30.9.03

Notícias da Província #5

Continuam os títulos imaginativos, entre o divertido e o poético, na nossa imprensa local e regional:

"Até choras por andar de lambreta" (A Voz da Póvoa, 18-09-03)

"Mais mulheres, melhor PS" (O Comércio de Gaia, 18-09-03)

"À hora da procissão a chuva parou" (Primeira Mão, 12-09-03)

"Excesso de alunos em Freamunde" (Imediato, 05-09-03)

"Maia vai fertilizar África" (Primeira Mão, 05-09-03)

Correio #2

A gerência recebeu uma mensagem do nosso leitor Ricardo Bruno, com pedido de divulgação. A mensagem é esta:

Saiu no passado Sábado, na revista Única, do Expresso, um artigo de Luísa Schmidt a alertar para a degradação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Em resumo, o texto fala de certas áreas que se pretendem desanexar da reserva natural (para promoção, construção imobiliária e turismo), da inexistência de políticas destinadas às populações residentes em zonas protegidas e da incúria do Estado. Por tudo isto corre na Net uma petição ao ministro do Ambiente, recordando-lhe os direitos dos cidadãos nesta matéria. A petição encontra-se nesta morada:

http://www.petitiononline.com/sudoeste

Seria bom que em vez de chorar sobre o leite derramado (tal como aconteceu na vaga de incêndios), a sociedade civil agisse a tempo e horas e fizesse valer a sua posição. Não queremos outro Algarve. Queremos?

Ilha dos Amores #1

Elia Kazan foi sempre um homem complexo, dentro e fora dos estúdios de cinema, e dono de uma obra tão fascinante quanto intemporal. Alguns dos melhores filmes de sempre têm a sua assinatura: "Um Eléctrico Chamado Desejo", "A Leste do Paraíso", "Esplendor na Relva", "Há Lodo no Cais"... No início dos anos 50, em plena "caça às bruxas", cometeu a perfídia de denunciar ex-colegas do Partido Comunista aos algozes do fascismo americano (sim, também o houve), gesto que, compreensivelmente, jamais se lhe descolou do nome. A este respeito, nunca consegui esquecer as imagens de um Kazan envelhecido e trémulo, a subir ao palco de uma recente cerimónia dos Óscares de Hollywood, sob o aplauso reverente de alguns, de pé na plateia, e o silêncio crítico de outros, ostensivamente sentados nas poltronas. O ambiente na sala era tão tenso que não consegui evitar sentir compaixão pela figura paradoxal daquele frágil gigante, cineasta sublime e homem trágico. Com a sua morte, ocorrida no domingo passado, os ódios serão apaziguados e a sua obra reconhecida como uma das mais influentes da história do cinema.

Cimbalino Curto #8

No Capítulo X da "Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto" (1788), da autoria de Agostinho Rebelo da Costa, podem ler-se vários apontamentos de grande interesse sobre as mulheres ilustres do Porto. Entre as histórias mais relevantes, encontra-se a de Madre Maria Vitória, religiosa no Convento de Santa Clara, que nasceu em 1601 e morreu ao cabo de 136 anos, em 1737. De acordo com Rebelo da Costa, o caso era tanto mais admirável quanto "nunca se lhe fez o cabelo branco, nem perdeu o juízo, nem se lhe diminuíram as forças, nem lhe caíram os dentes". E, segundo o mesmo autor, estes episódios eram relativamente comuns nesta cidade. A explicação era simples: de todas as cidades do Reino, o Porto era aquela que possuía o clima mais "benigno e saudável".

Post Scriptum #16

Em dia de chuva, um poema vindo do deserto.


quando regresso a casa, cada tarde,
a minha tristeza sai da alcova dela,
com a sua capa,
e começa a seguir-me:
se caminho, caminha,
se me sento, senta-se,
se choro, chora com o meu pranto
até à meia-noite em que nos cansamos.
então, vejo que a minha tristeza
entra na cozinha,
abre a porta da geleira
tira um pedaço escuro de carne
e prepara-me o jantar.

Este poema foi escrito pelo palestiniano Yusuf Al-Saigh (n. 1929) e traduzido por Adalberto Alves (A Phala, nº 56)

29.9.03

Señor Tallon #6


Segundo se diz, o vermelho foi a primeira cor a que o homem deu um nome. O vermelho é a cor do sangue e do fogo e, por isso, está associada a sensações fortes como o amor ou a febre. Na cultura cristã, é uma das cinco cores litúrgicas usadas nos paramentos da Igreja. Simboliza a caridade, o sacrifício, sendo empregue nas festas do Espírito Santo e dos Santos Mártires. Mas o vermelho é também a cor dos sinais de proibição. Nos semáforos, indica paragem obrigatória. Um código válido em quase todos os países do mundo. Na China dos anos 50, porém, simbolizava o contrário: o vermelho mandava avançar e o verde mandava parar.

Post Scriptum #15

Um dos livros de poemas mais importantes da literatura italiana do século XX é "Trabalhar Cansa", de Cesare Pavese (1908-1950). E o título é justamente considerado por muitos o mais belo do escritor.
Há, porém, um pormenor relacionado com a sua origem que, apesar de decisivo para a compreensão do livro, continua a ser ignorado pela maioria dos seus leitores. Na madrugada do dia em que foi impresso, o tipógrafo, que já não ia a casa há três dias, mudou o título escolhido por Pavese, "Morrer Cansa" (Morire Stanca), por "Trabalhar Cansa" (Lavorare Stanca). O escritor, a recuperar de uma terrível gripe, só notou o erro depois da totalidade da edição estar impressa e já se encontrar à venda em algumas livrarias.
Tudo isto se passou em Fevereiro de 1936.

