31.5.05

Caríssimos amigos deste blogue

Gosto de estar aqui. Gosto de estar aqui, porque somos uma tropa fandanga que vai escrevendo sem directivas, diferentes uns dos outros, sem orientações gerais, com as nossas picardias mas sem animosidades.

Verifico, porém, que há uns atrasados mentais que vêm regularmente inquinar os nossos comentários. Os comentários deveriam ser livres, e, a mim, pessoalmente, não me preocupa ser insultado por quaisquer avantesmas.

Só que li o seguinte digamos ensaio sobre a responsabilidade dos editores de blogues. Por isso, seria talvez de pensar em afastar dos comentários toda essa malta malcriada que vem descarregar estranhas bílis, anonimamente ou quase, com ataques soezes às pessoas.

As caixas de comentários têm um estatuto ambíguo, mas podem ser consideradas da responsabilidade dos autores dos blogues. Por medida sanitária, conviria talvez, optar por um sistema de filtragem que permitisse eliminar os ataques pessoais contra terceiros.

Continuaríamos a aceitar os ataques contra nós, porque acho que todos nós/vocês se estarão nas tintas. Mas ataques pessoais contra terceiros, nicles.

Que acham?

Escrevo isto em público, porque penso que quem nos lê gostaria de estar informado sobre as nossas decisões e seus motivos.

Um grande abraço, amigos, e ainda obrigado pela hospitalidade.

Mas que coisa!

Isto é completamente ridículo e abstruso.

Não tinha lido bem, mas há aqui um problema. O nosso amigo das Musas Esqueléticas, que, se bem percebo, também é do Bloco das Musas ou coisa do género, publicou neste último blogue o seguinte dejecto de Jorge de Sena:

CESARINADAS

Da 1ª para a 2ª edição
de uma antologia de poetas vivos,
há sempre um Botto que sai:
por ter perdido o talento
depois da morte de António Maria Lisboa que lho corrigia,
por sofrer de sífilis mal tratada
que, como é sabido, sobe
de por onde entra até à cabeça;
e porque no descalabro de homem tido por génio,
e de sofrer as dores da menopausa,
mais não lhe resta que prolongar a sobrevivência poética
à custa de inventados escândalos literários,
ou dos cadáveres silenciosos dos ex-amigos defuntos.

Dedicácias, Jorge de Sena.

Estranha maneira de celebrar a memória de um homem: com as suas piores porcarias. É que aqui está tudo: insinuações sobre a homossexualidade de Cesariny, que ele nunca escondeu, assimilação da condição homossexual com a condição feminina (menopausa), insinuação de que Cesariny tinha aquelas coisas por não tratar da sífilis, coisa que não sei se Cesariny sofre de, nem me interessa, enfim, vale tudo.

Cesariny, fosse o que fosse, nunca desceu a estas baixezas. Apesar de ser um dos meus heróis, creio que não deixarão de concordar.

E, jovens poetas, fum fum, não se deixem levar por estas porcarias. Mantenham alto o facho (cruz credo) da poesia. Apesar de tudo, Jorge de Sena era um bom poeta, e um bom professor. Não merecia ser ostracizado.

Só que tinha disto. Nobody is perfect.

Que seca!

A seca é assim: mesmo a humidade é seca.

Eu, que não percebo nada disto, reparo que, mal vem um dia de sol, as plantas se vergam para o chão, por mais rega que a gente lhes deite. No dia seguinte, esguicham, mas ao meio-dia, é pá, parecem vulgares mortais a confessarem-se ao Ratzinger, perdão, Bento XVI.

Disse isto a uma pessoa da aldeia e ela explicou-me: é que não há humidade no ar. Como a terra em geral está seca, toda a água que se lhe deita se evapora alegremente. Mesmo com a palha que lhe ponho à volta.

Mais histórias do diabo

"Entretanto, o diabo acercava-se pé ante pé da lua e já esticava a mão para a apanhar, mas retirou-a bruscamente, como se se queimasse, chupou os dedos, sacudiu a perna, contornou a lua e atacou do outro lado, mas voltou a dar um salto para trás e a retirar a mão. Apesar de todos os falhanços, o manhoso diabo não desistiu, porém, de fazer as suas diabruras. Avançou, agarrou de repente na lua com as duas mãos e, com a cara aos esgares e sopradelas, ia-a atirando de uma mão para a outra, como o mujique que pega numa brasa para acender o cachimbo; finalmente, guardou-a apressadamente no bolso e, como se nada fosse, correu adiante.
Em Dikanka ninguém se deu conta de que o diabo roubara a lua. Aconteceu até, aliás, que o amanuense local, saindo a gatinhar da taberna, viu a lua pôr-se a dançar no céu, sem mais nem menos, jurando-o por Deus a toda a aldeia; mas os vizinhos abanavam a cabeça e até se riam dele. Mas que motivo teria levado o diabo a ousar cometer uma tal ilegalidade?"

Descubra em "Noites na Granja ao Pé de Dikanka", de Nikolai Gógol.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Desapareceu de sua asa

Dão-se alvíssaras a quem encontrar o famoso "homem da rua".

Um sim incondicional



Capas de discos criadas por Alex Steinweiss, entre os anos 40 e 50.

Explico-me:

Todos nós somos uma variação de algum tipo de vermelho. Pessoalmente, o meu vermelho está longe de ter motivações desportivas.

Bicicleta



Quem me conhece bem, já sabe com o que conta: sou adepto das mensagens sms. Sempre que desejo comunicar com alguém, se pouco tenho para dizer, prefiro sempre a brevidade de uma mensagem enviada através do telemóvel. Não dá milhões, mas, como sabem, é um processo de comunicação rápido e barato, mais barato do que um telefonema.
Há poucos dias escrevi esta mensagem a um amigo: "Quando é que me manda a bicicleta? Estou farto de andar a pé..."
Ao contrário do que possa parecer, não me referia a qualquer velocípede - e muito menos me considero farto das minhas andanças pedestres, que ponho em prática sempre que posso e a paisagem me agrada. Na minha mensagem, um pouco brincalhona, manifestava apenas a minha ansiedade pela chegada da revista "Bicicleta", dirigida por Bruno Vilão. E qual a razão para tanta ansiedade? A qualidade deste veículo de cultura, que tem sabido presentear-nos com bons textos e melhores ilustrações. Dois dias depois da mensagem, a "Bicicleta" chegou... trazendo no selim uma colaboração valiosa.
Este número 8 da "Bicicleta" comemora os 25 anos da instituição que é sua proprietária, Mandrágora - Centro de Cultura e de Pesquisa de Arte, editado com o patrocínio da câmara municipal do concelho em que está sediada, Cascais. Os motivos de interesse são variados: poemas de vários autores, como os brasileiros Floriano Martins e Renato Suttana, o espanhol Antoni Miró e os nacionais João Garção, Nuno Rebocho, Sandra Costa, Nicolau Saião, Alberto Pimenta, Carlos Garcia de Castro, José Carlos Breia, Tiago Gomes, etc. As ilustrações estão a cargo de vários artistas importantes: Slako Mali, Dobrica Kamperelic e Ruzica Mitrovic (Sérvia), Silvia Aquiles (Argentina), Antoni Miró, Pepe Murciego, Cezar Reglero, Luis Soliño, Antonio Gomez e José Blanco (Espanha), Clemente Padin (Uruguai), Rodolfo Franco e Dorián Ribas Marinho (Brasil), Antonio Sassu e Capatti Bruno (Itália) e os portugueses Almeida e Sousa, Ricardo Mestre, Nicolau Saião e Fernando Aguiar. Seriam, por si só, motivos de interesse mais do que suficientes para lermos esta revista com gosto, não nos fosse ainda oferecida uma boa reflexão sobre o ensino artístico, assinada por Fernando Rebelo.
De entre os textos publicados neste número da revista "Bicicleta", tocou-me particularmente este poema de João Garção. Aqui fica, como oferta aos leitores e como abertura de apetite...

SENTIMENTO

A água está parada, muito
quieta no meio da noite.
E é preciso perguntar-lhe: és
água de um rio?
És água dum mar? És água
dentro dum copo
sobre uma mesa muito antiga
e sonhada?
És água para um cavalo
beber? Para um cão se
banhar?
Para um homem e uma
criança se lavarem ao relento?
Para uma mulher, para um
gato, para um lobo?

E a água talvez não te
responda. Nunca te responda.
Ou te responda tarde de mais.
Ou nem sequer te ouça.

Mas tu pergunta. Pergunta e
espera pela resposta.
Mesmo que os minutos
passem entre ti e a água.
E devagar uma silhueta se
desloque
e depois se detenha no meio
das árvores imóveis.

Ruy Ventura

[A "Bicicleta" pode ser encomendada através do email: madragorarte@netscape.net]

Não devia, pois não!

Querida Ana Gomes, assim não vamos a lado nenhum.

Escreve isto:

«Escrevo a quente e provavelmente não devia. Mas, confesso, o que mais me enoja é a rapaziada fabiusista, que seguiu carneiramente o chefe esfomeado de projecção presidenciável e para isso violou as mais elementares regras do jogo democrático, ao ir contra o resultado do referendo interno do PSF. Alguns deles/delas, meus colegas no Grupo socialista no PE, que até votaram a favor da Constituição na Convenção!»

Explique aos seus leitores que a Constituição, depois de ser votada na Convenção, uma assembleia ad hoc constituída por deputados europeus e nacionais, representantes dos governos e chefes de Estado e da Comissão Europeia, e, ainda, como observadores, representantes avulsos da sociedade civil, nenhum deles eleito para fazer uma constituição, e ainda para mais reunidos ali apenas com mandato do Tratado de Nice para simplificarem os tratados da UE, uf, explique que a Constituição, depois de aprovada por eles, foi à Conferência Intergovernamental para sofrer uma toilettage por parte dos governos, os quais, nunca, jamais, em tempo algum, tiveram competência constitucionalizante, e que depois de devidamente penteada e ajeitada surgiu irreconhecível a alguns convencionais, como aconteceu a Pervenche Berès, que foi uma das tais colegas suas que votou "sim" na Convenção e "não" no referendo.

Explique isso. E explique ainda como poderá discutir com os fabiusistas (isto é, os que seguiram nesta aventura Laurent Fabius, ex-primeiro-ministro de François Mitterand), e outros dirigentes e militantes socialistas franceses que provaram que afinal o povo de esquerda e mesmo o "povo socialista" não estava assim tão alinhado pelo "sim" como parecia (apesar de todas as chantagens, de toda a propaganda, os socialistas votaram fifty fifty), se a primeira coisa que se lembra de lhes dizer é "que nojo que me metem".

Estou mesmo a ver a Ana Gomes chegar a uma reunião para concertar estratégias para o futuro e dizer-lhes: "Sem querer ofender, vocês metem nojo. Então vamos lá discutir com calma o que vamos fazer."

Isto é só para ser amável e não insinuar que nada disso é argumento racional, fum fum.

EM TEMPO. Já sei que estou a abusar. Desculpem lá, é o narcisismo dos blogues.

30.5.05

Ainda bem

que o indivíduo que deu boleia ao pianista "mistério", recentemente desaparecido, era antropólogo e não antropófago.

Todos já percebemos

a solução que se esconde na cabeça de Rui Rio, e que o faz ter sonhos húmidos: o túnel do metro a desembocar DENTRO do Museu Soares dos Reis.

Wanted. Dead or Alive. Reward.

