30.11.04

O Povo é Sereno #186



EU PECADOR ME CONFESSO

Como se devem recordar nunca aqui falei de política! - e jamais tentei influenciar fosse quem fosse excepto uma única vez. E estou bem arrependido, porque o tempo que decorreu desde esse triste dia propiciou-me uma cruel ensinadela. Já ninguém se lembra, porque a memória dos homens é curta e a dos leitores de blogs - conforme esclareceu algures um excelente homem das escritas (Abel Bastos Rodrigues, segundo julgo saber, se é que não estou enganado) é curtíssima.
Ora se bem não se recordam, abusando da consideração que o senhor Presidente da República tem por qualquer português de lei (e eu, como não sou suevo, islandês ou ruténio entro nessa categoria patriótica), pedi-lhe que nomeasse o dr. Santana Lopes para o alto cargo a que tem estado guindado. Com a típica irresponsabilidade dos poetas eu aduzia o pretexto, que entendi como mais valia, de que o supremo magistrado devia ajudar a prática política em geral e a política ministerial em particular a transformar-se, e cito-me, "numa charlotada".
O senhor Presidente, compreensivo e bondoso como é, atendeu-me.
O que eu visava era apenas animar um pouco a malta! Com os dotes que todos lhe reconhecem, eu pensava que o dr. Santana iria de vez em quando à TV dar uns conselhos divertidos à gente dos futebóis, fazer-nos rir um pouco mediante a exposição da sua filosofia e do seu pensamento social e até, nos dias em que se sentisse mais pachorrento, dar uns cascudos neste ou naquele membro do seu gabinete, ao estilo dos serials da Keystone.
Mas saiu-me o tiro pela culatra...
Então não é que o sr. primeiro-ministro começou a governar a sério?
Meteu e desmeteu ministros, incrementou ou consentiu a vigilância de jornalistas, apertou-nos um pouco mais o cinto, passeou-se pelo país com hierática majestade, estabeleceu novas formas de nos chatear a valer, começou a parecer-se com um líder de opinião, comprou uma camisola nova e almoçou bacalhau, apertou a mão ao dr. Portas, comeu amendoins nas festas populares com que o povo o recebeu, leu o "Diário de Notícias" e, acho eu, não nos falou de futebóis a não ser em sonhos. Em suma, fez tudo o que em geral um primeiro-ministro que se preze, na nossa democracia singular, faz.
Quer dizer, tramou-nos com senso de humor e crueldade inteligente.
Eu assumo as minhas culpas. Se fui o culpado devo pagar. Peço agora ao senhor Presidente que, para vingar os portugueses, me nomeie Santana Lopes. Nicolau Santana Lopes. Juro-lhe que irei desempenhar bem o papel. E, até ser um dia apupado nas ruas, freneticamente, pela multidão em fúria, viverei crucificado, tristonho e finalmente muito envergonhado por tudo.
E ao verdadeiro Santana Lopes mande-o descansar para Cancun, ou para o Hawai, ou até mesmo para Tombuctu - essa estação termal no meio do Sahara.
Ele parece estar precisado e nós também.


Nicolau Saião

Ilha dos Amores #112



Para abrir a manhã, mais um excelente texto de Luísa Marinho, desta vez dedicado à série televisiva "Anjos na América", que é reposta hoje na RTP 2.

SÉCULO XX: O MUNDO ENVELHECEU TANTO!

Nova Iorque, anos 80, madrugada. Prior Walter, um homosexual seropositivo, tem (mais) uma alucinação aterradora a meio das suas já recorrentes insónias. Os seus antepassados medievais atormentam-no. Chamam-lhe "profeta" e pedem para ele dançar com quem ama. Walter lembra-se do companheiro - Louis - que o deixou por ter horror à decadência física. Logo
se abre diante dele um palco "kitsch", com coraçoezinhos cor-de-rosa e tudo, aberto para uma grande escadaria à musical da Broadway, por onde desce, vestido a rigor, Louis. Os dois amantes dançam ao som de "Moon River" (o comovente tema que Mancini compôs para o filme "Breakfast at Tiffany's"). Os antepassados de Prior olham perplexos para a cena. Um observa "ele é um sodomita!" ao que o outro reponde "cala-te! Deixa-os dançar". A música segue cada vez mais alta - "Moon River, wider than a mile / I?m crossing you in style some day / Oh, dream maker, you heart breaker / wherever you're going I'm going your way / Two drifters off to see the world / There's such a lot of world to see / We're after the same rainbow's end / waiting 'round the bend / my huckleberry friend / Moon River and me" - o primeiro antepassado exclama qualquer coisa como "século XX: o mundo envelheceu tanto!"
Não sei se esta cena de "Anjos na América" ("Angels in America"), série que é reposta a partir de hoje e até sábado na RTP 2 (23h00), é exactamente assim. Mas é pelo menos assim que me lembro dela: rica em referências estéticas e conceptuais, de uma densidade emocional rara em televisão e profundamente certa. Baseada na peça de teatro de Tony Kushner, vencedora de um prémio Pulitzer, esta mini-série realizada por Mike Nichols (o mesmo que nos anos 60 realizou os inesquecíveis filmes "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" ou "A Primeira Noite") parte da problemática da sida para fazer uma reflexão profunda sobre os limites da tolerância humana em épocas de crise. Fala-se aqui das questões que a epidemia levantou. Equaciona-se o medo do desconhecido - seja a morte, a religião ou o desejo - e a possibilidade ou não de a ele resistir. Conta-se a história de um mundo velho e triste que só em (cada vez mais raros) sonhos vislumbra a felicidade. É um mundo onde as novidades são sempre más e o peso das milhares de gerações que nos antecederam parecem sufocar a criatividade e o futuro. Necessita-se de sangue novo e limpo. Os seropositivos aparecem como aqueles que vão purgar os males da humanidade com as suas cicatrizes abertas e a vivência próxima da morte, que começa logo na incompreensão e no abandono. "Anjos na América" reivindica um renascimento civilizacional, em que os direitos individuais, a liberdade do desejo e o respeito pelas suas manifestações deveriam estar absolutamente garantidos. Até porque, como diz a música, "we're after the same rainbow's end". Se isto tudo não bastasse para fazer desta uma das propostas mais importantes da televisão actual, podia ainda falar-se do elenco. Mas também pouco há a dizer, basta apresentá-lo: Al Pacino, Meryl Streep, Emma Thompson, Justin Kirk, Ben Shenkman e Mary-Louise Parker.


Luísa Marinho

Post Scriptum # 424



Ernst Jandl
(Áustria, 1925-2002)

A ORQUESTRA FANÁTICA

o maestro ergue a batuta
a orquestra agita os instrumentos

o maestro abre os lábios
a orquestra entoa um uivo enraivecido

o maestro bate a batuta
a orquestra arremessa os instrumentos

o maestro abre os braços
a orquestra esvoaça pela sala

o maestro inclina a cabeça
a orquestra roja-se pelo chão

o maestro sua
a orquestra debate-se com torrentes ruidosas de água

o maestro olha para cima
a orquestra precipita-se em direcção ao céu

o maestro está ao rubro
a orquestra colapsa, incandescente

Tradução de Ana Gomes.

Cimbalino Curto #121

O Porto não tem Norte, nem Sul, nem Este nem Oeste; o único rumo que tem é o enviesado. (...) Seja qual for o destino com que aqui saímos de casa, estamos condenados a perder-nos nestas vielas e ruas enoveladas que nos convidam a decifrá-las, a segui-las até ao fim impalpável, pois geralmente terminam em lado nenhum. (...) E quanto mais corremos de um lado para o outro, procurando orientar-nos, mais nos perdemos. (...)
Dada a escassez de espaço, as pessoas coexistem aqui numa proximidade celular, e a vida evolui segundo a lógica imanente do mexerico. (...) O jogo das relações humanas assume aqui uma aparência de joalharia ou, melhor ainda, de filigrana. As pessoas, por estas bandas, têm mais segredos e andam mais bem informadas do que as polícias dos tiranos.

Mikhail Kuzmin, Passatempos de Província, 1922.

