28.2.05

Vou envelhecer o meu carro

Já decidi: vou envelhecer o meu carro. Os tempos não estão para carros novos, com carroçarias banais e que se imitam umas às outras. Acabou-se a "quinta velocidade", o sistema de travagem ABS, o "airbag", a direcção assistida, a gasolina sem chumbo e o telefone "mãos-livres". O que está a dar é chamar outra vez a época gloriosa em que os automóveis demoravam uma eternidade a pegar, faziam pelas ruas uma chinfrineira desenfreada, fumigavam os ares até dizer chega, tinham faróis tão potentes como uma candeia, eram um sinal exterior de riqueza e ainda exigiam do condutor uns autênticos músculos de Popeye pós-espinafres sempre que era preciso estacionar. Perante isto, que posso eu fazer com o meu pobre Citroën Saxo, tão desavergonhadamente jovem que até dói? Pois bem, já tenho a marreta preparada. Vou fazer como o gajo do anúncio do Peugeot e vou desatar a martelar e a violentar o meu carro sem dó nem piedade até que ele se pareça com uma caranguejola antiga, muito antiga, demasiado antiga. Hei-de arranjar-lhe amolgadelas por tudo quanto é sítio e manchas de ferrugem feitas de alcatrão e tinta, vou pôr-me aos pontapés e às calcadelas na zona do motor para que o animal tussa da próxima vez que eu queira ligar a ignição, coloco-me ao volante, praguejo e ponho-me a andar com ele, sempre engatado em primeira para fazer jus aos velhos galões de poluição sonora mas sem ultrapassar a velocidade de cruzeiro máxima de quarenta à hora. Depois, é só estacionar (com o suor devido) à beira de um restaurante ou hotel da cidade do Porto, entrar a sacudir as mãos do óleo e dos calos das marretadas, e pedir aquilo a que tenho direito: o "descontozinho" que por estes dias é atribuído a todo e qualquer proprietário de uma relíquia automóvel, como forma de promover a corrida de bólides "vintage" que vai ressuscitar, lá para Julho, o velho circuito da Boavista. Isto do desconto foi ideia do dr. Rui Rio, que ultimamente não pensa noutra coisa senão em automóveis, e eu agradeço. O meu carro é que nem por isso. Já deve estar a tremer, à espera da pancada...

Presumível neta de Carlos Cruz já está a jogar à defesa

Raquel Cruz tem uma página dominical no "24 horas". Este domingo, na página 46 do tablóide, rebela-se moderadamente contra a suposta "caixa" do "Correio da Manhã", que sabe qual o sexo do futuro neto ou da futura neta de Carlos Cruz, rebento de Marta. Para o "CM" é fêmea.
Diz a Raquel: "(...) É que em todos os examos ecográficos feitos até hoje não foi possível determinar o sexo da criança, pela simples razão de que o pequeno ser aparece sempre... de pernas cruzadas (...)".
Há duas explicações possíveis:
a) a miúda é sempre apanhada depois das refeições e está de perna cruzada a ler o jornal, a tomar a "bica" e a fumar um cigarrinho.
b) A miúda tem seguido com toda a atenção o processo da pedofilia e resolveu não arriscar nada.

Luís Graça

Mallarmé por Degas.



Retrato de Stéphane Mallarmé por Edgar Degas, 1876.

Carta de Mallarmé a Verlaine

Como a Margarida Vale de Gato anda às voltas com o Mallarmé, segundo me disse um passarinho, aí vai a carta do Mallarmé ao Verlaine. Também pode ser para o Rui Lage, pois anda interessado nessa época ("decadente", que o Mallarmé dizia "de transição")

Paris, segunda-feira, 16 de Novembro de 1885

Caro Verlaine:

Atrasei-me a responder-lhe, porque andei à procura daquilo que, da obra inédita de Villiers, havia emprestado a este e aquele, sei lá a quem. Junto lhe envio o quase nada que possuo.

Mas, informações precisas sobre esse querido e velho fugaz, não as tenho: até o endereço ignoro; as nossas duas mãos lá se vão encontrando à esquina, todos os anos, como se na véspera se tivessem descumprimentado, porque existe um Deus. Tirando isso, será pontual aos encontros, e, no dia em que, para os Hommes d'Aujourd'hui ou também para os Poëtes Maudits, sentindo-se melhor, você queira encontrá-lo na casa do Vanier, com quem ele se prepara para negociar a publicação de Axël, não tenha dúvida, que eu conheço-o, não tenha dúvida que há-de estar lá à hora marcada. Literariamente, não há mais pontual do que ele: portanto Vanier é que há-de começar por conseguir a morada dele, do Sr. Darzens, que, até agora, o tem representado junto desse gracioso editor.

Se tudo isto falhar, um dia, uma quarta-feira, por exemplo, irei ter consigo à tardinha; e, palavra puxa palavra, hão-de vir-nos à ideia, a ambos, certos pormenores biográficos que hoje me escapam; não a conservatória, por exemplo, datas, etc., que só o nosso homem conhece.

Passo a tratar da minha pessoa.

Sim, nasci em Paris, a 18 de Março de 1842, na rua que hoje chamam Passage Laferrière. As minhas famílias paterna e materna apresentavam, desde a Revolução, uma série ininterrupta de funcionários da Administração do Registo; e, embora quase sempre tenham ocupado nela altos postos, fugi a essa carreira para que me tinham destinado desde que nasci. Em vários dos meus ascendentes venho a encontrar rasto do gosto de pegar na pena para registar coisas que não autos: um deles, antes da criação do Registo, certamente, foi síndico dos livreiros no reino de Luís XVI, e o nome dele surgiu-me no rodapé do Privilégio Real no frontispício da edição original francesa do Vathek de Beckford, que reimprimi. Outro deles escrevia versos brejeiros nos Almanaques das Musas e nos Folares das Damas. Era eu menino, conheci, no velho interior familiar de burguesia parisiense, o Sr. Magnien, um primo em terceira linha, que publicara um volume romântico desenfreado chamado Anjo ou Demónio, o qual por vezes ressurge com alta cotação nos catálogos de alfarrabistas que me mandam.

Dizia eu há pouco família parisiense, porque sempre morámos em Paris; mas as origens são borgonhesas, lorenas e até holandesas.

Era ainda muito pequeno, aos sete anos, perdi minha mãe, pessoa que era adorada pela minha avó, que foi quem primeiro me criou: depois, passei por muitas pensões e liceus, de alma lamartiniana com um secreto desejo de vir a substituir Béranger, por um dia o ter encontrado em casa de amigos. Parece que era muito complicado pôr tal projecto em prática, mas foi o que tentei fazer em cem pequenos cadernos de versos que sempre me foram confiscados, se tenho boa memória.

Como sabe, quando entrei na vida, esta não se prestava a que um poeta vivesse da sua arte, mesmo baixando-a uns furos, coisa que nunca lamentei. Tendo aprendido o inglês apenas para melhor ler Poe, parti aos vinte anos para Inglaterra, no fito de fugir, sobretudo; mas também para falar a língua, e ensiná-la num canto qualquer, tranquilo e sem outro ganha-pão forçado: casara-me e havia urgência.

Hoje, passados vinte anos e apesar de ter perdido tantas horas, creio, com tristeza, que fiz bem.

É que, para além dos nacos de prosa e dos versos da juventude e do que em eco se lhes seguiu e publiquei um pouco a esmo logo que surgiam os primeiros números duma Revista Literária, sempre sonhei e tentei outra coisa, com uma paciência de alquimista, pronto a sacrificar toda a vaidade e toda a satisfação, como antigamente as pessoas queimavam os móveis e as vigas do lar, para alimentar o forno da Grande Obra. O quê? é difícil dizer: um livro, pura e simplesmente, em tomos muitos, um livro que seja um livro, arquitectónico e premeditado, e não uma recollha das inspirações do acaso, mesmo que maravilhosas. Vou mais longe, vou dizer: o Livro, persuadido que no fundo só há um, tentado sem saber por quem quer que tenha escrito, até os Génios. A explicação órfica da Terra, que é o único dever do poeta e o jogo literário por excelência: é que o ritmo mesmo do livro, torna-se então impessoal e vivo, até na paginação, justapõe-se às equações desse sonho, ou Ode.

Eis pois, caro amigo, confessado, desnudado, o meu vício, que, de espírito machucado ou lasso, mil vezes rejeitei, mas que me possui -- e hei-de talvez conseguir; não fazer essa obra no seu todo (para isso, teria que ser sei lá quem!) mas mostrar um seu fragmento executado, fazer-lhe cintilar por um lugar a autenticidade gloriosa, indicando tudo o resto para o qual uma vida não basta. Provar pelas porções feitas que esse livro existe, e que conheci o que não poderei consumar.

Nada de tão simples pois que não tenha tido pressa de recolher os mil fragmentos conhecidos, que, de tempos a tempos, concitaram a benevolência de encantadores e excelentes espíritos, a começar por si! Tudo isso, para mim , não tinha outro valor momentâneo que não fosse manter a mão treinada: e por melhor que me tivesse saído por vezes um dos [pedaços?], todos juntos mal comporiam um álbum, nunca um livro. É, porém, possível que o Editor Vanier me arranque esses farrapos; mas limitar-me-ei a colá-los nas páginas como se faz a uma colecção de trapos de tecidos seculares ou preciosos. Com essa palavra condenatória de Álbum, no título, Álbum de versos e de prosa, sei lá; e a coisa conterá várias séries, poderá até continuar indefinidamente (lado a lado com o meu trabalho pessoal que, creio, será anónimo, pois o Texto nele falará por si e sem voz de autor).

Esses versos, esses poemas em prosa podem ser encontrados, não só nas Revistas Literárias, mas também, ou não, em Publicações de Luxo, esgotadas, como, por exemplo o Vathek, o Corbeau, o Faune.

Em momentos de embaraço ou para comprar ruinosos botes, tive que efectuar certas obras asseadas, sem mais nada (Dieux Antiques, Mots Anglais), de que cabe não falar: mas, tirando isso, as concessões às necessidades ou aos prazeres não foram frequentes. Minto, houve uma altura, em que, desesperando do despótico livro solto de Mim-mesmo, e após uns artigos à esquerda e à direita, tentei redigir sozinho, incluindo as toilettes, as jóias, as mobílias, e até os treatros e as ementas de jantar, um periódico, La Dernière Mode, do qual saíram oito ou dez números que me ajudam ainda a sonhar longamente quando os dispo da poeira.

No fundo considero a época contemporânea como um interregno para o poeta, que não tem que se lhe misturar: há nela demasiado mofo e demasiada efervescência preparatória, para que ele tenha mais que fazer do que trabalhar com mistério com os olhos postos em mais tarde ou nunca e, de tempos a tempos, enviar aos vivos o seu cartão de visita, estâncias ou soneto, para não ser lapidado por eles, se o suspeitarem de saber que eles não têm curso.

A solidão acompanha necessariamente esta espécie de atitude; e, tirando o caminho de minha casa (agora no n° 89 da rue de Rome) para os diversos sítios a que tenho devido a dízima dos meus minutos, Liceus Condorcet e Janson de Sailly e, por fim, Collège Rollin, de pouco me ocupo, preferindo a tudo ficar num apartamento defendido pela família, acolhido entre alguns móveis antigos e caros, com a folha de papel bastantes vezes em branco. As minhas grandes amizades têm sido as de Villiers, de Mendès e, faz já dez anos, tenho visto todos os dias o meu caro Manet, cuja ausência hoje me parece inverosímel! Os seus Poetas Malditos, caro Verlaine, e A Rebours de Huysmans, despertaram interesse pelas minhas terças-feiras, tantas vezes vazias, entre os jovens poetas que nos amam (mallarmistas à parte) e houve quem acreditasse em alguma influência tentada por mim, quando o que houve foram encontros. Muito afinado, estava com dez anos de avanço no sítio a que jovens espíritos como eles haveriam de vir a acorrer hoje.

