31.3.04

Diário de Sophie #0.

Rui: Sophie. Ao Quartzo falta-lhe um pouco de reality show. Algo que suba as audiências. Este blog precisa de histórias da vida real. Precisa de quotidiano, de aventura, de dinâmica narrativa. Precisa de conto, intriga, romance, enredo. Este blog precisa de ti, Sophie.
Assim, e depois de uma discussão aberta no seio da comuna, gostaríamos de te convidar a fazer parte do nosso painel.
Sophie: "Wait a minet..."
Rui (depois de engolir saliva): Como????
Sophie: ... Mr. Rui. Acho que tu és um poeta exemplar. Dos melhores da tua geração. E isso, até pode desculpar o suor das axilas, os "puloberes" em bico de marca branca, a meia de lã cinzenta com o sapato de camurça castanho, as camisas Triple Marfel às riscas e os saldos de Inverno da MacModa. Mas não desculpa, com toda a certeza, este assédio sexual patético. Sabes bem que fui abandonada por essa máquina sexual, esse Figo do amor que entretanto fugiu para o Iraque, à procura de mercados emergentes, e me deixou sozinha com a edição em DVD do "Sexo e a cidade". E agora, aproveitando esta minha debilidade momentânea, convidas-me para mostrar o meu seio à comuna???
Hummm... tá bem, aceito.

Post Scriptum # 185

Momentos de ouro do "Heróstrato" de Pessoa:

"Quando uma época anseia por algo de novo (se é que as épocas sentem algum anseio), o que deseja é algo de velho" (Heróstrato, Assírio & Alvim, 2000, p.69).

"Todos os grandes poetas têm pertencido a uma continuação da mesma tradição diversificando-a pelo temperamento"(Idem, p.92).

"E se a sua originalidade, em vez de consistir num afastamento dos antigos padrões, residir na utilização dos mesmos segundo regras mais severamente construtivas - como Milton usou os antigos - irá o crítico encarar esse aperfeiçoamento como tal, ou verá na utilização desses padrões uma imitação? Verá mais o construtor do que o utilizador dos materiais de construção?" (A Inutilidade da Crítica, idem, p. 250).

Momentos de ouro dos "Ensaios" de T. S. Eliot:

"A tradição é de significado muito mais amplo. Não pode ser herdada, e se a quisermos, tem de ser obtida com árduo labor. Envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico, o qual podemos considerar quase indispensável a quem continue a ser poeta para além dos seus vinte e cinco anos. E o sentido histórico compreende uma percepção não só do passado mas da sua presença; o sentido histórico compele o homem a escrever não só com a sua própria geração no sangue, mas também com um sentimento de que toda a literatura europeia desde Homero, e nela a totalidade da literatura da sua pátria, possui uma ordem simultânea e compõe uma ordem simultânea. Esse sentido histórico (...) é o que torna um escritor tradicional." (A Tradição e o Talento Individual, Guimarães, 1997, p. 23).


É interessante verificar como Pessoa e Eliot estavam tão perto um do outro nas suas concepções teóricas sobre a arte e a literatura. Ambos achavam, por exemplo, que em literatura a originalidade e a genialidade possíveis estavam na reeinvenção da tradição poética que os precedeu; ambos entendiam a poesia sua contemporânea como a matéria-prima poética do passado trabalhada à luz das (novas) formas do presente. Tinham uma ideia vasta e variada da tradição que os antecedeu. Não viam apenas, decerto, a rua onde viviam e mais três ou quatro casas ao redor dispersas. Recusaram a facilidade e optaram pela sabedoria e pelo trabalho. Ambos estavam certos.

PESSOA - Heróstrato. Ed. de Richard Zenith. Lisboa, Assírio & Alvim, 2000.
ELIOT - Ensaios de Doutrina Crítica. Traduzidos com a colaboração de Fernando de Mello Moser; prefácio, selecção e notas de J. Monteiro-Grillo. Lisboa, Guimarães Editores, 1997.


”Broken noses carrying a bottle # 2”,
Juan Muñoz, 1999.

Señor Tallon #53

Rubrica "um blogue ao serviço do público".

Na FNAC de Santa Catarina, as Confissões Sexuais de um Anónimo Russo estão em promoção. Apenas €2,5 por um dos melhores livros eróticos publicados em Portugal, nos últimos anos.

Pausa para publicidade.



“Nerve's Guide to Sex Etiquette for Ladies and Gentlemen”, by Em & Lo.
A must read for anyone with working genitalia and a sense of common courtesy, “Sex Etiquette” is committed to saving readers from a lifetime of sexual faux-pas. This outrageously helpful handbook, which covers everything from cheek kiss to clean up, will teach you, among other things: a gentleman or lady never looks someone in the boobs or genitals while talking, even if that person's daring neckline or visible pantaloons line (V.P.L.) has a paralyzing effect on their thought process.
Disponível aqui.

30.3.04

Mensagem da Gerência.

Tal como o Pedro tinha dito, há mais uma novidade no Quartzo, Feldspato & Mica. E a novidade chama-se Sophie. É a partir de sexta-feira. Faltam, portanto, 3 dias, tantas e tantas horas, tantos e tantos minutos, e não sei quantos segundos.

O Porto é a nossa cidade, o Porto burguês e obscuramente canalha, com seus dias de veludo e outros a roerem-nos os ossos.

Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica.


Regina Guimarães.

Post Scriptum # 184

É um acontecimento. O número zero da "Primeira Prova", revista electrónica de línguas e literaturas modernas do departamento de estudos portugueses e românicos da Faculdade de Letras da UP, já está no ar. É elaborada por professores e alunos e vem desanuviar um pouco a atmosfera cerrada e parda que envolve as nossas faculdades e as torna em instituições pouco acessíveis e pouco prazenteiras. A qualidade da revista, dirigida por Francisco Topa, João Pedro da Costa, Patrícia Figueiredo e Rosa Maria Martelo é surpreendente pela sua qualidade e variedade (tem poesia, conto, crónica, ensaio, crítica, traduções e entrevistas, e os textos são inéditos). As colaborações são excelentes. Aqui fica uma pequena amostra do que lá podem encontrar: poemas de Ana Luísa Amaral, Luís Adriano Carlos, João Pedro da Costa, Vítor Oliveira Jorge, Daniel Jonas, etc.; uma entrevista a Regina Guimarães; traduções de textos de São João da Cruz ou de Clarice Lispector, entre outros; ensaios de José Blánquez Vico, Luís Adriano Carlos, Constança Carvalho Homem ou Sónia Quental, entre muitos outros. Vale mesmo a pena a visita.

Señor Tallon #52

W. S. Adams era um velhote escocês de 84 anos que vivia nos subúrbios de Edimburgo. Morreu em Junho do ano passado. Quase ninguém sabia nada sobre ele. Mas parece que Adams era um dos maiores coleccionadores de livros da Escócia. A sua colecção, avaliada em mais de 100.000 libras, vai a leilão amanhã, 31 de Março. O catálogo é fabuloso.

Ilha dos Amores #32

O que fazia Stanley Kubrick quando não fazia filmes?

Tony takes me into a large room painted blue and filled with books.
"This used to be the cinema," he says.
"Is it the library now?" I ask.
"Look closer at the books," says Tony.
I do. "Bloody hell," I say. "Every book in this room is about Napoleon!"
"Look in the drawers," says Tony.
I do.
"It's all about Napoleon, too!" I say. "Everything in here is about Napoleon!"


Uma extraordinária visita de estudo aos arquivos privados de Kubrick, com o patrocínio do Guardian.

O Povo é Sereno #73

O que diz César, no DN de hoje.

São hoje esquecidas e atacadas as duas razões mais próprias da glória feminina, o encanto da virgindade e a grandeza da maternidade. O engano é tal que vemos mulheres apreciar como ganhos a perversão da maternidade pelo aborto, da virgindade pela libertinagem, da família pelo divórcio. Cedem à promiscuidade e pornografia, velhas obsessões varonis. A promoção da homossexualidade baralha até os dados da natureza.

Volta Brutus, estás perdoado.

Há um excelente comentário de Cláudia Caetano sobre este assunto.

Post Scriptum # 183

QUATRO EPIGRAMAS DA ANTOLOGIA PALATINA

Epigrama nº 16
Ossos e um nome mudo, eis o que contém a sepultura
de Safo. Mas as palavras dela são imortais.
Pínito (séc. I d.C.)

Epigrama nº 28
Estrangeiro, esta é a sepultura de Anacreonte. Ao passar
diante, entra e faz-me uma libação: eu sou um amante do vinho.
Anónimo

Epigrama nº 33
Bebeste muito e morreste, Anacreonte. – Mas gozei muito.
E tu, que não bebeste, também virás para o Hades.
Juliano, prefeito do Egipto (séc. VI d.C.)

Epigrama nº 96
Bebe agora que estás junto de Zeus, ó Socrates. É bem verdade,
realmente, que o deus te declarou sábio e a sabedoria deus.
Dos Atenienses, tu só recebeste cicuta,
mas foram eles que pela tua boca e beberam.
Diógenes Laércio (séc. III a.C.)

Tradução de Albano Martins. Do Mundo Grego Outro Sol, Asa, 2002.

Post It #99

Se há um blogue que merece ser venerado por mais de 467.972.461 leitores, esse blogue só pode ser este.

29.3.04

Umbigo #18


O JUP é como as cerejas, as recordações & evocações vêm sempre aos cachos... Serve esta original frase para lembrar que, dois anos antes do prémio atribuído pela "Visão" ao José Manuel Bacelar (parabéns!), outro ex-jupiano, Paulo Duarte, havia ganho o mesmo concurso com a célebre (e premonitória) foto de António Guterres sob os restos da ponte Hintze Ribeiro.

Vai no Batalha # 15


O meu reino pelo "show" dos Marretas. Que saudades do melhor "talk-show" e programa de variedades de todos os tempos. Ah Miss Piggy, a diva...!; Kermit, esse verde e talentoso pivô; Fozzie, precursor do "homem que mordeu o cão" (mas mil vezes melhor); Gonzo, o meu predileto, porta-voz dos excluídos e dos tristes, pau para toda a obra mais o seu harém de galinhas; Animal, o mais rebelde e niilista dos "headbangers"; Porcos do Espaço, exploradores das infinitas distâncias do cosmos e prenhes de meditações sobre a condição humana na sua relação com um princípio superior; Beaker, aquele extraordinário ser que não consegue falar e se limita a articular um dos mais célebres monossílabos da história da televisão ("mi-mi-mi-mi") e que é a sempre fiel vítima das desastrosas experiências do Dr. Bunsen Honeydew; e claro, Waldorf e Statler, os dois impagáveis velhotes que passavam a noite na maledicência e nos quais Júlia Pinheiro, como é sabido, se inspirou para "a noite da má-língua". E também, do criador de sonhos Jim Henson, os "Fraggles", melancólicas e estranhas criaturas de bizarros apetites, encurraladas nas goelas da terra entre os enormes e peludos Ogres e os Doozers, aqueles minúsculos seres edificadores de estruturas, os estrumpfes da engenharia civil, cujos andaimes acabavam sempre por lhes cair em cima numa clara violação de todas as normas de segurança no trabalho (o seu fito não era a construção mas construir). Há um divertido glossário de toda a fauna criada por Jim Hensom no Kermitage.com.
Não há por aí nenhum canal que queira repôr os "Marretas"...? Preferem o "MacGyver"...? Que mau gosto... E se começássemos um abaixo-assinado?
Ó Marretas!, porque nos abandonastes?!

