29.10.04

There are three rules for writing a novel. Unfortunately, no one knows what they are.
- Somerset Maugham

Bom fim-de-semana.

O Povo é Sereno #178



O TU COM O VOSSEMECÊ OU A LÓGICA PODE SER UMA BATATA

Ontem, ao entrar no meu período filosófico quotidiano (ou seja, antes do bagaço e após a sobremesa do jantar) pensei com os meus botões que isto do "caso Marcelo" já cheiraria mal não fora a quantidade de revelações paradoxais que nos oferece a cada momento. Não fora o rol avantajado de lições que a cada passo nos dá para nosso proveito e exemplo.
Eis a última: Portugal, pelos vistos, é o único país do mundo em que dois opositores podem estar a dizer a verdade... embora tenham ambos versões diferentes do e sobre o mesmo assunto.
O insigne comentador (que tem um estilo de duque florentino) garante - e quem somos nós para duvidar? - que o seu amigo durante uma reunião o pressionou a moderar a verrina maquiavélica contra os rapazes do dr. Lopes - o nosso Santana - enquanto governantes desta nação multirracial, por sugestão pressionante dos gurus hardboiled da equipa que está no poleiro. O não menos insigne presidente director-geral da empresa que sustenta a TVI (que tem um ar de príncipe ou pelo menos de conde veneziano), por seu turno refere sóbria e solenemente - e quem somos nós para lhe infirmar a deixa? - que só falaram em coisas de estratégia empresarial, de assuntos de gestão de capitais e quejandas amenidades.
Em qualquer país um deles mentiria e outro falaria verdade. Mas isso era noutro país, olarilolé. Cá, tenho para mim que ambos falam verdade. E isto, para já, porque me recuso a acreditar que um destes senhores, verdadeiros exemplos para os mais novos - um na área da diversão televisiva domingueira, outro na dos negócios multicontinentais - esteja a mentir rascamente, sordidamente, como se fosse um baixo canalha desses que se arrastam pelos lameiros de Lisboa ou pelas alfurjas do Porto. Que esteja, para empregar o léxico do Raymond Chandler, "a mentir como um cão".
Depois, porque seria muito doloroso ter de se inferir a hipótese de que gente de qualidade, por mesquinhos interesses (políticos, empresariais?) estaria a desbobinar toda esta bambochata que vai arrastando na sua órbitra altas autoridades, areópagos nacionais, pais da pátria...
Tal coisa, tal suspeita, faria palpitar o nosso coração e o nosso bestunto: e se afinal esta gente de mérito e estatuto não passasse de (mas cala-te boca!).
Por isso, para tranquilizar o meu alanceado órgão tradicionalmente reservado às emoções, é que eu digo que a explicação é esta, tem de ser esta: ambos estão a falar verdade.
Como? Não sei. Mas tenho esta fézada, baseada no facto de que este é um país diferente.
E, francamente, é assim tão difícil de admitir que a lógica pode ser um tubérculo lusitano?


Nicolau Saião

Post Scriptum #398



Georg Heym
(Alemanha, 1887-1912)

UM ESGAR

A nossa doença é a nossa máscara.
A nossa doença é tédio sem fronteiras.
A nossa doença é como um extracto de preguiça e inquietação eterna.
A nossa doença é miséria.
A nossa doença é estar agrilhoado a um lugar.
A nossa doença é nunca podermos estar sós.
A nossa doença é não termos profissão, e se tivessemos uma [seria] a de a termos.
A nossa doença é desconfiarmos de nós, dos outros, do saber, da arte.
A nossa doença é falta de seriedade, falsa serenidade, sofrimento duplo. Alguém nos disse: como o vosso riso é estranho. Se esse alguém soubesse que este riso é o reflexo do nosso inferno, o amargo contrário do: "Le sage ne rit qu'en tremblant" de Baudelaire.
A nossa doença é a desobediência a Deus que nos impusemos a nós próprios.
A nossa doença é dizer o oposto daquilo que gostaríamos de dizer. Temos de nos torturar a nós próprios, observando as expressões fisionómicas dos que nos ouvem.
A nossa doença é sermos inimigos do silêncio. (...)
A nossa doença. É provável que alguma coisa a pudesse curar: o amor. Mas tínhamos de acabar por reconhecer que nós próprios nos havíamos tornado demasiado doentes para amar. Uma coisa porém existe que é a nossa saúde. Dizer três vezes "apesar disso", cuspir três vezes nas mãos como um velho soldado, e continuar então a avançar pela nossa estrada fora, como nuvens puxadas pelo vento do ocaso, em direcção ao desconhecido.

Georg Heym, A Autópsia e outros contos, apaginastantas, 1988. Tradução de Anabela Mendes.

Cimbalino Curto #120

Afinal, ainda não foi desta que o Passos Manuel reabriu. A culpa é da alcatifa.

28.10.04

O Silêncio É de Ouro #161



A polémica capa do álbum "Anarchy" (EMI, 1994), do colectivo anarco-punk inglês Chumbawamba. Na ocasião do seu lançamento, lojas houve que chegaram a recusar vender o disco ou optaram por tapar a capa - isto no tempo em que a censura era assumida e se fazia às claras.

Cimbalino Curto #119

Esta noite reabre o Passos Manuel, com um concerto de Electronicat ("alter ego" do músico francês Fred Bigot), acompanhado por Miss Le Bomb (vocalista do projecto alemão Queen of Japan). A programação para os próximos dias pode ser consultada aqui.

Entretanto, e também esta noite, a partir das 22h30, há mais uma sessão de poesia no Café Pátio, em Vila do Conde. Com António Pedro Ribeiro, Isaque Ferreira, João Rios, Bruno Neiva e José Peixoto (guitarra), numa "noite aberta a todas as vozes". Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Antero de Quental, Cesário Verde, António Maria Lisboa, Jim Morrison, Lou Reed, Bob Dylan e Ian Curtis são alguns dos poetas a dizer.

Post It #218



A Rua da Judiaria (dispensa apresentações e outras considerações) fez ontem um ano.

Umbigo #97




O que qualquer blogger procura é fazer soar o post como ainda nenhum outro soou. Fazê-lo soar como um instrumento musical, uma orquestra original, o mais perfeito dos meios de expressão. E, nesta perspectiva, creio que ninguém mais do que o Tawzeeto tem conseguido aproximar-se desse objectivo.

Post Scriptum #397



Wolfgang Bächler
(Alemanha, n. 1925)

EVASÃO

Evadir-me
das cercas de palavras,
das cadeias de frases,
dos sistemas de pontos,
dos entre-parênteses,
das molduras das miragens narcisistas,
das vírgulas, dos traços de união
- a envolver desconexões
evasivas, diluídas -
evadir-me
para a liberdade do silêncio.

"De costas para a janela: Poesia Alemã Contemporânea - I", O Oiro do Dia, 1981. Tradução de João Barrento.

O Povo é Sereno #177



TARDE PIASTE, CINÉFILO!