29.11.04

Post Scriptum # 423



Segundo poema de Antonio Colinas (Espanha, 1946), numa tradução inédita de Ruy Ventura.

PARA A FIGURA DE UM CRISTO ACHADA ENTRE O LIXO DE UM ESTÁBULO

Não estavas nas neves imensas dos montes,
na neve que ardia em seu silêncio;
nem no clamor feliz dos nossos gritos
além no mais profundo dos bosques.

Não te pude encontrar tal como és
nos versos da pobreza e da piedade de Rilke,
que lia de noite à luz da vela;
nem no Nascimento Místico de Sandro Botticelli,
que, desde que o vi, não deixa de viajar na minha memória
com sua coroa de anjos,
como viaja uma fogueira, e a vai adormecendo;
nem na tormenta ou na loucura formosa
da ebriedade de Bach.

Não estavas na ermida fechada a cal e canto,
calada na ladeira como lábios dum anjo
por dedo de silêncio.
Nem estavas na casa de pedra da aldeia
que, no fim dos vales, nos deixaram
naquele fim de semana.

Não estavas nem sequer no amor
dos meus, dulcíssima
coroa de sangue em torno da mesa;
nem naquela ramagem
de mãos que estendíamos para o lume aceso.
(A oferenda de nos amarmos entregue pelas chamas!)
Nem sequer estavas na hóstia
vermelha que era a lareira da cozinha.

Tu estavas fora, por trás da janelita
com musgo e com orvalho,
por trás dos objectos mortos da arrecadação,
depois do horto envolto
em névoa, por trás dos olhos medrosos,
lastimosos, da cadela.

Fui entrando no estábulo
onde há muitos anos ninguém penetrava.
E não conseguia perceber por que o fazia.
E na palha mole e ressequida
do chão, no lixo morto,
o meu pé tropeçou em algo.

Era um pequeno braço de bronze o que assomou,
e nele uma mãozinha se agarrava
(não sei se com terror se com doçura)
a um cravo afiado.

Devagar, agachei-me para agarrar
o cravo frio (aquele que eu cria
que abrasava).
E fui tirando aquela mão e aquele braço
até que vi sair (com uma mancha
de sangue sobre o peito)
a cabeça e o corpo de um Cristo sem a sua cruz.

Já libertado do lixo,
aquele corpo de bronze parecia
tremer sobre a minha mão
como um pássaro tíbio.
E contemplei os seus pés, seus braços estendidos,
cravados na luz
de ouro do estábulo.

In Tiempo y Abismo.
Tradução inédita de Ruy Ventura.

Bílis Esverdeada # 1


Deixem-me agora ser mauzinho, muito mauzinho, pois que também eu tenho direito a sê-lo de vez em quando. Para fazer o gosto ao dedo, citarei um pouco ao acaso do prefácio a "Os Poemas da Minha Vida" escolhidos pelo advogado e "histórico" do PSD-Porto Miguel Veiga. O prefácio é da lavra do antologiador, e a edição é do Público. Trata-se do número dois de uma nova colecção dirigida por José da Cruz Santos que inclui também as escolhas de Mário Soares, bastante interessantes e não tão previsíveis quanto isso, e as de Urbano Tavares Rodrigues, irrepreensíveis.

"[...]mas que li uma miríade de poemas, ai isso li - que me perdoem os jurisconsultos e os jurisperitos o tempo que consoladamente lhes roubei - e o gosto, o conforto, a companhia, a consolação e o sortilégio dessas leituras, essa ninguém, mas ninguém mos tira."

"O poeta, esse mágico, esse feiticeiro, esse adivinho, esse alquimista, talvez esse duende que ouve sonidos negros (Lorca), esse mediador cósmico, que capta aquela energia que é a essência do mundo [...]."

"Talvez por isto tudo e sobretudo pelo que lhe falta, enquanto outros trazem cruzes e medalhas ao pescoço, eu trago sempre um poema no bolso. Sempre."


Para me redimir, transcrevo em seguida um excerto do prefácio a "Os Poemas da Minha Vida", desta feita escolhidos por Diogo Freitas do Amaral, número três da mesma colecção do Público.

"Há falhas nesta pequena antologia - nomeadamente nos poetas do fim do século XIX, princípios do século XX (Gomes Leal, Cesário Verde, António Nobre, Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes); mas essas falhas são minhas e de mais ninguém. Ainda espero ter tempo para as suprir, nos anos da reforma que se avizinha."

Deve ser isto que distingue um intelectual de direita de um intelectual de esquerda. Costuma-se dizer que para bom entendedor meia palavra basta. Mas às vezes não dá para resistir.





Post Scriptum # 422


A CLAREZA SUBTIL DE ANDRÉ GIDE

Os clássicos da literatura caracterizam-se, julgo, por, independentemente da época em que são lidos, transmitirem uma série de conceitos e reflexões válidos e imprescindíveis para a compreensão do ser humano. Recentemente li "Os Moedeiros Falsos" ("Le Faux-monnayeurs"), considerado um romance maior do século XX, que voltou a estar disponível no mercado editorial português pela Âmbar. Ao lê-lo, senti aquele assombro que aparece sempre que se descobre um segredo bem guardado, com o qual nos identificamos, ainda que com algum embaraço, e que nos reconcilia com os nossas mais conturbadas e indizíveis sensações. E que bom é percebermos, afinal, que essas sensações podem ser ditas; ainda por cima de uma forma exemplar.
André Gide (1869-1951) assina em 1925, 22 anos antes de ganhar o Nobel da Literatura, uma obra invulgar, vanguardista e subversiva. O autor francês equaciona neste romance alguns dos temas que o acompanharão sempre. Através de uma construção complexa mas não hermética, e de uma clareza cheia de subtilezas, o autor conta a história de várias personagens - todas com igual importância - e dos seus prováveis e improváveis relacionamentos. Duas das personagens apresentam-se nas páginas iniciais. Bernard e Olivier são adolescentes de famílias da alta burguesia que vivem uma amizade profunda através da partilha intelectual e ideológica.
A vontade que têm de traçar o caminho da sua liberdade individual vai afastá-los logo no início. A vida de ambos acaba por se desenvolver à volta de outra personagem fundamental - Édouard, tio de Olivier, uma espécie de "alter-ego" de Gide.
O autor experimenta aqui a complexidade das relações humanas. Reflecte sobre o tema ao ponto de ser profundamente analítico do funcionamento emocional e intelectual do indivíduo em relação a um outro. O desejo, o medo e a insegurança de não se ser amado são as observações principais.
Misturando vários géneros, desde o epistolar ao diarístico, passando pela narração mais clássica, Gide aborda de uma forma clara mas nunca verdadeiramente explícita temas "marginais" e delicados como a homossexualidade, o colonialismo, a opressão do puritanismo religioso ou o cinismo dos círculos literários parisienses da época. "Os Moedeiros Falsos" é uma lição de destreza intelectual.


Luísa Marinho

26.11.04

O Povo É Sereno #187



O Le Nouvel Observateur está a celebrar quarenta anos de um dos mais estimulantes percursos da imprensa internacional. A última edição da revista, comemorativa e imperdível, prova que não há muitos outros órgãos de comunicação social que se possam orgulhar de um rol de entrevistados/articulistas que percorre todas as letras do alfabeto da intelectualidade francesa et d'ailleurs - são exemplos André Breton, Roland Barthes, Daniel Cohn-Bendit, Marguerite Duras, Michel Foucault, Jean Genet, Gunter Grass, Jean-Paul Sartre, Malcom X e até Mário Soares. Como é possível não se simpatizar com uma revista que se define como um "semanário de esquerda ferozmente independente"?

O Silêncio É de Ouro #175



"Ocean Rain" (Sire, 1984), a obra-prima dos britânicos Echo & The Bunnymen.

Post It #229



Definitivamente, de poeta e louco todos temos um pouco.

Post Scriptum # 421



Primeiro poema de Antonio Colinas (Espanha, 1946) neste blogue, numa tradução inédita de Ruy Ventura.

NO CAMINHO SEM CAMINHO
(Yuste)

Ser como esse cedro cheio de pássaros:
perdurar e cantar.
Não parece sequer mudar
com o incenso que os monges queimam,
com a água esverdeada do tanque,
com todo este esplendor de que recebe
a sua formosa plenitude.

