31.5.04

Post It #147

Não resisto a partilhar este texto delicioso do Sérgio Faria, inspirado num termo recorrente da gíria dos arquitectos.

Acho uma gracinha o jargão dos arquitetos para justificar uma obra invasiva: eles dizem que a obra "dialoga". Já disse o carnavalesco Ohtakinho Trinta, nosso Frank Gehry, que seu Hotel Renaissance "dialoga" com as árvores da Alameda Santos [SP]. E que seu Palácio da Carambola "dialoga" com os entornos da Zona Oeste. Pois na apresentação de seu projeto, o Paulo Mendes da Rocha informou que o mondrongo da Praça do Patriarca "dialogava" com a vizinha igreja de Santo Antonio, tombada pelo Condephaat. Se "dialogava" mesmo, eu imagino o diálogo:

- E aí, Santo Antonio?
- Fala, Paulo
- Gostou do meu projeto?
- Ele esconde a minha igreja, Paulo
- Não é bem assim, ele dialoga...
- Vai tomar no seu cu, Paulo.

Post It #146



Livros grátis.

"4 canções". Com texto de innersmile e imagens (excelentes) de Mário Pires. Basta fazer o download.

Post It #145

My life in the world of books began with lunch, a menu gastronomique of mortification.

As memórias de Robert McCrum, editor de literatura do Observer. Um pequeno aperitivo para os apreciadores de autores contemporâneos de língua inglesa.

Post Scriptum # 247



CHUVISCO DE MOSCOVO
Óssip Mandelstam

Reparte avaro o friozinho
de pardal, pluma que tremeluza -
um pouquinho a nós e à folhagem,
um pouquinho às ginjas na bandeja.

E cresce o referver no escuro -
os farfalhos lentos de chá
regalam-se no verde escuro
como um formigueiro do ar.

O vinhedo de gotas frescas
na erva pinga buliçoso:
qual viveiro de frio aberto
nesta campónia Moscovo.

Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

[Imagem: Yuri Pimenov, Nova Moscovo, 1936. Respigada no Abrupto: da sua excelente série "Os Dez da Tretyakov".]

O Povo é Sereno # 105

Temo que na próxima revisão constitucional o futebol poderá ser consagrado como a religião oficial do estado português. Vem isto a propósito de um artigo notável de Eduardo Cintra Torres no "Público" de hoje. Notável, mas não sem falhas, como quando o articulista estabelece um paralelo entre a religião do futebol e o papel político e aglutinador do desporto na Grécia e Roma antigas (o mesmo fez ontem o Prof. Marcelo do seu púlpito na TVI, ao criticar os "intelectuais" detractores do futebol que, segundo ele, se estariam a esquecer de que na civilização greco-latina os heróis cantados e celebrados eram os que se distinguiam nos feitos desportivos). O erro está no confundir o futebol com o desporto (desde logo, trata-se de uma ofensa às demais modalidades desportivas), o que revela bem até onde foi levada a lavagem cerebral no nosso país. Na Grécia e na Roma da Antiguidade o desporto não era, como hoje, o futebol, mas as Olimpíadas (a que agora já ninguém liga patavina). E esquecem-se ainda de que, se é verdade, como diz Cintra, que "na Grécia, o desporto era iminentemente político, símbolo e orgulho da cidade e concretização da paz entre as cidades", o centro da vida política e cívica não era o desporto, mas a participação política e cívica, o desenvolvimento das capacidades intelectuais e raciocinantes, a maiêutica, a propedêutica, a argumentação, a eloquência, a retórica, a poética, a filosofia, quer dizer, tudo o que hoje é da ordem do acessório, do secundário. Nada havia de mais dignificante, para um grego, do que deslocar-se até à ágora e aí entabular conversa com os seus concidadãos acerca da coisa pública. Nos nossos dias, a coisa pública é a "bola". Era isto que os políticos portugueses deviam dizer. Era essa a sua obrigação moral e política. O povo é sereno, de facto, sereno até à náusea.

O Silêncio É de Ouro #88





Uns foram os pioneiros, a onda de choque e os cometas do punk rock britânico, os outros foram os que levaram mais longe as premissas musicais deste movimento social. "Never Mind the Bollocks Here's the Sex Pistols" (EMI, 1977), dos Sex Pistols, e "London Calling" (Epic, 1979), dos Clash, são os álbuns de um tempo em que se dizia não haver futuro.

Post It #144

O CAAAS - Centro de Actividades Alternativas e Animação Social, ligado à Terra Viva! - Associação de Ecologia Social, iniciou no dia 26 de Maio um "Círculo de Estudos Sociais Libertários" dedicado ao Anarquismo (origens, correntes, experiências revolucionárias, organização, etc.). A tertúlia continua sempre às quartas-feiras, às 21h30, no número 213 da Rua dos Caldeireiros (à Cordoaria, no Porto). A inscrição pode ser efectuada pelo telefone (22 208 19 48) e é gratuita.

Post It # 143

TrackBack

A propósito dos excertos do manual de civilidade e etiqueta que têm surgido no Quartzo, lembrei-me de um livrinho que me ofereceram (que eu não compro porcarias destas) aqui há anos. Chama-se "Manual de Civilidade para Meninas" e tem uma capa cor-de-rosa bébé com uma borboleta - só que é da Fenda. O autor, Pierre Louÿs, nasceu em 1870 e morreu em 1925, sifilítico.

Aqui. E com mais para ler.

O Povo é Sereno # 104

A DEPRESSÃO NACIONAL



Tomei há pouco tempo conhecimento da existência em Portugal de um movimento destinado a restaurar o optimismo nacional e a elevar a estima dos portugueses, levando-os a afastar o seu "pessimismo" e a esquecer o que há de negativo em Portugal. Perante estas boas intenções, pensei: Tivemos momentos de esperança, como as revoluções de 1820, 1910 ou 1974, mas sempre que avistámos raios de luz, a inércia foi fazendo o seu trabalho, ao colocar no governo e na administração pessoas cuja competência se concretiza apenas quando governam os seus interesses e os da sua clientela política e social, institucionalizando (através da justiça e da fiscalidade, por exemplo) oligarquias corruptas, quando não autênticas plutocracias.
É difícil não se pensar assim quando se é cidadão português e não se tem barriga cheia. Infelizmente, o conjunto dos exemplos de boa conduta e de exigência social existentes em Portugal nunca poderá tranquilizar os nossos concidadãos. Quem pode estar tranquilo quando tem sobre a cabeça a ameaça de um Estado abusador e negligente? A fiscalidade sobrecarrega a classe média para aliviar os poderosos. Por todo o lado é promovida gente sem currículo nem competência, mas com mal-disfarçada vontade de "subir". O mérito é desvalorizado na administração pública. O sistema de ensino tenta camuflar o insucesso. Os direitos e ansiedades dos cidadãos são desprezados. A gestão do território em termos ambientais, urbanísticos, económicos e culturais é caótica. Há empresários que impunemente exploram o trabalho através da chantagem, que fecham ou mudam a localização das suas empresas. Sectores estratégicos da vida nacional são colocados em mãos privadas. O governo tenta diminuir a despesa pública cortando nos que já pouco têm, "esquecendo" que melhor seria aumentar a receita taxando os que mais ganham.
Os exemplos são múltiplos e variados. Claro que existem muito boas práticas nalguns locais - mas chegará tão curto lenço para cobrir a larga face de tão grande negrume?


Ruy Ventura

Post Scriptum # 246

Para os delicadinhos da silva (3ª parte)



Do "Tratado de civilidade e etiqueta", de Mireille de Gencé (1912).

(...) Quando uma pessoa exalou o último suspiro é ao seu parente mais próximo que incumbe o supremo dever de lhe cerrar as pálpebras, mas quando a dor é profunda por vezes sucede que os parentes próximos não têm a energia precisa para cumprir esse lúgubre dever, que uma pessoa amiga pode então tomar a seu cargo. Ao cerrar-se as pálpebras do falecido, convirá estender-lhe os membros antes que fiquem rijos devido à morte. Por último, a suprema toilete: veste-se-lhe o melhor fato e estende-se depois no leito.(...) Anda-se pelo quarto onde ele jaz com as maiores precauções e abafando o ruído dos passos.
(...) Se na rua uma senhora deixar cair um objecto, o cavalheiro deve apanhá-lo e entregar-lho com amabilidade. Não deve aproveitar o pequeno gesto para entabular conversa. Nunca se deve apanhar um lenço ou um pente. O excesso de obséquios é de evitar. Na igreja não se deve sorrir às pessoas que entram ou fazer comentários enquanto o sacerdote fala. Convém não esquecer que o templo não é um teatro ou sequer um salão. Se não sabemos estar como devemos, é preferível não ir lá.
Ao entrarmos numa igreja devemos descalçar as luvas (...)".


Selecção e tradução de Nicolau Saião

30.5.04

O Povo é Sereno # 103

Ainda sobre o delírio colectivo da bola, um excerto do texto de António Barreto publicado na edição de hoje do "Público". Não é um texto sobre a bola, mas o espírito lúcido e desencantado (talvez demais, por vezes) de Barreto consegue farejar à distância os ciclos que se avizinham na vida portuguesa:

A vitória do Futebol Clube do Porto, o festival de Rock e o Euro 2004 estão aí para avisar a toda a gente de que os dias negros acabaram. Vão começar os dias da "auto-estima", a última das obscenidades inventadas pelas agências de propaganda.

Nem mais. Vendo bem as coisas é tudo, realmente, uma questão de propaganda. E os portugueses, como sempre mansinhos, bem-comportados, engolem. É uma receita infalível.