Eis toda a minha vida despida de anedotas, ao invés do que há tanto tempo vêm a repetir os grandes jornais, onde sempre tenho passado por muito estranho: perscruto e não vejo mais nada, salvo as maçadas do dia-a-dia, as alegrias, os lutos de interior. Algumas aparições sempre que há um ballet, ou um concerto de órgão, duas paixões de arte quase contraditórias, mas cujo sentido há-de deflagrar, e é tudo. Já me ia esquecendo das fugas que, sempre que me invade demasiado cansaço, faço às margens do Sena e da floresta de Fontainebleau, num lugar sempre o mesmo desde há anos: ali surjo-me totalmente diverso, exclusivamente entregue à navegação fluvial. Honro o rio, que deixa a gente entranhar-se na sua água por dias inteiros sem ter a impressão de os ter perdido, nem uma sombra de remorso. Simples viandante em yoles de mogno, mas velejador com fúria, muito orgulhoso da sua frota.

Até à vista, caro amigo. Há-de ler tudo isto, anotado a lápis para dar o ar duma dessas boas conversas entre amigos, reservada e sem alarido, há-de percorrê-lo com a ponta do olhar e encontrar, disseminados, alguns pormenores biográficos a escolher que é preciso ter visto verídicos em algum sítio. Como me aflige sabê-lo doente e de reumatismos! Sei o que isso é. Seja parco com o salicilato, e só dado por um bom médico, pois o assunto dose é muito importante.

Tive há tempos um cansaço e uma como que lacuna do espírito, depois de tomar essa droga; e a ela atribuo as minhas insónias. Mas irei vê-lo um destes dias e dizer-lhe isso mesmo, levando-lhe um soneto e uma página de prosa que vou confeccionar proximamente, em sua intenção, alguma coisa que caiba onde você o meta. Pode começar sem esses dois bibelots. Até à vista, caro Verlaine. A sua mão.

STÉPHANE MALLARMÉ
O pacote de Villiers está no porteiro: escusado será dizer que lhe quero como às meninas dos meus olhos! São coisas que já não se encontram em sítio nenhum: quanto aos Contes Cruels, Vanier lhos arranjará, Axël está publicado na Jeune France e Ève future na Vie

Ôscar, garçon français.

Acabei de saber pelo noticiário da TV5 que um tal de Môrgâ Frimâ ganhou o óscar de melhor actor secundário. Alguém sabe de quem se trata?

Diz-se que Kafka era assaltado por terríveis crises de riso sempre que, entre amigos, lia em voz alta passagens de "O Processo". Nessa altura, a literatura tremeu e esteve mesmo para acabar. E a verdade é que só não fechou as portas de vez porque havia um tipo que tinha uma cópia da chave. Chamava-se Robert Walser.

Daquilo que se apalpa

Penso que passo portas e quartos/ E há sempre outra porta e outro quarto*

* Resende, 2004.

Cantemos.

Este também não está mau

"Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha."

[Princípio de "Menina e Moça", Bernardim Ribeiro]

Moda

Certa manhã, depois de almoçar, Colomba saiu por um instante e, em vez de voltar com um livro e papel, apareceu com o seu mezzaro na cabeça. O seu ar era ainda mais sério que de costume.
- Meu irmão - disse ela -, vou pedir-te que saias comigo.
- Aonde queres que te acompanhe? - perguntou Orso, ofercendo-lhe o braço.
- Não tenho necessidade do teu braço, meu irmão, mas toma o teu fuzil e os teus cartuchos. Um homem nunca deve sair sem armas.
- Bem, bem! É preciso conformar-se com a moda. Aonde vamos?

Prosper Mérimée, Colomba.

Mar Adentro



Marejaram-se-me os olhos de brumas galegas. Pelo meio do mar, pelo corte da névoa, pelos corpos inertes. O sabor do som de Carlos Nuñez a percorrer as veias, o rosto de Bardem a fixar-me em grandes planos que nunca acabam mais. E têm apenas o tempo exacto.
Entre as terras do Boiro, a Corunha e Barcelona. Num voo de águia sonhado. Um corpo a voar como Mary Poppins. Um sonho de morte que não é consentida.
Ainda e sempre a arte de Bardem. A viver o papel em busca da morte. Bardem tão diferente de "Los lunes al sol", de "As Idades de Lulu", de "Jamón, Jámon", de "Huevos de Oro".
Bardem (Ramón Sampedro) em luta por uma morte digna, contra tudo e todos. A família que o ama, as mulheres que se aproximam, a Igreja que se opõe, a Justiça que não tem leis suficientes.
Almenábar faz o que é preciso. Filma com uma veracidade inatacável. Dispõe de um extraordinário "casting". Documentário? Um tanto. Drama? Um tanto. Filme-tese? Sem dúvida.
É impossível não estarmos na cama ao lado de Bardem, é impossível não voarmos com ele sobre as águas galegas. Mas Almenábar preocupa-se em dar voz a todos.
"Mar Adentro" é uma luta corpo-a-corpo com os nossos medos, com a D. Ceifeira que nos espera à esquina, a afiar o gadanho. Mas não deixa de ser um filme com duas horas de uma intensa ternura. Nunca os olhares foram tão intensos como neste filme. Nunca os sorrisos chegaram tão perto do espectador. Almenábar consegue encher o ecrã com dois rostos colados sem nos sentirmos invasores.
A Galiza toca-nos no ombro com o seu fatalismo, a sua teimosia, as suas chuvas de Junho, as brumas da desgraça a bater à porta. E uma perturbadora beleza natural. Um elfo céltico a tocar gaita-de-foles. Um trevo verde de esperança. E quando se acaba a esperança?
Quando o coração está todo ocupado pelo sofrimento?
Resta a dignidade.
Tomem fôlego e vejam.

Luís Graça

26.2.05

Como é bom ter princípios

Adoro este princípio:

"Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sangüíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica - que o detestava - costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:

- Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!

Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe - à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!

E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando:

- Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!

As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:

- Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era miguelista - e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracionável:

- Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho."

[Princípio do "Crime do Padre Amaro", de Eça de Queiroz]

A Ciência é que nos salva!

A notícia circulava à boca pequena entre as figuras de proa mais próximas do ex-líder centrista, mas não tivéramos ainda ensejo de proceder a uma verificação. Contudo, ela aí está agora, posto que debaixo de um certo sigilo.
Efectivamente, estamos neste momento em condições de afirmar: Paulo Portas vai ser clonado. Mas não como de habitual nestes manejos científicos!
Como se sabe, o Partido do homem que mais vezes pronunciou a palavra "deus" na curta alocução de despedida (levantando mesmo, a dada altura, a mão e os olhos para o Céu como que invocando o Ser Supremo numa manifestação comovente de Fé) sentia-se desamparado, confuso e mesmo atribiliário - chegara-se mesmo a pensar numa solução Telmo Correia, veja-se a angústia reinante - porque um Portas mesmo de contrafacção não se arranja sem mais nem menos. O genuíno é que era bom. Mas o homem empenhara a sua palavra em como não mais queria, digamos plebeiamente, as sopas - pelo que urgia tomar uma decisão a contento.
Decisão: clonar-se o indispensável líder, mas sem lhe comprometer a palavra honrada. Nesta perspectiva, a sua figura ficará ligeiramente alterada, sendo o conteúdo mental absolutamente o mesmo, o que garantirá a continuidade na renovação. O perfil escolhido será o do actor Georges Clooney, o que permitirá conquistar votos na área socialdemocrata. Quanto ao nome, optou-se pelo de Paulo Petrovich, para aliciar militantes e futuros votos do adversário mais directo, a CDU - pois sabe-se como naquela área se pelam por nomes com um toquezinho eslavo.
Se esta clonagem não resultar em termos de implantação nacional, em desespero de causa já se pensou em artilhar como líder o célebre Avelino, mas desta feita clonado com o famoso Castelo Branco.
A hipótese não desagrada, ao que se sabe, ao dinâmico engº Nobre Guedes.

25.2.05

Sepúlveda bate recorde de Cavaco



Lisboa, El Corte Inglés, quarta-feira, 18 horas e 30 minutos. Centenas de pessoas estão já na bicha para os autógrafos com Luís Sepúlveda. Os livros vendem-se à velocidade da luz. Há leitores com quatro e cinco livros na mão.
O chileno bateu o recorde do Professor Cavaco. As suas bichas de leitores são ainda maiores do que as que o Professor Cavaco originou. Vêm da mesa até à zona dos discos, num curioso Z, que não de Zorro. São centenas de pessoas. A média de espera é de duas horas, a bicha tem mais de cem metros de comprimento. Homens, mulheres e crianças, de todos os escalões etários e, presume-se, filiações clubísticas, religiosas, políticas e literárias. Sepúlveda é um fenómeno de comunicação. Parker preta na mão (modelo trivial de lineu), esteve sempre "a dar-lhe", sem pausas.
Manuel Freire, presidente da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) não se furtou à bicha. Aguentou a pé firme a sua vez. "Vai ser impossível organizar aquilo", disse-lhe eu. "Aquilo" é a SPA. Manuel Freire ainda tem fé. Eu não.
Na bicha, para além do presidente dos autores, também havia autores. Neste caso, um jornalista-escritor, Frederico Duarte Carvalho, de vontade afiada para ofertar ao Sepúlveda o seu mais recente livro, acabadinho de sair pela editora Polvo: Poeta & espião, a verdadeira história de Oswald Lee Winter. Livro que consta de uma introdução explicativa, uma entrevista e notas finais, para além de um conjunto de poemas intitulado "Deep-water harvest", traduzidos para português por Myriam Jubilot de Carvalho.
Havia também quem fosse buscar comida para a namorada e a amiga e se desmarcasse estrategicamente para ver o FC Porto-Inter na televisão, deixando o seu exemplar em mão fraterna, sem o suplício da espera. Espera essa que dava para ler quase na íntegra alguns livros do autor.
Um dia antes, no Instituto Cervantes, cativara a assistência desde a primeira fala, esse escritor que se considera uma espécie de "padrinho" do encontro "Correntes D'Escrita", na Póvoa do Varzim.

Há uns sete anos, uma delegação poveira acostou a Gijón (ou Xixon), onde vive o autor, e pediu conselhos. E perguntou: como se faz um encontro assim ao estilo do seu, aqui em Gijón? Sepúlveda disse que Gijón era uma cidade solidária e explicou os truques todos, desde os mais simples até ao mais complicado: como utilizar os argumentos correctos para "sacar" o dinheirinho aos patrocinadores oficiais.
O Instituto Cervantes também registou uma das maiores enchentes da sua história. Não só por causa de Sepúlveda, mas também para ouvir o escritor cubano Leonardo Padura, o argentino Pablo de Santis e o colombiano Mario Mendoza. O seu compatriota Santiago Gamboa ficou retido na Colômbia, a conselho médico, devido a problemas respiratórios.
No final do encontro, o director cessante do Instituto Cervantes, Manuel Fontán del Junco, disse palavras de circunstância e agradeceu a todos aqueles que o ajudaram no seu trabalho, considerando-se "um anão às costas de gigantes". Deixa saudades, pelo seu dinamismo e afabilidade. Agora, chega a vez de acostar a uma terra que Curzio Malaparte tão bem descreveu em A Pele: Nápoles.

Luís Graça

Pedidos e achados.

"Fiz questão de só querer as bases", disse ontem Luís Filipe Menezes à comunicação social. Está tudo muito bem. Mas ficamos sem saber que bases o senhor doutor prefere. Finas e estaladiças ou altas e fofas? E de certeza que o senhor doutor não quer um bocadinho de molho de tomate? Nem fiambre? Nem o apoio de uns pedacinhos de queijo? Absolutamente mais nada?