Nunca partirei daqui, mesmo que parta.
Serei sempre laranjeira, hera, rola,
carvalho, ou borboleta, ou pedra eterna,
ainda que, na aparência, nosso corpo
siga por esse caminho sem regresso,
siga por esse caminho sem caminho.

Ainda que parta, ainda que não regresse,
e sinta tão devagar a asfixia dos anos
fui e serei esse cedro que oscila
na borda do tanque,
e que de noite acaricia as estrelas.

Aqui, nesta ladeira, com neve ou sem neve,
está quanto penso alcançar um dia,
por mais que o tempo hoje passe
como o regato que longe murmura:
desgastando rochas, arranhando silvas,
abismado em fontes.

Nunca partirei daqui, mesmo que parta.
Serei sempre rumor, voo de pássaro
do bosque ao jardim,
da sombra até à luz.
Quero ser algo mais do que o fruto vermelho
que brilha e que amadura, e se corrompe
anunciando o verão nas cerejeiras.

Sei que jamais partirei deste jardim.
E que, mesmo partindo,
algo hei-de levar deste paraíso
para outro lado.
Para onde?
Não sei.
O júbilo que hoje sinto é tão grande
que já não creio nem sequer na morte.
Essa morte que um dia fugiu deste lugar
(acaso para o jardim dos jardins),
quando abriram o chumbo e a madeira do sarcófago,
quando arrancaram o cadáver
da tumba do Imperador.

In Tiempo y Abismo.
Tradução inédita de Ruy Ventura.

25.11.04

post It #228

Descubra o Picasso que há em si.

Post Scriptum # 420


Ora aqui está uma excelente notícia:

O desconhecimento sobre o escritor Alexandre Andrade é generalizado e não é punido por lei. A esta infelicidade acresce o azar de não ser um autor inédito nem sobremaneira jovem, pois que, mal nascido em 1971, meteu mãos à obra até publicar o romance Benoni em 1997 - um fracasso editorial que suscitou entusiasmos críticos por aqui e por ali, inclusive no periódico especializado Record. Antes disso colaborou intensivamente no DNJovem (na altura Alexandre Andrade era jovem) mas depois da extinção do famoso suplemento não desistiu e largou lastro pela blogosfera fora. É ele, Alexandre Andrade, o responsável do já vetusto umblogsobrekleist, no qual, sobre a violência de um fundo verde alface, derrenga sobre massa com queijo, xadrez e outros assuntos actuais como o republicanismo e a Laicidade (mas também Paris), num todo homogéneo que confere um novo sabor ao conceito do humanismo.

As Não-Metamorfoses é a última aventura extra-virtual de Alexandre Andrade. Que seja em suporte livro é já por si novidade conspícua, mas que neste volume Alexandre prescinda de antologiar um best-off dos seus posts é algo de extraordinário e revelador da imensa prolixidade de Andrade (enquanto autor). Do que trata As Não-Metamorfoses é de chofre revelado pelo próprio Alexandre Andrade numa Nota Prévia que explica tudo o que de seguida acontece. Sucedem-se dez contos que não desmentem tudo o que Andrade explanou na Nota Prévia.

Para assinalar a ocasião, refere a doutoranda em Letras M. Vale De Gato, da comitiva editorial da Errata: «O verbo virtuoso traça indelevelmente o mundo, deixando pistas e desocultando afinidades. Indistinta de subjectivos meandros, até onde se urdem ou destrinçam os cursos da arte e da vida, binómio que denuncia flagrantemente a falácia contra a qual este livro (e todo o produto digno do apodo artístico) se insurge?» Contudo, numa outra ocasião essa mesma académica disse que estava um belo dia. Também o desenhador Filipe Abranches não declinou o ensejo de ilustrar dois cornos pelo preço de um. O Ministério da Cultura, por seu turno, assegurou o regular funcionamento das instituições.


(Do press-release de divulgação do livro)

A editora Errata pode ser contactada através do telefone 969 667 823 ou pelo mail errata@sapo.pt.

Umbigo #109



AS ESTRELAS SOBRE A CASA

Fez agora um mês que me faleceu um companheiro e um amigo de largos anos. Lá o fui acompanhar onde repousa agora - na minha vila de Arronches.
De postura cordial e participativa, tinha bom relacionamento com escritores, pintores e mesmo políticos, além de outras pessoas do meio intelectual - bem assim como com simples cidadãos quotidianos, pois tratava toda a boa gente por igual. A sua atitude merecia aliás de todos os que o contactavam uma palavra de simpatia, que ele retribuía à sua maneira. Mesmo por confrades estrangeiros ele era estimado, embora lhes conhecesse mal a língua. Anos depois de o terem conhecido cá, quando me escreviam lá dos seus países sempre perguntavam por ele com um tom de cordial afecto.
De pequena estatura mas com uma personalidade vincada, impunha-se à amizade e ao respeito pelo seu perfil amistoso e tranquilo. Diversos autores lhe dedicaram versos, vários pintores lhe fizeram o retrato.
Uma insuficiência renal acabou com anos de convivência estimulante. E em mim cresceu uma grande amargura, mas nessa altura recebi o acalento de muitos dos seus amigos. A Sandra Costa e o Ruy Ventura, por exemplo, que acompanharam a progressão da sua doença, mal ele partiu enviaram belos e comoventes poemas que aqui vos deixo como homenagem mínima a esse companheiro que não esquecerei e que eu mesmo levei à terra, sob uma oliveira do quintal onde tanto gostava de andar.
Chamava-se Clóvis Artur. Tinha os seus13 anos. Era o meu cão - e nunca, nunca mais terei um outro.

Nicolau Saião

Havia os passeios pelos pinhais/ os fins de tarde e as casas abandonadas./ A nostalgia de certos silêncios à espreita/ atrás das portas semiabertas./ O cair das sombras nos precipícios:/ suponhamos certas ausências repercutindo/ na escuridão como ecos sem um som de onde partem.// Havia ao longe um latido familiar/ perseguindo a luz dourada do Outono/ (folhas secas pelo ar).// Um cão, antes de morrer,/ abana a cauda para dizer/ do amor/ o que permanece.
(Sandra Costa)

alimento esta casa e a oliveira/ com memória, com sangue - a alegria/ que na vossa mão pus em cada dia,/ guardando no meu corpo a terra inteira.// junto do fogo - da alma, da lareira -/ guardei nos olhos a sabedoria/ desses caminhos que bem conhecia,/ da clara água fresca da ribeira.// lanço na terra a minha semente/ (feita de carne, de ossos, de saudade)/ fertilizando tudo, toda a gente.// a raiz trará vento, tempestade -/ uma sombra talvez na tarde quente,/ voz soando por toda a eternidade.
(Ruy Ventura)

24.11.04

Post Scriptum # 419



Um combate épico pela mão de Affonso Romano de Sant'Ana. Ou de como S.Jorge desce ao quintal e chora o dragão que matou.


MORTE NO JARDIM

Ondulando anéis rubros e negros, a cobra
era bela
e vinha deslizando no jardim
quando a vi
- num misto de temor e êxtase.

Venceu em mim, no entanto, o selvagem
que saiu à caça da presa
que se enroscava
mimetizando-se
com as flores do gramado.

Atiro-lhe na luta a lança
corto-lhe o corpo em uma
duas
três
partes
e nauseado
com o veneno do remorso
afasto-me
deixando atrás a beleza destroçada.

A tarde enrolava rubros e negros anéis sobre as montanhas
e o Sol morria perplexo sobre crisântemos e dálias.

- A poesia
não resgata
- o que matamos no jardim.



Affonso Romano de Sant'Ana.
In Textamentos. 1999.

Post Scriptum # 419

"Com dois metros de pano vermelho por pessoa/ Te farei", Cosimo falando, "quantos/ Cidadãos honestos você queira."

Ezra Pound, Excerto do Canto XXI.
Tradução de José Lino Grünewald.

