERUDA - "Crepusculario".
Barcelona, Planeta, 1990.

O Silêncio É de Ouro #112



"Release", dos britânicos Pet Shop Boys (Parlophone, 2002), ou um ensaio fotográfico sobre a vida sexual das plantas. O sarcasmo refinado tem destas coisas.

Ilha dos Amores #66



Ron Mueck, Angel, 1997.

Teaser em forma de post.



Hoje o dia é do Neruda. Amanhã há Srecko Kosovel. Numa tradução inédita de Pedro Amaral.

Post Scriptum # 294



CENTENÁRIO NERUDA.

Hoje, há exactamente 100 anos, nasceu Pablo Neruda. O centenário comemora-se um pouco por todo o mundo, através de iniciativas de todo o género. Aqui, no Quartzo, Feldspato & Mica, lembramos Neruda desenhando um brevíssimo guia de viagem por alguns dos sítios da internet que lhe são dedicados.

Página oficial do Centenário.
Mais notícias e actividades sobre o centenário.
Página da Universidade do Chile dedicada a Neruda.
Fundação Pablo Neruda.
Centro de recursos com links para outros sítios.


Em Portugal, há várias traduções de livros de Neruda, algumas das quais esgotadas. Em breve, juntar-se-á a esta lista o seu primeiro livro, "Crepusculario", de 1923, numa tradução do nosso Rui Lage.

Entretanto, o Neruda é objecto de um concurso no Tempo Dual.

O Povo é Sereno # 131



UM DESDÉM SOLENE

Não fiquei surpreendido quando ouvi Branco de Sampaio anunciar ao país que irá convidar Santana Lopes a formar governo. Restava-me é certo um vislumbre de esperança (semelhante à que manifestaram tantos cidadãos na última quinzena, com destaque para as vozes de Daniel Sampaio, Pacheco Pereira ou Freitas do Amaral) de que uma ponta de bom senso presidencial devolvesse aos portugueses a possibilidade de decidirem o futuro das suas vidas. Esperança ténue, porém, sempre que lembrava a "leitura" que o presidente-advogado faz da Constituição da República. Temia, além disso, o sempre propalado argumento da "estabilidade", usado a torto e a direito por alguns opositores da Democracia Participativa sempre que a sede de poder económico e político se sobrepõem ao interesse nacional. Por estas e outras razões reagi sem surpresa na noite de 9 de Julho. Sem surpresa - mas com indignação profunda.
Partilho da opinião de Karl Popper de que não devemos preocupar-nos demasiado com quem nos governa. Devemos encontrar, porém, maneiras eficazes de nos livrarmos de quem nos governa mal ou ilegitimamente. Santana Lopes formará um governo sem a legitimidade do eleitorado, apoiado por uma coligação que apenas foi sufragada pelo voto na eleições para o Parlamento Europeu, sofrendo uma estrondosa derrota. Um governo presidido por uma figura visível nas "revistas do coração", mas cuja competência se pode medir pelas acrobacias que praticou na Câmara Municipal de Lisboa, em propaganda constante e ultrapassando a Lei, e pelas palavras de Cavaco Silva, quando refere na sua "Autobiografia Política" que nunca o nomearia ministro de um seu governo, pois como Secretário de Estado da Cultura teve apenas o mérito de aproximar do PSD figuras ligadas ao teatro de revista e às telenovelas.
Votei nas últimas eleições presidenciais no Dr. Jorge Sampaio. Soubesse então o que sei hoje, não voltaria a fazê-lo. Um Presidente da República que cede à chantagem de gente como Alberto João Jardim (criando condições para que Portugal se possa transformar na tal "imensa Madeira" desejada por Dias Loureiro) não merece a confiança de qualquer português. Um homem que cauciona um governo e uma coligação em que ninguém votou - merece apenas um "desdém solene", como diria Cesário Verde caso ainda fosse vivo.


Ruy Ventura

9.7.04

Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica. O blogue que não dorme.

Aberto 24 horas por dia, 365 dias por ano.

O Silêncio É de Ouro #111



"Bring It On" (Virgin, 1998), título do álbum debutante dos Gomez, a banda inglesa dos anos 90 com uma sonoridade mais americana e dona de um trabalho gráfico notável.

Cimbalino Curto #102

Se "o melhor café é o da Brasileira", os melhores moletes e chapatas são os da Padaria Ribeiro.