O Povo É Sereno #102

Manuel Monteiro esteve ontem em campanha eleitoral no Senhor de Matosinhos. Não ele apenas, corrijo, mas o partido dele, a quem chamam de Nova Democracia, ou seja, estava mais gente com ele, embora o partido, em boa verdade, nada mais seja do que ele. Perceberam? Não? Não importa. O que interessa é que a Nova Democracia é o banqueiro Monteiro e... mais uns trocos. E o povo conhece-o é a ele, tanto que na feira era sempre ele o interpelado, pelo menos foi o que se viu na televisão. O problema é que as pessoas ainda devem andar um bocadinho baralhadas e haverá quem não saiba com que voz é que o Monteiro anda agora a falar. O pobre candidato (fui eu que ouvi)lá teve de explicar mais de uma vez: "Olhe que eu agora tenho um partido novo!". Para o caso, altamente plausível, de muita malta ainda não ter percebido. Mas houve um cidadão que, ele sozinho, percebeu tudo. Foi um tipo que se aproximou de Monteiro, apertou-lhe vigorosamente a mão e disse: "O senhor vai-nos livrar do Paulo Portas!". Quem seria o sujeito? Algum lírico de esquerda a pensar que o Monteiro se converteu ou alguém disposto a elevar à categoria de "guerra civil de libertação" aquilo que não é mais do que um ajuste de contas entre dois ex-amigalhaços?

A última da Francisca #6

O FILIPE

Hoje conheci o Filipe. Ficou sentado na missa mesmo ao lado da Francisca, durante a primeira comunhão.

- Então, és tu o Filipe, hã?
O puto ficou arrasado.

A Francisca comungou pela primeira vez. Apenas me disse não ter entendido porque é que o padre afirmou que a hóstia era o corpo de Cristo, quando na verdade lhe sabia não a carne mas à "casca dos ovos moles de Aveiro".

Para meu gosto, eles riram-se demasiado um para o outro durante a cerimónia mas a miúda desculpou-se dizendo que tinham ficado com o corpo de Cristo colado no céu da boca.

28.5.04

Post It #142

Quem ainda se recorda de Mikhail Sholokov?
Ou Mikail Cholokov, para usar a grafia que foi adoptada no ocidente.

O Silêncio é de Ouro #87

O que é que um músico de jazz pode fazer com um trompete? Se o seu nome for Chet Baker (1929-1988), pode fundar uma religião. Ouça-se um disco seu e está lá tudo: o prazer e a angústia, o lado mais luminoso da vida e o mais obscuro, excesso e contenção. E decorridos vários anos sobre os melhores momentos da sua carreira, o seu estilo único continua a ser um dos mais imitados do jazz. "The Legacy" foi gravado poucos meses antes da sua morte e é uma espécie de súmula da sua arte. Ora ouçam.

Raul Silva

Começou o Corta!

Vai no Batalha # 20

Mais uma achega para o debate em torno do futebol. Este texto, sugerido pelo Ricardo Carvalho.

O Silêncio É de Ouro #86


Uma das mais magistrais obras musicais produzidas nos últimos anos é o álbum triplo dos Magnetic Fields, "69 Love Songs" (Merge, 1999), envolvido por uma capa de grande efeito visual. Sessenta e nove declinações do amor romântico pela pena e voz de Stephin Merritt, essencial compositor da pop clássica contemporânea.

Post Scriptum # 245

Para os delicadinhos da silva (2ª parte)



Do "Tratado de civilidade e etiqueta", de Mireille de Gencé (1912).

"(...) O homem deve tirar o chapéu com um gesto natural, sóbrio e elegante se tal for possível. Descubram-se, então, quando cumprimentarem, mas não exagerem o gesto a ponto de tocarem com o chapéu no joelho.(...) Não deve mostrar-se o forro do chapéu.
Nos chapéus de feltro duro, pega-se pela aba. Nos chapéus que sejam leves ou moles, pela parte superior da copa.(...) Nunca deverá levar-se o chapéu mais abaixo do nível do ombro.
Ao cumprimentar com a cabeça, a inclinação do busto deve ser acentuada mas natural e sem rigidez e sem a pose pretensiosa do "adesivo", que se dobra a meio deixando pender os braços num gesto perfeitamente ridículo.
Quando as senhoras entram num salão, o dono da casa curva-se com tanta deferência como se fosse ele que entrasse em casa delas. Para com os homens o seu cumprimento é simples e cheio de afabilidade.
Não se cumprimenta mais duma vez a mesma pessoa com ligeiro intervalo, pois é preferível não atrair a atenção com repetidas saudações, que podem afigurar-se importunas.


Tradução de Nicolau Saião

Post Scriptum # 244

Celso Emilio Ferreiro
(Galiza, 1914-1979)




O PROFETA

Pouco antes de morrer
disse ele ao povo:
Deus te dê ira,
que paciência tens de mais.

Tradução de Pedro da Silveira.

27.5.04

O Silêncio É de Ouro #85


O abrir da porta para uma das mais sedutoras discografias dos anos 80: "Rattlesnakes", do cantautor Lloyd Cole, neste primeiro trabalho ainda acompanhado pelos Commotions (Polydor, 1984). Oportuna sugestão do João Luís Barreto Guimarães.

Post It #141



Para os apreciadores das teorias da conspiração, há um interessante artigo do novelista Gary Indiana, no Village Voice.

Cimbalino Curto #90


Da minha janela ouvem-se vozes de crianças em algazarra a cantar qualquer coisa como "filhos do dragão...". Da minha janela vê-se uma cidade vestida de azul e branco, os mais novos com camisolas do Deco e do Derlei e os mais velhos com cachecóis à volta do fato ou do vestido. Da minha janela sente-se a felicidade que paira sobre toda uma cidade. Eu gosto desta minha janela.

Vai no Batalha # 19

O futebol e o espectáculo que o rodeia é o mais agudo sintoma de atraso intelectual e cívico deste país. "Hoje somos todos portugueses", clamam as massas de lágrima ao canto do olho, em transe com mais uma vitória do fcp. Pois, mas já não somos "todos portugueses" para trabalhar mais e melhor, nem o somos para comparecermos junto às urnas de voto faça frio ou sol e também já não somos "todos portugueses" para nos respeitarmos uns aos outros nas estradas onde morremos como cordeirinhos oferecidos em sacrifício. A vida nacional vive ocupada pelo fenómeno do futebol, as pessoas não conseguem entreter a massa encefálica com outra coisa e falam nas ruas e nos cafés de golos, de jogadores e de contratações como se falassem de um assunto de suma importância. Não lêem jornais, não lhes interessa o que se passa no mundo, mas não falham um dos três folhetins futebolísticos que estão por toda a parte, nos cafés e nos consultórios médicos. Dir-se-ia uma lobotomização colectiva. E as televisões, claro, pactuam, entopem a máquina de combustível, amplificam e hiperbolizam todo esse mundo grotesco do futebol até o transformarem em informação mais urgente e mais importante do que, por exemplo, a desgraça do Iraque. Como se não bastasse, ainda temos que suportar políticos pedantes (para não dizer pior) que acham que se aproximam mais do povo se mostrarem grande simpatia pelo fenómeno, e andam a agitar cartões vermelhos e amarelos para lá e para cá. Outros dizem que o futebol é "das pouca alegrias" que as pessoas têm neste Portugal "deprimido". Então mas o que é que aconteceu às "outras" alegrias? À de uma noite de início de Verão passada na companhia de bons amigos, ao filho que começou a dar os primeiros passos e a articular as primeiras palavras, ao filme que deu acesso a outro tempo e a outro lugar, ao disco que, naquele momento, traduz exactamente aquilo que estamos a sentir... Já não servem? São de baixa extracção?
Não gostar de futebol, ainda por cima, é hoje quase um estigma social, gera desconfiança e desaprovação. Quem não aprecia o espectáculo "do esférico", as manifestações de atraso (o "até os comemos"), o vandalismo, etc., é logo olhado nas relações sociais como se fosse uma entidade estranha, deslocada (para não dizer mais), é alguém que não comprende a "magia" do futebol... A teoria de alguns é a de que o futebol "liberta" os instintos e as pulsões mais primárias, e que teria, por isso, uma qualidade catártica. Dentro da mesma linha de raciocínio, o mesmo se poderia dizer da guerra, da tortura e da violência em geral (também é possível lê-las enquanto manifestações do "id"). Cá para mim isto ainda vai acabar mal. Abaixo o futebol.

Post It #140

Ontem, a festa também foi verde.
O Blog far niente, outro dos nossos blogues de leitura diária, fez um ano. Parabéns.

Post It #139

José Mourinho é apenas um mísero campeão da Europa. Ainda não é campeão da Via Láctea. Por isso é que ele estava com aquele ar tão chateado no final do jogo...

Agenda

Seamus Heaney está hoje em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa. E também está aqui e aqui.

Post Scriptum # 243



Falavam as duas amigas:
- Para quê andar com tantas seduções? Com muitas seduções [os homens] assustam-se... Parecia que íamos enforcá-los com os nossos cabelos compridos - dizia Marien.
- Mas acreditas mesmo que eles temem a serpente da nossa trança? - expunha Sophie.
- Claro que sim... Julgavam-na a serpente do paraíso... Nós assustámos-los. Tem de se entrar na batalha com eles e fazê-los saber que temos a silhueta dos seus amiguinhos, e além disso, temos o que eles não têm...
Sophie riu-se com vontade e depois disse do alto da sua opulência de mulher de exuberância e macieza ostentosas:
- Mas não compreendes que eu não posso dissimular que sou mulher?
Realmente a macia e opulenta Sophie não podia dissimular a sua feminilidade.
- Eu, se cortasse o cabelo, pareceria uma menina dessas que robusteceu e fez crescer o tifo desesperadamente...
Marien olhou-a pensativa, e depois disse:
- Tu estás bem... Tu atrais francamente os homens. Mas eu sou apenas mais uma dessa multidão de mulheres de forma esbelta e sóbria, corria mais o perigo de não ser compreendida. Assim poderei dar-lhes batalha [vestindo-me como um homem]. É tão fácil transformar-se em homem, e tão difícil ser mulher!

