31.3.05

Agualusa e o cavalo de D. Quixote.



Um Café Literário na Biblioteca de Oeiras. Noite de quarta-feira, após o empate da selecção de futebol na Eslováquia. Cá o "je" requisitado para entrevistar o seu amigo José Eduardo Agualusa, a propósito do livro "O vendedor de passados", que a agenda do Público transformou em "O vendedor de pássaros".
- Já me aconteceu doutras vezes - confessou-me o escritor.
Um homem inventa uma osga chamada Eulálio para narrador do livro e depois dão-lhe com pássaros na volta do correio. É assim a vida de um escritor.
Agualusa não se perturba e agora está virado para os cavalos. Ou melhor, para um cavalo muito particular, o Rocinante, montada de D. Quixote. Cinco escritores, cada um a escolher uma figura-satélite do Cavaleiro da Triste Figura. Para um projecto de contos.
- Escolhi o cavalo, claro. Porque o burro não constava da lista. Senão tinha escolhido o burro.
Agualusa não se queixa. Dá-se bem com as encomendas: "Porque sou preguiçoso. Se não tiver de escrever não escrevo".
Mas no que toca aos romances a coisa fia mais fino: "Para escrever um romance é preciso estar apaixonado. É preciso acreditar que a ideia central é muito boa. Pelo menos enquanto estamos a escrever".

Luís Graça

Mais cinco dias, mais cinco poemas de Adrienne Rich, em tradução inédita de Margarida Vale de Gato.

Sexto dia.

Esta é a continuação de "A Fenomenologia da Ira", poema de Adrienne Rich em dez partes, das quais apresentamos hoje a sexta. A tradução, inédita, é de Margarida Vale de Gato, bem como as notas.

A FENOMENOLOGIA DA IRA

6. Fantasias de homicídio: não basta:
assassinar é cercear a dor
mas o assassino continua a ferir

Não basta. Quando sonho encontrar
quem combato, este é o meu sonho:

branco acetileno
ondas do meu corpo
que sem esforço liberto
perfeitamente treinadas
sobre quem na verdade combato

esquartejando-lhe o corpo até ao fio
da existência
queimando a sua mentira
deixando-o num novo
mundo; um homem
mudado

6. Fantasies of murder: not enough:
to kill is to cut off from pain
but the killer goes on hurting

Not enough. When I dream of meeting
the enemy, this is my dream:

white acetylene
ripples from my body
effortlessly released
perfectly trained
on the true enemy

raking his body down to the thread
of existence
burning away his lie
leaving him in a new
world; a changed
man


NOTAS
5º verso: "quem combato" por "the enemy" (e também no 10ª verso "quem na verdade combato" por "the true enemy"): ver comentários ao 3º verso da secção 5.
7º verso: "ripples" é mais físico/visual que "ondas"; mas esta é uma boa instância em que qualquer tentativa de particularizar ("pregas" ou "estrias") limitaria a interpretação.
8º verso: mudei a sintaxe para evitar rimas coxas em "ada" ("libertadas" / "treinadas" / "verdade")
9º verso: "raking" é revolver com um ancinho; talvez o mais próximo fosse "esgadanhar", que o Dic. Houaiss indica "parece[r] derivar de gadanha" (gadanha é um género de foice, e também substantivo para o lavrar da terra), embora como significado só nos dê "arranhar com as unhas"; de qualquer forma, e embora eu goste, o verbo é de gosto duvidoso, chamaria demasiado a atenção sobre si próprio.

Margarida Vale de Gato

Profile: John Ashbery.

Marcel Duchamp said that you're not famous unless taxi drivers recognize you. Once, back in the 1970s, John Ashbery was recognized by a hippie cab driver in Greenwich Village. "Hello, John!" the man called out with a mocking lilt to his voice, before speeding off. Mr. Ashbery said no other cab driver has recognized him since.

Continua.

A importância da liberdade de escolha nos "temas fracturantes".

"Equador": um livro de avião.

História real contada por José Eduardo Agualusa:
Uma senhora "carioca", numa livraria do Rio de Janeiro, dirige-se ao livreiro nestes termos: "Quero um livro de avião".
O livreiro: "Quantas milhas?".
A senhora: "Rio-Lisboa".
O livreiro: "Tenho o livro certo para si: 'Equador'".
Recuando 20 anos, um vendedor dos "Amigos do Livro" contou-me que havia gente apenas interessada em mostrar lombadas. Ele teve um pedido de "sete metros e meio de livros de lombada azul".

Luís Graça

A Dafne dos bem-aventurados.

