30.12.04

O baú do John Silver # 4

Linda Folhinha do Bloco-notas:

E quando se pensava que eu tivesse arriado velas, com uma adriça colocada no coração, eis que me desenfio e, sem me fazer de novas, vou para os lados da fronteira. São tempos de Ano Novo, de uma pausa nos combates: mas o sabre cá continua apetrechado, mormente para apanhar mais coisas giras, capítulo da literatura, aos espanhóis do Corte Inglés. E uns uisques, uns charutitos a caracter no tombadilho. Esqueçamos por uns dias os rapiocadores todos (literatos fadistas, pais da pátria e outros dislates semelhantes), ficando só o velho abraço de quem se sabe enrolado em navegações sempiternas. Com o que, vou-me por ora, deixando um cheiro de bom rum da Jamaica e o ondular da bandeira negra.
Prestes, flibusteiros amigos, me terão de novo à proa.
Fica, Folhinha, o teu A.

Ilha dos Amores # 116



Gilliam Wearing. Help, 1992-93.

Señor Tallon #92


(Imagem retirada de Elsinore)

Festival Internacional de Poesia de Medellín, Festival Internacional de Poesia de Bogotá, Festival Mundial de Poesia Venezuela 2004, Festival Internacional de Poesia do Rio de Janeiro, Festival Internacional de Poesia da Cidade de México, Festival de Poesia de Morelia, Festival Latino-americano de Poesia de Rosario, Festival Internacional de Poesia de Havana, Festival de Poesia Caribenha, Festival Internacional de Poesia de El Salvador, Festival Internacional de Poesia da Costa Rica, Festival de Poesia da Montaña de Jarabacoa, Festival de Montreal, Festival de Poesia SEERJ, Festival de Poesia de Los Ángeles, Festival de Poesia da Catalunha, Festival de Poesia de Granada, Festival Internacional de Poesia de Barcelona, Poetry International Festival Rotterdam, Festival de Poesia de WAAP (Windham Area Poetry Project, WAAP), Internacional de Poesia del Mundo Latino, Festival de Poesía Digital E-Poetry, Encontros de Poesia de Coimbra.
Revistas de poesia, fanzines de poesia, blogues de poesia, jornais com poesia, sessões de poesia, leituras de poesia, performances poéticas.
Consumidores de livros de poesia: muito poucos.

A poesia está a morrer? A poesia está a renascer?

Post Scriptum # 442

AUTOBÚS
Culo contra culo/ el único espejo es el culo/ erupto contra la vida/ el hombre es un asno de circo
(Leopoldo María Panero)

Post It #240

Haverá ainda espaço para alguma originalidade entre os balanços e listas dos melhores não-sei-o-quê-do-ano que se reproduzem por todo o lado? A resposta é um hilariante e redondo sim. O Times acaba de atribuir prémios para as declarações e gaffes mais divertidas de escritores e críticos literários, publicadas durante 2004.

Crucial philosophical problem of the year

"I have trouble keeping silent within me a protest that comes of finding oneself naked, one's sex exposed, stark naked before a cat that looks at you without moving, just to see . . . It is as if I were ashamed, naked in front of this cat, but also ashamed for being ashamed. A reflected shame, the mirror of a shame ashamed of itself, a shame that is at the same time specular, unjustifiable, and unable to be admitted to . . . Before the cat that looks at me naked, would I be ashamed like an animal that no longer has the sense of nudity? Or on the contrary, like a man who retains the sense of his nudity? Who am I therefore? Who is it that I am (following)? Whom should this be asked of if not of the other? And perhaps of the cat itself?"

(Jacques Derrida, extract from a "10-hour address", in "Animal Philosophy: Ethics and Identity")

29.12.04

Umbigo #122

Post Scriptum # 441

RESTAURANTE
(Gottfried Benn)

O sujeito lá do fundo pede mais uma cerveja,
para mim ainda bem, assim não preciso censurar-me
por também sorver uma nessa altura.
Pensa-se logo que se está contaminado,
eu li mesmo numa revista americana
que cada cigarro encurta a vida em trinta e seis minutos,
eu cá não acredito, possivelmente a indústria de coca-cola
ou uma fábrica de pastilha elástica estava por detrás do artigo.

Uma vida normal, uma morte normal
também não é nada. Também uma vida normal
leva a uma morte doente. Sobretudo a morte
não tem nada a ver com a saúde e a doença,
serve-se delas para os seus próprios fins.

O que é que você acha: a morte nada tem a ver com a doença?
Quero dizer: muitos adoecem sem morrer,
portanto aqui há qualquer coisa diferente,
um fragmento de dúvida,
um factor de incerteza,
a morte não está tão claramente delimitada,
também não tem foice,
observa, espreita do canto, refreia-se mesmo
e é musical numa outra melodia.

Tradução de Vasco Graça Moura.

Post Scriptum # 440




Susan Sontag. A polémica intelectual e activista norte-americana morreu, na manhã de ontem, aos 71 anos, num hospital de Nova Iorque.


Uma tarde de Novembro de 1977, no Hotel Londra [em Veneza] (...) recebi um telefonema de Susan Sontag, que estava no Gritti. "Joseph", disse-me ela, "o que é que faz hoje à noite?" "Nada", disse eu. "Porquê?" "Bem. é que encontrei hoje na piazza a Olga Rudge. Você conhece-a?" "Não. É a mulher do Pound, não é?" "É", disse Susan, "e convidou-me para ir lá a casa hoje à noite. Assusta-me um bocado a ideia de ir sozinha. Importa-se de vir comigo, se não tem outros planos?" Eu não os tinha, e disse-lhe que sim, com certeza, tendo percebido muito bem - bem de mais, até - a sua apreensão. A minha, pensei, talvez ainda fosse maior. (...)
A morada indicada ficava no sestiere Salute. (...) Tocámos à campainha, e a primeira coisa que vi, depois de a mulherzinha de olhos como pequenas contas tomar forma na soleira, foi o busto do poeta, obra de Gaudier-Brzeska, poisado no chão da sala. A ofensiva do tédio foi repentina mas irresistível.
Serviram-nos um chá, mas ainda mal tínhamos sorvido o primeiro gole, já a anfitriã - uma senhora grisalha, diminuta, bem-posta, já com muitos anos em cima - ergueu o dedo afilado, que se encaixou numa espiral mental, e brotou-lhe dos lábios franzidos uma ária cuja partitura é do domínio público pelo menos desde 1945. Que Ezra não era fascista; que receavam que os americanos (estranha declaração, na boca de uma americana) o mandassem para a cadeira eléctrica; que ele não sabia nada do que se passava; que não havia alemães em Rapallo; que ele só se deslocava de Rapallo a Roma duas vezes por mês, para o programa de rádio; que os americanos, uma vez mais, estavam enganados quando pensaram que Ezra pretendia... A dada altura deixei de registar o que ela estava a dizer e limitei-me a acenar com a cabeça (...).
O que me despertou do meu alheamento foi o som da voz da Susan, indicando que o disco chegara ao fim. Havia no seu timbre uma sonoridade estranha, e pus-me à escuta. Susan dizia: "Mas a Olga não pensa com certeza que os americanos se zangaram com Ezra por causa dos programas de rádio. Porque, se fossem só os programas, o Ezra seria apenas mais uma Rosa de Tóquio". Pois bem, foi das melhores réplicas que alguma vez me foi dado ouvir. Olhei para Olga. Devo dizer que ela encaixou como uma valente. Ou, melhor ainda, como uma profissional. Ou não terá percebido bem o que Susan disse - mas duvido. "Então o que foi?", perguntou. "Foi o anti-semitismo de Ezra", respondeu Susan, e eu vi a agulha de corindo que era o dedo da velha senhora encaixar de novo na espira. Esta face do disco rezava: "As pessoas t~em que entender que o Ezra não era anti-semita; afinal de contas, chamava-se Ezra; tinha vários amigos judeus, incluindo um almirante veneziano...". A melodia era igualmente conhecida e igualmente longa - cerca de três quartos de hora; mas desta vez era tempo de partirmos. Agradecemos o serão à velha senhora e despedimo-nos.

Joseph Brodsky, Marca de Água.

28.12.04

Post Scriptum # 439



Gottfried Benn
(Alemanha, 1886-1956)

AMEAÇA

Mas sabe-o:
Vivo dias de fera. Sou uma hora de água.
À tarde isto adormece-me as pálpebras como floresta e céu.
O meu amor sabe só poucas palavras:
Tão bem se está junto ao teu sangue.

Tradução de Vasco Graça Moura.

Cimbalino Curto #129

And Now for Something Completely Indifferent.

Depois de [Rui Rio] ter dito que o documento [Orçamento da Câmara do Porto] não trazia "novidade nenhuma", o autarca deu ontem a volta ao discurso, considerando que, afinal, "o orçamento tem uma novidade fantástica", que é a sua "coerência absoluta com o do ano anterior".

O orçamento foi aprovado com os votos favoráveis do PSD e CDS-PP e as abstenções dos deputados da CDU.

Umbigo #120

Diálogo entre duas antologias numa livraria.

ANOS 90 E AGORA: Devias cair da prateleira, sua pretensiosa.
ANOS 80 E DEPOIS: E se fosses levar no epânodo, sua cara de parábola?
ANOS 90 E AGORA: Coitada! Não passa de uma gorda. 700 páginas de banha.
ANOS 80 E DEPOIS: Merecias que te desse uma valente sinestesia, sua epanalepse mal feita.
ANOS 90 E AGORA: E coragem para isso? Voz de metonímia rachada...
ANOS 80 E DEPOIS: Estás a chamar-me cobarde, sua prosopopeia bexigosa?
ANOS 90 E AGORA: Não, que ideia! Era apenas um eufemismo, querida. O que eu realmente quis dizer é que não passas de antonomásia com o anacoluto aos saltos.
ANOS 80 E DEPOIS: Antífrase de meia tigela!
ANOS 90 E AGORA: Litote sem valor perifrástico!
ANOS 80 E DEPOIS: Vai reciclar papel!
ANOS 90 E AGORA: Vai tu!

Ilha dos Amores # 115



Central Park - New York, USA, 1998.
Gérard Castello-Lopes.

27.12.04

Post Scriptum # 438

Ainda o Natal. Um poema de Carlos Drummond de Andrade, enviado pelo Tiago Barbosa Ribeiro.



PAPAI NOEL ÀS AVESSAS

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.


De "Alguma Poesia", 1930.

Mensagem da Gerência.

Toda Raba.

Cimbalino Curto #128

O Centro de Operações Psicológicas da NATO, sediado na cidade do Porto, está de parabéns.

Post It #239

Esta é a única Verdade.

Post Scriptum # 437

Durante a época dos exames, Hemnalini abandonara os trabalhos de costura. Alguns dias depois, recomeçou as lições dos trabalhos de agulha. Ramesh achava esta ocupação absolutamente inútil, porque, se os dois gostavam de discutir literatura, entendendo-se à maravilha neste assunto, quando o miserável trabalho se impunha, sentia-se ele relegado para segundo plano. Um dia perguntou:
- Que fantasia lhe dá para coser todo esse tempo? Deixe isso àquelas que não têm outra coisa para fazer.
Como única resposta, Hemnalini sorriu e enfiou a agulha.
(...)
Ao entrar, uma manhã, no escritório, Ramesh encontrou sobre a mesa uma pasta forrada de cetim, toda bordada de flores. Num canto tinha a letra R, no outro uma flor de loto trabalhada em fio de oiro. Ramesh não teve dificuldade em adivinhar quem tinha feito uma coisa tão bela; o seu coração bateu mais apressado. Todo o seu desprezo pelas agulhas desvaneceu-se num instante.