A Mulher Vestida de Homem
Ramón Gómez de la Serna, 6 Falsas Novelas.

Post Scriptum # 242

Para os delicadinhos da silva (1ª parte)



O mais célebre livro de boas-maneiras é, provavelmente, o "Tratado de civilidade e de etiqueta" que sua autora, a Sra. Condessa de Gencé - chamada em solteira Mireille de Bernalle - deu à luz no ano da graça de 1912, em Paris.
A nossa Mireille, que enquanto moça parece que era um pedaço de madame, para além de ser daquel'arte tinha também muito jeito para a afectuosa frequentação de fidalgos, pelo que apanhou em voo o garboso Henry de Gencé, se calhar no fim de um passeio a cavalo pelas coutadas do excelente titular, que como perfeito "sportsman" era grande apreciador de garranos, potros e éguas.
E como comprava tudo já feito - como se diz na minha região - para ocupar o tempo que lhe sobrava e em que o seu prezado consorte estaria entretido noutras cavalgadas, escrevicou o renomado tomo, que é uma delícia de leitura principalmente para quem goste de humor negro e, aqui entre nós, me custou os olhos da cara num alfarrabista do Quartier Latin.
A excelente condessa, inteiramente a sério, debruça-se com propriedade sobre temas tão excitantes como "o lenço de algibeira, o bocejo, o espirro, o cumprimento com a cabeça, com o chapéu, o aperto de mão" - e estes encorajadores itens fazem parte só dos preliminares, como refere com candura e juro que não estou a ser brejeiro - porque o que vem lá p'ra diante ainda é mais... mavioso: as "segundas núpcias, o enlace de uma senhora já com alguma idade" (como ela diz numa expressão "politicamente correcta" "avant la lettre"), "maneiras de proceder para com um morto", entre muitas outras vigorosas iguarias. Um delírio!
Nas próximas duas edições desta sub-rubrica dar-vos-ei inteiramente de borla alguns fragmentos das lucubrações da prezada Mireille, não só tendo em vista melhorar as vossas maneiras, que poderão estar precisadas, mas também para que os mais traquinas se possam divertir com proveito.
E, já agora, saibam que também o Jules Morot aqui há anos se debruçou sobre a etiqueta, tendo feito vir a lume um ramalhete de suculentas reflexões de que, lá para o Verão, também vos ofertarei algumas florzinhas.
Mas como o Jules é surrealista, preparemo-nos para esperar o pior...


Nicolau Saião



LENÇOS BRANCOS PARA MOURINHO.
Agora, sim. Já pode ir embora.

26.5.04

Fauna & Flora # 7

Dois momentos hilariantes, ontem, no "Jornal da Noite" (SIC), que ajudam a compreender um pouco melhor esta tragicomédia chamada Portugal.

Primeiro, a notícia sobre a OPA hostil lançada pelo inefável presidente do SL Benfica sobre um programa desportivo da SIC Notícias. Em resumo, e para quem não viu, Luís Filipe Vieira estava em casa a acompanhar a emissão, não gostou do que ouviu e deslocou-se à estação para "entrar" em directo no programa, o que fez, depois de autorizado pela direcção, para contrariar comentários alegadamente feitos por um dos participantes habituais, Guilherme Aguiar. Terminou com a seguinte pérola: "exijo respeito pelo Benfica". E eu, lá do meu sofá, pensei com os meus botões: com presidentes destes...

Segundo, a reportagem sobre o fim da animação nocturna e a crise do pequeno comércio em Bragança ditados pela "expulsão" das brasileiras para a vizinha Espanha. Diziam os comerciantes deste lado da fronteira: "elas compravam muitas coisas", "consumiam muito", "dantes é que o negócio ia bem". Diziam os colegas do outro lado: "elas são muito simpáticas", "são bem vindas", "o negócio melhorou muito". E as "mães de Bragança", o que dirão do facto de terem salvo os casamentos mas arruinado o comércio local?

Cimbalino Curto #89



O PORTO TEM UM VEREADOR DA CULTURA. Esta é a principal conclusão de um exaustivo trabalho de investigação que o Quartzo, Feldspato & Mica levou a cabo ao longo dos últimos três anos. De facto, e embora os elementos de que dispomos sejam muito escassos, estamos em condições de assegurar que o vereador existe e chama-se Marcelo Mendes Pinto. Mais: de acordo com fontes próximas do executivo, e que obviamente solicitaram o anonimato, o dito vereador utiliza um gabinete no edifício da câmara. Infelizmente, e mau grado todos os esforços nesse sentido, não conseguimos identificar a natureza da sua actividade. Estamos perante um verdadeiro profissional. Pinto não deixa pistas.

25.5.04

O Povo É Sereno #101

Lá volto eu a embicar com os "slogans" políticos. Por uma boa razão: para atribuir o Prémio da Falta de Imaginação à CDU. Agora que se aproximam as eleições europeias (esse acontecimento que está a suscitar ondas de entusiasmo indescritíveis por esse país fora), Ilda Figueiredo surge ubíqua em paredes, lampiões e "outdoors", acompanhada da frase "Outro Caminho para Portugal e para a Europa". Apetece perguntar: "Outro? Qual?". Ou qualquer um serve? Ou dar-se-á o caso de que aquele partido chegou a um ponto em que já está por tudo?
Não importa. Talvez os pendões estivessem melhor. Mas não. Vou a ver e o que é que dizem os pendões? Simplesmente isto: "Vota CDU. Sem falta!". E eu diria: sem mais. Oh, meu Deus! Que saudades dos tempos em que havia "slogans" como "Os ricos que paguem a crise" ou "Nem capitalistas nem generais, Aires Rodrigues à presidência!". Chamem-lhes primários, chamem-lhes maniqueístas, mas esses ao menos diziam alguma coisa. Palavras que ardiam, palavras que obrigavam a olhar. E não estas proclamações redundantes ou "lapalicianas", tão cheias de sumo como um copo já bebido.

Post It # 138



Finalmente. A Assírio & Alvim já tem um sítio. E, como é óbvio, vale bem uma visita. Destaque para o arquivo da Phala, com pequenos excertos de alguns números seleccionados da mítica publicação criada por Hermínio Monteiro.

(Via A Outra Voz)

Der Golem # 1


Raras vezes a banda desenhada esteve tão próxima da poesia como em "Krazy Kat", de George Herriman (1880-1944). Publicada entre 1913 e 1944 nas folhas dos "Hearst newspapers", o cenário de fundo é "coconino county", um paraíso artificial com estranhos cactos, árvores e rochedos ao fundo (se tivesse banda sonora, ou era dos Calexico ou do Morricone) onde Krazy Kat, um gato (ou gata?), Ignatz, um rato delinquente e "Offissa Pupp", um polícia, põem em prática toda uma filosofia. Krazy é a criatura mais doce, ingénua, e delicada que é possível imaginar, um menestrel que tenta fazer sentir-se em casa até mesmo a barata ou a minhoca que se encontre pelos seus lados. O trabalho de Ignatz é atirar diariamente com um tijolo à cabeça de Kat. Umas vezes consegue outras vezes vai passar a noite à prisão. Krazy toma as tijoladas por um sinal de amor (o sexo de Krazy Kat é eterno motivo de controvérsia, uns dizem "her" outros "him"). O sentido lúdico da linguagem, nesta bd, em nada fica atrás do de "Alice in Wonderland" ou de "Winnie the Pooh". Veja-se o seguinte parada de aliterações: "Coconino´s chromatic countenance lies blanketed in shadow by a canopy of clouds" (24, Maio, 1931).
Dei por mim a pensar que Fernando Pessoa pode ter lido "Krazy Kat". Bastava que para isso tivesse tido acesso a uma edição de domingo de um dos jornais editados por William Randolph Hearst. Sabe-se lá o que ainda poderá sair daquele baú (imaginem o "Blake e Mortimer" com argumento do Álvaro de Campos). Pelo menos e. e. cummings era fã. Escreveu mesmo um ensaio sobre o "Krazy" de que há um excerto aqui.

Agenda

Quinta-feira, dia 27 de Maio, a não perder.

20h30: Sessão de abertura do Corta! Festival de Curtas Metragens do Porto, no Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, Palácio de Cristal, no Porto.

22h30: Noite de poesia no Café Pátio, em Vila do Conde. Com a intervenção do performer António Pedro Ribeiro e de Armando Ramalho.

Post It # 137 (atrasado três dias)

No Mil Folhas, texto de Rui Catalão dedicado ao livro "Contos", de Franz Kafka, acabado de editar pela Assírio & Alvim, e com tradução do nosso Manuel Resende, com Álvaro Gonçalves e José Maria Vieira Mendes. Um dos contos incluídos neste livro é "Na Galeria", que aqui pré-publicámos, em Outubro de 2003.

Umbigo # 34

Foi por pouco. Graças a um compromisso inadiável com a construção civil, escapámos a um quase atentado à bomba, num café da Ribeira do Porto. Se Deus existe, ele está nestes pequenos detalhes.

Post Scriptum # 241



Muita gente deveria ler e digerir esta frase de Pessoa, retirada do seu "Heróstrato", livro muito perigoso e, por isto, tão pouco citado:

"A função da arte não é descarregar os nossos sentimentos: a arte não é um escoadouro, nem um esgoto."


