16.6.05

Revolução na Revolução

Estava decidido a entrar em ano sabático, a esconder-me debaixo dos lençóis, por muitas e diversas razões, mas o Osvaldo Manuel Silvestre e o Groucho vieram incomodar-me.

Então resolvi escrever este mail ao Groucho.

Caro Groucho:


É claro que as minhas observações eram e não eram objecções. Diz muito bem: eram mais complementos.

Se me permite mais deambulações, que se destinam a fazer-lhe perder tempo e a servir de terapia para mim, pois tenho pouco com quem falar a sério sem medo de dizer asneiras e sem desencadear acrimónias de tarados.

Veja esta.

Nós somos filhos do iluminismo, neste sentido (pelo menos eu sinto isso): pertencemos àquela massa que o iluminismo educou. E temos o direito de julgar a nossa herança, o património que nos foi legado. Inclusive de o renegar.

Nesse sentido, a poesia, eterna cornuda da História, tem algumas contas a pedir à vida quotidiana e mesmo até a muitos poetas e ainda à própria poesia, tantas vezes adorno de poderosos.

Sobre o movimento operário e a cultura. Ao desenraizar as massas camponesas do seu habitat multissecular, o capitalismo criou massas urbanas que tinham perdido grande parte da sua cultura antiga e não tinham tido tempo de criar uma nova. Nas cidades, só os artesãos guardavam uma memória. Nesse sentido, a acção das vanguardas operárias (não só comunistas, mas também anarquistas e sociais-democratas) foi, ironicamente, o exemplo mais puro de iluminismo: numa página em branco, dizia o Mao, que não tem a ver com esta tradição, mas para a citação serve, pode escrever-se o que quisermos.

Mas não se julgue que o povo trabalhador é apenas massa amorfa que recebe a luz do alto. Se assim fosse, não se explicariam certas formas de cultura popular que se desenvolveram nos bairros populares das cidades e, inclusive, as inúmeras associações inesperadas saídas das massas trabalhadoras: os movimentos esperantistas, naturistas, vegetarianos, etc.

Por outro lado, o capitalismo não é só economia. E os aparelhos dominantes também procuram influenciar a cultura das massas populares. Institui-se assim uma luta pelo coração e pela cabeça das massas populares.

O carácter ditatorial e burocrático dos partidos estalinistas resulta talvez parcialmente do choque dos iluminados iluminantes com esta realidade: afinal, não estão perante uma página em branco.

Saltando para outro aspecto diferente, mas aparentado: não creio que Marx fosse um iluminista ortodoxo. Porque quis ele dissolver a Associação Internacional dos Trabalhadores? Sim, havia divergências com os anarquistas, etc., mas podia ter insistido numa cisão e recriar uma seita vanguardista, para levar as luzes às massas; houve tantos que fizeram isso! Mas ele não o fez. (Repare-se que os anarquistas continuaram com a Associação Internacional dos Trabalhadores que ainda hoje existe de nome).

É claro que é difícil explicar isto aos marxistas ortodoxos, mas não a si, caro Groucho!

Por outro lado, confesso-lhe que tenho aqui o coração aos saltos. Sabe você que há aí uma revolução em curso? Pois é como lhe digo, embora não venha nos jornais.

E não é uma revolução clássica. Porque, aqui entre nós que ninguém nos ouve, a Revolução Russa e a Revolução Chinesa e a Revolução Cubana foram revoluções excêntricas, revoluções resultantes de reivindicações que pouco tinham a ver com o cerne da dominação: as relações quotidianas de trabalho e de vida, mas com circunstâncias extravagantes, decorrentes da exacerbação dos humores da história (guerras, ditaduras bananeiras), decorrentes dos efeitos periféricos da dominação. Lenine chamou a isso "o elo mais fraco do imperialismo".

A revolução boliviana, é dessa que falo, aproxima-se mais do cerne da questão, embora venha ainda matizada de contornos nacionais e latino-americanos e étnicos (os índios, que os espanhóis massacraram, mas afinal menos do que os americanos do norte); é uma revolução pelo controlo dos recursos naturais (petróleo, gás, água). É uma revolução não dirigida por um partido mas por várias e diversas organizações, está a colocar as suas reivindicações ao nível do político, articulando-as com o problema da democracia. Já deitou abaixo dois presidentes, mas a hidra tem hesitado em levar a violência (pacífica) ao ponto de destruir o poder político existente. Está a tentar pressionar os sucessivos presidentes a convocarem uma assembleia constituinte, por forma a substituir o parlamento actual, que nitidamente não representa o povo, por outra organização política, mais consentânea com o querer do mesmo povo.

Não estou lá, e desconfio sempre dos relatos, mas quer-me parecer, pelo que li, que há ali uma permanente discussão nas mais diversas assembleias e os chefes foram chamados à razão diversas vezes. Vários movimentos proclamaram recentemente tréguas, porquê? Porque temem substituir uma democracia corrupta por uma ditadura. Mas sabem que é preciso encontrar uma saída, uma forma de expressão democrática que reflicta verdadeiramente o querer do povo - e desconfiam do «diálogo» mediado pela igreja católica.

Este tipo de organização, em que não se trata já de transmitir a consciência da história às massas trabalhadoras, mas de criar uma consciência colectiva do conjunto dos indivíduos dessas massas pela discussão entre iguais (em assembleias onde os partidos continuarão a ter o seu lugar), é talvez o grande contributo do movimento altermundialista para a História com agá grande. Sem que eu queira sacralizar o movimento altermundialista, tão contraditório, tão imperfeito, como o partido do trabalho do presidente Lula.

Desculpe lá estes comentários descosidos. São coisas que me vêm à cabeça assim à noite.

4 Comments:

Anonymous ns said...

Manel: não desistas! Então agora que se está a "reconstituir" a equipa é que queres entrar em ocultação? Não o faças!
O abraço do
ns

12:21 da manhã  
Anonymous ns said...

Ao reler este magnífico post do meu amigo e excelente confrade M.R., deparei com uma afirmação que tenho de infirmar por incorrecta.
Assim, não é verdade que os espanhóis tenham massacrado menos, que os americanos do norte, os índios. O Manel far-me-á a justiça de crer que sei do que falo. Pelo contrário, os espanhóis foram muito mais mortíferos para as nações índias que os outros díscolos.
MR não deve esquecer que uma grande, uma enorme parte do território que depois iria ser os modernos EUA, esteve sob o domínio espanhol durante vários séculos. Não esquecendo a acção castelhana nas Américas central e do sul.
A bem da verdade histórica, aqui fica com um abraço este detalhe que me pareceu dever epigrafar.

1:00 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Está certo.

Mas onde estão os índios dos EUA?

Os da América Latina hispânica sei onde estão. Há-os aos montes. Agora explica-me isso, Nicolau.

11:42 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

E mais digo, Nicolau:

No Canadá há mais índios per capita, e mais reconhecidos, do que nos EUA.

Como se explica tal buraco no meio, entre os índios de língua castelhana e os índios canadianos?

Como? Mas como?

11:48 da tarde  

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