Tenho andado um bocado distraído com acontecimentos subsidiários ou seja nacionais e, por isso, não me debrucei ainda sobre as eleições americanas. Se calhar já não vou a tempo de fazer inflectir o sentido dos votos, mas mesmo assim não posso deixar de referir as minhas razões para entender porque se deve votar em John Kerry.
A primeira é porque acho o homem uma pessoa séria. Ninguém se tinha ainda lembrado de pôr em destaque este facto, mas aqui deixo o detalhe. Se repararem bem, mesmo quando se ri - e o gestualismo é importante, revela a alma - parece que está com a expressão do Vincent Price ou do Cristopher Lee nas películas do Roger Corman. E ao apresentar-se assim num encontro futuro com o Chirac já é meio caminho andado para meter as cabras no curral ao pretensioso francês e nem falo no Putin, com o seu estilo de Golum do "Senhor dos Anéis".
Depois, Kerry bebe limonada enquanto o seu opositor não bebe mesmo nada (o que lhe permite possuir aquele ar um pouco à maneira do Peter Lorre no "Casablanca"). Quer dizer, beberá decerto água, mas isso é um líquido que não conta e nem preciso de recorrer à memória de todos recordando que o seu vice é o Dick Cheney. Por outro lado, os membros da Al-Qaeda em particular e o Michel Moore em geral terão a ideia de que Kerry é tão pusilânime, indeciso e manipulável como o ex-presidente Carter e apanharão uma saborosa surpresa: que ele, com excepção dos carinhos à Halliburton, fará exactamente o mesmo que George W. Bush no combate contra os magnatas disfarçados de fundamentalistas, o que permitirá que o engenheiro Ben Laden (sabiam que o homem é formado?) vá de mesquita em mesquita até ao espalhanço final.
E já agora, a talhe de foice, não esquecer que o Kerry é apoiado pela Woopi Goldberg, e não sei se mesmo pelo George Clooney. Não ouviram falar, mas são dois extraordinários actores estadunidenses.
Além disso, Kerry não é o candidato do Dr. Santana Lopes nem da Cinecittá. Nem o outro, aliás, já que me chamam a atenção para isso.
E o Bush quando se desloca (vulgo andar) dá um bocado à nalga, o que não parece bem nos noticiários nacionais e fica mal nos documentários. O Kerry, mais seco de carnes, é mais controlado e tem um ar mais presidencial.
Não falando que um não é inglês e o outro também o não é. Isto parece-me o mais importante, mesmo que haja discordâncias sobre o respectivo estilo de pensamento.
Assim, será de se tirar o rabinho da cama no próximo dia 2 e ir-se votar em massa. Do Minho ao Algarve, mas também é importante que os americanos que vivem nos EUA façam o mesmo e não se desculpem com terem de ir às compras no Lidl ou no Pagapouco.


Nicolau Saião

O silêncio é de ouro # 160



"Pithecanthropus Erectus", de Charles Mingus. A obra-prima de um dos maiores contrabaixistas do século XX. Bastava este disco de 1956, gravado para a Atlantic, para inscrever definitivamente o seu nome na história do jazz. Indispensável.

Raul Silva

26.10.04

Post It #217

Uma sugestão para o final do dia: Comam todos Rhabarbermarmelade!

Post It #216



Por indicação do Daniel Pedrosa, descobrimos a Born Magazine. Um sítio onde se cruzam os fios da arte e da literatura. O resultado é verdadeiramente fascinante. Ora vejam.

Ilha dos Amores #107



"O Outono Dourado. Slobodka", de Isaak Levitan, 1889.
Para acompanhar as suites para violoncelo solo de Benjamin Britten.

Cimbalino Curto #118

As artes cénicas do Porto ganharam um espectador de peso, daqueles que se sentam em grupo na Plateia, aplaudem com paixão e assobiam ruidosamente. Auguram-se a este colectivo muitas representações e lotações esgotadas.

Post Scriptum #396


Retrato de Karl Kraus, em 1925, por Oskar Kokoschka.

Karl Kraus
(Áustria, 1874-1936)

Uma ciência que sabe tão pouco do sexo como da arte anda a espalhar o boato de que a sexualidade do artista é "sublimada" na obra de arte. Linda vocação da arte, a de evitar a ida ao bordel! Neste caso, seria muito mais refinada a vocação do bordel de evitar a sublimação através de uma obra de arte. Como é dúbio o efeito sobre o receptor do método utilizado pelos artistas, já para abstrair da sua prolixidade, é o que prova precisamente o caso do compositor que aquela ciência se compraz em apresentar como exemplo de uma sublimação bem conseguida. Os ouvintes da sua música sentem-se de tal modo estimulados pela sexualidade que nela está sublimada que não lhes resta muitas vezes outro caminho senão aquele a que o artista se esquivou, a não ser que eles próprios sejam capazes de proceder a tempo a uma sublimação. Se o artista tivesse escolhido o caminho mais simples, os ouvintes teriam sido poupados a este efeito. Eis como sucede que, com o mau hábito dos artistas de sublimar a sexualidade, esta consiga precisamente libertar-se e um assunto que por todos os motivos deveria permanecer um assunto privado do artista degenere num escândalo público.

Karl Kraus, "O Apocalipse Estável - Aforismos", apaginastantas, 1988.
Tradução de António Sousa Ribeiro.

Post Scriptum #395

Livros de Karl Kraus disponíveis no mercado português.



O Apocalipse Estável - Aforismos, apaginastantas, 1988. Tradução de António Sousa Ribeiro.

Os Últimos dias da Humanidade, Antígona , 2003. Tradução de António Sousa Ribeiro.

25.10.04

Ilha dos Amores #106



Vari Caramés, Sem Título, 1996.
Também em exposição no CPF.

Post Scriptum #394

Sétima Leitura
PROFECIA

MUITOS ANOS depois do Pecado a que chamaram Virtude nas igrejas e que bendisseram. Relíquias de velhos astros e recantos cheios de teias de aranha varridas pela borrasca que o espírito dos humanos há-de gerar. E, ao ajustar as contas dos antigos Dirigentes, a Criação estremecerá. E grande alvoroço cairá sobre o Hades e o chão cederá sob a grande pressão do sol. Que começará por reter os seus raios, sinal de que é tempo de os sonhos tirarem desforra. E depois falará, dizendo: Poeta exilado, no teu século, diz, que vês?
- Vejo as nações, antigamente tão arrogantes, abandonadas às vespas e às urtigas.
- Vejo as achas no ar fendendo os bustos dos Imperadores e dos Generais.
- Vejo os mercadores a cobrarem curvados o lucro dos próprios cadáveres.
- Vejo o encadear dos sentidos ocultos.
(...)

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí).
Tradução de Manuel Resende.

Umbigo #96

Tenho um milhão de coisas inadiáveis para fazer durante os próximos dias. Vou fazer-me de morto. Morrer um pouco até conseguir ficar vivo outra vez.

Post It #215



Para Elsinore, seguir por aqui.