Ruy Ventura

24.5.04

Post Scriptum # 240



Não à América de Bush, Rumsfeld, Condolessa, Colin Power e Cheney.

Sim à América de Walt Whitman, peito amplo, voz fraterna, poesia imensa, querendo amar o mundo inteiro nos seus versos.

Não à América que fez de cada americano um refém dentro de sua própria casa e fez do mundo inteiro refém do medo, por achar que a força resolve tudo.

Sim à América da imponderável Emily Dickinson, dos jogos verbais de Cummings ou da poderosa voz de Carl Sandburg falando da perplexidade do povo diante da História e num poema lembrou que houve um tempo em que o Czar tinha oito milhões de homens com fuzis e baionetas, que achava que nada poderia lhe acontecer e, no entanto, em 1914 e em 1917?


"A América que amamos." Excelente texto de Affonso Romano de Sant'anna, no jornal "O Globo" (disponível após registo).

Post It # 136

Se pensa que a poesia não serve para nada, pense de novo.

Cimbalino Curto #88

O Ricardo Carvalho sugere a leitura deste texto do DN dedicado a dois estudos recentes efectuados junto das populações do Porto e Gaia sobre qualidade de vida. As conclusões pouco surpreendem. Mas há alguns dados curiosos que vale a pena conhecer. Por exemplo, de acordo com um dos documentos, há apenas quatro domínios em que o Porto obtém vantagem em relação a Gaia: espaços de lazer, infra-estruturas desportivas, oferta cultural e animação de rua. Em todos os outros indicadores, nomeadamente espaços verdes, praias, água, transportes, oferta comercial, limpeza, segurança, habitação e até, imaginem, urbanismo, os portuenses estão muito mais insatisfeitos. Sabendo que Gaia é o que é em termos de qualidade de vida, dá que pensar. Ou não?

Señor Tallon #58

O PSD lá cumpriu, este fim-de-semana, mais uma via sacra com procissão das velas madrugada fora. Mas o esforço foi compensado: no fim, apareceu a Nossa Senhora, envolta em confetis de muitas cores, a zurzir nos comunistas. O povo prostrou-se e deu-lhe 100% dos votos. Nem menos um.

Post Scriptum # 239

COMO NAS LIMPEZAS DA PRIMAVERA.



O mundo podia ficar bem melhor se efectuássemos umas varridelas no seu perímetro psicológico, no imaginário quotidiano, na verdade muito palpável. À guisa daquela limpeza de Primavera que mais ou menos por esta altura do ano as donas-de-casa operosas costumavam/costumam levar a efeito no "home sweet home".
Pois. E para que o dito imaginário comece a escarolar-se e a recompor-se, é preciso entre outras coisas:
- que ao princípio deixe de ser apenas o Verbo; junte-se alguma música; de preferência um pouco de flamenco
- que os egípcios deixem de andar de lado
- que o Brel largue a sujeita de vez; já não se aguenta aquele contínuo miado do "ne me quitte pas"
- e, já agora, que volte à vida, que faz muita falta nestes tempos inóspitos
- que o pão deixe pela manhã de ser comido com manteiga; o queijo de Nisa e a pasta de fígado de La Serena merecem uma oportunidade
- que a Feira do Livro do Porto se realize em Lisboa e a de Lisboa no Porto
- que os filmes lusitanos passem a ser filmados em Neptuno, com excepção dos do João Canijo e duma senhora cujo nome não me ocorre de momento
- já agora, excepcione-se também o M. de Oliveira e o Martin Scorsese apesar de não ser um homem do norte
- que o tal das escritas fenomenais (será necessário nomeá-lo?) se ponha a levitar
- que a política portuguesa seja encerrada para obras
- que os portugueses passem a ser espanhóis seis dias na semana; e que o inverso também seja verdadeiro
- que os poetas americanos finalmente consigam ser tão bons como os ingleses
- e, finalmente, que o Brel se reconcilie, mas desta vez deixe de ser titaúcha.


Nicolau Saião

Post Scriptum # 238

Paul Fort
(França, 1872-1960)




SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

A rosa livre dos outeiros saltou de júbilo esta noite, e logo as rosas dos canteiros, pelos jardins, umas às outras:

"Saltemos, com joelho ligeiro, por cima da grade, irmãs. O regador do jardineiro não vale a névoa das manhãs."

E eu vi, na noite de Verão, de mil jardins saltando a grade, as rosas indo em procissão atrás da rosa em liberdade!

Tradução de Pedro da Silveira.

Adenda:
Mais Paul Fort no blogue do Rui Almeida.

23.5.04

A última da Francisca #5

ANEDOTA OUVIDA PELA FRANCISCA

Íam dois dinossauros pela rua a comer semáforos, e diz um assim para o outro:

- Não comas esse que ainda está verde.

22.5.04

O Povo é Sereno # 100

Há frases que definem um homem. Depois de elogiar e enaltecer essa repugnante criatura que dá pelo nome de Alberto João Jardim (pelo seu trabalho no califado da Madeira), Durão Barroso, citado pelo "Público", afirma que "não há completa liberdade de expressão nos Açores". Por um momento cheguei a pensar que o Primeiro-Ministro era a única coisa que se aproveitava neste Governo, isto é, que pelo menos era uma pessoa séria, uma pessoa de bem, independentemente do seu credo político. Estava completamente enganado.

21.5.04

O Silêncio É de Ouro #84


Magnífica capa de um não menos electrizante disco dos Love ("Forever Changes", Sundazed, 1967), a banda californiana que mergulhou o psicadelismo num caldeirão musical com rock, folk, blues, jazz, pop sinfónica & outros géneros em surpreendente harmonia.

Post Scriptum # 237

Terceiro e último poema de "Spoon River", a obra-prima de Edgar Lee Masters (E.U.A., 1869-1950).



DOUTOR MEYERS

Nenhum homem, a não ser o doutor Hill,
fez mais do que eu pela gente desta vila.
Todos os doentes, os feridos, os incautos
e aqueles que não podiam pagar vinham sempre ter comigo.
Eu era caridoso, o complacente doutor Mayers.
Tinha saúde e rendimentos confortáveis;
tinha a bênção de uma boa esposa, filhos crescidos,
todos casados e bem na vida; era feliz.
Então, certa noite, Minerva, a poetisa,
veio até mim com o seu problema, a chorar.
Tentei ajudá-la, mas ela morreu.
Fui processado, os jornais caíram-me em cima,
a minha mulher morreu de coração despedaçado,
e uma pneumonia acabou comigo.

Tradução de José Miguel Silva.

O Silêncio é de Ouro # 83


"A Naifa: canções subterrâneas" é o novo projecto de João Aguardela (Sitiados, Megafone, Linha da Frente) e Luís Varatojo (Despe & Siga, Linha da Frente) a que se juntam a vocalista Mitó (Maria Antónia Mendes) e o baterista Vasco Vaz. Tentam, como já o haviam tentado os "Ovelha Negra" num disco com boas ideias mas algo desconexo ("Por este andar ainda acabo a morrer em Lisboa"), refundar o fado, o orfão do imaginário português. Mas fazem-no com frescura e com temperantia, não são nenhuns iconoclastas. Para as letras escolheram uma série de poemas de autores "dos anos 90", a que a Mitó dá voz num registo que é um misto de ironia, amargura, ternura e sensibilidade pop e que não vai ser possível ignorar daqui para a frente. "A Naifa" funciona como banda, orgânica, e não como um projecto conceptual. Luís Varatojo toca a guitarra portuguesa como se tocasse uma guitarra semi-acústica ou uma eléctrica, dando-lhe todo o tipo de efeitos e processamentos (não são bem "riffs" nem são bem dedilhados); João Aguardela dá o "groove", com o baixo por um lado, cobrindo de carne os ossos, nervos e vasos sanguíneos da guitarra portuguesa, e por outro construíndo estruturas rítmicas à base de "loops" de electrónica. Mas o que é surpreendente é que uma mistura tão improvável quanto esta resulte, no disco, como se estivéssemos a ouvir uma banda a tocar ao vivo, como se cada um dos músicos tivesse nascido para aquilo e nunca antes tivesse feito outra coisa. Neste caso é mais importante a soma das partes do que as partes. Está tudo em A NAIFA.

Post It # 135

"Iraque: uma novela policial". De Gerhard Schröder.
Em breve, numa livraria perto de si.

O Silêncio é de Ouro # 82

O século XX está recheado de grandes intérpretes e virtuosos do jazz. Mas poucos pertencem a esse restrito grupo de músicos que efectivamente mudaram a sua história. Thelonious Monk (1917-1982) é seguramente um deles. Considerado por muitos como um pianista muito difícil, Monk foi um dos pioneiros do bebop, juntamente com Parker e Gillespie. Gravou poucos discos, razão pela qual este "Big Band and a Quartet" é absolutamente imprescindível. Gravado ao vivo no Philharmonic Hall, de Nova Iorque, em Dezembro de 1963, é uma autêntica antologia de momentos memoráveis, a solo, com o seu quarteto ou acompanhado pela big band. Sem dúvida, um dos grandes.

Raul Silva

Post It # 134

Ninguém é perfeito. Incluindo o Super-Homem.

For America's multimillion-dollar Superman industry, it's a serious problem. He debuted in the 1930s, when Americans liked their heroes like they liked their steaks: tough, thick and all-American. Nowadays we prefer our heroes dark and flawed and tragic.

