30.6.05

Da abstracção

Existirá abstracção (na pintura, na escultura, na poesia)? Tenho as minhas dúvidas. Toda a arte abstracta pode ser considerada apenas como uma síntese do mundo, reduzindo-o a uma essência, talvez (nos casos extremos) atómica, mas ainda assim real, concreta. A relatividade do concreto (cuja poliédrica dimensão o torna tão fluido) permite-nos pensar que a abstracção é para uns uma utopia, para outros um papão inexistente.

Ruy Ventura

14 Comments:

Blogger João Luís Barreto Guimarães said...

Para o cérebro humano tende a não haver abstracção. Tenho um poema sobre isso no meu próximo livro. O olhar tende a descobrir formas onde apenas foram deixados riscos, recortes ou perfis onde somente se dispuseram manchas. O cérebro humano não gosta da desordem e até uma pintura de Pollock pode ser uma rede de pesca, uma teia de aranha, um novelo que o meu gato desenrolou...

10:39 da manhã  
Anonymous F. Guerra said...

Não gostaria de me enredar assim na palavra e no conceito de abstracção porque, seguindo por esse caminho árido, também poderia dizer que, se a abstracção é uma utopia ou um papão (R. Ventura) ou, pelo contrário, a essência das coisas (JLBG), mas em ambos os casos ela seria «real», então a realidade do meu gato de carne e osso a brincar com um verdadeiro fio de algodão seria uma ilusão.

11:38 da manhã  
Blogger Rui Lage said...

Um dos meus pintores portugueses favoritos, o Agostinho Santos, funciona precisamente assim, João: ele olha para objectos, superfícies ou volumes e "vê" neles as formas, figuras e texturas com que irá, no atelier, povoar os seus quadros. Quer dizer, ele "vê" as suas pinturas antes das suas pinturas existirem fisicamente.

A arte abstracta não é, para mim, nem uma utopia (já lá vai o tempo), nem um papão (já não se consegue hoje criar nada de assustador ou de chocante), nem a essência das coisas (que é a abstracção pura e dura, a abstracção das abstracções), mas, apenas e tão só, um discurso teórico, que uns dominam com maior perícia e originalidade que outros. Onde está utopia, eu escreveria teoria. A arte abstracta não figura nem representa, aplica uma qualquer teoria. Se quisermos, podemos dizer que figura uma teoria, a qual é simultaneamente o seu meio e o seu fim.

12:41 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Já ninguém exige à arte figuração, representação ou sequer simbolização (menos na escrita, porque se esvaziaria e passava a caligrafia). Nem se trata aqui de afirmar que a abstracção não produz arte (mesmo na escrita), mas de contestar a afirmação tautológica de que «não existe abstracção» ou de que «a abstracção é o real». Para mim existe o real, a abstracção, e a abstracção do real (que dá uma outra boa caracterização do real, para quem gosta). Na boa pintura impressionista, o borrãozinho breve que é uma abelha, já zumbe na tela, de tão real; mas essa abelha não é a que me pica e me dá mel.

1:25 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

O anonymous anterior sou eu. JLBG já li um dos seus poemas que saiu na Periférica. Onde está lá a abstracção?

1:28 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

...a não ser que o borrãozinho breve seja mesmo uma abelha esborrachada por um picado e irado Renoir.

1:36 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

1:56 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Matemática é o plano supremo da abstracção. Todos os padrões da realidade podem ser descritos pela Matemática. Aliás, isto vai dar origem a um post na Tasca, sobre o número de ouro e Deus.

Quanto a não se conseguir criar nada de novo e chocante, recomendo o baratinho Art Now da Taschen. Até se fazem coisas com piada e algumas bem boas :)

1:57 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Quando alguém não sabe pintar, e ainda está dar os primeiros passos e tal... qual é a primeira coisa que vai fazer?"arte abstracta"!
Sempre! Sim, a Bibá Pita e a Teté Jardim fazem umas manchas, uns rabiscos e tal e julgam-se umas Pollockas nas vernisages do chiado.

Ora mesmo os tais rabisquinhos têm muitíssimo trabalho por detrás, muita sensibilidade, muita síntese e perfeccionismo. O vosso colega Nicolau Saião tem uns quadros belíssimos e eu não precisava de o dizer. :)

Desde que a arte tenha justificação tudo tem validade, até a abstracção.

Muitas vezes a justificação pode basear-se em meros critérios estéticos, outras num manifesto mais ou menos delirante.

O resto é anhanço dos incompetentes! Julgam que é fácil por-se anhar e esconder a mediocridade no campo imenso, vasto e flexível da abstracção do que do real e concreto... mas topam-se à mesma! Excepto, claro, os beneficiários dos circuitos especulativos que dizem ao público o que ele deve comprar.

2:07 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Agora se não existe ou não abstracção como diz o Ruy Ventura, isso parece-me um debate demasiado abstracto para emitir uma opinião concreta :)

2:11 da tarde  
Anonymous Ruy Ventura said...

Lancei este post apenas para promover a discussão.
Mas atenção, há neste momento - nomeadamente nalguma poesia - uma reacção contra o pensamento abstracto que a arte pode veicular, com a promoção de um hiper-realismo que pode tornar-se perigoso.

10:48 da tarde  
Anonymous Ruy Ventura said...

Quanto à afirmação do Rui Lage, com a qual concordo plenamente, é claro que as teorias valem o que valem... e raramente são aplicadas. Veja o surrealismo... os melhores surrealistas são aqueles que não cumprem a cartilha.
A propósito: como posso, Rui, conhecer a obra desse pintor de que falas?

10:50 da tarde  
Anonymous F.guerra said...

R. Ventura, o hiper-realismo é «perigoso» porquê? E para quem? Para o abstraccionismo? Como há teorias para tudo, lembro-me de uma, já dos tempos da faculdade, qundo dávamos Eça e o realismo, que rezava que a corrente que menos representava e aprofundava a realidade era o realismo (não posso dizer quem o escreveu e a propósito de quê, teria de pesquisar muito). Sei que a professora, Lúcia Lepecki, estava de acordo com isso. Pessoalmente, e subjectivamente, como já disse naquela longa discussão que houve aqui em tempos a propósito de um post de R L sobre o «real», condeno o excesso de abstracção nalguma poesia portuguesa, que já estava a tornar a língua dos poemas sem ossos, quase morta (tenho sempre em mente Herberto, Gastão Cruz e outros quando digo isto).

12:30 da manhã  
Blogger Rui Lage said...

Ruy, desculpa mas só agora me dei conta da tua pergunta. Nunca procurei saber se há pinturas do Agostinho Santos algures na internet. Um dia que passes pelo Porto podemos fazer-lhe uma visita no atelier.

8:43 da tarde  

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