O Povo é Sereno #176



A VERGONHA DE UMA MILITANTE

Há alturas na vida em que gostaríamos de não ter razão - dias em que desejaríamos não confirmar as nossas intuições.
Infelizmente, vivo hoje um desses momentos. Não deixava de guardar o secreto desejo de poder escrever um texto em que confessaria ter exagerado quando escrevi que Jorge Sampaio, ao colocar nas mãos de Santana e dos seus rapazes o governo de Portugal, lançava os alicerces de uma prática política que reuniria, numa amarga salada, o pior das acções do dirigente do "Forza Itália" com o mais sinistro da prática do chefe do PSD-Madeira.
Desgraçadamente, os acontecimentos a que recentemente todos assistimos tornam impossível a concretização de tal desejo. Já conhecia (inclusive na pele, em Portalegre) exemplos de censura encapotada, de pressão sobre a comunicação social e/ou de instrumentalização da mesma para fins espúrios. Mas ouvirmos o que todos ouvimos dizer a esse porta-voz de Pedro Santana Lopes - lançou uma inquietação profunda no quotidiano de qualquer português esclarecido cujas aspirações estejam pouco para além da satisfação das necessidades primárias. Inquietação tanto maior quanto nos vamos apercebendo da preparação de um ataque feroz contra a imprensa regional independente, visando colocá-la nas mãos de grupos económicos manipuláveis. Só o senhor Presidente da República parece continuar a achar que tudo isto não é um ataque ao "regular funcionamento das instituições democráticas"...
Por tudo isto e por muito mais me impressionou uma crónica publicada num jornal de Mangualde, "O Zurara", assinada por Maria Liseta Neto, militante do PSD desde 1974. Tanto quanto sei não deseja ser nem presidente da República nem líder do partido fundado por Francisco Sá-Carneiro. É apenas uma mulher com uma visão lúcida, nua e crua, uma cidadã que sente na pele a vergonha de ser militante de um partido que foi tomado de assalto por um conjunto de "incendiários" (a expressão é de Villaverde Cabral), que vê um dos pilares da nossa democracia ser agente da sua perigosa erosão. Quem tiver olhos, que veja; quem tiver ouvidos, que ouça... Aqui ficam alguns extractos:
"[...] este PSD que teme a liberdade de expressão, que ousa tentar coagir aqueles que a exercem num estado de direito e democrático, este PSD não é o PPD que também eu ajudei a criar e há trinta anos defendo como militante de base [...] / Nele não me revejo. / Nem me revejo em ministros que publicamente assumem os seus 'estados de alma', apelando à mais ínvia das censuras [...]. / [...] / E quantos militantes como eu, por esse país fora sentirão a mesma vergonha e o mesmo constrangimento? / [...] / Hoje calaram Marcelo Rebelo de Sousa. / Quem vai ser calado amanhã? / Quando se cria um precedente desta natureza, quando aceitamos em silêncio estes exercícios inquisitoriais, todos nós perdemos um pouco das nossas vidas, dos nossos valores, da nossa Liberdade."

Ruy Ventura

Umbigo #95

A minha próxima aquisição bibliográfica será "O Assessor". O livro de estreia de Gonçalo Zarcão, o autor que, este sábado, saltou da cabeça de Mário Santos directamente para o mundo das celebridades literárias. Trata-se de uma edição de "O Princípio do Contraditório" e custa 9,99 euros. Nem mais nem menos.

Um excerto:
"um assessor com as vacinas em dia, devidamente atrelado, é o melhor amigo do seu dono. (...) Assessorar é, mais do que uma profissão, um estado de espírito, uma vocação. E é assim que se pode ser ministro ou mesmo administrador de empresas de comunicação social sem que, por isso, se deixe de ser assessor, um serviçal." (p. 31).

24.10.04

O silêncio é de ouro # 159


Um álbum como «Turn on the bright lights» não pode acontecer duas vezes no percurso de uma banda. São milagres irrepetíveis. Mas o último dos Interpol, «Antics», sem igualar esse disco arrebatador, é ainda assim um entusiasmante, comovente e viciante conjunto de canções. E alberga uma canção deslumbrante, a melhor canção do ano, «Take you on a long cruise». Menos denso, menos espesso, menos negro, menos urgente que «Turn on the bright lights», os Interpol deixam agora as canções respirar, e a mistura final faz os sons distanciarem-se uns dos outros e ganharem em nitidez (a masterização puxa pelos agudos mais que no primeiro álbum). Ainda por cima, as letras dos Interpol estão muitos furos acima das letras de outras bandas apostadas em redescobrir o rock dos anos 70 e 80 (exemplo: «If time is my vessel, then learning to love/ might be my way back to sea», de «Public Pervert»). É claro que voltam a evocar os fantasmas de algumas das melhores bandas de guitarras dos anos 80: Joy Division, Chameleons, Echo & The Bunnyman, U2, Psychedelic Furs, The Cure e até Smiths (embora menos que no álbum anterior, onde «Say Hello to the Angels» tinha o mesmo riff de guitarra de «This Charming Man»). Mas se há uma coisa que já tivemos a hipótese de verificar é que a cultura popular é uma eterna reciclagem ou reinvenção do passado recente (se quisermos, essa é a lógica do pensamento humano). A questão está, como sempre esteve, em criar algo de novo e original a partir do «velho», ou da tradição, ao invés de criar apenas velharia prematura. Só não percebo é como é que alguns críticos musicais portugueses acusam os Interpol de pilhagem (como se fez no Blitz), mas aplaudem depois os Loto, que pilham descaradamente os New Order (mesmo que o façam muito bem) ou o insuportável Gomo, que pilha mil e um registos e tendências da música anglo-saxónica, numa salgalhada monumental e sem gosto, não se poupando sequer o «cantor» na imitação de sotaques e trejeitos da língua inglesa, qualquer coisa entre um adolescente tardio e excitado e um Beck de província que não soubesse onde põe os pés. Vá-se lá perceber esta malta.

22.10.04

O Povo é Sereno #175



A ORDEM DOS FACTORES

Fiquei parvo! Pensei a dada altura que estava a ouvir mal ou a perceber mal ou que estava com os copos. Apesar de não beber nada - excepto lá de vez em quando um tinto do Reguengo, um branco de Borba, um anis de Badajoz, um conhaque de Sevilha...
Mas vocês já perceberam: pensei que estava a ficar um pouco xoné ou então que por uma brusca mutação me transformara naquela personagem do Bradbury que tem o coração à direita e o fígado à esquerda por ser um habitante do outro lado do espelho.
Senão vejamos: ouvi com estas que a terra há-de comer o senhor doutor Souto Moura, que está procurador-geral da República, afirmar em plena reportagem televisiva que neste doce Portugal o sistema judicial é influenciado pelo facto de um fulano ser rico ou ser pobre... E que um tipo tem um determinado tratamento consoante seja uma truta ou um vulgar jaquinzinho...
Dir-me-ão: frase equilibrada, serena e justa - pois toda a gente sabe que isto é absolutamente verdade. Mas ser dita por um membro da magistratura, de tal modo importante! Isso é que fez tremer de excitação um inocente ingénuo como eu...
Mas o melhor ainda estava para vir!
Logo a seguir uns senhores que em geral estão do outro lado da barricada - vulgo causídicos - vieram dizer que não senhor, que cá na pátria toda a gente tem o mesmo tratamento, que aquilo de se supor que o dito sistema é um coio de discriminação e de corrupção ética até bradava aos céus...
Um deles, candidato a bastonário ou coisa que o valha - não sou um "expert" destes territórios - foi quase sublime: que o sistema é uma beleza, que no portugalinho a Justiça funciona... etc. e tal.
Ou seja: um dos da digna Confraria afirma que a confraria mete água. E os que deviam saber e talvez referir que a Confraria digna mete água - que não senhor, que está sequinha como o albornoz de um tuaregue...
Já não percebo nada disto... Por este andar qualquer dia, por exemplo, vem um carteirista afirmar que é uma vergonha roubar-se tanto nas ruas das grandes cidades e, a seguir, um polícia chega e põe-se a bradar que não senhor, que se rouba pouquíssimo, que a nível de roubalheira se é muito comedido e tudo funciona optimamente...
Ai, que a ordem dos factores é cada vez mais arbitrária!


Nicolau Saião

O Silêncio É de Ouro #158



The Auteurs, um dos pseudónimos do prolífico e genial Luke Haines, editaram em 1993 o disco de estreia "New Wave" (Hut/Caroline), desde logo um disco maior na história da pop britânica.

Post Scriptum #393

Era uma vez um gato que tinha um homem guardado dentro de uma caixa de sapatos. Quando o gato partia à aventura pelos telhados, o homem vingava a sua ansiedade em alpista e frutos secos. Um dia, o gato deixou a caixa aberta e o homem fugiu para sempre. Escravo da sua (in)dependência, o pobre humano lembrava-se todas as noites do sabor das cascas de pinhão, do som da pele a roçar no cartão prensado, dos pêlos do gato. É isto a saudade.

Mais um excelente texto de Miguel Cardina.

Já agora, e só para concluir, a curiosidade matou o gato.