O Quartzo, Feldspato & Mica, em associação com a Sociedade Columbófila do Porto, oferece uma recompensa choruda a quem capturar ou abater os pombos que, a mando de Rui Rio, têm colocado cartazes anónimos junto ao estaleiro do túnel de Ceuta com dizeres pouco simpáticos para a ministra Isabel Pires de Lima, e que se destinam, basicamente, a fazer os portuenses de burros. O Quartzo está em negociações com clubes de caçadores com o intuito de organizar, para os próximos dias, uma espera no Jardim do Carregal. A Sociedade Columbófila aprova e compromete-se a não processar os autores dos disparos. Um porta-voz da Sociedade declarou mesmo que não se importa com a sorte destes pombos, tendo-os classificado de párias e, o que é mais, de "sacanas" (dixit).

Não cheguei a perceber

se Vaidosão Barroso é a favor do "sim" ou do "não" ao Tratado Constitucional.

Crise

Este governo quer acabar com a contabilidade criativa. Este governo quer pôr um ponto final no dinheiro imaginário, nas manobras contabilísticas de diversão, na pirotecnia financeira. Este governo quer dinheiro de verdade, concreto, palpável. Em suma, este governo quer transformar Portugal num país financeiramente correcto. É, pois, um momento de grande tristeza para todos os portugueses que sonham com um país mais desenvolvido e realmente moderno. Um momento extraordinariamente negativo para a arte portuguesa. Somos as testemunhas da machadada final sobre a grande democracia da imaginação. Ó céus, que futuro para este país desprovido da força tonificante da criatividade?

Das moedas

"Sigam o cheiro da massinha..." - poderíamos afirmar, quando olhamos para a História portuguesa. Quais foram, no fundo, as causas que levaram à queda da monarquia? Que motivos levaram o nosso país à ditadura militar e ao salazarismo? Que razões nos impulsionaram para a integração na CEE? Tudo se resume à massinha (ou à falta dela, melhor dizendo...). Primeiro, os adiantamentos à Casa Real e outros escândalos financeiros... Depois, o caos económico-político da Primeira República, que rapidamente sucumbiu ao calculismo e/ou voluntarismo militar e ao belo-canto do "mago das finanças"... Em 86, a saborosa promessa dos fundos europeus (que pouco beneficiaram a economia portuguesa e muito adubaram bolsos de espertalhões)...

Ruy Ventura

Efeito Guronsan para manhãs de segunda-feira cheias com um grande não

29.5.05

E agora?

A França votou claramente não no referendo sobre o Tratado Constitucional da UE, num referendo extremamente participado, e depois de um amplo debate, propulsionado por metade dos socialistas, pelo PCF, pelos altermundialistas, pela extrema-esquerda trotskysta e certos anarquistas e ecologistas, pelas associações cidadãs, por meios sindicais, pela Confédération Paysanne, pelos blogueiros mais activos.

(Misturou-se neste não uma franja de extrema-direita, que, sinceramente, creio não ter contribuído significativamente para o movimento de fundo. Pelo contrário, pela primeira vez desde há muitos anos, a extrema-direita apareceu coxa, sem conseguir determinar a discussão, a tentar aproveitar uma dinâmica que não era a dela. O que fez a diferença nesta discussão foi o debate em inúmeras assembleias, nas ruas, nos cafés, debates em que os partidários duma Europa social imperaram.)

Repare-se que este «não» extremamente participado se fez contra a quase unanimidade dos órgãos de comunicação social - televisões, jornais, revistas -, dos intelectuais mediáticos, dos políticos europeus dominantes, contra, inclusive, as brochuras distribuídas aos milhões pelo Governo e a Comissão Europeia. Nele surgiram vedetas improváveis, como, por exemplo, um professor do liceu, de direito e informática, Etienne Chouard, praticante de parapente, que, na sua página web pessoal, fez uma crítica pormenorizada, corrigida quase diariamente pelos seus leitores, ao Tratado Constitucional. A campanha do não foi feita à custa de meios artesanais e derrotou a poderosa máquina propagandística a favor do sim.

Será que estou contente? Sim e não. Estou contente porque a sociedade que almejo precisa desta participação, desta intervenção de todos e cada um, dos que não valem nada mas sabem que valem alguma coisa. Sem isso nada feito.

Mas estou apreensivo, porque agora é que a porca torce o rabo. É que o «não» a este Tratado Constitucional deixa muitas incógnitas. O «não» foi um «já chega» geral a trinta anos de políticas neo-liberais que Valéry Giscard d'Estaing, presidente da Convenção que elaborou o Tratado, imprudentemente, quis consignar numa Constituição.

Ora, trata-se de mais de trinta anos de política económica europeia: isto é, o que anteriormente aparecia como uma série de medidas descosidas, por magia de VGE, surgiu agora congregado, cristalizado num Tratado que se queria Constituição. E, caída a escama, como diz a Bíblia, os cidadãos disseram «chega».

Só que não é fácil encontrar uma resposta, e o campo do «não» encontra-se agora em posição delicada.

Há duas saídas, uma maximalista, outra minimalista. A maximalista, seria impulsionar um movimento dos povos europeus para convocar uma Assembleia Constituinte europeia, com um debate a nível europeu sobre o que queremos, todos nós europeus, como regime constitucional.

Outra minimalista, seria os Governos se deixarem de coisas, e reformularem o texto, simplificando-o (como pedia, aliás, o Conselho de Laeken), limitando-o (digo eu agora) ao funcionamento das instituições. Dessa forma, deixavam de lado a parte III (que consigna, num texto constitucional, políticas económicas que deveriam ser deixadas aos governos eleitos e que variam enormemente).

Isto são as duas opções extremas. Mas há inúmeras hipóteses intermédias, as piores das quais seriam novas negociações de corredor, toma lá dá cá, a que ninguém tem acesso real, a não ser os implicados directos (especialistas da coisa).

Bem, não chateio mais, que já ocupei demasiado tempo de antena.
[Tenho consciência do esquematismo deste post, mas deixo-o esquemático, porque uma análise de fundo exigiria extensão que não cabe nem nas minhas disponibilidades nem no estilo blogueiro.]

Em tempo. Como acaba de me escrever um caro amigo por mail, "foi simplesmente a primeira vez em que num grande país da UE a discussão sobre a UE chegou à rua, atravessando todos os sectores da sociedade". Por favor, comentadores, não falseiem a democracia, que é ainda, que eu saiba, o governo do povo, pelo povo, para o povo. Ou será que querem eleger outro povo, como dizia o Brecht, criticando os estalinistas, depois das revoltas operárias de Berlim em 1953, que levaram à construção do muro?

Não há pachorra II

Para que não haja dúvidas sobre o que afirmo no meu post anterior aí vai um poema meu publicado em 1997:

JORGE DE SENA

Jorge, não foi das portas de papelão
O tremendo barulho quando irrompeste.
Não, eras tu, enorme, era o vozeirão.
E o coração que não esqueceste no vestiário.

Perdeu a litratura um consagrado,
E tu já lá estás, mestre, não sei onde.
Mas como eu gosto de beijar em rima gasta
O teu rosto de velho zangado.

In Em Qualquer Lugar, &etc.

Não há pachorra

Num blog esquelético leio isto, sobre a sina de Sena:

"Agora foi a vez de Manuel Resende. Por ignorância, passe o eufemismo, mas de modo enviesado, de um discurso que Jorge de Sena fez em 1978, a convite de "um presidente precário" (Costa Gomes), desse discurso, dizia, Manuel Resende retira que o poeta se estava a bater a uma cátedra, e que era isso que lhe causava engulhos e não - como é a realidade dos factos - o não ser reconhecido como poeta no seu país, a favor da mediocridade, cujo reino permanente se baseia já no direito consuetudinário, e hoje usa as regras do marketing para fortalecer esse direito (o que ele, tão lúcido, deveria ter sabido, ou melhor, sabê-lo-ia mas nunca o terá dado por digerido). "

O autor deste dislate não percebeu nada do que eu disse, lamento. E afirmo que é tão injusto como o Prado Coelho, pai.

O que eu claramente disse é que me custou ver Jorge de Sena, meu mestre em alguns aspectos, desprezado pelo que era (era poeta e bom) e pelo que mais sabia fazer (ser professor de literatura, que era e excelente), nunca tendo sido reconhecido por isso, ser recompensado com um discurso no 10 de Junho.

É muito claro que isto ia no sentido de todo o texto do post meu: os poetas não são reconhecidos pelo que são, mas depois os poderes recompensam-nos, pondo-os como flores na lapela. O mesmo é essa colecção do Público, que eu criticava, em que os políticos e outros homens públicos ostentam os poetas da sua vida.

Quanto ao eu dizer que "não entend[o] que seja uma profissão dar aulas de Literatura, ser de alguma forma profissional da poesia", permito-me esclarecer: escolhi ser amador da coisa amada. A minha escolha é essa. Soube a seu tempo do destino trágico e suicidário de António Maria Lisboa, e entendi precaver-me disso (bem como do destino outro do Sena). Escolhi tentar uma via em que não precisasse de votos e vetos para exercer uma "profissão poética", nem tivesse de recorrer ao suicídio lento. Acho que não é crime. Pelo contrário, é um escudo que me pode precaver contra todos os poderes.

O presidente não era Costa Gomes, mas Eanes, como alguém corrigiu nos comentários.

27.5.05

Ubu

Fujam, vem aí o Mestre das Phynanças!

Cenas de um casamento



"Different Class" (Island, 1995), dos Pulp, ou um dos expoentes do chamado brit pop.

Caríssimo Homem do Leme

Caríssimo Homem do Leme:

Aqui deixo consignado o seu lema:

«Preso entre a navegação à vista e as promessas de rumo, fica Pombal, e também, sem dúvida, fica Portugal. Por aqui se vai navegar sobre o nosso Passado, Presente e Futuro, por aqui se vai escrevendo e opinando se precisamos, ou não, de "Homens do Leme"...»

Poucas prosas tenho visto mais patrióticas (digamos assim) do que esta.

Por isso me surpreende esta sua interpretação do que está a ocorrer em França:

«Isto para dizer que o "Não" francês é mais uma (de tantas) reacções chauvinistas de um país que não se consegue libertar do seu passado e do seu modelo. Mas as interrogações são cada vez mais legítimas e quanto mais se discutir e informar melhor.»

Isto surpreende-me numa pessoa tão imbuída do seu passado português...

Na verdade, o «não» em França é tão passeista como o «sim». Do lado do «sim» como do lado do «não» há os que querem recuperar a grandeza da França, os primeiros,do lado do sim, para continuarem a exercer o seu poder em conjunto com a Alemanha (a França e a Alemanha têm determinado até hoje com a participação pouco entusiasta do Reino Unido, a política da CEE e da UE), os segundos, do lado do não, por reacção nacionalista.

Mas dos dois lados há verdadeiros europeistas e até internacionalistas. Uns acham, ou dizem que acham, que se o Tratado Constitucional não for aprovado, a Europa entra em crise, os outros acham que se o «não» ganhar, e a Holanda repetir a inconveniência, está lançado um debate europeu e porque não um movimento para uma Assembleia Constituinte Europeia, em que os povos europeus poderão enfim entrar em cena e dizer o que têm a dizer.

Atrevo-me a dizer que esta ala do «não» foi a que conseguiu mobilizar a opinião pública francesa para um debate político generalizado que deveria ser orgulho de todos nós, europeus. Não foram Jean-Marie Le Pen nem de Villiers (extrema-direita) quem mobilizou as discussões nas associações e mercados, mas o PCF, os socialistas tendência Fabius, a esquerda da esquerda (trotkystas, etc.), mesmo os anarquistas e os altermundialistas (ATTAC, etc.), tudo tendências que são nitidamente internacionalistas pela sua própria constituição.

Claro, se o «não» ganhar, ganha uma tropa sem chefes e assaz dividida. E então? Melhor, para um verdadeiro debate. Porque, se o «não» ganhar, vamos ter mesmo de discutir a sério o nosso destino, sem confiar nos mesmos eternos dominantes, especialistas e técnicos e economistas que não têm feito mais do que nos conduzir ao desastre.

