30.4.04

Diário de Sophie#11

…. e ao ler este post do Rui Lage, lembrei-me logo das lojas Singer. De facto, aquele reflexo acidental no espelho de que fala o Pirandello e que nos anos 20 só permitia fracções de segundo de “não conhecimento do ser” foi hoje substituído pelas câmaras de filmar das montras das lojas Singer. Com elas, já é possível, olhando para o televisor da montra que mostra quem passa pelo lado de fora, 1 a 2 segundos de “não conhecimento do ser”. E se estivermos mesmo muito distraídas, podemos experimentar quase três segundos a olhar para um corpo estranho que não reconhecemos como o nosso, querido diário. Só depois, claro, é que começamos a olhar para o voluptuoso tamanho dos seios, para a anca torneada al dente, a saia de rasgo prolongado em vermelho-pérola que acompanha o traço da meia de vidro, o tacão de 5 cm com tira-tornozelo tipo “alunas de Apolo”, a gargantilha “Arte Nova” e os abdominais tensos em umbiguinho generoso e então dizemos surpreendidas: olha, aquela sou eu!!!.

O Silêncio é de Ouro #70

De Keith Jarrett já se disse muito e ainda falta dizer quase tudo. Menino prodígio, começou a tocar piano com três anos e deu o seu primeiro recital com sete. Na adolescência já tinha uma interessante carreira profissional. Também começou a editar muito cedo. A sua ampla obra discográfica foi editada maioritariamente pela ECM, etiqueta conhecida pela excelente qualidade das suas gravações e pela primorosa apresentação gráfica dos seus discos. Jarrett já gravou de tudo: jazz, sessões de improvisação, interpretações de peças clássicas (Bach e Mozart, por exemplo), a solo ou em grupo. E das suas interpretações destaca-se sempre a sua inimitável maneira de tocar piano, ainda mais evidente nos concertos ao vivo. Um bom exemplo disso é o “The Köln Concert”, gravado ao vivo em 1975, na Köln Opera House.

Raul Silva

Umbigo #26

Hoje, no café, uma amiga dizia-me que o cravo vermelho que comprara na tarde de 25 de Abril estava ainda surpreendentemente fresco. “Como se tivesse sido colhido hoje”, disse ela.

Antes que comecem a desconfiar das minhas boas intenções, deixem que lhes diga desde já que estou absolutamente inocente. E, agora, vamos ao assunto. Hoje, na livraria, parti a cara ao Eça de Queiroz. Ou melhor, usando de maior rigor, devo antes dizer que lhe parti a cabeça. Julgo que me faço entender. Quer dizer, o busto desfez-se num número incontável de pedaços. Bastou um minúsculo encosto involuntário e logo ali o diabo do Eça de barro desintegrou-se no chão. Por ser um cliente mais ou menos habitual, o livreiro dispôs-se a perdoar-me o mau jeito, em troca de um pequeno acto compensatório, por assim dizer. “Sei que tem um blogue”, disse ele. “Faça um link para esta casa e esquecemos o Eça.” Há, de facto, livreiros para tudo, até para pedirem coisas destas. Mas deixemos isso agora e passemos ao pagamento da dívida. Pronto. Ponto.

Fauna & Flora #5


AVISO PÚBLICO

Amanhã começa mais uma Queima das Fitas do Porto, o "desporto" favorito de um certo tipo de estudantes do ensino dito "superior" (quanto mais reles, mais aderes). É a ocasião ideal para conhecer outros pontos do país e, se possível, só regressar ao Porto daqui a uma semana.

Post Scriptum # 216


Depois de "New Hampshire", "Virginia", e "Usk", damos lugar a "Rannoch, by Glencoe", quarto poema da sequência "Landscapes" de T. S. Eliot (1888-1965). Fico espantado sempre que vejo Eliot referido em recensões críticas e ensaios como uma espécie de guru, de "magister" da poesia prosaica e descritiva, supostamente avesso à metáfora e ao símbolo. Estaremos a falar do mesmo poeta? Há duas explicações: ou os autores desses textos não leram Eliot ou não perceberam nada. Cheira a fraude ou a leviandade. O discurso poético de Eliot é elíptico, fragmentado, opaco, feito de arritmias e de impressões sincopadas; é feito de camadas e camadas de referências sobrepostas, de intertextualidades com outras obras da tradição poética universal que se procura "reeinventar" através de um diálogo erudito e difícil. É uma poesia em que o "eu" é esvaziado, numa busca obssessiva da impersonalidade, de todas as vozes e nenhuma. O olhar há-de ser impessoal e imaterial, "as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a/screen" ("The Love Song of J. Alfred Prufrock").


RANNOCH, JUNTO A GLENCOE.

Aqui o corvo passa fome, aqui o veado procria
para a espingarda. Entre a charneca suave
e o céu suave, quase não há espaço
para saltar ou planar. A substância desfaz-se, no ar escasso
frio ou calor lunar. A estrada ondula
numa apatia de guerra antiga,
langor de ferro quebrado,
clamor de violência confusa, apto
no silêncio. A memória é forte
para além do osso. Orgulho cortado,
é longa a sombra do orgulho, e a longo prazo
sem o concurso do osso.



ELIOT, T. S. – Collected Poems: 1909-1962.
London: faber and faber, 1973.

Post Scriptum # 215



Pirandello:

"Ah, não mais ter a consciência de ser, como uma pedra, como uma planta! Não recordar sequer o nome! Estendidos na erva, com as mãos cruzadas na nuca, olhar no céu azul as nuvens brancas que pairam, deslumbrantes, inchadas de sol; ouvir o vento que soa lá em cima, entre os casntanheiros, do bosque com um fragor de mar.
Nuvens e vento.
O que disse? Ai de mim, ai de mim. Nuvens? Vento? E não lhe parece que é tudo, olhar e reconhecer que aquilo que paira no azul interminável e vazio são nuvens? A nuvem sabe porventura que existe? Nem a árvore nem a pedra, que se ignoram até a si mesmas, sabem que a nuvem existe; e estão sós."

Luigi PIRANDELLO – "Um, Ninguém e Cem Mil".
Trad. de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.
[S. l.], Bibliotex Editor, 2003 (col. Diário de Notícias), p.38.


Ao ler esta e outras passagens de "Um, Ninguém e Cem Mil" de Pirandello (1867-1936), um livro pouco conhecido e estudado entre nós pese embora os óbvios pontos de contacto com o "O Livro do Desassossego", não pude deixar de me lembrar de "O Guardador de Rebanhos". O conhecimento como a ressaca dos sistemas, das construções da razão, das fenomenologias. Uma religião do olhar. Não um olhar qualquer, acidental e instrumental, mas um olhar para além do olhar; nem anterior nem posterior à consciência mas simultâneo – um olhar através do próprio olhar caindo como uma pedra. A solidão essencial de todas as coisas em relação a todas as coisas.

O Povo é Sereno # 90

Ontem, o Público noticiava que, de acordo com Ricardo Figueiredo, vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, a construção da Alameda de Azevedo, que atravessará o futuro Parque Oriental, é “irreversível”. Esta obra tem sido fortemente contestada por vários grupos ambientalistas da cidade. Nada de novo, portanto. O que é absolutamente espantoso é a resposta do vereador aos críticos do projecto. Uma pérola de humildade democrática, para usar uma expressão corrente nos círculos políticos. Ouçam: “apresentámos-nos a eleições, fomos eleitos, e, por mais respeito que tenhamos pelos ambientalistas, nós é que temos que decidir. Se determinado tipo de pessoas querem ter uma participação mais activa que concorram e sejam eleitas.” Onde estaria o vereador Figueiredo no 25 de Abril?

Cicatrizes em ferida #2

PODE SER QUE SEJA DESTA

Esta semana há jackpot. Não tenho sorte nenhuma ao jogo. Então no totobola, já quase deixei de tentar. Aqui há um tempo atrás ainda tentava usar a lógica. Às segundas de manhã chegava mesmo a recortar as classificações dos jornais para as estudar em detalhe, acabando por cometer verdadeiras loucuras, à época, que era esse acto insano de apostar duplas e triplas.

Nunca ganhei nada de jeito. Jamais vivi aquele doze que supria o investimento. Quando o totoloto apareceu cedo me rendi à novidade. Cheguei mesmo a preencher dez apostas por semana na certeza de que se marcasse do 1 ao 45, em todos havia de acertar. É acertava, é claro. Só que em apostas diferentes. Umas aqui, outras além, muitos uns, poucos dois, escassas vezes aquele três que nunca paga o boletim.

Mal grado os antecedentes nunca deixei de tentar. Custa-me desistir por desistir. Mas por agora abandonei o esforço de escolher os algarismos quando se sabe, de há muito, que a sorte é filha do acaso. Por isso, a táctica que uso tem pouco a ver com ciência. Sexta-feira de manhã quando os ponteiros se encarregam de esconder o meio-dia, sento-me na mesa de canto junto ao casal de reformados e enquanto ele se entrega ao fenómeno da raspadinha, fico atentamente à espera que ela comece a falar, vendo-o à cata do milhão que cartão a cartão nunca lá está.