A Gerência Agradece #1

Agradecimentos à Janela Indiscreta , ao Blog de Esquerda , à Amostra de Arquitectura , ao Nortadas , ao Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola e ao Manuel Jorge Marmelo pelas simpáticas referências feitas a este blog.

28.9.03

O Povo É Sereno #4

Eu bem digo que o Freitas do Amaral é um "perigoso guerrilheiro da extrema-esquerda". Reparem-me só neste excerto de uma entrevista que ele deu à revista... "Nova Gente" (abstraiam-se do título, a entrevista até está interessante e uns furos acima daquilo que é normal na publicação). Falava-se da última peça do político-dramaturgo que, como se sabe, é dedicada a Viriato e na qual surgem, como não podia deixar de ser e à boa maneira romana ou "romanizada", muitas conspirações e facadas nas costas. Fazem-lhe então, a dada altura, a pergunta difícil de saber donde vêm as traições políticas hoje em dia. E ele respondeu:
"Diria que há uma traição colectiva aos ideais do 25 de Abril [sim, leram bem, ao 25 de Abril]. Não me refiro ao comunismo ou ao socialismo [uff!] mas nessa época havia de facto um ideal sincero, além da democracia e da descolonização [sim, leram bem, ele disse descolonização!!!], que era desenvolver o País de uma forma socialmente justa e equilibrada". E concluiu: "E a verdade é que vemos os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres".
Pois é. Depois disto, sábias só mesmo as palavras do inconsolável Basílio Horta, que, ao recordar as peripécias do famoso Congresso de 75 do CDS, desabafou: "Ai que saudades do Diogo Freitas do Amaral desse tempo!". O que lhes vale é o Amaro da Costa que, como defunto e bem defunto está desde 1980, pode agora ficar cristalizado em qualquer estatuto que se lhe queira colar, sobretudo agora que o eternizaram num busto onde não lhe faltam os óculos e nem sequer aquele inconfundível ar de seminarista arguto. Se o homem fosse vivo, sabe-se lá de que lado estaria: se no centrismo moderado de Freitas do Amaral ou na neo-direita de Manuel Monteiro e Paulo Portas. "Who knows?". Tenho dúvidas, sinceramente: secalhar a estas horas também andaria em programas de televisão a verberar George W. Bush e a hegemonia norte-americana. É que o Mundo dá muita volta, não sei se sabem...

Post Scriptum #14

William Empson nunca reconheceu a importância da sua obra e opunha-se à sua chefia “político-sacerdotal”. Louis Mac Neice, Stephen Spender e Cecil Day Lewis admiravam-no com todas as suas forças. Chamava-se Wystan Hugh Auden. Dividiu opiniões, influenciou muitos, escandalizou outros. Morreu na pequena aldeia de Kischtetten, perto de Viena, a 28 de Setembro 1973, completam-se hoje exactamente 30 anos. Foi um dos mais extraordinários e influentes escritores de poemas do século XX.

Nasceu em 21 de Fevereiro de 1907, em York, na Inglaterra. Publicou o seu primeiro livro “Poems” em 1930, na editora Faber & Faber, por indicação de T. S. Eliot. Esteve em Espanha, em 1937, ao lado dos republicanos, e em 1938 estabelece-se nos Estados Unidos, tendo posteriormente obtido a cidadania americana. Nos Estados Unidos publicou nove livros de poemas, entre 1940 e 1974. Perto do fim declarou que regressava à Europa, “para não morrer solitário num apartamento, como sucede aos velhos norte-americanos”.
O poema de Auden que escolhemos é uma homenagem sua a outro grande poeta: Rimbaud.

RIMBAUD

As noites, as pontes de comboio, a má estrela,
Os seus temíveis companheiros não as conheciam;
Mas nessa criança a mentira do retórico
Queimava como uma fornalha: o frio fizera um poeta.

As bebidas que o seu amigo tíbio e lírico
Lhe comprava, perturbavam-lhe os cinco sentidos,
Terminando com todo o nonsense corriqueiro;
Até se alhear dos pecados e da lira.

Os versos eram uma doença específica do ouvido:
A integridade era de menos: parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo.

Agora, galopando pela África, ele sonhava
Um novo eu, um filho, um engenheiro,
Cuja verdade mentirosos aceitassem.


A tradução é de José Alberto Oliveira e encontra-se no livro "O Massacre dos Inocentes", editado pela Assírio & Alvim, em 1994.

Señor Tallon #5

No Congresso do PP, Rosado Fernandes chamou "bolor" a Mário Soares, por este ter chamado "tumor" a Paulo Portas. Será de novo o "eczema" da descolonização a causar-lhes "prurido" ou tratar-se-á apenas de mais um dos ataques de "maus fígados" que cronicamente assolam o partido?

27.9.03

Señor Tallon #4

O EXPRESSO fez hoje manchete com uma afirmação inquietante: A UNIÃO EUROPEIA PODE ACABAR. Quem o disse (não foi Romano Prodi, não julguem) foi Ernâni Lopes, esse insigne pensador europeu cuja luz apenas é comparável às de Jean Monnet ou Jacques Delors. O mar transbordou das margens, as montanhas desabaram, as estrelas apagaram-se. O mundo todo tremeu com a profecia...