Post decadente




"À Rebours", o romance que Joris-Karl Huysmans publicou em 1884 é a "bíblia" do decadentismo e o momento em que o "mal do século", que se vinha acumulando desde o "René" de Chateaubriand, implode numa congestão de bílis negra, nevrose e tédio. Em "À Rebours", que podemos traduzir por "Do Avesso" ou "Ao Contrário", o que restava do romantismo olhou-se ao espelho e já não se reconheceu. É também um romance de reacção contra um naturalismo de escola que se revelava, depois do magistério de Zola, estafado, e, a certa altura, tão vulgar quanto a vulgaridade que se propôs olhar e retratar com frieza. Se há elementos naturalistas em "À Rebours" eles são já da ordem do "pastiche". Revoltado contra um Deus cruel que abandona os homens à miséria e ao sofrimento, Des Esseintes, o anti-herói de "À Rebours", proclama a supremacia do artificial sobre o natural. O génio artificioso é a única arma de que o homem dispõe para se vingar da sempre vitoriosa natureza (concepção politicamente correcta ou incorrecta?). Des Esseintes entrega-se a orgias de licores, jóias, livros, flores, perfumes e quadros, tentando desesperadamente esquivar o taedium vitae. Nessas orgias sensoriais procura o esquisito, o artificial, o rebuscado, o híbrido, o decadente, e vai aperfeiçoando e cultivando os cinco sentidos como um artista trabalhando na obra-prima da sua vida. A sua demanda incide sobre o passado, em especial sobre os períodos da decadência ou do crepúsculo dos grandes impérios e civilizações - venera acima de tudo o estilo bizantino e as obras latinas tardias - mas também nos seus contemporâneos, o que faz com que "À Rebours" esteja recheado de páginas extraordinárias sobre Mallarmé, Villiers de L'Isle-Adam, Poe, Baudelaire, Verlaine, Barbey D'Aurevilly, Gustave Moreau ou Odilon Redon que todos deviam conhecer.
Marc Fumaroli, no prefácio à edição de "À Rebours" da Gallimard (Paris, 1977), diz-nos que a falta de unidade da voz enunciadora e a dispersão da narrativa num conjunto de pedaços ou retalhos diversos e descontínuos fazem deste "À Rebours" a primeira experiência do stream of consciousness, abrindo por isso as portas ao romance moderno - a Joyce e a Proust, a Sartre e a Céline - e inaugurando uma linhagem que por estes lados é advogada pelo António Lobo Antunes. Marc Fumaroli defende também que "À Rebours" se impôs como o primeiro dos muitos manifestos estéticos de que o século XX foi tão pródigo.
"À Rebours" é uma das obras mais influentes e mais importantes da literatura universal, e tem influenciado não só a "alta" cultura mas também, anonimamente, a cultura "popular".
A questão é que "À Rebours" nunca foi traduzido para português, o que não deixa de ser estranho visto a cultura nacional ter sido dominada pela França durante muitos séculos (agora está dominada pela cultura anglo-saxónica, bastando passar os olhos pelos nossos suplementos literários para comprová-lo). Nem tradução de "À Rebours" nem da obra que lhe sucedeu em 1891, "La-Bas", descida aos infernos em que o herói, Durtal, se propõe escrever a biografia de Gilles de Rais. De facto, no acervo da Biblioteca Nacional apenas se encontra a tradução de "En Route" (1905), publicado com o título "A caminho" e, felizmente, "En Rade" (1887), um livro soberbo que foi traduzido e publicado em 1985 pela Estampa na saudosa colecção "O Livro B", com o título de "O Castelo do Homem Ancorado".

De que estão à espera senhores editores?

Tão bem formado que ele é!

E ao sexto dia, estando Satanás com os seus mancebos perto do antigo jardim donde fora corrido a pontapé pelo Mais Velho, e ao ver que se aproximava grande tribulação para a sua corte, e ao notar que até a malta nas tascas lhe tentava ir ao pelo, e vendo que havia perdido Samaria, e os exércitos de Baelbaoth e as nove tribos dispersas pelo deserto cananeu, e uma vez que o caraças do tachão no Éden era cada vez mais um esfumado pensamento onírico, e vendo outrossim que era um detalhe inominável nas barbas do Senhor, e nada que prestasse nas cercanias do zé-povinho, eis que disse com os seus botões mas de maneira que se ouvisse em todo o Outro Lado como se tivesse altifalantes tão eficazes como a capa do "Público":

"O meu lema é sempre 'sem rancores' e não guardo rancores nenhuns porque acho que eles não são devidos", acentuou(...)".

E nós rejubilámos, nós os filhos Deste Lado, porque este Mafarrico de trazer por casa é uma beleza de hortaliça e, como se diz nesta parte do empíreo, vulgo Alentejo, "Vais ver que no fim disto tudo ainda vamos ter de comprar ao gajo um par de botas...".

Salvo seja.

O meu puto irrequieto julga-se Deus

- Pai, tens gelo no cabelo!

A minha auto-assumida juventude desvaneceu-se aos meus pés num ápice...

Deus era um puto irrequieto.

Shakespeare e Cervantes morreram exactamente no mesmo dia do mesmo ano: 23 de Abril de 1616. Claro que isto não é nada do outro mundo. Mas é uma prova irrefutável de que, no início do século XVII, Deus era ainda uma criança cheia de humor, força e vivacidade. E divertia-se a brincar aos deuses, provocando de propósito estas pequenas coincidências, até para conseguir atrair o interesse do leitor não-especializado.

Mas quem me manda a mim....

É isto. À hora do almoço (al-moço não vem do árabe, vem do latim, seus pascácios), ponho-me a ver o telejornal das 13 da Antene2ServiçoPúblico (francês). É um telejornal moralista, não sei porquê (talvez por o verem apenas "donas de casa" - há poucos "donos de casa", talvez eu seja um deles -, desempregados e reformados). Por isso mesmo, instrutivo.

A notícia do dia. Diz o pivot: "Temos uma má notícia. Mais de 10 milhões de desempregados em França."

Continua: "Paradoxalmente, as empresas ostentam lucros excelentes." Mais reportagem em cima que explica que os empresários, como não confiam no futuro, "receiam empregar". Comprimiram custos, coitados, mas estão com medo...

Não posso, evidentemente, levantar-me da mesa e ir a Paris apertar-lhes o gasganete: quem arrumava a minha louça?

Ninguém diz a essas avantesmas que a notícia não é má para toda a gente? Que nos andam a enganar de fininho?

Que é, não "apesar de", mas "porque" as empresas estão de boa saúde, que o comum dos mortais está de má saúde e cheio de medo pelo futuro? Que a lógica do "novo espírito do capitalismo" é a compressão dos custos (que são as novas tecnologias senão formas de comprimir custos, incluindo ao nível do trabalho intelectual?), sobretudo salariais? Que quanto mais desemprego houver, mais medo e mais obediência? Etc.?

E que essa gente, preocupada com a saúde dos seus "investimentos"(deixem-me rir, "criadores de emprego"), só deixa de rir quando tudo ruir?

Adeus, civilização, sua grande vaca: há trinta anos que ma andas a enganar com outro.

Bom dia civilização, sua grande vaca

A "nossa" grande civilização cristã

Aljube - s.m. antigo cárcere eclesiástico, subterrâneo, que ger. ficava junto a um mosteiro; prisão de padres

Etimologia: ár. al-jubb 'cisterna, poço'; cp. alju; f.divg. algibe, este prov. pelo esp.

dos dicionários

[Era aí que enfiavam os heréticos, nas cisternas dos árabes - as fontes de vida passavam a fontes de morte. E mais do que isso, os descendentes deles, que forravam as suas casas com as riquezas de judeus e heréticos expropriados, pertencem, quando não se arruinaram, a algumas das nossas boas famílias. Porque, sabem, o direito de herança preserva os bons costumes. Ah que grande vontade de vómitos.]

Há uma grande necessidade de vida.

Há uma grande necessidade de vida/ Parem os semáforos todos no lilás.*

* Resende, 2004.

Cantemos.

Umbigo #149

Os remédios e os tratamentos estão mesmo pela hora da morte. Nestes tempos de crise, um maço de tabaco pode custar quase três euros e uma garrafa de vinho tinto mais de oito euros.

Señor Tallon #106

Na sua quase quotidiana crónica, Eduardo P. Coelho aborda o magno problema dos hinos, pesando mais fortemente sobre o dos carteiros, esses portadores de metáforas. E diz a certa altura:

"Embora a gente possa imaginar um hino aos animais domésticos ou às árvores do quintal, os hinos são sobretudo formas de tornar o que é colectivo mais unido nessa dimensão: os sportinguistas são mais sportinguistas, os algarvios mais algarvios, e, no caso supremo, os portugueses mais portugueses."

O que foi ele dizer! Como é possível uma pessoa que deve estar a preparar-se para ir para Paris ter ficado assim encurralada no cantinho pátrio e não se ter lembrado que o hino pode ter maiores ambições, voar mais alto e mais longe.

Já para não falar nos hinos religiosos, a Deus. à Virgem e ao Diabo-a-Sete, não nos esqueçamos do "Hino à Alegria" com música de Ludwig van Beethoven e letra de Friedrich von Schiller.

Depois, dá-me a ideia de que ele está a gozar com as árvores do quintal, que não lhe fizeram mal nenhum e não se podem defender.

24.2.05

O Povo É Sereno #241

Afinal, já não sou candidato à liderança do PSD. É, passou-me. Assim me surgiu, assim me saiu. A ideia, quero eu dizer. Que se me permita a frivolidade, tão comum por estes tempos, de pensar uma coisa num dia e o seu contrário no dia seguinte. No que mais não estarei do que a fazer jus, afinal, à tradição desse partido, tão estruturante como volúvel, da democracia portuguesa. Mas, se começo a repetir comportamentos erráticos deste tipo, ainda me chamam para conselheiro, ou coisa parecida, do líder que vier a ser eleito. Preciso de ter cuidado.

Post Scriptum # 512



"NAUGHTY GIRL" CONTA MAROTICES

Se a D. Quixote aprovar o "Diário sexual de um escritor frustrado", vamos ser colegas. Eu e uma menina que é "escort girl" numa das agências de acompanhantes londrinas.
Pois. A menina resolveu escrever um diário de ressonâncias buñuelianas: "Belle de Jour". Em que conta o seu dia-a-dia (e a noite-a-noite) das suas lutas sexuais. A coisa mete também S&M. Sado-maso, para quem leve mais tempo a decifrar iniciais. Não sei se tem a ver com Setúbal.
Ora bem. Comprei eu a "GQ" para ler a entrevista com os meus amigos do Gato Fedorento (que aparecem fotografados com peixes a sair da boca) e nem reparei na chamada de capa "Sexo: confissões de uma call girl".
Já bem lá dentro (da revista) - esta piada era perfeitamente escusada, pela sua banal brejeirice - fui-me ao artigo como gato a bofe. É uma pré-publicação da GQ, a abrir o apetite.
"A primeira coisa que precisam de saber é que eu sou uma puta. Não o digo eufemisticamente nem estou a fazer uma analogia em relação ao trabalho de secretaria". É assim o destaque da página 64.
Porque não digo que a menina é camarada de letras, em vez de colega? Porque "colegas são as putas" e esta assume-se: carnal e literariamente. Mas no que toca à literatura não dá a cara, ao contrário das autoras de "Diário de uma ninfomaníaca" e "Escovei o cabelo cem vezes antes de me deitar". Já a ex-stripper de "Cidade do Strip" opta pelo pseudónimo de Lily Burana e dá a cara, embora não dê mais que a nudez nos strips, reservando o corpo para o namorado meio hill-billy, meio red-neck.
Ai, vida...

Luís Graça

[Este livro começou por ser um blogue. Este.]

Ilha dos Amores # 138



Teatro Passagem de Nível.

ISTO NÃO É UM POEMA

ESCLARECIMENTO

O acto de segurar entre lábios
o ticket
ao subirmos a rampa do
parque de estacionamento

não é um beijo.

Post Scriptum # 511

Ainda posso perceber/ Esses miúdos nos viadutos/ Que atiram pedras aos carros da auto-estrada./ É um gesto eficaz/ Que matou alguns caixeiros-viajantes,/ E até famílias inteiras,/ É pura malvadez/ E o mundo precisa de pureza.// Mas como se justificam esses que nos acenam/ Com alegria ao passarmos?*

* Resende, 2004.

Cantemos.

Señor Tallon # 104

Ah! Leão!