Em tempo. Devo esta referência ao Sítio do Não. Eu, que não suporto especialmente o Pacheco Pereira, tenho a dizer que está neste momento a fazer um autêntico serviço público para quem quer em Portugal estar informado sobre o debate em torno do Tratado Constitucional.

ERRATA: Quero corrigir o post, sem corrigir a História (mesmo a irrisória história deste post). Também há uma parte dos gaullistas que votam não sem ser por nacionalismo. Desculpem lá.

26.5.05

A palavra ao sim

Um tradutor sempre há-de servir para alguma coisa. O QFM, perdão, eu próprio, isto é, expropriando os meus queridos amigos de blogue enquanto gozam o merecido feriado (gozem gozem que já vo-lo vão tirar, isto é português?) cioso do equilíbrio de opiniões, dá hoje a palavra a um feroz partidário do sim, ex presidente da Comissão Europeia, socialista cristão e francês, JACQUES DELORS. O original está aqui. Palmas, por favor.

Actas da reunião organizada pelo Instituto François Mitterrand no Senado francês, a 27 de Abril de 2004. (Editions Michel de Maule, Maio de 2004)

"Thierry Guerrier: Uma Constituição tem um valor simbólico tão forte como uma moeda.

Jacques Delors: Não me venha falar de Constituição a propósito deste tratado! Por amor de Deus, temos de ser francos! Isto é um Tratado que acrescentaram constitucionalmente? Sabe o que é uma Constituição? Uma Constituição é uma coisa que faz com que, depois de aprovada, o Tribunal de Justiça deste conjunto Constitucional tem todos os direitos. Está disposto a aceitar que o Tribunal de Justiça Europeu trate de tudo, inclusive dos problemas que continuam a ser nacionais, e tudo em nome da Carta dos Direitos Fundamentais? Está pronto a aceitar isso? É abusar do termo chamar­?lhe Constituição. Tanto mais que uma Constituição nacional, sempre a podemos modificar por maioria, mas, neste caso, temos uma Constituição que tem de ser aceite pelos vinte e cinco, e depois ser objecto de aprovação nacional. Não, estão a gozar connosco! Não se devia chamara isto Constituição!

TG: Então é pelo referendo, mas vai votar não?

JD: Como? Ah, não, voto sim! Voto sim. Não quero que a Europa pare. Mas tenho muitas críticas contra este texto.

A primeira, é a «cláusula de revisão». Como podemos aceitar isso, quando, se, um dia, daqui a quinze anos, vá, a Turquia aderir, oitenta milhões de habitantes, o sistema de decisão deixará de funcionar, e isso desequilibraria o sistema .

Em segundo lugar, acrescentou­?se ao texto, a que se chama «Constituição», uma terceira parte intitulada «As Políticas». É como se, na Constituição francesa, sempre que se mudasse de governo, se mudasse a Constituição para dizer que se ia fazer esta ou aquela política social. Uma política social que se aplica dia a dia, não é coisa que compete à Constituição!

Em terceiro lugar: a União Económica e Monetária deve ser reequilibrada no Tratado. É um ponto extremamente importante.

E, em quarto lugar, sobre a política social: mesmo com as reservas que disse, podemos conseguir um texto melhorado. Não é que os dois grupos de trabalho que não funcionaram na Convenção, foram os da União Económica e Monetária e o dos Assuntos Sociais?

Mas nesses quatro pontos, há que voltar atrás. Há que rever os textos."

Com todo o devido respeito, se é impossível mudar o texto depois de aprovado, como é que JD pode dizer que se deve aprovar e depois dizer que há que rever os textos? Doutor, o diagnóstico é impecável, o remédio atroz.

Argumento terrível

Nestas coisas da discussão sobre o Tratado Constitucional da UE,

há um argumento terrível a favor do sim: este texto resultou dum compromisso dos convencionais (uma assembleia ad hoc feita de deputados vários e representantes da sociedade civil não eleitos para o caso) bem como dos Estados membros da UE (Quando se diz Estados quer-se dizer governos, mas pronto).

O argumento continua assim, mais ou menos:
«É uma estupidez ou uma fraude insinuar que se pode mudar um texto que resultou dum compromisso tão difícil de atingir.»

Ora, isto tem implicações anti-europeias terríveis.

Porque:

1/ Ou essa gente tem lá as suas estratégias e prioridades que não têm nada a ver com o comum dos cidadãos e portanto está a tentar enganar-nos;

2/ Ou, o que é pior, o argumento é mesmo verdadeiro. E isso corresponde a negar a cidadania europeia. Explicando-me melhor. Se não podemos deixar de aceitar este Tratado Constitucional como se diz em França porque senão a Inglaterra impunha o seu modelo (isto é o que dizem em França e o que teve a lata de dizer Jacques Delors à Visão de 5 de Maio e passo a citar:

«Sabemos bem que a Grã-Bretanha não quer uma Europa política. Bem vê que lhe agradaria a deserção da França. Nesta hipótese lastimável, teríamos um espaço económico sem bússola e sem alma.»),

então, meus caros amigos, isto significa que o Tratado Constitucional assenta na luta surda das nacionalidades umas contra as outras. Os propalados compromissos não sâo mais do que esparadrapos apenas para esconder a ferida.

E a dificuldade invocada corresponde a dizer que não é possível ultrapassar as barreiras nacionais para construir um verdadeiro espaço político europeu, em que cada cidadão contasse como cidadão europeu e não apenas como francês, minhoto, português, catalão, etc. Se me permitem esta expressão um pouco populista: «Não mexam nisto que ainda dá merda.»

E, de facto, não tenho visto que abrandasse o nacionalismo à medida que se construía ESTA Europa. Pelo contrário. Nos países da Europa Central (chamo assim à Europa que conta, continental e mais desenvolvida), os partidos nacionalistas e extremistas têm vindo a ganhar audiência no pasto do desemprego e da desorientação que os partidos tradicionais têm vindo a implantar nas cabeças. Tudo na melhor das intenções: fazer da Europa a zona de economia mais competitiva e dinâmica do mundo, aceitando as regras do comércio livre, isto é, do tira-te daí que eu sou melhor que tu.

25.5.05

GRANDE CONCURSO DE TRADUÇÃO QFM

Fico absolutamente desarmado por este poema que é um concentrado de sentido espantoso.

Por isso, à revelia de todos os outros membros deste blog, instituo o prémio de tradução QFM para quem conseguir verter isto para português:

QU'EST-CE POUR NOUS, MON COEUR...

Qu'est-ce pour nous, mon coeur que les nappes de sang
Et de braise, et mille meurtres, et les longs cris
De rage, sanglots de tout enfer renversant
Tout ordre; et l'Aquilon encor sur les débris

Et toute vengeance? Rien!... ? Mais si, tout encor
Nous la voulons! Industriels, princes, sénats,
Périssez! puissance, justice, histoire, à bas!
Ça nous est dû. Le sang! le sang! la flamme d'or!

Tout à la guerre, à la vengeance, à la terreur
Mon Esprit! Tournons dans la Morsure: Ah! passez,
Républiques de ce monde! Des empereurs,
Des régiments, des colons, des peuples, assez!

Qui remuerait les tourbillons de feu furieux,
Que nous et ceux que nous nous imaginons frères?
À nous! Romanesques amis: ça va nous plaire.
Jamais nous ne travaillerons, ô flots de feux!

Europe, Asie, Amérique, disparaissez.
Notre marche vengeresse a tout occupé,
Cités et campagnes! ? Nous serons écrasés!
Les volcans sauteront! et l'océan frappé...

Oh! mes amis! ? mon coeur c'est sûr ils sont des frères:
Noirs inconnus, si nous allions! allons! allons!
Ô malheur! je me sens frémir la vieille terre,
Sur moi de plus en plus à vous! la terre fond,

Ce n'est rien! j'y suis! j'y suis toujours.

Arthur Rimbaud 1871 Vers Nouveaux

O vencedor terá a nossa eterna gratidão

Naturalmente, uma grande parte de tudo isto assenta em meras hipóteses da minha parte

Os grandes romancistas do nosso tempo estão habituados a fazer de qualquer história banal um grande romance.
Os grandes pintores do nosso tempo estão habituados a fazer de um pequeno borrão de tinta um grande quadro.
Os grandes músicos do nosso tempo estão habituados a fazer de uma brevíssima frase musical uma grande peça sinfónica.
O tempo está habituado a fazer dos grandes romancistas, dos grandes pintores e dos grandes músicos um pequeno pedaço de merda.

Matar o Pai

ao Manuel Resende

Progredia a brancura, e nós uma corrente:
era um socalco ao lado sem cume a vertente
do outro lado um abismo que havia e nós

não víamos pois era tudo branco a neve
iludia. Piso macio, desfeito, breve
a nossos pés a boca de um perigo. Nós

seguíamos na branca duna que cedia
calcada pelos pés, e aos poucos se tingia
permanecendo embora muito branca. Nós

não éramos bons nem maus, tão-só sabíamos
que doía perder-se alguém. Retrocedíamos
quando um na neve se sumia. Aflitos nós

cavávamos até a pá achar um corpo,
acalentávamos com as mãos o sangue morto
e à vida ele tornava invariável, nós

tínhamos fé; bastava não negar volver
quando um mais débil se deitava a morrer;
bastava não acreditar, pois para nós

a morte o seu rigor tirava e a brancura
se aluía, desde que, sem pesar da dura
marcha já transposta, voltássemos lá nós

a buscá-lo. Tal foi a abnegação feroz
que tão longe nos trouxe. Donde, doutor, sei
que sabe, aqui chegados, por que o não matei.

Margarida Vale de Gato

Das autárquicas

Louvo a atitude de Marques Mendes, ao pôr fora das listas autárquicas do PSD alguns senhores cujas "virtudes" são bem conhecidas de todos os portugueses.
Há, contudo, pequenos factos que revelam um povo. Ao que parece, muitos munícipes de Gondomar e de Oeiras desejam votar de novo nos antigos autarcas, porque fizeram "obra". Alguns chegam a afirmar que não acham graves os comportamentos reprováveis de Isaltino e de Valentim que têm vindo a público, pois, se fossem eles, "fariam o mesmo"...
Seremos nós um país de vigaristas? Não acredito. Mas que habitamos um país cujos cidadãos se habituaram a recorrer à "cunha" para sobreviverem num Estado secularmente burocrático e, muitas vezes, corrupto ? lá isso é verdade.

Ruy Ventura

OS MEUS POEMAS DA VIDA DE MIGUEL VEIGA

E lá li eu a segunda antologia do Público.

Confesso que não entendi muito bem o que levou o excelente editor Cruz Santos a escolher o ilustre homem das Leis, Dr. Miguel Veiga, para esta colecção. Sem desrespeito pelo próprio. Uma vez que a opção pelos primeiros 4 convidados parece obedecer a uma lógica partidária (Mário Soares, PS; Miguel Veiga, PSD; Freitas do Amaral, CDS(?); Urbano Tavares Rodrigues, PCP), porque não convidar antes o Dr. Pacheco Pereira, ou a Dra. Teresa Patrício Gouveia, só para citar dois exemplos, para representar o espectro politico do PSD?

Esta antologia pareceu-me mais sofrível que a primeira. Não gostei daquele "tom" do prefácio (aparte da epigrafe...), não gostei de ver os poemas (des)arrumados numa estranha lógica pessoal, desobedecendo a cronologias, ordens alfabéticas, nacionalidades, e, pior, não se vislumbrando outra ordem que não a errática aposição de poemas. Nem sequer satisfaz a putativa suspeita de que se tratou da suave e errática desarrumação da leitura pelos dias e pelos anos. Parece-me que faltou aqui algum trabalho de edição (as in the anglosaxonic word "editor").