- O que vai ser o nosso Beto, Fredo. De ontem a 7 dias vai-nos fazer 39 e inda n'um o vi calhado à mesma mulher 2 meses que fosse. Os 3 lá em casa não dá. A tua reforma mal dá para pôr a tocar 1 cego, a minha p'ra pouco mais serve, vá-se lá viver com isto, olha 49 contos !, para que raio dá essa esmola ? Inda se me lembra do leite a 25 mil reis, do pão branco a 10 tostões e inda se recebia troco, tu vê se me falas com ele, por este andar o teu Beto fica mal quando eu me fôr, tu tás-me a ouvir, Zé Alfredo ?, tu por um acaso tás-me a ouvir ? Vê se me vais buscar mais raspas, ´tamos casados há 45, e o teu Beto, Alfredo, o teu filho Beto, Zé Fredo, de todos os que tivemos é o pior p'ra casar, se me arranjasse uma ricaça de 20 ou de 40, tanto se me fazia que tivesse a idade que tivesse, tu importas-te de prestar atenção por 10 minutos que seja que me pareces um estropiado à porta da Carmelitas ?

Mal ela atinge os doze números corro a registar o boletim. Sei que se ficar por ali é grande a tentação de apostar mais dinheiro enquanto ela não se calar e convenci-me que para o caso é igual jogar muito ou pouco. Fico-me pelas duas apostas, uma mais de números baixos, outra a atirar para os mais altos. Há quase sempre um número que ela repete ao acaso e me leva a apostar duas vezes. Considero-o o seu palpite. Já prometi a mim mesmo que se me sair um bom prémio lhes ofereço uma maquia, mais não seja o suficiente para o Beto ficar bem.

E apesar da fortuna não me avistar amiúde, o instinto feminino esse é uma certeza, pelo que ao guardar o boletim fico sempre a indagar se o que aquela mulher disse terá um sentido oculto, se haverá alguma ordem por detrás de tudo isto, e renasce em mim a esperança de que - se nada existe por acaso, - pode ser que seja desta.

29.4.04

Post It # 120

Abril é comoção.

"O Escritor Pedro Oom Morreu de Comoção – O irreverente e talentoso poeta surrealista Pedro Oom, figura muito assídua do café Gelo ao tempo em que ali se reunia o grupo em que pontificavam Mário Cesariny de Vasconcelos, Luís Pacheco e outras personalidades daquela corrente estética, morreu ontem de comoção provocada pela queda do fascismo em Portugal.
O insólito autor de tão belos poemas fantásticos e escatológicos como os que publicou em «Grifo» e em «Pirâmide» não resistiu à alegria da vitória. (…)"

Pode ler-se no Diário de Lisboa de 28/04/74 e no Almocreve.

O Povo é Sereno #89

Mais um contributo de Ruy Ventura, a propósito dos incontáveis pecados cometidos no restauro de arte sacra em Portugal.

Ao longo dos anos o restauro de obras de arte sacra tem estado entregue ao mais flagrante amadorismo (para mais não dizer). Exceptuando os monumentos intervencionados pelos organismos estatais (intervenção que, normalmente, só se realiza em edifícios classificados – em poucos, infelizmente), a maioria das peças tem sido entregue a gente oportunista ou simplesmente ignorante, devido a alguma miopia das autoridades eclesiásticas.
Claro está: há boas e más práticas. Dependentes do bom senso e do pulso dos bispos, traduzidos na capacidade de organizar bons departamentos de Arte Sacra e na firmeza perante a inconsciência dos párocos, das comissões fabriqueiras e das confrarias que pululam por esse país fora.
O melhor exemplo é o da diocese de Beja e do seu Departamento Histórico-Artístico, inteligentemente liderado por José António Falcão. Nela têm sido promovidos um inventário rigorosíssimo, restauros criteriosos e uma correcta divulgação das peças por esse país fora e por essa Europa adentro.
Maus exemplos há infelizmente muitos. Conheço vários e alguns gritantes. Apresento apenas um que conheço de perto: o da diocese de Portalegre, onde o responsável pela Arte Sacra aconselha os párocos a entregarem as peças a restaurar a santeiros bracarenses que, normalmente, as destroem irremediavelmente, pois nem sequer suspeitam o que é um restauro respeitador da verdade histórica do património.
Soluções? Uma possível é desatarmos a entupir o IPPAR com pedidos de classificação das peças que achemos significativas. Ou então tentar sensibilizar as autoridades eclesiásticas – na medida do possível… –, lutando contra a ignorância das populações que, habitualmente, acham “muito bonitas” as esculturas depois da “lavagem” efectuada pelas oficinas de Fátima e de Braga, alertando-as de que há instituições (como a Gulbenkian) que concedem subsídios para o restauro, desde que o mesmo seja feito por técnicos credenciados.


Ruy Ventura

Cicatrizes em ferida #1

PODE SER AVE OUTRA VEZ

As coisas da alma transbordam, de cada vez que apanham uma frincha para escapar. Pensei em qualquer coisa assim depois de ter escutado uma colega a consultar pelo telefone:

- Aplique Bacitracina.
A doente ouvia mal. A médica soletrou:

- “B" de bispo..., "a" de ave..., "c" de casa..., "i" de igreja..., "t" de tia..., "r" de rio... - e a acabar: - “n" de nêspera..., e "a"... espere, deixe ver... pode ser ave outra vez.

Disfarcei o embaraço. Havia-lhe traçado ali, em escassos segundos mentais, o esquisso de um perfil - católica, matriarca e rural, com fundas ligações à família - análise precipitada mas perigosamente plasmada à imagem que dela tenho formada.

"As coisas da alma transbordam, de cada vez que apanham uma frincha para escapar”, impus mais tarde a um amigo, já distante do hospital.
- És bem capaz de ter razão! - quarenta anos na mão que segura a Imperial, recém-entrado no volátil Clube dos Divorciados. - Tivesse sido comigo, já sabes como diria... - e enumera - “B" de Becas..., "A" de Ana..., "C" de Carla..., "I" de Inês...

Post Scriptum # 214

Walter de la Mare
(Reino Unido, 1873-1956)



NAPOLEÃO

“O que é o mundo, ó soldados?
Sou eu:
Eu, esta neve incessante,
Este céu do norte;

Soldados, esta solidão
Que atravessamos
Sou eu.”

Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Vai no Batalha # 18

A mais bela frase do dia foi dita ontem pelo futebolista Fernando Couto. Diz ele, com toda a autoridade de um seleccionado, a propósito de mais uma empate-derrota da equipa portuguesa de futebol: “temos de olhar bem nos olhos uns dos outros e ver o que queremos.”
A frase foi-nos soprada pelo leitor Ricardo Ferreira.

28.4.04

MENSAGEM DA GERÊNCIA

Como já devem ter percebido, o Quartzo, Feldspato & Mica tem a felicidade de acolher como seu mais recente colaborador permanente o poeta (e médico) João Luís Barreto Guimarães. Dono já de uma bibliografia considerável, João L. B. Guimarães nasceu em 1967, vive em Leça da Palmeira (Porto) e publicou o seu primeiro livro de poesia, "Há Violinos na Tribo", em 1989 (o que o "salva", de certa forma, da "geração" de poetas dos anos 90). "Rés-do-Chão" é o seu último, publicado pela Gótica há pouco mais de um ano. Podem ficar a saber o resto visitando a página do João Guimarães, "Lugares Comuns". Poucos poetas portugueses contemporâneos são capazes de extrair a mesma carga poética do quotidiano, dos pequenos acontecimentos, dos ínfimos detalhes e acidentes da vida, ou, se quisermos, de mudar o chumbo do quotidiano no ouro do poema. Nesse sentido o nosso poeta é herdeiro de um Alexandre O'Neill e, no que toca ao olhar irónico (e terno) lançado sobre o quotidiano, revela afinidades com outro poeta do Porto, Manuel António Pina. Aquilo que dentro do automatismo das nossas vidas não tem significado nenhum ganha um significado novo, às vezes trágico, às vezes humorístico, quase sempre irónico, por vezes luminoso e epifânico na poesia de João L. B. Guimarães. É difícil não nos determos perplexos perante a forma como o poeta João Guimarães torna estranho, presente e intenso no poema aquilo que estava condenado a passar despercebido. É uma poesia ousada, feita de equilíbrios precários, com o discurso sempre no limite do despojamento linguístico e do prosaico, mas que por outro lado não recusa as formas poéticas canónicas como é o caso do soneto, que João Guimarães tão bem soube recuperar através de um olhar subversivo.
O João Guimarães publicou o seu primeiro post de mansinho, como quem não quer a coisa, mas tenho o pressentimento de que não vai conseguir passar despercebido. A partir de hoje contamos com a sua presença assídua. Estamos de parabéns.