A cena passou-se na FNAC Chiado (ao que parece) e foi-me contada por um camarada das letras e dos jornalismos.
Um senhor chega-se ao empregado e dá-lhe a todo o gás:
- Desculpe, tem o livro "Leão", de Tolstoi?
Gostava de ter inventado este trocadilho. A realidade antecipou-se. Hélàs, a vida é assim.

Luís Graça

Ilha dos Amores # 137



Raymond Depardon, Hospital Psiquiátrico de Piemonte, Turim, 1980.

23.2.05

O Povo É Sereno #240

Vou também candidatar-me à liderança do PSD. Este é um anúncio que faço em plena consciência, ou seja, com a total consciência da minha inconsciência. A decisão está tomada e é irreversível. Não aceito, por isso, vagas de fundo, melhor, não admito o menor salpico no pedestal da minha arrogância. Que não venha ninguém pedir-me encarecidamente que fique em casa, que não venha ninguém suplicar-me que não envergonhe o partido. O choradinho jamais dobrará a cerviz de um homem determinado. E, quando a vontade de partir a loiça é muito forte, nem a maior das lógicas cartesianas, nem a maior e mais irrefutável das verdades conseguirá dobrar o músculo.
A cor-de-laranja não faz parte do meu lote de preferências cromáticas, acho até que nem sou social-democrata e tenho uma vaga ideia de quem foi Sá Carneiro. Não gosto de setas (tenho sempre a sensação de que, mesmo que apontem para cima, posso ser espetado por alguma delas), não tenho pachorra para congressos e acho os discursos de Santana Lopes um tédio só comparável a uma telenovela da TVI. Não tenho saudades nenhumas do Cavaco e confesso-vos que me sinto um bocado encavacado quando me obrigam a cavaquear sobre ele. Aqui entre nós, não é dos meus assuntos favoritos de conversa, seguramente. E, se me falam em candidatura presidencial, não é um estadista que eu vejo à minha frente, mas sim uma assombração. Que o PSD é um partido social-democrata, dizem os boletins de voto, mas isso faz-me lembrar aquele agente secreto que, depois de atravessar a Cortina de Ferro, passou a chamar-se Vladimir quando toda a gente sabia que o nome dele era John Smith. O Muro de Berlim é passado, o espião já regressou a casa mas o safado continua tranquilamente a trazer Vladimir no bilhete de identidade. Em alternativa, até sou capaz de convir que o PSD seja um partido reformista, mas mais no sentido de que melhor estaria reformado. Está-me mais a cheirar que o partido é assim mais pró liberal, ou seja, andará simplesmente ao bel-talante do líder que, na circunstância, sofrer a desdita de ter de manobrar aquela nau.
Nunca votei no PSD nem penso vir a votar. Nem sequer tenho cartão de militante e, se o tivesse, já o teria rasgado há muito tempo. Mas nada disso me demove do meu intuito, firmemente alicerçado, de querer ser líder do PSD. "A que propósito?", perguntar-me-ão. "E porque não?", riposto. Um partido que é assim tão interclassista, que nem é de direita nem de esquerda mas de centro a pender ora para um ora para outro lado, que tem sempre o sonho, a ambição e o progresso debaixo da língua, que é um querido a dar colo e afecto aos seu líderes enquanto eles lá estão, que não tem complexos de querer pertencer a uma qualquer internacional além da internacional portuguesa dos que cá estão e dos que estão fora, que é hiper-tolerante, hiper-variado, hiper-cinético e hiper-mercado, que alberga no seu seio o mini-Marques Mendes e o gigante Arnaut, o cauto Durão e o temerário Menezes, a patibular Ferreira Leite e a primaveril Patrício Gouveia, o monástico Mota Amaral e o gongórico Jardim, o estratega Dias Loureiro e o temperamental Morais Sarmento, o futeboleiro Valentim Loureiro e o anti-futeboleira Pacheco Pereira, o futebolopes Santana Lopes e o anti-futebolio Rio, o baterista Proença de Carvalho e o organista Duarte Lima, Sá Carneiro Deus Nosso Senhor e Cavaco Espírito Santo, Amén. Um partido que tem espaço para esta gente toda não é um partido, é o Airbus que os engenheiros do consórcio europeu ainda não se lembraram de inventar, é um prodígio de habitabilidade que relega o Rolls-Royce para a categoria dos carros utilitários. Ora, um partido assim tão grande não há-de ter um lugarzinho para mim?...

Ilha dos Amores #137

PERFORMANCE
"BACK TO JUP- SEXO, NOITADAS E ROCK N' ROLL"
CANDIDATURA DE

ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO
À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

António Pedro Ribeiro, Rui Manuel Amaral e a banda "The Jills" apresentam a performance poético-musical "BACK TO JUP- SEXO, NOITADAS E ROCK N' ROLL" no próximo dia 26, sábado, pelas 16,00 horas nas instalações do Jornal Universitário do Porto. Os "The Jills" são constituídos por Les Casino (baixo), Phil Star (guitarra) e Mr. Bike (guitarra). António Pedro Ribeiro apresenta, uma vez mais, a sua candidatura à Presidência da República e, ao que sabemos, goza presentemente de boa saúde, tal como o seu cúmplice, o bloguista militante Rui Manuel Amaral. O espectáculo serve de suporte à apresentação do livro "Sexo, Noitadas e Rock n' Roll" de A. Pedro Ribeiro.

Pela organização,
Serafim Morcela
Tel. 229270069.

O povo é sereno #239

Ainda a crise nos Partidos da (agora) oposição

"É necessário que os militantes escolham um homem de bigode...ou na falta deste uma mulher que também o tenha!" - declarou ao nosso repórter o Dr.José Jagodes na sua primeira entrevista de fundo após o terramoto de dia 20.

José Jagodes, que se fazia acompanhar pelo seu secretário Prof. Pamplinas Miragaia, recebeu-nos na sua casa da Quinta da Rascalhinha, onde minutos antes concedera outra entrevista, desta feita a Cedrick Postlestar enviado do "News of the World" para a área política. O Dr. Jagodes, que afixou posições nítidas e percucientes, afirmou logo à partida sem quase ser questionado que "O meu candidato natural era o Dr. Pacheco Pereira, mas depois de reflectir um pouco acabei por concluir que, num mundo cada vez mais mediatizado e personalizante, o seu ar de Anthony Quinn da última fase e ainda por cima com barba intermitente não o iria favorecer junto do eleitorado que está cada vez mais dependente desses detalhes". Assim sendo, o grande social-democrata (e também socialista e democrata-cristão anarquizante, pois o Dr. Jagodes é o único caso conhecido de diversas filiações, consentidas devido ao prestígio do seu currículo estonteante) pensa agora noutras coordenadas. Mas segue o diálogo:

Nosso Repórter - Como vê, Dr. Jagodes, a crise que se abateu sobre o PSD e o PP?
José Jagodes - Vejo-a com bons olhos. As crises são sempre estimulantes e esta então é particularmente suculenta...mostra que este organismo que é a política e que se cria moribundo afinal ainda é capaz de estremeções!
NR - A sua visão sobre os dois partidos parece que é crítica...
JJ - Nem pense nisso. Isto é tudo simulação. Se fôsse crítica acha que iriam chamar para lhe dar assistência o dr. Menezes? Chamariam logo era uma task force do 115 acompanhada de um ou dois homeopatas!
NR - Crítica no sentido político, não no sentido clínico...
JJ - É a mesma coisa... E o dr. Menezes não usa bigode!
NR - Mas o dr. Marques Mendes também não...
JJ - Mas vai deixar crescer. Segundo sei de fonte credível, ele vai deixar crescer bigode para mudar o visual e se poder eventualmente medir com a drª Manuela Ferreira Leite.
NR - Mas por causa de ela ter bigode???
JJ - Claro que não, não seja titaúcha! Por ela ser uma mulher d'armas! Assim, ao usar um másculo apêndice capilar, o dr. Mendes psicologicamente como que repõe a desvantagem, ficando mais vigoroso.
NR - E quem acha que sucederá ao dr. Portas?
JJ - Dan Brown, evidentemente!
NR - Dan...Dan Brown? O autor do...do...
JJ - Do "Código da Vinci", sim. É o único capaz de dar um sentido lógico àquilo tudo. Pois não ouviu já circular a idéia de que o PP é pura ficção?
NR - Bom, o senhor lá sabe... E quanto ao Professor Rebelo de Sousa?
JJ - Vai ter que permanecer como o grande educador da classe política. A não ser que possa ir para sucessor do Trappatone...
NR - Como treinador?????
JJ - Não, como babysitter de jogadores desavindos. Mas continuo a dizer: os partidos da Oposição precisam de homens de bigode e se não houver, ponham mulheres. Mas ainda há uma esperança. O dr. Isaltino Morais...que até tem barbas!

O resto da entrevista é sobre fait divers, pelo que nos excusamos de a transcrever.

O Silêncio É de Ouro #205



Maria João & Mário Laginha, "Undercovers" (Universal, 2002). Plasticidade vocal & sensibilidade melódica.

Post Scriptum # 510

Não vir um fogo, um fogo real que queimasse tudo/ Numa enorme fogueira realmente existente/ De amor luminoso e cru! *

* Resende, 2004.

Cantemos.

O Povo É Sereno #238

Luís Filipe Menezes também é candidato à presidência do PSD.
Chamem um exorcista. O país precisa.
E passem-me daí a garrafa.

Post It # 253

SOME of the most revered names in literature, including Daniel Defoe, author of Robinson Crusoe, face possible removal from the official pantheon of great writers in a modernisation of English in the national curriculum.

In their place, children may be required to study a greater range of modern writers and those who reflect the ethnically diverse nature of modern Britain such as the prize-winning black author Andrea Levy.

Other potential candidates for the new list include fantasy writers Tolkien and Philip Pullman, who many believe more closely reflect the reading tastes of children than the current list.

Onde é que já lemos isto?

22.2.05

Post Moderno #3,14

RIP HST

"When the goings get weird, the weird get going."

Morreu ontem o Hunter S. Thompson, fundador do "novo jornalismo" que consistia em ir pedrado para as reportagens e falar imenso dele próprio. Chegou a andar com o Nixon (esse rufião como ele dizia) no mesmo carro a pretexto de reportagens. Dele dizia não sei quem que corria o risco de cair no bom gosto.

O Público traz notícia onde se diz o seguinte:

"O escritor e jornalista norte-americano Hunter S. Thompson, ligado nos anos 60 e 70 à criação do "novo jornalismo", suicidou-se na noite de domingo na sua quinta fortificada no Colorado, EUA. Thompson, de 67 anos, postulava que o autor deve tornar-se parte integrante da história que conta - terminou a sua através do disparo contra a cabeça de uma das muitas armas que possuía."

Não sei por onde lhe pegar. Os EU têm de tudo, mas mesmo nas suas personagens mais radicais há sempre um aspecto incubadora que me chateia. E aquela frase resume talvez tudo isso.

Vamos por partes. Não sei por onde lhe pegar. Bem, isto é fita, sei muito bem, só que queima. É aquela palavra "história". Eles dizem: "postulava que o autor deve tornar-se parte integrante da história que conta". Não era isso que ele dizia. Ele dizia: "O jornalista deve tornar-se parte integrante da história que conta."

Aí é que bate o ponto: na TV anglossaxónica e na portuguesa não há reportagens (palavra francesa), há histórias. Já repararam nos nossos pivots (perdão anchorpersons) a dizer: "Ontem um homem em Santo Tirso matou a sogra e três galinhas. A Sandra Vanessa tem a história." E passam à Sandra Vanessa em pseudodirecto (hoje não há hífenes pra ninguém).

Numa palavra: o jornalista conta uma história (que necessariamente é verdade, porque as histórias contam o que se passa na "realidade"). Não faz uma reportagem, isto é, não elabora os factos, não os mastiga através das palavras e das imagens para os transmitir ao telespectador. Não sei se percebem aonde quero chegar: não se questiona a linguagem: o mundo é simples, as palavras traduzem o mundo e está a andar. Assim sendo, se há dificuldade em transmitir o mundo, a culpa é do mensageiro. Daí as intermináveis glosas sobre o Politicamente Correcto (como se desde tempos imemoriais as palavras não re-velassem o mundo: "re-velassem", wink wink estão a perceber? Re, velassem)

Resultado: formulações complicadíssimas para exprimir um mundo que todos julgavam simples. Quando o que é preciso é o contrário: algumas formulações simples para resumir um mundo que é complicado. Mas pronto, já estou a divagar.