As escolhas são mais ao menos previsiveis: Sophia, Eugénio(boa selecção), David, Ramos Rosa, Herberto, Camões, Pessoa, etc, etc, com o toque internacional (mas limitado) de Lorca, Neruda, Borges. Dois poetas "convidados" pelo antologiador, que poderiam ser agradáveis surpresas, não o são.

Três poemas que se destacam:

- "insinceridade", de Vasco Graça Moura; Vasco Graça Moura é muito bom quando se obriga a métricas, rimas, ritmos e assonâncias. Quando o faz em tom clássico mas tema contemporâneo tem momentos brilhantes. Encontra-se isso em toda a sua obra. Um grande poeta.

- "Ítaca", de Cavafy; "Mas não te apresses nunca na viagem./ É melhor que ela dure muitos anos,/ que sejas velho já ao ancorar na ilha,/ rico do que foi teu pelo caminyho,/ e sem esperar que Ítaca te dê riquezas." Isto é bom, muito bom.

- "Busque amor novas artes, novo engenho", de Camões ou "Dá a surpresa de ser", de Pessoa. São excelentes poemas de grandes poetas. You choose...

Foram seis euros amargos...

Ok, foram só 6 euros! Venha Freitas do Amaral

Duas notas, quase três



1. O Público de ontem dá conta do encerramento provisório da histórica livraria portuense Latina para obras de remodelação (o texto é do Jorge Marmelo e não está em linha). De acordo com o Público, a Latina reabrirá em Outubro "renovada e totalmente informatizada". Mais: "os dois pisos do estabelecimento vão ser transformados em três patamares, (...) estando a ser ponderada a possibilidade de ser criado um núcleo museológico que tire partido do rico espólio reunido pela empresa." Durante o período de obras, a livraria irá funcionar nas antigas instalações da Bertrand, na Rua 31 de Janeiro. Para quem não sabe, a Latina fica no início da Rua de Santa Catarina, a poucos metros de uma Fnac, e é a prova de que as grandes superfícies da cadeia francesa não substituem as "livrarias tradicionais". Na Latina, como também na Leitura, por exemplo, os leitores sabem que encontram livreiros experientes, conhecedores e que, acima de tudo, amam os livros. Ao contrário do que se verifica nas Fnac, onde a aposta reside quase exclusivamente no preço e na animação dos espaços. Por outras palavras, é excelente tomar um café na Fnac. Mas para comprar livros é melhor a Latina.

2. A APEL revelou ontem que a edição de livros em Portugal subiu quase 50% em 2004. De acordo com aquele organismo, são publicados, em média, dois livros por hora, o que perfaz 48 obras diárias. Ou seja, se multiplicarmos cada título por uma média de 200 exemplares por edição, temos todos os anos cerca de 3.500.000 novos volumes. Não é um espectáculo lastimável? Forçar, de uma maneira tão cruel, os críticos literários a trabalhar horas a fio, sem pausa para almoço, 365 dias por ano? Não me parece bem. Os sindicatos não se pronunciam?


Temos tido problemas com as caixas de comentários. Infelizmente, a sua resolução não depende de nós, tristes ignorantes em matérias técnicas. Só nos resta pedir a todos alguma paciência.

História de exemplo

Acho eu que o distanciamento nos permite ver melhor.


Tension toujours vive à Perpignan

Une cinquantaine de jeunes d'origine maghrébine, qui réclament une «justice immédiate» à l'encontre de quatre jeunes gitans en garde à vue après la mort dimanche d'un jeune homme de 29 ans, ont endommagé des vitrines de magasins du centre ville.

La tension n'était pas retombée, mardi, dans le centre de Perpignan où des heurts ont éclaté durant la nuit après le meurtre, dimanche, d'un jeune homme d'origine maghrébine par des jeunes gitans. Malgré une réunion de conciliation lundi soir au commissariat entre représentants des communautés, autorités judiciaires, policières et municipales, et la famille de la victime, une cinquantaine de jeunes maghrébins qui s'étaient rassemblés devant le commissariat central ont laissé éclater leur colère. Ils se sont rendus dans la vieille ville aux petites rues étroites pour en découdre avec la communauté gitane sédentarisée.

Mardi matin, les commerçants du quartier ont découvert des vitrines brisées, des poubelles brûlées. Quelques coups de feu d'origine inconnue ont même été tirés. Et la plupart des commerçants, dont beaucoup sont d'origine maghrébine, ont finalement choisi de laisser fermées leurs boutiques en signe de solidarité avec la famille de la victime.

Selon les premiers éléments de l'enquête, le jeune homme, âgé de 29 ans, a été battu à mort à coups de barre de fer, de sabre, de club de golf par un groupe de gitans qui l'ont poursuivi jusqu'à l'intérieur d'un restaurant à la suite d'une dispute pour une place de stationnement autour du marché populaire.

Par la suite, malgré la multiplication des appels au calme, la tension entre les deux communautés a été exacerbée par les accusations réciproques de détention d'armes à feu. Pitou, un «ancien» respecté du quartier gitan, est même venu expliquer à la police, en lui demandant de rétablir l'ordre, que les jeunes de sa communauté risquaient de «riposter à la violence par la violence». Dans un autre quartier de la ville, le bas Vernet, où vit la famille de la victime, les voitures de police et le véhicule où avait pris place lundi soir le procureur de la République Jean-Pierre Dreno ont été accueillis par des pierres.

La paix intercommunautaire, souvent mise en avant par le maire de Perpignan, Jean-Paul Alduy (UMP), a reçu depuis dimanche un rude coup. lduy a lui-même a demandé aux jeunes en quête de «justice», de l'aider à maintenir le calme.

«La vengeance est inadmissible. La justice fait son travail et avait arrêté trois meurtriers présumés trois heures après les faits, a indiqué mardi matin le procureur. Il faut que ceux qui connaissent les éléments criminels témoignent, les faits sont trop graves pour que la loi du silence continue dans n'importe quelle communauté». Les quatre prévenus en garde à vue seront déférés dans l'après-midi au parquet.

24.5.05

Estamos tratados #6 ou 7 já não sei bem

Desculpem lá a insistência. Mas é que não me sai da cabeça.

Eu quero, cá no fundo, ser justo e compreender tudo. Menos quando me dão com um pau na cabeça de cima para baixo.

Mas faço um esforço. Compreendo perfeitamente porque é que o Tratado Constitucional que vai ser sujeito a referendo tem aqueles contornos que não me agradam. Por uma razão muito simples: a construção europeia começou pela economia. Um dos "pais da Europa", não sei se foi Monet ou Schuman disse não sei quando que "se fosse agora começava pela cultura". É claro que é fácil dizer isto a posteriori, quando já não se têm responsabilidades, mas se ele quisesse começar pela cultura ninguém lhe ligava.

E é isto: a UE resulta da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, da Comunidade Europeia da Energia Atómica e da Comunidade Económica Europeia. A primeira Comunidade (do Carvão e do Aço) era necessária porque, no passado, os cartéis do Carvão e do Aço tinham provocado várias guerras. A segunda, porque a ingénua crença nos progressos da técnica pensava que o futuro estava na energia atómica. A terceira, porque, enfim, vivemos numa sociedade capitalista.

A CEE garantiu, nos termos exactos duma sociedade capitalista, a autonomia alimentar europeia, graças a uma Política Agrícola Comum produtivista, tão produtivista que criou os famosos excedentes agrícolas (montanhas de cereais, manteiga e leite em pó excedentários, de que toda a gente se ria, mas que não têm graça nenhuma) e também, por outro lado, a poluição das águas subterrâneas (vulgo, lençóis freáticos), o esgotamento dos solos, cada vez mais dependentes da droga dos químicos, a concentração da produção nas mãos de contabilistas e a expulsão dos camponeses dos campos. Repare-se que isto era natural porque, não o esqueçamos, os europeus tiveram fome, autêntica fome, durante a guerra, a mãe de todas as perversões.

A CEE, nos termos exactos duma sociedade capitalista, garantiu também, durante uns tempos, um mercado supranacional para as empresas europeias, o que permitiu uma restruturação e um redimensionamento dessas mesmas empresas e, durante alguns anos, uma expansão segura, articulada com uma política de cooperação para o desenvolvimento com as antigas colónias.

Só que hoje em dia, as velhas barreiras proteccionistas que o capitalismo industrial "sensato" e cauteloso sempre utilizou para se expandir, nas nações de origem e nos quintais coloniais, caíram pela própria lógica do mesmo capitalismo. A China, nomeadamente, alicerçada num pretenso comunismo que não é mais do que a ditadura dum partido, está a realizar, perversa e paradoxalmente, o sonho de qualquer capitalista: transformar toda a sociedade numa empresa, onde não impera o princípio democrático, mas o princípio hierárquico. Porque, de facto, é essa a grande mentira da nossa sociedade. Já Marx dizia, não o Marx que nos querem impingir, mas o Marx luminoso que escreveu, e cito, que lutava por uma sociedade em que "o livre desenvolvimento de cada um é o fundamento do livre desenvolvimento de todos", já Marx dizia que, como no inferno de Dante, na empresa está escrito à entrada: «Vós que aqui entrais, perdei toda a esperança».

Portanto, o Tratado Constitucional sobre que temos de nos pronunciar, é um resumo deste passado. Ele consagra em constituição dezenas de anos de políticas económicas e sociais que nos levaram à situação em que estamos. Compreendo perfeitamente que, na lógica da CEE, o Tratado Constitucional da UE não podia ser senão um triunfo da economia (capitalista, claro).

Só que esperaríamos mais do género humano, sobretudo dessa espécie mais perto de nós que é capaz das piores patifarias e dos actos mais sublimes: esperaríamos que esse género e essa espécie pudesse fazer história. E porque não, porque não romper com o passado e fazer uma verdadeira constituição europeia?

Acontece que não me apetece fazer poesia enquanto esta tristeza cinzenta existir.

Tem de ser

Amigas, irmãs, já se habituaram a ver o vosso rosto ao espelho?
Já o aceitaram ou sequer reconheceram?
Não se zanguem, respondam com franqueza, desculpem
a crueza da pergunta. Eu não consigo - não importa
quantas vezes tire da carteira
o espelho ou furtivamente me olhe nas montras,
o rosto que vejo reflectido é sempre um choque.
(...)

Ruth Fainlight (E.U.A., n. 1931)
Tradução colectiva.

E por falar nos genes franceses que por acaso até cheiram mal


Henri Matisse, "La Gerbe", 1953.

Da autonomia regional

Sempre que ouço alguns cidadãos da nossa terra na sua defesa, ingénua ou interesseira, da autonomia regional, local ou institucional, esboço um sorriso amarelo. Perdoem-me aqueles que têm uma opinião contrária à minha. Mas num país minado pelo tráfico de influências (que, como se tem visto nos últimos dias, consegue apodrecer até as cúpulas do Estado), só por ingenuidade ou por interesses na questão se pode defender a autonomia - pelo menos um certo tipo de autonomia, irresponsável. Defendo a descentralização política, mas só nalgumas situações a autonomia. Pelo menos enquanto Portugal for como é.
Apresento apenas um exemplo. Como podem as nossas escolas básicas e secundárias fazer a contratação directa dos seus professores, se, comprovadamente, muitas delas são geridas por redes clientelares, em função de pequenos jogos de poder? Aconteceria nelas o que hoje já sucede nalgumas instituições de Ensino Superior público e privado, onde qualquer voz que incomode as chefias é posta fora de circulação, onde o currículo é desvalorizado, em detrimento de amizades, fidelidades e/ou companheirismos político-sociais.
Que o futuro nos traga algum juízo...