Rabindranath Tagore, O Naufrágio.
Tradução de Telo de Mascarenhas (Colecção Prémios Nobel/ DN)

25.12.04

O Povo é Sereno # 195

Para encerrar o Natal (em beleza?) leio nos jornais:

"PAPA pede a Cristo que não abandone o Homem

O papa João Paulo II, apesar do seu estado de saúde debilitado, celebrou hoje a tradicional Missa do Galo, e pediu a Cristo que não abandone o Homem, porque a "humanidade marcada por tantas dificuldades" necessita Dele.".

Supor-se Cristo capaz de abandonar o Homem, ficando dependente de um pedido do Papa Woytila - é no mínimo um sentimento blasfemo. Porque Cristo sabe o que faz, não precisa que o Papa da "Opus" lhe solicite a Sua munificência. Cristo está para além destes pedidos sacristas, é a claridade e a bondade lúcida incarnada.
Também tenho algo, humildemente, a pedir-lhe: que ilumine a Igreja que dele se reinvindica.

NS

24.12.04

Armazém & Cantina # 3

E, para que a alegria natalícia seja completa, a última parte de
OS TRÊS DIABOS de Floriano Martins


Quem repassa a droga da alegoria, a metáfora do inferno, a hemorragia figurada? Os poetas merecem o mundo que assimilaram. Quanto mais desfigurado o dilema mais afeito à platéia igualmente adulterada. E todos ficam tão felizes com a maneira aprazível com que tudo funciona como se fosse um carrossel. Não é lindo ver o mundo assim tão unido? ironiza o diabo do estilo. E, tão iludidas, crianças tão boas, crêem que são lidas - remenda com olhar quase patético o diabo inédito. A quem pode agradar o pesar? Tudo o que sentimos é dor. Não entramos no mundo de outra maneira. Do saber, da aflição, da ignorância - tudo é dor. De surdez fulgurante, não ouve senão a si mesma. Jamais saberemos o que lhe dói. Mesmo cansada, a dor apenas dói. Como posso sentir a dor do outro se não identifico a minha? Quem sabe uma excursão? - sugere aquele que quer manter o estilo. Talvez um concurso de ex-votos - arrisca o outro. Já sabemos que vazou identificação, que nada é como o que se supõe. Haverá um terceiro diabo? Um livrinho de três folhas, uma constelação? Nossa obsessão pelo legível nos levou à cegueira total. O que vemos, antes de tudo, é o que percebemos. A vida nos deve tudo. Deus nos deve tudo. O leitor nos deve tudo. A explicação sempre empobreceu o texto.

[Inédito, dezembro de 2004]

23.12.04

O baú do John Silver # 3

Minha Folhinha de Bloco-notas:
É noite e sobre os telhados do meu bungalow ouve-se a algazarra das tripulações enfronhadas numa festarola de se lhe tirar o chapéu de três bicos. Estiveram cá o Morgan e um dos irmãos do Corsário Negro, que me trouxeram os despojos de um brigue capturado ao largo de Maracaíbo: material de primeira. O Morgan, que é tipo de leituras, deixou-me aí a nova recolha do Dan Brown e uns periódicos avulsos da Lusitânia, aquele lugar muito frequentado pelo Kidd. Em vez de pegar no romance do ódio de estimação da "Opus", aquela sinistra organização que bem conheces, pus-me a relancear as folhas-de-couve. Nunca o houvera feito! Logo na primeira página, com uma foto de lindo recorte, tomo conhecimento que um tal Santana, um marinheiro-de-água-doce que em tempos conheci (mau bicho!) fez um acordo eleitoral com dois poderosos partidos monárquicos (acho que o Barba-Negra anda com aquela malta) para quilhar os pobres descendentes do Vasco da Gama. Um PPM e outro MPT - tudo gente de visão e de fidalguia, conforme julgo que sei. Valem, por junto, uns 0,51 por cento em termos de votantes, mas isso não quer dizer nada. Têm gente de muita qualidade, nomeadamente atiradores de canhão e de colubrinas que onde põem o olho põem a bala - vão lixar os mastros todos de uma frota que se lhes oponha.
O Santana, que costuma usar um lenço vermelho na cabeleira e é um esgrimista de primeira (treinou-se com espadachins dos futebóis) tenciona ser de novo o capitão da cabotagem e com aquele golpe de mestre prepara-se para levar tudo raso. O Sócrates - um flibusteiro grego especialista em deitar os inimigos para dentro dumas chaminés, incinerando-os em três tempos - que se cuide. Se não se precatar acaba transformado num remador de galés. E nem lhe valerá o Capitão Gancho (e um Manuel Alegre, o barbaças perito em saltar para as escotilhas).
Ou seja, às tantas vamos ter de acolher na Tortuga mais uns fugitivos desconsolados com a nação que lhes coube. Por isso vou ter de tomar posição e ajudar um pouco aqueles Irmãos da Costa. Só espero não ter de alinhar com um famoso piratão, um Soares; ou um tal Freitas, que parece um sacristão e, vai-se a ver, é muito mais arteiro que um guarda-marinha das Bermudas...
Vai, Folhinha, o xi-coração do teu A.

Armazém & cantina # 2

Para alegrar o Natal, uma voz do Brasil. É a primeira parte de
OS TRÊS-DIABOS de Floriano Martins:

A vida não deve saber de tudo. Deus não deve saber de tudo. O leitor não deve saber de tudo. A explicação empobrece o texto. Então como separar o cúmplice da vítima? Haverá uma polícia do acaso? Jamais deixar vazar uma identificação. Apagar todas as pistas, antes mesmo que sejam detectadas. Pôr sempre em dúvida todo método, embora ciente de que aqui as cartas se embaralham e nenhum de nós sabe mais do que estamos falando. Não importa. Já ninguém percebe com clareza o que está se passando no mundo. Tampouco há tempo para dedicar-se a uma única incompreensão. É preciso desentender de maneira indiscriminada, um sistema múltiplo de ausência de sentidos. Não se trata mais da droga que velozmente passa de um ponto a outro, do verbo que mingua nas mãos de letristas de canção e poetas, do invisível empilhamento de cadáveres patrocinado pelas campanhas de álcool moderado no trânsito. A estatística finalmente descobriu sua verdadeira natureza: falsear a realidade. Observando o mapa da multidão, como separar profusão de cópia? Deveria haver um trato íntimo da emoção, algo que nos torna incomuns, indistintos entre si. Um perfume, o jeito de pousar a mão no rosto do amante, o esquecimento. Uma questão de estilo - dispara o primeiro diabo recostado na fumaça de seu charuto. Mas que seja inédito - bafeja o outro velejando os vapores de sua bebida. Haverá um terceiro? Que deus é tão estúpido para se parecer com seu mensageiro? Desde o princípio, vítima e cúmplice se distraem em balanços no parque.
(Parte final, amanhã)


Mensagem da Gerência.



DEPOIS, ABRINDO OS SEUS TESOUROS, OFERECERAM-LHE PRESENTES: QUARTZO, FELDSPATO E MICA.


A gerência deste blogue deseja a todos os seus sócios e amigos umas boas festas (independentemente da natureza das festas).

A Minhoca é um Bicho Harmonioso # 1



Marcel Bouché é o maior especialista francês em "vers de terre", as minhocas ou "intestinos da terra", como lhes chamava Aristóteles, e o primeiro a ter estabelecido uma classificação exaustiva desses bichos harmoniosos que regra geral só interessam aos javalis e aos pescadores.
No número de Novembro da "Terre Sauvage" , provavelmente a melhor revista sobre a natureza publicada em França, Marcel Bouché dá uma longa entrevista. Para já, a história deste senhor tem o seu quê de mirabolante: começou por ser jardineiro e por possuir apenas um certificado de estudos primários. Depois foi uma espécie de "contínuo" no INRA (Instituto Nacional de Pesquisa Agronómica) e quando deu por ela estava a estudar minhocas, porque mais ninguém o queria fazer. Conseguiu uma bolsa, formou-se, voltou a entrar no INRA mas desta feita como cientista e investigador e chegou a director do laboratório de zooecologia dessa instituição. Hoje é um cientista de renome mundial.
As coisas que ele conta sobre as minhocas e o seu papel nos ecossistemas terrestres são, no mínimo, assombrosas. Deixaram-me abananado. Foi como se de repente eu tomasse conhecimento de uma outra realidade paralela à nossa.
A minha vontade era traduzir-vos a entrevista completa, mas é demasiado extensa. Traduzo só as respostas a três perguntas colocadas pelo jornalista da "Terre Sauvage" e aproveito para vos desejar a todos um santo Natal, com a certeza de que nunca mais olharão para o solo que pisam da mesma maneira.

TS - Mas então, quantas [minhocas] é que existem num hectare de terra?

MB Uma tonelada e cem quilos, que é, curiosamente, o valor médio de todos os locais que pude contabilizar em França. Para situar as coisas, em França encontramos 55 quilos de homens na mesma superfície e apenas dois a três quilos de pássaros. Sozinhas, as minhocas representam entre 60% e 80% da massa de animais dos nossos ecossistemas. O valor dos outros animais é negligenciável. Eis a base do funcionamento de um ecossistema: as plantas, os microorganismos e as minhocas. As plantas captam a energia e transformam-na. Os microorganismos e as minhocas decompõem. Mas quem, de entre eles, faz o trabalho físico? As minhocas.

TS - Mas é fabuloso! Que visão! Como é que poderia resumir o papel desses seres?

Em França calcula-se que em média as minhocas engolem trezentas toneladas de terra por hectare, rejeitadas sob a forma de fezes. Elas fornecem, por isso, graças à fermentação operada - podemos comparar este trabalho aos dos cervejeiros! -, uma quantidade muito elevada de elementos nutritivos necessários às plantas. Outro papel: a sua aptidão para cavar galerias, no total, cerca de 5000 quilómetros por hectare, o que permite uma rápida percolação da água no solo. Na região de Montepellier, onde nos encontramos hoje, 160mm de água da chuva podem escoar-se no espaço de apenas uma hora graças a estas galerias. Ora aqui não chove mais do que 1000mm por ano!

TS - O que quer dizer que uma zona de terra onde existem estas galerias pode absorver, numa hora, 160mm de água, ou seja 16% de toda a chuva que cai num ano?

MB - Sim, uma grande tempestade não coloca por isso nenhum problema de maior, a não ser nos casos em que se dá um fenómeno de ressurgência no calcário. Na floresta ou nos matos a água infiltra-se sem qualquer dificuldade, mas não nas vinhas ou nas zonas cerealíferas, tratadas à base de pesticidas, onde as minhocas desapareceram. As inundações de que hoje se fala tanto só são catastróficas onde nós acabámos com as minhocas. E este desaparecimento coloca também problemas a outros animais, pois esta notável massa de 1,1 toneladas de minhocas por hectare é um manancial biológico. É mesmo a primeira massa de proteínas animais disponíveis, da qual dependem mais de 200 espécies de vertebrados, pássaros e mamíferos (...).

Post It #238

Para os apreciadores de Philip Roth. Aqui, há uma excelente entrevista com o autor, a pretexto do seu novo livro "The Plot Against America".

Why did you choose "Philip Roth" as your protagonist?

Philip Roth: I told myself this when I started this book - make one change. Just change the 1940 election and then follow out the consequences of it. Therefore, I used my family and me. Now, had I invented a family, I would have wound up inventing a family very much like ours. I also thought if I used our real names and said, "Look, I was there," at a certain point the reader might forget that this was an invention. A false memoir is what it is.

22.12.04

O Silêncio é de Ouro # 180



A Pitchfork, a mais prestigiada publicação "on-line" de música popular, já fez as suas escolhas dos melhores álbuns de 2004. Entre os dez primeiros há Animal Collective, Brian Wilson e Devendra Banhart. Vale a pena darem uma espreitadela.

O Silêncio é de Ouro # 179



Na estrada, o meu fiel companheiro de viagem do ano que agora finda tem sido "A Strangely Isolated Place", do Ulrich Schnauss (City Centre Offices, 2003). Imaginem que os Slowdive (que saudades!) tinham trocado as guitarras por um "laptop". É a isso que soa este disco. Música para largos céus azuis e para um sol generoso. Mas que também resulta muito bem com céus invernosos, e com neve, chuva, granizo ou rãs. Para os que sofrem de dores de cabeça teimosas, receito "Monday - Paracetamol", a faixa número quatro. É infalível. A cabeça vai logo parar às nuvens.