Post It #98

Holy shit, Batman!

While Batman was always poised and in control of his emotions, Robin was a highly excitable young man. Throughout their exploits, Robin would often find some event, some comment, some thing, completely unbelievable. On these occassions, he would exclaim, "Holy (insert words here), Batman!"
Mais exercícios aqui.

Post Scriptum # 182

Wislawa Szymborska já falava português há algum tempo. Milosz já fala. Falta Zbigniew Herbert.

Umbigo #18

O meu amigo Jagodes

Será preciso apresentar-vos o meu confrade José Jagodes? Creio que seria estultícia – como usa dizer o prof. Pamplinas Miragaia – ter tal procedimento.
Pois quem não conhece o famoso José Jagodes? O intelectual brilhante mas modesto, o aventureiro epicurista, o pensador profundo e o conhecido polemista - já terçando lanças com Edmundo Prates Carmelo, Sousa Trindade ou Perneco Ferreira, já trocando farpas com o até à altura imbatível Ronaldo da Silva, o único luso comentador que conseguiu, num lance famoso, polemizar consigo mesmo ao espelho mas que no confronto com o Dr. Jagodes teve de se calar pela primeira vez, enfiado e tartamudeando.
Foi, com efeito, esta personalidade ímpar que me remeteu da sua casa de Linda-a-Velha uma carta que vos vou confiar com todo o gosto:
“Caro amigo: Já disseste, e talvez com razão, que algumas das palavras que te tenho escrito provavelmente ajudarão a fazer a “pequena história” desta região chamada Portugal e do muito povo que nela reside e mesmo vive. Por isso, aqui vai um novo esboço...
Tu sabes, meu maroto, como eu sou respeitador das leis, dos costumes, dos bons hábitos tradicionais – principalmente quando me encontro no alto dos Pirinéus, no deserto do Kalahari ou na Antártida. Mas bem: sou o que se costuma chamar um bezerrão, pois não me meto com ninguém, pago os impostos regularmente e nem digo que o…tu sabes, é um canastrão de trinta diabos. No entanto, há dias fiquei zonzo, estupefacto, mal disposto, acanaviado, mesmo furioso e com vontade de largar um petardo nesta geringonça.
Então não foi o caso que me disseram, nos jornais e nos demais órgãos de lavagem ao bestunto nacional, que um muito digno senhor acompanhado de outro senhor mui digno tinha visto o processo em que estava enredado prescrever depois de nove (nove!) anos de demoras processuais? Ponho-me, não to nego, branco com a fúria! Demoras processuais? Porque não dar-lhe o seu vero nome: cumplicidade na desculpabilização? Porque não referir, com o direito que a Constituição nos garante, que os sujeitos que tinham a ver com este caso simplesmente se bandearam misticamente com os outros para que (alegadamente, como se diz com doce prudência) eles pudessem ter rapinado à vontadinha?
Então não há um organismo para aquilatar da competência ou do desleixo destes protagonistas do cancro que está a destruir a Nação?”.
Li e engoli em seco. Decerto como todos vós.
Tenho de ter cuidado nestes meus contactos com o Jagodes. Até pode calhar que ele tenha razão no que diz. Mas…confesso que me começo a preocupar: qualquer dia o meu amigo vai dentro e eu não quero ser arrolado de embrulho, ainda tenho muito que fazer. Vou ser prudente. Mesmo que me chamem um bocadinho medroso, quero lá saber! É que numa terra como a nossa, de gente de categoria, todo o cuidado é pouco.
E, francamente, se queremos boas leis podemos ir com o Jagodes para a Antártida. Ou para o cume dos Pirinéus. Ou, mesmo, para o deserto do Kalahari, rincão onde não há água ou viçosa vegetação mas onde os processos não costumam demorar a deslindar-se docemente nove arrastados anos.


Nicolau Saião

Señor Tallon #51

Dizer que se ouve “música clássica” para "relaxar" é o mesmo que dizer que não se ouve “música clássica” com ouvidos de ouvir.

Umbigo #17

José Manuel Bacelar, outro amigo dos gloriosos tempos do Jornal Universitário do Porto, foi o grande vencedor da 4ª edição do Prémio VISÃO de Fotojornalismo. Estamos muito orgulhosos.

26.3.04

Vai no Batalha #14

No futebol, a História de alguns clubes tende a repetir-se.

O Povo é Sereno #72

Repórter da estação de rádio Antena 1, esta manhã (noticiário das 8h00), num café de Castelo de Paiva, “auscultando” a opinião de alguns "habitantes locais" sobre a decisão do Juiz Nuno Melo de arquivar o processo da Ponte de Entre-os-Rios.

REPÓRTER: O senhor, desculpe, concorda com a decisão do juiz de arquivar o processo de Entre-os-Rios?
HABITANTE LOCAL: Claro que concordo.
REPÓRTER: Concorda então com a tese de que a ponte caiu por causas naturais?
HABITANTE LOCAL: Claro que sim. Há muito tempo que sabíamos que mais dia menos dia a ponte ia cair. Toda a gente sabia isso. Só não via quem não queria…

O Silêncio é de Ouro # 49

Kenneth Arthur McIntyre nasceu em Boston, em 1931. Começou a tocar saxofone com 19 anos e em relativamente pouco tempo tornou-se um dos músicos mais versáteis da sua geração: tocava 16 instrumentos, alguns dos quais com grande virtuosismo. No princípio dos anos 60, passou a dedicar-se ao ensino da música em escolas públicas de Nova Iorque, tocando e gravando discos em part-time. Álbuns fundamentais como “Hindsight” (1974), “Home” (1975) e “Chasing The Sun” (1978) foram, digamos, gravados nas pausas entre os periodos lectivos. Nos anos 90 adoptou o nome de Makanda Ken McIntyre e em 2001 editou o seu ultimo disco, “A New Beginning”. Morreu em Junho de 2001. Ken McIntyre é talvez o maior artista esquecido da história do jazz.

Raul Silva

25.3.04

AGENDA

Quadros Técnicos Superiores. Exposição de Pintura de Jaime Braz, na Galeria-Bar SOUK, em Lisboa. Até 17 de Abril.

Rosmaninho e Alecrim, “teatro musical” pela Companhia da Esquina. Em cena no Teatro S. Francisco (Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, 11, Lisboa), a partir de 17 de Março. Um projecto da autoria de Guilherme Filipe e Jorge Gomes Ribeiro. Contactos para informações e marcações: Jorge Ribeiro – 968 242 214/ 914 306 562; daesquina@yahoo.com.br.

Nos dias 27 (21h45) e 28 de Março (16h30), a Mandrágora apresenta a peça O_Rosbife_ponto_come_se, de M. Almeida e Sousa, no Auditório Fernando Lopes Graça, no Parque Palmela, em Cascais. A entrada é livre em ambas as sessões.

Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco (...). Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Boa tarde, como está?

Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica.


Herberto Helder, Os Passos em Volta.

Umbigo #16

O nosso estimadíssimo colaborador Ruy Ventura informa-nos que a partir do próximo sábado, dia 27 de Março, e até 19 de Abril, vai estar ausente destas páginas, por "fortes motivos pessoais".
A gerência agradece o gesto e deseja que os "motivos pessoais" sejam muito bem sucedidos.

Ode a uma Urna Grega # 4


Dependência é o terceiro poema de Eduarda Chiote que brilha no Quartzo (do livro "A Celebração do Pó"). Poesia feita de astros cujo fulgor trágico - embora se conclua no derradeiro poema do livro, O Silêncio, ?ser irrelevante a celebração do pó? - sobrevive e brilha mesmo depois de virada a última página. E temos um símile cósmico para esta poesia de um ?Eu? que foi, outrora, uma supernova, estrela tremendamente massiva que, tendo esgotado todo o seu carburante, não mais é capaz de sustentar a sua própria força de gravidade e implode; enquanto o núcleo, o coração, se afunda sobre ele mesmo, a onda-de-choque ejecta as camadas externas da estrela, mais ligeiras (o corpo, diríamos) no espaço interestelar, dando origem à deslumbrante vela da supernova; consumado o naufrágio, já nada escapa a este ?anti-lugar?, isto é, ao buraco-negro hipermassivo resultante: nem sequer a luz (leia-se no poema Solidão Cósmica).

DEPENDÊNCIA

Ó Leviatã,
ó adormecido em espessas trepadeiras
de água,
que sabes das correntes
ensandecidas pelo odor fundo
da lua?

Animal fervoroso
e marinho,
como pudeste seduzir-me
a ponto de me prometeres sempre
marés calmas,
tu, vampiro de naufrágios
e de sal?

Em verdade, ó adormecido em espessas
trepadeiras de água,
talvez haja um comprazimento
sem mistério
nas rochas poisadas sob o mar: que de outro
modo o coração delituoso das espécies
nelas cravadas
a ponto de ficar cegas
e não por necessidade mas comodismo
do espírito,
Leviatã?, amigo meu ? diz-me.


Eduarda Chiote ? A Celebração do Pó.
Porto: Asa, 2001(colecção pequeno formato; 23).

Ilha dos Amores #31

O melhor jornal da academia portuense, o "Jornal Universitário do Porto" (e, curiosamente, parte do álbum de memórias de todos os membros da gerência deste blog), oferece uma entrevista exclusiva com um dos mais importantes filósofos da actualidade, Peter Singer. Tema: os problemas éticos suscitados pelo sofrimento inflingido aos animais "não humanos" e o Movimento de Libertação Animal. A devorar.

Post It #97

Crónica de uma remodelação governamental inesperada.

O Povo É Sereno #71


A política externa do Governo britânico é um caso sério de camaleonismo supersónico. Senão, vejamos: Tony Blair, ontem de manhã, esteve em Madrid onde homenageou as vítimas dos atentados terroristas de há duas semanas; à tarde, reuniu-se em Lisboa com Durão Barroso para reafirmarem em coro a solidez da aliança beligerante no Iraque, sob o olhar vigilante de Bush; hoje de manhã, chega a Tripoli para "negociar" com o líder líbio Kadhafi, ex-terrorista recentemente convertido ao pacifismo.

Dito de outra forma: na capital espanhola, Blair chorou os mortos "colaterais" de uma guerra ilegítima que ajudou a desencadear; na capital portuguesa, renovou o empenho do seu país na ocupação violenta do Iraque a pretexto de uma vaga "luta antiterrorista"; na capital líbia, vai sentar-se à mesa com um reconhecido ditador e terrorista, tecendo odes ao diálogo como via alternativa à guerra para resolver conflitos internacionais.

Post it #96


O cartoon do dia, arrancado ao Amor e Ócio, do Rui Baptista.

Post it #95

Rubrica "hoje comi um turco ao pequeno-almoço".

O gentil croissant, que sempre pensei francês como o brioche, verifico [afinal] ser austro-hungaro e politicamente incorrecto nas suas origens: comemorar, comendo um “crescente”, a vitória vienense face aos turcos.