P.S.- Para que serve o EXPRESSO? Boa pergunta...

Post Scriptum #13

Há no mundo os que estão a mais, de fora,
Que não cabem nas molduras.
(Não constam das vossas listas, lixeira
É o seu nome de – casa.)

Os esvaziados, acotovelados,
Sempre mudos – o estrume,
Presilha – das vossas abas de seda,
Os que a lama despreza!

Os ilusórios, invisíveis (sinal:
Gafaria, lazareto!)
Se há no mundo Jobes que podiam
Ter inveja de Job,

Nós, poetas, rimados com párias,
Saindo das margens,
Lutamos contra as deusas pelo deus
E contra os deuses pela virgem!

Marina Tsvetáeva escreveu este poema no dia 22 de Abril de 1923.
A tradução é de Nina Guerra e Filipe Guerra, e encontra-se no livro “Depois da Rússia, 1922-1925”, editado pela Relógio D’Água, em 2001.

Señor Tallon #3

Para que serve o Expresso?
Para ler as crónicas de Luís Fernando Veríssimo.

Cimbalino Curto #7

“FOSTE UM BOM ROBOT HOJE?”
Só isto. Pintado a preto sobre um imenso muro, no Campo Alegre, junto à Faculdade de Letras. Sem qualquer prtensão de ordem gráfica. De todos os grafitis do Porto, este é o que mais gosto.

Post Scriptum #12

Um dia em que acompanhava a mãe à Igreja, tinha seis ou sete anos, Joel-Peter Witkin testemunhou um aparatoso acidente de aviação que envolveu vários automóveis. Do interior de um deles voou então uma cabeça decepada que desatou a correr aos saltos pela rua fora. Segundo Witkin, este terrível acontecimento inspirou toda a sua obra.
Ora, de uma forma muito parecida termina o terceiro capítulo do grande romance de Bulgakov.
“Rolando pelo declive, foi saltitanto pelo empedrado da Bronnaia.
Era a cabeça cortada de Berlioz.”
Este livro inspirou a minha vida.

26.9.03

O Povo É Sereno #3

A História, às vezes, repete-se. E a falta de imaginação também. Sobretudo nos "slogans", que é um domínio onde quase tudo parece ter sido inventado. Os socialistas lembraram-se de lançar este fim-de-semana uma iniciativa chamada "Não queremos Portugal parado", donde se presume que, sob Durão Barroso, o país esteja em estado de imobilidade. Há oito anos, quando o PSD apresentou como candidato a primeiro-ministro essa "vítima" chamada Fernando Nogueira, lembro-me que o "slogan" da campanha era "Portugal não pode parar", donde se presumia que, com Guterres, o país iria meter o travão e não sairia do sítio. Afinal, em que ficamos? Quem é que quer parar Portugal? Os ignóbeis socialistas ou os ignóbeis sociais-democratas? Ou isto vai apenas das obsessões que esta malta tem com o movimento? OK... prego a fundo, então... cuidado não se estampem na próxima parede!

Correio #1

A gerência tem o prazer de revelar ao mundo a primeira missiva dirigida ao Quartzo, Feldspato & Mica. Bem hajas, Cândida!

Olá, rapazes,
Dois conheço, um terceiro não. Confesso que o nome do "desconhecido" me causou, inicialmente, um mau arrepio. Depois pensei: nã, nã, nem o Pedro nem o Nuno iam meter-se com o tipo que acha que as mesas do Siza falam sozinhas... Acabei a rir-me do meu breve devaneio!
Pois divirtam-se e façam o favor de não iniciarem discussões sobre israelitas e palestinianos.
Um abraço,
Cândida

O Povo É Sereno #2

O PAULO PORTAS vai reunir-se este fim-de-semana em cong... Como? O que é que eu disse? Não, desculpem, o que eu queria dizer era isto: o PAULO PORTAS vai reunir-se este f... Ah, não, nada disto, voltei a enganar-me, peço desculpa. Agora é que é: o PARTIDO POPULAR vai reunir-se este fim-de-semana em congresso na Exponor em Matosinhos. É isto mesmo, o PARTIDO POPULAR. O PAULO PORTAS é só um pormenor, um pequeno líder sem importância, candidato único, vencedor único, pensador único, o único. E este PARTIDO POPULAR, por acaso, também é CDS. Lá para trás. Mas alguém ainda se lembra disso? Bom, lá constar da sigla e dos boletins de voto ainda consta mas a coisa começa a parecer-se cada vez mais com um título nobiliárquico fora de uso. Votado ao pó e às traças. E eles sabem disso. Eles sabem que nós sabemos que eles sabem. Essa é que é essa!
Mas desta vez, só para provarem que ainda têm memória, vão evocar o I Congresso do CDS realizado no pós-25 de Abril (Janeiro de 1975), durante o qual o Palácio de Cristal, palco da reunião magna daquele "perigoso partido fascista", esteve cercado por multidões animadas sob bandeiras que hoje já ninguém conhece, como as da FSP, PRP, PUP e OCMLP. Lá dentro, os representantes do Portugal profundo e católico que compunham a plateia iam aproveitando para rezar as suas últimas orações (nunca fiando!), os fundadores do CDS (como Amaro da Costa e Freitas do Amaral) cerravam os punhos e preparavam-se para o pior, os dirigentes convidados dos partidos conservadores europeus começavam a arrepender-se de ter participado numa iniciativa política em tão obscuro país.
28 anos depois, os "representantes do Portugal católico", apesar de ainda lá estarem, foram cedendo gradualmente a primazia a um rebanho de "jovens turcos" com gel no cabelo e pronúncia de Nevogilde ou da linha de Cascais, os conservadores europeus podem assistir a tudo sem desarranjos intestinais, as bandeiras estão guardadas nos sótãos e o povo, finalmente, serenou. E os fundadores? Bem, esses... Amaro da Costa (e só porque já morreu... sabe-se lá onde estaria, como se comportaria e o que diria se fosse vivo) teve direito a um busto no preciso local onde se realizou o congresso pioneiro; quanto a Freitas do Amaral, bem, até me custa dizer isto, mas ele agora é um perigoso guerrilheiro da extrema-esquerda que deve estar aí a preparar um assalto qualquer contra o Congresso do CDS.