"Estimada Dafne. Não nos conhecemos ainda, mas o meu nome não lhe será estranho, decerto. Sou Apolo. Para ir directo ao assunto, pois bem, sucede que Cupido, na sequência de uma querela comezinha, me atingiu com uma das suas flechas. Eis-me, pois, estimada Dafne, e bem a meu pesar, loucamente apaixonado por si. O problema agrava-se pelo facto de o mesmo Cupido, decididamente com a mão certeira, a ter ferido a si, Dafne, com uma outra flecha, esta dotada do poder oposto, ou seja o de afugentar os pensamentos amorosos. Tudo concorre, em suma, para obstar a que nos encontremos. Seria possível, ainda assim, discutirmos o assunto de maneira civilizada. Espero que sim. Seu, etc..."

Como acaba esta história formidável? Ah, isso é um segredo muito mal guardado.

30.3.05

Uma fotografia de André Sousa Martins.

Cinco dias, cinco poemas de Adrienne Rich, em tradução inédita de Margarida Vale de Gato.

Quinto dia.

A FENOMENOLOGIA DA IRA

5. Loucura. Suicídio. Homicídio.
Não haverá mais saída além destas?
Quem combatemos, que por pouco escapa de vista
deslizando na neve da mata seguinte, embrulha-a
Um borrão de neve, abominável mulher das neves
- simultaneamente o mais destrutivo
e o mais esquivo dos seres
metralhando os bebés em My Lai
evadindo-se face ao confronto.

O príncipe do ar e das trevas
calculando as baixas dos corpos, masturbando-se
na fábrica
dos factos.


5. Madness. Suicide. Murder.
Is there no way out but these?
The enemy, always just out of sight
snowshoeing the next forest, shrouded
In a snowy blur, abominable snowoman
- at once the most destructive
and the most elusive being
gunning down the babies at My Lai
vanishing in the face of confrontation.

The prince of air and darkness
computing body counts, masturbating
in the factory
of facts.


NOTAS:
3º verso: Aceitam-se sugestões para "the enemy", cuja ambiguidade de género sexual recorrerá noutra secção do poema. Aqui, o Vietcong é claramente feminizado, aludindo-se ao massacre de My Lai em que mulheres, velhos e crianças foram chacinados indiscriminadamente pela fúria da Companhia Charlie contra o(a) sinuoso(a) inimigo(a) (cf. http://www.pbs.org/wgbh/amex/vietnam/trenches/mylai.html). Podia ser "rival", mas não dava ar de guerra. Por causa da minha opção, tive de cortar o "always", que em português me pareceu matar o ritmo do verso. Também matei a aliteração "snowshoeing / shrouded / snowwoman"; compensei pelo "br" do borrão, embotado, e medo.
4º verso: "snowshoeing" vem de "snowshoe", sapato com um gadget deslizante para a neve. A minha perífrase pouco conseguida, mais uma vez, alonga o verso, pelo que optei por "mata", em vez de "floresta"; do mesmo modo, "embuçada" ou "embrulhada" parecia-me muito pesado, sobretudo antes de "borrão" (para "blur", de que gosto), pelo que me permiti alterar a sintaxe. Nada científico, enfim.

Margarida Vale de Gato

Três vezes por dia, antes ou depois das refeições.

Outro inimigo do blogger: o blogger.

Antes era simples: acedia-se ao endereço www.blogger.com e em poucos segundos era possível publicar os posts que se quisesse. Nos últimos tempos, porém, são cada vez mais frequentes os problemas com o blogger. Por vezes, é impossível publicar o que quer que seja durante várias longas horas.

Home sweat home.

29.3.05

O papel. Qual papel?



A revista "Lire:" deste mês inclui um extenso dossier sobre o mundo editorial francês. Há textos para todos os gostos. Mas, como já é habitual, a parte mais divertida é aquela em que os editores revelam os métodos de selecção dos originais que chegam pelo correio e os resultados das vendas de novos autores.
Segundo a "Lire:", um primeiro romance raramente ultrapassa os 500 exemplares vendidos. E dos 121 lançados durante a última temporada, apenas 25 venderam 2000 exemplares.
Mas há mais. O texto sobre as bolsas de criação literária também tem a sua piada...

Der Fleck auf dem Spiegel, den der Atemhauch schafft.



Fotografia de Dieter Appelt, um dos artistas incluídos na mostra "Fotokunst", que será inaugurada no dia 2 de Abril, no CPF.

É feio ser pessimista.