20.5.04

Umbigo # 32

No Porto. Atropelado pela visão feérica da Petrogal iluminada, à noite, não posso deixar de me lembrar do "Blade Runner" de Ridley Scott, e de como, quase trinta anos passados sobre o filme, o cenário que espera algumas grandes cidades poderá ser, como o da megalópole fictícia onde chove sempre e onde as sombras tomaram o lugar das pessoas, um cenário onde não haverá espaço para outros sentimentos que não sejam o desencanto, a melancolia e a solidão.
Por outro lado, tentei imaginar como farão as pessoas que vivem nos prédios junto à Petrogal para irem fumar para a varanda. Reza a lenda que, em certas noites, o espectáculo de fogo de artifício nas fachadas dos prédios tem arrebatado muitos mortais. Uma súbita bola de fogo e depois o abismo da noite. Intermitentes, debruçando-se sobre as águas como os pirilampos espalhados pelas árvores junto ao rio. Em Trás-os-Montes.

Post Scriptum # 236



Roberto Juarroz é um poeta que nos assombra com as suas propostas, que nos mergulha no silêncio com a sua voz, para melhor olharmos o mundo que nos faz crescer interiormente. Quando, por exemplo traduzimos as suas máximas. Assim:

"Desbaptizar o mundo,
sacrificar o nome das coisas
para ganhar a sua presença."

"Entre a vida e a morte
há umas plantas pisadas
por onde ninguém caminhou nunca."

"Talvez todo o diálogo
não seja mais que a aprendizagem
ou quiçá o eclipse de um monólogo."

"(...) toda a oração é autónoma do seu destinatário
e pode dirigir-se até a uma pedra do caminho."


Ruy Ventura

O Povo é Sereno #99

Imagens sobre imagens. Caudais de imagens. Mercadorias. Homens-mercadoria. O consumo é a ilusão da escolha. O consumo é o fim da História. Prova, mastiga, deita fora. Mercadoria. Tu és a mercadoria. Compra e vende-te. Estás à venda no mercado global.
Imagens sobre imagens. Fazes parte do espectáculo. The show must go on. Consomes e és consumido. Nos bares, no autocarro, no emprego, na escola, na televisão. Cinco minutos de fama a bater palmas sentado na décima fila do "talk-show". Dás o cu por aparecer no ecrã. O mediático substitui o real.
Consome, corre atrás da imagem, do quadro idílico que a propaganda vende. Da gaja boa do anúncio de automóveis. Da felicidade televisiva. Consome, prova, mastiga, deita fora e torna a provar. É o ciclo da mercadoria, do produto supérfluo. Faz amor com a TV. A aldeia global a teus pés. O Grande Irmão vela por ti. O grande capital factura e avança. O noticiário vomita tricas politiqueiras. A bola rola no Estádio. É disto que o povo gosta. É isto que o povo come. É isto que o povo consome. São as tetas da alienação, como diz a canção dos Mão Morta.


António Pedro Ribeiro

Señor Tallon #57

Corrigenda

No texto anteriormente dado a lume - a carta do Sr. Dr. H.P.Lovecraft - havia um erro grosseiro de que nos penitenciamos e que vamos já emendar: o dr. Santana Lopes não se chama, obviamente, Segismundo Santana Lopes e sim Benvindo Santana Lopes, como o mesmo aliás não se esqueceu de apor num cartaz sobre o Euro recentemente emitido pela Câmara a que dignamente preside.
Aqui fica, respeitosamente, o esclarecimento que se impunha.


Nicolau Saião

A última da Francisca #4

DESCONCERTANTE

Preparo-me para sair, num domingo de manhã, rumo ao Serviço de Urgência.

- Onde vais, papá?
- Vou trabalhar, Francisca.
- Porquê...?
- Pra ganhar dinheiro, filha.
- Porquê...?
- Para comprar pão, filhinha...
- Há tanto pão na cozinha...

19.5.04

Señor Tallon #56

Uma viagem pelos espaços de sociabilidade ao longo da história. Uma lição de Zé Povão, hoje, na caixa que mudou os blogues.

Diário de Sophie#15

... e que com apenas oito anos já se masturba, querido diário. Eu costumo dizer que ele não tem a quem sair. A minha irmã é catequista e o meu cunhado acólito. Mas ao puto deu-lhe para ser precoce e só pensar em sexo. Outro dia, apanhei-o a ouvir escondido no quarto "O Pedro e o Lobo", do Prokofiev. Cheguei até a pensar que o miúdo tivesse redescoberto novamente a idade da inocência e estivesse, como tal, a agir em conformidade. Só depois é que reparei na capa do disco. O narrador era o Bill Clinton.

Post It # 133

Repito. Se há um blogue que merece ter 100 milhões de leitores, esse blogue é este.

Agenda

Hoje à noite, a partir das 21h30. Debate no Auditório Municipal de Vila do Conde em torno do tema "20 anos de poesia, gerações perdidas, gerações achadas". Participações de João Luís Barreto Guimarães, Inês Lourenço, Ana Luísa Amaral, Jorge Melícias e João Rios. O debate será moderado por Rui Lage.

O Silêncio É de Ouro #81


Dona de uma voz exuberante capaz de derreter os mais resistentes fiordes islandeses, Bjork optou por preencher "Vespertine" (One Little Indian, 2001) com canções murmuradas, letras sussurradas e delicadas composições de electrónica de câmara. Afinal, o patinho feio também sabe ser cisne.

Cimbalino Curto #87

Começa hoje mais uma edição da Feira do Livro do Porto. O costume: tantos e tantos pavilhões, tantos e tantos volumes (convém quem sejam números bem sonantes), numa "grande celebração do livro" e do ridículo desconto de 10%.

Post Scriptum # 235

Recordando Jorge Luís Borges, nos seus 105 anos.



No seu célebre ensaio "O jogo dos possíveis", onde analisa a diversidade do mundo vivo, diz-nos a dada altura François Jacob que "é provavelmente uma exigência do espírito humano ter uma representação do mundo que seja unificada e coerente. Na sua falta aparecem a ansiedade e a esquizofrenia". Em seguida, referindo que neste campo a explicação mítica geralmente ultrapassa a científica, Jacob esclarece que tal se deve ao facto de que os sistemas religiosos ou mágicos englobam tudo, ao passo que a Ciência só opera localmente, através duma experimentação pormenorizada sobre fenómenos que consegue circunscrever e definir. Mas o espírito humano tem exigências de outra ordem, que não se inscrevem na explicação científica nem na fideísta.
É geralmente aceite, tanto pelos escritores como pelos leitores devotados, que Borges estará indubitavelmente entre os maiores autores do nosso tempo. Do nosso tempo vivo, apesar de ele estar fisicamente morto. A Academia Sueca, que já provou por variadas vezes ter da arte e da literatura uma visão que só a ela envergonha e define, nunca concedeu a J.L.Borges o Prémio Nobel, apesar de o escritor ter sido, durante anos, uma espécie de candidato perpétuo. Não lhe perdoava o desassombro de algumas observações - e convenhamos que o Nobel nenhuma falta fazia a Borges. É que nisto de prémios, os nobeis passam e os génios ficam.
Mas "le poète a toujours raison", como canta Jean Ferrat. Serve dizer: escreve direito por linhas tortas. Pois não fora o mesmo Borges que muitos anos antes, numa entrada da Enciclopédia editada na sua querida Buenos Aires, propusera como hipótese de cenário para a sua morte a mesma Genebra onde veio a falecer? É que as explicações míticas, ouço dizer-me ao bichinho do ouvido Roger Bacon, por vezes coincidem com a realidade. Porque, como François Jacob oportunamente se demanda noutra parte do seu livro, talvez o mito, a realidade e a ciência tenham articulações comuns - e os reais criadores aí estão, falando nelas de vez em quando.
O que nunca conseguirão os galardoados de pacotilha que nos atarantam o quotidiano.


Nicolau Saião

18.5.04

Cicatrizes em ferida #7

FLÁCIDOS DOMINGOS

Nossa Senhora de Fátima - que é que é, e nunca se lhe apanhou pavio de inveja que fosse, - se regressasse hoje a Portugal iria por certo escolher como local da aparição um desses templos do progresso para onde convergem verdadeiras peregrinações ao fim-de-semana levando ao florescimento dessa seita mutante que se catequiza com a doutrina do fast-food. Falo da praça da alimentação, local de engarrafamento de crentes que comungam pizza ao sábado e hamburger ao domingo. Confesso que acho peculiar visitar um centro comercial ao fim-de-semana. Perceber até que extremo se pode criar as ilusões da felicidade democrata e da cultura instântanea para todos. Num centro comercial dar ao dente nunca é sinónimo de conversar inteligentemente entre amigos, antes se refere à ginástica maxilar da pipoca. Há essa associação umbilical entre cinema e pipoca que nos torna um entre iguais. Daí que também eu trabalhe para manter a linha, - a linha curva do abdómen - e vá para o centro comercial vestido de fato de treino. Faço tudo a que tenho direito, vejo tudo o que há para ver, passo pelo quiosque, compro mais uma fatia de cultura às prestações, - o fascículo semanal da Ópera em sua casa, - para mais tarde me poder sentar no sofá a fazer zapping pelos canais e a sonhar com o dia em que não exista segunda-feira depois destes flácidos domingos.

Umbigo # 31

Em Trás-os-Montes caminha-se pela rua de aldeia como uma lâmina que fosse ferindo o espaço e juntando o ar nas margens, junto às fachadas. Atrás fica um vazio, vai-se construíndo um abismo. As mulheres sentadas nas escadas deitam as vozes no vento rasteiro, que lhes roça os joelhos como um pequeno cão, e é impossível distingui-las das cigarras que cantam através dos buracos do céu em queda livre para a terra. O perfume das hortas regressa de uma sesta à beira-rio. As pedras e o pó dos caminhos estão cheios de vida, fecham os olhos por reflexo sempre que um gafanhoto risca o ar da tarde ameaçando a integridade dos muros. Quando as mulheres fazem silêncio a terra prepara-se, mais uma vez, para o fim do mundo.