Ruy Ventura

PUXA AINDA BEM

Puxa que enxurrada! Ainda bem que deixei de ser do Benfica!

Meus irmãos, só mais um esforço, abandonem o futebol, para serem republicanos!

Estive a pensar numa coisa

Ando aqui às voltas com a soberania popular e coisa e tal.

E puxa pensei pensei e não me lembro de ver em nenhum país (ocidental, mesmo, claro) uma tal concentração de pensadores políticos importantes como Montesquieu, Robespierre, Danton, Marat, Jaurés. Deito ao lixo, displicentemente, Rousseau (alô, alô, senhora casada com o Barreto) e Voltaire. Podem opor-me o Churchill, que eu muito me rio (suor e lágrimas e coisa e tal e champanhe de um litro e charutos), porque vos amandava logo com um De Gaulle, coisas da divisão de honra (honra, não sei se estão a perceber).

Bem, portanto (aqui para nós, Benjamin Franklin, socialista inventor do pára-raios e outros americanos avulsos não ficavam mal, mas também quem lhes liga do outro lado do Atlântico?), riam-se como quiserem dos franceses, que até levam os pães debaixo do braço, deve ser dos genes...

Só que rindo rindo eles vão mandar os importantes deste mundo dar uma volta ao bilhar grande, com um valentíssimo não ao tratado constitucional. E não é por causa dos genes deles, que os genes deles até acho que cheiram mal. É por causa daquela mania deles das assembleias, das discussões, dos grupos e grupelhos...

23.5.05

As quatro liberdades fundamentais


ARTIGO I-4.º
Liberdades fundamentais e não discriminação


1. A União garante no seu território a livre circulação de pessoas, serviços, mercadorias e
capitais, bem como a liberdade de estabelecimento, em conformidade com a Constituição.

2. No âmbito de aplicação da Constituição e sem prejuízo das suas disposições específicas, é
proibida toda e qualquer discriminação em razão da nacionalidade.

ERRATA:

Corrijo, em tempo, este poste. Primeiro, as quatro liberdades fundamentais da UE são cinco: quatro liberdades de circulação e uma liberdade de estabelecimento. A minha distracção vinha de anos de habituação profissional às quatro liberdades fundamentais. Vejo agora, e regozijo-me com isso, mais esta outra liberdade fundamental, a de estabelecimento. Liberdades nunca são demais.

Porém, pensando bem, aqui há uns tempos, as liberdades fundamentais eram só três (ó antiquados pensadores, onde andais vós que não vistes o maravilhoso mundo novo?): liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de associação.

Resposta à pergunta "o que são os ciganos?"

OS CIGANOS


Dizem que vêm da Europa Central. Eu vejo-os vir
dos lados de Grijó em lassa caravana.

Debaixo da carroça trota a coelheira,
aproveitando a sombra débil e ambulante.
Sentado na boleia, as rédeas na mão morena
descuidadas, um homem cisma, confia
do caminho ao macho a lenta decisão.
Outros homens a pé e mulheres novas
entretêm de riso a caminhada espessa.
Logo após, sobre os burros, os pertences.
Alguns velhos também, já cansados de tudo,
tiram partido do precário trote. As crianças
de peito sugam em sonolenta teima
as elásticas tetas sacudidas, mas alvas e redondas.
Os mais velhitos caminham repartidos
em pequenas e lúdicas manadas, dando
às hortas laterais breves saltos furtivos.

Toda esta gente é morena e tem fala cantada,
levanta para mim doces olhos castanhos.
Dizem que vem
da Europa Central, de uma raça sem chão,
e aqui procura, de insultos rodeada,
cumprir a sua luta, seu degredo
e sua primitiva vocação.

Dizem que os ciganos desenterram animais defuntos
de alguma enfermidade menos limpa
e neles cravam dentes de fome milenária.
Dizem que as mulheres estão na intimidade
das estrelas e a troco de uns mil-réis
lêem nas mãos destinos coloridos.

Dizem que roubam quintais e assaltam capoeiras,
e os aldeões, em pânico secreto,
os expulsam com voz impiedosa e decidida mão
das cercanias do seu chão governado.
Dizem que enganam os crédulos campónios
em negócios sempre escuros de animais,
em que fazem passar por uma estampa
o mais escalavrado e cego dos cavalos.
Dizem que na vila, ao desfazer das feiras
têm por costume, depois de embriagados,
trocar com as bengalas possantes e vistosas
pancadaria rija, de que morrem.
Dizem que vivem estranhos dramas passionais.
Dizem que não têm deus e que se casam
lançando ao ar jubilosos chapéus.

Dizem tudo isso dos ciganos. Eu não sei.
Vejo-os vir dos lados de Grijó
e estão todos de frente para mim
e parecem-me gente - nada mais.


A. M. Pires Cabral. "Algures a Nordeste: Catálogo de Feios, Simples e Humildes".
Macedo de Cavaleiros, 1974.

Vender como queijo a arte de dois senhores poetas



No Inferno, Ésquilo e Eurípedes disputam entre si o estatuto de maior poeta trágico. Dioniso, deus do teatro e de outras coisas decentes e indecentes, que descera ao Inferno justamente porque sentia saudades de Ésquilo e Eurípedes, é considerado o juiz competente para arbitrar o debate entre os dois. O caso é resolvido com uma prosaica pesagem dos versos dos contendores. É um dos momentos mais divertidos da comédia "As Rãs", de Aristófanes.

DIONISO: Vinde cá então, porque eu preciso de fazer o seguinte, vender como queijo a arte de dois senhores poetas. (Trazem uma grande balança. Ésquilo e Eurípedes colocam-se de cada lado dela.) Ora vá, colocai-vos perto dos pratos.
ÉSQUILO E EURÍPEDES: Pronto.
DIONISO: E segurando-os, recite cada um de vós uma frase e não largue, antes que eu diga: "cucú".
ÉSQUILO E EURÍPEDES: Seguramo-los.
DIONISO: Recitai agora o verso para a balança.
EURÍPEDES: "Oxalá a nau Argo não tivesse voado..."
ÉSQUILO: "Oh rio Spérquio e pastos de bois!"
DIONISO: Cucú!
ÉSQUILO E EURÍPEDES: Lá vai.
DIONISO (Apontando o prato de Ésquilo): E desce muito mais abaixo o verso deste último.
EURÍPEDES: E qual é, por ventura, a causa?
DIONISO: Porquê? Ele colocou lá um rio e, à maneira dos negociantes de lã, ensopou o verso, como se se tratasse de lã, ao passo que tu colocaste um verso alado.
EURÍPEDES: Mas que ele diga um outro contra o meu!
DIONISO (A Eurípedes.): Recita!
EURÍPEDES: "Não há outro templo da Persuasão senão a Palavra."
ÉSQUILO: "Dos deuses, só a Morte não ama as ofertas."
DIONISO: Largai.
ÉSQUILO E EURÍPEDES: Está largado.
DIONISO (Apontando Ésquilo.): É o deste último, de novo, que desce. Ele colocou lá a Morte, o mais pesado dos males.
EURÍPEDES: E eu a Persuasão, num verso excelente.
DIONISO: Mas a Persuasão é coisa leve e não faz sentido. Ora procura de novo um outro, dos de grande peso, que fará descer o prato em teu favor, um verso poderoso e grande.
EURÍPEDES: Mas onde é que eu tenho um desses? Onde?
DIONISO: Di-lo-ei: "Lançou Aquiles aos dados duas vezes um e quatro." Recitai, porque esta é a vossa última prova.
EURÍPEDES: "E tomou na dextra um pau carregado de ferro."
ÉSQUILO: "Carro sobre carro e morto sobre morto."
DIONISO: Levou-te de novo ainda desta vez.
EURÍPEDES: De que maneira?
DIONISO: Colocou lá dois carros e dois mortos que nem uma centena de Egípcios seria capaz de levantar.
ÉSQUILO: E que ele não venha mais discutir comigo verso por verso, mas que venham sentar-se na balança, ele, os filhos, a mulher, Cefisofonte, e traga os seus livros. E eu direi dois versos meus apenas.
DIONISO: São meus amigos e não vou julgá-los. Na verdade, não me tornarei odioso a nenhum deles, porque a um considero-o competente e o outro me dá prazer.

Tradução de Américo da Costa Ramalho.

Do déficit

"Quando o mar bate nas rochas, quem se lixa é o mexilhão" - podemos afirmar, se pensarmos nas estratégias que se perspectivam para diminuir o déficit orçamental. Queremos acreditar que existirão medidas duras para combater a fuga ao fisco, que serão devidamente tributados os rendimentos daqueles que mais ganham, que os profissionais liberais terão os seus sinais exteriores de riqueza investigados, que as mordomias dalguns quadros superiores da administração pública deixarão de existir, que os impostos sobre bens supérfluos aumentarão drasticamente... Mas, no fundo (bem no fundo), sabemos que os funcionários públicos (eternos bodes expiatórios) verão os seus salários congelados durante mais dois ou três anos, que a idade da reforma será aumentada, que muitas das prestações sociais (alívios para a indigência dos mais pobres) terminarão ou serão reduzidas...

Ruy Ventura

O disco do Super-Homem



"Big Science" (Warner Brothers, 1982), o primeiro disco de Laurie Anderson.

Olé Porto olé

Quarta-feira, dia 25 de Maio, vamos todos à Praça comemorar a abertura da Feira do Livro. O objectivo é realizar uma gigantesca manifestação de força tripeira e reivindicar a conquista dos 70.000 títulos.

Mais um grande título para o Porto


Título do Comércio do Porto de Domingo.

21.5.05

Estamos tratados #5

Caríssimos amigos:

Em rigoroso exclusivo para o QF&M, tenho o prazer de anunciar a V. Exas. os dois únicos artigos do Tratado Constitucional para a UE em que aparece a palavra "guerra". Note-se que:

1/ V Exas. vão votar em referendo sobre o assunto;
2/ Isto não tem nada a ver com a iniciativa do Pacheco Pereira;
3/ Isto só foi possível com a amável cooperação dum linguista francês cruz credo arre tarrenego que nem sabem falar bem inglês como nós preclaros expoentes da civilização atlântico-superbock-superrock-festival-do-oeste-miléniobcpoperaçãotriunfo;
4/ V. Exas. poderão navegar à l'aise no lien gentilmente cedido por tal avantesma gaulesa para se inteirarem do conteúdo (por assim dizer) do Tratado Constitucional.

Posto isto, ó maravilha das maravilhas, descobri o que se passa se houver uma guerra (é que o Tratado Constitucional prevê tudo, mesmo guerras, e prima sobre o direito nacional, não se esqueçam).

«ARTIGO III-131.º

Os Estados-Membros procedem a consultas recíprocas, tendo em vista estabelecer de comum acordo as disposições necessárias para evitar que o funcionamento do mercado interno seja afectado pelas medidas que qualquer Estado-Membro possa ser levado a tomar em caso de graves perturbações internas que afectem a ordem pública, em caso de guerra ou de tensão internacional grave que constitua ameaça de guerra, ou para fazer face a compromissos assumidos por esse Estado para a manutenção da paz e da segurança internacional.»

[...]

«ARTIGO III-436.º

1. A Constituição não prejudica a aplicação das seguintes regras:

a) Nenhum Estado-Membro é obrigado a fornecer informações cuja divulgação considere contrária aos interesses essenciais da sua própria segurança;

b) Qualquer Estado-Membro pode tomar as medidas que considere necessárias à protecção dos interesses essenciais da sua segurança e que estejam relacionadas com a produção ou o comércio de armas, munições e material de guerra; tais medidas não devem alterar as condições de concorrência no mercado interno no que diz respeito aos produtos não destinados a fins especificamente militares.