O Povo é Sereno # 194

A partir da década de oitenta as casas novas que se construíam no interior do país eram uma verdadeira aberração. O desejo de ostentar alguma riqueza adquirida no estrangeiro aliado a um gosto ainda não cultivado e educado levou os emigrantes a construírem verdadeiros monumentos ao mau gosto, habitações cozidas com a estrada e crivadas de azulejos e aplicações em dourado, pintadas de cores garridas, enfeitadas com águias e leões de cerâmica ou fontes luminosas de cimento. Nessa época, como é compreensível, tudo o que recordasse o antigo ou o tradicional estava conotado com o Portugal da ditadura, com o Portugal da miséria. O antigo e o tradicional eram por isso valores negativos de que as pessoas se queriam libertar, coisa que puderam fazer logo a seguir à Revolução dos Cravos. Como resultado, a maior parte das aldeias portuguesas ficou irremediavelmente descaracterizada, excepção feita ao Alentejo, onde a arquitectura tradicional foi miraculosamente preservada.
Nos últimos dois ou três anos, pelo menos em Trás-os-Montes, o vento parece estar a mudar de direcção. Nas novas casas construídas à beira da estrada já predomina o branco, a única cor que se harmoniza com a paisagem rural. E, como complemento às paredes caiadas, surgem agora os materiais tradicionais: o xisto, o granito, o calcário, etc. Voltou-se à telha laranja, aos muros em pedra (de fábrica, que já não há quem os faça à moda antiga) ou aos caixilhos de janelas em madeira. Já aparecem algumas casas construídas de forma a imitar o mais possível a casa rústica de outrora, em granito ou xisto de alto a baixo. E há mesmo proprietários que reconvertem as suas casas: fazem saltar a tinta para deixar a pedra à mostra, pintam de branco as paredes em cimento. Esta mudança deve-se única e exclusivamente a uma evolução no gosto e está directamente ligada a uma geração mais esclarecida.
O que é espantoso é que, salvo algumas honrosas excepções, as juntas de freguesia e os municípios continuam a agir como se ainda estivéssemos nos anos oitenta. Continuam a ser emitidas, todos os anos, carradas de licenças para construção em sítios onde essa construção é impensável. Ou então constrói-se clandestinamente: quem quiser empilhar uns quantos blocos de cimento à beira da estrada para arrecadar umas velharias ou para criar um porco pode fazê-lo à vontade que ninguém lhe irá pedir satisfações. Os nossos sucessivos governos concentram todo o investimento nos grandes centros urbanos e continuam a ignorar estas terras de ninguém, fazem de conta que não existem, ou que não é problema deles.
Em Trás-os-Montes, região que melhor conheço, nunca eu vi uma única acção que procurasse sensibilizar as pessoas para as questões da integração da arquitectura rural na paisagem circundante, ou que promovesse a utilização dos materiais de construção tradicionais. Nunca vi nenhum responsável público a explicar às pessoas que se continuarem a estragar e a deixar estragar as suas casas o futuro das aldeias onde vivem será negro, porque com o naufrágio da nossa agricultura o futuro das povoações do interior está ligado ao turismo nas suas diversas modalidades. Nunca vi ninguém no terreno a explicar às pessoas que, uma vez que o agricultor de subsistência pertence ao passado (coisa que todos os agricultores já sabem), ele deverá tornar-se numa espécie de jardineiro da natureza, e as aldeias deverão ser uma espécie de memória descritiva do Portugal de outrora, núcleos museológicos em vez de aldeias propriamente ditas. Neste capítulo temos o grau zero da pedagogia. Nenhuma campanha, nenhuma sensibilização. E duvido muito que nas escolas do interior se fale deste assunto. Se estivéssemos a contar com os poderes públicos teríamos em poucos anos aldeias tão feias tão feias que já ninguém poderia suportar viver nelas, quanto mais visitá-las. E é assim que se combate a desertificação.

P.S. Desculpem-me, mas não fui capaz de arranjar na net nenhuma imagem que fosse suficientemente ilustrativa deste "post".

O Silêncio é de Ouro # 178



Neste caso também de incenso e mirra. Porque foi o que há minutos, por gentileza da directora da Biblioteca de Portalegre, me depuseram no sapatinho.
Mas não só este presente me chegou. Não falando naqueles que de tão íntimos e secretos nem os referimos, até em tempo de vacas magras e magríssimos camelos há que bonde para fazer nossa quadra gostosa: as vozes da zarzuela de Monserrat Caballé e Alfred Kraus, acabadinhas de sair na Producciones Naimara de Barcelona e que aguentam magnificamente o confronto, posto que noutro horizonte, com um Beniamino Gigli em canções, árias e duos que a Naxos artilhou em cima desta hora, desta semana e deste mês ibérico e que vos recomendo vivamente.
Mas o meu real banquete natalício chegou-me há bocado pela mão vilacondense, de senhor com todas as letras, do engº José Alberto dos Reis Pereira - sobrinho de Régio e filho de Saul Dias/Julio - que quis facultar-me um CD arrolando a Obra Completa (poesia e pintura) de seu Pai editada pela Plano 9 com concepção técnica de Teresa Albuquerque e textos inéditos de Eunice Ribeiro e Doris Graça Dias. No qual também comparecem Ramos Rosa, Mourão Ferreira, Guilherme de Castilho, José-Augusto França...
O apoio é de diversas Câmaras e outras entidades, que obraram excelsamente: basta dizer que o acervo pictural é de 325 quadros, além de muita documentação iconográfica e, ainda, 45 poemas ditos por Luís Madureira.
Sem exageros: vão por mim - corram com emoção à Loja onde este interessantíssimo CD se encontre!...

Imagens: o pintor no seu atelier e "Pintura", obra de Júlio, datada de 1929.

Post Scriptum # 438

Resumo da peça "Sappho", de Franz Grillparzer, de acordo com a "História da Literatura Alemã", de Helen Watanabe-O'Kelly, com ligeiríssimas alterações.

A peça tem início no momento em que Safo regressa a casa, depois de conquistar a coroa de louros pela sua poesia, em Olímpia. A sua felicidade é amplificada pelo amor que nutre por Fáon, um jovem que trouxe consigo de Olímpia. No entanto, o seu plano para substituir pelas alegrias domésticas de esposa a sua carreira como poeta afunda-se perante a incapacidade de Fáon em amar uma mulher que ele admira e exalta. Quando Safo se apercebe de que ele se apaixonou pela sua serva, uma rapariga mais simples e mais convencionalmente feminina, ela reconhece que fracassou no seu dever para com os deuses, ao subordinar a sua vocação poética à sua felicidade pessoal, e, numa dramática conclusão, atira-se de um penhasco para o mar.

Post Scriptum # 437

Xenófanes
(Grécia, c. 570 a.C. - 525 a.C.)

ELOGIO DA SABEDORIA

Mas se alguém alcançar a vitória com a velocidade
dos pés, ou do pentatlo, - onde fica o santuário de Zeus
junto das águas de Pisa, em Olímpia - ou na luta,
ou porque sabe a arte dolorosa do pugilato,
ou ainda num concurso terrível, chamado o pancrácio,
será mais ilustre à vista dos seus concidadãos,
terá o lugar de honra mais aparatoso nos jogos
e alimentação a expensas públicas
da sua cidade, e uma dádiva, que será para ele um tesouro.
E, se ganhar com cavalos, tudo isto ele obterá,
sem ser digno como eu. Pois melhor do que a força
de homens e corcéis é a nossa sabedoria.
É isso um modo de pensar leviano, e não é justo
preferir a força à notável sabedoria.
Pois nem que viesse entre o povo um valente pugilista,
ou um homem hábil no pentatlo ou na luta,
ou na corrida, que tem ainda a preferência,
e tantos actos de força demonstrasse no combate,
nem por isso a cidade estaria em melhor ordem.
Pequeno prazer seria para a urbe
que alguém vencesse nas provas das margens do Pisa.
Pois não é isso que enche os cofres da cidade.

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

Cimbalino Curto #127



"O Natal de 2004 irá certamente ser relembrado como aquele em que os portuenses se reencontraram com a Baixa do Porto.
Quem por lá tenha passado nestes dias de compras natalícias, mergulhou certamente num mar de gente: famílias nas ruas, nas lojas, nos cafés, nos restaurantes, crianças à solta sob as iluminações e jovens passeando e saboreando as típicas castanhas assadas. (...)
Penso que o principal indutor deste movimento de atracção pela tradição que a Baixa representa é a vontade perene dos portuenses em regressar à sua história. (...) Vontade que sempre esteve latente; mas sobravam os desconfortos e faltavam os meios. [Confortos e meios] que aí estão agora, para transformar o centro do Porto numa imensa mancha humana. Assim, não é de estranhar que, como outrora, os cafés estejam cheios de gente. (...) Que haja de novo convívio, vivência."

Paulo Morais, Vice-presidente da Câmara do Porto.

Este texto teve o alto patrocínio dos óculos graduados "Porto Imaginário".

Armazém & Cantina # 1

Este foi acabadinho de apanhar numa das estantes (mentira, já cá o tenho em stock vai p'ra uma dezena de anos, mas estas aldrabices ficam sempre bem em épocas natalícias). Dedicado ao trenó do Pai Natal e, naturalmente, a todos os puros de coração - e estômago, já agora...
"O homem é perecível; pode ser. Mas pereçamos resistindo e se, ao fim, o que nos está reservado é o vazio e o nada, façamos com que isso seja uma injustiça"
-
Étienne de Senancour

Post It #237



Feliz Natal, o caraças!

21.12.04

Ilha dos Amores # 114

A Cristina Fernandes, que obviamente dispensa apresentações, tem um "novo" blogue. Chama-se Last Tapes. Creio que não vale a pena acrescentar mais nada.

Post It #236

Quem disse que a Rússia deixou de ser uma superpotência?

"The Pushkin State Fine Arts Museum recently hosted the presentation ceremony of the Debut independent literature award. (...) According to the Noviye Izvestia newspaper, 43.000 works were submitted to the contest."

Mais aqui.

Cimbalino Curto #126



Rui Rio e o PSD do Porto não param de nos surpreender. O Público de domingo noticiava que o novo slogan do partido, que será usado durante a campanha autárquica, é "Novo Ritmo para a Cidade". Dadas as circunstâncias, é o slogan mais bizarro que os homens do marketing do PSD podiam ter escolhido. Depois de quatro anos de Porto em coma profundo, apostar na palavra "ritmo" revela um sentido de oportunidade realmente extraordinário. Citando Pacheco Pereira, "Estranho mundo o deles. Onde será?"

Post Scriptum # 436

Contos de Luís Graça no Granito.

Concluimos hoje a apresentação dos novos contos de Luís Graça, com a publicação da terceira e última parte do excelente "´Tá Tudo na Maior?", pertencente ao seu livro "15 Desatinónimos para Fernando Pessoa", a publicar em breve.

'TÁ TUDO NA MAIOR?
(Terceira Parte)


Mais um delírio. Mais outro grande momento para a história da música. Até as ameaças de nuvem se balançaram no swing compassado da voz Leal. E Bernie Soares voltou para o volante do microfone.
- Há muitos intelectuais que não gostam do Roberto Leal. "E dão a sua opinião. Mas uma opinião é uma grosseria, mesmo quando não é sincera. Toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais.
Ah! é um erro doloroso e crasso aquela distinção que os revolucionários estabelecem entre burgueses e povo, ou fidalgos e povo, ou governantes e governados. A distinção é entre adaptados e inadaptados: o mais é literatura, e má literatura. O mendigo, se é adaptado, pode amanhã ser rei, porém perdeu com isso a virtude de ser mendigo. Passou a fronteira e perdeu a nacionalidade."