Ora, o que sucede. O Hunter S. Thompson achava que o jornalismo amaricano era uma treta com a sua mania da objectividade. A culpa só podia ser das pessoas que faziam esse jornalismo. Bastava um pouco de lata para mudar tudo. Portanto, toca de se pôr a fazer reportagens com toda a sua subjectividade, intervindo directamente na acção, numa grandiosa e jocosa salgalhada, impondo à América os desejos radicais da juventude dos anos 60. Só que a subjectividade do HST, faz favor! Ele fumava uns charros mas tinha armas em casa, era um machão furibundo e acabou por morrer disso, numa fazenda fortificada, às próprias mãos.

RIP. Abbie Hoffmann que escreveu um livro chamado "Roubem este Livro", acabou a escrever livros para crianças, antes de se suicidar, Jerry Rubin, que escreveu um livro "Do It" (sim, sim, a Nike não inventou nada), foi para corretor da bolsa antes de ser atropelado por um carro anónimo, Eldrigde Cleaver converteu-se ao conservadorismo cristão, Thimoty Leary nunca se soube ao certo se não era agente não sei de quê desde o princípio, etc. Claro, também houve os outros: os que foram mortos pelo FBI. E, bem, ainda há malta com mais substância que se manteve no balanço. Mas não eram os mais famosos na época.

Sei que esta história não tem moral. Mas o espaço que nos é dado num blogue (e talvez na minha cabeça) não dá para mais. Só queria deixar uma ideia geral da pobreza duma grande parte da minha geração. Cuja radicalidade acabou nos narizes de cera e nas gravatas das carinhas larocas da TV.

Esses emplastros que estão nos conselhos de administração a fazerem coisas muito irreverentes e prafrentex (que palavra mais fatela) são os herdeiros directos do pior que havia no radicalismo do meu tempo.

Ah! Esquecia-me de dizer: o "novo jornalismo" foi definitivamente enterrado quando, depois de importado pela "mainstream", uma jornalista do acho que New York Times, premiada com o Prémio Pullitzer e cujo nome me esquece mas não era Santana, foi desmascarada: as reportagens que fazia, perdão, as histórias que contava (nacos de realidade a cheirar mesmo a realidade), eram totalmente inventadas dentro do apartamento onde morava.

Post Scriptum # 509



Um sabor a Bryce

"Um sabor a Bryce". Foi assim que João Rodrigues (editor da D. Quixote) rematou a leitura de um pequeno extracto de "O Horto da minha amada", que ocorreu no anfiteatro do Instituto Cervantes.
Mas o "limiano" (nasceu em Lima, Peru, em 1939) Alfredo Bryce Echenique não pôde estar presente, porque uma operação a uma hérnia discal o impediu de se deslocar a Portugal para participar no encontro "Com o Atlântico no meio: olhares sobre a literatura hispano-americana", iniciativa conjunta do Instituto Cervantes e das editoras Temas e Debates, D. Quixote, Teorema e ASA.
Nuno Júdice apresentou a obra do escritor, detendo-se pormenorizadamente em "A vida exagerada de Martin Romaña" (agora editado pela Teorema) e contando alguns episódios curiosos da sua relação com a escrita do autor.
A conversa que se seguiu foi parar à temática do "realismo mágico" e um tom de humor impregnou a assistência. Afinal, as realidades da América do Sul são de tal maneira mágicas que basta ser "realista" para escrever ao estilo do tão falado "realismo mágico".
Ou Bryce Echenique não tivesse um tio diletante e boémio que gerou o seguinte epitáfio: "Aqui sigue descansando Joaquin Bryce Echenique". O autor, para João Rodrigues, consegue atravessar todo "O horto da minha amada" com um humor e uma ironia muito próprios, sendo um mestre nos diálogos. Ou não tivesse feito uma tese sobre os diálogos nos romances de Hemingway.
Antes do encontro, houve ocasião para peregrinar o átrio do Instituto Cervantes, onde se encontra exposta até dia 28 do corrente uma exposição dedicada a Garcia Marquez. Uma fotobiografia riquíssima, com imagens dos seus antecentes familiares e também de muitos dos locais por onde passou. A ver rapidamente, senão foge.

Luís Graça

O Silêncio É de Ouro #204



No início da tarde de hoje, a Antena 2 transmitiu algumas peças de João de Sousa Carvalho, lembrando que o compositor português nasceu há exactamente 260 anos, a 22 de Fevereiro de 1745. Bem, para alguém que data de 1745, o Carvalho está muito bem conservado. Mais: o João de Sousa é daqueles compositores que vai certamente durar muitos séculos sem perder a frescura.

Cimbalino Curto #150



"A instituição mais fabulosa do Porto". Quem o diz é a actual presidente da Direcção do Cineclube do Porto (CCP), Brígida Velhote, sobre a associação que lidera e que comemora este ano a invulgar soma de seis décadas de actividade. Exagero emocionado ou não, o certo é que a história do cinema no Porto não fica completa sem o CCP, por cujas sessões passaram sucessivas gerações de cinéfilos, realizadores pouco ou nada conhecidos e filmes há muito esquecidos.

Obrigado pelo primeiro Scorcese que vi. Obrigado pela retrospectiva do Manoel de Oliveira. Obrigado pela revelação do Mike Leigh. Obrigado por tantos, tantos outros filmes memoráveis. E desculpem ter desistido do CCP num momento de fraqueza. Talvez ainda vá a tempo de corrigir o erro.

Cimbalino Curto #149

É muito importante ler. Os textos que o Público tem editado sobre o processo de concessão a privados das redes de água e saneamento de diversos municípios da Área Metropolitana do Porto, nomeadamente nas suas edições de sábado e domingo. Infelizmente, parece-me que os textos não estão em linha. Logo que possível voltaremos a este assunto.

Post Scriptum # 508

A melhor maneira de chamar uma ambulância/ É a gente sentar-se na auto-estrada/ (...)/ A melhor maneira de chamar a polícia é a máxima insurreição/ Sobretudo nas partes do corpo./ (...)/ A melhor maneira de conhecer o mundo é fechar os olhos/ (...)/ A melhor maneira de estar nas cidades é no campo/ (...)/ A melhor maneira de estar no mar é na montanha/ (...)/ A melhor maneira é a má, a errada, a cuspida/ E esse vulto por acabar que está em nós a tentar falar-nos.*

* Resende, 2004.

Ilha dos amores # 136



Arnulf Rainer, "Önábrázolások", 1971-76.

O Silêncio É de Ouro #203

O SOM DE QUE O PORTO GOSTA

"Tenho a impressão que os portuenses, tal como noutras cidades, estão mais interessados no Pop/Rock e na música não clássica. Queremos equilibrar um pouco a balança, aumentando o público da música clássica, cuja audiência me parece muito reduzida, ao mesmo tempo que apresentamos programação de Pop/Rock. Contudo, a música clássica é a essência da CdM. Gosto muita desta cidade, mas ainda não tenho uma impressão formada da sua musicalidade."

(Anthony Withworth-Jones, director artístico da Casa da Música, em entrevista publicada n'O Primeiro de Janeiro do passado sábado)

Señor Tallon # 103

Agora que sabem que o José Sócrates tem uma Tia Marquinhas já acreditam que ele é mesmo um ser humano e não uma máquina fria e cerebral? Querem coisa mais humana do que ter uma Tia Marquinhas? E mais vos digo: quantos políticos portugueses se podem gabar de terem montado um burrico e de terem brincado descalços em ruas de aldeia? Quantos de vós já montaram um exemplar da raça assinina e viveram para o contar?

Umbigo # 149

Flash em dia de chuva

O cimento molhado do pequeno páteo brilhando sob as luzes ainda acesas. Ao longe a pequena torre dos celeiros da EPAL na estação dos combóios em pleno montado. O céu cinzento carregado e as lâmpadas dos candeeiros brilhando como pontinhos de oiro. E as altas árvores de folha caduca ao pé da ermida do Atalaião. E a sonatina em dó maior do Beethoven, como um estremecimento.
O vidro da janela da sacada que um ligeiro véu de névoa encobre. E onde desenho um coração e uma data - tal como em criança desenhava casas, flores, bonecada vária...
Dêem-me a vossa benção, irmãos. Como um abraço desenhado num vidro. Neste dia 22 de Fevereiro em que aqui no Alentejo recomeçou a chover, ainda que timidamente.
É o dia dos meus anos.

Ilha dos amores # 135



Contemplava a própria vida/ na sorte desses instantes/ que tanto se assemelham a furtivos lírios/ à chegada da noite/ mas dizia: um coração é sempre um pássaro evadido à censura da penumbra (...)
José Tolentino Mendonça.

Fotografia e selecção de poema de André Sousa Martins.

Post Scriptum # 507

Poemas de Alain Grandbois, traduzidos por Ruy Ventura.
Terceiro e último poema.




Alain Grandbois
(Canadá, 1900-1975)

A ALVA AMORTALHADA

Mais baixo ainda meu amor calemo-nos
Este fruto aberto ao sol
Os teus olhos como o sopro d' aurora
Como o sal das sarças reveladoras

Calemo-nos calemo-nos há em qualquer lado
Um coração que chora sobre um coração
Pela última aventura
Pelo tumulto total

Calemo-nos nada pode recomeçar
Esqueçamos as lâmpadas as horas sagradas
Esqueçamos os fogos-fátuos do dia
O nosso prazer nos arruína

Mais baixo ainda meu amor
Ah mais baixo meu querido amor
Estas coisas devem murmurar-se
Como entre dois moribundos

Logo deixaremos de querer distinguir
A franja de rugas nos nossos rostos
Ah olhemos o cintilar das estrelas
Mesmo no segredo de nossos dedos

Fitemos tudo o que recusa
O ouro destruído da lembrança
O belo quarto de outros tempos
E seus braços de faíscas surdas

Calemo-nos esqueçamos tudo
Afoguemos as palavras mágicas
Preparemos as nossas ternas cinzas
Para o grande silêncio inexorável

(in "Rivages de l' Homme", 1948)

21.2.05

Post Scriptum # 506

BACK TO THE LITERATURE!

De volta ao nosso campo específico não fragmentário - a literatura - como era aliás reivindicado pelos nossos leitores mais temerários, temos hoje notícias de bom quilate analítico-científico que passamos a dar-vos daqui a niquinho.
No entanto, antes de lá irmos, apenas uma derradeira notícia de âmbito político-jurídico: o homem de quem não mais diremos o nome vai ser novamente processado pelo Dr. José Jagodes! Motivo - a faixa ostentada na meseta dos comícios duma forma que o estoriador de "O espirro entre os Caldeus" considerou claramente provocatória...
A crer no Dr. J.J., a frase ali inscrita - "A coragem de fazer" que e citamos "Foi nitidamente vista por milhares de pessoas, algumas por duas e três vezes consecutivas(dado o hábito inaugurado pelo partido, que em parte sustentava o menino guerreiro, de levar militantes daqui para acolá para encher a funçanata) era uma clara alusão galhofeira à minha bem conhecida e doentia obstipação (vulgo prisão de ventre) de que sofro há muitos anos. Além de ser igualmente uma atitude pouco caridosa para com os milhares e milhares de portugueses que infelizmente se vêem obrigados a tomar Purcenide".
Aliás, ainda a fazer fé no Dr. Jagodes, tal seria em parte a explicação da forte votação no PS verificada em Viseu (terra conhecida pelos bolos de ovos) em que os obstipados mostraram nas urnas a sua revolta contra o homem de que não mais o nome será por nós pronunciado.