Notícias da Província #4

"AGRICULTURA - No Jardim:
Proceder à preparação do terriço para aplicar nos canteiros. Com os crisântemos têm-se cuidados especiais, como sejam a monda dos botões e a colocação de tutores. Estas operações são indispensáveis para a obtenção de bons exemplares de flores. Enterram-se os bolbos das tulipas, narcisos e jacintos. Semeiam-se amores perfeitos, assembleias, cravos dobrados, ervilha de cheiro, gipsófila, malmequeres anuais, malvaiscos, margaridas, miosótis, papoulas, etc.. Colher sementes de quase todas as plantas, quer anuais, quer vivazes. Retirar, diariamente, as flores murchas das dálias, plantas que, no decurso do mês, atingem a plena floração; colocar, sempre que necessário, tutores para amparar as hastes; eliminar os botões mais fracos, de modo a conseguir-se o desenvolvimento de flores de maiores dimensões." (Gazeta de Paços de Ferreira, 25-09-03)
A falta que nos faz o Eng.º Sousa Veloso!

25.9.03

Post Scriptum #11

As roldanas dos velhos estendais são os únicos pássaros na noite do Porto.

Notícias da Província #3

Tudo o que precisa de saber sobre a actualidade local está aqui .

Notícias da Província #2

"AGRICULTURA - No Campo:
Prosseguem as lavouras de alqueiva e deslavre, iniciando-se as gradagens das terras as sementeiras outono-invernais. Fazem-se as últimas limpezas nas valas e abrem-se frenos naqueles locais onde se costumem verificar excessos de água durante o Inverno e a Primavera. Estes trabalhos são indispensáveis, pois não é possível cultivar terrenos demasiado húmidos, visto a humidade em excesso ser tão grande ou mesmo maior inimiga das plantas do que a seca. Enterram-se os estrumes destinados às próximas sementeiras sachadas." (Gazeta de Paços de Ferreira, 11-09-03)
Citadinos de todo o mundo, não hesitem em consultar o dicionário!

Post Scriptum #10

Heinrich von Kleist morreu há quase 200 anos. Entretanto, criou um blog. Um dos melhores.

Vai no Batalha #3

Turmas sem professores, horários por atribuir, colocações erradas, milhares de professores desempregados, falta de auxiliares de educação, informações ministeriais desencontradas... Não, não se trata de um qualquer país da América Latina ou da Ásia. É, tão somente, o retrato do momento actual da Educação em Portugal dez dias após a abertura oficial do ano lectivo. A tudo isto o Ministério da Educação fecha os olhos, desculpando-se com as vicissitudes "naturais" da aplicação de um novo regime de concurso de docentes. Nada muda neste país: primeiro muda-se, só depois se avaliam as consequências. Aceitam-se comentários para quartzo@sapo.pt.

SEÑOR TALLON #2

Ao Luís Octávio Costa

Que nome haveremos de dar ao Camacho? José António Capacho? Sei lá bem. O que eu sei é que, a estas horas, a auto-estima dele e da equipa deve estar ao nível daquele sítio onde costumamos limpar as solas dos sapatos...
Ao contrário do Mourinho e do Fernando Santos, ele é um bem-disposto, não é? Pois, até ver...

SEÑOR TALLON #1

O Benfica passeou ontem a sua classe por um relvado europeu. Ah não, desculpem, esta era uma notícia de há quarenta anos!...

Fauna & Flora #3

E NO ENTANTO ELA RI-SE!
Sim, ela ri-se. Contra todas as aparências e o manancial de provas até agora disponíveis, a mulher é humana e ri-se. Está tudo na edição de hoje do PÚBLICO, mais precisamente na página 24, onde se pode ver uma fotografia em rigoroso exclusivo mundial da Manuela Ferreira Leite a rir-se. E de que se rirá tanto a ministra das Finanças, afinal? Será que já foi oficialmente declarado o início da retoma e nós, pobres e desatentos cidadãos, ainda não demos por nada? Pelos vistos, já estamos todos autorizados a considerar-nos felizes... Mas não. Falso alarme. Afinal ainda não é desta que a tão ansiada retoma vai acontecer. O que faz rir a mulher mais "séria" do país é apenas o anúncio do novo suplemento satírico do PÚBLICO (apropriadamente intitulado O INIMIGO PÚBLICO) que promete todas as sextas-feiras não deixar pedra sobre pedra dos usuários (e usurários) do Poder. E isso fá-la rir? Fá-la, pois trata-se de uma mulher com muito “fair play”. Fossem todos assim, fossem todos assim...