As horas passaram. As horas voaram.Tema após tema. Delírio após delírio. Lisboa a suar de prazer. Lisboa voraz de música. Lisboa a destilar ânsias de melodia. Os "Village Persons" a sair do palco. Zeus a assobiar pelo meio das barbas, a pedir bis, lá das galinheiras. Neptuno a bater com os pés lá do fundo dos oceanos. Então e os encores? Encore, rien? Atão eles na voltam ao palco?
Voltou só um a anunciar a surpresa. Ricky Reis:
- Thank you, Lisboa. Especialmente para vocês, já em pleno prolongamento, a última surpresa. Para as meninas já tivemos um louro. E agora anunciamos um chocolatinho, bem moreno, para os meninos. É uma jovem promessa de Newark, toca piano e fala inglês: Alícia Chaves.
Por amor de Deus! Ai o nosso coração. Alícia Chaves cantou e encantou em "If I ain't got you", dedicado ao líder da banda e seu conselheiro musical, Bernie Soares.
- Esta miúda vai longe... e desnivela-se em conglomerados de sombra, recortados de um lado a branco, com diferenças azuladas de madrepérola fria (página 385).
Final do concerto. Todo a malta a penantes para casa. Músicos e entourage para os bastidores. E o Bernie com tiques de estrela do rock, a lançar olhares libidinosos às miúdas que lhe apareciam pela frente.
Mesa farta, tipo casamento. Bernie mandou-se às entradas: melão de Almeirim com morcela. E verde à pressão.
- "Conheço, translata, a sensação de ter comido de mais. Conheço-a com a sensação, não com o estômago. Há dias em que em mim se comeu de mais. Estou pesado de corpo e lorpa de gestos; tenho vontade de não me tirar dali de maneira nenhuma."
E vá de sentar a Alícia ao colo, sem respeito nenhum:
- Ai não te chamas mesmo Alícia Chaves? Chaves é nome artístico, porque a tua família é de Chaves e emigrou para os States... tem piada, só agora é que sei disto... e já te ando a dar conselhos há uns tempos...
"As tuas mãos são rolas presas. Os teus lábios são rolas mudas (que aos meus olhos vêm arrulhar). Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente. Tu és toda alada." (página 292).
Bernie sentia um prazer imenso em ter Alícia ao seu colo. "Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz."
E a madrugada correu suave. Croquetes, paio, lombo enguitado (petisco alentejano, não conhecem?), batatas fritas de pacote, lagosta à Terminator, aletria, mousse de chocolate caseira, lasagna clássica e vegetariana. Coisas da música.
Depois, Fernando Pessoa entrou no convívio, a esfregar as mãos. O festival tinha corrido bem.
- Amanhã, já sabem. Todos prontinhos às 14 horas, temos um gig em Loures, no Pavilhão Paz e Amizade.

Von Grazen, 28/7/2004, 03h11m

Doping: Coors (Borrowed Heaven), The diary of Alicia Keys, gelados da Hagen-Dasz.


(Luís Graça)

20.12.04

Señor Tallon #91

Falar no diabo é criar o diabo, como referia Espronceda? Talvez...
A verdade é que fiquei um niquinho pató. Pela eventual coincidência, quero eu dizer. Navegando um pouco pelos blogs, entro logo no A Minha Jornada. E lá leio um pequeno post onde se desvenda um truque para vermos se andamos a ser escutados no nosso telefone. Brinca brincando, articulo esse truque. E não é que o danado aparelhómetro responde de maneira a eu...suspeitar que de facto estou com clandestinos em linha?!
Mas se é assim, meus senhores, não gastem tempo nem dinheiro nessa jigajoga - já toda a gente sabe que sou um caso perdido, subversivo até mais não e contra os bons costumes governamentais!
(No entanto, com certo orgulho, um ar forte e de bom quilate enche-me um pouco a peitaça... A saudade que eu já tinha destes eventuais carinhos!).

Post Scriptum # 435



Era proverbial: todos os anos, por esta data, chegava o sobrescrito e, lá dentro, estava o postal de duas folhas - à guisa de pequeno livro. Sempre com um recado fraternal escrito pela mão de quem tinha a ver, mais no geral, com os negócios da Casa. Mas chegava-me sempre personalizado.
O signatário já partiu. Para outros lugares, para outros destinos? Não o sei, agnóstico que sou. Mas gostaria de pensar que, lá nos étereos recantos, também toma conta de escritas, de poesias, de livralhadas. De recados de Natal.
O signatário era o Hermínio Monteiro. E quem lhe sucedeu continua a não se esquecer de mim.
Este ano, o postal vem ilustrado com um presépio de Lourdes Castro e o texto é de José Tolentino Mendonça:" Uma história que se exprime tão deliciosamente. As estrelas de papel esplendem; os pequenos ramos colhidos aproximam da casa os bosques longínquos; os frutos, sem dúvida dos melhores, envolvem em perfume o interior e o exterior; a imagem diz sem desfazer o segredo.
A terra atravessa, neste momento, o solstício de inverno".

Para o Hermínio, para todos eles - para todos nós - consintam que aqui vos deixe o meu presente de Natal. Precisamente, o "Receita para um Natal". De um agnóstico que todavia tanto ama esta quadra:
Primeiro, ficar parado
durante um momento, de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependencia do lar.
Depois, preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveios. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia
rostos de primos distantes, uma pitada
sons de sinos ao longe, quanto baste
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadradinhos
duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias
a lembrança de vizinhos ainda viv0s mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a Mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem, leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso

- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.

NS(in ISCE -Felgueiras, natal 2002)

O Povo É Sereno #193

Frase assassina do dia: "Nesta campanha não falaremos muito deste governo pela simples razão de que não se deve disparar sobre uma ambulância" - José Sócrates

Cimbalino Curto #125 temperado com Umbigo #118

Da imensa lista de putativos candidatos do PS à Câmara do Porto, que inclui algumas personagens quase anedóticas, parece-me óbvio que Elisa Ferreira é a que oferece mais garantias de qualidade. De qualquer maneira, creio que uma candidatura de Manuela de Melo corresponderia ao melhor dos cenários, mesmo para os eleitores que não se revêem no PS.

Post It #235

acho uma pena o cigarro fazer mal à saúde.
ao cinema acho que faz muito bem. alguém consegue visualizar humprey bogart ou james dean sem um cigarro? o que seria de belmondo sem o displicente cigarro em un bout de souffle? ou dos filmes de wong kar wai sem a fantasmática dança da nicotina volatizada?

(Ale, nas Torneiras de Freud )

Post Scriptum # 434

Contos de Luís Graça no Granito.

Prosseguimos hoje a apresentação dos novos contos de Luís Graça, com a publicação da segunda parte de "´Tá Tudo na Maior?", pertencente ao seu livro "15 desatinónimos para Fernando Pessoa", a publicar em breve.

'TÁ TUDO NA MAIOR?
(Segunda Parte)


Bernie queria prosseguir. Bernie queria andar para a frente e não conseguia. Faltava-lhe espaço afectivo. Faltava-lhe uma aberta entre os fãs. Bernie levantou os braços e tentou continuar:
- Muito obrigado! We love you! Thank you, Lisbon. Portugal é grande!
A multidão apanhou o lamiré e mudou de palavra de ordem:
- Portugal! Portugal! Portugal!
Milhares de bandeiras que tinham sobrado do Euro-2004 emanciparam-se das mãos dos fãs e começaram a bailar na atmosfera, autênticos bailarinos russos em pontas.
- Obrigado, Portugal! Obrigado, Lisboa! Mas deixem-me dizer...
A multidão não deixava. Se não fosse o controlo apertado da segurança, quase se poderia dizer que uma considerável parte da multidão estava "pedrada". Mas faz algum sentido falar disto num festival musical?
Finalmente, o senhor Soares lá conseguiu passar a sua mensagem:
- "Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez. A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Está há 40 anos em Lisboa e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro!"
Dois fãs que seguiam os "Village Persons" para todo o lado entraram em diálogo:
- O gajo já fez este discurso em Copenhaga, há dois meses!
- Pois foi. Trocou só as cidades e a profissão do velho. Em Copenhaga era um carpinteiro.
- Mas onde é que o gajo vai buscar estas coisas?
- Então não sabes?
- Não...
- Livro do Desassossego, página 183, Assírio e Alvim.
- Ah! pois é...

Bernie Soares anunciou a canção seguinte do alinhamento que os "Village Persons" cumpriam com a devoção de uma seita secreta:
- E agora um tema de Álvaro Fields, composto já há bastante tempo, quando éramos jovens. Mas ainda nos sentimos bastante jovens. Uma composição de Álvaro Fields: "Freddie".
E o grupo lá atacou a balada:
"Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te/Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim/Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes/viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta/Mary, eu sou infeliz/Freddie, eu sou infeliz".
Acenderam-se isqueiros, iniciaram-se em ofuscantes cintilações nocturnas aqueles coisinhos verde-alface e aqueles coisinhos rosa que são vendidos a pataco. Os braços da multidão ao jeito das vozes, de um lado para o outro, de um outro para o lado, como uma espiga ao vento nos verdes trigais em flor.
E depois Bernie Soares cedeu um bocadichinho de protagonismo ao Ricky Reis e ele veio anunciar a presença-surpresa de um convidado muito especial:
- E agora temos uma surpresa para vocês. É um homem de um sucesso enorme, respeitado em todo o mundo. Estava muito sossegadinho na tenda VIP, lá bem ao fundo, naquelas colinas distantes, a tentar passar despercebido. Mas nós fomos lá buscá-lo. Perdemos um bom bocado a convencê-lo, mas é com grande prazer que posso anunciar que o convidámos a vir cantar um tema do Álvaro Fields. Meus amigos e minhas amigas, é um sumo privilégio poder anunciar a presença neste estaminé de um grande senhor do mundo da canção, de um grande senhor da canção e de um grande senhor do mundo: Roberto Leal!
Roberto Leal entrou em cena no seu trote habitual de Alter, imaculadamente branco, com uma discreta publicidade institucional à Olá nas costas do casaco.
- Boa-noite, Lisboa! Olá, brasileiros deste país! Hello, everybody! My name is Leal, Roberto Leal. Shaken, not coiso-e-tal.
E o raio do homem agarrou logo a audiência. Passou o microfone por cima da cabeça, passou o microfone por baixo das pernas, passou o microfone por trás das costas. Pouca gente sabe, mas Roberto Leal fez um estágio no Chapiteau, na Costa do Castelo, quando era jovem.
- Lisboa, estás preparada? Então, aqui vai. De Álvaro Fields, "Meu coração postigo".
"Meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet, portaló/Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial/Meu coração postigo/Meu coração encomenda/Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega/Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice/Eh-lá,eh-lá,eh-lá, bazar o meu coração".
Mais um delírio. Mais outro grande momento para a história da música. Até as ameaças de nuvem se balançaram no swing compassado da voz Leal. E Bernie Soares voltou para o volante do microfone.
(Continua)

(Luís Graça)

18.12.04

Cimbalino Curto #125

Afinal, cometemos a maior das injustiças ao insistir na ideia de que Rui Rio era alérgico a tudo quanto cheirasse a cultura. As suas declarações a propósito da atribuição do Prémio Pessoa ao romancista portuense Mário Cláudio, são uma espécie de manifesto em defesa do papel da cultura para a projecção da cidade. Permitam-me que abra umas pomposas aspas para as sábias palavras do senhor presidente da Câmara: "Esta distinção vem reconhecer uma personalidade e uma vasta obra em prol da cultura, em que o Porto se revê e se orgulha. (...) A obra de Mário Cláudio, que tem no Porto a principal fonte de inspiração, projecta a sua 'cidade querida' para a ribalta dos que cultivam os valores culturais na mais nobre da sua expressão."