Mas, voltando à literatura, a novidade que queríamos dar aos nossos leitores era que o ensaio de Edmundo Prates Carmelo sobre um poema genial - ainda que algo curto - do grande escritor de protobanalidades órficas Manuel Freicareto ( "Marcolina: Perdi o teu número...") onde o famoso cultivador de barbas poéticas se ultrapassa a si mesmo em especificidades tartamudeantes, está neste momento já contrapontado por um outro não menos excepcional da lavra de José de Pitta Raposo, que se debruçou sobre um exemplar (também um pouco curto, mas de grande qualidade) de Mantinhas Olaref, que vamos dar por extenso: "Traque: senti o teu olor... ".
É muito natural, segundo diversos observadores, que este singular poema físico-escatológico com nuances seminais e mesmo protozoárias consistentes, receba em breve sabe-se lá a atenção do inspirador Prates Carmelo.

Señor Tallon #102

Produtos em promoção no Carrefour de Gaia.

Eugéne Ionesco, "A Busca Intermitente" - 1 euro
Peter Handke, "Ensaio sobre o Dia Conseguido" - 1 euro
Octavio Paz, "Mais do que Erótico: Sade" - 3 euros
"A Palavra Dissidente", antologia organizada por Chris Miller - 2 euros
Uma embalagem com três chocolates de leite e cereais crocantes - 1,65 euros

Umbigo #146

José Gil, os semi-intelectuais e o sorriso da Batarda

Duas seguidas no jardim de Inverno do S. Luiz. Olaré.

Quarta-feira: "É a cultura, estúpido".

Tema: o livro de José Gil. Todos-contra-um. Da esquerda para a direita: Anabela Mota Ribeiro (toda ela à Black Lady, com uns ténis azul-claro resplandecentes), Pedro Mexia, José Mário Silva, Nuno Costa Santos. A disparar calmamente.
Pedro Mexia, pecador ao perguntar as coisas de forma demasiado clara e arguta, fez José Gil perder-se várias vezes na mesma resposta: "O que me perguntou?". Gil, que não o irmão Fernando ou o Vicente dos teatros, recusa ter feito a análise da sociedade portuguesa. Diz coisas à brava no seu livro. Mas recusa o termo diagnótico. E lá fez peregrinar o pensamento de forma tão esvoaçante que chegou ao ponto de pousar o microfone e continuar a falar para as estrelas. Pelo caminho ia ficando sem voz. Que é hoje das mais escutadas no país em que vivemos.
Nuno Costa Santos levava com perguntas em resposta às suas questões, mas não acusava o golpe. E até pode registar a patente de uma nova figura de pensadores portugueses: os semi-intelectuais.
Bati em retirada por volta das 20 horas (o Sporting-Benfica em hóquei em patins "chamava-me" à Parede) e falhei mais uma vez o "stand-up" do Ricardo de Araújo Pereira. Porra!

Quinta-feira: "Debate Falar Cinema: que diálogo entre a crítica e o cinema português?"

Da esquerda para a direita: Fernando Vendrell (produtor e realizador), Beatriz Batarda (actriz), José Carlos Abrantes (moderador e comentarista), Jorge Leitão Ramos (crítico de cinema e professor), Ruben de Carvalho (jornalista).
Ambiente calmo, de diálogo escrupuloso, pensado. Em que o choque público/crítica e realizador/crítica esteve presente de forma civilizada. Muitas questões importantes ficaram no ar.
E eu para ali, as orelhas arrebitadas, o olhar na Beatriz Batarda, para melhor beber a suavidade de um sorriso, fixado no brinco solitário e elegante a pender da orelha esquerda, a observar as meias às riscas a espreitar das botas, o t-shirt por baixo da camisola discreta.

Fugi outra vez pelas 20 horas, devoto da hidroginástica das 21 e 15, com laivos de sagrado. E deixei no uso da palavra Pandora Cunha Telles, produtora. Do "Kiss Me", por exemplo. Estava chateada com os críticos.

Luís Graça

Ilha dos amores # 134



Rafael, "A Trasfiguração", 1520.

Umbigo #145

Ontem, depois de terminada a "maratona eleitoral", fiquei a sós com uma garrafa do Douro. Aproveitámos para ter uma longa e esclarecedora conversa sobre o actual momento político e o futuro de Portugal.

Señor Tallon #101

Uma dúvida pós-eleitoral com pouco sentido:
o partido chamado socialista obteve a maioria absoluta. Isso significa que o país vai ter um governo de esquerda?

Post Scriptum # 505

CHUVA DE DEMISSÕES!

A derrota dos partidos colocados a leste do paraíso da futura governação não fez apenas vítimas entre os líderes. Com efeito, a queda eleitoral do homem de que não mais digo o nome arrastou outros tombos em cadeia. Justamente? Não o podemos jurar, mas parece-nos que sim.
Tivémos acesso ao rol, por um acaso e apressamo-nos a partilhar o facto com os nossos pacientes e carinhosos leitores. Assim:

- Luís Delgado vai demitir-se de assinante do Reader's Digest;
- Carlos Magno vai demitir-se de "homo sapiens";
- Alberto João Jardim vai demitir-se de membro da associação de fumadores de charuto do Funchal;
- Telmo Correia vai demitir-se de cantor de ópera;
- Aquele senhor Câmara Pereira vai demitir-se de fadista;
- José Pacheco Pereira, abruptamente, vai demitir-se de leitor de blogues;
- Agustina Bessa Luís vai creio eu demitir-se de qualquer coisa;
- Luís Nobre Guedes vai demitir-se de especialista em agitprop;
- O dr. Manuel Monteiro, numa decisão surpreendente, vai demitir-se de condutor de massas;
- José Peseyro teme-se que se vá demitir de ganhar o campeonato;
- Um poeta lisboeta de que não recordo agora o nome vai demitir-se de bolsar mais baboseiras;
- O sr. Raul dos Santos (creio que é este o nome) demitiu-se já de portista e, adicionalmente, de alentejano;
- O dr. Sarmento vai demitir-se de homem-rã.

Nesta excepcional revoada de demissões só não entra o homem de que não mais digo o nome.
Esse não se demite nem que o estrafeguem!
Vai ter de sair aos empurrões, como os etilizados chatos de madrugada nas tascas...

20.2.05

O baú do John Silver # 8

O corsário é sereno...!

Não caibo em mim de contente, flibusteiros. Estou empolgado, sinto uma comichão no sabre que nem vos conto!
O papagaio até repenica asneiras engraçadíssimas, significando que está feliz como uma águia.
E o caso não é para menos: ao governador de Maracaíbo deu-lhe finalmente a sulipampa e teve de ir de rosca. E com ele levou outros grumetes de fraca remada.
O novo é mais equilibrado, parece-me tipo sério e descendente de uma família de antigos bucaneiros e já circularam, por debaixo da mesa, rumores que irá atender as reivindicações da malta da Tortuga. Que vai entender - tem de perceber! - o sentido do querer das tripulações.
Hoje, santa paciência, vai haver forrobodó cá na ilha até às tantas. E até vou dançar a conga - apesar da perna de pau!

Post Scriptum - Ouvi há bocado, na comunicação social, que também lá na Lusitânia há festa da grossa. O zé povinho ganhou o campeonato em disputa e tudo está empolgado. Não ficaria de bem com as minhas colubrinas se não mandasse um abraço de esperança ao novo homem do leme.
E uma caneca larga à saúde, da velha botelha de rum!

Fica o
Long John, o Silver

O Povo É Sereno #237

Hoje é o dia da libertação de Portugal. Assim seja feita a vontade do povo!

19.2.05

O Povo É Sereno #236

O homem que flectiu duas vezes

Primeiro um braço, depois o outro. Sem espasmos, com método. Em seguida os dois simultaneamente, duas vezes. Com cuidado, para que as articulações não estalem. Fazer o mesmo para as pernas. Esticar, sentir os músculos tensos e logo a seguir dobrar, flectir. Isto, duas vezes. O número é importante. Uma vez não basta - duas são precisas para que o movimento cristalize, para que se adquira a certeza de que não se tratou apenas de mais um movimento em falso. Flectir duas vezes. Re-flectir, pois.
Estas flexões, fá-las hoje o homem de si para si. E como as faz duas vezes, o homem reflecte. Tanto se concentrou que até lhe parece que flectiu mais do que duas vezes. Mas foi impressão sua, certamente. O homem limitou-se, pois, a reflectir. E não faz mais do que a sua obrigação cívica, dado que o dia é de reflexão. Amanhã é dia de eleições e hoje é suposto que os portugueses reflictam, ou seja, dobrem os respectivos braços e pernas duas vezes. Agora que terminou a campanha eleitoral e os políticos flectiram tudo o que havia para flectir, uma, duas, várias vezes, todos os portugueses, sem qualquer excepção, terão de flectir por sua parte. Que ranjam pois as cartilagens do povo nesse supremo esforço colectivo de flectir duas vezes! Tremam, velhinhos, que o reumatismo faz parte da democracia! Regenerem-se, "body-builders", que a vossa ginástica diária valerá desta vez um lugar na Assembleia da República!
O homem tem estado a reflectir. Isto não quer dizer que ele saiba exactamente o que está a fazer. Entendamo-nos: o homem reflecte mas ainda não sabe para quê. Há para já uma consequência, que é a dor de burro. Outras poderão vir, mas são ainda desconhecidas. Votar na direita ou na esquerda dependerá em larga medida do lado donde soprar a cãibra.

1. O homem reflectiu e ficou com o braço paralisado. Mais um a engrossar o grupo dos abstencionistas.
2. O homem reflectiu e não chegou a conclusão alguma. Resolveu desistir das aulas de ginástica.
3. Aqueles homens reflectiram ao mesmo tempo. Eram comunistas, de certeza.
4. O homem reflectiu demoradamente. Tanto que ainda foi votar de perna flectida.
5. O boletim de voto deve ser flectido em quatro.
6. O homem reflectiu tudo o que havia para reflectir. Até já cabe dentro de uma gaveta.
7. O homem votou sem reflectir. Votou hirto. Era o Eanes.
8. Se o eleitorado não tivesse braços nem pernas, não era preciso o dia de reflexão.

Defesa de Fernando Pessoa, que Fernando Pessoa dispensa.