2. O Conselho, sob proposta da Comissão, pode adoptar, por unanimidade, uma decisão europeia que modifique a lista de 15 de Abril de 1958, dos produtos aos quais se aplicam as disposições da alínea b) do n.º 1.»

Repare-se: em caso de guerra, não se protegem os órfãos e as viúvas mas sempre e sim o mercado interno.

E não me venham dizer que sou demagógico, por amor de Deus ou do Diabo. Este Tratado Constitucional foi feito pelas maiores cabeças do establishment europeu em condições que poderei explicitar se quiserem, com todo o tempo para pensarem e chegarem ao essencial.

Posso garantir-vos que não se esqueceram das tripas (não estou a brincar, era o que faltava...). Portanto, a propósito de guerras, só se lembraram de salvar o mercado interno. Pensem o que quiserem. Mas pensem.

Estamos tratados #4

O abrupto personagem
É tipo sinusoidal
Tanto lhe dá para o bem
Como lhe dá para o mal

Coruche

caros amigos

não brinquem com o fogo

vão ler o correio da manhã on line (tem uma oferta da VW, é aproveitar)

secção coruche, aliás terra do José Peseiro,

e vejam a reacção (k mete skins e tudo) a um caso do dia assaz banal

as leis genético-sociais que o comum do povo extrai

não é que eu queira defender a etnia cigana
tenho-lhe tanto respeito como à etnia portuguesa ou tirpeira (vai mesmo com erro dotorgrafia ké prós gaijos num se pôrem a armar em importantes)

e em monforte, terra do Nicolau Saião e do Malato,

já há milícias populares - para assaltar o poder? perguntarão vocês

não, keridos amigos,

para assaltar os assaltantes

isto é que é barroquismo ou conceptismo em acção

Para mim isto são sinais duma sociedade em desagregação

cujos máximos dirigentes, vulgo elite,

pagos, aliás, à custa dos contribuintes (ei ei não é isso que estão a pensar faz favor dir à nova linha),

ker dizer, os economistas,

puxa também caí na armadilha (os economistas são os nossos patrões, mas ao serviço dos patrões deles, os patrões propriamente ditos),

duma sociedade em desagregação cuja elite pensante no que conta (euros),
nos dá como remédio
o veneno que
nos envenena
há que anos

20.5.05

História de exemplo #2

A pedido de várias famílias.

A. Gonçalves, pintor de etnia portuguesa da silva, depois de se queixar do IVA, achou que isto está uma desgraça e que há muitos assaltos.

Ora, lembrando-se que um primo dele, sendo assaltado, deu um tiro no meliante e, parvo, foi chamar os bombeiros para o levarem para o hospital, e achando que não é assim, que o primo devia era ter aberto um bom buraco no terreno dele e enterrar lá o gajo, vivo ou morto,

optou por uma táctica preventiva.

Esta:
Quando lhe calhou a vez, que isto de assaltos é como o IVA, atacam a todo o momento, pegou na sachola à sorrelfa e ceifou o meliante. Note-se que a sachola serve para todos os trabalhos do campo, salvo a poda.

Mas não sacholou o gajo pela cabeça, não. Pelas pernas, para o deixar vivo. Depois abriu um buraco na terra (note-se que a sachola serve para todos os trabalhos do campo, salvo a poda) e enterrou o gajo vivo. Só que, parvo, esqueceu-se das pernas.

E o Estado, sob a forma de polícia, descobriu as pernas e por uma análise do ADN devidamente certificada pela Gens Genetics International, determinou que se tratava de restos humanos. Parvo.

ERRATA:
Onde se lê:
"Note-se que a sachola serve para todos os trabalhos do campo, salvo a poda"

leia-se:
"Note-se que a sachola serve para todos os trabalhos do campo, salvo a poda e o enxerto (salvo o de porrada)"

História de exemplo

Um pintor de etnia portuguesa da silva, depois de se queixar do IVA, achou que isto está uma desgraça e que há muitos assaltos.

Ora um primo dele que foi assaltado deu um tiro no meliante e, parvo, foi chamar os bombeiros para o levarem para o hospital.

Ele acha que não é assim: o que o primo devia ter feito era abrir um bom buraco no terreno dele e enterrar lá o gajo, vivo ou morto.

Em primeira mão

Nezami Ganjavi (1141-1209), um dos grandes poetas clássicos persas, vai ser editado em português. É a primeira tradução de Ganjavi em língua portuguesa e a edição diz respeito ao seu livro "Leili e Majnun". O tradutor é Sepideh Radfar, professor universitário a trabalhar actualmente em Portugal.

As boas histórias não têm fim

Rows of urine-stained books have been found in two local libraries. (...) Police in both communities are investigating.

Referendo

Certas forças políticas fazem lembrar alguns clubes de futebol. Quando perdem no estádio ou adivinham uma derrota, tratam de mover céus e terra para conseguirem ganhar na secretaria. Refiro-me ao futuro referendo sobre a despenalização do aborto. Algumas opõem-se frontalmente a uma nova consulta popular - não vá o povo dizer "não" àquilo que defendem. Outras afirmam desejar o referendo, mas vão já avisando: caso o "não" vença, preparam-se para descriminalizar a "interrupção voluntária da gravidez" no parlamento - abusando da maioria absoluta que lhes foi confiada pelos portugueses.

Ruy Ventura

Cacofonia

O "pianista mudo" sou eu.

Abaixo o futebol

Na véspera do grande jogo que vai talvez consagrar a minha equipa como campeã de futebol galpenergia, comunico urbi et orbi que abandono o futebol, arrumo as botas, e nem sequer abraço o bloco-notas e a carreira de treinador.

Por uma razão muito simples: o Benfica joga assim-assim, tremelicou o ano inteiro pelos relvados, de pés empecidos pela relva, e venceu graças a um (único) golo duvidosíssimo e só a isso. Merecia, quem sabe?, ganhar o campeonato de Avintes. E só venceu este, mais ponderoso, porque os árbitros também jogam, digo eu, e não só.

Caiu-me a escama dos olhos. E, de repente, verifiquei que os jogadores de futebol até nos carros põem gel, para brilharem melhor. Ora, tal gasto de gel, num país falido, é um desperdício. E todos aqueles bigodes em cargos mais elevados, arg... E os presidentes de câmara de ar e esses primeiros-ministros e presidentes de quem sabemos os clubes, ui ai...

Convido pois os meus concidadãos a desertarem os estádios e a fecharem as televisões em caso de futebol.

Mensagem com cópia para Manuel António Pina e Nicolau Saião.

Note-se, aliás, que cá me canta uma ruptura dos ligamentos cruzados do joelho esquerdo, resultado dum drible muito repetido e audacioso, coisa de que o Carlos Magno (grande imprecador contra os intelectuais durante o euro 2004) não se pode gabar.

Ah ganda Miguel Veiga!

Segundo publicidade amplamente difundida pelo Público, vamos ter este sábado os poemas da vida do Miguel Veiga. Isto, supondo que o Miguel Veiga tem vida.

Ora, explicando melhor. Vomito-te da boca para fora, sociedade que cospes nos teus poetas e só os queres para flor na lapela de algum preopinante com consultório ou insultório na praça.

Vomito-te, porque não és quente nem fria.

Tomando um exemplo, uma das minhas piores experiências foi ver Jorge de Sena, que tanto engulho sentia por não o reconhecerem em Portugal para o que ele servia (dar aulas de literatura, ser de alguma forma profissional da poesia, coisa que eu não entendo, mas ele achava que sim) a desfazer-se em bravejante discurso no dia 10 de Junho, convidado por um presidente precário.

E agora, isto: poetas que servem para ilustrar ilustres. Por amor de Deus ou do Diabo.

E, pior, apenas para, ancilarmente, ajudarem a uma pobre campanha publicitária de prestígio dum jornal de referência.

Ó poesia, a que ninguém liga, mas a que todos (salvo seja, todos não, apenas os que contam) fazem reverência quando precisam de ir a banhos e têm de tirar os pneus da alma.

19.5.05

Volta, Santana ah ah ah

Volta, Santana, que eu estou tão triste.

Estou a ver o Santana Lopes a dizer à Judite de Sousa, a única jornalista que é «ó-Judite», a dizer que não aceita viver nesta sociedade de Ayatolas.

Ai ai que estou com dores de coisa de me rir. Então, Santana, se não aceitas viver nesta sociedade (que tu tão carinhosamente acarinhaste), tens uma solução: mata-te.

É claro que tu não te queres matar.

Como é possível!... E dão-lhe tempo de antena...

Heavy metal (brass band)



O grande manipulador dos sons tradicionais ciganos e balcânicos com acento rock Goran Bregovic esteve ontem à noite na Casa da Música, com a sua Funeral and Wedding Band, para mais um concerto explosivo (depois do Rivoli em 1998). A memória de "Underground", banda sonora do filme homónimo de Emir Kusturica, também esteve presente (Mercury, 1995).

Para conjurar um enxame

Uma lista breve de poetas norte-americanos da nova geração:
Charlie Sheen; Val Kilmer; Leonard Nimoy; Ally Sheedy.

Dikanka é em toda a parte

- Dizem que algures, numa terra longínqua, há uma árvore em que a copa farfalhuda chega ao céu e é por essa árvore que Deus desce à terra nas noites de festa santa.
- Não, Gália, o que Deus tem é uma escada comprida que desce do céu à terra. Os santos arcanjos, na véspera do Domingo preclaro, põem-na; e, mal Deus põe o pé no primeiro degrau, todos os espíritos imundos caem vertiginosamente no inferno, às chusmas e, por isso, no Natal de Cristo, não há nenhum espírito mau na terra.

Nikolai Gógol, Noites na Granja ao Pé de Dikanka.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

18.5.05

Do armazém para a minha sala



Hüsker Dü, "Warehouse: Songs and Stories" (Warner Brothers, 1987).



Fotografia de André Sousa Martins

Que o espírito da paciência nos assista



De que é que ri Francisco Assis?

Enquanto a barca se move, ouve-se a voz das rãs, invisíveis



Francisco Assis. O único candidato à Câmara do Porto que defende a importância da saúde oral para a reabilitação da cidade.

Enquanto há vida, há desesperança



Depois do choque tecnológico, o choque eléctrico.

A força do mito


John Waters, "Pasolini", 1996.

Discreta, como todas as notícias que anunciam a morte de um mito, esta chega-nos de Itália: Pino Pelosi, finalmente, falou. Este antigo prostituto, que há trinta anos teria matado Pasolini à pancada, e que por isso cumpriu nove anos de prisão, confessou, agora que a sua família ameaçada já não existe, que Pier Paolo Pasolini foi assassinado, à sua vista, por um grupo de três homens que gritavam enquanto o matavam à pancada: «Porco comunista!» Aliás, a hipótese de que o franzino Pelosi não pudesse ter cometido o crime sozinho já tinha sido aventada discretamente há 30 anos, até pela polícia. Portanto, para uma gloriosa reabilitação de Pasolini, tratou-se de um crime político cometido pela extrema-direita italiana, na época em ascensão; e não de um escabroso caso do submundo homossexual que deu para o torto. Uma pessoa que viveu até há pouco em Florença e visitou muito a Toscânia de Dante, conta-me que sentiu as pessoas como que frustradas, defraudadas pela revelação (e, hélas, não só as conservadoras!). Tal é a força de um mito arreigado, mesmo depois de morto! Volta, Pasolini, mas não estás perdoado!

Filipe Guerra

Pasolini: 30 anos depois.



Ainda a propósito das revelações de Pino Pelosi sobre o assassínio de Pasolini (ver comentário de Filipe Guerra no post anterior), eis alguns textos dedicados a este tema surgidos na imprensa internacional:

La Repubblica; L'Humanité; Le Monde; Estado de S. Paulo.; BBC.