O Povo É Sereno #186



Uma vez "cozinhada" pela Assembleia da República a pergunta do próximo referendo europeu, logo choveram críticas que a acusavam (a pergunta, não a AR) de ser "incompreensível", "demasiado longa" e uma espécie de "três em um". Ontem, o Governo já dizia que não concordava com a pergunta e prontos. Antes que se abrisse uma crise institucional de proporções imprevisíveis, o Quartzo, Feldspato & Mica meteu mãos à obra e, ao cabo de várias horas de reflexão e discussão, chegou à seguinte nova formulação para o plebiscito, procurando superar algumas daquelas críticas:

Eh pá, concordas com a Carta de Direitos Fundamentais (gu gu dá dá), pá, a regra das votações por maioria qualificada (bilú bilú), pá, e o novo quadro institucional da União Europeia (olh'ó aviãozinho), pá, nos termos da Constituição para a Europa (ó ó ó ó), pá? Vota lá!

O Silêncio É de Ouro #174



"Chrome" (Fontana, 1993), dos britânicos Catherine Wheel, brilhante disco e um dos expoentes do movimento shoegaze.

Umbigo #108

Troco metade da literatura portuguesa contemporânea por meia dúzia de versos de Herberto Helder.


Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como em meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Agenda

Esta noite, a partir das 23h30, no histórico Ribeirinha, António Pedro Ribeiro, poeta, performer, domador de feras e artista de karaoke, antecipa-se a António Guterres e Cavaco Silva, e anuncia formalmente a sua candidatura à Presidência da República. Na ocasião, será apresentado o seu mais recente livro, "Sexo, Noitadas e Rock'n'Roll".

23.11.04

O Silêncio É de Ouro #173



A capa não é grande coisa mas, facto "importante", corresponde ao primeiro LP da história do rock & roll ("Elvis Presley", RCA, 1956), género até então dominado pelos 45 rotações. Depois seguiu-se o menear de ancas na TV e o resto do "reinado" de Elvis Presley foi o que se sabe...

Ilha dos Amores #111


Peter Paul Rubens, A escolha de Midas, 1634.

No duelo musical que opôs Pã a Apolo, Midas, rei da Frígia, considerou que o primeiro tinha sido melhor. Apolo, indignado com a sua impudência, fez com que crescessem ao rei orelhas de burro. Envergonhado, Midas escondeu de todos o seu segredo sob uma tiara. De todos menos do escravo que lhe cortava o cabelo, a quem o rei ameaçou de morte se divulgasse a sua desgraça. Este, angustiado com o peso de tal responsabilidade, escondeu-se num local isolado, cavou um buraco no chão e confiou à terra o terrível segredo, tapando-o em seguida. Todavia, umas canas que ali existiam encarregaram-se de espalhar, cada vez que o vento as movia, o que Midas pretendia a todo o custo ocultar.

ADENDA
O Mito de Midas, na visão mais terrena de Zé Povão:

O Rei Baboso, ao verificar que o seu reino se estava a afundar, decidiu pedir ajuda às estrelas e salvar-se enquanto era tempo, fugindo para as férteis planicies do Norte. Dos seus validos, aquele que mais se colocou em bicos de pés foi Santa Ana, que um zéfiro colocou no Trono. Quanto a Júpiter, ocupado em escrever sobre os Jogos Olímpicos e com o Cortejo das Panateneias a passar mesmo ao pé do Olimpo, o que o chateava bastante, bocejou com bonomia perante a investida do nauta Portas. E foram os mortais que se lixaram, mais uma vez...

Post Scriptum # 418



Para abrir a manhã, um poema de José Ángel Leyva (México, 1958), na tradução de Floriano Martins, e com um desenho de Hélio Rola.


O DIABO VOYEUR

Com as unhas presas na porta
se debate a alma de um sujeito.
Seus dedos inchados e o olho lúbrico e impotente
Guincham à sombra de um maldito divã.
Era um voyeur do inconsciente o pobre diabo.
Escutava com o olhar os prazeres secretos da carne.
Olhava descortês o tremor da voz nos amantes.
Apaixonava-se com a crosta do rancor
e a ameaça de matar a quem alguma vez quis.
Estava ali concupiscente o demônio entre as pernas,
metendo o nariz e o rabo onde não era chamado.
Na inconsciência, digo, porque o gênio se perde em desfigurações.
Há um diabo cativo na palavra.
Veste-se de anjo da guarda e responde pelo nome de Esperança
ou Caridade, não sei, parece Jocasta com a voz de Édipo,
ou então Tirésias espiando com seus olhos cegos.


El diablo voyeur: Con las uñas cogidas en la puerta/ se debate el alma de un sujeto./ Sus dedos hinchados y el ojo lúbrico e impotente/ chillan a la sombra de un diván maldito./ Era un voyeur del inconsciente el pobre diablo./ Escuchaba con la vista los secretos placeres de la carne./ Miraba descortés el temblor de la voz en los amantes./ Se apasionaba con la costra del rencor/ y la amenaza de matar a quien alguna vez se quiso./ Estaba allí concupiscente el demonio entre las piernas,/ metiendo la nariz y el rabo en donde no lo llaman./ En la inconsciencia, digo yo, porque se pierde el genio en desfiguros./ Hay un diablo cautivo en la palabra./ Viste de ángel guardián y responde al nombre de Esperanza/ o Caridad, no sé, parece Yocasta con la voz de Edipo,/ o bien Tiresias espiando con sus ojos ciegos.

22.11.04

O Silêncio É de Ouro #172



Incansavelmente preocupado com a boa disposição de quem o visita, o Quartzo, Feldspato & Mica propõe hoje um exercício que apela à memória e à concentração dos leitores. Para tal, basta observar atentamente a fotografia acima publicada e identificar os ilustres convivas. A cada nome acertado corresponde um ponto e o(s) vencedor(es) habilita(m)-se a ganhar bilhetes para o próximo e sempre fabuloso "Natal dos Hospitais" (já não falta muito!). Boa sorte!

Ilha dos Amores #110



Jean-Michel Basquiat, "Offensive Orange", 1982.

Post It #227



O Outro Lugar. Excelente dossier dedicado às viagens na literatura. Com textos de François Moureau, Paulo Lopes, Clémence Boulouque, Raphäel Enthoven, Baptiste Liger e Alain Rubens, e ilustrações de Pedro Nora. Na última edição da revista Ler (Outono de 2004).

Post Scriptum # 417



CANTO XIV
(excerto)

Io venni in luogo d'ogni luce muto;
O fedor de carvão úmido, políticos
......e e....n, pulsos atados aos tornozelos,
com as nádegas pra fora,
A cara lambuzada pelo rabo,
olho grande no traseiro chato,
Tufo suspenso como barba,
Falando à turba pelo ânus,
larvas, lesmas e lagartixas,
E com eles ......r,
um guardanapo bem limpo
Trançado sob o pénis,
e........m
Que desprezavam a linguagem coloquial,
Bainhas sujas engomadas,
contornando suas pernas,
A pele peluda e empolada
fustigando a fímbria da bainha,
Aproveitadores bebendo sangue adoçado em fezes,
E atrás deles ......f e os financistas
açoitando-os com fios de aço.

Ezra Pound, Os Cantos.
Tradução de José Lino Grünewald.

Umbigo #106

Um coração a bater, um fio de sangue, o motor de um avião, coisas simples, coisas complexas, mitos, migalhas, vírgulas, pontos finais, reticências, angústia, coragem, paraíso, inferno, sins, nãos, estátuas, ídolos, música, bétulas, salgueiros, plátanos, magnólias, telhados, chaminés, sinos, frutos, erva, água, era uma vez, eram muitas vezes, era e não era, pântanos, fogos-fátuos. Tudo está cheio de posts. As ruas, os escritórios, os jardins. Tudo são posts. A falta de assunto não existe. O que existe é miopia. Eu, por exemplo, já vou a caminho das três dioptrias em cada olho.

O Povo É Sereno #185



Este texto de Nicolau Saião foi-nos enviado pelo autor na última quarta-feira. Por razões técnicas, só hoje o publicamos. Ao Nicolau, as nossas desculpas.