No Mil Folhas de hoje podemos ler uma excelente entrevista dada por um excelente poeta, João Miguel Fernandes Jorge. É um bom exemplo de um autor que consegue reflectir sobre a sua própria poesia sem cair em devaneios órficos ou narcísicos. Mas a certa altura, quando perguntado acerca dos poetas de que mais gosta, surge, meia disfarçada, uma afirmação que é tudo menos inocente. Por entre os nomes de Nemésio, Eugénio, Cesariny, Helder, Sena, Cesário, Pessanha e outros, João Miguel Fernandes Jorge encaixa, como quem não quer a coisa, "o Pessoa da "Mensagem", quer dizer, o Pessoa menor (e o Pessoa do "regime"). Tenho lido e ouvido tiradas semelhantes cujo único propósito é menorizar e relativizar o peso de Fernando Pessoa na literatura portuguesa (com que equívoca e vã finalidade não consigo sequer imaginar). Já me passaram pelas mãos alguns textos de carácter ensaístico e mesmo, pasme-se, académico, em que se tenta colocar Pessoa no seu "devido lugar". Uma das estratégias, claro está, é promover a "Mensagem" em detrimento de outras obras do poeta, a pretexto de uma pretensa "redescoberta" desse poema. A explicação para estas manobras de diversão é bastante simples: Pessoa continua a assustar.
Fernando Pessoa não é só um poeta português do século XX e nem sequer o maior poeta português do século XX: Pessoa é toda uma literatura (como alguém disse, penso que Octavio Paz), e é, para além disso, um sistema de pensamento, um padrão mental, uma revolução de lucidez. Pessoa é um dos maiores génios da literatura de todas as línguas, tempos e lugares, e o "Livro do Desassossego" o livro do século XX. Nenhum poeta que veio depois - ou que veio antes - soube gerar, a partir do nada, ou quase do nada, um pensamento especulador e filosófico, ou soube cultivar um olhar irónico e lúcido e com esse pensamento e com esse olhar trespassar o "real" mais pequeno, o quotidiano mais trivial, para o revelar em todo o seu esplendoroso vazio - e em toda a sua esplendorosa beleza. Isto entrando por instantes nesse jogo de falar de um "real" exterior ao poema, ou que, como defendem alguns, só habita a obra de um número restrito de poetas, como se uma garrafa vazia fosse mais importante - mais "real" - que um pensamento "sublime" (outro logro lexical) ou vice-versa. Digamos que, subitamente, uma garrafa vazia pode ser com certeza mais importante que um pensamento "sublime", e vice-versa. Tudo depende do lugar, quer dizer, do facto de nos encontrarmos num Bar ou fechados no quarto dos fundos a ler alternadamente Pascal e Montaigne. Tal noção de "real" é de um reducionismo absolutamente bacoco e de uma infantilidade inacreditável, para não ir mais longe.
Real? Real é a "Tabacaria". Real? Real é a garrafa vazia. Real sou eu a falar de ambos, num poema ou à mesa do café.
Não seria possível "ler" o Portugal contemporâneo sem Pessoa. Ou, se tal fosse possível, ou concebível, seria já "outro" Portugal que não este. Pode-se dizer o mesmo de qualquer um dos outros poetas portugueses que Fernandes Jorge refere? Claro que não. Acresce que nenhum dos poetas da geração de João Miguel Fernandes Jorge, por melhor que seja, e nenhum poeta das gerações anteriores ou posteriores, poderá ambicionar escrever um obra com o significado e com as repercussões da obra de Pessoa. Desde os anos 70 que se sabe que há um complexo em relação à obra "monstruosa" de Fernando Pessoa, uma angústia da influência sem paralelo no nosso país. Mas é curioso que só agora essa angústia, esse complexo, comece a ser verbalizado. Até aqui tinha-se pudor em falar no assunto. Mas não lhes serve de nada, pois Pessoa continuará a ser o que é, "no matter what", e mais vale começarem a pensar numa terapia de grupo, ou de geração, para exorcizarem o fantasma. E sabem qual é a maior ironia de tudo isto? É que Pessoa já previra tudo isto.

O Povo É Sereno #235

Hoje, só para contrariar, até me apetecia fazer um comentariozito político qualquer. Mas é melhor que me contenha. Sempre é dia de reflexão, e num dia como o de hoje ninguém pode falar de política. É proibido. E, como tal, cada um deve guardar os seus pensamentos para si. Sendo assim, reflictamos, então. Discretamente e em silêncio. Para não afugentar a passarada dos "slogans".

18.2.05

O Povo É Sereno #234

Deixem-no em paz! Deixem-no em paz, coitado! Ele, Santana Lopes, apareceu ontem, no programa Diga Lá Excelência, com aquela expressão cansada de político a pedir colo e ainda teve de ouvir os entrevistadores a bombardearem-no com perguntas sobre a sua futura equipa governativa. O acordo com o PP para aqui, o Miguel Cadilhe para acolá, o António Mexia para acoli, e mais a competitividade e a estabilidade e mais a governabilidade e não sei mais quê... Deixem-no! Obrigarem-no a falar de ministros a esta hora, obrigarem-no a trazer à baila Miguel Cadilhe, que deve estar com tanta vontade de ir com ele para o Governo (governo, qual governo?!) como um escravo para a arena dos leões. Tenham dó! Isso é quase tão deprimente como darem-nos a ouvir o último concerto da orquestra do Titanic.

O Povo É Sereno #233

Há jornais que não vivem neste mundo. Ou então, o que é pior, confundem a realidade com os seus desejos. Num dia em que a generalidade da imprensa enchia primeiras páginas com as últimas sondagens ou referências óbvias à (mais-que-provável) maioria absoluta do PS, o SEMANÁRIO não achou melhor ideia do que fazer a seguinte manchete: "PS e PSD no 'sprint' final; Indecisos decidem legislativas". Ah, ah, ah! É preciso ter fé, e esta, como se sabe, move montanhas! Mas o delírio não acaba aqui. Mais abaixo, e a ocupar quase meia página, podia ler-se a angustiante pergunta: "O que fará Sampaio se o centro-direita ganhar as eleições?". Ora aí está uma interrogação que vai hoje decerto tirar o sono a milhões de portugueses. Que a Irmã Lúcia lhes valha! Que mundo é o deste jornal?

Post Scriptum # 504



Eu, o Lobo Antunes, o Saramago e as erecções

A partir de hoje, tenho as minhas erecções literárias (ou pseudo-literárias) totalmente legitimadas. Obrigado, António Lobo Antunes. A validação dos meus desabafos sexuais está patente ao público na revista "Visão" de 17 de Fevereiro de 2005, na crónica intitulada "Entrevistas".
Lobo Antunes (um dos meus grandes ídolos literários e cidadão que muito estimo, fechado no seu palácio de dor, por amor dos outros e para esquecer os fantasmas da guerra e da morte) confessou uma potente erecção de pré-adolescente:
"(...) a senhora da idade da minha mãe que me encostava a perna no metropolitano e me beliscava a camisola (...)".
"(...) os dedos da senhora apertavam os meus no varão, autoritários, macios, o joelho apegava-se-me na coxa, a cabeça dela, mais alta do que a minha, observava-me de cima, num sorriso lento (...) desviei a coxa e o joelho a perseguir-me, tenaz, o polegar ia-me friccionando o pulso, a certeza que ia dar-se conta que o meu coração tão rápido, coisas embaraçosas a aumentarem nos calções (...)"
"(...) o indicador da senhora encontrou as coisas embaraçosas e demorou-se nelas de sorriso lento a crescer, a crescer, a sua voz num cochicho
- Loirinho (...)"
"(...) e eu a sorrir de volta à senhora porque assim que crescesse apanhava o metropolitano das oito e casava com ela (...)".
A partir daqui posso escrever à vontade sobre as minhas erecções. Quando me invectivarem, estou autorizado a responder: "O Lobo Antunes também já escreveu sobre erecções e ninguém levou a mal".
E se me perguntarem "Mas tu estás a comparar-te ao Lobo Antunes?", posso sempre dizer: "É melhor do que comparar-me ao Saramago. As erecções dele não têm pontuação".

Luís Graça

O povo é sereno # 232

...Na hora da despedida!

Creio que nos batêmos bem! Foi uma dura campanha, desmultiplicámo-nos em acções de interiores ao ponto de leitores convictos e vigorosos temerem pela colocação da nossa literatura - e se não chegámos a participar num simples debate foi porque as regras assim o ditaram (aqui entre nós, também porque tivémos receio pendular da lábia temerária do dr. Santana e, para mais, estávamos com um bocado de gasgalheira). Mas dizia eu que nos batêmos bem - afinal era a pátria que estava a pedi-las e quando é assim...
Agora segue-se um dia de reflexão projectiva semifúsica(aprendi esta durante a preparação a que me submeti, como um líder), vão-se calando os canhões e os truques de jiu-jitsu, é tempo de descansar entre os roseirais, o leite e o mel. Lutámos bravamente, merecemos o nosso ripanso até ir deitar o vótinho no sítio adequado.
Uma nostalgia muito suave se apossa da nossa carcaça (ou será carcassa?), pois démos o corpo ao manifesto. Podemos até ter uma palavra de simpatia para com o nosso adversário principal, que de facto zurzímos sem piedade - mas com a lealdade do guerreiro, p'lo que me diz parte já não menino mas levemente adulto.
E essa palavra de simpatia para com esse nome que se calhar escrevemos pela última vez (e já nos punge, portugueses sentimentais que somos, alguma saudade) - referimo-nos ao dr. Santana Lopes - teria de trazer anexa alguma referência generosa: assim, para o conceituado homem público, já que parece não poder voltar presidencialmente para a sua amada Lisboa, nem para a sua adorada Figueira da Foz (a não ser como veraneante), nós pedimos uma simples sinecura para que o distinto homem público não fique sem guarida.
E essa vem a ser - porem-no na TV a fazer contraponto ao prof. Marcelo!
Ambos se divertiriam - e o povo teria talvez ali em directo uma reconciliação entre aves, como se costuma dizer, afinal da mesma pena!

Post Scriptum # 503

Poemas de Alain Grandbois, traduzidos por Ruy Ventura.
Segundo poema.




Alain Grandbois
(Canadá, 1900-1975)


QUE A NOITE SEJA PERFEITA...

Que a noite seja perfeita se formos dignos dela
Nenhuma pedra branca nos indicava o caminho
Onde as fraquezas vencidas acabavam de morrer

Íamos para além dos mais longínquos horizontes
Com os nossos ombros e com as nossas mãos
E esse entusiasmo tamanho
Até ao brilho das abóbadas insondáveis
E essa fome de permanecer
E essa sede de sofrer
Sufocando-nos a garganta
Como mil enforcamentos

Partilhámos as nossas sombras
Mais do que as nossas luzes
Mostrámo-nos
Mais gloriosos com as nossas feridas
Do que com as vitórias esparsas
E as manhãs felizes

Construímos muro a muro
A negra muralha de nossas solidões
E essas cadeias de ferro prendendo o nosso andar
Forjadas com o mais duro metal

Que perfeita seja a noite em que nos afundamos
Destruímos toda a felicidade e toda a ternura
E os nossos gritos não terão
Doravante mais do que o trémulo eco
Das poeiras perdidas
Nos abismos do nada.

(in Poèmes d'Hankéou, 1934)

Post Scriptum # 502


Alfredo Trejos

Nasceu em Cartago (Costa Rica) em 1977. Até ao momento, embora seja um dos mais assíduos e conceituados novos poetas costariquenhos, publicou só um livro - Carta sem corpo - saído nas Ediciones Perro Azul. Tem para sair duas recolhas inéditas de poemas.

É bom cheirar as mulheres. Cheirar as mães e as filhas. Cheirá-las quando descem do autocarro, quando estão à espera, quando não se pentearam ainda. Quando de mau humor recolhem os lençóis de repelão e sentem nelas a grande miséria do dia, quando mandam alguém por sabão ou cebolas ou tomam um copo. É bom cheirar de vez em quando a santa, oportunamente a puta, valentemente a própria mulher. Há que cheirar a casa quando se veste, cheirar as abelhas e o café quando já abalou. Cheirar o canto da porta e a serradura. As folhas de rascunho, o mecanismo do guarda-chuva, o anel esquecido, o jornal ainda morno. Há que cheirá-las quando se movem. Cheirá-las profundamente quando se retiram. Cheirar as saliências da pedra, cheirar a sopa e a noz quando se assustam. Há que cheirá-las sem ter medo dos seus bolsos, cheirar a sua respiração e o seu vazio, o seu mar e a sua pesca.
É bom cheirar as mulheres e dizer: isto é pó, isto é cera, isto é pasto.

"Novíssimos poetas da Costa Rica"
in Matérika

Tradução NS

(Dedicada à T.)