O Silêncio É de Ouro #80


O último disco gravado por Billie Holiday, em 1958 (Columbia), a poucos meses da sua morte. Nunca a decadência soou tão bela como nesta voz amargurada.

Umbigo #30

Esta noite devo ter sonhado com magnólias. Passei a manhã a tossir pólen.

Cimbalino Curto #86

O Porto é um sarilho terrível. Nem os geógrafos nem os historiadores sabem a que se ater. Mas um novelista tem a obrigação de saber o que é um portuense e o que não é um portuense, e poder fazer uma novela portuense.
O Porto é uma cidade para novelistas, e eu bem sei que numa pequena pensão do Porto, vendo pôr toalhas nas mesas e mulheres típicas, se poderia escrever a novela mais novelesca das novelas.
- Porto! Porto!
Eu conheci-o num dia azul, depois de passar o rio Douro.

Primeiras linhas de "Os Dois Marinheiros (Falsa Novela Portuense)", do livro "6 falsas novelas", de Ramón Gómez de la Serna, com tradução de José Colaço Barreiros.

Post Scriptum # 234

Diálogos interiores



Tem sido fecunda a ligação entre a poesia de Amadeu Baptista e a pintura de Rogério Ribeiro. Desde 2000, têm sido vários os títulos do primeiro que dialogam com a pintura do segundo. Nesta linha, recordamos duas obras de verdadeira comunhão: "Vocação do Fascínio" (in "Rogério Ribeiro: O Atelier do Pintor", Coimbra, 2001) e "O Som do Vermelho - Tríptico poético sobre a pintura de Rogério Ribeiro" (Porto, 2003).
No livro mais recente de Amadeu Baptista, "O Claro Interior" (Edições Íman) o pintor surge a interpretar os poemas do autor desse outro livro belíssimo que é "Paixão" (Porto, 2003). Treze aguarelas originais sobre papel (50 x 60 cm) iluminam a beleza perturbadora dos textos, construídos em torno de uma reflexão intimista e filosófica sobre os mundos de dentro e de fora.
Cores vivas e traços densos ficam na memória. Anjos rilkeanos e outros seres, entre a matéria e o inefável, caminham sobre as palavras, fazem-se rodear pelas palavras de Amadeu Baptista - como se o Verbo fosse o único alicerce a que o Homem se pode agarrar, na angústia e na transcendência. Os poemas, dialogando entre si numa discursividade que nos agarra, dissecam a nossa alma, esquadrinhando a face interna de quem os enuncia e de quem os lê, revelando - como epifanias - clarões nascidos nas entranhas do pensamento. Li com especial emoção o poema final - representação pirogravada e amarga ("há marcas evidentes de tortura no meu rosto") dum terreno luminoso ("a beleza"), com uma luz tão intensa que quase cega e "asfixia" (como a sarça ardente aos olhos de Moisés), em que o sujeito lírico se interroga na angústia provocada pela ausência.
Estamos, assim nos parece, perante uma tocante elegia. Uma elegia em que a consciência da perda é sublimada pela instável certeza das virtualidades da memória que, trazida ao presente e representada, projecta o Homem enraizado e vertiginoso.

Ruy Ventura

A propósito desta relação entre Amadeu Baptista e Rogério Ribeiro, leia-se também a referência de Rui Almeida .

Post It # 132

Na cama com Michaux.

17.5.04

Post Scriptum # 233

Um livro editado recentemente na Alemanha lança uma nova luz sobre um dos grandes temas tabu da Igreja: as crianças que são filhas de padres. Segundo Annette Bruhns, autora do livro ("Gottes heimliche Kinder: Töchter und Söhne von Priestern erzählen ihr Schicksal" ou "As crianças secretas de Deus: Filhas e filhos de padres falam sobre o seu destino"), citada por Graça Magalhães-Rüether, correspondente em Berlim do Jornal Globo (disponível em linha após registo), muitas das crianças que nascem destas ligações proibidas não suportam o trauma de viver às escondidas, sem poder revelar a sua própria identidade, e acabam por cometer suicídio. De acordo com os cálculos da autora, 9000 dos 17.000 padres existentes na Alemanha têm uma parceira sexual, sendo que 3000 crianças surgiram dessas ligações.
O estudo feito com base em depoimentos de muitos jovens, também inclui entrevistas com padres. Um dos religiosos ouvidos pela jornalista alemã diz que "50% dos padres do mundo inteiro não conseguem viver sem sexualidade". Para as mulheres, por outro lado, os padres exercem uma atracção maior do que os homens normais. O homem alemão do campo, diz Annette Bruhns, interessa-se apenas por carros e futebol e as mulheres costumam ficar sensibilizadas quando conversam com padres sobre outros assuntos, como arte, filosofia ou emoções.
Segundo parece, o livro está a suscitar uma intenso debate na Alemanha.

Post Scriptum # 232

Mais um poema de "Spoon River", a fabulosa antologia de Edgar Lee Masters (E.U.A., 1869-1950), com uma composição exclusiva de Francisco Costa.



CHASE HENRY

Em vida eu fui o bêbado da vila;
quando morri o padre negou-se a enterrar-me
em solo sagrado.
E isso acabou por ser para mim uma sorte,
pois os Protestantes compraram este lote
e enterraram aqui o meu corpo,
junto à campa de Nicholas, o banqueiro
e de Priscilla, a sua mulher.
Considerai, ó almas prudentes e piedosas,
como a vida, contra a corrente,
traz honras funerárias a quem viveu na humilhação.

Tradução de José Miguel Silva.

Umbigo #29

Às segundas-feiras, no caminho para o escritório, não consigo evitar duas ou três violentas discussões matinais comigo próprio.

O Povo é Sereno #98

Subsídios para um contentamento ou Vamos dar-lhes um bigode



Como nestes tempos bravios não custa imaginar, vamos imaginar um pouco. Vamos supor Clark Gable sem bigode. Robert Taylor sem bigode. Indo um pouco mais longe, David Niven sem bigode. E, horror dos horrores, Errol Flynn sem bigode.
Mas, ainda mais horrível, cume supremo da apoquentação metafísica, eu mesmo sem bigode!
O mundo ficaria uma errata, um erro de estrutura, uma estruturação desconchavada, não era?
Mas passemos agora para o outro lado da cena, do espelho, da paisagem. E mesmo da exemplaridade teatral: passemos para o campo contrário da política doméstica...
Imaginemos, por um profícuo esforço, Cavaco e Silva... de bigode. E Marques Mendes ostentando um poderoso bigode à mexicana (embora este, e sem acinte e com ternura o digo, seja mais fácil imaginá-lo de calções num fatinho à maruja). E o nosso Durão com um bigode tipo escova, à inglesa londrina. E - mas o exercício é quase cruel, quase místico - o estimado dr. Portas com um formoso bigode à Jorge Gonçalves (esse mesmo, o ex-presidente do Sporting!). E, quase exagerando na nobre ironia, o dr. Santana Lopes com um bigodinho à John Gilbert. Como ficaria catita, não é verdade?
Mas... não pensem que me passei dos carretos. Que ensandeci, que ultrapassei os meus próprios limites de... fantasia.
Porque isto é mais que viável! É, digamos, alcançável. E belamente admirável!
No dia 13 de Junho, amigos e amigas que me esquadrinhais a prosa, vamos já começar a dar-lhes um bigodão?


Nicolau Saião

Post It # 131

Um dos grandes blogues portugueses faz hoje um ano de vida. Muitos parabéns.

15.5.04

A última da Francisca #3 - (arquivo)

CHEIAS EM MIRAGAIA

A Francisca conversa ao telefone com a tia Adriana, proprietária do "Ramona", o café que explora na "praia", a zona baixa de Miragaia mais uma vez submersa pelas cheias.

- E salvaste os chupas?..., salvaste?

14.5.04

O Povo É Sereno #97

UMA CARTA VINDA DE LONGE



Com pedido de publicação, enviou o Dr. Howard Philips Lovecraft uma carta em que se refere a alguns comentários que a imprensa tem produzido acerca da actualidade lusitana, nomeadamente a mais escalofriante.
O Dr. Lovecraft, que é actualmente o cônsul de Portugal em Providence (Rhode Island), além do seu trabalho universitário e público, prefaciou a edição estrangeira do último livro de Aguinaldo Rebelo de Sousa, primo do deputado Idalino Rebelo da Silva, o autor de relatos de análise política como "O caso de Charles Dexter Ward" e teoria económica como "A sombra sobre Innsmouth".
Segue a missiva, a que não modificámos uma vírgula:

"Solicito publiquem esta minha carta, ainda que ela pareça apenas um relato provindo da imaginação mais desatada e sem regras apoiadas na realidade dos factos a que um espírito são estaria votado
E é assim que alguns, levados talvez por um hausto de confusão ou de ensandecimento, dizem que os recentes aumentos da gasolina, as palhaçadas da célebre lista de professores colocados ao deus dará e outros sucessos ominosos tais como as tricas do futebol financiado, são fruto não do destino perverso mas sim dum destrambelhamento de governantes, nomeadamente daqueles que, numa região mais ou menos fora das rotas normais, perplexamente dão ao coiro lusitano razões para se sentir atingido não pelos caprichos dos deuses mas pela aterrorizadora acção dos homens. E isto o repudio com todas as veras do meu ser mortal!
Também vejo com inquietação que num solar vetusto das redondezas, vulgo São Bento, diferentes presenças estranhas se congregam entre si para levarem a cabo não se sabe bem que estarrecedoras acções, que a memória dos antigos tinha como desafiando a própria lei da vida, realizando numinosos conciliábulos que nem me atrevo a descrever.
Também considero inquietante que se continue a tentar perverter a acção produtiva do meu particular amigo Segismundo Santana Lopes, um senhorão da política com paralelo apenas em Abdul Alahzred, o do "Necronomicon" ou em Joseph Frankenstein, neste momento presidente da Câmara de Aylesbury, onde existe um ambiente muito mais tenebroso - e apelo ao espírito são dos que ouvem o meu relato - que a simples cidade de Lisboa, onde as coisas, admito-o democraticamente, nem sempre serão as menos funestas.
Ou até mesmo, vá lá, no Porto, terra às vezes de solertes asserções dum senhor Pinto del Rio de assombrada, conforme rezam os cânones, memória e tradição.
Mas isso seriam contos largos, dignos da pena horrificada de um outro novelista do empíreo.