É ASSIM QUE SE FAZ A HISTÓRIA

Conforme referimos recentemente num comentário a um post, está bem identificado o autor do mavioso poema que no decorrer do recente Congresso exaltou as qualidades do partido do nosso estimado primeiro-ministro. E, por investigação levada a cabo pelo Prof. Pitta Raposo, incontornável figura alentejana e nacional (o ínclito autor de "Um homem impar: meu cunhado Romualdo Raposo, arosador de deques" e "Minha tia Leontina Raposo, barítona sustenida", entre outros) pode confirmar-se que é aquele em que estais a pensar - e a quem através dos tempos, devido a uma ajudinha de sua esposa, preclara cultivadora das musas, tem crescido o estro!
Mas ele é também autor do poema que segue e cujo argumento deve cotejar-se com o já apresentado, pois as semelhanças são evidentes - embora neste o tom seja mais desenvolto e, atrever-me-ia a dizê-lo, mais pessoal.


Geração Portugal

Somos actores de coragem
com estilos empenachados
pátrio orgulho dos passados
como outrora nunca vi
E mal nos dá a aragem
ficamos ao mar abraçados
- e à Angelina Jolie...


Para vencer desafios
também temos um soberano
um D. Duarte com brios
cronicado pelo Hermano
- Abre a porta meu menino
que quer entrar um fulano
com muito jeitinho e arte!
Mas responde-lhe o destino
com um tom republicano:
- Mandem-no àquela parte!

(Estribilho)
Grita viva Portugal
tira a alma, fura o peito
dá um murro no sujeito
que não te der o sinal
de que vai andar direito
com um jeito ocidental


Queremos mais Portugal
para encher bem o bandulho
e dar com o estadulho
no poviléu pequenino.
E acabem com o barulho
desse Marcelão mofino!...

Nova força para o mundo:
- meu jeitinho de animal
político de quintal
na vanguarda do futuro
Ser PSD é um furo
para se andar mais feliz
Meu orgulho, meu país
meu lindo país profundo
- E mesmo se fores um imundo
levanta bem o nariz!

O Santana é quem conduz
de norte a sul todos nós
com a sua linda voz
de comentador da bola

Quem refere que ele é um pachola
e não presta para governar
não sabe mesmo o que diz
e na prisa devia estar
- Meu Portugal, meu país
tão à beirinha do mar!
(E tu levas na carinha
se tornas a criticar...)

É tempo de acreditar,
de ter confiança em si
com o Portas a ajudar
com seu garbo militar.
Como Portugal nunca vi!

Com ele vivo a sonhar
- e com a Angelina Jolie...



Nicolau Saião

19.11.04

Umbigo #104

Obviamente, não bato à porta quando decido roubar frases. Entro e escolho: esta sim, esta não. E não me move apenas o gosto por frases sábias ou elaboradamente eloquentes. Também aprecio frases com acne, ataques de bílis, quilos suplementares, espinhas de peixe encravadas na garganta ou colesterol.

Post Scriptum # 416

Que eu saiba, nenhum escritor manteve tão boas relações com os mortos como Ezra Pound. E, tanto quanto sei, nenhum está mais vivo do que ele.

Post Scriptum # 415



CANTO XII
(excerto)

Dos Santos, José Maria dos Santos,
Ouvindo dizer que um graneleiro
Estava avariado no estuário do Tejo,
Adquiriu-o em hasta pública, nemo obstabat,
Pois ninguém mais deu lances. "Cretino!" "Milho
Estragado na água salgada,
Nada adianta, não serve pra nada". Dos Santos.
A carga inteira apodrecida em mar.
Dos Santos, doido português, comprou-a,
Penhorou então todo o património,
e tot lo sieu aver,
E comprou leitões mamãos, porcos, pequenos porcos,
Porcos por todo Portugal,
alimentados com a carga,
A primeira manada penhorada para comprar a segunda manada, undsoweiter,
Porcos de Portugal,
engordando na fartura do tempo,
E Dos Santos engordou, um grande dono de terras de Portugal
Agora junto a seus antepassados.
Tudo fez com milho molhado.
(A água provavelmente fresca naquele estuário)
Vá pro diabo Apovitch, Chicago não tem tudo.

Ezra Pound, Os Cantos.
Tradução de José Lino Grünewald.

18.11.04

O Silêncio É de Ouro #171



Da trupe de almas torturadas Red House Painters, "Down Colorful Hill" (4AD, 1992), o primeiro disco.

O Povo É Sereno #184

Já sabíamos que a linguagem pode ser aquilo que nós quisermos que ela seja. As palavras significam o que significam, o que significa que elas podem dizer o que parecem, outra coisa qualquer ou até o seu contrário. Vale a pena termos presente George Orwell e o seu "1984", essa brilhante fábula política sobre uma sociedade totalitária em que havia um Ministério da Verdade cuja principal tarefa era reescrever a História, um Ministério do Amor que mais não fazia do que pregar o ódio e "slogans" tão cristalinos como "Guerra é Paz" e "Liberdade é Escravidão". Se Orwell teve ou não como modelo a Rússia de Stalin, essa é uma velha questão que daria pano para mangas. Seja como for, há por aí gente que parece não ter aprendido nada. É o caso do PC português, cujo jargão oficial parece saído de um daqueles tenebrosos ministérios que Orwell imaginou. Ontem, em comunicado, "o PCP [julgou] adequado tornar público que está em curso, no âmbito do processo de construção de uma solução baseada no trabalho colectivo, uma informação e auscultação aos membros do comité central sobre a inclinação consensualizada a que se chegou nos organismos executivos no sentido de uma proposta de eleição de Jerónimo de Sousa como secretário-geral do PCP". Parece simples, não é? Nem tanto. Logo a seguir, vem o esclarecimento da jornalista: "Ao afirmar que existe uma 'inclinação consensualizada' para que Jerónimo de Sousa seja proposto como secretário-geral, a direcção do PCP está a assumir claramente que não há consenso interno sobre esta proposta". Ou seja, a "paz sempre é guerra", o Big Brother continua a ter razão. Está tudo aqui.

17.11.04

O Silêncio É de Ouro #170



"Limbo" (Rykodisc, 1996), penúltimo trabalho dos norte-americanos Throwing Muses. Curiosamente, a melhor capa da sua discografia não pertence à sempre requintada editora 4AD, pela qual costumam assinar.

16.11.04

Notas soltas #9

LUGARESCOMUNS

Pedro Mexia nos LugaresComuns, em Novembro.

Em www.geocities.com/lugarescomuns.

O Silêncio É de Ouro #169



Um aguçado humor sarcástico é a imagem de marca dos discos do cantor/compositor britânico Steven Jones, que assina sob o pseudónimo Babybird. Eis dois exemplos: "Fatherhood" (Babybird) e "Ugly Beautiful" (Echo), ambos de 1996.

Post It #226



Todos sabemos que manter um cérebro fresco não é uma tarefa fácil (que o digam os nossos pobres congressistas de fim-de-semana). Por isso, o Quartzo, Feldspato & Mica, em colaboração com a prestigiada Universidade de Columbia, oferece-lhe um pequeno guia dedicado ao assunto, profusamente ilustrado, com todas as informações necessárias e alguns conselhos úteis. Em exclusivo, aqui.

Mensagem do nosso patrocinador.



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(Imagem retirada da Jornada)

Post Scriptum # 414

Adam Tanner, da Reuters, escreve um texto muito interessante sobre as tortuosas relações que se podem estabelecer entre historiadores e os seus temas de estudo. O ponto de partida é o recente suicídio de Iris Chang, autora de "The Rape of Nanking", um livro onde se reconstitui os terríveis acontecimentos ocorridos durante a ocupação japonesa daquela cidade do leste da China, no final dos anos 30.

15.11.04

Post It #225

Crap Books.

Post Scriptum # 413

Era inevitável? Era. Depois de "O Assessor", eis que chega às livrarias (apenas as melhores) "Jardins de Insónia", o novo livro de Gonçalo Zarcão e segundo título do catálogo (para já irrepreensível) da editora O Princípio do Contraditório. De acordo com Mário Santos, este segundo livro reúne alguns dos "textículos" que Zarcão publicou no seu blogue "posta-restante": "Subintitulado 'Noctambulações pela lusofobia', 'Jardins da Insónia' é (o que costumam ser os livros deste 'género') uma espécie de diário expurgado da viagem do autor pela 'blogosfera', memória emagrecida da sua estadia no Bloguistão, esse imenso buraco cómico, genioso e caótico."
Os interessados devem reservar já o seu exemplar. É provável que esgote.