Post Scriptum #501

Carta do Vidente
Arthur Rimbaud

[Carta escrita por Rimbaud a Paul Demeny no dia 15 de Maio de 1871. A carta começa por apresentar um poema do autor ("Chant de Guerre Parisien") dedicado à Comuna e prossegue depois da seguinte forma - Tradução provisória de Manuel Resende]

- Eis agora uma prosa sobre o futuro da poesia -
Toda a poesia antiga desemboca na poesia grega, Vida harmoniosa. - Da Grécia ao movimento romântico - Idade Média -, há letrados, versificadores. De Énio a Teroldo, de Teroldo a Casimir Delavigne, tudo é prosa rimada, um jogo, rebaixamento e glória de inúmeras gerações idiotas: Racine é o puro, o forte, o grande. - Se lhe soprassem nas rimas, se lhe baralhassem os hemistíquios, o Divino Tolo seria hoje tão ignorado como um qualquer autor de Origens. - Depois de Racine, o jogo ganha bolor. Durou dois mil anos!
Nunca ninguém julgou devidamente o romantismo. Quem o poderia julgar? Os Críticos!! Nem brincadeira, nem paradoxo. A razão inspira-me mais certezas sobre o assunto que cóleras alguma vez teve um Jovem-França (1). De resto, os novos que detestem quanto queiram os antepassados: estamos em casa e temos tempo. Os Românticos - que tão bem provam que a canção é tão raramente obra, quer dizer, pensamento cantado e compreendido do cantor.
Com efeito, EU é outro. Se o cobre acorda clarim, a culpa não é dele. Para mim, é evidente: assisto à eclosão do meu pensamento: fito-o escuto-o: dou com o golpe de arco no violino: a sinfonia tem um estremecimento nas profundidades ou salta de súbito para a cena.
Se os velhos imbecis não tivessem encontrado do Eu apenas o significado falso, não teríamos que varrer esses milhões de esqueletos que, há um tempo infindo, acumularam os produtos da sua inteligência vesga, proclamando-se seus autores!
Na Grécia, disse eu, versos e liras ritmam a Acção. Depois disso, música e versos são jogos, entretenimentos. O estudo desse passado encanta os curiosos: vários regozijam-se a renovar essas antiguidades: ? a coisa é para eles. A inteligência universal sempre largou as suas ideias naturalmente; os homens colhiam uma parte desses frutos do cérebro: agia-se por, escreviam-se livros disso: tal era a marcha, que o homem não se trabalhava, não estava ainda desperto, ou ainda não na plenitude do grande sonho. Funcionários, escritores. Autor, criador, poeta, tal homem nunca existiu!
O primeiro estudo do homem que quer ser poeta é o seu próprio conhecimento, inteiro. Tenteia a alma, inspecciona-a, tenta-a, aprende-a. Logo que a saiba, tem de a cultivar: parece simples: em todo o cérebro consuma-se um desenvolvimento natural: tantos egoistas se proclamam autores; e há tantos outros que a si próprios atribuem o seu progresso intelectual! ? O que há a fazer, porém, é a alma monstruosa: como fazem os comprachicos (2), pronto! Imagine um homem que implante e cultive verrugas na cara.
Digo que temos de ser videntes, de nos tornar videntes.
O Poeta faz-se vidente por um longo, imenso e ponderado desregulamento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; procura por si próprio, esgota em si próprio todos os venenos para só lhes guardar as quintessências. Inefável tortura em que precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito - e o supremo Sábio! - Com efeito, chega ao desconhecido! Visto ter cultivado a alma, já rica, mais que ninguém! Chega ao desconhecido; e quando, apavorado, acabasse por perder a inteligência das suas visões, tê-las-ia já visto! Que rebente no seu salto pelas coisas inauditas e inúmeras: outros virão, horríveis trabalhadores; começarão pelos horizontes em que o outro tombou!
- Segue dentro de seis minutos -
[Rimbaud intercala aqui um "segundo salmo hors texte" - Mes Petites amoureures]
- Prossigo -
O poeta é pois verdadeiramente ladrão de fogo.
Está encarregado da humanidade, dos próprios animais: terá de fazer com que as suas invenções se sintam, se apalpem, se escutem. Se o que traz de longe tem forma, ele dá forma; se é informe, dá algo de informe. Encontrar uma língua; - De resto, uma vez que toda a palavra é ideia, virá o tempo de uma linguagem universal! É preciso ser académico ? mais morto do que um fóssil ? para completar um dicionário, seja em que língua for. Se um fraco se pusesse a pensar na primeira letra do alfabeto, bem depressa poderia precipitar-se na loucura! ?
Essa língua será língua da alma para a alma, língua que resume tudo, perfumes, sons, cores, pensamento que agarra o pensamento e o puxa. O poeta definiria a quantidade de desconhecido que desperta no seu tempo, na alma universal: daria mais do que a fórmula do seu pensamento, que a anotação da sua marcha para o Progresso! Enormidade que se torna norma absorvida por todos, seria verdadeiramente um multiplicador de progresso!
Esse futuro será materialista, como vê. - Sempre plenos do Número e da Harmonia, os poemas serão feitos para ficar. - No fundo, seria ainda um pouco a Poesia grega.

O ar eterno teria as suas funções, como os poetas são cidadãos. A Poesia já não ritmará a acção; ir-lhe-á à frente.
Esses poetas existirão! Quando se quebrar a infinita servidão da mulher, quando ela viver para si e por si, tendo-lhe o homem ? até agora abominável ? dado o seu mote, ela será também ela poeta! A mulher encontrará desconhecido! Os seus mundos de ideias serão diferentes dos nossos? - Encontrará coisas estranhas, insondáveis, repelentes, deliciosas; colhê-las-emos, comprendê-las-emos.
Enquanto isso, peçamos ao poeta novidade - ideias e formas. Todos os hábeis em breve poderiam julgar ter satisfeito o pedido: - não é isso!
[?]

(1) Movimento de escritores românticos dos anos 30 do século XIX que exageravam as suas radicalidades literárias e políticas.
(2) Saltimbancos que raptavam crianças para as deformarem e as apresentarem aos reis e poderosos como monstros para entretenimento. O romance "L'Homme qui rit" de Victor Hugo trata desse problema.

NT: Será "desregulamento" ou "desregramento"? Parece-me mais a primeira hipótese.

Post Scriptum # 500



P.- Diga-me: o que pensa do cinema português?
R.- A essa pergunta não posso deixar de responder com a maior clareza.
P.- Muito bem. E do teatro?
R.- Mutatis mutandis, a minha resposta é a mesma.
P.- Quer dizer-nos o que pensa acerca da renovação dos valores no cinema?
R.- Quero.
P.- E nas outras artes?
R.- Também.
P.- Acha que o cinema sonoro é mais artístico do que o mudo?
R.- Depende: para os surdos, o cinema sonoro é mudo.
P.- E entre René Clair e Eisenstein, qual escolhe?
R.- Com certeza.
P.- Gosta dos primeiros filmes de cow-boys do Ford?
R.- De quantos cavalos?
P.- Qual lhe parece ter maior valor expressivo - o teatro ou o cinema?
R.- Sim.
P.- Acha fundamental e difícil a função do operador, a quem incumbe gravar as imagens das estrelas na película virgem?
Q.- Impressionar uma virgem é sempre fácil.
P.- E a montagem?
R.- Não seja malcriado.
P.- Quando vai ver um filme português, do que gosta mais?
R.- Dos intervalos.
P.- Qual dos irmãos Marx prefere?
R.- O Karl.
P.- Queira dizer o nome de um grande vulto do cinema.
R.- O Jacques.
P.- Tati?
R.- Tou bem, obrigado.

José Sesinando.
Citado pelo melhor Bar da blogosfera.

Ilha dos amores # 133



O "corta! festival internacional de curtas metragens do porto" já mexe.

Post Moderno #4

Notícias da Cultura

Santana Chumba no Teste para Surrealista

Sempre se confirma: Santana Lopes chumbou no teste para surrealista, juntamente com Paulo Portas. Segundo declararam ao nosso blogue fontes próximas do leader pró-pulista, um júri constituído por André Breton, Benjamin Péret, Cesariny de Vasconcelos e Isidore Ducasse considerou que, sim senhor, os meses de governação da parelha tinham constituído um exercício de política automática muito próximo das técnicas surrealistas, mas lhe faltava aquela qualidade libertadora, de busca do ponto sublime, que faz despertar a famosa estrela sextavada em cada um de nós.

"Isto é um bocado chato"- disse-nos por outro lado Péret, quando contactado. "Na verdade, estamos um bocado fartos de todas estas palhaçadas que se querem fazer passar por obras surrealistas, quando lhes falta aquele golpe de asa libertador sem o qual não há poesia e, não a havendo, não há surrealismo."

E continuou: "Por outro lado, também não deixa de ser instigante a recorrência destes fenómenos. É de uma pessoa acreditar que há um qualquer mito novo a tentar furar a raridade do ar. Já falei ao Bounoure e ele vai-se pôr de atalaia com um periscópio. Pode ser, pode ser, que os grandes ocultos se apresentem à formatura."

"Mas é certo que Santana faz um belo cadáver esquisito de tipo novo. Vai dar para enfeitar mais de um cemitério" - concluiu.

Post Scriptum # 499

Notícias da Cultura - Artes Plásticas

Última hora

Porta-voz confirma: Christo vai empacotar Santana Lopes!

O escultor americano de origem búlgara Christo vai empacotar o conhecido político numa acção artística que ele mesmo considera muito significativa.
Segundo José Esticado, porta-voz para as actividades culturais do estadista melómano, "Christo de há muito andava a sondar o staff santanista, tendo sido mesmo considerada a hipótese de se fazer um empacotamento de 24 horas como mais-valia de campanha. No entanto, o falecimento da irmã Lúcia veio dar um novo rumo ao assunto, uma vez que Santana teve de gastar esse tempo da forma que se sabe". Ainda de acordo com Esticado a mulher do escultor, Jeanne-Claude, foi determinante na prossecução do projecto. "Ela achou-lhe um ar muito sugestivo de salame enguitado e está muito excitada com esta acção artística de ponta" acrescentaria ainda o porta-voz da futura peça escultórica.
José Esticado revelou ainda, a uma pergunta do nosso correspondente, que - e citamos - "O dr. Santana Lopes será escultura pelos seus próprios e únicos meios. Ainda foi equacionado se seria empacotado em conjunto com o dr. Portas, mas para além do pacto pós-eleitoral não contemplar esse aspecto, o perfil extremamente agudo do dirigente centrista poderia danificar a coesão do tecido envolvente".

O empacotamento terá lugar uma semana após o término do acto eleitoral, ficando Santana Lopes exposto ao público, até fins de Maio, sobre a estátua do Marquês de Pombal. Não se prevê que Christo proximamente empacote Marques Mendes, uma vez que segundo Jeanne-Claude conta em Agosto empacotar objectos de maiores dimensões, na ocorrência uma das pontes sobre o Douro, incluindo na escultura o conhecido autarca local Rui do Rio.

Señor Tallon #100

O próximo número da revista Aguasfurtadas, que se encontra já no prelo, inclui um artigo muito interessante do brasileiro José Ribamar Neves Filho sobre as relações entre o teatro brasileiro e o português, desde o século XVI. A páginas tantas, José Ribamar conta que durante a ditadura de Getúlio Vargas, e no seguimento de uma representação de "Electra", a polícia política terá desencadeado uma feroz operação de busca para capturar Sófocles, por este ter sido considerado "um perigoso subversivo".

Ilha dos amores # 132



Fotografia de André Sousa Martins.

17.2.05

Post Scriptum # 498



Nudez feminina importada de El Ferrol

Casa Fernando Pessoa. Fim de tarde luso-galaico. Editorial Teorema. Livro: "Uma mulher nua". Autora, nascida em El Ferrol (Galiza). Lola Beccaria. Capa com base num fabuloso desenho de Tamara de Lempicka.
Helena Vasconcelos dissertou durante meia-hora sobre a história do sexo e depois abalançou-se a falar do livro. Lola exultou: "A melhor apresentação que já fizeram a um livro meu".
E depois falou, espicaçando a alma dos humanos: "Comam um gelado antes de comer. Onde está escrito que se pode perder o emprego se se fôr extravagante e divertido?".
Convite de lançamento. Cito: "(...) Jogar ao sexo como se joga às escondidas. Ir crescendo com a ideia de que o sentimento é algo de que temos de ter vergonha. O paradoxo de sentir para não sentir. Lola Beccaria fala-nos na urgência vital que representa a busca pelo afecto, pondo a descoberta daquilo que é uma necessidade legítima e mostrando os preconceitos inúteis em que o transformamos(...)".
"Está a ouvir, Zapatero? Precisamos de um Ministério do Amor e do Sexo". A autora, num programa de televisão espanhol, de muita audiência.
Quarta-feira, malas feitas, ala de comboio para a Póvoa do Varzim, para a "Corrente D'Escritas". Helena Vasconcelos partiu de carro. A 7 de Abril teremos a nossa Helena aos comandos de mais uma Comunidade de Leitores da Culturgest.
Eu dei corda aos sapatos e demandei as livrarias, em busca do primeiro livro: "Justine", de Lawrence Durrell.

Luís Graça