Post Scriptum # 293

Afinal, Eça de Queirós não morreu de "tuberculose entérica" ou de uma hipotética "amebiase intestinal", como até aqui se pensava, mas de uma "arrastada doença inflamatória intestinal, provavelmente a doença de Crohn", diz-nos Ireneu Cruz, no seu livro "O Caso Clínico de Eça de Queirós", acabado de sair para as livrarias. E pronto. Estamos esclarecidos.

Post Scriptum # 292

"O Ditador", um pequeno conto inédito de Zé Povão para o Quartzo, Feldspato & Mica. Absolutamente imperdível.

Post it # 175

Há um novo romance de Saddam Hussein no prelo. Para já, sabe-se apenas que o título é, segundo a tradução inglesa, "Get Out, You Damned" e que promete, à semelhança dos livros anteriores, ser um grande sucesso mundial de vendas. De acordo com a imprensa internacional, Paulo Coelho, apesar de insistentemente solicitado, tem recusado comentar este assunto.

Ilha dos Amores #65



Pierre Bonnard, La terrasse à Vernonnet, 1939.

O Povo é Sereno # 130

Assim como há leis que não são justas, também nem tudo quanto está na Constituição da República pode ser considerado verdadeiramente democrático. Com hipocrisia ou com real interesse, muitos membros da classe política queixam-se do abismo que se vai cavando entre a política e os cidadãos. Não vêem ou querem ocultar as verdadeiras razões desse afastamento: a existência de leis e normas que fazem da democracia uma partidocracia, pondo de lado uma verdadeira intervenção da sociedade civil, consagrando a acção medíocre de gente que se inscreve nos partidos para subir na vida sem nunca chegar a fazer nada de útil pelo país em que vive. Não seremos uma verdadeira democracia enquanto pudermos ser governados por uma coligação que não foi submetida previamente a eleições enquanto tal, enquanto formos governados por personalidades nomeadas pelas cúpulas partidárias e em que ninguém votou, enquanto não existirem limites ao número de mandatos dos titulares dos cargos políticos (principalmente autarcas e membros dos governos regionais).

Ruy Ventura

8.7.04

Post Scriptum # 291



Emily Dickinson
(E.U.A., 1830-1886)

A Bíblia é um livro antigo -
Escrito por Homens já desaparecidos
Por sugestão de Espectros Sagrados -
Temas - Belém -
Paraíso - a velha Morada -
Satanás - o Brigadeiro -
Judas - o Grande Infractor -
David - o Trovador -
Pecado - um reconhecido Precipício
A que outros devem resistir -
Os Rapazes que "crêem" são solitários -
Os outros estão "perdidos" -
Tivesse a História melhor Narrador -
E todos os Rapazes viriam -
O Sermão de Orpheu cativava -
E não condenava -

Tradução de Cecília Rego Pinheiro.

O Povo é Sereno # 129

Durão Barroso, depois de ter saído derrotado das eleições para o Parlamento Europeu, prometeu muito - mas nada cumpriu. Não respeitou nem respeita os portugueses. Fugindo, mostrou aquilo a que muitos chamarão cobardia política, escapando ao juízo directo de quantos governou durante dois anos. Passando a mensagem de que será uma honra para Portugal ter como presidente da Comissão Europeia um seu natural, fê-lo apenas com a intenção de nos enganar, tentando branquear uma atitude que não seria sequer concebível para um cidadão habituado a respeitar os seus compromissos.

Ruy Ventura

Umbigo #47

Num espaço onde surgem citações, referências, louvores, apologias e o diabo a quatro a propósito de tudo e de nada, sempre achei estranho o relativo silêncio da blogosfera em relação a Herberto Helder. E somos os primeiros a assumir essa omissão. Talvez por ser tão terrivelmente grande. Talvez por ser quase redundante mostrar como o Herberto é o maior escritor português vivo. Nos últimos dias, porém, têm surgido vários posts dedicados ao Herberto. Por exemplo, na Janela ou nos Espelhos Velados. E agora que ele começa a aparecer com mais frequência por estas paragens, parece ainda mais estranho que ele por cá esteja. Soa a uma espécie de heresia. Porque, tal como ele próprio demonstrou, os grandes poetas - quero dizer, os realmente grandes - são de poucas palavras.

Ilha dos Amores #64



DESCULPA, MARLON!