O Silêncio É de Ouro #168



Num rigoroso exclusivo Quartzo, Feldspato & Mica para os nossos estimados leitores de todos os "quadrantes" políticos, temos o orgulho de transcrever a letra do hino apresentado no congresso do "PPD/PSD" do passado fim-de-semana, de autor (infelizmente) incógnito:


GERAÇÃO PORTUGAL

Somos actores da história
De coragem e de glórias
Pátrio orgulho do passado
Abraçado pelo mar

Para vencer os desafios
Desse povo soberano
Abre a porta do destino
Que o futuro quer entrar

Queremos mais Portugal
Grande luso pequenino
Nova força para o mundo
Geração Portugal

Grita viva Portugal
Pede a alma, bate o peito
Nova força para o mundo
Meu orgulho Portugal

Tempo novo de acreditar
De ser mais feliz
De ser PSD
Sempre mais e melhor

Santana Lopes é a voz
Na vanguarda do futuro
De norte a sul
De todos nós

Grita viva Portugal
Meu orgulho, meu país
Nova força para o mundo
Grita Portugal

Grita viva Portugal
Meu orgulho, meu país
Nova força para o mundo
Viva Portugal

Grita viva Portugal
Meu orgulho, meu país
Nova força para o mundo
Grita Portugal

Grita viva Portugal
Meu orgulho, meu país
Nova força para o mundo
Viva Portugal

Nova força para o mundo
Viva Portugal

Post Scriptum # 412



A última edição do Prosa & Verso, suplemento cultural do Globo (disponível após registo gratuito), publica um extenso dossier dedicado aos novos movimentos literários cariocas. Segundo parece, a poesia está a ganhar novos públicos no Rio de Janeiro graças a apresentações públicas que jogam tudo na originalidade, misturando performance, novas tecnologias e música, e a terem lugar em espaços menos convencionais como discotecas e centros comerciais. "As pessoas estão descobrindo que poesia não precisa ser monocórdia", diz Maria Rezende, uma das responsáveis por esta espécie de "movida" poética que tem invadido o Rio.

O Povo é Sereno #183

Que Santana Lopes iria sobreviver ao Congresso já era esperado. A verdadeira questão está em saber se o PSD vai sobreviver a Santana Lopes.

Alípio Severo de Noronha

Post Scriptum # 411

Já em Outubro é necessário tomarmos precauções para que as lebres ou os coelhos bravos não cheguem perto da casca das jovens arvorezinhas, que faz as suas delícias. Para tal usam-se vários protectores de tronco - de verga, de palha, de papel e similares. Os mais adequados são os de papel. No entanto, o bom dono de casa tem uma certa pena de inutilizar deste modo o papel limpo e novo a estrear, e o jornal já se usa noutra parte. Em Fevereiro de 1801, duas editoras anunciaram a edição das obras de Bach e, no caso de uma das mesmas, até a das oeuvres complètes. Por motivos comerciais, porém, apenas editaram aquelas obras que eram objecto de interesse. Naquelas condições, muitas delas deitaram-se a perder. Por exemplo, os jardineiros do conde de Spork chegaram a remendar as árvores danificadas, roídas pelas lebres, com as vozes originais da missa em si menor. A criação, a escrita, seria portanto uma actividade sumamente improfícua se não fosse necessário proteger, ao menos, a sabedoria, a ternura e a pureza das árvores indefesas e feridas que de medo tremem.

Ivan Kadlecík, "Rapsódias e Miniaturas", Cavalo de Ferro/ G.R., 2004.
Tradução de Lumir Nahodil.

13.11.04

Post Scriptum # 410



Affonso Romano de Sant'Ana é um dos maiores poetas vivos do Brasil, e muito pouco lido em Portugal, onde - como já vem sendo triste costume sempre que se trata de literatura brasileira - não se encontram os seus livros. O seguinte poema é o primeiro de uma sequência chamada "Poemas para a Amiga", publicada no primeiro livro do poeta, "Canto e Palavra" (1965). Convoca ao mesmo tempo a poesia cancioneiril, Camões, Bernardim e Pessoa. Digam-me lá se não devia ser presença obrigatória em qualquer antologia de poesia amorosa que se preze.

POEMAS PARA A AMIGA

o amor com seus contrários se acrescenta
(Camões)


1
Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.

Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.

Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.

Por isto é que eu te sinto
com tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém-vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.


Affonso Romano de Sant'Ana.
In Poesia Reunida 1965-1999.
Porto Alegre, L&PM Pocket, 2004. Vol 1.

12.11.04

O Silêncio é de Ouro #167



Hoje, quero sugerir dois discos que não pertencem à área do jazz, pelo menos declaradamente: "Rock Bottom" e "Ruth is Stranger Than Richard", de Robert Wyatt. O primeiro, de 1974, é unanimemente considerado um dos álbuns essenciais da história do rock e um dos melhores dos anos 70. O segundo, de 1975, é uma espécie de continuação de "Rock Bottom", com vários pormenores que o aproximam do jazz, mas que mantém ainda e sempre uma linguagem muito própria. Uma linguagem que na verdade não se enquadra em nenhum estilo conhecido. Para ouvir no fim-de-semana e nos outros dias também.

Raul Silva

Mensagem da Gerência.



Porque defendemos em pleno o "Princípio do Contraditório", convidamos George Walker Bush Jr. para colaborar regularmente no Quartzo, Feldspato & Mica. Esta manhã, recebemos a sua resposta. Veja aqui.

O Silêncio É de Ouro #166



"Wishful Sinking" (13th Hour, 1995), título da fabulosa capa pertencente ao segundo disco dos londrinos (e admiradores do atletismo luso?) Rosa Mota.

Post Scriptum #409

(...)
Na literatura de puro sangue (e também na vida) tudo se encontra integrado de forma sintética. Mesmo quando escrevo sobre coisas "sérias" e pouco edificantes, de repente a própria frase (ou seja, a língua, a fala) pede com toda a lógica que lhe ponham um barrete de bobo, como que de um modo para outro nascem corninhos do Diabo - é assim que se impõe a si própria, como que automaticamente, a realidade concreta mais profunda, apesar de tudo e sem intenção. Assim trabalha a linguagem, essa experiência colectiva de todos os tempos que insaciavelmente me sacia e inebria.
(...)

Ivan Kadlecík, "Rapsódias e Miniaturas", Cavalo de Ferro/ G.R., 2004.
Tradução de Lumir Nahodil.

11.11.04

Diario de Sophie # 28

"Coentro com rabanete?", disse-me ele com ar decidido. Eu engoli de uma só vez a saliva de 3 minutos de indecisão sobre a ementa que se tinha acumulado debaixo da língua, junto aos molares do maxilar inferior. "Logo de entrada?" perguntei-lhe espantada. "Sim", respondeu-me energético.
Eu comecei a fazer as contas: Del Mónaco durante a viagem, três buzinadelas a um vagaroso Land Rover de 78, aceleração em sinal amarelo, cheiro francês abundante em cabelo constipado, "ando a reler Morávia", 5 euros ao arrumador, estacionamento à primeira, empregado de mesa tratado pelo nome próprio, "gosto particularmente deste restaurante" e por último, coentro com rabanete.
Resultado: paciente com período de carência de 6 a 7 meses.

Post It #224

quase em alemão

Ein Pfosten fast auf Deutsch:

Weil er von der draußen kommt, ist er eine der interessantesten
Ansichten über unser Land. Und seit einem Jahr sind Mittwoche nicht dieselben mehr.
Alles Gute zum Geburtstag für fast auf portugiesisch.

O Quase em Português comemora hoje o seu primeiro aniversário. O Ricardo Carvalho, leitor do blogue do Lutz e estudante aplicado de alemão, fez o favor de escrever o nosso post de homenagem.

Post Scriptum #408



Edward Lear
(Inglaterra, 1812-1888)

Era uma vez uma velha Senhora de Praga
Cuja linguagem era horrivelmente vaga;
Quando lhe perguntavam: "Isto são bonés?"
Ela respondia: "Talvez!"
Aquela oracular Senhora de Praga.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro.