Ilha dos Amores #105



Pormenor na Rua de Sampaio Bruno, Porto.
Fotografia de Francisco Costa.

Post Scriptum #392

Rimbaud nasceu esta semana há 150 anos.


Rimbaud, por Sidney Nolan.

CIDADE
Arthur Rimbaud

Eu sou um cidadão efémero e mediocremente satisfeito com uma metrópole supostamente moderna porque todo o gosto antigo foi apagado no mobiliário e nas fachadas das casas, assim como no plano da cidade. não descortinaríeis aqui os sinais de qualquer monumento de superstição. A moral e a linguagem reduzidas à sua mais simples expressão!, até que enfim. Estes milhões de pessoas, que não têm necessidade de saber quem são, conduzem tão identicamente a educação, o trabalho e a velhice, que esta forma de vida deve ser várias vezes menos longa do que a que uma estatística louca aponta para os povos do continente. É assim que, da minha janela, vejo novos espectros deslizando através da eterna e espessa fumarada de carvão - o nosso sombreado das matas, a nossa noite de estio! -, vejo novas Euménides diante do meu pavilhão que é a minha pátria e todo o meu bem, pois que aqui tudo é parecido com tudo -, e vejo a Morte que não chora, nossa filha diligente e prestável, e um Amor desesperado, e um Crime interessante ganindo na rua lamacenta.

Tradução de Maria Gabriela Llansol.

O Povo é Sereno #174



UM LONGO E DURO OLHAR

Há um filme, espécie de bíblia do mundo dos "gangsters" a sério, que a certa altura nos dá uma cena crucial. Já lá vou, mas convirá referir que nessa fita ("Dillinger") o papel principal é sustentado por um Warren Oates superlativo - esse mesmo, o do "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia" do nosso colega "Bloody Sam" Peckimpah.
A talhe de foice eu aconselhava o seu visionamento a deputados, juízes e secretários de Estado e juro pelas alminhas santas que estou de boa-fé. Porque ficariam esclarecidos sobre o que é que um arquétipo dos "enragés", dos "gangsters" honrados (ou seja, todos nós, às tantas, numa sociedade torpe como a que temos) pensava sobre as suas profissões de risco. Mas adiante...
E a cena é esta: estando o Dillinger - na clandestinidade - num café a tomar uma refeição com a amada calha de ser topado, inteiramente por acaso, pelo Ben Johnson que faz de chefe detective e perseguidor-mor. Cavalheirescamente este entende que ali e no momento se está em território neutro e deve haver contemplação. Por isso, depois de uns minutos de umas estocadas de conversa, estende a mão nobremente ao seu adversário - que pura e simplesmente não lha aperta e o olha de maneira que demonstra que a vida para ele não é uma comédia de cavalheiros...
Este episódio cinematográfico ocorreu-me ao meditar nas recentes esgrimas entre o estimável professor Marcelo e a ainda mais estimável confraria de ministros e outros jovens que lhe querem dar o pontapé pl'a escada acima (como se dizia no tempo em que o paizinho do brilhante comunicador era do staff do regime de Salazar).
Porque, vejamos, censura tem havido sempre na nossa saborosa democracia - para os não pertencentes ao jet set (um pouco rasca, convenhamos) de que o professor é um brilhante e quase genial ornamento. Ainda há pouco tempo eu referi o que despudoradamente se está a tentar fazer a um radialista da RDP e podia aqui revelar-vos muitos outros casos de censura de que tenho conhecimento.
Este fungagá em torno do bravo Marcelo cheira-me a zaragata inter pares, a bulha entre gente "da panelinha" como dizia o Eça que o nosso professor, pondo-se estrategicamente à parte, há dias numa apresentação livresca atirou sobre os rivais.
Meus manos: atiremos nós a esta gente, com a dose quanto baste de altivez, um longo e duro olhar.
E mai'nada!...


Nicolau Saião

21.10.04

O Povo É Sereno #173

Já ouviu falar do Tribunal Mundial sobre o Iraque? Ora informe-se. Não perde nada. Muito pelo contrário.

O Silêncio É de Ouro #157



Em tempos pré-eleitorais, dois dos inúmeros olhares sobre a América que a música popular produziu ao longo da sua história: "Born in the USA" (Columbia, 1984), de Bruce Springsteen, e "Gold" (Universal, 2001), de Ryan Adams.

Umbigo #94

RECEITA PARA MELHORAR POSTS

Material e metodologia

O post é extraído do blogue e imerso imediatamente numa solução de paraformaldeído. Após uma hora, as frases menos interessantes são dissecadas e prossegue-se com a fixação do post na mesma solução durante três dias. No fim desse período, juntam-se-lhe algumas frases e versos célebres de autores clássicos. O post é então polido através de lavagens repetidas com metanol e, por fim, imerso em hexametildisilazano e seco ao ar.
O resultado pode ser visto na imagem em baixo.

Post It #214



Ainda a propósito dos 150 anos do nascimento de Rimbaud, é absolutamente imprescindível uma visita ao sítio oficial das comemorações. Um exemplo maior das possibilidades que a internet oferece em favor da arte.

Post Scriptum #391

Rimbaud nasceu há 150 anos. Para assinalar a efeméride, o Quartzo, Feldspato & Mica publica, num quase rigoroso exclusivo, o manuscrito de "Le Bon Disciple", poema de Verlaine dedicado ao companheiro de venturas e desventuras.





LE BON DISCIPLE

Je suis élu, je suis damné!
Un grand souffle inconnu m'entoure.
Ô terreur! Parce, Domine!

Quel Ange dur ainsi me bourre
Entre les épaules tandis
Que je m'envole aux Paradis?

Fièvre adorablement maligne,
Bon délire, benoit effroi!
Je suis martyr et je suis roi,
Faucon je plane et je meurs cygne!

Toi le Jaloux qui m'as fait signe,
Oui me voici, voici tout moi!
Vers toi je rampe encore indigne!
- Monte sur mes reins, et trépigne!

Mai 1872

Señor Tallon #84

Ontem, por volta das 21h00, o resultado final era já mais do que previsível. Felizmente, as noites europeias oferecem outras alternativas a portistas decepcionados. Por exemplo, um excelente encontro entre italianos e um letão.

20.10.04

Ilha dos Amores #104



Eugène Atget, Corsets/379, c. 1912.

Umbigo #93


Cortei o post em dois para criar espaço para outra coisa qualquer mais dócil. Certos leitores apreciam posts irrepreensíveis e perfeitamente lapidados. Mas eu não.


Por isso, e por prazer, cortei-o ao meio. Delicio-me de forma consciente com a confusão e simetria e outros assuntos pérfidos.

Cimbalino Curto #117

O portuense é amoral. Aos nossos olhos, o Papua também o é... A cultura de uma cidade pode ser avaliada através do asseio das paredes das suas casas de banho públicas. No portuense isto é um fenómeno natural: o seu primeiro instinto artístico é o de escrever símbolos e ditos eróticos nas paredes. Mas o que é natural no portuense e no papua corresponde a um sintoma de degeneração no cidadão moderno.

Adolf Loos, "Ornament and Crime", Cambridge, MIT Press, 1997, pp. 19-20.
A tradução é minha.

Umbigo #92

No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho./ E um post torto tropeçou na pedra/ na pedra um post torto tropeçou./ Post torto aos tombos por dentro de mim/ por dentro de mim aos tombos o post torto andou./ E por causa da pedra partiu a perna/ e por causa da perna assim ficou:/ post torto caído dentro de mim./ Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ tinha uma pedra/ maldita pedra no meio do caminho.

Post Scriptum #390



Ó SOL imaginado da justiça * e tu mirto das glórias

por favor vos peço não * esqueçais a minha terra!


(...)



Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí).
Tradução de Manuel Resende.