De acordo com uma sondagem publicada pelo Comércio do Porto de ontem, o Porto é "o concelho em que os cidadãos estão mais optimistas, apresentando simultaneamente, a mais alta percentagem de inquiridos a achar que o seu poder de compra aumentou (13,4%) e a mais baixa dos que consideram que diminuiu".

Confesso que não percebi muito bem o aspecto em relação ao qual os portuenses estão mais optimistas. De qualquer maneira, eu também quero ser "mais optimista". Não se importam de dizer em que cidade vivem? Eu também estou interessado em mudar-me para lá.

Escritores portugueses no estrangeiro.

Corações bondosos não são para o nosso tempo. Um tipo que se pseudo-denomina Pseudoníbal umas vezes e, outras vezes, Tancredo Bustelo, inunda a minha caixa de correio electrónico com os seus textos miseráveis (às vezes cópias disfarçadas da «Jangada de Pedra»). Trata-me por Doutor, Professor e Insigne Literato (e não está a gozar). Acha, a sério, que eu sou um insigne literato e que tenho influência no meio. Quer que eu faça com que o publiquem (insta-me). Apesar de se ver que é um homem culto e sincero, mandei-o passear, mas escritor que se preza não desiste. Pedi-lhe o nome e a morada. Está bem, está! Só me disse que era do Norte. Agora obceca-me. Ultimamente mandava versos que até podem ser bons (hoje em dia, quem sabe?); vou mandá-los avaliar. Ponho-me a pensar nos pseudónimos dele: Pseudoníbal é ridículo mas claro; mas Bustelo... De repente, fez-se-me luz: Bustelo é uma aldeia, ou vilória, da Galiza, província de Ourense, já por lá passei. O homem, às tantas, é galego! Mas não, porque escreve num português natural e tem aquela coloquialidade culta que, enfim, só um português de berço e criação. Queres ver que o sacana é galaico-português?! A Galiza para mim é tudo, terra do meu pai, há muitos anos que lá não vou, Rosalía de Castro e tal... Basta dizer que na minha família camponesa portuguesa do Norte, quando eu era menino e me mandavam fazer um recado, ainda me diziam para ir a modinho (isto é, com calma, sossegadito). Pois um dia o Bustelo deixou cerce de me escrever. Mas eu já estava obcecado e, com o meu coração bondoso, mandei-me para a Galiza para ajudar o homem. A Galiza moderna desiludiu-me: muita jogatana, muito putedo, muita droga, não gostei. Cheguei a Bustelo, entre as fragas, por um resplandecente fim de tarde de Março, estavam uns homens num largo e não foi difícil informar-me: «Português, aqui? Ah, é o Alfredo Português!», disseram eles (omito os «caralhos» próprios da fala galega). Lá está, o homem chamava-se Alfredo (daí o Tancredo) e era português. Fui a casa dele. A mulher, uma portuguesa gorda, pensando que eu era um velho amigo português do seu Alfredo, com o gesto da mulher resignada-farta-desconfiada-moira de trabalho e com as palavras «agora deu-lhe para o computador», abriu-me acesso imediato aos quartos de dentro. Alfredo recebeu-me mal, frio, nem um copo de vinho, um abraço, nada. Riscara-me da sua vida. Só me disse: «Tenho um livro, mas vai ser editado em castelhano (a gorda encolheu os ombros, revirou os olhos), traduzido pelo Saramago (Professor Saramago, explicitou) e esposa». Estejamos atentos.

Filipe Guerra

Cinco dias, cinco poemas de Adrienne Rich, em tradução inédita de Margarida Vale de Gato.

Quarto Dia.

A FENOMENOLOGIA DA IRA

4. Branca a luz divide a sala.
Mesa. Janela. Abat-jour. Tu.

As minhas mãos, pegajosas de outro modo.
Sangue menstrual
que parece escorrer-te do lado.

Irão os juízes tentar dizer-me
Qual era o sangue de quem?


4. White light splits the room.
Table. Window. Lampshade. You.

My hands, sticky in a new way.
Menstrual blood
Seeming to leak from your side.

Will the judges try to tell me
which was the blood of whom?


NOTAS:
1º verso: talvez demasiado dengosa a minha pirueta poética para colocar o adjectivo da cor na mesma ordem que na língua de partida. É uma mania cá minha.
2º verso: "abat jour": parece-me boa tradução para "lampshade"; ser francês cria uma divertida confusão.
3º verso: aceitam-se sugestões para a tradução de "in a new way".
5º verso: optei por "lado" em vez de "flanco", porque biblicamente também dá para a criação da mulher.