Post Scriptum #9

DO SONHO

O dia acordou.
Levantou-se na ponta dos pés
e viu o mundo
ainda deitado com os sonhos
e encantações da noite.

Subiu aos montes,
deslizou pelas colinas
e escorreu para a cidade
apressado.

Apagou os candeeiros das ruas
esganou
sombras escondidas nos pátios e nas esquinas,
e depois de repartir pelos humanos
angústias e problemas
encarregou-os de o levar até ao fim.

Depois deu pela minha ausência
(estava ainda no meio do sonho
a negociar uma felicidade),
abriu a minha janela fechada
e com todo o seu peso caiu sobre mim
interrompendo as negociações.


Poema de Kiki Dimoulá (n. 1931), traduzido do grego por Manuel Resende (Inimigo Rumor, nº 14).

24.9.03

Cimbalino Curto #6

Uma hipotética relíquia do sangue de S. Pantaleão, padroeiro do Porto, guardada em Ravello, cidade do Sul de Itália, sofre o fenómeno da liquefacção. Isto é, o sangue seco do mártir retorna, durante pequenos períodos de tempo, ao estado líquido.

Cimbalino Curto #5

S. Pantaleão terá morrido em 27 de Julho de 304. Foi médico, mártir e autor de inúmeros milagres. Era natural de Nicomédia, na Bitínia. Converteu-se ao Cristianismo por influência de um sacerdote de nome Hermolau. Os seus prodígios alcançaram tão grande fama que a sua presença tornou-se demasiado incómoda, sobretudo para os médicos locais. Foi acusado de ser cristão e preso durante o governo do imperador romano Diocleciano. Na prisão sofreu toda a espécie de torturas tendo sido, por fim, decapitado.

De acordo com a tradição, nos fins de 1453 chegou ao Porto um navio vindo do Mediterrâneo Oriental com um grupo de arménios fugidos à invasão muçulmana de Constantinopla. No interior do navio vinham também os restos mortais do santo, salvos da fúria devastadora dos hereges pelos ditos arménios, que os depositaram então na Igreja de S. Pedro de Miragaia. Por essa razão, e segundo consta, foi-lhes permitido instalarem-se numa rua situada junto daquela igreja, ainda hoje significativamente chamada Rua da Arménia.

Ainda segundo a tradição, foi graças aos poderes miraculosos destas relíquias que a cidade sobreviveu a um terrível surto de peste ocorrido nos últimos dias desse ano de 1453. S. Pantaleão passou, depois disso, a ser padroeiro do Porto. E assim se manteve até hoje.

Vem esta história a propósito da pequena mas belíssima exposição que o Museu Nacional Soares dos Reis dedica actualmente a S. Pantaleão. "Esta é a Cabeça de S. Pantaleão" surge a pretexto do recente restauro que a instituição efectuou ao relicário onde se encontra o legado do santo. O relicário, em forma de cabeça, data de 1509 e é uma peça de joalharia de uma beleza extraordinária. Do seu interior foram retirados alguns papéis pouco valiosos, um pequeno pedaço de tecido do século XIII e cinco ou seis ossinhos que poderão ter pertencido ao corpo de S. Pantaleão.
A exposição estará patente até 2004. Aos domingos de manhã a entrada é gratuita.

Vai no Batalha #2

Esta Santa Madre Igreja não pára de nos surpreender. Então agora as doutas e sisudas inteligências reunidas nas congregações do Vaticano propuseram uma série de proibições nos rituais católicos: as mulheres não podem ajudar à missa (terão alma?) e passa a ser proibido bater palmas (quem as bate?) e dançar (quem o faz??) no meio do culto. Está tudo no último número da revista "Jesus" (como é italiana, será que chega cá?). Confesso que nunca a li. O certo é que já há para aí alguns padres (talvez os mais sensatos) a mexerem-se nas cadeiras. E com razão. Queixam-se as autoridades eclesiásticas de que há falta de vocações, diminui a afluência às igrejas... que tal, desta vez e só para variar, queixarem-se um bocadinho delas próprias? Assim, não admira que as IURD's prosperem, aí, ao menos, há música, pimba não interessa, porque a alma também se alimenta desses contágios espúrios. Tudo isto me faz lembrar uma sentença de um conhecido filósofo do direito que dizia "enquanto a realidade avança, o direito vai manquejando atrás". Neste caso, poderia dizer-se: "A realidade já meteu a primeira e vai por aí fora; a Igreja, por seu lado, fez inversão de marcha".