A última da Francisca #1

Não sei se serei o único pai deste grupo. Em todo o caso, gostaria de partilhar convosco que acabou agora mesmo de telefonar cá para casa o Filipe, de 7 anos, colega de colégio da Francisca, a convidá-la para a festa de anos dele no próximo sábado, no Camelot Park.
A questão que se me põe é se a hei-de deixar ir ou não. Por um lado, nem sequer tem que faltar à catequese, já que termina precisamente às quatro e meia, hora a que começa a festinha. Mas, por outro lado... o miúdo pareceu-me um pouco fresco ao telefone:
- És o pai da Francisca ? - perguntou.
"És". Tu "és". Não gostei. Pronto, não gostei. Não tarda nada está a levá-la a lanchar ao Bus e a oferecer-lhe o primeiro café (coisa que deve ser um pai a fazer), ou a trazê-la de volta a casa às quatro da madrugada, depois de mais uma festa de anos no Indiana Bill.
"És o pai da Francisca ?". "És ???"
Vou ter que dormir sobre o assunto. Ainda ontem a minha filha me acordou de manhã dizendo que tinha sonhado comigo. Comentou que passamos os dois a tarde inteira na praia, pelas rochas, a apanhar cromos do Nemo com uma redinha.

O Povo É Sereno #88

Para infelicidade geral, começou por estes dias mais uma pré-campanha eleitoral. Lentamente, as ruas ir-se-ão enchendo de mupis, cartazes e folhetos. Depois, chegarão os outdoors, as faixas e os pendões. A seu tempo virão os tempos de antena e os direct mail. E, mais lá para o fim, os indispensáveis e "grandiosos" comícios...

Já não há pachorra para este malfadado ritual que os partidos insistem em cumprir nos períodos eleitorais, tão dispendioso e ecologicamente criminoso quanto politicamente nulo. Sim, porque é sabido que esta forma de fazer propaganda política deixou há muito de colher na esmagadora maioria da população: o eleitorado politicamente consciente não faz as suas escolhas em função dos belos olhos dos candidatos, da mesma forma que os indecisos prolongam essa sua condição até à entrada na cabina de voto para só então aporem o xis. Mas não, os partidos não sabem disto (fingem, os sonsos). Preferem deixar que a poluição (visual, sonora, material) se instale nos passeios, nas paredes dos edifícios, nos postes de iluminação e nas cabinas telefónicas a compreender que todos ganhariam com campanhas mais inteligentes - aparte o senão, nada despiciendo, da miríade de empesas de comunicação, produção audiovisual, gráficas e outras que se alimentam destas campanhas.

Eu, por mim, já decidi: nas próximas eleições europeias, vou votar no partido que provar ser o mais limpinho, arrumadinho, poupadinho e amigo do ambiente. Desde que não tenha o credo do défice na boca, claro...

Post Scriptum # 213

Edwin Arlington Robinson
(E.U.A., 1869-1935)



RICHARD CORY

Quando Richard Cory ia à cidade,
As pessoas na calçada se voltavam para ele;
Era, da cabeça aos pés, um cavalheiro,
Os traços nítidos, senhorialmente esbelto.

Sabia vestir-se, mas sem afectação,
Quando falava era sempre muito humano;
Todavia, o coração acelerava-se ao ouvi-lo dizer: “Bom dia!”
E ao andar dir-se-ia que tinha uma auréola.

Era rico, sim, mais rico do que um rei
E admiravelmente destro em todas as artes;
Nós, enfim, não nos cansávamos de supor
Que estar no seu lugar seria mais do que um sonho.

E assim trabalhávamos, aspirando à luz,
A maldizer o pão, vivendo quase à míngua:
E, numa calma noite de estio, Richard Cory
Foi para casa e estourou os miolos.

Tradução de Breno Silveira

Ilha dos Amores # 45


A Ângela M. Ferreira tem uma página na "web" com fotografias deslumbrantes tiradas nas suas deambulações pelo mundo fora deste nosso aquário. A própria Ângela é muito bonita. Há uma série de fotografias dos índios da tribo Jenipapo Kanindé, entre outras tribos cearenses pelas quais as lentes se deixaram seduzir, que pedem várias visitas ao berlinde's Journal. Milagres da luz.

O Povo é Sereno # 87

De acordo com uma notícia publicada no jornal “O Comércio do Porto” de ontem (não tem sítio na internet), a investigadora de arte sacra Fátima Eusébio terá defendido, num colóquio público, a implementação de acções urgentes para evitar os frequentes “pseudo-restauros” de obras de arte que ocorrem nas igrejas portuguesas. Recorde-se que 70% a 80% do património artístico nacional pertence à Igreja. Mas, segundo Fátima Eusébio, “são muitas as obras onde a intervenção de restauro se tem revelado ruinosa, pautada por critérios não científicos, mas economicistas e sujeita ao gosto, muitas vezes duvidoso, do sacerdote e da população”.
Quem fala assim não é gago. Mais: Fátima Eusébio é docente da Universidade Católica Portuguesa.

Vai no Batalha # 17


Ai que saudades de mascar as prodigiosas chicletes Gorila... Ó longas tardes de mastigação, a solo ou aos pares...! O papel de embrulho andrajoso e de gosto discutível, aquela cabecita de gorila gaiteiro a piscar o olho eu nunca soube muito bem a quem, a paleta de cores mais garridas do reino dos entretenimentos bucais, e os sabores! ah os sabores, palatais ternuras, vejo-os, desfilando: ele era a banana, o mentol, a canela (tentativa tardia de modernização) e, delícia das delícias, glória das glórias, o morango ácido! Com o fim das Gorila, foi todo um Portugal que desapareceu, um país onde as férias ainda não eram passadas no Algarve, o primeiro beijo era dado à prima que estivesse mais à mão, o gelado que andava na boca de toda a gente era o "Epá", as bicicletas reinavam, os objectos fetiche eram a bota botilde ou o cubo mágico da rubik, o computador o ZX Spectrum e o jogo o "Manic Miner", as séries de televisão a "Galáctica" e o "Verão Azul", a música a dos Duran Duran ou dos Depeche Mode. Que raio de pastilhas elásticas nos querem hoje impingir!? A lista de horrores não tem fim: pastilhas sem açúcar, pastilhas que "lavam os dentes", pastilhas sem cor e sem corantes, pastilhas microscópicas, pastilhas com propriedades dentríficas, com protector não sei do quê, pastilhas de nicotina, pastilhas disto e daquilo, pastilhas de ervas aromáticas (e até quem sabe um destes dias pastilhas de relvado de estádio de futebol para os fanáticos). Deixem-me parafrasear o Sá-Carneiro do "Cinco Horas" para dizer que prefiro às pastilhas "pouco ornamentais" as chicletes "de cores mais vivas e mais brutais". Vivam as chicletes Gorila! Vivam elas! E viva também a pasta medicinal Couto.

27.4.04

Umbigo #25

Hoje, durante o almoço de trabalho da gerência, tentei demonstrar ao Rui Lage que o Eliot era T.S.
Perante as evidências, o Rui viu-se forçado a concordar comigo.

Umbigo #24


A gerência do Quartzo, Feldspato & Mica voltou hoje a juntar-se à volta de uma mesa no já habitual Portuense para amena cavaqueira, acompanhada de menos amena refeição. Com efeito, a ementa, felizmente inimiga de todos os preceitos nouvelle cuisine, obrigou a aturadas manobras: à também habitual e sempre apetitosa feijoada, juntaram-se, desta vez, um bem parecido arroz de frango, uns suculentos filetes de polvo e um bem tostado peixe frito. O número de comensais também aumentou, na exacta proporção da crítica social e da mais pura má língua: se o repasto anterior foi aviado por três graníticos, hoje a mesa aumentou para cinco, cada qual o mais verrinoso. No centro das atenções esteve, claro, a Sophie, estreante nestes convívios mas que cedo a todos encantou com a sua graça, espirituosidade e vasta cultura. Já no final, foi apresentada uma moção com o intuito de se repetir mensalmente estes encontros gastronómicos, obviamente aprovada por unanimidade e aclamação. Deles (e das respectivas feijoadas) prometemos solenemente ir dando conta em próximos capítulos.

O Povo é Sereno # 86

OBSESSÃO, UM FADINHO DE NICOLAU SAIÃO.

Ontem, depois de estar na net a escrever/ a pessoas de que gosto/ fui-me deitar. Pensava
poder ler/ um pouco com prazer./ Mas só me lembrava/ só me lembrava/ do Audi de 23 mil contos do Santana Lopes.
Hoje levantei-me/ lavei-me/etc. e tal/ E na cabeça só me batia/ e eu não queria/por meu mal/o Audi de 23 mil contos do Santana Lopes.
Bem sei/ que há coisas mais importantes/ mais belas / que só de vê-las/ ou de pensá-las/ um tipo fica assim a modos que patriota:/ o Euro 2004/os trinta contos que o ministro Portas vai dar/ por ano aos combatentes/ do Ultramar./ Mas eu/ só sou capaz de pensar/ no Audi de 23 mil contos do Santana Lopes.
Emagreci 4 quilos/ o que me fez alegrar/pois os petiscos são/ uma coisa lixada/ e vai daí hoje de tarde/ vi no espelho/ da literatura/ uma elegante silhueta/ que me pareceu familiar. E todavia/ só sou capaz de me lembrar/ do Audi de 23 mil contos do Santana Lopes.
Cheira a limão/ no meu quintal./ E a minha irmã/ que é generosa/ quis-me ofertar/ e ofertou mesmo, c’um caraças/ não estou a brincar/ um carro/ um automóvel/ para me alegrar. E ainda por cima/ um rádio multibandas para eu ouvir/ os discursos do Papa./ Juro que é verdade/ ela tem senso de humor/ na verdade realmente./ Mas eu só sou capaz de pensar/ no Audi de 23 mil contos do Santana Lopes.
Já pensei/ para me safar/ vou-me morigerar/ ser bom menino/ comer a sopa todinha/ e nunca mais dizer mal/ até fartar/ do sistema governamental/ que nos anda a fazer a folha/ singular. Mas só me bate na mona/ na cachimónia/ na cabeçorra/ e já agora no plexo solar/ adivinhem lá, adivinhem lá/ - o Audi de 23 mil contos do Santana Lopes.