19.10.04

O Povo é Sereno #172



Em 2002, o poeta mexicano Sergio Witz Rodríguez publicou numa revista local ("Critérios", nº 44) um poema intitulado "La Patria entre Mierda". O poema foi considerado por alguns responsáveis mexicanos um "ultraje às insígnias nacionais", desencadeando um aceso debate em torno do direito à liberdade de expressão. Dois anos e muita polémica depois, o Supremo Tribunal de Justiça do México estuda a possibilidade de sujeitar Rodríguez a um processo judicial. O autor incorre numa pena de 6 meses a 4 anos de prisão.
Eis o poema.

INVITACIÓN
(La patria entre mierda)

Yo
me seco el orín en la bandera
de mi país,
ese trapo
sobre el que se acuestan
los perros
y que nada representa,
salvo tres colores
y un águila
que me producen
un vómito nacionalista
o tal vez un verso
lopezvelardiano
de cuya influencia estoy lejos,
yo, natural de esta tierra,
me limpio el culo
con la bandera
y los invito a hacer lo mismo:
verán a la patria
entre la mierda
de un poeta.

Umbigo #91

Não tenho qualquer pudor em acusar a morte de incompetência, negligência, irresponsabilidade, etc. De facto, apesar dos seus deploráveis esforços para transmitir uma imagem de respeitabilidade, a morte é incompetente. Até posso tolerar muitas coisas à morte, mas creio que me assiste o direito de lhe exigir que, pelo menos, imponha alguma disciplina aos seus fantasmas. Há várias noites que um deles não me deixa dormir, trepando pela fachada do prédio e batendo insistentemente à janela com as suas horríveis historietas desafinadas. Já tentei explicar-lhe que devia ter mais consideração por quem trabalha. Mas nada feito. A morte manifestamente não tem pulso para controlar estas extravagâncias. Estando as coisas neste pé, só me resta uma saída.

Post Scriptum #389



Bulat Okudjava
(Rússia, 1924-1997)

VAI ACONTECER

Isto vai acontecer, vai acontecer,
não há maneira de o evitar:
os pássaros gritarão por cima da cidade,
orquestras tocarão,
o ar ficará mais límpido,
o troar do canhão será esquecido,
e o exército da fronteira
marchará para casa a cantar.
Isto vai acontecer, vai acontecer -
estou convencido de que fundirão as armaduras...
Não te esqueças de aprender a lição
deste dia necessário!

Tradução de Manuel de Seabra.

18.10.04

Señor Tallon #83

Bela metáfora.

Post It #213

Dozens of pirate copies of the new book by Colombian writer Gabriel Garcia Marquez are being sold in Bogota before the novel's release, publishers say.

Post It #212



Um dos melhores suplementos literários que se editam na Europa, o "Babélia", do diário espanhol "El Pais", regressou ao "canal aberto". Provavelmente, trata-se apenas de um bónus temporário. Mas de qualquer maneira, vale a pena aproveitar. O último número oferece um amplo dossier dedicado às literaturas árabes, tema da Feira do Livro de Frankfurt deste ano. Por aqui.

Post Scriptum #388

Post Scriptum #387



POEMA VII DO CAPÍTULO "A PAIXÃO".
Odysséas Elytis

VIERAM
vestidos de "amigos"
incontáveis vezes os meus inimigos,
pisando o chão antiquíssimo.
E o chão nunca se deu com os seus calcanhares.
Trouxeram
o Sábio, o Colonizador e o Geómetra,
livros de letras e números,
toda a submissão e toda a potência,
sujeitando a luz antiquíssima.
E a luz nunca se deu com os seus lares.
Nenhuma abelha se deixou nunca levar a começar o jogo do ouro;
nenhum zéfiro, a enfunar brancos panos.
Erigiram e fundaram
nos cumes, nos vales, nos portos,
torres poderosas e moradias,
madeiros e outros navios,
as Leis, as que prescrevem as riquezas e os interesses,
aplicaram-nas segundo a regra antiquíssima.
E a regra nunca se deu com o seu pensamento.
Nunca sequer rasto de deus deixou marcas nas suas almas;
nunca sequer um olhar de fada fez menção de lhes tirar palavra.
Chegaram
vestidos de "amigos"
incontáveis vezes os meus inimigos,
ofertando dádivas antiquíssimas.
E as suas dádivas mais não eram
que ferro e fogo.
Entre os dedos abertos que esperavam
apenas armas e ferro e fogo.
Só armas e ferro e fogo.


Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí).
Tradução de Manuel Resende.

17.10.04

Notas soltas #8 - Leituras

Em Março de 1851, Le Messager de l'Assemblée publica o célebre ensaio Du vin et du haschisch considérés comme moyens de multiplication de l'individualité, que virá mais tarde a constituir a primeira parte de Les Paradis Artificiels. O texto, como o título indicia, trata dos efeitos daquelas drogas no ser humano naquilo que possuem de comum ("o desenvolvimento poético excessivo do homem"), tanto quanto o que têm de diverso ("O vinho exalta a vontade, o haxixe aniquila-a.").
Nos três primeiros capítulos do ensaio, dedicados aos efeitos do álcool, o autor exemplifica os efeitos dessa substância com pequenos episódios quotidianos nos quais a ingestão de álcool se revelou particularmente determinante para o curso da narrativa. Temos, por exemplo, o episódio do tocador de viola que acompanhava Paganini, que face à separação ocorrida entre os dois incita um marmorista fazedor de sepulturas a acompanhá-lo em palco, ao violino, porém sob efeito de álcool: "É impossível exprimir o género de sons que saiu do violino embriagado; Baco em delírio a talhar pedra com uma serra").
Na segunda parte do ensaio, mais extensa, constituída por quatro capítulos, ocupa-se o nosso poeta em discorrer sobre a composição do haxixe ("uma decocção do cânhamo indiano, de manteiga e de uma pequena quantidade de ópio"), a sua utilização ("é preciso dilui-lo em café muito quente, e tomá-lo em jejum"), bem como os seus efeitos: Numa primeira fase provocando "um sentimento muito acentuado das circunstâncias e do ambiente" e "uma certa hilaridade absurda e irresistível"; numa segunda fase "uma sensação de frescura nas extremidades (...); fica-se, como se costuma dizer, com mãos de manteiga, a cabeça pesada" e "as alucinações começam"; e, finalmente, numa terceira fase, "uma beatitude calma e imóvel"; acorda-se no dia seguinte com "uma grande moleza, que não é destituída de encanto".
A curiosidade do texto, porém, consiste em assistir à defesa franca que Baudelaire faz dos efeitos do álcool ("Nada é comparável à alegria do homem que bebe, excepto a alegria do vinho em ser bebido"), incitando ao seu consumo ("Um homem que só bebe água tem um segredo a esconder dos seus semelhantes"), e relativizando os seus perigos ("Confesso que perante os benefícios não tenho coragem de contar os malefícios"), tudo isto em detrimento do uso do haxixe que Baudelaire implicitamente critica ("Jamais um Estado sensato poderia subsistir com o uso do haxixe. É uma coisa que não produz nem guerreiros nem cidadãos"), embora se saiba que na procura dos limites da criatividade que caracterizava a boémia Parisiense daquela época, o poeta fez parte juntamente com Théophile Gautier (1811-72) do "Club des Haschischins" (Clube dos Comedores de Haxixe) que se reunia no hotel Pimodan, hoje hotel de Lauzun, pelo menos desde Maio de 1842.
Talvez pela natureza da publicação onde o artigo saiu, quem sabe se pela imperiosa necessidade de realizar dinheiro para a sua subsistência de boémio, desta vez apanhamos Baudelaire a mentir...