Umbigo #1

Confesso que tinha pensado inaugurar esta rubrica com alguma brincadeira do género "Tenho 70 anos e hoje, ao acordar, reparei que tinha uma borbulha na testa. Será princípio de acne?". Mas a verdade é que a vida real, às vezes, prega-nos partidas e antecipa-se à ficção. Pois é. Hoje, fiquei preso no elevador do meu prédio. É verdade, não é tanga. Foram só cinco minutos (que me pareceram aí uns vinte e cinco) durante os quais praguejei uma e outra vez, premi várias vezes o botão de alarme, sacudi a porta com a ferocidade possível e ainda liguei para a minha mãe, que mora ali perto, para o caso de ela apanhar o porteiro nalgum dos giros que ele habitualmente faz à volta do quarteirão (coisa que, logo por azar, costuma suceder quando a gente quer falar com ele ou entregar-lhe algo). Como felizmente não sofro de claustrofobia, a experiência não chegou para me causar tremideira, suores frios ou taquicardia. Acabou por me valer a solicitude da funcionária da limpeza que me explicou que no painel do elevador havia um botão (não, afinal, era uma espécie de mini-alavanca...) que, uma vez afastado para um dos lados (já não me lembro qual), permitia destravar a porta. E assim fiz. Ao sair do elevador, devia vir com a cara do preso que finalmente é resgatado do negrume da sua cela.

O Povo É Sereno #1

O presidente do Instituto de Estradas de Portugal foi demitido depois de não ter conseguido explicar convincentemente o que motivou a queda da ponte pedonal sobre o IC-19 e que originou três feridos. O vice-presidente demitiu-se em "solidariedade" com o ex-presidente. O Governo acaba de nomear o ex-vice-presidente para o cargo de presidente do IEP. Está, pois, confirmada a teoria de que os criminosos voltam sempre ao lugar do crime. Assim como uma outra: a de que os criminosos maiores - no caso, o ministro das Obras Públicas e o primeiro-ministro - raramente são apanhados.

Post Scriptum #7

O que há de comum entre "A Fome" de Knut Hamsun e "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski?
Agradecemos contribuições através de quartzo@sapo.pt.

Post Scriptum #6

QUE COMOVENTE, UM MAU POETA

Que comovente, um mau poeta. Não falam dele
há muitos anos; depois, lentamente, esquecem-no.
Inspirado e branco, agora cambaleia, vacilam
os botões no sobretudo roto e assobia poemas inéditos
ao vento de Inverno.
Que orgulho e força. No seu rosto,
ódio e inveja semelham, de longe, algo como
tristeza etérea. A seu lado, os famosos,
que incensaram artigos pagos e celebram
plateias selvagens, mercadores, ou aventureiros.
Na calva, na fronte altiva de apóstolo, pôs-lhe a vida
coroa de lágrimas, divinizando
sonhos da mocidade, em que prefere acreditar.
Até a má alimentação e magreza que dá
a tísica é uma questão de estilo. Como nos seus livros.
Crítica, literatura - em vão falais.
Ele é o idealismo. Ele é o poeta verdadeiro.

Este poema foi escrito pelo húngaro Kosztolányi Dezso (1885-1936), em 1924.

(Tradução de Ernesto Rodrigues, Antologia da Poesia Húngara, Editora Âncora, 2002)

Post Scriptum #5

Nos princípios do século XX, Velimir Khliébnikov (1885-1922) imaginou um ambicioso plano para resolver o problema da alimentação à escala planetária. O projecto consistia em ferver os lagos cheios de peixes e algas, e transportar depois essa belíssima sopa, congelada, para todos os lugares da terra onde ela fosse precisa. Apesar das suas inegáveis virtudes, a ideia de Khliébnikov, como tantos dos seus poemas, acabou por cair no mais completo esquecimento.

23.9.03

Cimbalino Curto #4

Em breve, segundo parece, a Rotunda da Boavista (o topónimo oficial é Praça de Mouzinho de Albuquerque) conhecerá um novo arranjo urbanístico, desta feita pela mão de Siza Vieira. Ao longo do último século foram várias as transformações ocorridas neste local. Uma das mais interessantes deu-se nos finais da Segunda Guerra. Nessa altura, e em resultado da política de aproveitamento de todos os espaços aráveis para a agricultura, preconizada pelo Estado Novo, o jardim da Rotunda esteve semeado com milho e batata.

Fauna & Flora #2

Fui ontem à inauguração da Exposição de Dinossauros da Mongólia, no Pavilhão Rosa Mota. Esperava ver exemplares como o Valentim Loureiro, o Avelino Ferreira Torres, o Mário de Almeida, o Narciso Miranda, o Arménio Pereira... Enorme desilusão: só apareceu o Rui Rio, que ainda não é desta espécie - nem para lá caminha, que as asneiras não perdoam.

Notícias da Província #1

A imprensa local e regional é responsável por alguns dos títulos mais imaginativos dos jornais portugueses, além de retratar com grande exactidão e genuinidade as idiossincrasias do "homo lusitanus". Senão, vejam:

"Erros de paixão na derrota do Felgueiras" (Semanário de Felgueiras, 19.09.03). A Paixão, note-se, é apelido do Jacinto, o árbitro, e não uma qualquer referência ao ardor com que o jogo foi disputado.

"Valdevez 3 - Trofense 0 - E podia ter sido bem pior!" (Jornal da Trofa, 19.09.03). É o que se chama ajudar a levantar a moral da equipa da casa.

"Beba água" (Tribuna Pacense, 19.09.03). Terei lido bem? Beber água no nosso interior tradicional e orgulhosamente vinícola? Esta gente nova...

"Levanta-te do túmulo, Padre Alves das Neves" (O Arauto de Rio Tinto, Setembro 2003). Título do próximo filme de George Romero, célebre realizador de "A Noite dos Mortos Vivos"?