Margarida Vale de Gato

28.3.05

O Filho Único do Meu Avô Paterno

Apenas para justificar que o meu silêncio durante a última semana se deveu à morte do meu pai no dia 19 de Março... dia do pai. Só hoje passei os olhos sobre o que se escreveu sobre um comentário meu, mal lido pelo Rui, mas não consigo responder porque a resposta provavelmente seria extensa. É o que dá querer, no curto espaço de um comentário, dizer muito.
Um abraço, até abril.

23.3.05

Em jeito de galhardete

Fui ao Bar a Barraca, lugar que costumo visitar com frequência em espécie e matéria, interactivamente falando - e diverti-me a valer com os fragmentos referentes àquela coisa da Quinta daquela gente e daqueles inocentes animais.
Senso de humor acutilante, violento q.b. mesclado por uma fina ironia que os "actores" em geral talvez não mereçam por demasiado básicos, sei lá. Como diria o Hitchcock aqui fazia falta gente vilã a valer (olhem este jogo vocabular, c'um raio!) e afinal há só, provavelmente, primários com ouropéis. Famosos onde? Ai Portugal, lembrarmo-nos que já foste courela de um Afonso Henriques heróico e cavalão, dum Condestável formidando puxado dos bíceps...
A seguir estava o poema do Pimenta, aquele sobre o filho-da-puta. Vai daí, no meio do bródio, lembrei-me: e se eu lhes deixasse aqui o meu "Elogio do Cretino"? São capazes de achar algum cabimento...
É grande - é extenso, quero eu dizer - mas está nos "Arquivos do Renato Suttana" e deixa ver se eu sou capaz de linkar, ou lá o que é, este naco:

http://geocities.yahoo.com.br/rsuttana/

É só irem a "Colaborações" e depois clicarem no dito respectivo...
E se acaso não gostarem, manos/as e leitores/as, ao menos por bondade impoluta dêem uma cópia à Lili e aos outros comparsas. Quem sabe se na sua infinita sabedoria e largueza de espírito não acharão apropriado?!

Science Fiction...



- Pois bem, meu senhores - disse o mais velho, que parecia ter ascendente sobre os outros - Façamos então o ponto de situação...o ponto em que estamos de momento. Pode começar você, Lestat...
- De momento, meu caro Vlad - disse repuxando a boca bem desenhada o jovem louro e atlético - temos gente nossa bem motivada em todas as cidades do globo. O discurso que lhes é comum insiste num ponto: o nosso direito a dispormos dos nossos ritmos...da nossa "ideologia" se assim me posso exprimir. Os ricos que paguem a crise...e os víveres, é a tecla em que temos batido sem desfalecimentos. A questão de sermos uma comunidade vilipendiada, perseguida...discriminada...Creio que me faço entender!
- Bem visto! - ronronou Vlad Tapes com um luzir nos seus olhos ardentes - E a nível de jornais, de gente que faz a diferença...como páram as modas? Você, Sagramor, pode elucidar-nos?
- É p'ra já, meus amigos - preambulou o negro de estatura elevada e de musculoso recorte na sua voz cantante e fascinadora - Para já, os homens de negócios que estão à frente desse sector já se juntaram em grande parte a nós. Intuiram que têm de ser compreensivos, modernos, que tem de se ser tolerante para com o nosso colectivo. E na classe política também existe um equilíbrio paralelo...alguns dos homens de topo já entendem a razão dos nossos direitos. E são partidários do diálogo: já se começaram a desobstruir reuniões. O próprio Soares...
- Não me venha com esse nome - disse do lado a mulher de estatura coleante, sensual, de cabelos e olhos negros retintos, agitando a mão de unhas longas e pintadas de vermelho - Esse está para onde lhe dá a brisa, Sagramor!
- Não seja exagerada, Millarca... - disse Vlad Tapes censurando-a com algum vigor - Esse tipo de operadores sociais pode ser bem útil à nossa causa. Os fala-baratos também têm lugar na nossa demanda, não se esqueça. Tornam as massas maleáveis, compreendeu? E quanto ao seu sector? Isso é que interessa, o resto...é fantasia!
- Bom - disse Millarca von Ostrach - O elemento feminino vai-se portando como se espera... Um pouco de moda, um pouco de tratamento televisivo, um bocado de romantismo para adequar as meninges...Percebem?
O jovem Lestat riu com gosto, pondo à mostra os dentes brancos e fortes como os de um lobo viril.
- Certo, cara Millarca, certo. Boa jogada! As senhoras também terão um grande papel nesta opereta... A paz, a doçura de coração...o idealismo - também o usei com esmero lá nos lindos Estados do meu sul...
- Porque bem vêem, meus amigos - disse Vlad Tapes com discernimento - O importante é levar isto com mansidão e equilíbrio. O que se ganha com violências bruscas junto do grosso da opinião pública? Isso devemos deixar, quando faz falta, para as unidades de combate...Elas sabem como agir. Quanto a nós, é irmos pela diplomacia. De contrário ainda nos aparece aí de novo esse metediço, esse violento do Van Helsing e as suas exagerações. Não acham?
E na sala envolta em amena penumbra criada por ricos reposteiros de veludo escarlate, em volta da pesada mesa de carvalho escuro, as cabeças dos confrades acenaram afirmativamente como se fôssem uma só.