Apanhaste-me de surpresa. Assim como quem não quer a coisa, pregaste-me uma rasteira. Foste-te embora precisamente na altura em que eu não te podia prestar atenção, na morte, como te prestara atenção em vida. Precisamente na altura em que eu estava imerso numa maratona de que só te falarei quando, por naturalidades da inexistência, me encontrar contigo de novo à esquina do Paraíso. Ou à esquina do outro sítio, que tanto tu como eu, nos nossos bons tempos, tínhamos sangue na guelra e não éramos bons de assoar. Tu um pouco mais do que eu, que sempre fui mais cordato. Não tinha lá aquelas tuas apoquentações que te faziam ficar com voz de tenor arrepiado e sobrolhos de cortar à faca.
Lembras-te, Marlon? Aquilo é que eram serões lá no Cine-Parque portalegrense, onde eu - bastante mais novo que tu - entabulava contigo diálogos a uma voz que nos deixavam encantados. Eu dum lado do écran, tu do outro, entendíamo-nos às mil maravilhas: tu levavas porrada duns mafiosos da estiva e eu, solidário, dava homem por ti a cem por cento. Engalinhavas-te por uma pequena que te fascinara no teu blusão de cabedal? E eu dava-te conselhos úteis para o namorico, quando não eras tu que mos davas a mim. E estive a teu lado na Bounty, a cumprir contra a fera autoritária. E, mais chegadamente, num pueblo da Califórnia a ajudar-te a tratar da saúde a um amigo-da-onça que te atraiçoara e a quem visitámos cinco anos depois. Para não falar em tantas e tantas ocasiões de traquejo em comum.
E deixei-te só à beira de morrer! Soube da tua morte assim rés-vés campo de Ourique, como que acreditando pouco, porque há maratonas que falam mais alto e mais claro e, como tu sabes, há coisas que um homem não pode - não pode nem quer! - deixar de fazer.
Mas tu vais perdoar o teu companheiro de tanta aventura. Vais entender a situação. E crê que me vou lembrar de ti mesmo gordalhão, mesmo desactivado, mesmo já sentadinho e sem veleidades a tocar harpa ao pé do Quinn, do Peck, do Lancaster. Ou seja, a tal bela malta da nossa confraria de antanho.
Cheer up, Marlon!


Nicolau Saião

Ilha dos Amores #63



Robert and Shana ParkeHarrison, Reclamation, 2003

7.7.04

O Povo é Sereno # 128



Está visto que a direita portuguesa tem medo de ir a eleições, que o mesmo é dizer que tem medo à democracia. As eleições, que são os balões de oxigénio dos regimes democráticos, não lhe inspiram grande simpatia: se tiver mesmo de ser, está bem, a gente lá faz o jeitinho, mas se as pudermos evitar, ah! isso é que era uma maravilha...! E tudo isto em prol da tão propalada "estabilidade". Manuela Ferreira Leite já veio agitar o fantasma da crise económica, dizendo que eleições, neste momento, iriam desferir um forte abalo na economia portuguesa, e fez questão de dizer que prefere, acima de tudo, a estabilidade. Como se a estabilidade fosse algo de completamente abstracto e pudesse ser assegurada por qualquer indivíduo, desde que pertencente ao PSD: podia ser o Zé, por exemplo, ou o Manel, ou o Quim, sim senhor, todos bons militantes, ou até, porque não, o Alberto João Jardim, um "histórico" do partido, homem cujas "políticas" ninguém contesta e que dever ser, por isso, uma figura consensual. Para a direita, todos os argumentos são poucos quando se trata de afastar um cenário de eleições. Aliás, para aquele que será provavelmente o nosso próximo Primeiro-Ministro, o inenarrável Pedro Santana Lopes, visto que Jorge Sampaio dificilmente terá a coragem de que é preciso para dissolver o Parlamento (coitadinho, teve que interromper as férias), o voto popular nada vale. Na passada segunda-feira, em entrevista a Judite de Sousa na RTP1, dizia Santana Lopes à jornalista: "Já viu o que era os portugueses levarem agora com mais umas eleições em cima? Terem que ver espalhados por todo o lado cartazes com a minha cara e a do Dr. Ferro Rodrigues...?". Realmente, que grande maçada que iria ser. Ainda bem que há quem se preocupe com o bem-estar dos portugueses.

O Silêncio É de Ouro #110



De todos os músicos de jazz surgidos nas últimas décadas, poucos se podem orgulhar de possuir um currículo tão recheado como Joe Lovano. Na verdade, se o número de prémios atribuídos pela crítica e pelos leitores das revistas de jazz é uma garantia de qualidade, então Lovano é talvez o melhor músico da actualidade. Nascido em Cleveland, em 1952, este saxofonista recebeu prémios por quase todas as suas gravações. Um exemplo maior: "Quartets: Live At The Village Vanguard", editado pela Blue Note e que inclui gravações ao vivo efectuadas naquela mítica sala de espectáculos de Nova Iorque, em 1994 e 1995.

Raul Silva