"Felgueiras cidade sem carros!"; "Número de acidentes mantém-se elevado" (O Jornal da Lixa, 19.09.03). Em que ficamos?

Prometo trazer mais notícias em breve.

Fauna & Flora #1

JOSÉ MOURINHO/FERNANDO SANTOS – um estudo comparado

José Mourinho é treinador do FC Porto. Fernando Santos é treinador do Sporting. José Mourinho ganhou na época passada tudo o que havia para ganhar. Fernando Santos não teve a mesma sorte lá na Grécia, mas decerto ainda se lembrará de há uns anos ter sido campeão pelo FC Porto. No entanto, a verdade é que nenhum deles parece lá muito bem disposto. José Mourinho aparece sempre de cara fechada e palavras secas, com ar de quem está a passar por um aborrecimento monumental. Fernando Santos não lhe fica atrás, surgindo invariavelmente de olhar baixo e expressão franzida, meio derrotado por uma chatice que só ele percebe. Nenhum deles usa bigode, embora ambos sejam treinadores de futebol. José Mourinho nunca usou bigode, ao que julgo saber, mas faz gala em andar às vezes três ou quatro dias sem fazer a barba; provavelmente só para lhe dar um aspecto ainda mais aborrecido. Fernando Santos também nunca usou bigode, se não me falha a memória, mas já usou barba; no tempo em que treinava o Estoril e o Estrela da Amadora, lembram-se? Portanto, sem bigode, José Mourinho e Fernando Santos formam um lindo par, eu diria mesmo mais, uma bela dupla. Ou melhor, uma má dupla: a dupla dos mal-dispostos. José Mourinho e Fernando Santos andam mal-dispostos. Mas não é só de andarem mal-dispostos uma manhã para depois ficarem bem-dispostos à tarde e eufóricos à noite ou de serem mal-dispostos apenas com quem lhes faz uma pergunta à qual não desejam responder para depois serem todos sorrisos com o adepto que lhes pede um autógrafo. Não. Eles andam sempre mal-dispostos e estão mal-dispostos com toda a gente. Eles não andam mal-dispostos, eles são uns mal-dispostos, são a verdadeira má-disposição em pessoa. E porque serão eles uns mal-dispostos? Alguém lhes fez mal? A vida corre-lhes mal? Que diabo, José Mourinho não tem do que se queixar. No ano passado, ganhou o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça UEFA. Pelos padrões habituais, nada mau, não vos parece? Mas dar-se-á o caso de ele ainda não estar satisfeito? Será isso que o põe mal-disposto? Achará ele porventura que o céu é o limite? Não contente por ter ganho o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça UEFA em jogos para gente normal, deve também querer ganhá-los em competições para anjos, alienígenas e super-homens. E Fernando Santos? Porque andará ele sempre tão murcho, mesmo quando ganha? Ainda há poucos anos ele foi campeão pelo FC Porto (é verdade que falhou o “bi-tri” mas conseguiu o “penta”) e mais recentemente conseguiu também alguns sucessos na sua passagem pela Grécia. Não lhe faltariam, por isso, razões para sorrir. Mas não: o homem insiste naquele olhar de sono, naquela expressão inconsolável, como se a sua carreira, mau grado as aparências, não fosse mais do que uma sucessão de empates e derrotas sem sentido, limpezas de balneário e chicotadas psicológicas mal resolvidas. Ele já ganhou, há até provas disso, fotografias e recortes de jornal que não me deixam mentir, mas não se nota nada. Fernando Santos há-de ser sempre um vencedor com cara de derrotado. José Mourinho, esse, parece estar de candeias às avessas com o mundo. Das duas, uma: ou o resto da Humanidade lhe deve mesmo dinheiro, ou o homem é um incompreendido, dotado de uma sabedoria e de uma clarividência tais que nenhum leigo da bola será capaz de alcançar. A mim, não restam dúvidas de que José Mourinho é mesmo um adiantado mental. De outra forma não se compreenderia o ar entediado como arremessa monocordicamente palavras lacónicas, na típica atitude do iluminado que vai desperdiçando pérolas à ganância de porcos esfomeados. Ele só fala quando solicitado e mesmo assim fá-lo com parcimónia, não vá alguém fazer um embrulho com os seus doutos ensinamentos e oferecê-los, de laçarote e bandeja, à concorrência. Que, em boa verdade, não existe, já se vê. Porque Mourinho é o melhor e, como tal, não tem verdadeiros concorrentes. Fernando Santos também está mal com a vida. É ele sozinho contra o mundo e ninguém o ajuda. Não porque o mundo seja esse aglomerado de bestas condenado a não perceber patavina de tácticas, como é para José Mourinho, mas porque simplesmente o acordou. É isso mesmo. Fernando Santos está chateado porque o acordaram. De bom grado teria permanecido mais algum tempo na cama mas alguém fez soar a campainha do despertador antes do tempo. E ele não tem outro remédio senão aparecer em público de olhos pisados e rosto encardido, amaldiçoando a alma que o arrancou aos lençóis só para lhe pedir umas dicas sobre a constituição da equipa para o próximo jogo. Ninguém tem pena dele? Parece que não, porque o homem já é treinador há um bom punhado de anos e continuam a fazer-lhe o mesmo. E insistem em pô-lo a falar quando o que ele queria era suspirar, espreguiçar-se e ressonar. E teimam em pô-lo a dissertar sobre futebol quando o que ele queria era adormecer e só acordar a escassos minutos de a sua equipa subir para o relvado. Fernando Santos é um visionário. Deve acreditar que algures num sonho qualquer encontrará a táctica infalível que deixará ajoelhado até o mais aguerrido dos adversários. Deixem-no fazer a experiência! Deixem-no dormir, caramba!
Numa disputa entre um homem que sabe tudo e um outro que ainda não dormiu tudo, a tripla é o melhor prognóstico. Mourinho tem o génio do seu lado (nem ele admitirá outra coisa) mas Fernando Santos tem de certeza um pacto com as forças secretas que nos modelam o ânimo e o querer durante o sono. E o que pode sair daqui é tudo menos previsível. FC Porto e Sporting – dois gigantes que são bem capazes de empatar neste braço-de-ferro. Um empate, pois. É da maneira que, para bem da estabilidade, tanto um como outro hão-de continuar forçosamente mal-dispostos.