Cuida-te, Bush!



Elvis Costello, "King of America" (Columbia, 1986).

Cinco dias, cinco poemas de Adrienne Rich, em tradução inédita de Margarida Vale de Gato.

Terceiro Dia.

A FENOMENOLOGIA DA IRA

3. Plano coração da terra do Inverno.
Os homens lunares voltaram da lua
os homens contra o fogo saíram das chamas.
Tempo sem paladar: tempo sem decisões.

Ódio de si, monocórdio da mente.
A vacuidade de uma vida vivida em exílio
Mesmo nos países quentes.
Cleaver, fixando uma janela cheia de facas.


3. Flat heartland of winter.
The moonmen come back from the moon
the firemen come out of the fire.
time without a taste: time without decisions

Self-hatred, a monotone in the mind.
The shallowness of a life lived in exile
even in the hot countries.
Cleaver, staring into a window full of knives.


NOTAS:
toda a tradução está quinada por aquilo a que João Luís Barreto Guimarães chamaria uma perniciosa tentação didáctica: o poema traduzido explica mais. "Heartland", no cenário bélico que se começará a desenhar na estrofe seguinte, pode ser apenas uma zona estratégica; cedi à tentação de poetizar, mas porque o poema mo permitia e porque penso estar de acordo com uma clara herança imagista na poesia de Rich. Também esta herança pode escudar a opção por "homens da lua" e "homens contra o fogo" para os adjectivos que referencialmente seriam apenas "astronautas" e "bombeiros"; mas neste poema é importante eles serem "homens". "Paladar" em vez de "gosto" também é, concedo, um pouco pedagógico, e "monocórdio" é sem dúvida mais explicativo do que "monotone", mas acontece que em inglês este substantivo tem como primeiro sentido um único tom musical (por oposição a "polyphony"). Pareceu-me que em "monotonia" talvez nem todos lessem esse sentido, embora não goste muito da rima interna criada entre ódio e monocórdio.
"Cleaver", no último verso, alude a Eldridge Cleaver (1935-1998), líder dos Panteras Negras, a que pertenceu Rich. À data deste poema, Cleaver provocara uma dissenção no seio do partido ao continuar a advogar o combate pela violência.