24.3.04

Ode a uma Urna Grega #3

Outro poema de Eduarda Chiote. O livro chama-se "A Celebração do Pó", que me parece um título muito belo. Esta “Celebração do Pó”, entenda-se, não é mais do que uma celebração da vida: daquilo que a vida tem de cíclico, de inviolável, do pó de que somos feitos e que sob tudo jaz, imperturbável e silencioso. “Celebração” que é, por mais trágica e magoada, a da própria condição humana reconduzida à sua inteireza essencial: a da solidão. Poesia da inteireza, entendida como a imobilidade perfeita das coisas.

UMA BELEZA DIFICÍLIMA

O silêncio
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.

A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.

Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.

Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.


Eduarda Chiote – A Celebração do Pó.
Porto: Asa, 2001(colecção pequeno formato; 23).

O Silêncio é de Ouro # 48


O Rui Amaral descobriu uma entrevista de Kevin Shields, o Brian Wilson inglês, para o Guardian. É a primeira entrevista do homem em doze anos e é bastante divertida, temperada de humor "very british". Entre outras coisas, o D. Sebastião do rock de guitarras fala de como limpou 140.000 libras à editora Creation para gravar o monumental "Loveless" em 1992, onde estiveram envolvidos 18 (!) engenheiros de som, de como é "louco" mas não "doente mental" (guardem-se as devidas distâncias), de como tem vivido todos estes anos obcecado pelo temor de não conseguir igualar a sua opera prima, ou de como tem forrado o estômago à custa do posto de guitarrista nos concertos dos Primal Scream. E há chinchilas metidas ao barulho.

Ode a uma Urna Grega # 2

Quem não conhece a poesia de Eduarda Chiote não tem perdão. Para saudar a Primavera, à flor da pele, um poema de "A Celebração do Pó".

O CORPO E A PRIMAVERA

Ouço
o corpo
da primavera.

Na brisa
segura macias flores.
Dir-se-ia o delicioso rubor
dos seios.
Não sei se surgindo
da vergonha
de alguns botões ainda
por abrir.

Terno enredo
o de escutá-lo no sobressalto e despontar
do sexo: sentado
conserva os joelhos apertados
contra o queixo,
furtando-o
a invisíveis e furiosas
abelhas.
Talvez por medo
de que o mel desabe
e o tempo tenha de acolher-se,
abrasado de cio,
na delícia e destreza
de uma ingenuidade em absoluto
efémera.
De que as rosas
breve
percam o engano e o frescor
da voz.

Deixemo-lo, pois, entregue
ao claro som e asseio
do seu respirar.


Eduarda Chiote – A Celebração do Pó.
Porto: Asa, 2001(colecção pequeno formato; 23).

O Povo é Sereno #70

Fotografia de Francisco Costa.

Cimbalino Curto #76

O JN publica hoje uma entrevista com José da Cruz Santos, editor, em jeito de celebração de 40 anos de actividade profissional. Apesar de não ter tido ocasião de conhecer a pessoa, acompanhei um pouco do seu labor (alguns dos primeiros livros que li foram também obra sua, através da prestigiada editora Inova, e do magnífico trabalho gráfico de Armando Alves), pelo que a homenagem parece-me justa.

Dito isto, pena é que Cruz Santos se tenha deixado trair pelo rancor e, a propósito do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura, tenha dito as enormidades que disse. Dou de barato a afirmação, gratuita, de que foi o "maior flagelo para a cidade de há longos anos a esta parte" - de tão indemonstrável que é, não merece sequer o esforço de ser contradita. Agora acusar o Porto 2001 de não se ter preocupado com o "realçar dos valores da cidade", essa é demais! Porventura achará Cruz Santos que o "seu" livro não reeditado pelo Porto 2001, por mais importante que seja, esgota os "valores" do Porto? Ou que os seus amigos escritores eventualmente ausentes da programação são os únicos representantes desses "valores"? E quem define os ditos "valores"? Não terá, enfim, pejo de que as suas palavras o associem às vozes mais retrógradas e culturalmente subdesenvolvidas que sempre atacaram o Porto 2001? Aparentemente não e é pena.

Ilha dos Amores #30

A dada altura decidi serrar a cabeça. Senti-me tão aliviada, tão contente! (...) A partir daí a cabeça só entra quando não pode deixar de ser - quando estou a engolir tinta ou a chorar a tinta...

Cimbalino Curto #75

Destas duas afirmações qual é a verdadeira?

a) O Porto é uma cidade que alberga um grande clube de futebol.
b) O Porto é um grande clube de futebol que alberga uma cidade.

Umbigo #15

É por aqui que elas se penduram ou Morangos silvestres

Não, não se refere ao filme de Bergman esta todavia doce evocação. Refere-se à primavera antecipada que já se sente por estes sítios. E, sentindo-se, lá fui eu dar um dos meus passeios ao campo dos arredores. Como os camponeses já me conhecem por esses caminhos vicinais, às vezes chego a casa ajoujado com pêras, maçãs, laranjas – fruta da época. Ontem, em casa do meu amigo Gracindo, hortelão moderno à antiga, veio para a mesa um jarro do tinto e um chouricito com pão do Reguengo. Não conhecem. Mas limpam-nos a alma e as papilas, estas especialidades. Abancámos, tratámos-lhes da saúde. E no fim, com o ar um pouco encabulado, o Gracindo trouxe uns morangos “que a minha mulher comprou no supermercado” para encerrar o repasto.
Falou-se disto e daquilo e, clarete, desaguou-se na política. E o Gracindo contou-me uma estorinha em que ele teve como interlocutor um homem público em visita ao meio rural: a dada altura o nosso hortelão, um pouco ourado com a tanga, perguntou-lhe naquela conversa a dois:” Mas vocês não têm vergonha pelo que um dia mais tarde outros dirão de vocês?”. A resposta que recebeu, em tom sarcástico, foi lapidar: “Olhe, esqueça...os que vierem mais tarde serão como nós...”.
Comentários para quê? Foi um “artista” lusitano em plena e magnífica actuação...


Nicolau Saião

23.3.04

O Silêncio é de Ouro # 47

Aviso aos melómanos.

É sempre um prazer contemplar a capa do "Loveless". Dia 21 de Abril é posta à venda uma compilação dos EP's gravados pelos My Bloody Valentine entre 1988 e 1990, juntamente com oito canções inéditas. Ainda não é desta que Kevin Shields vai deixar de ser conhecido como o D. Sebastião do "indie-rock" (é verdade que desenferrujou as cordas da guitarra na banda sonora de "Lost in Translation") mas para lá caminha. Todos os pormenores na "pitchfork"

Post Scriptum # 181


Alguém se lembra de François-René de Chateaubriand (1768-1848)? Não estou a falar, é claro, daquele prato de carne semi-crua parecido com o rosbife, mas desse enorme escritor que deu à luz o monumental Génie du Christianisme (1802), inventor do romance-poema e autor daquela que é talvez a melhor (e maior) autobiografia de todos os tempos, as Mémoires d'outre-tombe (1848-1850). Chateaubriand criou toda uma mitologia da paisagem, do tempo e do espaço, onde foram beber praticamente todos os escritores românticos, portugueses e brasileiros inclusive. Em 1801 fez publicar um longo poema em prosa, Atala, que contém algumas descrições das florestas da Flórida que permanecem ainda hoje insuperáveis no que toca ao colorido e ao exotismo - um verdadeiro jardim das delícias. Dei de caras com esta passagem de enorme potencial cinematográfico (não mostrem ao Mel Gibson, mostrem ao Peter Jakson). Chactas, guerreiro índio altamente civilizado, pois cita de cor Homero e Ossian, foi capturado pela tribo dos selvagens Muscogulges, que não têm outra ideia na cabeça senão executá-lo. O herói, amarrado a um tronco, não desanima:

Cada um inventa um suplício: um propõe-se arrancar-me a pele, o outro queimar-me os olhos com achas em brasa. Dou início à minha canção de morte.
«Não tenho medo nenhum aos tormentos: sou corajoso, ó Muscogulges, desafio-vos! eu desprezo-vos mais do que se fôsseis mulheres. O meu pai Outalissi, filho de Miscou, bebeu nos crânios dos vossos mais célebres guerreiros; não arrancareis um suspiro ao meu coração.»
Estimulado pela minha canção, um guerreiro trespassa-me o braço com uma flecha; digo-lhe: «Irmão, eu te agradeço».



Atala/ René. Paris, Garnier-Flammarion, 1964, p.92



NOTA: ficam a saber que podem agora encomendar o vosso suculento Chateaubriand através da "web", pela módica quantia de $100.49 no Bacchus Cellars. Em alternativa, caso não sejam adeptos de carne mal passada, podem ler as versões integrais das melhores obras de Chateaubriand aqui. Boa degustação.

Señor Tallon #50

Quem disse que a cultura portuguesa não chega ao Brasil?
A telenovela “Morangos com Açúcar” estreia no "país irmão", no dia 29, na cadeia de televisão Bandeirantes. E com pompa e circunstância.

Umbigo #14


A gerência do Quartzo, Feldspato & Mica (menos o Nuno, impossibilitado de comparecer, e o Manel, impossível de localizar) reuniu-se hoje ao almoço no camiliano "Portuense" para aturadas discussões acerca dos grandes problemas do mundo actual. Entre duas garfadas de arroz branco e de feijão, falámos de agricultura filosófica, do sousafranquismo como nova categoria política e da antítese poesia-sexo. Também dissemos mal de meio mundo e cortámos na casaca do outro meio. Poupámos os amigos. E decidimos importantes mudanças no blog, para muito breve trecho. Após o café, todos lamentámos a falta de uma charutada, mas os tempos não andam de feição.

Señor Tallon #49

Procura um local exótico para passar as férias da Páscoa? Experimente o maior hotel de Washington, a troco de um simples donativo.

Post it #94

As estatísticas mostram que as raparigas lêem mais do que os rapazes. Parece que não é muito bonito um rapaz ser surpreendido com um livro nas mãos quando podia estar com outra coisa. Mas já há soluções para inverter essa tendência.

To combat the adolescent perception that reading is something that men simply do not do, Michael Sullivan has listed several important practices teachers and librarians should observe while in the classroom.

Mais informações aqui e aqui.

Post it #93

E, no fim, o príncipe casa com o príncipe e vivem felizes para sempre. Ou talvez não. Depende da decisão dos tribunais.

Two parents are threatening legal action after their first-grade daughter brought home a book from school telling the story of one prince marrying another prince.