Notas soltas #7 - Leituras

Em Janeiro de 1847, com 26 anos de idade, Baudelaire publica a novela La Fanfarlo, no primeiro número do Bulletin de la Société des Gens de Lettres, construída num estilo narrativo próximo do de Balzac e onde a personagem principal masculina, Samuel Cramer, tem sido lido pela crítica como esboçando traços autobiográficos do poeta. Isso mesmo parece o autor querer confirmar ao escrever "Alguns leitores escrupulosos e amadores da verdade verosímil poderão talvez encontrar muitos defeitos nesta história, apesar de eu me ter limitado a trocar os nomes" (p.42).
É de facto relativamente fácil enumerar pontos em comum entre o que sabemos de Baudelaire e a caracterização que este faz, enquanto autor, de Samuel Cramer: A infância em Lyon, a elegância no vestir, uma inclinação natural pelos excessos, as dívidas que ambos acumularam, a acérrima defesa pelas suas preferências culturais, o valor inegociável que atribuí a uma amizade, o afecto pela figura materna, a colecção de casos amorosos, estes exemplos bastariam para tornar mais forte a possibilidade dessa hipótese poder ser algo mais do que uma improvável coincidência. E seria revelador que assim fosse, pelo menos tanto quanto essa outra hipótese de a relação de Samuel com Fanfarlo poder ter sido inspirada na tumultuosa relação do poeta com Jeanne Duval, a actriz mulata com quem o poeta se relacionou durante anos.
Quanto à primeira, a ser verdade, transformar-se-ia a personagem de Samuel mais do que num retrato do poeta, numa desarmante confissão: Logo nas primeiras páginas, Cramer é descrito pelo narrador com um rol de atributos de fraqueza, alguns dos quais por vezes atribuídos aos flanêurs: "um grande preguiçoso, um triste, e um ilustre infeliz" (p.11), "o homem das belas obras falhadas - criatura doente e excêntrica" (p.12), "o deus da impotência" (p.12), "natureza tenebrosa, a que fugidias iluminações vêm dar cor" (p.12), "falta de vergonha" (p.13), "um pouco malandrim - fingidor por temperamento" (p.14).
Paradoxalmente - afinal, também uma característica da complexidade de Cramer/Baudelaire - , Samuel é tido como inocente, meigo, nobre e puro de carácter, o que, porém, não o coíbe de iludir a confiança da aristocrática Sra. de Cosmelly, que reencontra num passeio pelos jardins do Luxemburgo, apelando à memória de uma juventude comum na província, fazendo uso de uma prédica poética de lugares-comuns num estilo romântico ultrapassado que Baudelaire repudia mas, sob a máscara de Cramer, não se coíbe de utilizar ("uma torrente de poesia romântica e banal", p.42).
Já a segunda das hipóteses, a ser correcta, é muito mais cruel: a de Fanfarlo, caracterizada pelo autor como "uma dançarina, tão estúpida quanto bela" (p.38), ter sido inspirada na "actriz de teatro" (p.38) de "carnação amulatada" (p.50) Jeanne Duval, companheira de Baudelaire durante 10 anos ("Ela, pelo seu lado, torna-se, cada dia que passa, mais gorda; tornou-se uma belezona, anafada, limpa, lustrosa e matreira, uma espécie de puta fina ministerial", p.66). Será caso para perguntar como terá Jeanne recebido esta pequena novela...
Por fim, e não querendo levar o exercício do paralelismo entre personagens e a vida de Baudelaire longe demais, reconheça-se ainda a possibilidade de Madame Sabatier, poder ter assistido a inspiração do autor na construção da personagem da Sra. de Cosmelly. ("Os seus traços, apesar de amadurecidos e empapados por alguns anos de prática, mantinham a graça profunda e decente da mulher honesta; no fundo do seu olhar brilhava ainda com intermitência o devaneio húmido da adolescente", p.17).
À Sra. de Cosmelly ("a casta esposa", p.40) irá caber a astúcia do enredo. Aparentemente embalada na poética calculista de Samuel, aceita recompensá-lo com "os restos do coração que o pérfido não quis levar" (p.44), em troca do provocado envolvimento de Cramer com a amante do esposo, a sua rival Fanfarlo, com o intuito de levar a actrizita a deixar de frequentar o seu marido, para que ela possa, como esposa magnânime e completa, porém sem a "arte do vício" (p.38), recebê-lo de novo e perdoar-lhe os desejos estouvados que o haviam levado de si ("Por que é que entre duas belezas iguais, os homens preferem, as mais das vezes, a flor que todos já respiraram, em vez da que se escondeu dos olhares dos passeantes, nas alas mais obscuras do jardim conjugal?", p.39).
O desenlace moral com que a novela nos surpreende - que nos é proporcionado pela astuta Sra. de Cosmelly tanto quanto pelo destino de tédio que está reservado a Samuel - , torna esta novela de uma perspicácia intemporal e uma aliciante leitura.

15.10.04

O Povo É Sereno #171

Eleições nos EUA. Aqui.

O Silêncio é de Ouro #156



Hoje, no Rivoli, a partir das 22h00. Mais um espectáculo integrado no XIV Festival de Jazz do Porto a não perder. Uma excelente oportunidade para ouvir ao vivo um dos grandes saxofonistas da actualidade, Lee Konitz. Antigo colaborador de Miles Davis, Warne Marsh e Lennie Tristano, Lee Konitz é o autor de discos como "Duets", um dos grandes clássicos do jazz dos anos 60. Nos últimos anos, venceu o Jazzpar Price (1992) e compôs uma peça de música clássica "French Impressionist Music From Turn of the Twentieth Century". Para aperitivo, sugiro a audição de "Lee Konitz Live at The Half Note", gravado em Agosto de 1994 e editado pela Verve.

Raul Silva

O Silêncio É de Ouro #155



"At-Tambur" (Tradisom, 2003), disco de estreia do grupo português homónimo e uma das mais recentes revelações no segmento da música tradicional. Além disso, o respectivo sítio na Internet é um exemplo de serviço público em favor da divulgação das músicas do mundo.

Ilha dos Amores #103



A época de Natal deste ano vai ser diferente em Serralves, com mulheres carnudas, adultos em forma de criança e animais domésticos a conviver numa estranha galeria de figuras inocentes e perversas. De hoje até 23 de Janeiro.

Ilha dos Amores #102



Pormenor na Rua Sá da Bandeira, Porto.
Fotografia de Francisco Costa.

Post Scriptum #386



Tomaz Salamun
(Eslovénia, n. 1941)

CANÇÃO POPULAR

Todo o verdadeiro poeta é um monstro.
Destrói pessoas e o seu discurso.
O seu canto eleva uma técnica que arrasa
a terra para que não sejamos devorados por vermes.
O bêbado vende o seu casaco.
O ladrão vende a sua mulher.
Apenas o poeta vende a sua alma para separá-la
do corpo que ama.

Tradução de Pedro Amaral, a partir da versão inglesa de Charles Simic, disponível aqui.


De Tomaz Salamun estão publicados alguns poemas em português, incluídos na antologia "Nove Poetas Eslovenos Contemporâneos", editada pela Slovene Writers Association (Associação dos Escritores Eslovenos), com sede em Liubliana. O livro pode ser solicitado através do mail litcenter@mail.ljudmila.org. Além de Salamun, esta antologia inclui poemas de Uros Zupan, Dane Zejc, Svetlana Makarovic, Brane Mozetic, Boris Novak, Veno Taufer, Ales Debeljak e Kajetan Kovic. Do corpo de tradutores faz parte o português Casimiro de Brito.