17.12.04

Post Scriptum #433

Recreio para o bom fim de semana:

ANÍBAL E AS MOSCAS FILÓSOFAS


Estava há sete semanas naquele quarto de hospital e principiava a chatear-se.
Todos o tratavam muito bem - alguém lhe emprestara mesmo uma telefonia, mas o certo é que começava a sentir-se ligeiramente aborrecido.
Não era que a enfermeira não lhe trouxesse a comida quentinha a horas certas, nem que o dr.Varela lhe faltasse com a sabedoria médica. Não. Toda a gente era realmente muito simpática, mas ele principiava a ficar um bocado... frio.
A partir da terceira semana começara a segredar para si próprio ideias que apanhava ao calhar. E, caso estranho, pensava, pensava muito, pensava como nunca havia pensado: pensamentos gordos, mesmo suculentos, que lhe deixavam na boca um sabor esquisito e galopante, como se fossem comboios molengões andando sobre carris podres. Não estava a gostar nada daquilo.
Além do mais, de noite o quarto enchia-se de vagas correrias, vagas risadas.
Virou-se para o outro lado.
O pára-choques apanhara-o exactamente em cheio no sítio onde as costelas dizem adeus ao estômago. Acordara depois, de súbito, numa cama descompassada com formigas e abelhas a passearem para baixo e para cima a toda a altura do esqueleto, suaves, venenosas. A cabeça muito bem entrapada repousava virtuosamente sobre uma almofada branca. Em volta, tanto quanto se lembrava, uns fantasmas abusadores deambulavam num leva-traz peculiar zurzindo o ar ambiente com uma lengalenga que nem por ser em voz sumida era menos estarrecedora.
Depois foi-se habituando.
O dr. Varela chegava ao crepúsculo, ou ao nascer do sol, com os óculos muito calmos e mudos a apontar na sua direcção: pegava-lhe no pulso, rosnava sabiamente, abanava a cabeça e, antes de sair, escrevia qualquer coisa num papel. Ele por momentos pensava que o dr. Varela tinha um pacto secreto com o seu aborrecimento, mas está-se a ver que era só impressão.
A enfermeira, como é natural, vinha mais vezes. Tinha um nome impronunciável, olhava aos ziguezagues e era magra e penugenta. Cheirava a relógios bem lubrificados e nunca se ria. Também não devia ter de quê, pensava ele, mas tudo aquilo lhe fazia nervos.
A enfermeira era ferozmente cumpridora. Uma boa profissional: puxava-lhe a roupa para o pescoço se o topava destapado, metia-lhe pastilhas entre os beiços, a horas correctas ajudava-o a assoar-se e a fazer mais coisas. Enquanto ele teve os braços em gesso, deu-lhe a papa com um clarão de bondade nos sobrolhos perfeitamente assustador.
O termómetro que sempre transportava no bolsinho da bata constituía uma realidade imprópria.
Saía depois de o olhar com satânico interesse enfermeiral. Antes de fechar a porta a sua mão traçava no ar um círculo cinzento e agressivo
A esposa visitava-o três vezes por semana, mas isso já não o arreliava por aí além. Ficara imunizado por dezassete anos de matrimónio. Já estava mais que familiarizado com o seu narizinho de coruja egoísta e com a sua voz que a passagem do tempo tornara rascalhante. Limitava-se a ficar calado, com os olhos bem fixos no meio do tecto. Às quatro da tarde a esposa abandonava a partida e ia-se com o seu passo de flamingo de noventa e oito quilos. Ele fingia que não era nada com ele.
Foi no dia em que lhe tiraram as últimas ligaduras que ele viu as moscas.
Eram duas, esvoaçando solenemente na meia sombra com um ar tranquilo e respeitável. Tinham o aspecto de moscas de sociedade, talvez já grisalhas dos anos e ele por uns segundos raciocinou que até nem se espantaria se lhes visse bengala e gravata.
Durante vários dias as moscas não lhe largaram o quarto.
Eram moscas filósofas. As suas conversas, num tom muito fino e discreto, eram do mais alto interesse e centravam-se sobre os grandes temas do universo: o Homem, o Tempo, a Infância, todas as coisas, enfim, que horrorizam ou causam prazer, o Mundo, o Amor e a Morte. Um nunca mais acabar de problemas maravilhosos e inextrincáveis.
A ele o que mais o danava era o seu arzinho superior, como fingindo que nem por ele davam: como se ele fosse um retrato decrépito que para ali estivesse. E, no entanto, elas bem sabiam que ele não perdia pitada das conversas, com os punhos o mais possível cerrados.
Começou a detestá-las. Precisamente no dia em que lhe tiraram o gesso da perna direita.
No entanto, por orgulho, nunca tentou imiscuir-se nas suas conversas. Ainda não descera tão baixo.
Na tarde seguinte, tarde de visita conjugal, as moscas falaram do Ser e das metafísicas. Falaram também das estrelas e seus prestígios, dos barcos à deriva nos mares antigos, dos astrónomos e dos reis dos países afastados. Ele sofria tanto que foi com renovado alívio que viu a cara-metade abandonar a cena da sua tortura.
Com pasmo e raiva estendeu o braço e abriu a telefonia. Adormeceu ao som dum fadinho picado em surdina.
E sonhou sonhos esquisitos de defuntos e bosques imensos, de catedrais e aranhas.
Acordou ao crepúsculo. Em cima da mesa estava uma bandeja com vitualhas. Nada se ouvia. Nem o voar de uma mosca.
As moscas tinham partido. Durante o seu sono pela tarde fora, tinham decerto voado através da janela entreaberta buscando diverso poiso, concerteza sempre debatendo entre si as coisas belas e incríveis. E ele sentiu de súbito vontade de partir tudo, pois já lhes havia jurado p'la pele: quando estivesse de posse de todos os seus meios físicos, ele lhes diria. Haveria de as ensinar com decisão: ficariam, até, sem vontade de tasquinhar o mais apetitoso bocadinho de excremento!
Mas o certo era que haviam partido. Inexoravelmente. E nada, pensou, poderia fazer!
O crepúsculo, cinematográfico e devorador, entrava aos gargarejos para dentro do quarto. Do outro lado da porta uns passos conhecidos crepitaram com energia.
O dr. Varela entrou, com os óculos muito serenos.
Com uma branda emoção a palpitar progressivamente na garganta ele deu por si a notar, cheio de deliciosas comichões, que a cara do dr.Varela era mesmo, mesmo parecida com a da mosca mais faladora.

NS

in "Contos do pincel honesto"




Post Scriptum # 432

Philip Dennis (Paris, 1950)

A obra completa deste autor tem a chancela da Mercure de France. Vive em Portugal e é professor de língua e literatura francesas na Universidade de Coimbra.


a Jacques Dupin

1. Sobre a vidraça coberta de névoa, quantas vezes
é preciso escrever a ausência?

Página sulcada de mãos.

Andorinha - de salto em salto - contigo
regresso até à nascente.

Debaixo do arco convexo da ramaria
na planura, o riso dum camponês
antecipa a rudeza da subida.

Com eles me cruzo, na volta dos caminhos.

Minúsculos contactos que me dão
a sua silhueta.

O país mudou de língua, por estas veredas
quando às quintas se chega, um cão ladra
- e disso me dou conta.

Palpitam as folhas duma planta - a ligeireza
de tudo o que a enquadra.

Zumbidos. Toda a noite. Insecto morto, afogado
no algodão da manhã.

Caminho que nos leva a esta trémula casa.

2. O vento sopra até junto desta palavra que as minhas
mãos mais não fazem que torcer para que delas saia
a inesperada frescura.

Planta abundante nos livros dos ervanários. E tudo
exulta sob o manto das árvores, entre a folhagem
pleno de inocência.

Doce piedade transbordante. Piedade
da outra metade do céu.

Purpúreo, nos docéis silenciosos, o diálogo
das flores entre si.

Vibrantes, estes nadas - que tudo tocam.


POEMAS

a.
O que eu busco não é um lugar
mas um ponto de partida.

Da nuvem madura
espero o relâmpago
da pobreza duma palavra
a sabedoria.

b.
Pastoreio o rebanho das nuvens, que o vento
indiferentemente junta ou dispersa. Partilho
com a encosta as longas horas imóveis
da espera.

c.
Por detrás da janela tingida por uma luz
errante, falar, tal como um lume - enquanto neva
sobre a casa, ou o metal exaure nossas vidas truncadas.

d.
Quem da terra natal me falasse falar-me-ia
dum vazio que nem sequer me é pessoal.

Penumbrosa origem acordando somente esta palavra
vós - aqui desprendidamente lançada.

Velha como um abismo -
ausente como um alto cimo

e.
Toda a noite pintando e repintando esta porta
que nunca se fecha... Toda a noite,
até que os nervos, liquefeitos, se tornam
na própria tinta.

Lendo de ponta a ponta as linhas sem direcção
- esta mão - que só o meu passado evocam.

Próxima cura, se vieres - contigo
eu farei a loucura real.

in "Éclogas" (Eclogues)

Trad. e nota de NS

O Silêncio é de Ouro # 177



Não me lembro de ter visto nas listas dos melhores de 2003 o álbum "Weather Report" (Touch) do ex-Cabaret Voltaire e ex-Hafler Trio Chris Watson, o tal que depois de ter estado na primeira linha da vanguarda industrial se apaixonou pelas "field-recordings". É espantoso. Estou a ouvi-lo agora, horas e horas de gravações na savana africana concentradas em cerca de dezoito minutos, ou, como diz o folheto "a fourteen hour drama in Kenya's Massai Mara from 0500h - 1900h on Thursday 17th October 2002". Mas as metamorfoses, as dinâmicas, as massas de som que estou a ouvir, embora saiba que são gravações de campo quase em bruto e apenas ligeiramente editadas pelo mago Chris Watson, parecem pensadas ou comandadas por uma entidade musical abstracta, omnipotente. Por aqui há solos, crescendos, momentos de apaziguamento, explosões de ruído, instantes de suspensão, polifonias, contrapontos, descargas de fúria, correrias e golpes de teatro à medida que a zebra é perseguida, capturada e morta pelos leões. De repente, ao longe, trovões repercutem no céu de chumbo, e minutos depois a chuva vem massajar a secura da savana. Um pouco mais perto, as campainhas de um rebanho denunciam a presença dos Massai, temíveis guerreiros convertidos em pastores, humanizando a música, porque é música, ninguém duvide. A chuva cessa, e dá-se a explosão das cigarras a morder a casca das acácias, dos ralos a festejarem a terra húmida, dos gafanhotos por entre as altas e amarelas ervas paradas no ar lavado. Os abutres a rapinarem o banquete dos leões. O frenesim dos pássaros. E de súbito a melodia dos grilos a anunciar a noite que desce sobre o mato, comprimida, bioluminescente. As corujas. Os mochos. O silvo aguçado dos morcegos à caça das gordas mariposas. E quais fantasmas, ou almas penadas errando através da noite, as hienas, a rondar os despojos, com aquele gargalhar sinistro que vem do princípio dos tempos.
Seguem-se os vinte minutos de "The Laipich", gravado nas Highlands escocesas, no Inverno, e são os elementos vento e água que tomam de assalto o espaço sonoro. Quase vacilamos com a violência das rajadas de vento. E a chuva, toda ela textura, torna a sala estranhamente espessa. Sacudindo os céus, bandos de patos em migração deitam-se no ar leve e quente. Consegue-se ouvir altitude.
A última peça do disco, "Vatnajökull", é indescritível. Microfones instalados ao pé do glaciar islandês com o mesmo nome, que escorrega, como um gigante adormecido, para o Mar da Noruega, captam o ranger e o estalar do gelo, o fluir da água que o sol vai derretendo, o ruir das muralhas brancas que de quando em quando se desprendem do corpo do glaciar. Música elemental.
Chris Watson já tinha gravado "Stepping into the Dark" e "Outside the Circle of Fire", ambos na Touch, recolhendo gravações dispersas de um sem-número de ambientes naturais de várias regiões do mundo. Mas isto, "Weather Report", é outra coisa. Não percam.