Post Scriptum # 180

- Estou-me nas tintas para o teu poema! - gritou o homem baixo atarracado que nunca suportara versos.
Levantaram-se vozes contra ele:
- Por favor, cale-se!
- Senta-te, cretino embriagado! Se não percebes nada disso, deixa o pobre diabo ao menos ganhar umas coroas!
- Perdão! Perdão, senhores! - gritou um homem franzino, de cabelo comprido e cuidadosamente penteado. - Perdão, há aqui um mal entendido. Não se trata de ganhar dinheiro. O nosso amigo não se encontra em má situação. Não vos exige nada, pelo contrário: só tem o desejo de nos proporcionar um prazer. É o nosso primeiro poeta cósmico.
- Basta, basta! Por amor de Deus! Todos sabemos que és farmacêutico, mas o que é demais, é demais!
- Deixem falar o poeta!
- Que diabo, quem foi que nos trouxe hoje essa corja de poetas para nos estragar a festa?
Seguiu-se uma gargalhada geral. Mas o homem franzino, de cabelo comprido, o tal farmacêutico, não se deixou intimidar. Levantou-se e gritou com quanta força tinha:
- Meus senhores, peço-lhes que não ofendam a poesia! Os poetas são criaturas superiores, devemos respeitá-los!
- O quê? - gritou o homem baixo e correu, de braços abertos, à volta da mesa. - Respeitá-los porquê? A mim ninguém me mete respeito. Nem Deus todo-o-poderoso! Percebes? E o teu maluquinho não me interessa. Compreendes a língua sérvia, não compreendes? Pois não quero ouvir poemas, e basta!

Ivo Andric, A Velha Menina, trad. Ilse Losa e Manuela Delgado, Livros do Brasil, 2003.

Continua aqui.

22.3.04

O Silêncio é de Ouro # 46

Herman Sonny Blount, conhecido por Sun Ra, o fundador da chamada “improvisação colectiva”, nasceu em 1914, na cidade de Birmingham, no Alabama. As suas primeiras gravações foram realizadas em 1953, tendo então iniciado uma longa obra discográfica que inclui para cima de 130 títulos, entre álbuns, colectâneas, registos ao vivo, etc. “Jazz in Silhouette” foi editado em 1958 e é dedicado a um universo imaginário onde ocorrem estranhas viagens espaciais (“Saturn”) e se descobrem civilizações perdidas (“Ancient Aiethopia”). Nesse sentido, é talvez um dos discos mais fantásticos da história do Jazz.

Raul Silva

Umbigo #13

Quem me conhece já sabe com o que conta. Sou viciado em livrarias. Desde os alfarrabistas de rua e de vão de escada aos espaços existentes nas grandes superfícies e nos centros comerciais, só a muito custo consigo resistir à tentação dessa espécie de namoro, às vezes concretizado em casamento para toda a vida. A sedução exercida pelos livros é fortíssima. Nem que se trate de um livro amarelecido e meio rasgado existente numa obscura tabacaria de província. Já nos meus tempos de adolescente era assim: chegava a prescindir da bica e de outros prazeres para que o dinheiro da semanada chegasse para adquirir esta ou aquela pechincha existente na, felizmente desorganizada, livraria da minha terra. Quantos dias luminosos guardo na minha memória, luminosos exactamente porque olhei no momento certo para aquela montra ou para aquela prateleira, mesmo a tempo de resgatar do esquecimento este ou aquele volume que há tanto tempo procurava… Foi nestes momentos de plena alegria que me vieram às mãos tomos de Pascoaes, de Marcel Scipion, de Balzac, de Adélia Prado, Irene Lisboa, Stefan Zweig ou Jack London, e de muitos outros amigos que (assim espero) me acompanharão em toda a minha existência.
Por estes e por outros motivos sou um frequentador habitual das diversas lojas FNAC existentes no nosso país. A do Colombo, em Benfica, a da Rua de Santa Catarina, no Porto – são apenas algumas que costumo visitar sempre que o tempo me dá essa oportunidade. Tenho no entanto especial predilecção pela que hoje se instala nos Armazéns do Chiado. Ao intenso sabor dos livros, junta-se o forte odor da paisagem, sempre que o olhar se espraia para nascente e avista o casario de Lisboa a subir para o castelo de S. Jorge, sempre que a vista alcança, junto das torres da sé, uma nesga de Tejo atravessada por navios e cacilheiros.
Os encontros costumam ser demorados. Como afirmam aqueles que às vezes me acompanham, começam geralmente por uma espécie de bailado em torno das estantes (de poesia, portuguesa e estrangeira, de arte, de romance, de ensaio…), repetido as vezes necessárias até seduzir a obra que se deixará levar para bem longe dali, talvez para as serranias da Serra de São Mamede ou para as proximidades da Arrábida, que agora habito.
Tudo isto para vos contar a mais breve visita. Dia 8 de Março. À tarde. Ao descer a Rua Garrett tive logo uma sensação estranha. O movimento dos carros de luxo incomodou-me (a mim, que apenas conduzo “pandeiretas” – vulgo, utilitários -, como me disse há pouco tempo uma nova rica de província…). A este aliava-se a pedestre passeata de antigos ministros e governadores, aperaltados em fatos cinza, como convém, ou azul ferrete, para variar. Entrei na FNAC Chiado e o aparato de uma estação televisiva assustou-me. Ainda assim entrei e desci até aos territórios da poesia, pensando que se trataria apenas da passagem pela capital de algum magnata do petróleo ou da comunicação social, a que essa gente iria prestar tributo. Ouvi então uma frase inquietante, trocada entre dois rapazes com ar partidário: “Vais ver, pá… Ao lançar o segundo volume da sua autobiografia política, o homem vai é fazer-se candidato a presidente… É desta que vai ser tudo nosso!” Percebi a razão de todo o movimento. Sem mais delongas, fugi desse lugar que tanto aprecio, não fosse o demo tecê-las. Foi, de facto, uma visita brevíssima…
Em frente à Basílica dos Mártires fui abordado por uma jornalista, certamente estagiária: “Então, comprou o livro do professor?” Respondi sem demora: “Ó minha senhora, gosto muito de ler romances, bons romances, mesmo que sejam de figuras desconhecidas. Mas, sinceramente, ficção política não me agrada. Costuma dar-me azia…” Voltei para trás e entrei na Bertrand. Cesare Pavese esperava-me. Sem demora, comprei o seu “Ofício de Viver”… e consolei-me com boa literatura.


Ruy Ventura

Vai no Batalha #13

A noite de Domingo de muitos telespectadores foi abalada por uma notícia absolutamente chocante: a de que a pobreza extrema - ou, para usar uma expressão mais literal, a fome - atinge hoje em Portugal cerca de duzentas mil pessoas, com tendência para aumentar.

A ser verdadeira esta cifra (dúvida metódica justificada pelo facto de o país não dispor de instrumentos de avaliação quantitativa do "fenómeno"), estamos perante um dos mais perniciosos efeitos do progressivo desmantelamento do "Estado social" efectuado pelo actual Governo de direita, a coberto de uma política orçamental cega e injusta, após um período em que foram registados alguns progressos no combate à pobreza e à exclusão social.

Quem, até agora (Paulo Portas ainda não comentou), melhor expressou o cinismo do Governo sobre este assunto foi a adjunta de imprensa do ministro da Segurança Social e do Trabalho, Jacinta Oliveira, que terá dito que «se este ministério tivesse números sobre a fome em Portugal, as pessoas não passariam fome, porque seriam localizadas e alimentadas» (citação do Público). Não sei se estão a ver: brigadas de assistentes sociais com listas nominais em punho, a calcorrear semana após semana os cantos mais recônditos do país, a entregar caixas com pacotes de leite, sacos de arroz e enlatados, e os "pobrezinhos" a agradecer, comovidos, tamanha generosidade... (Terei ouvido alguém sussurrar "fascistas"?)

Post Scriptum # 179

Amigos do peito

E desta vez foi-se o René Laloux. Anteontem. Autor de “O planeta selvagem” e “Les maitres du temps”(vai assim porque não teve versão cá no país), ambos a partir de romances do Stefan Wul. Depois fez o “Gandhaar”, este baseado num relato de Jean-Pierre Andrevon, que o segundo canal teve a feliz ideia de nos ofertar há cinco ou seis anos.
Todos de ver e chorar por mais.
Custa mas é assim. Nem os diamantes, afinal, são eternos. Agora já lá está na boa companhia do A. E. van Vogt, do Leonid Onochko, do C.M.Kornbluth, do Asimov... O céu cheio de science-fiction... consolemo-nos com isso. Para bom desfrute de anjos e arcanjos, que não podem viver só das harpas e das cantorias em grupo. E talvez que o Senhor Todo Poderoso também lá os frequente uma vez por outra – ficaria indubitavelmente a ganhar, na sua jornada de séculos dos séculos.
Evohé, grande René, os que te apreciavam te saúdam!


Nicolau Saião

21.3.04

Señor Tallon #48

Hoje é o Dia da Árvore.
Ontem foi o Dia da Poesia.

Señor Tallon #47

Vamos a contas.

Em Portugal, a grande maioria dos livros de poemas de autores portugueses terão uns 500 a 600 leitores. Os mais pessimistas ficam-se pelos 300. Claro que há excepções. Entre os vivos, há o Herberto, a Sophia, o Eugénio e talvez mais dois ou três. Mas, como disse, são excepções.

E penso que não andarei muito longe da verdade se disser que uma boa parte desses 600 leitores também escrevem poemas. E são pessoas que já publicaram livros ou participaram em pequenas antologias, revistas, fanzines, edições on-line, ou que alimentam fortes pretensões nesse sentido. Basta pensar no número de pessoas que concorre a toda a espécie de certames de poesia, desde os jogos florais das juntas de freguesia aos prémios com nomes mais ou menos pomposos, promovidos por várias câmaras municipais. É uma espécie de pequena sociedade onde todos se conhecem e lêem mutuamente, e onde existem os inevitáveis amigos de estimação e inimigos de ocasião.

Trata-se, portanto, de 600 leitores que fazem as suas escolhas com base em critérios bastante objectivos. Ora, se isto for verdade, que relevância pode ter o trabalho do crítico de poesia “profissional”? Na prática, uma crítica favorável ao trabalho de um determinado autor poderá resultar num acréscimo significativo e consequente do seu número de leitores? Quantos livros mais conseguirá vender um autor caído nas boas graças de certos críticos? Mais 100? Mais 200 exemplares?

E os autores que são objecto de críticas desfavoráveis ou que são ignorados pelos críticos, vendem muito menos livros que os outros? Enfim, a qualidade do trabalho de um autor depende do número de referências favoráveis feitas pelos críticos?

Repito: para que serve então a crítica de poesia em Portugal? Na minha opinião, para tudo o que se quiser, menos para produzir “best-sellers” ou grandes mitos literários. Pela minha parte, devo dizer que gosto muito de ler alguns críticos de livros de poesia. Mas é uma questão de gosto. Não passa disso.

Vem tudo isto a propósito do longo e interessante debate que este post do Rui Lage suscitou na respectiva caixa de comentários. Mas o mais provável é que esta minha contribuição não venha a propósito de coisa nenhuma. Na verdade, nunca fui muito bom a fazer contas.

