23.6.05

S. João (ou... Don Juan?)



"(...) se é talvez um mistério que o S. João tenha as celebrações que tem no Porto e não noutra cidade portuguesa, já não parece estranho que essas celebrações invoquem ou convoquem tanto a água (cascatas, orvalhadas, banhos, cântaros, fontes, abluções, etc.: curiosamente, até se fala no S. João marinheiro...), ou o fogo (fogueiras, balões, fachos, luminárias, fogos-de-artifício, iluminações...): trata-se sempre de uma semântica da purificação, da renovação, da fecundação (água) ou da destruição e da criação (fogo).
Mas os dois elementos privilegiados não se dissociam dos outros: a terra, que apontam não só as muitas ervas e plantas consumidas pelo S. João (cidreira, manjerico, alho-porro, alecrim, rosmaninho, murta, feto, alcachofra...) mas também as sementes, ou até as subterrâneas mouras encantadas de crenças sãojoaninas, e o ar, indicado em mastros, balões, fogos de artifício, ou em lendas de bruxas e duendes que talvez representem as mulheres e os rapazes travessos.
Festa dos elementos, o S. João é também uma festa dos sentidos e dos instintos: se a vista, limitada pela noite, conhece a ajuda das fogueiras ou das luzes, inclusive das flores; se o gosto é pouco favorecido na obrigatoriedade do anho, do cabrito e da sardinha, e pouco mais, já o ouvido (cantos, ditos, piropos), o tacto (mãos dadas, danças, apertos, toques com a mediação do alho ou do martelo...) e o cheiro (alecrim, rosmaninho, manjerico...) podem exercitar-se dentro de coordenadas e com liberdades desconhecidas ao longo do ano. (...) Quer isto dizer que o S. João é a festa menos religiosa (em sentido estrito) que se conhece. Não é por acaso que em quase todos os lugares dispense - como não dispensa nenhum outro santo - a missa (pelo menos a solene), a procissão, as orações, e até as representações (que só se vêem em cascatas)".

Arnaldo Saraiva. O S. João do Porto. In O Sotaque do Porto.
Porto, Afrontamento, 1996, pp.97-89.

Vamo-nos às cachopas (ou aos cachopos, consoante o caso); tratemos de saltar fogueiras; celebremos o Verão. Os nossos votos de um gaiteiro e fogoso S. João!