O baú do John Silver # 2

Querida Folhinha de Bloco-Notas

Não te importes que hoje te trate assim. Porque me sinto um pouco melancólico.
Na madrugada tivemos um recontro com um galeão mercante da rota da costa e das Índias. Tratou-se de uma abordagem um pouco mais violenta que o habitual: sangueira a rodos, uns braços e umas cabecitas cortadas, meia dúzia de damas passadas a fio de sabre antes de atirarmos toda aquela tropa pela borda fora... E o espólio não compensou, não foi o que estávamos à espera: uns vagos cheques à ordem de desportistas das Antilhas, ouro de pechisbeque comunitário, uns títulos do erário português que um administrador reformado surripiara... Ninharias!
Em duas barricas que um dos meus imediatos descobriu, para meu desconsolo só havia romances e ainda por cima lusitanos. Parece que eram consignação directa do capitão (pendurei-o, no fim das escaramuças, numa corda do cesto das gávea e vejo que fiz bem). Li uns pedaços: fora umas coisitas jeitosas, eram espécimes em geral chatos e sem ponta de imaginação, articulando um ruralismo requentado com requebros escriturais de putas urbanizadas. E na badana de um, rasca o que se diz rasca, a voz (de um crítico? de um editor?) assegurava que o reles grumete era uma das vozes mais importante da nova prosa portuguesa...
A lua está um primor sobre as folhas dos palmeirais. E ainda mais nostálgico me ponho. A testa lateja-me, passam-me pela fronte ideias doudas. Felizmente que tenho comigo um compacto da Lhasa de Sela. E ainda me vou a um tomo do Cláudio Rodriguez reunindo a sua prosa completa, acabadinho de sair na "Yubero y Tusquets" de Barcelona que por sorte gamei numa escuna de Cartagena e que recomendo a todos os conhecedores de abordagens.
Mas estou melancólico, Folhinha. A boca, que espiga, sabe-me um pouco a papéis de jornal (de referência). Vou espairecer com um pouco de rum nos braços da Consuelo.

PS: Parece que um bucaneiro, o "Bibi", pôs finalmente a boca no trombone e vai continuar a deslustrar malta fina. Deus o ouça, já que o sistema judicial não está à altura de despachar piratas. Era giro ver esta maltosa toda do Panamá - mas o que se diz todos - ficarem finalmente de tanga frente ao gentio que têm gozado como corsários do sistema. Era um corte transversal e a Tortuga ficava mais limpa.

Com esmero e doçura fica, até mais logo, o teu A.

Cimbalino Curto #124



As relações entre Rui Rio e Pinto da Costa estão de novo animadas. Durante a terceira sessão do ciclo de debates "Olhares Cruzados sobre o Porto", organizadas pelo Público, Rui Rio voltou a atacar o presidente do F. C. do Porto, comparando o percurso de Pinto da Costa ao de Bernard Tapie ou Jesus Gil y Gil. O líder portista, por sua vez, ripostou mostrando-se, segundo o Público, "disponível para 'enfrentar' Rui Rio nas próximas eleições autarquicas."
Aparentemente, Rio e Pinto da Costa juraram um ao outro ódio eterno. Mas a verdade é que o F. C. do Porto é uma espécie de seguro de vida para Rui Rio, e os quase quatro anos de desolação que a cidade viveu sob o mandato de Rio permitiram a Pinto da Costa brilhar como nunca tinha conseguido antes.
Façamos um exercício. Vamos supor que durante estes quatro anos o F. C. do Porto não tinha ganho nada. Nem Taça UEFA, nem Liga dos Campeões, nem Taça Inter-Continental, nem sequer o pequeno campeonato português. Vamos supor que, durante estes quatro anos, o "povo do Porto" não tinha tido nada para festejar. Provavelmente, e à falta de outros motivos de interesse, o "povo do Porto" repararia que existe uma instituição chamada "Câmara do Porto", que é responsável pela gestão da cidade. Provavelmente, o "povo do Porto" repararia que a cidade está sem rumo, não tem nada para oferecer, é um deserto de ideias, de projectos. Totalmente surda à palavra e insensível ao espírito. Estou em crer que o "povo" repararia que o "seu" Porto deixou de existir. Está morto. Que a verdadeira cidade afinal não é a azul e branco mas a preto e branco.
Outro exercício: vamos supor que Rui Rio e a sua equipa de contabilistas tinham desenvolvido um excelente trabalho. Vamos supor que, em quatro anos, Rui Rio tinha conseguido devolver ao Porto o seu orgulho, capitalizado os proveitos da Capital Europeia da Cultura, lançado novos projectos, animado a cidade. Vamos supor que Rui Rio, à falta de melhor expressão, tinha posto de novo os portuenses a sonhar. Vamos supor que Pinto da Costa era obrigado a partilhar o protagonismo com um autarca popular e apreciado por todos os "povos" do Porto. O que seria do "carismático líder portista" se tivesse que conviver com a sombra de um Rio competente?

Post Scriptum # 431

Contos de Luís Graça no Granito.

Iniciamos hoje a apresentação do terceiro conto de Luís Graça, "´Tá Tudo na Maior?", pertencente ao seu livro "15 desatinónimos para Fernando Pessoa", a publicar em breve.

'TÁ TUDO NA MAIOR?
(Primeira Parte)


- 'Tá tudo na maior?
- Iééééééééé!
- Não 'tou a ouvir nada!
- IÉÉÉÉÉÉÉ!
- Assim, sim. Boa noite, Lisboa.

Rock in Rio em Lisboa. Mais uma edição a caminho do sucesso. O promotor Fernando Pessoa acertara na "mouche" outra vez. Para além de coordenador do festival, era ainda o "manager" da banda do momento, os "Village Persons": Bernie Soares, Álvaro Fields, Ricky Reis e Al Caeiro.
- E agora, a banda que todos esperavam, no palco principal da Bela Vista, para encerrar da melhor forma a edição deste ano: os "Village Persons"!
Mal Fernando Pessoa acabou de anunciar a banda, um enorme "bruá" subiu aos céus, fazendo-se ouvir até à Alameda Afonso Henriques. Cerca de 120 mil pessoas (a antiga lotação do Estádio da Luz) em delírio ovacionaram a banda que o país inteiro consagrou.
Os holofotes varreram o palco e incidiram sobre o quarteto de luso-americanos, que optou por entrar em cena ao som de um dos grandes "hits" do grupo: "In the poetry".
"Na poesia, é onde gostas de criar, na poesia, versos feitos para amar... we want you... we want you... we want you as a new recruit... larilolé... larilas... olé!... e quem não salta não é poeta... e quem não salta... não é poeta!".
Apesar da veterania da banda, o facto é que o concerto de encerramento do Rock in Rio funcionava como uma gigantesca ponte de união entre três gerações. Ao seu lado, a catarse musical de Paul McCartney ou Peter Gabriel não passara de uma brincadeira de crianças.
Al Caeiro, com as suas raízes campestres, estava vestido de chefe índio, como habitualmente, em homenagem à Associação de Amizade Cernancelhe - Connecticut; Bernie Soares, para não variar, dava nas vistas com os seus cabedais negros à "motard"; Ricky Reis era o marujo de serviço, com um estetoscópio ao pescoço; por fim, Álvaro Fields marcava presença como o polícia da estrada.

- Olá, Lisboa! É uma alegria enorme estar aqui no Rock in Rio - gritou Bernie Soares, o líder da banda, no final do primeiro tema de um concerto que tinha a duração prevista de três horas.
- E agora, com muito amor e carinho e um abraço especial para todos os emigrantes que estão a passar férias em Lisboa e andam lá fora a lutar pela vida... vamos tocar "A meio do outeiro", uma composição do Al Caeiro.
Num fabuloso espectáculo de luz, cor e alegria, "A meio do outeiro" arrebatou a multidão, inteiramente conquistada pelas brilhantes coreografias da banda, que misturavam sabiamente o "disco", o "soul", o "funk" e o folclore português, com um ligeiro toque de madressilva e Madredeus.
"Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro/Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava./ Ele é o humano que é natural/Ele é o divino que sorri e que brinca./E por isso é que eu sei com toda a certeza/Que ele é o Menino Jesus verdadeiro".
De rostos colados, todos à volta do microfone de Bernie Soares (o "lead singer"), Al Caeiro, Ricky Reis e Álvaro Fields conferiam um enorme "feeling" ao refrão: "Menino Jesus, Menino Jesus, Menino Jesuuuus verdadeeeeiroooo".
Mais atrás, uma loira, uma ruiva, uma morena e uma chavala de cabeleira afro tratavam dos coros: "A meio do outeiro, a meio do outeiro, a meio do outeiro... só tu... só tu... Menino Jesus... verdadeiro... verdadeiro... a meio do outeiro".
Centenas de T-shirts brancas com letras negras eram agitadas pelos fãs: "A meio do outeiro, Albert Caeiro". Ou então T-shirts negras com letras brancas: "Ricky Reis: Doctor, Doctor, give me the news, bad case of loving you".
As miúdas do coro estavam frenéticas no seu metro e 80, mais as botas negras de tacões altos, para combinar com os vestidos prateados brilhantes, colados ao corpo, com um decote sugestivo. Uma perfeita simetria de carnes, odores e movimentos.
No meio da multidão, estudantes universitários carregavam barris de cerveja às costas, com uma bandeirinha a sobressair do conjunto, estilo carrinho de choque da defunta Feira Popular. Os fãs, ávidos, consumiam cerveja às toneladas, mantendo, apesar disso, um comportamento irrepreeensível.

A noite estrelada convidava à fraternidade e à troca de intimidades. Os olhares dos fãs cruzavam-se insistentemente pelo meio dos decibéis, à espera de um heliporto do afecto onde acostar. À espera de um colo maternal feito doca.
- Obrigado, Lisboa! We love you! Vocês são uma audiência do mais great que há! Sinceramente trully! Palavra de honour! É uma grande honra para nós estar a actuar aqui. Viemos directos dos States só p'ra vocês!
Palmas. Aplausos. Histerismos vários.Aquelas coisas habituais nos concertos, não é? É preciso dar um certo desconto.
- Mas não foi sacrifice nenhum. Foi um verdadeiro pleasure! A gente voou de Newark, disse adeus à estátua da Liberty e pensou que vinha dar alegria aos nossos queridos portugueses. Nós somos 45 por cento americanos, 45 portugueses e 10 por cento não respondem/não sabem. Mas acima de tudo a nossa ária é a língua portuguesa!
Mais um tema. Mais uma voltinha. Mais uma viagem. É entrar, meus senhores, é entrar!
- Obrigado, Lisboa! Aqui a cantar para vocês, neste maravilhoso palco, as lágrimas escorrem-me pelo rosto. E eu gosto de ter as lágrimas a escorrer pelo rosto. Obrigado, Lisboa! Mas infelizmente, pelo mundo fora, há muitas crianças a chorar de fome. Crianças que não choram de alegria, como eu, neste momento, aqui convosco. Por isso gostava de vos dizer duas ou três coisas nesta noite de amor...
A multidão não deixou Bernie Soares prosseguir. Bastou uma fã de mamas a abanar ao vento proferir a palavra mágica: "Bernie! Bernie! Bernie!". Logo os milhares de fãs se puseram a repetir o alakazam do fanatismo musical: "Bernie! Bernie!Bernie!".
Bernie queria prosseguir. Bernie queria andar para a frente e não conseguia. Faltava-lhe espaço afectivo. Faltava-lhe uma aberta entre os fãs. Bernie levantou os braços e tentou continuar:
(Continua)

(Luís Graça)

16.12.04

Umbigo #117

Que me seja permitido este pequeno acesso de frivolidade... Sabiam que o casal Beckham (para quem não os conhece, são eles o futebolista inglês David Beckham e a ex-cantora Victoria Beckham, outrora famosa nas dispensáveis Spice Girls) contratou um mordomo só para abrir os presentes de Natal? É verdade! Só para abrir os presentes de Natal!! That's it! De acordo com uma notícia hoje veiculada, o serviço vai ficar pela módica quantia de 1400 euros ("peanuts" para eles, naturalmente) e o subalterno não fará mais do que tirar fitas, abrir embrulhos e distribui-los pelos felizes contemplados. Será que vai sobrar alguma coisa para ele? Um fato de libré, uma caixa de rapé, uma gorjetona, uma gorjeteca, uma mão-cheia de nada, um pontapé no rabo? Ou será que o homem, e é se quer, vai ficar apenas com os destroços dos papéis de embrulho e já vai com sorte? Nesse caso, pode sempre juntá-los num monte e fazer uma fogueira com eles. Ou talvez vendê-los a uma central de compostagem. Se o fizer muitas vezes, talvez um dia arranje dinheiro para comprar à Victoria o Bentley de 300 mil euros que o David lhe ofereceu.