20.3.04

Post Scriptum # 178


"Pêssego", um suculento poema de D. H. Lawrence (1885-1930), um dos maiores poetas de língua inglesa do século XX, embora seja conhecido sobretudo pelos seus romances (e pelas polémicas a que deram azo). É do livro Birds, beasts and flowers, de 1923. Cresce-me a água na boca de todas as vezes que o leio (terei algum problema grave?). A percepção que Lawrence tinha do mundo permanece um mistério; é como se fosse de outra ordem, mas não da ordem dos opiácios ou outras substâncias ilícitas potenciadoras de estados de consciência alterados. É enorme a sua capacidade para criar imagens desconcertantes, sensuais, sumarentas (e eróticas). Embora não pareça, Lawrence é um poeta metafísico. Apenas acontece que ele interroga os grandes temas metafísicos nas pequenas criaturas, nos seres do mundo vegetal e mineral, nos níveis mais rasteiros da criação: nos frutos, nas àrvores, nas flores, nos animais, e não a partir de uma situação trágica, de uma enunciação enfática. Não interroga Deus do cimo de um penhasco, como faziam os vates do romantismo, mas com a cara colada ao chão, à escuta dos mais ínfimos sinais, das mais débeis vibrações da vida. Não sei se este "Peach" já alguma vez foi traduzido para português. O Herberto Helder traduziu (mudou, como ele gosta) o "Figs" (Figos). Há uma antologia de poemas de D. H. Lawrence traduzidos por Maria de Lourdes Guimarães: "Os Animais Evangélicos e outros Poemas" (Lisboa: Relógio D'Água, 1994). Estão lá alguns poemas de Birds, beasts and flowers, mas não este "Peach". Bom apetite.


PÊSSEGO

Gostavas de me atirar com uma pedra?
Toma, fica com tudo o que resta do meu pêssego.

Vermelhosangue, profundo;
Deus sabe como aconteceu.
Porção de carne rendida.

Enrugado de segredos
e duro na intenção de os guardar.

Porquê, da prateada flor do pessegueiro,
desse prateado, frágil copo de vinho num pequeno pé
este rotundo, gotejante, pesado glóbulo?

Estou a pensar, é claro, no pêssego antes de o ter comido.

Porquê tão aveludado, porquê tão voluptuosamente pesado?
Porquê suspenso com tão indecoroso peso?
Porquê tão amolgado?

Porquê a fenda?
Porquê a encantadora, bivalve redondeza?

Porquê as ondas pela esfera abaixo?
Porquê a sugestão de incisão?

Porque não era o meu pêssego redondo e polido como uma
bola de bilhar?
Teria sido se o tivesse feito o homem.
Embora agora o tenha comido.

Mas não era redondo e polido como uma bola de bilhar;
e porque o digo, gostavas de me atirar
com alguma coisa.
Toma, podes ficar com o meu pêssego pedra.

San Gervasio.

D. H. Lawrence - Birds, beasts and flowers.
Santa Rosa, Black Sparrow Press, 2001.

19.3.04

Post que não devia ter sido feito.

Porquê, Senhor, porquê?

O Silêncio é de Ouro # 45


Chamam-se Ambre e são belgas, o que funciona a favor deles (ou não?). O cd é um excelente complemento para as "Micropaisagens" do Carlos de Oliveira. São ambientes - ou pequenos quadros - umas vezes áridos, ameaçadores, outras a fervilhar de actividade e de vida, espécie de jardins em miniatura povoados por pequenas criaturas que podemos ouvir a respirar, a cheirar, a esgravatar ou a emitir estranhos chamamentos, formas de vida que trazem quente o sangue e acelarado o metabolismo (serão musaranhos?), fazendo resfolegar as folhas secas do solo de uma floresta ou escavando a manta-morta como se andassem à procura de comida (imaginem a prosa que não escreveria sobre isto o Fernando Magalhães do "Y"). É impossível concluir seja o que for sobre a proveniência dos sons: "samples"? Gravações de campo? Ruídos fabricados no "laptop"? O que é certo é que elas estão vivas dentro do cd - sobre isso não tenham dúvidas. É o que distingue este "Le mensonge" do típico disco de música ambiental/electrónica/experimental e o que faz dele uma colecção de texturas sonoras para fazer mudar de ideias os que acham esta música fria, maquinal e incapaz de merecer o nosso afecto. O cd é difícil de arranjar: só mandando vir de fora. O meu consegui-o na Jo-Jo's Music, uma das poucas lojas de música do Porto onde é possível encontrar tudo o que há nas fnac's e mais ainda, com maior antecedência e com um atendimento pessoal impecável (CDGO.com é a loja deles "online", que faz entregas ao domicílio em todo o país).

Post Scriptum #179

E por falar em Carlos de Oliveira, o nosso leitor Mesquita Alves sugeriu-nos “Sobre o Lado Esquerdo”, do pequeno livro com o mesmo título, originalmente editado em 1968.

SOBRE O LADO ESQUERDO

De vez em quando a insónia vibra com a
nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas
uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas
da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme
pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo
e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».

Carlos de Oliveira

Umbigo #12

Um link dedicado à Margarida Vale de Gato.

“Que farei quando tudo arde?” O título do romance de António Lobo Antunes deve ter renascido na memória de quantos viveram de perto ou de longe o pesadelo acontecido nas estações ferroviárias de Madrid. Entre a possível esperança e uma mal contida revolta, foram muitas as reacções com que contactei. De entre as mensagens recebidas, sobretudo de amigos de Espanha, com quem procurei encontrar-me ainda que apenas espiritualmente, traduzo para os leitores o poema César Vallejo que me enviou Antonio Sáez Delgado:

No fim da batalha
e morto o combatente, até ele veio um homem
e disse-lhe: ‘Não morras, amo-te tanto!’
Mas o cadáver, ai!, continuou morrendo.

Acercaram-se dois e repetiram:
‘Não nos deixes! Valoroso! Volta à vida!’
Mas o cadáver, ai!, continuou morrendo.

Aproximaram-se dele vinte, cem, mil, quinhentos mil,
clamando: ‘Tanto amor, e nada podermos contra a morte!’
Mas o cadáver, ai!, continuou morrendo.

Rodearam-no milhões de pessoas,
rogando em comum: ‘Fica, irmão!’
Mas o cadáver, ai!, continuou morrendo.

Então, todos os homens da terra
o rodearam; viu-os o cadáver triste, emocionado;
voltou ao seu corpo lentamente
abraçou o primeiro homem; começou a andar…


Ruy Ventura

Por uma feliz coincidência, Nicolau Saião acaba de nos enviar a sua versão deste mesmo poema de Cesar Vallejo (Perú, 1892-1938).
Aqui está.


MULTIDÃO

Ao findar a batalha
e morto o combatente, veio até ele um homem
que lhe disse:”Não morras, quero-te tanto!”
Mas o cadáver, ai, lá foi morrendo.

Dois se acercaram dele, e repetiram-lhe:
“Não nos deixes! Coragem! Volta à vida!”
Mas o cadáver, ai, lá foi morrendo.

Vieram então vinte, e cem, e mil,
quinhentos mil bradando: “Tanto amor,
e não podermos nada contra a morte!”
Mas o cadáver, ai, lá foi morrendo.

Uns milhões de indivíduos o rodearam,
e todos lhe rogavam:” Fica, irmão!”
Mas o cadáver, ai, lá foi morrendo.

Então, todos os homens desta terra
vieram junto dele. Emocionado, triste,
o cadáver olhou-os;
lentamente
abraçou o que primeiro chegara – e foi-se embora…

Tradução inédita de Nicolau Saião.


Relembro ainda que existe uma ampla antologia de poemas de Vallejo em português, organizada por José Bento e editada pela primeira vez em 1981 (Limiar), com reedição em 1992 (Relógio D’Água), e onde consta este mesmo poema.

18.3.04

Post Scriptum # 178

Quanto a mim, está escolhida a frase mais disparatada dita nos últimos tempos sobre poesia. É de Pedro Mexia, citado pela "Visão" de hoje. Na página 152 da revista podemos ler que Pedro Mexia é um "crítico e poeta desconfiado da metáfora, do Pablo Neruda". Palavras para quê?

Post Scriptum #177

UM POEMA DE MARCO ARGENTÁRIO
(Época de Augusto, 27 a.C. - 14 d.C.)

Se alguém cujos olhos sabem apreciar fica seduzido
e deseja possuir uma mulher de belo aspecto, isso não é amor.
Mas se, vendo um rosto feio, como que ferido pelas suas setas,
se enamora, sentindo o coração arrebatado de paixão,
então isso é amor, isso é fogo. Porque a beleza, essa,
encanta por igual todos os que sabem discerni-la.

Tradução de Albano Martins.
Do Mundo Grego Outro Sol, Asa, 2001.



Lembrei-me deste poema depois de ler este excelente post de Rui Bebiano.

Notícias da Província #10

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA


O sistema solar "cresceu" com a descoberta de um "novo" corpo celeste a que a NASA chamou Sedna, doravante o décimo planeta do sistema e o mais longínquo do Sol. George W. Bush, informado sobre o revolucionário achado, terá comentado: "Sedna? Mas o décimo planeta não era o Planet Hollywood?"

Post it #92

O estranho caso do Sherlock Holmes desaparecido.

Post it #91

Regra nº 1 para qualquer trabalho de escrita dar certo: escolher o tema certo.
Lucasta Miller escreve no Guardian sobre a complexa relação entre o tema e o escritor.

The relationship between writer and subject is as fraught with hopes and fears as a marriage. It is not for nothing that the process usually begins with the "proposal". (…) Before the proposal, however, there must be a period of courtship. For some enviable souls, it is love at first sight. But being the sort of indecisive person who needs to call in a therapist when faced with a restaurant menu, committing myself to a new book was a near-traumatic experience.

Post Scriptum #176

NUNO GUIMARÃES E CRISTOVAM PAVIA

No dia 13 de Outubro de 2003 passaram trinta e cinco anos sobre o falecimento do Cristovam Pavia. No mesmo ano que há dois meses e pouco terminou cumpriram-se também os trinta anos sobre a morte (física) de Nuno Guimarães. Dois poetas, discretos, cuja palavra solidificou (e solidifica, ainda hoje) essa luta contra a entropia que todos procuramos realizar sempre que nos aproximamos da Poesia como ponto de partida para uma iluminação interior. A data passou – sem que fosse recordada publicamente. Preocupada sobretudo com a promoção de génios diminutos, de veículos do vómito urbano e de outros simulacros textuais, a “imprensa literária” esqueceu o verbo profundo destes dois poetas. Não me deixo surpreender. Nuno Guimarães e Cristovam Pavia pertencem àquele grupo de autores que permanecerão no tempo, mas sempre no interior da sua casa, uma habitação peculiar onde serão lidos não pelos olhos de quem procura a fama, mas pelos olhos de quem demanda a beleza de uma raridade – luminosa porque inacabada, como escreve Fernando Pessoa nesse seu Heróstrato, livro muito perigoso para os tempos que correm e, por isto, tão pouco citado.
Nunca atingiram em vida a notoriedade pública, e ainda bem, uma vez que esta se opõe à permanência no tempo, segundo Pessoa. Hoje em dia a ocultação a que certa gente os votou parece-me no entanto injusta, embora compreensível, tendo em conta a lista de autores de costumam pôr nos píncaros. (Se alguém duvida, basta lembrar que há mais de vinte anos que os poemas de Pavia não são reeditados. Quanto a Nuno Guimarães, ainda há pouco tempo me confrontei com o olhar estupefacto – e ignorante – de uma catedrática de Literatura Portuguesa quando mencionei o seu nome e os seus poemas.) Fundamentais, Nuno e Cristovam continuam subterrâneos ao caminharem por uma estrada invisível onde vão recebendo apenas a visita de leitores fiéis, que desejam encontram não folhas mortas e passageiras mas as raízes das árvores que crescem com o tempo, contra o tempo e o seu devir. Não são autores esquecidos, apenas discretos – discretos como a luz intensa que ilumina certas cavernas.
Se me fosse concedida a oportunidade de escolher a minha família poética, escolheria a companhia destes dois confrades, e a de muitos outros autores que ocupam a mesma posição por esse mundo fora (C. Ronald, por exemplo, um dos maiores poetas vivos da nossa língua, residente no Brasil e pouco mais do que desconhecido, até no seu país).
Procuro, como a maior parte desses “mastigadores do mundo” (a expressão é de Cristovam Pavia), transmitir aos que me lêem o sabor (doce ou amargo) do húmus que vou descobrindo nas palavras e com as palavras. Não tenho, porém, ilusões. Sou sobretudo um leitor – leitor de tudo quanto me rodeia, tangível ou inefável, real ou virtual (como agora se diz), desejando encontrar pontes e viadutos que permitam ao Homem prosseguir sempre essa corrida de estafetas em que todos participamos.
Há muito de morte em tudo quanto tenho escrito. Mas, como diz Edward Burton, “deixar não é somente perder”. Deixar é também permitir, criar nas palavras um mundo reconstruído, um domínio de saudade (mesmo que se trate de saudade da inexistência), a saudade-memória serena de quem encontra um novo cimento com que pode preencher os pilares da casa que todos os dias edifica dentro do corpo e do espírito que lhe pertencem.