ADENDA:

Este poema fez-me lembrar aqueles versos imortais de Edward Smith, que rezam: "O general Cocardasse/ andando na caça ao leão/ sentiu uma doce impressão/ um bocado abaixo do coração/ E procurando ao apalpão/ pois que estava na escuridão/ logo viu que pusera a mão/ sobre o terceiro botão/ do sítio onde tinha ...". O resto perdeu-se pois o manuscrito original era muito velho e sofrera tratos de polé em diversas escaramuças onde o general estivera metido.

Nicolau Saião

Umbigo #102

Para adicionar ao cânone das expressões artísticas contemporâneas:

- A arte de sublinhar livros em autocarros em movimento e com velhotas a espreitar pelo canto do olho.

Post Scriptum #406

(...) Vamos levantar-nos de manhã, às três, quatro, largamos as andorinhas, registamo-las, escravizamo-las como essas ovelhas assustadas, picamos o ponto, e quando cair a noite, fechamos o portão, rodamos a chave na fechadura, calçamos-lhes as pantufas, damos-lhes de comer (hoje mais que ontem, mas menos que amanhã - moscas), compramos um televisor a cores, caro e de baixa qualidade (ao sábado às tantas da matina damos um policial para que de manhã durmam até tarde e escusem de ir à igreja, no serão de domingo damos ópera, a ver se não se deixam dormir à segunda, faltando às corveias): assim de um dia para outro viverão bem, senão melhor - apenas deixarão de ser andorinhas. (...)

Ivan Kadlecík, "Rapsódias e Miniaturas", Cavalo de Ferro/ G.R., 2004.
Tradução de Lumir Nahodil.

10.11.04

Ilha dos Amores #109



Fotografia de Doug Aitken.

Post It #223



Coming Soon.

The Paris Review has interviewed almost 300 authors whose work has defined the literary landscape of latter half of the twentieth century. From its first interview with E.M. Forster, the Writers at Work series has, in the words of The New York Times, "set the standard for literary interrogation." Now the Paris Review Foundation proposes to make this vast archival resource - what has felicitously been referred to as the DNA of Literature - available online, for free, to anyone who visits the Paris Review website.
The project will launch in mid-November of 2005, beginning with the interviews from the 1950s.

Agenda



Hoje, a partir das 23h30, António Pedro Ribeiro apresenta as 2ª e 3ª edições do livro de poesia "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" (Edições Pirata), no Púcaros Bar, no Porto (junto ao Parque da Alfândega). O lançamento inclui intervenções do jornalista Nuno Amaral e do guitarrista André Guerra, bem como uma homenagem poético-musical a Jim Morrison, poeta-cantor dos Doors, desaparecido a 3 de Julho de 1971, em Paris.

Post Scriptum #405



OS GRANDES TRANSPARENTES

Neste regresso funcional aqui à casa fraterna depois de uma violenta e deliciosa gripe (os caldinhos de codorniz... as linguinhas de vitela conscienciosamente preparadas... - quem me tira estes períodos de outonal doença tira-me tudo, c'um raio!), algo de levemente inusitado me motiva: o célebre "Enchiridión Leonis Papa", livro de magias e engrimanços que com o suculento título de "El tesoro de los secretos maravillosos - recetas, pociones, talismanes" fui encontrar no tal sótão proverbial e recheado, bem colocadinho por detrás de obras de Juan Maria Guazzo, Eliphas Levi, S. Cipriano e, por estranha coincidência de arrumação, ao pé de uns do Lobo Antunes e outros do Saramago...
Na capa uma sugestiva fotografia com três frascos de líquidos maravilhosamente coloridos, quiçá um pouco inquietantes. Lá por dentro... é um delírio!
Vou fornecer-vos, inteiramente de boa-fé, uma receita papalmente intitulada "Para precaver-se de ser cornudo"... Mas antes deixem-me dizer que qualquer interessado ali encontra matéria mui proveitosa para os seus tratos de enriquecimento, boa conduta (só um niquinho luciferina, se calhar), amores e espantações paralelas (pró menino e prá menina... e se quiserem intercambiar também se arranja), perfumes para bem viver e até bem governar (e juro que não sugiro piada a homens e mulheres públicas desses a quem habitualmente sacudo...). Ele há o "Talismã de Saturno", muito útil para militares e derivados; o "Talismã de Vénus" (aqui um ligeiro apito); o "Perfume de domingo, sob os auspícios do sol" (muito bom, às tantas, para comentadores televisivos e executivos hieráticos); o "Embuste da Mandrágora artificial" (governantes devem rigorosamente abster-se); uma receita, que se tem tido como infalível, "Para recuperar a virgindade perdida" (cheira-me que este é capaz de ter muita saída entre a aristocracia e os cavalheiros de indústria...); o eficacíssimo "Para impedir que a mulher possa fornicar com algum sujeito"...
O livro não está traduzido em português e é muitíssimo raro, pelo que os/as eventuais interessados/as, movidos pela curiosidade - ou pela necessidade... - deverão, municiando-se de umas notitas de 50 dólares ou libras (não aceito euros), dirigir-se à minha pessoa para serem esclarecidos numa consulta que muito lhes agradará. Adicionalmente, também leio a sina e faço prognósticos em bola de cristal nos casos mais bicudos (para treinadores... ministros... pré-candidatos a presidentes de qualquer coisa...). Mas aqui vai então, finalizando a minha actuação, a tal receita superlativa:
"Para se precaver de ser cornudo - Tome a extremidade do membro genital de um lobo, o pelo das sobrancelhas do mesmo e os que ele tem debaixo da boca em forma de barba; reduza tudo a pó mediante calcinação e, com jeitinho adequado e sem que ela se dê conta, consiga que a mulher dos seus desvelos o engula. Dest'arte poderá estar seguro da sua fidelidade. Não dispondo das espécies aludidas, saiba que o tutano do espinhaço do dito lobo produz o mesmo efeito."
Parece que é limpinho...


Nicolau Saião

Imagem: Papa Leão III, pormenor do fresco de Rafael presente na "Stanza dell' Incendio di Borgo", no Palácio do Vaticano (princípios do século XVI).

Post Scriptum #404

(...) O Homem simples e comum, se não se integrar na compra e venda geral e uníssona, mesmo que lhe cresçam quatro asas de anjo, aqui nem sequer será um cagalhão seco no fundo do mar. Dito isto, a escrita não é criação, alegria, jogo, positividade, estética, beleza, jactância, poesia, mas apenas uma abjecta vingança, um deitar de contas provocado, em palavras mais educadas, uma autodefesa (karaté, sambo), um pedido de satisfações ou, dito com menos educação, o acto de devolver, vomitar, aquilo de que te encheram. É pouco, é suficiente? Pois por fim, mesmo no que diz respeito às coisas da escrita, aqui ainda permanece em acção outro facto: a morte do outro lado da porta, essa rameira desavergonhada que dá a sua fruta a qualquer um sem distinção. E talvez, ao fazê-lo, nem sequer dê ao Homem uma palavrinha.

Ivan Kadlecík, "Rapsódias e Miniaturas", Cavalo de Ferro/ G.R., 2004.
Tradução de Lumir Nahodil.

9.11.04

Ilha dos Amores #108



Fotogramas de Metropolis.

Post It #222

Aleluia

Global Warming Exposes Arctic to Oil, Gas Drilling
Mon Nov 8, 2:41 PM ET
By Tom Doggett

WASHINGTON (Reuters) - Rising global temperatures will melt areas of the Arctic this century, making them more accessible for oil and natural gas drilling, a report prepared by the United States and seven other nations said on Monday.

It predicts that over the next 100 years, global warming could increase Arctic annual average temperatures 5 to 9 degrees Fahrenheit over land and by up to 13 degrees over water. Warmer temperatures could raise global sea levels by as much as 3 feet.

Such a change would threaten coastal cities, change growing patterns for vegetation and destroy habitats for some wildlife, but an energy-starved world would have new areas for oil and gas exploration, according to the Arctic Climate Impact Assessment report.