Mensagem da Gerência.

O Nicolau Saião, nosso colaborador de longa data, inicia hoje a sua participação na qualidade de colaborador permanente. Quem nos lê habitualmente sabe o que pode esperar do Nicolau. Os que não nos lêem, não sabem o que perdem.

Ilha dos Amores # 113




Já só têm até Domingo para assistir a "Ratos e Homens" ("Of Mice and Man", 1937), de John Steinbeck, numa encenação de Fernando Moreira, um dos mais brilhantes actores da nova geração e um talentoso dramaturgo, para o Teatro Art'Imagem. Ângela Marques, João Paulo Brito, Luís Araújo, Pedro Carvalho e Valdemar Brito dão corpo às personagens. É acima de tudo uma história de amizade e fraternidade, e uma das mais comoventes da literatura do século XX. O que resta da inocência e do sonho americano viaja com dois homens: George, homem lúcido e céptico que conhece bem a crueldade dos seres humanos, e Lennie, criança presa em corpo de gigante, com uma terrível necessidade de receber e dar afecto, mas que, incapaz de controlar o amor que tem por todas as criaturas vivas, as acaba por magoar ou destruir. Lennie é uma das personagens mais fascinantes da dramaturgia americana do século XX, e sem dúvida um desafio complicado para qualquer actor, já que oscila sempre entre o trágico e o burlesco. O actor que dá corpo a Lennie (penso que é o Valdemar Brito) está bem à altura da responsabilidade: nem é excessivo ou caricatural nem cai no erro oposto de deixa apagar ou esbater os sintomas de atraso mental de Lennie. O actor que faz de George é excelente, com o seu rosto duro e experimentado mas capaz de um sorriso genuíno e humano, e de uma enorme generosidade.
Pode parecer que os dois amigos não sabem para onde vão, e que são felizes por poderem dormir ao relento, sob a luz das estrelas. Lennie é sem dúvida uma criatura feliz, mas George sabe que o que está no fim do caminho, na América rural atingida pela Grande Depressão, onde não há lugar para os fracos, é o sofrimento, a miséria e a solidão. Lennie é o seu fardo, o sonho da terra prometida como uma criança que nunca aprendeu a andar, que não soube crescer, que existe num lugar fora do mundo. George sucumbe ao peso da realidade e terá que matar, dentro de si, esse sonho. "Ratos e Homens" é uma tragédia imensa.
O maior defeito desta representação de "Ratos e Homens", pelo menos daquela a que assisti, talvez seja, por vezes, uma certa incapacidade para evitar que aquilo que se passa em cima do palco (que é demasiado apertado e confuso, demasiado povoado por adereços) caia num registo abertamente cómico, por via da personagem de Lennie, e que saia do seu verdadeiro caminho, que é o trágico, mesmo sendo certo que algumas situações possuem um efeito cómico impossível de contornar. Mas a quem atribuir a culpa? À encenação ou ao público, que ri por tudo e por nada? E muitas vezes de coisas que não têm nem são para ter piada. No final da representação a que assisti alguém no público perguntava onde estava o sangue. Ele estava lá. Esteve sempre lá, só que muitos não o viram ou não se quiseram dar ao trabalho de o ver. "Ratos e Homens" está em cena na Sala Latino do Teatro Sá da Bandeira, às 21:30h hoje, Quinta e Sábado. No Domingo é às 16:00h. Ainda há tempo.

O baú do John Silver # 1

Minha folhinha de Bloco-Notas:

Procurei-o durante anos! Por desertos, por sóis, por noites escuras e por locais inabordáveis mais terra-a-terra. Queria tanto ter um amigo! Isto é humano, creio eu, mesmo na estepe da política - esse lugar ora sórdido ora inquietante.
Finalmente encontrei-o e parece-me que tal vai ser p'rá vida e p'rá morte.
Sabes, Folhinha? Se calhar ainda iremos ouvir, juntinhos, os concertos para violino do Chopin...

O teu A.

Cimbalino Curto #123



Num post recente, o Filinto Melo lembrava que desde que o contabilista entrou ao serviço, o Porto acinzentou-se. Estou de acordo. Mas também não estou. De um certo ponto de vista, o Porto até está mais divertido. Explico-me: antes da chegada do contabilista o absurdo existia apenas nos romances e em alguns poemas com alguma idade. Agora, o absurdo é a própria realidade. O absurdo transformou-se na principal cultura da cidade. Surgiram importantes plantações de absurdo um pouco por toda a parte e principalmente nas chamadas "instituições" do Porto. Querem uma prova? Dou duas: as declarações de Paulo Morais e Laura Rodrigues, a propósito da abertura eternamente adiada do Cinema Batalha, espaço que pertence à câmara e que foi cedido à Associação de Comerciantes do Porto. Estão ambas no Jornal de Notícias de dia 14.

"Já há largos meses que as obras estão prontas. Não sei o que aconteceu. Eu próprio me interroguei por que é que o (cinema) Batalha ainda não está aberto. Penso que está pronto desde Janeiro."
(Paulo Morais, Vice-Presidente da Câmara do Porto)

"(A abertura do cinema Batalha) tem de ser em 2005. Caso contrário, nós abandonamos o projecto."
(Laura Rodrigues, Presidente da Associação de Comerciantes do Porto)

Creio que agora já ninguém duvida que a poesia está de novo na rua.

Post Scriptum # 430



Safo
(Grécia/ Ilha de Lesbos, Séc. VI a.C.)

O que de mais belo há
sobre a terra negra
dizem alguns que é
um esquadrão de cavalaria; outros,
de infantaria; outros ainda,
uma esquadra de navios.
Para mim é aquilo
a que cada um está
preso pelo coração.
Fazer com que isto seja
de todos entendido
é o que há de mais fácil. Na verdade,
Helena, que em beleza
a todos muito suplantava, abandonou
o mais excelente dos homens, para Tróia
navegou e, esquecida
da filha e dos pais queridos, deixou...
............................................: Isso
me traz agora à lembrança Anactória,
que está ausente. Anactória cujo
gracioso andar e brilho
irradiante do rosto
mais desejaria ver que os carros
de guerra dos lídios e os soldados
com suas armaduras.
....................................................

Tradução de Albano Martins.

Para os interessados, vale a pena confrontar a leitura deste fragmento de Safo com o célebre "Politics" de Yeats.

15.12.04

Post It #234



"Sleeping Beauty hasn't always been a docile object, says Lyn Gardner. She's had to face a cannibal queen, a rapist king - and even a Nazi prince."

As mil e uma vidas da Bela Adormecida. Excelente lição de História, aqui.

Post Scriptum # 429

Contos de Luís Graça no Granito.

O INSONDÁVEL CASO DO MISTERIOSO PONTO GL
(Terceira e Última Parte)


Fernando sentou-se, pediu um tartex e um conhaque, só para entreter. Um criado de cabelos grisalhos e pinta de bissexual veio limpar a mesa das migalhas, com uma escovinha toda amaricada. O som da escova na toalha manchada de "Porta da Travessa tinto 1640, 2ª edição" produziu um efeito calmante no lisboeta, que pediu um charuto e se recostou no amplo cadeirão de cabedal. Pouco depois chegou Florbela, com um saco de plástico preto e doirado.
- Então, essas compras?
- Sabe, Fernando, este país está cada vez mais pindérico. Para além de fechar às 19 horas, a sex-shop tem uma capacidade de rotação de produtos verdadeiramente escassa. Lá tive de comprar um capuz do ano passado, uma coisa completamente ultrapassada. Já ninguém fustiga em Paris com um capuz assim. Mas nós somos o esgoto da Europa e Vila Viçosa deve ser a capital do "dumping" dos produtos S&M.
- Tenha calma, Florbela. Também não há-de ser assim tão mau.
- É, sim senhor. Já viu a carta, Fernando? Aconselho particularmente as "Enguias ao supremo enleio". É um prato de homenagem ao meu poema, que termina assim: "E quando a derradeira, enfim, vier,/Nesse corpo vibrante de mulher/Será o meu que hás-de encontrar ainda...".
Fernando estava mais virado para o tornedó de carapaus com molho à espanhola, acompanhado por feijão verde e castanhas assadas, uma especialidade do Chef Sílvio, recém-chegado de um estágio de "nouvelle cuisine" na Tasconha. Florbela pediu a Hamlet de Ovas de Intrujão. Com uma salada de alface e tomate, temperada com agriões.
O repasto estava a decorrer da melhor forma, ao som ambiente de Mozart, que se esgueirava pela sala ampla com a subtileza de um esquilo dos jardins de Gotemburgo. Na mesa ao lado, um sujeitinho não parava de rabiscar, em fúria, apontamentos para algo que o afligia. Escrevia e riscava, riscava e escrevia.
Às tantas, Fernando António, prestável, ofereceu-se:
- Peço desculpa de me intrometer, mas a minha pátria é a língua portuguesa. Posso ajudá-lo?
- Obrigadíssimo. Estou a tentar escrever a minha prosa de hoje para a crónica "O barbante na horizontal". Não me sai nada. Nem um filme, nem uma peça de teatro, nem um comentário político. Vila Viçosa secou-me...
- Não diga isso. Uma terra que inspira a Florbela não pode secar ninguém literariamente. Olhe, ainda hoje à tarde senti uma verdadeira aproximação ao Ponto L...
- Ó meu amigo, que felicidade! Quanto eu não daria para aflorar de raspão o Ponto L...

Fernando António estranhou que o fulano soubesse o que era o Ponto L. Mas a verdade é que estava perfeitamente ciente dessa realidade literária. Apresentaram-se.
- Fernando António, escritor.
- Eddie Rabbit, professor subsidiário.
- Então o que o traz a Vila Viçosa?
- Estou a preparar uma tese, precisamente sobre o Ponto L. E talvez sobre o Ponto GL.
- O Ponto GL?!? - estampou-se de estupores o rosto de Florbela.
- Sim, o Ponto GL é o nirvana. A definição é esta: "Atinge-se o ponto GL quando a qualidade literária é tão elevada que produz uma ejaculação". Ou seja, é a mistura do Ponto G com o Ponto L. Não há orgasmo mais perfeito.
- Nem a surfar um "pipeline" no Hawai? - perguntou Fernando.
- Nem isso. Nunca atingi o Ponto L, mas tenho amigos que o conseguiram, embora nunca atingissem o GL. Donde, o mais correcto é conformarmo-nos com o nosso destino. Donde, o melhor é continuar a ler Benjamin, Derrida e outros que tais. Dá sempre jeito para uma boa mesa redonda, um colóquio. Donde, cá vamos andando.
O diálogo prosseguiu animado pela noite fora. Fernando António, Florbela Espanca e Eddie Rabbit partilhavam a paixão pela literatura. Ora, se juntarmos a esse gosto uma mesa farta e aprimorada, que mais se pode pedir? Eddie Rabbit acabou por escrever a sua crónica à sobremesa ("O cinema de animação existe?") e saiu com os dois amigos para a noite de Vila Viçosa, agitada por uma movida sempre renovada.
No restaurante "O pargo enchernado", finalmente vazio, um quadro vetusto ganhou uma animação particular. O Marquês de Bricolage podia finalmente mexer-se. Fez uns exercícios de desentorpecimento, baixou-se para um afago ao canídeo e desabafou:
- Porra, estava a ver que estes chatos nunca mais se iam embora. Como está o meu Mondeguinho? Uma festinha no Mondeguinho, uma festinha no Mondeguinho...
Na parede em frente, num quadro de Sisley, um homem num barco gritou para o Marquês de Bricolage:
- Ó Marquês! Todas as noites é a mesma coisa. Desvie lá a arma! Sempre que faz festas ao cão a arma fica apontada para o meu quadro. Não lhe chegou ter acertado na aguarela da Catarina Eufémia na Noite de Natal?
Quem sabe alguma coisa sobre os fantasmas de Vila Viçosa que ponha o dedo no ar. Está bem, Grafenberg, está bem... vejo que o senhor sabe.