14.10.04

Post Scriptum #385

Umbigo #90



O meu reino não é deste mundo. Cada vez tenho menos regras. Apenas tento manter a aparência de cidadão respeitável, frequentador de cafés, leitor de jornais. Apenas me sinto mais livre. Espontâneo na floresta. Espontâneo na fronteira. E trabalhar dois dias por semana, como Pessoa. O resto do tempo para pensar, criar, partir a loiça. Viver intensamente o instante. Como Mário, divino Mário de Sá-Carneiro em Paris. E deitar a obra aos abutres, ao fogo.
E recolocar os óculos para manter um ar respeitável, intelectual. E escrever. Masturbar a caneta na folha. Orgasmo. Orgasmo. Liberdade. Lábios. Baton rouge. Amo as putas sinceras a mascar chiclete. Até amo a cidade burguesa, coquete. É a minha cidade, apesar das pontes aéreas do Mesquita Machado e das estátuas do Cónego. Amo-a e morro afogado em café, em croft. Mário. Divino Mário. Tantos anos. Mesa de café a escrever versos. E continuam a não compreender-te. Fazem-te homenagens, colóquios, antologias, mas tu estavas para além, "um pouco mais de sol", dizias. Divino Mário. Braga, Paris, a mesma cidade. E eu possesso pela caneta azul, a ganhar ao copo, sem euros nem tostões.
Retiro os óculos e o mundo pára.
E as gentes continuam a entrar pela porta da "Brasileira". Como se a resolução dos problemas da Humanidade estivesse aqui. E o relógio é o mesmo. E o balcão é o mesmo. Os vidros são os mesmos. As conversas são as mesmas. E é tempo de sair. E, por momentos, julgo-me um deus porque penso que criei um mundo. E a rua do Souto é a mesma.


António Pedro Ribeiro.

O Silêncio é de Ouro #154



Para quem souber exprimir poderosa e ingenuamente a música dos diversos povos, e para quem souber escutar como convém, não será necessário dar a volta ao mundo, visitar as diferentes nações, entrar nos seus monumentos, ler os seus livros e percorrer as suas estepes, as suas montanhas, os seus jardins ou os seus desertos. Um canto judeu bem entoado faz-nos penetrar na sinagoga; numa verdadeira ária escocesa está toda a Escócia, assim como numa verdadeira ária espanhola, está toda a Espanha. Desta forma, estive muitas vezes na Polónia, na Alemanha, em Nápoles, na Irlanda, na Índia, e conheço melhor esses homens e essas regiões do que se os tivesse estudado durante anos.

George Sand, Consuelo.

Post Scriptum #384



ANDORINHA há só uma * e a Primavera é dura

O sol para girar * quer grande escravatura

Precisa que mil mortos * lhe empurrem as Rodas

E quer também que os vivos * lhe dêem sangue a rodos.

(...)



Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí).
Tradução de Manuel Resende.

Umbigo #89



UNS COMEM FIGOS

O edifício era como se esperava que fosse: antigo, histórico, até um pouco imponente. Nunca o havia visto, mas os relatos não mentiam: sempre era a residência do mais poderoso, o mano que põe e dispõe e que tem as rédeas do poder...
Eu conseguira a audiência por cunhas a um tipo de influência no meio, um eclesiástico que me conhecia de pequenino. Tentara com o cacique local mas não me ligara peva: nisto de recomendações os curas são de facto mais fiáveis que um borrabotas político, no fundo novatos nestas andanças. Para ali chegar tivera de pagar o normal em viagens da outra banda, mas tudo bem. Se a vida está cada vez mais cara...
O porteiro e o par de seguranças musculosos, de óculos escuros e que se me jogassem um murro me transformariam em cocó de pássaro - deram-me acesso à Recepção depois de lhes ter mostrado o passe que os serviços respectivos me haviam facultado.
A recepcionista era morena e em estilo pantera, de olhos verdes com um brilhozinho diabólico muito bonito de ver. Era claramente do círculo do manda-chuva, uma das típicas mademoiselles da sua inteira confiança.
- Vamos ver se Sua Excelência o poderá receber mesmo - disse numa voz ligeiramente rouca que me esgalhou um pequeno arrepio - Hoje tem havido mais gente do que o costume... Dois chefes de governo estrangeiros, um dos maiores industriais do leste, um antigo prémio Nobel da Física, dois bispos europeus... Já vê!
Dispus-me a esperar, que remédio. O caraças da sorte, co'os diabos, decerto não me abandonaria e eu poderia apresentar ao excelentíssimo a minha petição! Enquanto raciocinava e o tempo ia passando, vi saírem do salão onde o boss dava audiência um conhecido dirigente desportivo, dois famosos generais, um distinto jornalista, um cardeal e um líder político, além duma "cocotte" do jet set e dois membros do sistema judicial. Todos com uma expressão contente e quase exuberante.
A pantera de olhos verdes, após ter atendido uma chamada interna fez-me sinal com o dedo. Aprocheguei-me. E ela, com o seu tom mais competentemente profissional, disse-me naquela voz sugestiva:
- Lamento, mas comunicaram-me que Sua Excelência vai estar muito ocupado no resto do dia... e se calhar até de noite. Irá ainda receber dois membros duma potência ocidental, um núncio apostólico, quatro dirigentes muçulmanos, um cineasta célebre, dois empresários de sucesso, três jogadores de futebol e o dono de uma cadeia de televisão, além das presenças normais. Terá de vir noutro dia!
Trinta vezes caneco! Que pouca sorte! Lá teria de fazer a viagenzona de novo, repetir tudo! Nem a cunha dum homem da Igreja bastara, raios!
Não seria inda hoje que poderia avistar-me e tratar do assunto que precisava com Lucifugo Rafacale, dirigente máximo da coisa e mais conhecido pelo seu nome secular de Senhor Satanás...
Arre!


Nicolau Saião

13.10.04

O Povo é Sereno #170

"Se os socialistas começam a ser aqueles que fazem a mesma política, embora um bocadinho mais humanizada, que faz a direita, vão-se criar outros partidos necessariamente, porque as pessoas não aceitam voltar para trás". O homem que disse isto foi o mesmo que um dia "meteu o socialismo na gaveta", assinou um acordo com o Fundo Monetário Internacional, fez do pragmatismo governativo uma ideologia (naquilo que não foi mais do que uma espécie de "terceira via" "avant la lettre") e foi tão mal sucedido, mas mesmo tão mal sucedido, a governar em conjunto com um partido da "direita", o PSD, e naturalmente a realizar "a mesma política da direita", e nem sequer "mais humanizada" (que o digam os trabalhadores de Setúbal que tinham salários em atraso), que até assistiu à criação de "outro partido", o PRD, que, logo nas primeiras eleições em que participou, em1985, e porque as pessoas "não aceitaram voltar para trás", roubou tanto, mas tanto, eleitorado ao PS, que o fez descer para vinte por cento, naquele que é ainda hoje o seu pior resultado eleitoral de sempre. Realmente o homem que disse isto chama-se Mário Soares. E pode falar de cátedra. . .

O Silêncio é de Ouro #153



Prossegue amanhã, 14 de Outubro, o programa do XIV Festival de Jazz do Porto, com a actuação de dois agrupamentos portugueses. Na primeira parte apresentam-se os portuenses DEP, cuja música, segundo o texto do programa, "viaja por linhas melódicas e faz descomplexadas incursões pelos blues e pelo rock". O seu espectáculo centrar-se-á nos temas incluídos no seu álbum de estreia: "Esquece tudo o que aprendeste", editado no final de 2003.
Na segunda parte, actua o quinteto de Nuno Ferreira, que apresentará, em primeira audição, uma obra original encomendada pelo Festival de Jazz do Porto. "Com este repertório", diz Nuno Ferreira, "presto homenagem a alguns dos músicos que moldaram o meu imaginário musical, nomeadamente Hermeto Pascoal, Lennie Tristano, Dave Holland e os Beatles."