No final da sessão onde este texto foi lido [sessão de lançamento do livro de poemas "Assim se deixa uma casa”, ocorrida em 8/3/2004, em Lisboa] tive a feliz notícia de que os poemas de Cristovam Pavia vão ser reeditados brevemente. Mais vale tarde do que nunca... Quanto à obra poética de Nuno Guimarães, ela está disponível nas edições Afrontamento. São, ainda assim, dois poetas obscurecidos neste tempo onde a inanidade é uma espécie infestante.


Ruy Ventura

Post it #90

Mas que grande descoberta, Cristina!

Umbigo #11 com Cimbalino Curto #74

Nada se compara a uma hora de sono num moderno autocarro “de última geração”, embalado pelo clique-clique, familiar e antigo, das agulhas de tricot.

O Povo é Sereno #69

O GOSTO DE O OUVIR

O engº Ângelo Correia, comentador, é uma das minhas figuras televisivas preferidas. Sempre que aparece no pequeno écran para mim é uma festa: já pela maneira de falar – aos simpáticos arrancos, com paixão ou pelo menos com fervente convicção – já pelo gestualismo que nos diz estar ali uma pessoa competente mas que também vibra: aquelas repentinas paragens, as elipses espontâneas, os olhares como que perscrutando tudo em volta, desde as câmaras ao rosto expectante do interlocutor, criam em nós (em mim) o encantamento e o suspense.
Mas também gosto de o ouvir na rádio. E nesta terça-feira ouvi-o na rádio. Falava-se de terrorismo e a dada altura o senhor em causa disse uma coisa que até ali, durante meses e inúmeras intervenções não me lembro de o ouvir dizer, como que se negara a si mesmo dizer – que existe efectivamente um “confronto civilizacional” entre o fundamentalismo islâmico (que, aqui entre nós, subjaz ao Islão) e a ideia de democracia, personalizada nos países ocidentais.
Já de há muito que, em diversos lugares e cérebros, tal se percebera.
A minha admiração, portanto, não tem sido em vão. Porque apesar de um pouco atrasado o engº Correia disse-o. Ao contrário de outros (famosos filósofos de pacotilha, especialistas em generalidades pomposas e cocabichices, etc.) que só irão perceber isso quando a rocha, o pedregulho – ou seja, a bombita – lhes cair em cima das narinas.


Nicolau Saião

17.3.04

O Romance da Raposa # 1

Dois provérbios para o mês de Março. E um pretexto para estrear uma nova rubrica do Q, F & M. dedicada aos usos, costumes, crenças e tradições do "povo" português. Pelo andar da carruagem, não tardará muito até que se crie uma outra rubrica, desta feita dedicada aos usos, costumes, crenças e excitações da sociedade civil portuguesa. Oxalá vos aprouvem estes ditos!

O sol de Março queima a dama no paço.

(Vila Pouca de Aguiar)

Março marçagão, de manhã cara de cão, ao meio-dia sol de rainha e à noite, corta como uma foicinha.

(Vila Pouca de Aguiar)

Cimbalino Curto #73

Impressiona o estado de degradação a que chegou o quiosque do Jardim da Rotunda. Trata-se de um dos últimos exemplares do pitoresco conjunto de quiosques em forma de pagode que existiam no Porto, e que eram uma herança do romantismo tripeiro. Tanto quanto sei, resta apenas o do Largo de Mompilher. O do Jardim da Rotunda já não tem os azulejos e parece mais o velho tronco de uma árvore morta do que um quiosque. Será legítimo invocar o princípio do respeito pela propriedade privada em situações como esta? A verdade é que já ninguém liga. As pessoas estão cansadas. No fundo, o pequeno quiosque da Rotunda é apenas mais um sintoma entre tantos outros daquela espécie de doença em que o Porto se tornou: uma cidade em adiantado estado de degradação e sem cura à vista.

Señor Tallon #46

Hoje é distribuído com o jornal Público o romance “Luz em Agosto”, de William Faulkner. Como diria o Prof. Hermano das histórias (pausa para imaginar o professor a espetar-nos o indicador no meio dos olhos e a fazer beicinho), “trata-se de uma obra fundamentaaaalll”.

Umbigo #10

Dois dias em casa a fazer um estágio intensivo em enfermagem. E embora forçado, já aprendi várias coisas de grande utilidade. Por exemplo, que o genérico que substitui o Ben-u-ron é o Ibuprofeno – ratiopharm, um fármaco que está indicado, entre outras coisas, para curar certas “lesões das partes moles”.

16.3.04

Post Scriptum # 175

Gomes Leal (1848-1921) volta à carga. É o soneto "Acusação à Cruz" e leva epígrafe de Thomas de Quincey ("Ainsi lira-t-il les antiques verités, les tristes/ verités, les grandes, les terribles verités"). A consumir de preferência após o visionamento de "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson. E, por favor, não deixem que as vossas avós o leiam.


ACUSAÇÃO À CRUZ.

Há muito, ó lenho triste e consagrado!
Desfeita podridão, velho madeiro,
Que tens avassalado o mundo inteiro,
Como um pendão de luto levantado.

Se o que foi nos teus braços cravejado
Foi realmente a Hóstia, o Verdadeiro,
Ele está mais ferido que um guerreiro,
Para livrar as flechas do Pecado.

Há muito já que espalhas a tristeza,
Que lutas contra a alegre Natureza,
E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, símbolo tremendo.
Queremos Vida e Acção. - Fica-te sendo
Um emblema de morte e sepultura!



"Claridades do Sul". Ed. de José Carlos Seabra Pereira.
Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, p. 57.
(Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, n.º 5)

Señor Tallon #45

O Brasil, definitivamente, não é só samba, praia & feijoada. Também há quem, no meio académico, se dê à maçada de pensar e escrever, ainda por cima de maneira simultaneamente séria e cativante. Confirmar aqui.

Post Scriptum #174


Quem se tem sentido irritado com as manobras de promoção do próximo livro de José Saramago, "Ensaio sobre a Lucidez", levante o braço. As referências às eventuais qualidades literárias do romance (vindas, obviamente, de quem pôde lê-lo antes de publicado) foram eclipsadas pelas promessas, em tom ameaçador, de críticas dirigidas a todo o ser vivo que se mexa, instituições incluídas. O que não fazem certos escritores para vender o seu produto!

Post Scriptum #173

Rubrica “Não Quebrem Esta Corrente”

Num post recente, Alexandra Barreto citava o interessante poema “Lazarus not Raised” de Thom Gunn (Inglaterra, n. 1929), a propósito de um dia que “começou relativamente mal”, tendo sido seguida por Paulinho Assunção, que também o citou a propósito do post da Alexandra. Hoje associamo-nos a esta corrente e publicamos a tradução que Maria de Lourdes Guimarães fez desse poema, em 1993, a propósito daqueles posts e, portanto, sem nenhum propósito em especial a não ser o de gostarmos todos de poesia.


LÁZARO NÃO RESSUSCITADO

Estava na mesma. Os seus amigos em redor do túmulo
Fitavam o seu rosto gorduroso e sereno,
Flutuando na sombra; nada poderia salvar
Agora o seu corpo das areias sob as suas ondas,
Não tendo acontecido o milagre previsto.

Jazia inerte sob aquelas mãos estendidas
Que o chamavam à vida. Embora o esquife
Estivesse pronto para agarrar a vida e as faixas enroladas
Ao seu primeiro movimento soltassem as glândulas geladas,
O milagre previsto não aconteceu.

Ó Lázaro, corpo distendido, assim posto
Resplandecente e sem peso sobre a superfície da morte,
Ergue-te agora, antes de te afundares, porque não ousamos descer
A esse triste pântano onde (gritaram os que te choravam)
O milagre previsto não pode acontecer.

Quando pela primeira vez despertou, e lhe foram dados
Pensamentos e alento, escolheu deambular a passos vagarosos
Nos campos da infância, imaginários e seguros
- Semelhantes ao trivial território da morte
(O milagre não tinha ainda acontecido).

Escolheu primeiro entregar-se assim aos pensamentos
E desprezar o que o seduzia na graça oferecida,
E depois, em repouso, escolheu entregar-se ao que deles restava.
Chegou o esforço final, empurrámo-nos
Para ver o planeado milagre acontecer:

Inesperadamente o cadáver pestanejou e abanou a cabeça
Para a seguir se afundar de novo, deslizando da vista sem deixar
Um único vestígio, até alcançar o lodo sobre o mais profundo leito
Do vazio. Escolhera permanecer morto,
O milagre previsto não aconteceu.

Nada mais mudou. Vi alguém perscrutar,
Inclinando-se para a caixa rectangular do espaço.
Os seus amigos tudo tinham feito: sem tal receio,
Sem aquele aterrado resplendor do despertar,
O milagre previsto teria acontecido.


Thom Gunn, A Destruição do Nada e Outros Poemas, trad. de Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D’Água, 1993.

15.3.04

Ilha dos Amores #29


William Wegman,
Reading Two Books,
1971.

Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica, o blogue onde o sol nunca se põe.
Aberto 24 horas por dia, 365 dias por ano. E às vezes mais.

Post it #89

Se nos dias que correm se fazem rankings e campeonatos por tudo e por nada, não há razão nenhuma para não se fazer também um ranking dos poetas. Ora aqui está uma bela proposta de ranking dedicada aos poetas de língua inglesa. Com o Pound em terceiro lugar e a lutar para não descer de divisão.

Today's critical consensus on 20th-century poets in English looks something like this: Eliot and Yeats, tied for first; Frost second (not prolific enough after his earlier best stuff); Pound, Stevens, and Auden battling for third.

Post Scriptum #172

Paul Fort
(França, 1872-1960)



SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

A rosa livre dos outeiros saltou de júbilo esta noite, e logo as rosas dos canteiros, pelos jardins, umas às outras:

“Saltemos, com joelho ligeiro, por cima da grade, irmãs. O regador do jardineiro não vale a névoa das manhãs.”