Von Grazen, 20/7/2204, 00h45m.

(Luís Graça)

Primeira parte deste conto | Segunda parte deste conto

Post Scriptum # 428


Alceu e Safo, detalhe de um vaso ateniense,
cerca de 480 a.C.


Alceu
(Grécia/ Ilha de Lesbos, c. 620 a.C-c.580 a.C.)

Bebamos. Porque havemos
de esperar pelas lucernas? O dia
tem a extensão de um dedo. Traz
as taças grandes, meu amor, as coloridas
taças. O filho
de Sémele e de Zeus aos homens
o vinho deu para esquecimento
de seus males. Enche-as
até transbordarem - uma
parte de vinho para duas
de água. E que uma taça
empurre a outra.

Tradução de Albano Martins.

14.12.04

O Povo é Sereno #192



Cartoon de David Rees.
(Versão ampliada)

Post Scriptum # 427

QUE NEM GINJAS

Vai haver eleições? Ah pois vai! E já se sabe o dia, a hora e o minuto do mês - a consulta nas urnas vai mesmo suceder para grande gosto de uns e certo desespero de outros.
À guisa de reflexão filosófica, inteiramente manejável e muito maneirinha, talvez faça sentido dar a lume o poema de António Luís Moita, inédito ainda por cima, que nos dirige umas perguntas mesmo à mouche do alvo do meio do coração que qualquer ser votante possui no honrado peito democrático. É o

MONÓLOGO DO ELEITOR

Acabaram-se as Direitas?
Dissiparam-se no Centro?
Serão as Direitas feitas
de esquerdino movimento?

Sendo as Esquerdas sujeitas
ao mesmo vaivém do vento
vão, com as nuvens, direitas
à parte esquerda do Centro?

E o Centro? O que é o Centro?
Em que centro se situa?
No centro do Centro-Centro
de um satélite da lua?

É um Centro direitista
para a Esquerda cor-de-rosa?
Ou a tendência Sinistra
da Dextra silenciosa?

Que Centro é esse? Um sinal
de não comprometimento?
Ou, ao contrário, um invento:
manobra do Capital?

Será o Centro a Direita?
Fascismo com meiga fala?
Medo? Angústia? Um olho à espreita
com raiva de não ser bala?

E a Esquerda? O que é a Esquerda?
Dissiparam-se no Centro?
Serão as Direitas feitas
de esquerdino movimento?
retrocesso à burguesia?

E a esquerda Extrema-Esquerda
- a que tudo desagrega -
o que será quando vemos
que a Direita se lhe pega?

Será mesmo Extrema-Esquerda
a pedir terra queimada?
Ou um braço que a Direita
manipula encapuçada?

Será cravo de pureza
ou goivo de gula grada?
Lirismo? Farsa? Utopia?
Concreta antropofagia?
Fim do dia ou alvorada?

Ou nem sequer há Direitas
nem Esquerdas nem mesmo Centro
sendo isto ideias estreitas
em que, aprendiz, me concentro?

Serei eu, nascido outrora
quando só Direita havia,
que ga-ga gaguejo a História
da de-de democracia?

(Nicolau Saião)

Señor Tallon #90



Este é um daqueles casos em que a literatura ultrapassa a própria realidade. Daniel Clune, um dos principais responsáveis da organização bookcrossing a nível mundial, está desaparecido desde os primeiros dias de Novembro. A família e a organização já anunciaram várias recompensas para quem fornecer pistas sobre o seu paradeiro. Um dos comunicados oficiais que circula na internet diz o seguinte: "The key to finding him is out there somewhere, but has not yet been found."

Post Scriptum # 426

Contos de Luís Graça no Granito.

Prosseguimos hoje a publicação do conto "O Insondável Caso do Misterioso Ponto GL", de Luís Graça, pertencente ao seu livro "15 desatinónimos para Fernando Pessoa", a publicar em breve.


O INSONDÁVEL CASO DO MISTERIOSO PONTO GL
(Segunda Parte)


Era óbvio que Grafenberg também sabia o que era o mastoideu. Mas não foi disso que falou a seguir. Referiu de imediato que a "Borboleta em suspensão" também podia ser designada por Aka Somf (senta-te na minha cara). Meia-hora depois, com um ar grave, rematou: "O factor prazer durante a cópula é directamente proporcional ao conforto da posição que ambos adoptarem".
E isto independentemente de se ser de Esquerda ou de Direita.
- O senhor Fernando é um homem culto, já vi. Mas sabe, por exemplo, o que é o nó Y?
Já eram letras a mais para uma só tarde. Fernando António encolheu os ombros e Florbela Espanca solidarizou-se com o poeta, na sua ignorância.
- Y só conheço o suplemento do "Público", às sextas-feiras - afirmou Fernando.
- Nó, só conheço os de marinheiro e o górdio - disse Florbela.
- Para o movimento de nó Y, o homem alarga a lábia, servindo-se de dois dedos de uma mão e, com a segunda mão posicionada mais acima, coloca o dedo médio, ou os dois juntos, de modo a massajar o clítoris com movimentos laterais, para cima e para baixo, ou com movimentos circulares.
"Chapeau"!
Grafenberg não tinha apenas lábia. Ele sabia mesmo do que falava.
- Permitam-me que lhes aconselhe a leitura de Puchkine.
- Eu já leio os contos de Puchkine. Muitíssimo bons - confessou Fernando.
- Ah! o cavalheiro conhece os contos. Mas eu não me refiro aos contos. Refiro-me ao seu diário secreto. Conhece? Não? Está a ver como são as coisas?
Ora bolas! O Grafenberg começava a tornar-se um bocado chato, com a sua omnisciência. Está certo que já se tinha aprendido umas coisas, mas se o homem quase não passava a bola, era sabido que a tarde ameaçava tornar-se longa como o caraças. O melhor era mandar vir mais uma meia-dúzia de bagaços, pelo sim pelo não.
"E ser cornudo é horroroso e insuportável. Ninguém se aproveitou tanto da falta de conhecimento dos maridos como eu, e como eu gostava de ver os seus cornos a crescer, invisíveis para todos, excepto para mim!".
Pois. A páginas 25 do livro editado pela Difel.

O homem citava as páginas como quem bebe um copo de água. Ou um bagacito, no meu caso. Foi a Florbela quem salvou a situação, desviando a conversa para os tempos retroactivos dos romanos e levando o jogo para o livro escrito por John Clarke, primo do antigo campeão de Fórmula Um, Jim Clark. "Le Sexe à Rome", editions de La Martinière, gravura sugestiva na capa, com uma romana montada num romano. Uma pintura erótica da Rua Mercúrio, em Pompeia, no século I.
Alguns investigadores defendem que a mulher se chamava Maria José e o homem João Francisco, mas é altamente improvável.
- Sabe, amigo Grafenberg, muito do que nos disse já os romanos sabiam, séculos atrás.
- Não duvido, cara senhora. Mas é preciso sistematizar as coisas.
- O amigo Grafenberg sabia que a páginas 67 de "Le sexe à Rome" o último subtítulo diz "Tableaux de sex shows dans l'auberge de la rue Mercure?" - invectivou Florbela.
- Desconhecia totalmente, minha amiga. Por quem é!
- E sabia que isto só foi retirado das cinzas em 1823?
- Não fazia a mínima ideia.
Ora toma! Boa, Florbela! Só para o homem não ter a mania que sabe tudo. Já estava capaz de o mandar meter o dedo no rabo. Não o faço por mera prudência. O gajo punha-se logo a citar as técnicas de meter o dedo no rabo e eu é que ficava de cara à banda. Vou contra-atacar, agora que a Florbela já o encostou às cordas e o canto neutro está ocupado por vendedores de bijuteria.
- Amigo Grafenberg: já que estamos em maré de confidências, sabe o que é o ponto L?
O homem ficou branco. Suores frios começaram a escorrer-lhe pelas costas abaixo. Tantos anos de taradice sexual, tantas horas enfiado nas bibliotecas a masturbar-se com as gravuras antigas, tanto esforço posto em causa de um momento para o outro. Primeiro, o tal livro dos romanos que ele desconhecia por completo. Depois, um ponto L perfeitamente omisso no seu repertório de conhecimentos. Ó Céus cruéis!
Fernando António avançou, decidido.
- O Ponto L é o Orgasmo Literário, amigo Grafenberg!
Completamente derrotado, Grafenberg escusou-se com uma conferências das 9 da noite em Leipzig, com um helicóptero à sua espera, com um javali ao lume. Uma coisa assim. Foi-se. E tudo o vento levou.

Fernando António e Florbela Espanca suspiraram.
- Olha, Fernando, vai o meu último soneto, antes do jantar?
- Vamos nisso, Florbela.
- Chama-se "Horas rubras". É assim: "Horas profundas, lentas e caladas/Feitas de beijos sensuais e ardentes,/De noites de volúpia, noites quentes/Onde há risos de virgens desmaiadas...
Oiço as olaias rindo desgrenhadas.../Tombam astros em fogo, astros dementes,/E do luar os beijos languescentes/São pedaços de prata plas estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos.../Os meus braços são leves como afagos./Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve branca e misteriosa.../E sou, talvez na noite voluptuosa,/Ó meu Poeta, o beijo que procuras!"
- Belo poema.
- Obrigada. Fi-lo há dias, no intervalo da orgia na mansão.
- Ah! daí a referência aos risos de virgens desmaiadas...
- Pois é, primeiro riem-se, depois desmaiam, quando percebem o que lhes vai acontecer. A propósito, vamos pagar a conta, que ainda tenho de ir comprar um capuz novo, antes da sex-shop fechar. Tenho usado um de cabedal preto que é uma verdadeira estufa. Uma pessoa até perde o prazer de estar a chicotear o vereador da Cultura...
Fernando António, cavalheiro, pagou a conta. Florbela saiu primeiro, em passo de corrida, dificultado pelos tacões-agulha dos seus elegantes sapatos à sado-masoquista. A sex-shop estava quase a fechar. Combinaram encontrar-se uma hora mais tarde.
O restaurante "O pargo enchernado" (especializado em "Pargo à la cherne","Caldeirada de lulas enraivecidas" e "Cataplana à la bacana com banana") era um "must" de Vila Viçosa e já tinha sido combinado que Fernando António e Florbela Espanca fariam as honras da casa no primeiro dia da estada do poeta no magnificente rincão telúrico de Portugal.
Fernando escolheu uma mesa discreta, ao pé da lareira, encimada por alguns versos de Florbela:
"Gosto de ti apaixonadamente,/De ti que és a vitória, a salvação,/De ti que me trouxeste pela mão/Até ao brilho desta chama quente". Ao lado, um brasão de Vila Viçosa e um quadro do Marquês de Bricolage, com uma caçadeira na mão e um perdigueiro aos seus pés.

Fernando sentou-se, pediu um tartex e um conhaque, só para entreter. Um criado de cabelos grisalhos e pinta de bissexual veio limpar a mesa das migalhas, com uma escovinha toda amaricada.
(Continua)

(Luís Graça)