Zás trás pás

Puro Shakespeare.

17.5.05

Um poema de Vicente Huidobro



A TEMPESTADE

a Max Jacob

Noite de temporal
a escuridão morde-me o crâneo.
Os diabos
postilhões do trovão
foram de férias.

Ninguém passou pela rua
Ela não veio
tombou na esquina
e o pêndulo
quedou-se imóvel
já não oscila.

Por vezes o eléctrico
afasta-se voando
como os passarocos de fogo.

Na montanha
os rebanhos
tremem sob o temporal
E o cão maneta que tudo vigia
procura a sua sombra.

Vem mais para o pé de mim
faremos uma viagem maravilhosa.

No deserto africano
as girafas buscam engolir a Lua.
Não é preciso olhar
obrigatório espreitar
por detrás dos muros.

E a curiosidade alonga o pescoço.

Alguém se procura
se procura
e ninguém topa o caminho.

Eu escondo uma recordação
mas eis que é inútil olhar os meus olhos.

Ao derredor do meu lar
o vento rosna
E talvez que lá ao fundo a minha mãe
soluce.

O berro dum trovão fatigado
seriíssimo pousou no cume mais altaneiro.


Vicente Huidobro. In "L'aventure Dada"

Nascido em Santiago do Chile (1889), faleceu em 1948. Figura de primeiro plano na intervenção dadaísta, editou também a revista "Creación", órgão do criacionismo que o teve como um dos inventores e principal animador. Autor, entre outros, de "Altaçor ou a viagem em paraquedas".

Imagem, tradução e nota de Nicolau Saião

Para estancar sangrias

Banda sonora de "A Comédia de Deus", de João César Monteiro: obras de Claudio Monteverdi, Joseph Haydn, Richard Wagner, Johann Strauss e Quim Barreiros. E ainda Deutshland Über Alles, La Marseillaise e Alma Negra.

O veado e a corça

Segredava o veado à orelha da corça:
"Queres mais, corça...?"

Autor anónimo alemão da Idade Média.
Tradução de Paulo Quintela.

Reggaevolution



Talvez o clássico dos clássicos da música reggae e uma capa fenomenal: "Burnin'", de Bob Marley & The Wailers (Tuff Gong, 1973). Meia hora de crítica social, apelo à rebelião, espiritualidade e orgulho jamaicano.

Uma história verídica contada pelo salmista da igreja de ***

"Fomá Grigórievitch tinha uma estranha particularidade: detestava contar duas vezes a mesma história. Às vezes, quando o convenciam a recontar algum conto, acrescentava sempre alguma coisa nova ou, então, alterava tudo de tal forma que a história ficava irreconhecível. Uma vez, um desses senhores - que nós, gente simples, nem sabemos como chamar: escritores, ou antes, a mesma coisa que os açambarcadores das nossas feiras... que apanham, abicham, arranjam, roubam isto e aquilo e, depois, editam todos os meses ou todas as semanas uns livrinhos que não são mais grossos do que uma cartilha -, portanto, um desses senhores arrancou esta história que aqui vai a Fomá Grigórievitch, que logo se esqueceu disso por completo. Só que, um belo dia, chega de Poltava com o seu cafetã cor de ervilha o tal senhorzeco, de quem já vos falei e de quem, acho eu, já lestes um conto. Traz consigo um livrinho, abre-o ao meio e mostra-no-lo. Já Fomá Grigórievitch queria armar o nariz com os óculos mas lembrou-se de que se esquecera de atar a armação com linha e de a colar com cera, pelo que me passou o livro para as mãos. Então, como sou mais ou menos alfabetizado e não uso óculos, pus-me a ler. Nem tive tempo de virar duas páginas e já Fomá Grigórievitch me pegava na mão e me fazia parar.
- Espere! Diga-me, antes de mais nada: o que está a ler?
Francamente, fiquei um pouco atrapalhado com a pergunta.
- Mas o quê, mas como é que é, Fomá Grigórievitch? É a sua própria história, as suas próprias palavras.
- Quem lhe disse que são as minhas palavras?
- Mas é claro, que está aqui preto no branco: história contada pelo salmista tal.
- Pois então cuspa na cabeça de quem tal escreveu! Mente, este cachorro de russo. Alguma vez eu falei assim? Tão certo como faltar o parafuso na cabeça de alguém. Ouvi todos, vou contá-la agora como deve ser.
Sentámo-nos mais perto da mesa e ele começou."

Segue-se a história contada por Fomá Grigórievitch, que se estende entre as páginas 60 e 78.

Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

by masson

O Almocreve faz dois anos. E faz muito bem.

16.5.05

Estamos tratados #3

Desculpem lá a insistência. Mas sempre me ensinaram que se devem ler os adversários.

E qual não foi a minha surpresa quando vi este conselheiro de Raffarin, primeiro-ministro francês, portanto, de direita, mas europeista, virar para o «não» ao Tratado-Constituição? Olhem que isto não é brincadeira: ele existe, foi "contratado" (isto é, militantemente, sem salário) para defender o «sim» e virou para o não. Com razões que acho absolutamente honestas, embora não sejam as minhas.

Desculpem lá a insistência.

Sete palmos de terra e muitos cigarros

"No dia 5 de maio de 1994, no Salão Nobre da Assembléia Legislativa gaúcha, um velório entrava, em definitivo, para a crônica dos insólitos afetivos: cada um dos milhares que vinham se despedir do finado depositava um cigarro no caixão. Muitos fumantes, que a madrugada pegou sem munição para o vício, serviram-se do tabaco fúnebre, que já abafava as flores. Ninguém se importou muito com o fato, já que o morto sempre olhou com desconfiança para quem não fumava. O poeta Mario Quintana deixava a vida no grande estilo de sempre: cercado por uma aura de deboche e folclore - o mesmo folclore que fez sombra em sua obra, naquelas torções em que o criador se torna maior do que a criatura."

Cíntia Moscovich, no Prosa e Verso, a propósito da reedição de alguns livros de Mario Quintana. (Disponível após registo gratuito.)

Os Meus Poemas da Vida de MARIO SOARES

Numa iniciativa louvável e interessante (finalmente chegou a vez da poesia...) o PÚBLICO reiniciou no sábado a série de livros "Os Poemas da Minha Vida", com o volume escolhido pelo omnipresente Mário Soares (GRÁTIS! GRÁTIS!).

E a verdade é que gostei de ler a escolha dele. Muito datada, é claro, mas abrangente e diversificada, vai desde D. Sancho I até José Carlos Ary dos Santos. E fica por aí.

É sempre interessante conhecer os poemas que nós, - os 500 leitores de poesia em Portugal, - mais gostamos. A escolha de Mário Soares - que se revela um conhecedor de poesia, contráriamente ao que diz no prefácio à primeira edição, - revela também escolhas políticas, como seria inevitável, poemas que o acompanharam ao longo da sua vida de luta pela Liberdade, poetas que foram seus companheiros de luta. Filhos-da-luta.

Mas se soubermos ler (também) para além dessa profusão de poemas sobre a dita Liberdade e sobre Portugal (temáticas demasiado presentes nesta escolha que por vezes o desviam de escolher os poemas realmente significativos da Obra dos autores desses poemas, como acontece nos casos de Eugénio, Sophia, Cesariny, O´Neill...), encontramos verdadeiras preciosidades como um Sá de Miranda (1481-1558) que escreve "Comigo me dasavim/ Sou posto em todo perigo:/ Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim.", já tão pessoano...; dois deliciosos sonetos eróticos de Bocage (1765-1805) que o nosso Presidente não se coibiu de escolher ("Bojudo Fradalhão de Larga Venta" e "Veio Muley-Achmet marroquino"); o ultra-ultra-romantico soneto de Soares dos Passos (1826-1860), "O Noivado do Sepulcro", que chega -paradoxalmente - a fazer rir de tão impossivelmente fatalista; ou, o humor de João de Deus (1830-1896) em "Mal de Pés", um poema tão actual nos consultórios das urgências...

E depois vem todo o rol de excelentes poetas já tão conhecidos como Cesário, os Pessoas, Sá-Carneiro, os poetas da Presença, neo-realistas, Sophia, Carlos de Oliveira, Eugénio, Cesariny, a tão injustamente esquecida Natália, O'Neill, Alegre...and so ion.

Então o desafio é este: se eu tivesse que escolher os meus poemas da vida de Mário Soares, (ok, deixando os Cesários e os Pessoas e os Sá-Carneiros de fora, por serem escolhas modernas e óbvias) a minha escolha recairia em:

- "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", de Camões, porque é um soneto de génio, absolutamente perfeito e equilibrado e incrivelmente actual na sua temática (hello!, os poemas têm mensagem!) e porque os três últimos versos encerram um achado de génio : "E, afora este mudar-se cada dia, / outra mudança faz de mor espanto, / que não se muda já como soía." Ah, tão verdade... A própria maneira da mudança mudar... muda.

- "Cântico Negro", de José Régio. Porquê? Não sei. Just because. De entre os poemas mais longos e livres da antologia do Senhor Presidente, este tem um ritmo, uma métrica e um refrão que me obrigam a lê-lo até ao fim. Talvez nem seja um poema tão forte assim em figuras de estilo mas a convicção com que escreve "Ninguém me peça definições! / ninguém me diga: "vem por aqui!" arrebata-me. É todo um programa do que deveria ser isto de ser poeta e escrever poesia.

-"Segredo", de Maria Teresa Horta. É perfeito como uma mulher perfeita. É m poema feito de palavras insubstituiveis.

Esperemos ansiosos o número 2, a escolha do barão social-democrata MIGUEL VEIGA.

Pintado de fresco



O último número da revista Agulha é integralmente ilustrado com imagens do nosso Nicolau Saião.
A Agulha é uma das mais importantes publicações electrónicas de língua portuguesa dedicadas à literatura e artes plásticas.



Fotografia de André Sousa Martins

15.5.05

Estamos tratados #2

Vejo no Le Monde um artigo escrito por vários dirigentes socialistas, digamos, social-democratas verdadeiros, de origem belga, francesa, italiana e alemã apelando ao voto "não" no referendo sobre o Tratado-Constituição europeu-eia.

Depois do "não" de Laurent Fabius, que não tem nada de esquerdista, pelo contrário, nem nada de soberanista, pelo contrário, mais estas vozes deviam pelo menos fazer pensar todos aqueles que, de boa vontade, vão votar sim porque acham bem.

Não quero que adiram aos meus esquerdismos evidentes e transparentes, mas, pelo menos, parem para reflectir: uma constituição que castra todas as políticas sociais, firmando na pedra para todo o sempre, NUM TEXTO CONSTITUCIONAL, asneiras que eram apenas regulamentares (como o estúpido, três vezes estúpido, equilíbrio orçamental, digno de Salazar e de Ferreira Leite, que impedia qualquer estímulo keynesiano, fosse em que circunstância fosse), não merece respeito.

13.5.05

A morte dos licenciados

"Achou-se que uma direcção destas [Direcção de Educação e Investigação da Casa da Música] devia ser dirigida por alguém com habilitações literárias ao nível do doutoramento. A Suzana Ralha [ex-coordenadora do Serviço Educativo] não cumpria este requisito."

(Henrique Ribeiro, porta-voz da administração da CdM, em declarações ao Público)

Ultimato inglês



Durante este mês de Maio, a Penguin completa 70 anos de vida. E para assinalar o feliz aniversário, a editora lançou uma colecção de 70 livros a preços, como se diz agora, "muito convidativos". Quer dizer, ainda mais convidativos do que já é habitual. A colecção é a todos os títulos notável. Mas o que mais impressiona é o grafismo dos livros. Absolutamente irresistível.
Ao leitor português, habituado aos monstros que por cá se publicam, só lhe resta salivar, salivar, salivar.