The Arctic region, particularly offshore, has huge oil and gas reserves, mostly in Russia, Canada, Alaska, Greenland and Norway.

Warmer temperatures would make it easier to drill and ship oil from the Arctic, the report said. It did not attempt to quantify the costs of drilling and shipping Arctic oil and gas, or estimate how high energy prices would have to be to justify drilling in the region.

"Offshore oil exploration and production are likely to benefit from less extensive and thinner sea ice, although equipment will have to be designed to withstand increased wave forces and ice movement," the report said.

However, land access to energy reserves would likely be restricted due to a shorter season during which the ground is frozen hard enough to support heavy drilling equipment.

"The thawing of permafrost, on which buildings, pipelines, airfields and coastal installations supporting oil and gas development are located, is very likely to adversely affect these structures and increase the cost of maintaining them," the report said.

Energy companies would find it easier to transport oil and gas because the warmer temperatures would open sea routes.

"By the end of this century, the length of the navigation season...along the Northern Sea route is projected to increase to about 120 days from the current 20-30 days," the report said.

However, a longer shipping season will increase the risk of oil spills, the report warned.

The report was commissioned by the United States, Canada, Russia, Denmark, Iceland, Sweden, Norway and Finland. It concluded that global warming is heating the Arctic almost twice as quickly as the rest of the planet in a thaw that threatens millions of livelihoods.

O Silêncio É de Ouro #165



Em "A Date with Elvis" (Big Beat, 1986), os Cramps apuraram a sua fórmula rockabilly-cinema série Z-sexo, inspirada no lado mais trash da cultura popular americana dos anos 50.

Agenda

O Departamento de Sociologia da FLUP dá hoje início à segunda edição do ciclo de cinema "Fitas e Sociologia". As sessões, com entrada livre, têm lugar às 21 horas, no Anfiteatro Nobre da faculdade (ao Campo Alegre). Eis o programa:

"Cidade de Deus", de Fernando Meirelles (9 de Novembro);

"Ser e Ter", de Nicolas Philibert (23 de Novembro);

"Gosford Park", de Robert Altman (7 de Dezembro);

"O Delfim", Fernando Lopes (22 de Fevereiro de 2005);

"Os Respigadores e a Respigadora", de Agnès Varda (8 de Março);

"Às Segundas ao Sol", de Fernando León de Aranoa (12 de Abril);

"Metropolis", de Fritz Lang (17 de Maio).

Post It #221



Suponho que a Ana foi das primeiras a reparar neste extraordinário blogue (como já é habitual, de resto). Mas vale sempre a pena relembrar que não há nada como começar o dia a ler posts com motivações comerciais.

Umbigo #101

Fazer um filho, plantar uma árvore, criar um blogue.
Depois, insuflados pela virtuosa consciência do dever cumprido, podemos continuar a afogar-nos em merda. O diabo abençoar-nos-á.

8.11.04

Post Scriptum #403



Uma semana após as eleições presidenciais norte-americanas, Gene Stone edita este "The Bush Survival Bible: 250 Ways to Make it Through the Next Four Years Without Misunderestimating the Dangers Ahead, and Other Subliminable Stategeries". Na gíria publicitária, chama-se a este género de acções "campanhas de oportunidade". Nas livrarias, a partir de amanhã.

Post Scriptum #402



"A Ficções comemora a sua décima edição sob o império do amor, da viagem e da descoberta." Com textos de Maupassant, H. G. Wells, Zhang Tianyi, Jane Bowles, E. M. Forster, John Updike e Ingo Schulze. Já nas livrarias.

Diario de Sophie # 27

Se o Frank Sinatra ressuscitasse e visse isto morria outra vez.

Post Scriptum #401



Ivan Kadlecík
(Eslováquia, n. 1938)

(...) Assim sendo, o que nos resta? Nem mesmo o cepticismo nos ficou, embora dele façamos alarde. Como não acreditamos na possibilidade da verdade, nem acreditamos na necessidade da dúvida. Não temos em quantidade suficiente o cepticismo do descrente São Tomé, o qual precisou de tocar a realidade com o dedo: os nossos toques são mediados. Percepcionamos através das luvas de poliéster que são as convenções, as frases feitas, os clichés do pensamento, através dos resquícios esfarelados de pensamentos alheios. A verdade depois é aquilo que é anunciado e que recebemos pronto a usar neste ou naquele embrulho que na maior parte dos casos está pintado com as cores garridas da publicidade a fim de bem se vender. E assim transformamos em mercadoria mesmo a própria realidade, mesmo a acção, mesmo o acontecimento e o acto. De que outro modo podemos explicar a nós próprios um fenómeno em que o saudoso Sören Kierkegaard reparou já há bastante tempo, nomeadamente que em todo o lado no mundo, onde alguma necessidade esperava o seu acto e a sua acção, a primeira coisa que as pessoas fazem é estabelecerem uma comissão, associação, algum comité ou colégio e similares, até mesmo naqueles casos em que nada nem ninguém o exige, e, antes de mais, dotarem a mesma ou o mesmo do que mais importa: uma designação, um nome. É com este que em seguida acenamos, e a este acenar e a esta azáfama é que chamamos de actividade. (...)

"Rapsódias e Miniaturas", ed. Cavalo de Ferro/ Grande Reportagem, 2004. Tradução de Lumir Nahodil.

O Povo é Sereno #182



BORGAS E BALDAS

Quando há poucos dias ouvi um membro de uma associação de estudantes do Ensino Superior afirmar que o insucesso escolar nesse nível de ensino se deve aos professores, reagi com um sorriso nos lábios, recordando com irónica nostalgia a letra de um "hino do estudante" que os alunos da ESE de Portalegre costumam entoar:
"Os pontos requerem estudo,/ mas tu não estás nessa onda,/ tu só queres é café, é café, é vadiagem.../ É vadiagem pela noite e muitas baldas pelo dia,/ o estudo aperta e o curso é uma utopia."
Não sei se noutras instituições do Ensino Superior os estudantes costumam cantar pérolas deste quilate. Não tenho, contudo, grandes dúvidas ao afirmar que o "espírito académico" apresentado pela letra é comum a uma grande percentagem dos alunos das nossas universidades e institutos politécnicos.
Vindos de um clima laxista que se instalou no sistema educativo português, muitos dos alunos que entram no Ensino Superior desejam apenas serem "estudantes", sem vontade alguma de estudarem, pois o estudo é sinónimo de esforço e exigência - realidades a que não querem adaptar-se, vindos de doze anos de escolaridade em que podem ter "empinado" conteúdos, mas pouco trabalharam para terem um pensamento crítico e informado sobre o mundo que os rodeia.
Chamar-me-ão pessimista - mas basta lermos com uma atenção mínima as estatísticas que por aí pululam para chegarmos a estas conclusões. Junto a esta leitura a experiência que guardo dos anos que leccionei no Ensino Superior, recheada de exemplos de alunos cujo único objectivo era a aquisição do "canudo" com o mínimo esforço e trabalho - pois à frente da aquisição de um conhecimento enraizado estava sempre uma outra meta: viver a "vida académica"... E qualquer pessoa conhecedora do significado desta expressão sabe quais são os seus sinónimos: "vadiagem pela noite e muitas baldas pelo dia", como diz a letra acima citada, quantas e quantas vezes com álcool à mistura.
Não tomo a nuvem por Juno. Sei que existem milhares de alunos das nossas universidades e institutos que se esforçam por aprender e enriquecer os seus conhecimentos. De igual modo, conheço bem algumas instituições para saber que o insucesso escolar que nelas existe não se deve apenas às baldas e às borgas dos estudantes (que existem, em grande número!), mas também à gestão clientelar que alguns departamentos fazem dos currículos dos cursos e da planificação pedagógica das disciplinas. A realidade observável sobrepõe-se, infelizmente, às minhas opiniões. Neste âmbito, nunca mais esquecerei a frase dita há alguns anos por uma amiga minha, portuguesa então a estudar na Universidade de Paris-Nanterre: "Mas esta gente anda na universidade para estudar ou para passar o tempo em bares, em discotecas, em concertos de música pimba, em desfiles e em carnavais?"


Ruy Ventura