Nicolau Saião

Post Scriptum # 212

Nesse mesmo momento em que o salteador meditava no seu casamento, não muito longe dali uma mulher disparava, fora de si , sobre o marido porque ele andava com outra e por isso a abandonara, a ela e aos filhos, e também um outro homem, por não se sentir bem consigo e com o mundo, disparava sobre um alfaiate, e com tal pontaria que o alfaiate era atingido em cheio no coração. Foi depois preciso fazer um peditório para angariar algum dinheiro para a família enlutada. E havia ainda esse outro que, por seu turno, matara a sua bem-amada apenas por ciúme, bem-amada que, aos poucos, se tornara para ele a mal-amada. Ai, tudo isto é muito estranho! E havia também uma esposa insatisfeita que entoava uma elegia sobre a fidelidade do marido enquanto escrevia uma história em que o seu próprio esposo se enforcava, triste história que depois editou. Quando a história foi publicada, deu-a a ler ao pobre do marido, o qual, porém, era tão fiel e tão amável que nem lhe ocorreu zangar-se com ela. Deu-lhe, sim, de pura bondade, um miserável beijo. Que raio de gente mais pacífica há neste mundo!

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida

FUMAR MATA

Um minúsculo paraíso apaga-se
sempre que se extingue um cigarro.

26.4.04

Diário de Sophie#10

... um momento de glória da música americana do século XX, querido diário. West Side Story. Maria está à janela. Fala à socapa com Tony (que traduzido para português significa virilidade), com medo que os pais a ouçam. Maria é irmã de Bernardo, líder dos "Sharks", gang rival dos "Jets", o ex-gang de Tony. Depois da famosa ária "Marreia", imortalizada por José Carreras, segue-se o diálogo:
Tony: Maria, Maria....
Maria: Shuuuuit....(xuuuuuit)
Tony: Came down, Maria...
Maria: No...
Tony: Just for a minet...
Maria: A minet is not enough...
Tony: An hour then...
O resto da história já todos conhecem.

Post Scriptum # 211


Para que não fique pela metade o trabalho começado ("New Hampshire" e "Virginia"), "Usk" de T. S. Eliot, terceiro da sequência "Landscapes" (dos "Minor Poems").

USK

Não estales de súbito o ramo, ou
Esperes encontrar
O veado branco por trás do poço branco.
Desvia o olhar, não para a lança, não soletres
Velhos encantamentos. Deixa-os dormir.
'Mergulha com tempo, mas não demasiado fundo',
Ergue os teus olhos
Onde as estradas mergulham e onde as estradas despertam
Procura apenas aí
Onde a luz verde encontra o ar verde
A capela do eremita, a oração do peregrino.



ELIOT, T. S. – Collected Poems: 1909-1962.
London: faber and faber, 1973.

Post Scriptum # 210

Para abrir a manhã, um poema de Margarida Vale de Gato, ainda inédito, dedicado a Christina Rossetti. O poema é inspirado no quadro “Ecce Ancilla Domini” (1849-50), de Dante Gabriel Rossetti, no qual Christina posou como modelo da virgem.


CHRISTINA ROSSETTI

meigos grandes nada cépticos secos
os olhos de corça esgarçada à roda
lança

longos louros soltos em vagas
breves nunca crispadas cabelos
esparge

Christina mansa mente amante
pré-rafaelita ao leito recolhe se cobre
semelha

receio tolhe branca túnica
tersa forma de seios ao canto
paira

aflora sobre auréola a sombra
de Gabriel o irmão. também faz versos
concita

com-paixão.

Post It # 119

Há mais Odysséas Elytis no Seta Despedida. Louvada seja.

O Povo é Sereno # 85

NOVAS CENSURAS

Nas comemorações do 30º. aniversário do 25 de Abril de 1974 tem sido tema corrente o relato de alguns métodos utilizados pela censura exercida durante os quarenta e oito anos de ditadura. Poucos têm falado, no entanto, sobre as novas censuras que, de forma discreta e quase sempre hipócrita, se vão exercendo hoje em dia por esse país fora – nomeadamente em alguma comunicação social sem escrúpulos, geralmente ao serviço de interesses obscuros ou nas mãos de notáveis sacripantas, movidos pelo desejo de instalação do deserto à sua volta (para que a sua mediocridade surja como simulacro de qualidade) ou por ódios, geralmente nascidos da inveja.
Para a concretização desta censura são geralmente invocadas leituras distorcidas da Lei – como por exemplo os “critérios jornalísticos”, a “liberdade do director” ou a “ausência de obrigatoriedade de publicação de textos não solicitados” –, permitidas pela própria legislação, (propositadamente?) ambígua, e por alguns membros da autoridade reguladora, venais ou apenas míopes. E assim se vai decretando, ou tentando decretar, a morte cívica de muitos cidadãos conscientes, impedidos por diversos meios de expressarem as suas opiniões fundamentadas.
Posso contar-vos dois exemplos, de que tive conhecimento directo:
Um jornal relatou nas suas páginas uma sessão artística em que haviam participado dois poetas, uma declamadora e uma pianista. Ao jornalista presente ao longo da sessão haviam sido fornecidos todos os elementos sobre o acontecimento e sobre a totalidade dos intervenientes. A notícia saiu no entanto profundamente deturpada, sendo notório na reportagem o “desaparecimento” dos dois escritores, certamente na sequência da campanha de difamação de que estava a ser alvo um deles nesse mesmo jornal. Apresentada queixa à Alta Autoridade para a Comunicação Social, não foi concedido aos poetas eliminados na notícia o direito de reporem a verdade dos factos, a pretexto de que “não haviam sido referidos na notícia” e de que o director do jornal era livre de pôr em prática os critérios que muito bem entendesse (sic!). De nada valeram os protestos dos queixosos – provando, entre outras coisas, que a informação veiculada pelo jornal havia sido deliberadamente deturpada. Tudo ficou, como é costume, em águas de bacalhau…
Noutro periódico a equipa directiva recém-empossada teve como primeira medida eliminar da ficha técnica do jornal a lista de colaboradores, alguns com mais de trinta anos de colaboração. Ao mesmo tempo, passou a publicar em caixa bem visível o aviso: “Não nos responsabilizamos pela publicação de colaboração não solicitada”. Foi meio caminho andado para a censura. A partir desse momento as opiniões de um grupo de personalidades passaram a ser eliminadas e, logo, nunca reproduzidas – personalidades essas que, até esse momento, eram colaboradores expressos do jornal, não tendo recebido qualquer comunicação emanada da nova equipa directiva dispensando a sua participação, aliás gratuita.
Deste modo e de outros modos se vai fazendo a actual censura. Discreta, subreptícia, com um lápis sem cor, mas igualmente manipuladora da verdade e dos mais elementares direitos de cidadania, consignados na Constituição da República.
De olhos fechados, Portugal avança. Ou porque não vê. Ou porque não deseja ver. Às vítimas restam a angústia e uma mal calada revolta. Sentimentos a que se mistura a consciência de que este país vai sendo minado por um “fascismo social”, expressão atribuída por alguns sociólogos à vivência cívica hoje existente neste rectângulo ibérico, onde a democracia vai sofrendo uma perigosa erosão, transformando-a a pouco e pouco numa mera formalidade.


Ruy Ventura

25.4.04

O Povo é Sereno # 84

CASO DO DIA
Rua de Brito Capelo, Matosinhos

Despistou-se contra árvore e acusou taxa de 30% de cravos vermelhos no sangue.

Um engenheiro, de 41 anos, residente em Matosinhos, foi detido ontem de manhã, cerca das 8h30, por ter acusado uma taxa de cravos vermelhos no sangue na ordem dos 30%, no momento em que conduzia um automóvel na Rua de Brito Capelo. De acordo com a PSP, o automóvel embateu violentamente contra uma árvore e um pequeno canteiro, depois de um aparatoso despiste que foi testemunhado por inúmeras pessoas. A lei determina que todo o condutor que acuse uma taxa de cravos vermelhos no sangue igual ou superior a 12% seja prontamente detido.