Margarida Vale de Gato

Direitinho regressa ao campo



"Um sorriso inesperado" (Edições Asa, Fevereiro de 2005) marca o regresso de José Riço Direitinho às livrarias. Um acontecimento, pois o seu último trabalho ("Histórias com cidades") data de 2001.
É um homem calmo e fleumático, este meu amigo, que conheço desde os tempos do DN-JOVEM. Logo aí me apercebi do seu grande talento para escrever e da capacidade de inundar de ternura as aventuras e desventuras do amor adolescente. Com "Breviário das más inclinações" conquistou-me definitivamente, mergulhando num universo muito particular.
Agora, com "Um sorriso inesperado", Direitinho escreveu um pequeno livro de contos salpicado de morte por todos os lados. Começando pela belíssima capa, que pode ser interpretada como um anoitecer na bruma da vida, com um ténue raio de sol a acender a esperança.
"Na noite em que ele faltou na adega para a despedida de solteiro, preparou em vinho quente uma infusão de raiz de sardónia depois de ter comido um cozimento de folhas de damiana. Desta erva tinha ouvido contar aos homens mais velhos
(quando nas romarias dos meses quentes se embebedavam e se juntavam à volta de uma fogueira a cortar nacos de uma cabra assada) que, depois de cozida em pouca água e mastigada com demora, trazia a todos a mítica virilidade da juventude".
(página 23 de "Um sorriso com sardónia").
Em 102 páginas, Direitinho embalsamou todo o desespero da Humanidade, cravado a golpes de estilete literário. À familiaridade profunda com a vida do campo, o autor junta uma enorme minúcia descritiva. É patente o gosto de contar uma história, o que é feito com enorme maturidade, através de uma escrita que não é de "usar e deitar fora". As pessoas e a Natureza misturam-se de forma ordeira, mas há um certo fatalismo árabe a impregnar a narrativa. É fácil imaginar o universo de Direitinho desenhado pelo pincel do banda-desenhista belga Comès.
A estrutura literária é "lobo-antunesiana" (coisa normal, para quem escolheu Lobo Antunes na semana em que o DN-JOVEM propôs um texto "À maneira de...", já lá vão mais de 20 anos), com vários socalcos narrativos que se sobrepõem uns aos outros, para voltar ao ponto de partida e rematar depois a história.
Não é fácil escrever desta forma. As peças do quebra-cabeças têm de estar muito bem montadas. O leitor fica também implicado num esforço de compreensão que lhe exigirá um tempo de meditação.
Os títulos dos contos são, à partida, todo um programa: "Um sorriso com sardónia", "As flores das estevas chegaram com a manhã", "Sóbrios cheiros premeditados", "Amor num aroma intenso a jasmim", "O fidalgo louco".
São histórias de desejo por saciar, como um cutelo agressor que nos rebenta as têmporas.
"Ele aninhou-se no que restava das paredes esbranquiçadas de farinha do velho moinho-de-água; e ficou a olhá-la durante muito tempo.Só se mexeu quando ela se despiu e entrou nua na água, segurando com ambas as mãos os longos cabelos ruivos sobre as costas muito brancas e sardentas. Viu-a nadar, sair da água, e caminhar devagar até onde deixara as roupas e depois enxugar-se no lento calor da tarde.
Durante longas horas ele pensou ter enlouquecido; e só a muito custo conseguiu sair do moinho e encaminhar-se sem pressa para a aldeia; isto aconteceu muito tempo depois de o Sol ter desaparecido nos cerros do outro lado da raia".
(página 50 de "Sóbrios cheiros premeditados")
É um livro de dores, de esperanças frustradas, de pequenos peões à deriva na brisa do destino. Com os homens e as mulheres enredados em ervas perigosas, mágicas e enfeitiçantes como beladona, estramónio, erva-damiana, sardónia, dedaleira ou absinto.
"- Te voy a joder, niña!
- Jódeme!
Foi a única coisa que eu consegui dizer (entre o espanto e o medo) naquela manhã em que os olhos se me encheram de lágrimas, depois de o homem se ter retirado de mim e de eu ter sentido um grande asco da sua baba branca de boi".
(página 66 de "Amor num aroma intenso a jasmim").
Este homem sabe escrever. E contar uma história.

Luís Graça

É o Porto, estúpido!

PIM
"[Rui Rio] é uma combinação curiosa de autoritarismo, complexos de perseguição, despotismo iluminado, contabilidade criativa, maldicências acerca de tudo o que estava antes dele, desconfiança crónica, obsessões recorrentes, populismo fácil e uma imensa ausência do que seja o conhecimento de como se deve governar uma cidade. Do outro lado, uma paixão pelos calhambeques, um fascínio novo (não sei se sincero ou instrumental) pelos arquitectos famosos, uma habilidade para usar o Metro do Porto como empresa faz tudo, pegamos em qualquer serviço, fazemos entregas ao domicílio."

Álvaro Domingues, no Público de ontem (não está em linha).


PAM
"Calada tenho estado e sei que muitos outros também o estão. Mas não posso calar mais. A mágoa é grande, assim como a estupefacção pelo continuado desconhecimento ou menosprezo do 'ser' das coisas publicas e isto impele-me a não ficar calada. (...) [Nos últimos anos, no Porto] privilegiou-se 'redesenhar' espaços estabilizados na malha urbana com carga patrimonial apropriados pelo imaginário colectivo, ignorando que a defesa do património diz respeito a todos. Será de ficarmos calados? Mesmo quando, como no caso da Praça da Liberdade e da Avenida dos Aliados, a Câmara do Porto usa a autoridade de dois consagrados nomes da arquitectura [Siza Vieira e Souto Moura] para pretender manter-nos calados? Ora isto não pode estar bem!"

Teresa Andresen, no Público de ontem (não está em linha).

PUM
"A maioria dos portuenses (65,1%) dá nota positiva ao trabalho realizado por Rui Rio à frente da Câmara do Porto. E do total dos inquiridos, mais de um terço (37,2%) atribui-lhe "bom" e "muito bom" - nota acima dos 14 valores (em notas de 0 a 20), [de acordo com a sondagem realizada para o COMÉRCIO pelo IPOM - Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado Ldª.]"

Tema de capa do Comércio do Porto de ontem.