Raul Silva

O Silêncio É de Ouro #152



Não, não é a capa da banda sonora de um filme sobre a mafia italiana. Trata-se, antes, do excelente álbum de regresso (após um longo interregno na carreira) dos Wire, uma das mais importantes bandas do pós-punk britânco, "A Bell Is a Cup... Until It Is Struck" (Mute, 1988).

O Povo continua sereno.



Capa do Público de ontem, 12 de Outubro.

O Povo É Sereno #169

Quatro mil docentes ainda por colocar no norte do país, dos quais metade no primeiro ciclo. 52 mil alunos sem aulas no centro. Tal é o balanço feito pelos sindicatos sobre o momento actual da educação neste país, escassas semanas após a publicação das tão faladas listas de colocação que se julgava virem resolver problemas como estes. Afinal, a incompetência do Ministério continua a fazer estragos gravíssimos na actual geração de crianças e a ministra não desarma da tese ridícula de que professores por colocar só mortos ou doentes. Faz algum sentido?

Post Scriptum #383



Delacroix escreve sobre Chopin:

Durante o dia, falou-me de música e isso animou-me. Perguntei-lhe o que era que estabelecia a lógica em música. Fez-me sentir o que é a harmonia e o contraponto; como a fuga é a lógica pura em música, e que compreender a arte da fuga é conhecer o elemento de toda a razão e de toda a consequência em música. Pensei em como gostaria de me instruir em tudo isto que aflige os músicos vulgares, e este sentimento deu-me uma ideia do prazer que os sábios, dignos de o serem, encontram na ciência. É que a verdadeira ciência não é aquilo que se entende vulgarmente por essa palavra, ou seja, uma parte do conhecimento diferente da arte. Não, a ciência assim concebida, demonstrada por um homem como Chopin, é a própria arte e, em contrapartida, a arte deixa então de ser aquilo que se considera vulgarmente, ou seja, uma espécie de inspiração que vem de não sei onde, que caminha ao acaso, e não apresenta senão o exterior pitoresco das coisas, para se tornar a própria razão iluminada pelo génio, mas seguindo um caminho necessário e contido por leis superiores.

Citado em "Chopin", de Jean-Jacques Eigeldinger, ed. CCB/ Público, 2004.

Umbigo #88 (ainda a propósito das palavras de Delacroix).

De facto, séculos e séculos de história e nada mudou. De um lado, os artistas que caminham em cima de andas, exibindo o seu irresistível nariz falso, com exuberante fogo de artifício no rabo e brilhantes filigranas pendendo de tudo quanto é lado - ah, mas que efeito extraordinário! Porque acreditam que simplicidade é sinónimo de banalidade. Porque acreditam que excesso é sinónimo de genialidade.
E do outro, os artistas que procuram a beleza na simplicidade, que querem ser claros, que usam palavras simples, despidas, que não perdem de vista a transparência, digamos, matemática da realidade.
E, ao longo de toda esta história, quem demonstrou ter mais tomates?

Post Scriptum #382

(...)
- O que é o bem? O que é o mal?/ - Um ponto Um ponto/ e sobre ele tu que te equilibras e existes/ e para lá desse ponto desordem e trevas/ e para cá desse ponto ranger de dentes de anjos
(...)

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí).
Tradução de Manuel Resende.

12.10.04

O Povo É Sereno #168

George W. Bush estava ainda há duas semanas com uma larga vantagem em todos os estudos sobre as intenções de voto dos americanos, mas, a partir do primeiro debate televisivo, John Kerry foi recuperando e chegou mesmo a conseguir uma inversão das posições, a que muitos já tinham desistido de aspirar. Estas oscilações só provam que nada está garantido e, cá para mim, ainda vamos ter no dia 2 de Novembro uma espécie de empate, muito semelhante ao que já aconteceu em 2000, que pode depois pender ou para um lado ou para o outro, "who knows?", pois nem Nostradamus, se fosse vivo, poderia, em disputa tão cerrada como esta, arriscar uma previsão. Só espero que não venha a suceder de novo a desgraça de vermos um presidente americano ser eleito com menos votos do que o adversário. Era caso para mandarmos o sistema eleitoral americano para as "boxes" e deixá-lo lá a fermentar até que alguém se lembrasse de inventar algo melhor. Já bastou o "jogo-de-cintura" de "Dubya" (dúbio?) Bush há quatro anos. O problema é que este duelo está longe de se resumir ao preto e branco, ao idiota Bush contra o inteligente Kerry, ao "terra-a-terra" do Texas contra o "pedante" do Massachusetts, ao "falcão" que só quer a guerra a todo o transe contra a pomba diplomada e diplomática que prefere restaurar as alianças transatlânticas antes de flagelar os inimigos com ataques cirúrgicos, às cómodas dicotomias com que nos habituámos a olhar para a pugna eleitoral americana deste lado do Atlântico. A questão é que as motivações com que os americanos votam passam-nos muitas vezes a nós, europeus, completamente ao lado. O caso da Virgínia Ocidental, um histórico bastião do Partido Democrático e da esquerda americana, e aquilo em que ela se tornou, dão de facto que pensar e ajudam-nos a concluir que nem tudo o que parece é. Depois de muitas e muitas vezes terem votado em massa no Partido Democrático, em 2000 os eleitores deste estado vizinho dos Montes Apalaches deram a sua preferência ao Partido Republicano. E porquê? Porque, muitos deles operários, entenderam responsabilizar Bill Clinton pelo fracasso da indústria siderúrgica, alvo de sucessivos desmantelamentos e emagrecimentos. Se não tivesse acontecido este "volte-face" num estado tradicionalmente de esquerda - dotado de cinco irrisórios votos eleitorais que, no cômputo geral, teriam feito toda a diferença -, provavelmente há quatro anos a América e o mundo estariam a celebrar uma vitória de Al Gore e não de George W. Bush. Actualmente, não consta que a siderurgia de West Virginia esteja melhor, embora Bush prime por um discurso patriótico como aceno aos descontentes, do género "eu é que vou tratar da saúde à deslocalização", mas há ainda o factor "porte de arma", que nos EUA, como toda a gente sabe (e os espectadores de Michael Moore mais ainda), tem uma força tremenda. E, para desgraça de nós todos, é mais uma vez George W. Bush que parece recolher as preferências do "lobby" dos caçadores, que, pelos vistos, são em grande número naquele território. São estes, pois, os assuntos que no dia 2 de Novembro ainda vão fazer desequilibrar os pratos da balança do planeta: a indústria siderúrgica de West Virginia e a caça aos faisões nos arredores de Charleston. É com isto que se vai eleger o próximo "dono do mundo". Salvo seja...

O Silêncio É de Ouro #151



Mais um par discográfico improvável, desta vez unidos pelo automóvel: Disco Inferno, "Technicolour" (Rough Trade, 1996) e Calexico, "The Black Light" (Quarterstick, 1998).

Post Scriptum #381

(...) O silêncio que arroteei para depositar/ a semente da palavra e os germes dourados dos oráculos/ O cabo da enxada ainda nas mãos/ vi as grandes plantas dos pés curtos, voltando o rosto/ umas uivando outras deitando a língua de fora:/ Eis o espargo eis o funcho/ eis a salsa frisada/ o cravinho e o pelargónio/ a abóbora e a chicória/ As sílabas ocultas com que lutei para soletrar a minha identidade/ "Bravo" disse "e agora que conheces a leitura/ hás-de aprender muitas coisas/ se assimilares o insignificante" (...)

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí).
Tradução de Manuel Resende.

Ilha dos Amores #101



Pormenor na Rua Sá da Bandeira, Porto.
Fotografia de Francisco Costa.