E eu vi, na noite de Verão, de mil jardins saltando a grade, as rosas indo em procissão atrás da rosa da liberdade!


Tradução de Pedro da Silveira, incluída em “Mesa de Amigos”, Assírio & Alvim, 2002.

Post it #88

E agora uma daquelas verdades inspiradas na apurada erudição de Monsieur de La Palisse: a qualidade de vida dos leitores de jornais melhora consideravelmente nos sábados em que se publica a crónica de Mário Santos, e piora na mesma proporção nos sábados em que não se publica a crónica de Mário Santos.

13.3.04

Ode a uma Urna Grega #1

Posso finalmente opinar sobre o filme "A Paixão de Cristo", porque, ao contrário de tantos excitados por esse mundo fora, já o vi. Não se fiem muito nas acusações de anti-semitismo. O problema é que é um filme onde só há maus e bons, e os maus (neste caso todos os que directa ou indirectamente contribuem para a condenação de Jesus) são retratados de uma forma totalmente caricatural, assumindo proporções grotescas. É um dos grandes defeitos do filme. Outro é, do ponto de vista histórico, a forma como a personagem de Poncio Pilatos nos é apresentada: como um líder romano apanhado no meio de uma tempestade que não consegue controlar e que quase se vê "obrigado" a condenar Jesus à morte, no meio de uma crise existencial. Ora a História sabe que Pilatos foi um tirano sanguinário, que passava tudo à espada e que metia tudo a ferros; paradoxalmente, é a única figura interessante do filme, a única com mais do que duas dimensões.
Quanto à excessiva violência, também não vale a pena dar grande crédito aos detractores do filme: afinal, Mel Gibson propõe-se retratar as últimas doze horas da vida de Jesus, os suplícios de que é alvo e a sua crucificação! Há até uma boa dose de hipocrisia nesse ataque, quando pensamos que nos nossos canais de televisão passam filmes, a qualquer hora do dia, que esses sim, são de uma violência imbecilóide e gratuita.
O grande defeito do filme é ser um filme pobre, que passa uma perspectiva afunilada sobre os acontecimentos, que produz um relato unívoco. Nem uma gota de subtilidade, nenhuma ambiguidade, nada que nos faça olhar os acontecimentos de diferentes pontos de vista. Não há espaço para a inteligência se exercitar. As personagens não têm qualquer riqueza, são opacas, quase decorativas.
Há depois uma série de cenas de gosto mais que duvidoso em que se usa e abusa da câmara lenta, solução fácil e previsível. E a música, que nos brinda, enquanto Jesus carrega a cruz a caminho do martírio, com uma espécie de ritmo marcial feita de batuques e congas...
Então o que é que salva o filme? A empatia criada com a figura de Cristo, que provoca comoção e desperta piedade (nem me passa pela cabeça outra coisa). E o Jim Caviezel, que faz o seu melhor no papel de Jesus e que convence (já o tínhamos visto, espantoso, em "A Barreira Invisível"). As cenas entre Maria e o filho, em analepse. E há pelo menos uma cena memorável. É quando Judas, consumido pelo remorso e "perseguido" por um grupo de crianças à procura de um bombo da festa, espojando-se pelo chão, acossado por um sol violento e branco, olha a carcaça de um burro em decomposição e vê, ele sim, de factu, a verdade da condição humana. Vem logo à memória "La Charogne" de Baudelaire. Há muito que não via uma cena tão forte.
Parece que sempre há um Mad Max escondido em Mel Gibson. Vou ali ver o "Beyond the Thunderdome" e já volto. Ecce Homo.

12.3.04

Umbigo #9

O que é que faz uma espécie de poeta a 185 km/h na auto-estrada entre Porto e Lisboa? Nada de especial. Para além de assistir a tristes cenas de engate entre os gordos bigodes de alguns agentes da autoridade e a excitada maça de Adão de um velho personagem bíblico que usa e abusa da direita.
Felizmente, o "poeta" acabou a noite em paaaaz, no seu quarto de hotel. Depois de um agradável jantar de trabalho com um estimulante grupo de catequistas e filhas de empresários com ligações à Opus Dei, no Bica do Sapato. No quarto ao lado, os agentes da autoridade aprendiam a manusear correctamente a Bíblia.

Post it #87

The American novel, having become dominant, was in turn dominated by the Jewish-American novel, and everybody knows who dominated that: Saul Bellow.

Martin Amis escreve sobre Saul Bellow.

Post Scriptum #171


Janus Pannonius
(Hungria, 1434-1472)



SOBRE A MUDANÇA DE NOME

Meu nome era Joannes, Janus para quem esta página escreve:
não digas, leitor amigo, que não te avisei.
Eu não desprezei por orgulho tão nobre nome,
que nenhum ressoa mais claro por toda a terra.
Fez-me, contra a vontade, mudar as letras
a loura Tália, quando me banhou no lago Aónio.

Antologia da Poesia Húngara, Selecção e Tradução de Ernesto Rodrigues, Âncora, Lisboa, 2002, p. 27.

O Silêncio é de Ouro #44

Bags Meets Wes!
Wes Montgomery, considerado por muitos como o maior guitarrista de jazz de todos os tempos, e Milt Jackson, o vibrafonista que se tornou famoso pelas suas "oitavas paralelas", juntaram-se em 1961 e gravaram um disco. "Bags Meets Wes!" contou ainda com Wynton Kelly, no piano, Sam Jones, no baixo, e Philly Joe Jones, na bateria. Desta experiência resultaram temas como "Stairway to the stars" ou "Stablemates", com os célebres solos de Montgomery realizados somente com o polegar da mão direita, sem palheta. Mais um disco para a discoteca de granito.

Raul Silva

Cimbalino Curto # 72



É a não perder. A Fundação Eugénio de Andrade (FEA) e o Museu do Carro Eléctrico organizaram um ciclo de recitais de poesia a bordo de um dos eléctricos da coleção do Museu. Chama-se "Poesia em Linha" e tem lugar todos os Sábados de Março (e também no primeiro Sábado de Abril) às 17:00h. A partida é da porta da FEA, no Passeio Alegre, e a viagem faz-se em direção à Ribeira. Depois de chegar à Praça do Infante, que é o fim da linha, volta para trás e vem terminar a viagem de novo junto à FEA. Aconselho-vos a fazerem reserva de bilhetes pelo telefone (Museu do Carro Eléctrico, 22 615 8185/2).
Os "dizedores" são o João Paulo Costa, um actor e encenador portuense da "velha guarda" e a Cláudia Lázaro, excelente actriz. Hão de desculpar-me a excitação, mas ninguém chega aos calcanhares do João Paulo Costa a ler poesia. Nem mesmo o Cintra. Quando ele começa a ler até os cães fazem silêncio. Encontra sempre o registo perfeito para cada poema: nenhum tique, nenhuma enfatização desnecessária, nenhuma hesitação, nenhuma dissonância, nehuma quebra. E sempre uma pontinha de ironia, que os "dizedores" que se levam demasiado a sério, fatal como o destino, resvalam sempre para a grandiloquência. A Cláudia Lázaro traz o lado doce, delicado e feminino para cortar a ressaca provocada pelo vozeirão do João Paulo.
A viagem está cheia de surpresas e o eléctrico é belíssimo (é o maior da coleção do Museu, com quarenta lugares sentados). Deixo-vos aqui o cardápio do recital:

Eugénio de Andrade - Schumann por Horowitz
António Nobre - segundo poema de Lusitânia no Bairro Latino
Álvaro de Campos - Ode Triunfal (excertos)
Mário de Sá-Carneiro - Cinco Horas
Mário Cesariny - Pastelaria
Jorge de Sena - Couraçado Potemkin
Fernando Pessoa - [quinto de] Chuva Oblíqua
Ruy Belo - O Portugal Futuro
Jorge de Sousa Braga - Portugal
Manuel António Pina - Junto à Água
Álvaro de Campos - Ode Trinfal (excertos)
Cesário Verde - Ave Marias (de O Sentimento de um Ocidental)
Eugénio de Andrade - Com o Mar


Embora seja uma escolha bastante heterogénea, não tem nada de aleatório. Procuram-se certas tensões, contrastes e simpatias entre os poemas: uns mais crepusculares ("nas nossas ruas ao anoitecer", diz o Cesário) outros mais solares ("o país aonde o puro pássaro é possível", diz Belo); nuns a viagem é interior noutros a viagem é física; a viagem colectiva (como no "Potemkin" do Sena) e a viagem solitária, por "corredores sonâmbulos" (Manuel António Pina); o mito da máquina e do progresso, a dinâmica das engrenagens, das rodas dentadas e das correias de transmissão na "Ode Triunfal"; um olhar irónico sobre o país, como é o do Jorge de Sousa Braga ("Portugal/ Nao imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino/ nacional") ou o do... António Nobre, esse grande humorista português!
Caso vos apeteça prolongar a tarde literária, têm às 18:30h o Eduardo Prado Coelho na FEA, no âmbito do ciclo "Encontros com Críticos de Poesia". Já lá estiveram o Eduardo Lourenço, o Fernando Guimarães, o António Guerreiro e o Pedro Mexia. Oportunidade para colocar questões ao EPC, sem constrangimentos. Por uma vez, os poetas trocam de lugar com os críticos: aqueles na assistência, estes sob a luz dos holofotes.
Não percam.

Pequena antologia de obras-primas portuguesas de expressão inglesa #5.

E a nossa antologia de lyrics de songwriters portugueses de expressão inglesa continua a crescer. Para hoje o Ricardo Carvalho preparou-nos uma excelente tradução de "Are You Ready?" (Estás Pronta?), tema dos Blasted Mechanism. Sim, estamos prontos. A versão original está disponível aqui.

ESTÁS PRONTA?
Blasted Mechanism


Agora sei o significa.

Estou pronto!
Assim é o melhor que posso estar.
Estás pronta?

Troco já a minha coroa por um beijo teu...
Estás pronta?
Vamos pôr um disco a tocar, e dançar o mundo.

Eu estou pronto! Estou pronto para ti...
Estás pronta? Estás pronta para mim?

Estamos prontos! Estamos prontos para o amor...
Estás pronta? Estás pronta para isso?

Vou levar-te àquele sítio especial,
Onde a tua faiscante beleza se intensifica,
E nenhum homem vivo roubará o brilho,
Do azul profundo dos teus olhos.

Eu estou pronto! estou pronto para ti...
Estás pronta? Estás pronta para mim?

Estamos prontos! Estamos prontos para o amor...
Estás pronta? Estás pronta para isso?

Agora sei o significa.

Estou pronto!
Assim é o melhor que posso estar.
Estás pronta?

Troco já a minha coroa por um beijo teu...
Estás pronta?
Vamos pôr um disco a tocar, e dançar o mundo.

Eu estou pronto! estou pronto para ti...
Estás pronta? Estás pronta para mim?

Estamos prontos! Estamos prontos para o amor...
Estás pronta? Estás pronta para isso?