Depois da Rússia

Que faço, cega e bastarda, num mundo/ Onde cada um tem vista e tem pai,/ Onde andam - por anátemas, por aterros -/ As paixões! Onde o choro dos olhos/ É - de resfriado!// Que faço, eu, por costela e ofício ave/ Canora! - virada em fio!, bronze!, Sibéria!/ Pelas minhas visões eu vou - como pela ponte!/ Vou pelas imponderáveis visões/ Num mundo de pesos.// Que faço, primogénita e cantora,/ Num mundo onde o mais negro - é cinzento!/ Onde a inspiração se guarda na garrafa/ Térmica! Que faço com esta desmesura/ No mundo das medidas?!

Marina Tsvetáeva, 22 de Abril de 1923.


Para ouvir este poema, numa leitura de E. Muratovaya, prima play.

22.3.05

Marina Tsvetáeva com honras de salão



Está a terminar o Salon du Livre em Paris. Ficou a saber-se: a média de leitura de cada francês é de onze livros por ano. Em 2004 foram editados em França 50 000 títulos. O volume de negócios das editoras aumentou 4,5% (embora o preço do livro tenha subido em proporção menor). Este ano, o país convidado de honra foi a Rússia (quarenta escritores e quarenta editoras presentes). Dos escritores russos foi dado destaque a Marina Tsvetáeva (talvez pelas relações muito fortes que ela teve com a França aquando do seu exílio). Ontem, o dia do Salon foi-lhe dedicado. Um dia gostaria de traçar aqui uma pequena biografia de Marina (as biografias de quase todos os poetas russos são fascinantes de trágicas), mas hoje deixo apenas este poema traduzido por Nina Guerra e por mim.

Para alguns - não é lei.
Na hora de cumprir
O sono justo, quase santo,
Para alguns não há dormir:

Olho aceso - e no recesso
Da pétala: não és tu!

Para alguns - não é norma:
Na hora de dessedentar
As bocas da discórdia -
Para alguns não há beber:

Mente acesa - e os punhos
Cerrados - nas areias!

Para alguns, sem a evasiva -
Custa caro a vida.

1922

Filipe Guerra

Wall of sound



Um dos melhores, mais radicais e mais influentes discos da década de 80: "Psychocandy" (Blanco y Negro, 1985), dos escoceses The Jesus and Mary Chain.

Cinco dias, cinco poemas de Adrienne Rich, em tradução inédita de Margarida Vale de Gato.

Segundo Dia.

A FENOMENOLOGIA DA IRA

2. Tentando atear lenha que repousou na humidade
pelo tempo que se ergueu esta casa:
mesmo com paus secos não consigo puxar
mesmo com espinhos.
Torço o ano passado num nó de antigas manchetes
- esta rosa não florirá.

Como se sente na gaveta, horas a fio,
a rodilha a que o maquinista limpou as mãos?
Todos os dias durante a vaga de calor
tiravam a temperatura do palheiro
Aninhei-me fugitiva
na branda crepitação do feno

balbuciando: Vem.


2. Trying to light a log that's lain in the damp
as long as this house has stood:
even with dry sticks I can't get started
even with thorns.
I twist last year into a knot of old headlines
- this rose won't bloom.

How does a pile of rags the machinist wiped his hands on
feel in its cupboard, hour upon hour?
Each day during the heat-wave
they took the temperature of the haymow.
I huddled fugitive
In the warm sweet simmer of the hay

muttering: Come.


NOTAS:
1º verso: "log" por "lenha"; a minha opção é mais generalizante, mas não pareceu-me que "tronco" ou "toro" quebrava o ritmo.
3º verso: tentei manter, sem tornar demasiado óbvia, a alusão sexual implícita.
7º e 8º versos: alterei ordem devido a ritmo e extensão dos versos. Não consegui resistir à idiossincrasia de "rodilha" em vez de "monte de trapos"; gosto da palavra e acho que na nossa língua dá acesso imediato à situação feminina. No texto de partida, em vez do mais usual "hour after hour", temos "hour upon hour", que se acrescenta à ideia cumulativa de "pile of rags". Optei por "horas a fio", que joga com a usura da "rodilha" -
10º verso: "haymow" pode ser apenas "meda de feno", mas pareceu-me muito lógico.
12ª verso: optei por transformar dois adjectivos ("warm" e "sweet" em "branda") para não quebrar ritmo, e substitui aliteração em s (espécie de lume que chia) por r (estremecer da brasa amodorrada).