A verdadeira glória

Amaral s.f. casta de uva tinta recomendada na produção de vinhos da região de Lafões.

Indiatronics



Nitin Sawhney, "Beyond Skin" (Outcaste, 1999).

Alguns conselhos para jovens artistas em princípio de carreira



1. Ao entrar na carreira, o porte deve ser grave e sério, muito reservado e fechado;
2. Uma vez instalado, escolher com segurança as companhias e as palavras;
3. Nunca dizer a verdade aos colegas de carreira;
4. Não declarar abertamente a sua preferência por nenhum lugar ou colega em particular, mas admirar-se sempre com a diversidade de todos eles;
5. Aprender a servir-se do garfo de prata e dos copos de cristal nas estações de serviço;
6. Saber a que horas se devem comer os melões e os figos.

Latinista ilustre

"[Esta é] a história do aluno que aprendeu a ler e a escrever com um salmista e de como chegou a casa do pai armado num latinista tal que até se esqueceu da nossa língua cristã. Metia um us no fim das palavras todas. Ele era páus para dizer pá, era mulherus para mulher. Então sucedeu que foi um dia para o campo mais o pai. O latinista viu o ancinho e perguntou ao pai: 'Como é que se chama isto na vossa fala, meu pai?' E, de boca aberta, toca de pisar os dentes do ancinho. O pai nem teve tempo de responder porque já o cabo se empinava com toda a força e - zás! - batia na testa do filho. 'Raios partam o ancinho - gritou o estudante com a mão na testa e dando um pulo de côvado. - Bate de rijo, caramba, que o Diabo empurre o pai dele de cima da ponte!' É assim! Afinal, lembrou-se do nome."

Nikolai Gógol, do prefácio de "Noites na Granja ao Pé de Dikanka".
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Romana Petri deu lição sobre o Bem e o Mal



O livro de contos "Os pais dos outros", de Romana Petri, foi o pretexto para inaugurar de modo formal os encontros com escritores na recém-aberta Livraria Italiana, paredes meias com o Instituto Italiano, na Rua do Salitre, em Lisboa.
Romana de nome e de nascimento, a escritora, elegante de corpo e de espírito, falou perto de 45 minutos, provando uma vez mais o seu grande poder de comunicação, tal como já tinha acontecido no encontro de Outubro do Instituto Italiano.
Romana Petri, tradutora e crítica literária, escreve para o "Unita" e "Il messagero di Roma". É uma mulher preocupada com o que se passa à sua volta e este livro de contos demonstra-o, já que se baseia em casos reais. Muitos dos contos foram escritos a partir de um conhecimento pessoal das situações descritas, embora com um tratamento literário.
O final de tarde na Livraria Italiana foi difícil e cativante. Porque nunca é fácil falar da dor e das dificuldades comunicacionais entre pais e filhos, com todos os traumas que podem transformar a vida num Inferno.
"Já me têm chamado moralista e obcecada com o Bem e o Mal, mas não me importo. Porque o Bem e o Mal existem. Há pessoas com predisposição para o Mal. E que o podem fazer de forma cobarde. Há crianças que se divertem a torturar animais, mas não o fazem com um mastim napolitano."
Eu estava em pé na sala, mas era como se estivesse deitado num divã, tal a intensidade da aproximação ao Real, de modo freudiano, que Romana imprimiu a um monólogo tocante:
"A infelicidade e a tristeza são contagiantes. Se uma criança vive com pais infelizes, isso vai marcá-la. Não é obrigatório que duas pessoas prossigam um casamento infeliz. Podem ser felizes separadas. Pensa-se que as crianças recuperam mais rapidamente que os adultos, mas isso é ilusório. Temos a convicção pouco inteligente de que os miúdos recuperam primeiro. Mas o preço a pagar é elevado ao longo da vida. Hoje em dia, em Itália, há mães que têm filhos aos 35 ou 40 anos e entram em depressão. Ora, a maternidade devia ser o contrário. Eu fiquei eufórica. O problema é que a Itália actual está muito fútil e materialista. As mães deixam de poder sair com os amigos, perdem as noites com as crianças, já não podem ir aos cocktails e entram em depressão."
O livro de Romana trata de violência. Uma violência sofrida pelas crianças, mas em apenas um caso trata de abuso sexual. Mesmo aí, não exercida por um pai. Romana não discrimina sexos de abusadores e abusados. Mas aponta o dedo ao silêncio criminoso, o que acontece em muitos casos com mães cujos filhos são vítimas dos pais.
"O silêncio é um grande cúmplice do Mal."
Romana Petri é uma amiga de Portugal e apaixonada pelos Açores. Uma das pontes de aproximação ao nosso país foi a amizade construída com Tabuchi a partir dos anos 90. E a "pancada" pelos Açores bateu-lhe de tal forma que deu origem a três livros.
É já uma autora emblemática da editora Cavalo de Ferro, tendo publicado "Case Venie - Uma guerra na Umbria", e "A senhora dos Açores", para além deste livro de contos.
A sua habituação a Portugal cumpriu-se na tarde da ida à Livraria Italiana: através de uma multa de trânsito, quando peregrinava as ruas lisboetas, ao lado do editor Diogo Madredeus.
Quanto à Livaria Italiana, é um pequeno espaço simpático e acolhedor. A que nem sequer falta uma edição italiana do último livro de Milo Manara, em colaboração com Jodorowsky ("Il Borgia", por acaso com uma capa bem diferente da edição francesa da Albin Michel). Ou fotografias de filmes, com Sofia Loren em pleno destaque.

Luís Graça

12.5.05



Fotografia oferecida pelo nosso autor anónimo de estimação.

Ler jornais é no metro

As estações do metro portuense estão transformadas em campo de batalha sem quartel entre duas publicações diárias e gratuitas para viajantes. De um lado do cais, o originalmente chamado "Metro" (sem site), com uma apresentação sóbria que não deixa ficar mal quem o lê. Do outro, o mimoso "Destak", em que se notam tiques popularuchos inspirados nos colegas séniores "24 Horas" ou "Correio da Manhã" (e em cujo conselho consultivo pontificam as luminárias Marcelo Rebelo de Sousa e João César das Neves, o que não é de estranhar dado o pedigree já referido). No essencial, porém, são jornais idênticos, com o mínimo indispensável de informação e o máximo de publicidade (compreensivelmente a única fonte de sustento de títulos que apostam na gratuitidade), escrita escorreita (não há espaço para análises ou floreados), eficazes (lêem-se no espaço de uma viagem de 15 minutos) e que podem trazer mais leitores para a imprensa dita tradicional (pelo menos aqueles que não se contentarem com dois parágrafos sobre um qualquer acontecimento importante). A juntar-se ao "Dicas da Semana" (que traz as indispensáveis promoções do Lidl), o "Metro" e o "Destak" passaram a ser os meus jornais de cabeceira.

Com que se urde uma história?

Com muita sobriedade, pouca seriedade e alguma imaginação. Com um lápis, um papel, nenhum relógio. Se fores culto, com um autor, um narrador, um ajudante-de-campo, um personagem (no mínimo), um espaço, um tempo (quase sempre perdido), um princípio, um meio e um fim (a ordem é arbitrária), Tristão e Isolda, ser ou não ser, o canário travestido do Rui Laje que não sabia cantar. Se não fores culto, mete um sargento, um licranço, uma pedra e um pau, um cão e um gato, tudo o que possas arrebanhar. Evita o granito, dizem-no cancerígeno. Evita o respeito. Aponta com o dedo, mete o nariz. Sobretudo, inventa tudo. Não podes é mentir, ou a tua história afunda-se e perseguem-te como a um frango.

Filipe Guerra

Para dizer a verdade, não há verdade

As mudanças de poder são muito úteis. As mentiras, punhaladas e negociatas adquirem novos proprietários.

Oferece-se "Post Star"

Jornalista, 42 anos, grande experiência de escrita nas áreas de publicidade, jornalismo, literatura, teatro, poesia, banda desenhada e áreas pornográficas de todo o género, oferece-se como "post-star".

Pretende alojamento, alimentação e verba a combinar para frequentar casas de massagem.

Oferece posts cuidados, sobre todos os assuntos. Máxima confidencialidade. Limpeza, asseio. Especialista em polémicas gratuitas, insultos e provocações.

Não sabe escrever, mas adorava insultar num blogue, protegido por um nick idiota? Do que está à espera? Contacte-nos.

Veja um exemplo:

"Seu piolhoso da pior espécie, você é uma vocação natural para a incompetêcia e o seu pior inimigo. Não sabe o que anda a fazer. Pior: nem suspeita. Aprenda, homem! Não nasci para emendar os seus erros. Se fosse o Super-Homem andava aí a voar sobre a cidade, a castigar o crime, e ainda dava informações sobre o trânsito".

Telefone já. Descontos para grupos de insultos, estudantes e deficientes mentais.

Luís Graça

11.5.05

O diabo do umbigo

A Gerência exige, o proletário responde:

Que fazes neste momento?
Estou a beber um copito. E estou disposto a não parar de beber até encontrar algo muito literário e muito fino para dizer.

Que planos tens para este fim-de-semana?
Todos os meus fins-de-semana são ocupados com actividades muito belas, muito apuradas, muito elevadas, muito intelectuais e muito elitistas, obviamente.

Que coisas te causam stress neste momento?
Descrever os personagens de Gógol.

Que fizeste desde o acordar até agora?
Prefiro não responder a esta pergunta. O meu director é leitor deste blogue.

A quem irás passar este teste fantástico?
Ao Pacheco Pereira.



Fotografia oferecida pelo nosso autor anónimo de estimação.

Numa livraria perto de si



O Rui Almeida, autor de um dos nossos grandes blogues de poesia, e o Vítor Vicente acabam de lançar uma nova editora: a Canto Escuro. O primeiro livro chama-se "Esses Dias - HenryKiller.Blog" e é uma espécie de antologia de textos de Vítor Vicente, anteriormente editados no seu blogue pessoal. O lançamento oficial do livro terá lugar na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, no dia 21 de Maio, com apresentação de Amadeu Baptista. No dia 25 de Junho, o Rui e o Vítor estarão na Livraria Navio de Espelhos, em Aveiro. A editora também tem um blogue homónimo e os pedidos podem ser feitos através do mail cantoescuro@sapo.pt.

Celtas com fogo e alma



"Too-Rye-Ay" (Mercury, 1982), dos Dexy's Midnight Runners.

PC

O País da Cunha voltou ontem a atacar. Quando é que o país ataca a Cunha?

A ideia-chave

Tal como algumas tribos primitivas, estou em crer que estamos a caminhar para um estado de coisas em que não nos fazem falta mais que três ou quatro palavras. A saber: "competitividade", "capacidade competitiva", "exigência de competitividade", "nível competitivo" e "aumento da competitividade". Se compreendermos isto, como lembra o guru do tabu, seremos felizes para sempre.

Dezafiu qualquere um

A minha profeçora do 1º ano do siclo perparatório diçe que eu não dava Eros. Por isso, dezafiu qualquere um a descubrir um Eros nestas prozas que eu iscrevo para o belogue quartezo-feldespato-mirra.
A seguir vão porsse a dizêr que eu sou paneleiro ou mafiosso.
É muito importante saber do que se istá a falar. Porque eu tamém não ando a disfamar nenhuma peçoa.
Uma coisa é dar uma upinião fodamentada, outra é porsse a disparar para todo o lado. Ora, iço não istá mimimamente certo. Eu não sou homem para andar a dizere mal de ninguém pelas tostas. O que tenho a dzer digo na carta das pssoas.
A minha professora do 1º ano do siclo perparatório dice assim:
"O Garça não dá Eros".
(Se pensam que esta prosa não tem erros são muito Pathos).

Luís Graça