11.3.04

“Como na guerra, sem filosofia” – as palavras de Carlos V surgem neste dia com um peso diferente. Antonio Sáez Delgado, escrevendo-me há minutos, afirmava: “este é um dia terrível para Espanha!”. Contrariei-o. É um dia terrível para todos quantos desejam um mundo justo, em que os seres humanos convivam na diversidade, dialoguem mesmo na diferença – tal como o 11 de Setembro e muitos outros dias em que a morte foi usada para acabar com a esperança, instalando o medo e a dor como pilares da casa em que habitamos. O horror toca-nos de perto – apenas a algumas centenas de quilómetros.
Neste dia, a frase do Prof. Amadeu Carvalho Homem surge límpida: “Vencer o terrorismo é uma imperativo para a nossa civilização”. Venha ele de onde vier, seja praticado por quem for, não podemos ter contemplações em relação a quem actua desta maneira. Nada há que possa justificar o terrorismo, seja ele islâmico, etarra ou de outra proveniência – como alguns hipócrita ou descaradamente costumam fazer. Não foram responsáveis políticos, militares ou religiosos que morreram neste e noutros atentados – é o coração da democracia e da sociedade aberta que sofre uma grave ameaça neste e noutros dias de negrume, promovidos por gente que deseja sobretudo destruir todos os seres humanos que desejam pensar livremente, que procuram viver num mundo melhor.

Ruy Ventura

A Dor

Ferido. Magoado. Paf, como se tivesse levado um murro na fronha. Mais que isso: uma facada nas tripas, a navalhada junto do coração. Antes mesmo de me levantar, acendo o rádio e como pela medida grande: na minha querida Madrid, na estação de Atocha onde desci do combóio há pouco mais de 15 dias. No combóio de Alcalá de Henares, onde nas férias passadas estive com o Juan Pedro Moro vindo de Londres, a destroçar saudades, atirando a terra tapas e couves recheadas, tudo com o bom vinho do Casado que eu levara como um dispendioso frascão de incenso. Perto da Porta do Sol, perto do Rainha Sofia, onde levei a minha neta para, com seis anos, começar a ver a verdadeira vida dos pintores, da pintura. Aí a duzentos metros do cafézinho onde me repimpo com um ar de beatitude. Perto dos lugares que ensinei os meus a amarem e percorrerem.
Quantas daquelas pessoas (estudantes, mangas-de-alpaca, marçanos, operários disto e daquilo) se teriam cruzado comigo, ombro a ombro no trem? Gentinha de ver na rua...
Magoado. Como se um pássaro bisnau me tivesse ido ao trombil. Com as lágrimas nos olhos, sim. Que raio de vida!
Três bombas. Em cheio no coração da manhã. Na minha amada Madrid. Triste até mais não. Como se me tivessem rasgado os livros de poemas. Me tivessem feito em cima, espezinhado a valer.
Três bombas. Apenas. O que foi, raios parta isto, como um mundo de desolação.


Nicolau Saião

Oh, foda-se. Quando é que isto tem um fim?

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Post it #86

Também muito interessante é a entrevista que Richard Cabut fez a Jamie Reid, o artista que criou a imagem gráfica dos Sex Pistols, e que está disponível na 3 AM Magazine.

In many ways, political change can only come through spiritual change and I was brought up with that feeling. The two are intertwined - there's a deep-seated socialist druid tradition in this country which considers certain thing to be our birthright: the right to housing, education. I hate labels but, yeah, I would describe myself as a socialist druid.

Post Scriptum #170

E ainda a propósito de viagens a Lisboa, vale a pena ler a mais recente crónica de Nicolau Saião.

Devagar se vai ao longe…

É um ditado velho mas agora, aqui, tem a ver com um trocadilho deliberado: porque foi na livraria “Ler Devagar”, essa mesmo, a do cantinho da rua de S.Boaventura, nas lisboas onde dá gosto apessoarmo-nos, que António Sáez Delgado, Ruy Ventura e - como apresentador - José Luís Peixoto, nos deixaram um pouco mais reconciliados com a existência ao lançarem os seus livros, respectivamente “Dias, fumo”(com capa do autor) e “Assim se deixa uma casa”(capa de Augusto Raínho).
José Luís Peixoto, escritor e ser humano que dá gosto frequentar, foi como sempre incisivo e brilhante – mas do brilho real daquilo que é verdadeiro (é um autor que não fala por falar) e que tem a ver com o mundo que todos nós sonhamos; Sáez Delgado, poeta de excelências interiores e de fino humor pessoal, temperado com a caballerosidad extremenha que sempre nos apraz sentir, deu-nos em espanhol e em lusitano um fragmento desse seu universo tão peculiar onde o dramatismo realça a desejável simplicidade da vida, das coisas, das ruas, do próprio rio Guadiana, o grande rio do sul partilhado por duas nações e, o que ainda é melhor, por poetas dos dois países. Por último, Ruy Ventura cruzou como autor e leitor – num gesto que se vai tornando cada vez mais necessário nesta sociedade que prima em desgraçar-nos – o seu percurso com o de dois grandes poetas que o vómito urbano, entre outras coisas tristes, tenta ocultar mesmo para além da morte, como se não bastasse a discreção que os rodeou enquanto vivos: Nuno Guimarães e Cristóvam Pavia. No seu texto de apresentação, RV chamou a capítulo Pessoa e o seu “Heróstrato”, “livro muito perigoso para os tempos que correm e, por isso, tão pouco citado”.

Já não ia a Lisboa – o que se chama ir, com voltinhas pelos lugares amados, olhares e andares repletos de nostalgia – há uns 4 anos ( como talvez saibam, perco-me e acho-me em Espanha, extremaduras e andaluzias no mínimo, que a fronteira me fica à porta de casa). Por meu bem, por meu mal? Não sei, é assim. Mas quando, no fim de dois dias criadores com gente do peito, se tem como corolário uma sessão destas, digna e humana e sem pontinha de aperaltação e presunção – damo-nos graças pelo nosso reencontro com a capital do império – que por um par de horas foi para nós capital de luminosa e pura “beleza de uma raridade”(sic RV) a poesia do que de facto conta como exemplo e função de vida.


Nicolau Saião.

Umbigo #8

Estive dois dias em Lisboa com o Caim. Pelo sim, pelo não, dormimos em quartos separados.

O Povo é Sereno #68

Acabo de ler um arremedo de prosa no "Público" de hoje assinado pelo vereador do PS na Câmara do Porto Orlando Gaspar. O "articulista" bem tenta parafrasear o Eça, mas tudo o que conseguiu produzir foi uma salgalhada confusa que é uma ofensa à prosa do nosso maior romancista. Dedica-se o indivíduo a achincalhar o seu colega de partido Augusto Santos Silva. Entre outros pseudo-argumentos, a socialista criatura coloca o Santos Silva no rol dos que "nunca ganharam sequer eleições no condomínio onde vivem, ou, se as ganharam, é porque vivem em casa própria. De resto, em combates leais nunca ganharam nada". E escreve isto um venerável cacique que se especializou na arte da dissimulação e nas manobras de bastidores, mudando de camisa a cada novo acto eleitoral... Não há dúvida de que, como escrevia aqui há tempos o Miguel Sousa Tavares (se não me engano), o facto de alguém ganhar eleições neste país legitima as maiores aberrações que possamos imaginar. Mas não haverá por aí alguém que livre os nossos partidos destes vermes que teimam em querer subir-nos pelas pernas acima? "O Postal ilustrado" é o título da coisa, mas aos gatafunhos que o seguem assenta melhor o título de "Selo". Adivinhem lá de que tipo.

P.S. Desculpem-me mas ainda não aprendi a colocar "links"... Eu sei que é fácil mas sou muito azelha nestas coisas.

Outro P.S.: O artigo que o Rui Lage cita está disponível aqui.

Outro P.S.: era preciso.

10.3.04

Post Scriptum # 169

Gomes Leal (1848-1921) foi o nosso poeta "satânico", o nosso poeta "maldito", o nosso Baudelaire. Com a sua propensão iconoclasta e com versos tão bombásticos como são alguns dos que escreveu, espanta-me o não ser um poeta mais lido e mais estudado, bem como o não ser um mito literário tão ou mais importante como é, por exemplo, o Sá-Carneiro. Há um soneto do seu livro "Claridades do Sul" (1875), chamado "À Janela do Ocidente", que me deixa desconcertado de cada vez que o leio. Que impacto não terá tido, nos anos 70 do século XIX, o derradeiro terceto deste poema?



À JANELA DO OCIDENTE

Os deuses ou são mortos ou caídos,
Quais duros aldeões dormindo as sestas,
Ou andam, pelos astros perseguidos,
Chorando os velhos tempos das florestas.

Os reis ressonam nas devassas festas:
Já os frutos do Mal estão crescidos:
- Ó Sol, há muito que tu já nos crestas!
- E aos nossos ais o Céu não tem ouvidos!

Há muito já que o Olimpo está vazio,
E no seio de um astro imenso e frio
É morto o Deus do Testamento Velho.

Apenas, sobre o mundo eterno e aflito,
Fausto rebusca o x do infinito,
E Satã dorme em cima do Evangelho.



"Claridades do Sul". Ed. de José Carlos Seabra Pereira.
Lisboa, Assírio & Alvim, 1998
(Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, n.º 5)

8.3.04

Primeiro Dia de Aulas.

Eis-me transportado para o primeiro dia de escola. Alguém me veio trazer pela mão e me deixou à porta, entregue aos cuidados da gerência do Quartzo (olá Pedro, olá Nuno, olá Rui). Este é um mundo novo para mim. Até há bem pouco tempo nem sequer suspeitava da existência de uma linguagem "html", vejam bem vocês (sim, sou um troglodita na blogosfera, e, como dizia ao Rui Amaral, ainda não cheguei a este século, encontrando-me neste preciso momento em 1998, na Expo, deslumbrado com o mito do progresso). Procurarei colocar nesta terra de estranhos minerais (onde não sei se sou quartzo, se feldspato, se mica) as minhas digressões, devaneios, delírios, deslumbramentos, perplexidades, encantamentos, indignações e afins. Tudo aquilo a que todos temos direito. Haver por aí alguém interessado em lê-las é o que me traz verdadeiramente espantado. Vou tentar deixar por aqui, de vez em quando, traduções inéditas dos poetas de que mais gosto (e que ainda não estejam traduzidos em português, senão a coisa perde a piada). O meu ritmo de tradução, no entanto, fica muito aquém do frenesi criativo do Manuel Resende, em cujas belíssimas traduções venho lendo os modernos poetas gregos, e não traduzo, para desgraça minha, do grego (nem do alemão, nem do mandarim, nem do javanês, nem do moldavo, nem do letão, nem do suaíle, e por aí fora). Deixo isso para os que sabem. E aqui fica, para o Manuel Resende, um poema de Eugénio de Andrade sobre Kavafis, com votos de que ele regresse rapidamente do Pólo Norte para retomar os seus trabalhos de canteiro nesta granítica e povoada paisagem.


KAVAFIS, NOS ANOS DISTANTES DE 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando
acordava com os olhos do amigo nos seus olhos
como este grego que nos versos se atrevia
a falar do que tanto se calava
ou só obliquamente referia -
nenhum tão solitário e tão atento
ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

Eugénio de Andrade, 1964.