24.4.04

O Povo É Sereno #83

As coisas que nós descobrimos quando se revolvem as areias do passado e os esqueletos saltam das suas covas... Não é que veio agora o Arnaldo Matos dizer, com a autoridade do seu vetusto e estaliniano bigode de "grande educador da classe operária", que "no período revolucionário a seguir ao 25 de Abril, o PCP estava preparado para fuzilar pessoas se tomasse o poder". Cáspite! Estão a ver do que nós nos livrámos?... Mas, enfim, é bom que seja o fundador do MRPP a dizer-nos isto, a recordar-nos isto, a alertar-nos para isto, ele que nunca, jamais, em momento algum se lembraria de fuzilar alguém se tomasse o poder (quer fosse pelo método clássico do "passar pelas armas", quer fosse pelo mais discreto "tiro na nuca"), ele que, à época do 25 de Abril, tinha como modelo a revolução cultural chinesa, que, como toda a gente sabe, foi um movimento filantrópico de damas-de-honor e meninos de coro empenhado em espalhar o bem e a concórdia nos corações e durante o qual, ao que se saiba, ninguém morreu, a não ser de morte natural. Há opiniões que são tão autorizadas, tão autorizadas, que não tenho outro remédio senão curvar-me a elas...

23.4.04

Post Scriptum # 209


Como se mostra comovida a matéria sem vida se por um estranho acaso e por uma feliz correspondência ouve o canto de um pássaro que anuncia a Primavera? A resposta está em "Um, Ninguém e Cem Mil" de Luigi Pirandello:

O pintasilgo canta na gaiola suspensa entre as cortinas, no peitoril da janela. Talvez sinta a Primavera que se aproxima? Talvez sinta o antigo ramo de nogueira de onde foi extraída a minha cadeira e que, ao canto do pintasilgo, agora range.
Com aquele canto e com este rangido, talvez o pássaro aprisionado e a nogueira reduzida a cadeira se entendam.



Luigi PIRANDELLO – "Um, Ninguém e Cem Mil".
Trad. de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.
[S. l.], Bibliotex Editor, 2003 (col. Diário de Notícias).

O Silêncio É de Ouro #69



Em dias de comemoração revolucionária, apetece recordar dois álbuns que representaram uma verdadeira revolução na música pop e cujas ondas de choque ainda hoje se fazem sentir: Beach Boys, "Pet Sounds" (Capitol, 1966) e Beatles, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (EMI, 1967).

Post It # 118

Eu assumo: estou incondicionalmente ao lado dos americanos.

O Povo É Sereno #82


A minha maior felicidade: poder viver num país livre e democrático (agradeço aos que o tornaram possível). A minha maior frustração: não ter podido viver plenamente aqueles dias de liberdade embriagante após Abril de 1974 (devido à tenra idade). Paciência. O importante é o cravo (na mão do grande Zeca Afonso).

Vai no Batalha # 16

De acordo com um estudo dirigido por um tal James Kaufman, da Universidade Estatal da Califórnia, a esperança média de vida dos poetas não vai além dos 62 anos, "enquanto os dramaturgos vivem geralmente até aos 63, os novelistas até aos 66 e os escritores de não ficção até aos 68". E, segundo o mesmo investigador, as poetisas são as que revelam maior probabilidade de virem a sofrer de doenças mentais.
Mas, que diabo, será que o americano pensa mesmo que descobriu a pólvora? É óbvio que alguém que ainda insista em escrever poemas só pode ser maluco.

Post Scriptum #208


Uma vez, nesse outro restaurante, ele comera frango e bebera Dôle a acompanhar. Estamos a contar isto porque, de momento, não nos vem à mente nada mais significativo. Uma pena prefere sempre escrever algo de inadmissível a parar de escrever, nem que seja por um momento. Talvez seja isto um do segredos da escrita de grande qualidade, isto é, em tudo o que se escreve tem de haver algo de impulsivo.

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida.

E, claro, o Walser continua na Janela.

Post It # 117

"Tubarão." Uma excelente história, no Don Vivo.

Post Scriptum #207

O Sorriso da Gioconda

Andam os espíritos azedados a dar p’ra baixo no Dan Brown. Quem? O Dan Brown, aquele moço americano, o de “O Código Da Vinci”. Tal como tinham, antes, andando a dar p’ra baixo no Nicholas Wilcox, o autor de “A lápide templária”, que tal como o outro vos incito vivamente a esquadrinhar. Para passarem uns dias de encantamento.
E os espíritos que lhe andam a dar p’ra baixo são os duma associação que muito respeito – não vá o diabo tecê-las... – que dá pelo doce nome de Opus Dei. Vocês sabem, aquela coisinha do nosso santo Escrivá.
Mas eu conto...
O Dan Brown, com engenho e arte, escreveu um rimance que já vai quase nos dois milhões de cópias e que eu, não por acaso, merquei em Espanha. Na Páscoa, quando deitei até Sevilha e Belmonte de la Mancha, onde ainda se sentem pairar os estrépitos do nosso Cervantes e do nosso D. Quixote.
Vai daí, na volta por Badajoz, lá no sector de livraria do “Corte Inglês” onde o prestável senhor Domingos Perera me guarda as iguarias que vão aparecendo, um dos meus filhos ofereceu-me, com prestável amor filial, o livrão que degustei como devia.
E há bocado, numa revista lusitana, dei por mim a ler um enfoque sobre o mesmo – enfoque realista e onde os prantos da Opus se relanceiam com galhardia: que o rimance mete muito secretismo, que há por lá maçons que não comem criancinhas, que até se fala na sociedade secreta a que pertenceram, entre outros, Sandro Boticelli, Newton, Vítor Hugo...
E, no fim, diz-se esta coisa admirável pela caneta de um porta voz da prestimosa organização – que de acordo com os do “Grupo Milénio” não passa de um instrumento para a subida ao poder de uns quantos senhores metidos a santarrões - e que vou transcrever para gáudio de todos os que me lêem a prosa: “Demasiada invenção, demasiada maldade, demasiada perversão, ao ponto de tudo não ser, sequer, verosímil. Mas os leitores mais ingénuos podem ficar com a ideia de que a Igreja Católica e, em particular, o Vaticano e a Opus Dei, é uma instituição pouco fiável ”.
Os sublinhados são meus – e deixa cá ver se por causa deles não vou parar ao Inferno...


Nicolau Saião

Post It # 116


Mais informações aqui.

22.4.04

O Silêncio é de Ouro # 68

Já aqui tínhamos falado do Village Vanguard, um dos mais importantes clubes de jazz do mundo. Na altura, dissemos que este clube se tinha tornado famoso, entre muitos outros motivos, pelos numerosos discos que aí foram gravados ao vivo ao longo do século XX. E é justamente uma dessas gravações que hoje gostaria de destacar. Trata-se de “A Night At The Village Vanguard”, do saxofonista Sonny Rollins.
Gravado em 1957, este disco está carregado de momentos memoráveis, sobretudo por causa da sua famosa técnica de improvisação, desenvolvida a partir de variações sobre o tema principal e não sobre a base harmónica, como é mais comum no jazz. É um dos pontos altos da longa carreira de Rollins. Actualmente, existe no mercado uma reedição com material inédito.


Raul Silva

Post It # 115

Rubrica “um blogue ao serviço do público”.

Num post recente, o Alexandre Andrade lembra, com toda a pertinência, que "a Exponáutica, primeira feira náutica do Alentejo, vai decorrer entre os dias 13 e 16 de Maio, no Parque de Feiras e Exposições de Reguengos de Monsaraz.
Todos aqueles que se interessam por temáticas como a vela, a canoagem ou o windsurf poderão, pois, ter interesse em deslocar-se a esta localidade nas datas indicadas, e desfrutar de tudo o que esta feira terá para oferecer".

A não perder, acrescentamos nós, é também a iniciativa “Maresias”, da responsabilidade da Câmara Municipal de Matosinhos, que inclui várias actividades, entre as quais a sessão "Matosinhos, Siza e a sardinha", que decorrerá no dia 3 de Julho, a partir das 10h45, e que consiste numa interessantíssima “visita guiada por diversos espaços que evocam a vida e a obra da sardinha, bem como a sua relação com o mais internacional dos arquitectos portugueses”.

Post Scriptum #206

Os livros antigos não são propriamente como as baleias ou os linces ibéricos mas também precisam de ser preservados, restaurados e acarinhados. "Salve um livro" é mesmo o mote de uma campanha a lançar publicamente amanhã, Dia Mundial do Livro, pela Biblioteca Nacional, que visa impedir que se perca para sempre uma centena de obras dos séculos XVII a XX. Colaborar em tão nobre causa só custa a irrisória quantia de 72 euros.

Post Scriptum # 205


Nas águas azuis do lago de Biel ergue-se a ilha de S. Pedro, de todos conhecida, local de beleza idílica que tem fama como estância de férias. Estou a referir isto de forma assaz prosaica, mas nesta descrição sóbria da natureza pode haver, talvez, um toque de poesia. Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deveriam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida

Hoje, há mais Walser na Janela.