Com os melhores cumprimentos, senhor cronista, fico assustada e atentamente

Howard Philips Lovecraft

Economista e Analista Político, cônsul luso em Providence"


Nicolau Saião

O Silêncio É de Ouro #79

Gravado nos dias 18 e 19 de Março de 1963, em Nova Iorque, com António Carlos Jobim no piano e Astrud Gilberto nas vocalizações, este álbum tornou-se dos mais populares da história do jazz. Representa um momento chave nas experiências de fusão entre o jazz e a bossa nova. De resto, a partir deste disco, as peças mais conhecidas da bossa nova passaram a integrar o repertório clássico norte-americano. De Frank Sinatra a Elvis Presley, passando por quase todos os grandes músicos de jazz, nenhum resistiu ao novo som vindo do Brasil. E João Gilberto transformou-se num ícone da cultura ocidental.

Raul Silva

Post It # 130

1 igual: hoje, também eu descobri um blogue formidável. Portanto, estamos empatados.

Post Scriptum # 231

Edgar Lee Masters
(E.U.A., 1869-1950)



HOD PUTT

Aqui jazo eu junto à campa
do velho Bill Piersol,
que enriqueceu no comércio com os índios e que
depois tirou proveito da Lei das Falências
para emergir mais rico do que nunca.
Eu, cansado de trabalhos e miséria,
ao ver o velho Bill, e outros, cada vez mais ricos,
ataquei certa noite um viajante, junto a Proctor's Grove,
para o roubar, e matei-o sem querer,
pelo que me condenaram a morrer na forca.
Foi esta a minha maneira de declarar falência.
Nós os dois, que aproveitámos, cada um a seu modo, a lei das falências,
dormimos agora em paz, lado a lado.

Tradução de José Miguel Silva.

13.5.04

Post Scriptum # 230

A propósito dos leitores que a poesia portuguesa contemporânea tem ou não tem, e, portanto, a propósito da aceitação e reputação da poesia na nossa sociedade, vale a pena ler (ou reler) Joel Serrão nos seus "Temas de Cultura Portuguesa" (Lisboa, Livros Horizonte, 1983). Aí, num texto que data de 1964 chamado "O Devir da Poesia Romântica no Devir da sociedade burguesa (esboço de investigação)" o autor propõe-se "delimitar e definir" o público de poesia no século dezanove português "mediante o estudo sucessivo das tiragens e reedições de livros de versos e das revistas de poesia". Os dados que nos apresenta Joel Serrão são deveras interessantes e oferecem um claro contraste com o actual panorama das edições de livros de poesia em Portugal. Assim, o autor faz-nos saber que A Harpa do Crente de Herculano teve uma tiragem de 1500 exemplares e que a 3ª edição do foi de 3000 exemplares; que as reedições "em nenhum caso" seriam viáveis a menos de 1000 exemplares (quanto a isto, as coisas não se passam hoje de maneira muito diferente); que "até 1853 o poema Camões, de Garrett, foi publicado quatro vezes; as Poesias de Soares de Passos, de 1857 a 1867 foram editadas três vezes, e em 1908 o livro atingia a 9ª edição; A Morte de D. João, de Junqueiro, num período de treze anos (de 1874 a 1887) foi objecto de quatro reeimpressões" e que o poema D. Jaime, de Tomás Ribeiro, foi "reeditado logo um ano depois do aparecimento" e "em 1924 ia já na terceira edição!". O que leva Joel Serrão a concluir: "ora, se compararmos tais indicações com o que sabemos sobre as tiragens e reedições de livros de versos nos nossos dias - só Fernando Pessoa e José Régio chegam à casa dos 3000 -, e se tivermos em mente que, entretanto, a população portuguesa mais que triplicou tendo passado de cerca de 3 a 10 milhões, torna-se muito fácil concluir que a poesia tem vindo a perder audiência junto do público ledor". E desta conclusão tira o autor uma outra, não menos actual: "importa percebermos, com nitidez, que os poetas oitocentistas não escreviam apenas para os seus pares - como, parece, vai ocorrendo hoje - e tinham em vista um público, relativamente vasto, sedento de emoções poéticas". Ora a minha pergunta é esta: porque será que existia no Portugal oitocentista um público burguês para a poesia e hoje esse público está praticamente reduzido ao mínimo indispensável para que se continuem a publicar livros de poesia que se destinam, como pelos visto já acontecia em 1964, quase só aos "pares" dos autores? Explica-se isto apenas porque tal classe estava nessa altura em ascensão e como que inebriada pela conquista das suas liberdades? O que aconteceu à nossa "burguesia" entretanto? Tornou-se menos qualificada? Menos interessada? Menos curiosa? O seu poder de compra, mutatis mutandi, era maior à época? A poesia de hoje é pior...? Esta última hipótese não me parece plausível, visto que Guerra Junqueiro, segundo Serrão, "foi o mais lido e difundido de todos os nossos poetas românticos". O que, por outro lado, prova que não são os autores da moda os que sobrevivem ao terrível juízo do tempo, o crítico literário absoluto.

Cicatrizes em ferida #6

Canos

Há uns tempos atrás, - ocorreu-me hoje isto, por acaso, - na fila atrás da minha, no avião, um patrício regressava de Newark acompanhado por um colega americano. Apercebi-me pela conversa de que deveria ser um honesto canalizador.

- In Portugal we say "canos".
- "Kanes".
- No. It's "ca-nos".
- "Ká-nuze".
- No. First, try "cã"...
- "Ká"...
- No, It's "Cã"?
- "Kaa"?
- Now... say "nos"...
- "Nose"?
- No. It's "Nux"?
- "Nuz"?
- Better. Now, say "cã-nux".
- "Ká-nose"...
- It's "Cã-nux".
- "Kaa-nuz"?
- Better. Now, try "tor-nei-rá"?

Post Scriptum # 229

Ainda a propósito das comemorações do 30º aniversário do 25 de Abril, foi publicada pelas Edições Garça (Peso da Régua) uma colectânea poética intitulada "Na Liberdade", coordenada por Nuno Rebocho, Jorge Velhote e Nicolau Saião. Com textos de diversos autores, provenientes quer de Portugal quer dos país de língua portuguesa (excepto do Brasil), e com diversos níveis de qualidade, nela podemos encontrar poemas assinados por nomes tão conhecidos quanto os de Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, entre outros. Merece uma leitura atenta.
Houve entretanto um poeta que ficou de fora, por circunstâncias alheias à coordenação, segundo sei. Fernando Correia Pina, autor recentemente galardoado com o Prémio Revelação de Poesia APE, enviou a sua colaboração para o volume, a qual se perdeu - sendo apenas encontrada depois de o livro ter sido dado à estampa. O poema, intitulado "Saldo Negativo", está disponível nos "Arquivos de Renato Suttana", uma Página, aliás, que vale a pena visitar regularmente.


Ruy Ventura

Press Release #12

Hoje é dia de "palavras ditas", na galeria-bar Souk (Rua Marechal Saldanha, 6, em Lisboa), a partir das 22h30. Sessão de leitura de poemas, a cargo de Rosa Azevedo e João Santos. A entrada é livre.

Post It # 129



Qual é a diferença entre literatura e lixo?
Algumas achegas no Guardian, a propósito da edição do mais recente ensaio de Dubravka Ugresic.

Post Scriptum # 228


"O Forasteiro", poema de Jorge Luís Borges, incluído na "Nueva antologia personal", livro de 1968, numa tradução inédita de Nicolau Saião.


O FORASTEIRO

Despachadas as cartas e o telegrama
caminha pelas ruas indefinidas
e nota leves diferenças a que não dá importância
pois pensa em Aberdeen ou em Leyden,
para ele mais vívidas que este labirinto
de linhas rectas, não de complexidade
aonde o leva o tempo de um homem
cuja vida verdadeira está bem longe.
Numa habitação numerada
fará depois a barba ante um espelho
que não voltará a reflecti-lo
e parecer-lhe-á que esse rosto
é mais inescrutável e mais firme
do que a alma que o habita
e que ao longo dos anos o vai lavrando.
Cruzar-se-á contigo em qualquer rua
e tu só notarás que é alto e grisalho
e que olha para as coisas.
Uma mulher indiferente
a tarde lhe dará e o que sucede
do outro lado de umas portas. O homem
pensa que esquecerá a sua cara e irá lembrar
anos depois, perto do mar do Norte,
a persiana ou a lâmpada.
Nessa noite, os seus olhos contemplarão
num rectângulo de formas passageiras,
o cavaleiro e a épica pradaria,
porque o Far West abarca o planeta
e espelha-se nos sonhos dos homens
que jamais o pisaram.
Na intensa penumbra, o desconhecido
crer-se-á na sua cidade
e surpreender-se-á ao sair numa outra
de uma outra linguagem e outro céu.