Vai no Batalha #1

A ameaça cumpriu-se: o Dia Europeu Sem Carros foi um fiasco. Na cidade de Rui Rio, chegou a ser patético, com o cair do pano da coisa logo ao final da manhã, devido aos "protestos" dos condutores. O reinado urbano do automóvel mantém-se intocável.

Post Scriptum #4

À excepção do poema incluído na "Rosa do Mundo", não se conhecem outras traduções de textos do chileno Enrique Lihn em português. Lihn viveu entre 1929 e 1988, e é um dos maiores escritores da América Latina. Esta é uma tentativa muito imperfeita de tradução do poema "Retrato", escrito em 1952.


RETRATO

Poeta dos pés à cabeça,
homem de poucas unhas, convulsivo,
neurótico,
órfão de águias, pai do seu próprio
crescimento,
obscuro, manchado por um anjo morto,
dono do seu desterrado domínio,
flagelo de si mesmo,
viúvo de todas as criaturas,
muitas vezes com cabeça de gigante,
com a alma acanhada outras vezes,
visível desaparecendo,
furioso na sua alegria, alegre na sua tristeza,
aborto do seu orgasmo imensamente casto,
cão de jardineiro,
trabalhador a prazo, profeta de pequena duração,
sobrinho louco, ovelha negra,
convidado especial, suspeito,
saudável às dez da manhã,
morto por uma enxaqueca sem trelho nem trambelho,
distinto bailarino do passo lento,
amante das flores, assassino de pássaros,
abstracto por instinto,
concreto se oculto debaixo de um cântaro,
secreto tornado à força transparente,
obscuro de desígnios convergentes.


(a tradução infelizmente é minha)

Post Scriptum #3

O que se sabe de Emil Szitta? Quase nada. Apenas que influenciou decisivamente o grande poeta e pintor húngaro Kassák Lajos, e que esteve igualmente por trás da vocação literária de Blaise Cendrars.
Agradeço outras informações através de quartzo@sapo.pt.

22.9.03

Cimbalino Curto #2

Parece que houve um tempo em que as pessoas que frequentavam a praia do Ourigo, ao entardecer, aplaudiam espontaneamente o pôr-do-sol. Affonso Romano de Sant'anna diz que isto ainda ocorre, no Rio de Janeiro.

Cimbalino Curto #1

O Porto é uma pequena cidade do Norte de Portugal onde existem três clubes de futebol, um dos quais moribundo.

Post Scriptum #2

Vicente Huidobro não é um dos meus autores de cabeceira. Mas este poema sim.

ARTE POÉTICA

Que o verso seja como chave
que abra mil portas.
Uma folha cai, algo passa voando;
quanto os olhos fitam criado seja,
e a alma do ouvinte fique palpitando.

Inventa novos mundos, cuida da palavra;
o adjectivo quando não dá vida, mata.

Estamos no céu dos nervos.
O músculo pende,
Como recordação, nos museus;
mas nem por isso temos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.

Porque cantais a rosa, poetas?
fazei-a florir no poema.

Só para nós
vivem sob o sol as coisas todas.

O poeta é um pequeno Deus.

Vicente Huidobro
(Tradução de Jorge de Sena, em Poesia do Século XX, 3ª Ed., Asa, Porto, 2003.)


Vicente Huidobro nasceu em 1893, em Santigo, no Chile, e morreu em Cartagena, em 1948. É um dos principais poetas chilenos do século XX.

Declaração muito pessoal de princípios

Um dia, gostava que o nosso blog fosse tão bom como este.

Post Scriptum #1

Setembro é o menos monótono dos meses.
Nasceu o primeiro blog feito de quartzo, feldspato e mica.

A primeira pedra

Somos três, já perceberam, mas isso não significa que esta seja a conta que Deus fez. Ou seja, em matéria de caras, vultos, histórias, pensamentos, reflexões, críticas, ficções, amores e embirrações, tanto poderão ser três como trinta, trezentos, três mil ou qualquer outro número do universo conhecido. Está tudo em aberto. Nada é definitivo. E seja o que Deus quiser, porque Ele não sabe fazer contas...

Em homenagem ao granito, donde foram, afinal, retirados os três elementos que nos dão o nome, tentaremos que as nossas palavras sejam, senão graníticas, pelo menos sólidas.

Às clássicas e irritantes frases "o Porto é o maior", "o Porto é uma Nação" ou "o Porto é um mundo", preferimos a declaração "do Porto para o Mundo".