O Povo é Sereno # 81

Mais uma vez se comemora Abril, mas sob auspícios absolutamente inquietantes tanto a nível civil, quotidiano e sem ouropéis, como a nível das chamadas forças vivas e que se traduzem, na estrutura da Nação, pelos perfis das mais altas encarnações do Estado. Assim, por exemplo, o poder judicial está hoje completamente desqualificado, é uma instância eticamente desprestigiada onde se exercem, de acordo com relatos dos media, ignominiosas parcialidades e um desleixo inqualificável, mau grado o esforço de próceres seus – onde se contam magistrados dignos e juristas operosos, não esquecendo os trabalhadores que o quantificam a nível do labor prático – cuja acção não é contudo de molde a inflectir ou erradicar decisivamente a maleita.
Nesta perspectiva, tal como já tive ensejo de o fazer anteriormente, digo que é preciso, é imprescindível que o povo, por sua acção in loco ou mediante os seus representantes directos, desmantele e revivifique este sector, que é hoje por hoje o cancro que está a destruir a Democracia que o 25 de Abril instaurou.
Depois, no campo da política prática, é necessário acentuar que existem não eleitos cujo poder se sobrepõe aos que o povo escolheu: argentários poderosos que tripudiam sobre o corpo do País; gente colocada em lugares chave que exorbita e abusa do poder indefinido que lhe foi conferido; membros de forças de segurança que tratam o cidadão com uma inqualificável arrogância, servindo-se do estatuto próprio para estabelecerem confusos tratos onde avulta o desprezo pelos direitos do homem comum.
No sector da governação, há autarcas que deitam às urtigas os mais simples deveres e obrigações que conformam uma inter-relação democrática com os alvos da sua acção, ou ministros que deliberadamente faltam à verdade civil através de actos de extracção canhestra, traço a grosso de uma comodidade que não condiz com a democracia. Ou se anulam – para se elevarem ardilosamente.
As Forças Armadas, que devem ser o garante da independência nacional, vêem-se por seu turno sustidas em limites estreitos, como se fossem algo que há que nivelar por baixo e colocar sob a tutela de virtuais comissários.
Não há portanto muitas razões para, nesta data que ajudámos a existir, nos felicitarmos pelo estado da Nação. Que no entanto está ligada, por convénios livremente assinados e garantidos amplamente, às demais nações que com ela estruturam um bloco e uma rota.
Abril adormecido…
Mais lhe chamaria Abril que, ferido por desvigamentos intoleráveis, há que vivificar e recolocar sob a égide da dignidade - da verdadeira dignidade e da esperança.
Pois a tudo isso temos direito. Porque é isso que de facto poderá configurar o nosso rosto inteiro e lídimo de portugueses.


Nicolau Saião

O Povo é Sereno # 80

Erro de "casting" no programa do canal 2 "Conselho de Estado". De todos os convidados que ali estiveram cerca de uma hora a debater a Revolução de Abril, apenas José Mário Silva esteve à altura, apresentando-se sereno, afável e expondo os seus argumentos com clareza e lucidez. Pedro Lomba não conseguiu esconder uma inexplicável e exagerada irritação, às vezes um quase descontrolo. Não queria de modo algum ser o referente da forma de tratamento "vocês" (forma de segunda pessoa do plural socialmente aceite em qualquer troca de argumentos em Portugal ou no Brasil), usada por José Mário Silva ou por Carlos Antunes para se referirem à Direita, como de resto se faz no sentido inverso. Mas o Pedro Lomba julgava que tinha sido convidado para o programa representando que movimento ou, vá lá, tendência política? A dos "não-alinhados"? Duvido. A certa altura afirmou mais ou menos que algo de positivo teria saído da Revolução de Abril: com ela, passamos a ser donos das nossas próprias vidas. Ao mesmo tempo, chamava à revolução de Carlos Antunes uma revolução falhada, esquecendo-se de que foi precisamente a revolução de Carlos Antunes, entre outros – não interessa para nada se outros objectivos existiam e se eles foram ou não cumpridos - que veio permitir aos portugueses tomarem nas mãos a condução das suas vidas. E passar-se de uma situação em que não somos donos das nossas próprias vidas para uma em que o somos, a isso eu chamo uma verdadeira revolução (e não uma mera evolução).

21.4.04

Post Scriptum # 204

Durante a Primeira Guerra Mundial, Eugenio Montale exerceu o comando de um pequeno posto avançado na região de Trentino, próximo do rio Leno. Aí ocorreu um dos episódios mais interessantes da sua vida, mas que normalmente é ignorado pelos seus biógrafos. Durante esse período, Montale foi, por várias vezes, preso e levado a tribunal militar por insistir em fazer a continência a uma grande magnólia que existia na frente do seu gabinete. E, de acordo com Radici, Montale terá sido definitivamente afastado do exército por ter feito a continência a um caracol por ocasião de uma visita oficial do chefe de estado italiano ao seu quartel.

Portugal. Gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca.
Jorge de Sousa Braga.

O Silêncio é de Ouro # 67


Confessai agora ou calai-vos para sempre: quantos de vós não tiveram as vossas fixações adolescentes por vocalistas de bandas rock? A minha foi a magnetizante Toni Halliday dos Curve. Tudo começou com o álbum "Doppelgänger", de 1992, cocktail arrasador de muralhas de guitarras eléctricas, ritmos viciantes tocados na bateria ou fabricados na "beat box", letras negras, insinuantes, provocadoras, carregadinhas de sexo e uma pose subliminarmente "goth". Mas o que provocava - provoca – o arrepio na espinha é mesmo a voz da Toni, uma das mulheres mais belas que já vi (só em fotografias, infelizmente). A voz é de uma sensualidade, de uma ternura, de uma luxúria, de uma fúria, de um negrume e de uma vulnerabilidade que me põe os cabelos em pé. O canto que é quase um choro de menina mimada em "Horror Head" é comovente, e ouvi-la cantar por entre sussuros lascivos "oh the devil is in me/ oh the spirit is in me" é um dos momentos altos do rock britânico e o que se segue a esse encantamento de Valquíria aflita é uma escultura de ruído a partir das cordas das guitarras que tem qualquer coisa de wagneriano, de belo e violentador; é raro tal intensidade numa canção rock. Os Curve lançaram vários álbuns depois de"Doppelgänger", todos eles extraordinários, embora nenhum se tenha equiparado ao rastilho de 1992: "Pubic Fruit", "Cuckoo", "Come Clean", "Gift". Está quase quase a sair o novo álbum, "The Way of Curve". Já agora, "Doppelgänger" significa "duplo" em alemão e é o título de um dos mais belos poemas de Heinrich Heine (1797-1856), transformado num lied por Schubert ("Schwanengesang D 957, No. 13"): "A noite está calma, as ruas desertas;/ nesta casa morou outrora a minha amada./ Há muito já que ela deixou a cidade,/ mas a casa permanece no sítio de sempre (...)".


O Silêncio É de Ouro #66


Para certas pessoas, o amanhecer de hoje foi diferente: aconteceu entre os muros de uma prisão. Aqui fica uma sugestão de banda-sonora, em jeito de ópera-rock, sobre um dirigente do futebol que corrompia árbitros... perdão, sobre uma estrela rock neurótica e violenta (Pink Floyd, "The Wall", EMI, 1979).

Umbigo # 23

Em poucos meses, a angústia da folha em branco deu lugar à maldita angústia do ecrã em branco.

20.4.04

Diário de Sophie #9.

... sem saber porquê, passei o dia a pensar nele, querido diário. O Valentino, Rudolfo de seu nome. A minha família adorava-o e eu também. Aquela fidelidade ao preto e branco, sem nunca precisar do sonoro para se tornar popular. Bastava-lhe gesticular com toda aquela graça e impetuosidade e, como trocava bastantes vezes o nome dos actores com quem contracenava, isso acabava por ser uma grande vantagem. Lembro-me dele Bailarino, Sheik, Rajah e até Major Cossaco (The eagle 1926). Ou seria tenente? Adiante. Como era invulgarmente belo, Valentino seduzia todas as loiras que lhe passavam à frente. Dizia numa linguagem vernácula e privada:" Ahhh pito dourado!"
E foram todos esses excessos, querido diário, que um dia acabaram com o grande Valentino. Abandonado por todos os amigos, o grande produtor Cecil B. Madaíl incluído, acabou sozinho e sem quase nada no banco. Só restaram algumas acções antigas da PJ Morgan.

O Bobo #2


Vale a pena ler a entrevista dada ao Blitz desta semana pelo ex-candidato à Presidência da República Manuel João Vieira, cabeça de lista dos geniais Ena Pá 2000. Respondendo agora pelo nome de Lello Orgasmo Carlos (reparem na classe dos dois "l" de Lello, a pedir uma nova marca de camisas monogravadas), o músico e humorista português revela ter uma ideia para uma Ópera que levará o título de "Nando – Amor de Mãe": "é a história de uma espécie de Rambo português que volta às ex-colónias para socorrer os companheiros que ficaram presos pelos movimentos terroristas", diz Lello. Imaginamos logo um Chuck Norris de Super Bock na mão a escarrar para o lado enquanto mostra a peitaça do alto de uma "chaimite". Espero que haja por aí gente interessada (o nosso Ministro da Defesa poderia até fazer um "cameo" como um dos reféns libertados pelo herói português). Convidado a tecer comentários sobre algumas canções do novo álbum "A Luta Continua!", Lello diz-nos que a música "Talibã da Mamã" é "uma homenagem a todos aqueles jovens rebeldes, que voltam para casa para comer uma canjinha feita pela mamã. Todo o talibã, mesmo o Bin Laden, tem uma mãe. Não creio que possamos negociar com os terroristas, mas podemos negociar com as mães deles". Toma lá Mário Soares!