Antes da agonia
o inferno e a glória nos estão dados:
andam agora por esta cidade, Buenos Aires,
que para o forasteiro do meu sonho
(o forasteiro que fui sob outros astros)
é uma série de imagens imprecisas
feitas para o esquecimento.


Nota: Curioso é verificar que Borges, cego, encena aqui um retrato onírico extremamente visual e indicativo. E não resistimos a interrogar-nos: será que JLB, a exemplo do que sucederia com Buñuel, sonhava a cores?

Tradução e nota de Nicolau Saião.

O Silêncio É de Ouro #78


Não é o seu mais notável trabalho discográfico (nessa categoria figuram títulos como "Parade", "Purple Rain" ou "Sign 'O' the Times") mas é aquele cuja capa melhor condensa a persona do genial Prince: sensual, místico, egocêntrico, exuberante. Conferir em "Lovesexy" (Warner, 1988).

Señor Tallon #55


353 mulheres portuguesas responderam à eterna e muito filosófica pergunta: quais as qualidades do homem ideal? A conclusão da pesquisa deixou-me profundamente inquieto, a ponto de já ter dado por mim a salivar abundantemente e a uivar virado para a lua cheia. O melhor amigo do homem, uma ova!

12.5.04

Press Release #11

A organização do "Corta! Festival Internacional de Curtas Metragens do Porto" (Biblioteca Almeida Garrett, dias 27, 28 e 29 de Maio) continua a aceitar inscrições para os seus vários workshops. Mais informações no sítio do festival.

Umbigo #28

Era uma vez e não era um gato que sonhava ter um blogue. Um dia conheceu e não conheceu um rato que desejava muito ser um post. Os dois ficaram tão amigos que, a partir desse dia, passaram a dedicar todo o seu tempo a brincar ao gato e ao rato. E o gato passava o tempo a correr e a correr atrás do rato. E o rato passava o tempo a fugir e fugir do gato. E viveram felizes para sempre. Mas nem sempre.

Post Scriptum # 227



Ao deparar-me com esta fotografia de André Kertész (1894-1985) ocorreu-me uma passagem de "Finisterra: paisagem e povoamento", essa árvore - ou osso de baleia - caída no caminho da literatura portuguesa do século XX e que não é possível remover ou deslocar mas apenas contornar, caso não queiramos sentar-nos em cima dela durante alguns momentos para tentar perceber o mistério (que nunca perceberemos):

- Como diz o compêndio de fotografia: a imagem apresenta um ordenamento inverso do real, mas captou-lhe os elementos essenciais.
Ergue os olhos do livro e fita (através da vidraça) a paisagem deserta. Pode confrontar, sempre que lhe apetece, a fotografia (na parede, junto da janela) e a realidade exterior, a horas certas, sob a luz quase igual:
- Mesmo ordenada ao contrário (quer dizer, de pernas para o ar), a imagem repete (com grande semelhança) areia, gramíneas, céu, lagoa, nuvens. E outros elementos, se os houver. Homens, cavalos bois, carneiros, aves (por exemplo). Serão também captados na lente rudimentar da garrafa de água, quando aparecerem. A imagem não é perfeita (escapam-lhe alguns pormenores), mas foi o ponto de partida. Cálculos, sonhos, tentativas. Até à invenção das lentes, à possibilidade de surpreender as coisas sem grande margem de erro. E (mais tarde ou mais cedo) os seus enigmas.


Carlos de Oliveira - "Finisterra: paisagem e povoamento".
3.ª edição. Lisboa, Sá da Costa, 1979, p. 28.

O Silêncio É de Ouro #77


A capa que melhor transmite o lado sombrio, soturno e algo vampiresco da já longa discografia de Tom Waits: "Mule Variations" (Epitaph, 1999).

11.5.04

Diário de Sophie#14

... põe-me completamente doida. O frango até pode estar ressequido e o vinho escolhido ser o Teobar. A sobremesa da "Torta de Noz, Franchise s.a.". A vela pode estar descentrada em relação aos cantos da mesa e os guardanapos com marcas da última refeição. Uma meia do moçoilo a aparecer debaixo do sofá e a mamã do mesmo a telefonar, durante o jantar, para saber como é que estão a correr as coisas. "No problema, babe". Basta aquela voz melosa do Johnny Hartman começar as primeiras notas do "I just drop by to say hello" que me vêm uns calores tão grandes, tão grandes, querido diário, que eu dispo logo o vestidinho e digo sorridente com estes dois olhinhos bem fechados: "Faz o que quiseres de mim, meu garanhão. Só não uses objectos de plástico."

Post Scriptum # 226



NOITES BRANCAS
Paul Auster (E.U.A., n. 1947)

Ninguém aqui,
e o corpo diz: o que se diz
não é para ser dito. Mas ninguém
é também um corpo, e o que diz o corpo
ninguém ouve
senão tu.

Noite e queda de neve. A repetição
de um homicídio
por entre as árvores. A caneta
move-se através da terra: já não sabe
o que vai acontecer, e desapareceu
a mão que a segura.

E no entanto, escreve.
escreve: no princípio,
por entre as árvores, um corpo veio
caminhando da noite. Escreve:
a brancura do corpo
é a cor da terra. É terra,
e a terra escreve: tudo
é a cor do silêncio.

Já não estou aqui. Nunca disse
o que dizes
que eu disse. E no entanto, o corpo é um lugar
onde nada morre. E todas as noites,
pelo silêncio das árvores, sabes
que a minha voz
vem caminhando para ti.

Tradução de Rui Lage.
O original pode ler-se nas Torneiras de Freud.

Ilha dos Amores #47


Corpos Dalí (fotografia de Robert Descharnes).

O Silêncio é de Ouro # 76


"The Isle" parte de um ideia simpática. Sohishiro Suzuki (World Standard) e Jorg Follert (da Morr music), após umas férias de verão numa ilha onde criaram laços de amizade, acharam que seria uma boa ideia fazerem um disco juntos. Mas como, se Suzuki estava em Tóquio e Jorg em Colónia? Os tempos são outros, e a internet de banda larga permitiu-lhes ir trocando os ficheiros de som entre a Alemanha e o Japão. Juntaram-se apenas duas vezes em Tóquio para gravarem e misturarem as pistas. O resultado é supreendente de organicidade: cada um dos amigos retoma a música onde o outro a havia deixado. A sensação não é a de que estão separados por milhares de quilómetros mas que se encontram num estúdio caseiro a uma distância que lhes permitiria passar uma garrafa de vinho sem se levantarem das cadeiras. É música instrumental (à excepção de um tema cantado em alemão por Jorg) feita para sonhar, onde os instrumentos de base são a guitarra acústica (manipulada, cortada, processada, samplada e resequenciada, distorcida ou simples) e o piano (cheio de eco, "delay" e "reverb" ou simples). As canções são devaneios, umas vezes crepusculares e outras vezes solares, onde a produção não eliminou, de propósito, algum "grão" residual. Para além do piano e da guitarra, entram em cena violinos, um xilofone (com aquele "hawaiian touch"), uma bateria esquelética e pinceladas de electrónica. O que é curioso é que o som da música, em consequência da produção rudimentar, parece algo de simultaneamente antigo e moderno, coisa de outro tempo - de um tempo mítico, rodeado de água por todos os lados, perdido algures no Oceano Pacífico, obedecendo a outros ciclos, a outras memórias e outros nomes. "Attol", "Canopy of Heaven", "Solitude Sea" e "A Fire under the stars" são Debussy (ou Satie) ad usum delphini.

O Silêncio É de Ouro #75


Kelis, "Kaleidoscope" (Virgin, 1999), ou a imagem de uma diva psicadélica do R&B.

Post It # 128

As piores capas de livros de 2003, segundo a organização All About Romance. Provavelmente, por uma questão de equilíbrio na distribuição de prémios, os livros de algumas editoras portuguesas não foram incluídos no concurso.

Post It # 127

No princípio era o verbo.
Mas só no princípio.

Post It # 126

Poema do dia.

Pausa para publicidade.


À venda nas melhores mercearias.

10.5.04

Post Scriptum # 225

Um poema raro de Mário Botas, com uma legenda de Nicolau Saião.

SETEMBRO

"Seldom we find" says Solomon Don Dance
"Half ann idea in the profoundest sonnet"
E.A.Poe


A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra,
correio subtil de Lesbos para Marte.

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu
deuses de papelão sentando-se a meu lado.

No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.

Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn't he?

(1980)


Nota: Oferecido a Nicolau Saião no decorrer de uma turbulenta sessão surrealista acontecida no Salão de Bailes dos Bombeiros do Bairro Alto, onde este participava com Mário Cesariny, numa palestra abrilhantada pelo Grupo de Teatro Mandrágora, e no decorrer da qual se esboçaram amoráveis cenas de pugilato e outras danças a caracter iniciadas por espectadores situacionistas de leste. O poema (talvez intimidado com estes sucessos) esteve desaparecido durante 22 anos entre, calculava-se, a papelada do poeta alto-alentejano - ou seja cá o meco. Descoberto, afinal, por um dos seus filhos entre as folhas de um livro de C.W. Ceram, foi publicado em Maio de 2002 no suplemento cultural "Fanal", hoje suspenso por imperativos do destino e que era também co-coordenado por Ruy Ventura e João Garção.
Perdido sem apelo nem agravo por entre os eflúvios da zaragata ficou um desenho aguarelado do pintor - o que a ninguém dói mais que a mim, seu feliz proprietário durante o melhor de aí uns vinte minutos.

Cimbalino Curto #84



Fotografia de Francisco Costa.