Post Scriptum # 203



"Virginia", mais um "poema menor" de T. S. Eliot (1888-1965), o segundo da sequência "Landscapes". Uma coisa há de "minor" nestes poemas: são curtos quando comparados com os mais célebres poemas de Eliot (assim como são curtas as suas estruturas sintácticas - com tendência para a elipse).


VIRGINIA

Rio vermelho, rio vermelho,
fluir lento calor é silêncio.
Nenhuma vontade é quieta
como um rio quieto.
Irá o calor mover-se apenas
através do estorniho
escutado uma vez? Colinas quietas
esperam. Portões esperam. Árvores púrpura,
árvores brancas, esperam, esperam,
demoram, declinam. Vivendo, vivendo,
jamais se movendo. Incessantes
pensamentos de ferro vieram comigo
e partem comigo:
Rio vermelho, rio, rio.


ELIOT, T. S. – Collected Poems: 1909-1962.
London: faber and faber, 1973.

O Povo é Sereno # 79

Parece que prenderam o Major por suspeitas de falsificação da verdade desportiva. Ele e outras personalidades ligadas ao mundo do futebol. Não me surpreende - como não deve surpreender ninguém neste país (mesmo aqueles que viram as costas às lutas-de-galos que normalmente emolduram esse desporto a que um dia, portuguesmente, quiseram chamar "pedibola"). O futebol "profissional" é, em grande parte, o espelho do país: um ambiente duvidoso onde o compadrio, o tráfico de influências e a corrupção fazem parte do dia a dia, com exemplos chocantes vindos de cima.
Como uma mancha de óleo, a corrupção vem alastrando neste rectângulo
onde o lema vem sendo "cada um desenrasca-se como pode". Situação
com raízes fundas, estimulada durante o consulado cavaquista (hoje prolongado pelos aprendizes-de-cavaco), este estado de coisas vai minando a consciência nacional, expulsando uma ética de exigência e de responsabilidade para instalar o chico-espertismo e certas práticas afins.
Felizmente os portugueses vão deixando de ser parvos. Mesmo se alguns continuam a pensar que foi "pena terem sido apanhados", porque, se estivessem no lugar deles, "fariam o mesmo" (a pequena vigarice costuma ser norma em países em que o Estado desrespeita os cidadãos), muitos de nós esboçamos um meio-sorriso, no qual misturamos a esperança de ver a Justiça concretizada e o receio de que venha a ser falseada por gente sem escrúpulos nem dignidade.

Ruy Ventura

Post It # 114

Mesmo se deixasse de ser alemão, não me livrava dessa vergonha. Essa vergonha que é minha enquanto alemão, é também a vergonha de todos os Homens, de todos mesmo.
Não somos só eu e os meus compatriotas que têm de aprender com ela.


Quem ganhou a guerra? E quem a perdeu? Vale a pena ler este post do Lutz.

O Silêncio É de Ouro #65

A música também se .

O Silêncio É de Ouro #64



De dois notáveis eremitas da música pop, outros tantos discos com capas inesquecíveis: Scott Walker e o enigmático "Tilt" (Drag City, 1995); David Sylvian e o exótico "Secrets of the Beehive" (Virgin, 1987).

Ilha dos Amores #44


Two empty chairs on the sidewalk seemed like a great image to underline waiting. Letter t got tired of waiting and went away.

Cartaz de Slavimir Stojanovic.

Post Scriptum #202

Para abrir a manhã, o poema “Ars Poetica” de Archibald Macleish (E.U.A., 1892-1982).
Uma oferta de Amélia Pais.


ARS POETICA

Um poema deve ser palpável e mudo
como o fruto em globo.

Calado
como antigos medalhões nos dedos

Silente como a pedra gasta por mangas
em umbrais onde o musgo cresceu –

Um poema deve ser sem palavras
como o voo das aves

Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe

Largando, como a lua solta
ramo a ramo as árvores presas na noite,

Largando, como a luz atrás do inverno larga
memória a memória, o espírito –

Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe

Um poema deve ser igual a –
não «verdadeiro»

Porque toda a história da dor
uma porta vazia e uma folha de plátano

Porque o amor
as ervas que se curvam e duas luzes acima do mar

Um poema não deve significar
mas ser.


Tradução de Jorge de Sena.

Ilha dos Amores #43

Para já, houve, em redor do salteador, bastantes narizes que se assoaram. Porque seria que muitas pessoas, quando se cruzavam com o salteador, assoavam esforçadamente o nariz ao lenço, como se o som característico dessa operação pretendesse dizer-lhe: “É uma pena, por ti!” Já voltaremos, mais tarde, a tratar calmamente destas assoadelas e destas limpezas de nariz e cuspidelas. Vamos, decerto, ter tempo para isso.

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida

19.4.04

Ilha dos Amores #42


O Ruy Ventura está de regresso.

Vale a pena ir a Guadalupe, mesmo que não se seja crente. De forma discreta, entre montes que parecem subjugar-nos, a profunda arte que nos reconcilia com o mundo está ali à nossa disposição, discreta e ao mesmo tempo avassaladora.
Da visita, que um dia repetirei, vieram nos meus olhos as figuras esguias de El Greco, a escura viagem de Goya ao interior humano, a delicadez das formas de um Cristo atribuído a Miguel Ângelo e, sobretudo, o esplendor de Zurbarán, que num jogo de clareza e obscuridade tão bem soube interpretar a alma que nos prende e nos liberta.


Ruy Ventura

O Povo é Sereno # 78


Mais revolução aqui.

Cimbalino Curto #79

O homem do olho de vidro e cabeça encapuzada de negro esteve no Porto. E vai voltar um dia.

Post It #113

O Manuel Resende voltou. Pelo menos durante alguns versos.

Ilha dos Amores #41


- Como se atrave o senhor a pensar que eu possa ter sido, alguma vez, uma má esposa?
- É evidente que a senhora foi sempre um amor, mas, muitas vezes, é-se má exactamente porque se tem muito amor.
Ela calou-se e assumiu um ar tal como o que paira em volta de uma figura de mulher desenhada por Dürer, um ar esquivo como o de uma ave nocturna sobrevoando os mares por entre a treva, algo como um gemido reprimido no seu íntimo.


Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida.

17.4.04

Umbigo #22

Margarida Vale de Gato, grande amiga e colaboradora deste blogue, é um dos finalistas, na área da literatura, da edição dos Jovens Criadores deste ano. Muitos parabéns, Margarida.
Voltaremos a este assunto durante a próxima semana.

16.4.04

Ilha dos Amores #40

O Pedro Amaral enviou-nos esta imagem de Veneza.


E, hoje, há outra Veneza, aqui.

Cimbalino Curto #78

O dia chega ao fim no Ceuta. Dois empregados anoitecem, ociosamente encostados ao balcão. A porta abre-se. Um homem entra e senta-se a uma mesa. O empregado aproxima-se. O homem pede um café. O empregado afasta-se. O homem tira um livro da pasta e pousa-o sobre a mesa. Acende um cigarro. Lê a primeira página. O empregado traz o café. O homem agradece e bebe um pouco. Depois arranca a página e come-a, pedaço por pedaço. Lê a página seguinte. Acaba de beber o café. Arranca essa página e come-a também. Apaga o cigarro. Fecha o livro e guarda-o na pasta. Levanta-se. Dirige-se para a porta. Sai.

Ilha dos Amores #40


Berlim nunca foi assim fotografada. Os monólogos/diálogos são pura poesia. Um filme inesquecível de Wim Wenders, em absoluto estado de graça. Obrigado, Público. Ainda deve haver alguns exemplares nos quiosques.



Cartazes. Faça você mesmo, aqui.
(Com a devida vénia ao Amor e Ócio).

O Silêncio É de Ouro #63



Ainda por sugestão do Nuno Corvacho, mais duas capas memoráveis da sempre requintada editora britânica 4AD: This Mortal Coil, "It'll End In Tears" (1984) e Clan of Xymox, "Medusa" (1986).

Ilha dos Amores #39


Bastava-lhe andar assim por entre o bulício da multidão para se sentir feliz, para se sentir muito divertido. Fora isso, parecia não pensar em mais nada senão, uma vez por outra e só fugazmente, nos desenhos de Beardsley ou em qualquer outra coisa ligada ao vasto domínio da arte e da cultura. Ele andava sempre a pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça sempre ocupada com qualquer ideia de certo modo longínqua. Como os senhores compreenderão, é natural que as pessoas que o rodeavam, e que observavam isso nele, levassem um pouco a mal essa sua atitude.

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida

15.4.04

Diário de Sophie #8.

... aliás, como tu bem sabes, eu sempre fui viciada no analgésico, querido diário. Ainda te lembras daqueles meus namorados do grupo de escutas que se espantavam sempre que e que eu lhes dizia que adorava receber uma embalagem dupla de analgésicos no meu dia de aniversário? Como eles ficavam chocados, dizendo que o analgésico é contra-natura: "uma substância grotesca, contra indicada para quem sofre dos intestinos e absolutamente estranha ao normal funcionamento do corpo." Mas eu não lhes ligava, e passava tardes inteiras a sentir nas entranhas os movimentos peristálticos dum bom analgésico. Às vezes o prazer era tanto, que os músculos do diafragma distendiam e eu ficava debruçada no encosto do sofá até a noite cair.
É por isso que quando hoje me perguntam quais os livros eu gosto de ler, eu digo a brincar: "Livros? Só do Mia Couto. Lembram-me os analgésicos moçambicanos, feitos à base de Pau-de-pilão (Callisthene minor).

O Silêncio É de Ouro #62


No Quartzo, Feldspato & Mica há discos para todos os gostos: dos New Order, "Low-Life" (Factory, 1985), com uma bela fotografia de Trevor Key. Sugestão do Nuno Corvacho.

Post Scriptum #201

Um poema de Fernando Echevarría (n. 1929), retirado de “Introdução à Filosofia”, livro de 1981 (Porto, Nova Renascença). Uma oferta de Mesquita Alves.


Memória é o nome que, na sombra, damos
à sombra em que se oculta o repentino
sem fim do nascimento, aonde estamos,
embora a sombra esconda que o cumprimos.

E, de na sombra vermos, demoramos.
E vermos na demora advém destino
de perdermo-nos de onde ainda estamos,
pensando a sombra como um outro sítio.

E, de um ao outro, haver uma viagem
é sombra ainda e invenção da hora
em que se cumpre o sonho da passagem.

Mas, passando, é sombra só, embora,
de lentamente ver, se erija aragem
o repente sem fim que ver demora.

Umbigo #21


Hoje, ao encontrar o Richard Câmara por estes lados, voltei a ter saudades do nosso DN Jovem.

Post Scriptum #200

O FRAGMENTO
Seamus Heaney (Irlanda, n. 1939)

“a luz veio de nascente” – cantou ele,
“Claro garante de Deus, e as ondas acalmaram.
Eu podia ver promontórios e falésias fustigadas.
Muitas vezes, por assinalada coragem, o destino poupa o homem
Que ainda não assinalou.”

E quando lhe contaram a objecção deles –
Que ele se dispersara e não lhes deixava
Nada a que se agarrassem, que os seus versos de início e fim
Não eram uma coisa nem outra –
“Desde quando” – perguntou ele,
“São o primeiro e o último verso de um poema
O lugar onde o poema começa e termina?”

Tradução de Rui de Carvalho Homem.

Outros poemas de "Luz Eléctrica", de Heaney, no Modus Vivendi e também aqui.

Ilha dos Amores #38


Uma vez, num pálido parque de Novembro, depois de ter feito, de passagem, uma visita a uma tipografia e de ter tagarelado durante quase uma hora com o seu proprietário, o salteador deparou com a dama pintada por Henri Rousseau, vestida de castanho dos pés à cabeça. Estacou, pasmado, diante dela. Veio-lhe então à mente que, anos atrás, no decurso de uma viagem de comboio, a meio da noite, a uma mulher que com ele viajava, havia declarado, à velocidade de um comboio rápido, por assim dizer: “Vou para Milão”.

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida

14.4.04

O Silêncio É de Ouro #61

Moacir Santos (n. 1924) é um daqueles nomes que há muito devia constar destas fichas sobre jazz que tenho publicado no granito. Um só dos seus discos justificaria uma longa referência na história da música. Foi compositor, maestro, multi-instrumentista e pedagogo. Incluído normalmente na chamada MPB instrumental, Santos combinou como ninguém os ritmos populares brasileiros, a bossa nova e o jazz. “Ouro Negro” é um disco duplo de homenagem onde se recolhe uma parte muito importante da sua longa obra e que conta com a participação, entre outros, de Gilberto Gil, Milton Nascimento e João Bosco. O músico vive nos Estados Unidos desde 1967.

Raul Silva

Diário de Sophie #7.

... tenho sonhado muito com a Martha Argerich. Desde os meus 14 anos que gostava de ser como ela. Ter aquela sensibilidade toda na ponta dos dedos, principalmente nos andamentos mais lentos, "adagio" ou "andante", seja em Chopin, em Liszt ou mesmo, numa escala menor e sem o violoncelo do Mischa metido, em Schumann. É como se o teclado do piano fosse uma pequena membrana escorregadia, cuja melodia parece sair acusticamente das teclas e não das cordas. É tão maravilhoso, querido diário, que às vezes, quando a ouço deitada na cama, dou por mim com aquele escorrer melódico nos meus lábios, a trauteá-lo, como se de uma normal canção se tratasse.
Mas se nestes compositores românticos o piano de Martha opta por andar deliciosamente às voltas, escondido na penumbra, em Ravel ele dispara numa energia que me deixa completamente sem fôlego. No seu "Concerto for piano in G", Argerich está no ponto.

Dois bloggers sentam-se a uma mesa de café.
Um de mãos vazias, o outro equipado com um saco de plástico e uma daquelas redes de apanhar borboletas.
Quando os posts começam a cair do tecto, o primeiro vê tudo muito claramente e, em silêncio, recolhe os que interessam, abrindo a boca.
O segundo é como um cego, não vê nada, e lança-se furiosamente contra o ar, ora agitando a rede, ora gritando como um desalmado, na esperança de apanhar qualquer coisa, por mais insignificante que seja.

Ilha dos Amores #37

4 Gatos - Galeria-Bar é o nome de um novo espaço cultural do Porto. Inaugura já amanhã, a partir das 21 horas, no número 344 da Rua do Breyner. Apesar de tudo a que temos assistido nos tempos mais recentes, há alguma coisa que ainda mexe na moribunda "cena" cultural portuense...

Ilha dos Amores #36


Isto passou-se na cozinha dela. Na cozinha reinava uma enorme e magnífica solidão estival, e o salteador havia, talvez, contemplado no dia anterior, na montra de uma loja de objectos e livros de arte, uma reprodução do quadro “Le baiser dérobé” de Fragonard. Ele deve ter ficado entusiasmado com esse quadro. É, na verdade, um dos quadros mais graciosos que alguém jamais pintou. E, nessa ocasião, mais ninguém estava na cozinha a não ser ele.

Robert Walser, O Salteador. Tradução de Leopoldina Almeida

Post It #112

Este gelado até inverna as mãos.
Gonçalo Gonçalves, 4 anos

Estou com tosse. Engoli frio um dia.
Inês Fernandes, 4 anos

Quando o ar cheira bem é porque os autronautas no espaço estão a comer rebuçados.
Gustavo Almeida, 5 anos

Mais versos curtos aqui.

13.4.04

Diário de Sophie #6.

... nestes últimos dias em Lisboa. Fala-se à boca fechada, querido diário, e o Ministério da saúde nada revela, embora a doença esteja já catalogada. É um retro-vírus de nome científico "Dragorepulsis" que, por estas bandas, está totalmente fora de controlo. O sintomas são simples: revirar dos olhos para os cantos superiores acompanhado de pestanejar compulsivo, contracção lateral dos músculos do pescoço, comichão nasal intermitente, enchimento brusco da caixa pulmonar e esgar expectorante na garganta, sempre que se ouve a palavra... "F.C. Porto". Há mesmo quem fale em ataque biológico, e que cerca de 6 a 7 milhões de pessoas sejam já portadores deste recto-vírus, perdão, retro-vírus, só em Portugal. E se é certo que o foco de disseminação se encontra aqui em Lisboa, foram já registados casos em Braga, Vila Real e Matosinhos-sul. Mas, querido diário, o pior ainda está para vir. Igor, um amigo meu que tu conheces bem e que é Analista do Hospital de Santa Maria, disse-me ontem, em segredo, que uma das variantes do vírus, o "Picostarepulsis", causa raiva imediata logo nas primeiras horas de incubação, podendo mesmo originar uma paragem cerebral irreversível. E para este último, diz quem sabe, não há cura possível.

Não nos peçam a fórmula com a qual se possa abrir mundos
e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.


Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica.


Eugénio Montale

O Silêncio É de Ouro #60



O que une "The Velvet Underground & Nico" (Polygram, 1967) e "Sticky Fingers" (Virgin, 1971)? Ambos têm assinatura artística de Andy Warhol: no caso do disco inaugural dos Velvet Underground, na dupla condição de criador da iconográfica banana ("peel slowly and see") e produtor; já no marcante registo dos Rolling Stones, como autor do, à época, escandaloso jogo de fotografias entre a capa e o interior do disco, que culmina com a representação semi-explícita de um sexo masculino erecto.