Margarida Vale de Gato

Tochas continua incandescente

Pedro Tochas continua incandescente, ou melhor, "on fire", na linguagem da NBA. Não resisti a bisar o espectáculo "Maiores de 18". Como o nome indica, não é para corações sensíveis ou mentes preconceituadas.
Este trintão que já é mestre da Stand Up Comedy tem-se preocupado em evitar que as pessoas "choquem uma trombose" (expressão com marca registada) e a maneira que encontrou para fazer isso foi escrever um espectáculo com 90 minutos de duração, prolongados numa segunda parte de tertúlia com o público. Quanto à interacção, ela começa mal Tochas sobe ao palco do bar do Teatro da Trindade, onde o êxito obrigou a uma "segunda volta" deste campeonato do riso e da subversão.
Os "desvios sexuais" e as experiências do "cidadão comum" são um bom ponto de partida para um festival de gargalhada em que Tochas se comporta como um autêntico "pistoleiro da provocação", disparando sobre tudo o que mexe.
Porém, um aliciante do "Maiores de 18" é constituir-se igualmente como oportunidade para contactar de forma mais próxima com o ?performer?, que não se furta a uma boa sessão de perguntas e respostas, de molde a satisfazer a curiosidade do público sobre temas tão diversos como o método criativo, os anúncios da Frize ou as suas experiências nos espectáculos de rua por esse mundo fora.
Sem querer "desvendar os mistérios" deste "Maiores de 18", podemos dizer que o surgimento recente de um cão que guia tractores (ideia com pouco mais de um mês) é uma mais-valia de intensa luminosidade.
Tochas forever!

Luís Graça

Um mês depois

Um mês depois da vitória do PS nas eleições legislativas, o país entra de novo na normalidade democrática. Apresentado o Programa de Governo na Assembleia da República, Portugal arregaça as mangas - para esquecer três anos de passado (que tão penosos foram), para fazer o melhor que pode e/ou sabe, tendo em vista melhorar a vida daqueles que o habitam. Assiste-se, por todo o lado, a uma esperança cautelosa. Temos vontade de acreditar (acreditamos em segredo), mas, ao mesmo tempo, temos consciência dos problemas existentes e dos tempos difíceis que se avizinham.
Com uma maioria absoluta de deputados no Parlamento, o PS tem condições ímpares para governar o país. José Sócrates pediu esta oportunidade. Os portugueses resolveram dar-lha, entendendo - de forma racional - o que estava em jogo nestas eleições, votando pela essência e pouco pela aparência, que, nestes tempos que são os nossos, tanto prolifera. Entenderam que, nas eleições, estavam em causa os fundamentos do interesse colectivo, sem os quais nenhum sólido edifício social poderá ser construído.
A maioria absoluta de um só partido que agora sustenta o governo de Sócrates não lhe foi oferecida, no entanto, como uma espécie de carta branca. Se, em termos legislativos, os portugueses sufragaram um programa eleitoral que esperam ver cumprido - com essa atitude não disseram sim, de forma cega, a todas as propostas apresentadas. A maturidade política dos eleitores sabe distinguir as águas. Apenas um exemplo: apesar de terem votado num partido que pugnará pela realização de um novo referendo sobre a despenalização do aborto, não creio que todos aprovem a mudança da lei que restringe a interrupção da gravidez.
Com a tomada de posse do novo governo vimos negada, de uma vez por todas, a ideia de que José Sócrates é uma versão esquerdista da vacuidade de Pedro Santana Lopes. Cremos que a sobriedade com que foi conduzida a cerimónia de tomada de posse (antecedida pela discrição na formação do executivo) não é, apenas, uma estratégia de promoção de uma nova imagem do poder. Embora tenha esse resultado, acredito que significa sobretudo a manifestação exterior de uma atitude interior perante o exercício governativo, que deseja centrar toda a actividade dos ministérios numa séria estratégia de resolução dos problemas do país, dispensando todo o espectáculo mediático desnecessário para apurar uma forte coordenação visando aumento da qualidade de vida dos portugueses, a construção de um país mais estruturado.
José Sócrates não parece ter dúvidas sobre as dificuldades que tem de enfrentar. Entre outras, avulta uma multiplicidade de interesses instalados, com forte poder de influência - que o governo deverá vencer para fazer avançar Portugal. Os exemplos são variados: os farmacêuticos que desejam manter o monopólio da venda de medicamentos; os juízes que farão tudo para que o seu poder e os seus privilégios não sejam postos em causa; os médicos que tudo farão para não serem obrigados a trabalhar no interior do país; as gasolineiras que se oporão à venda de combustíveis nos hipermercados; os construtores que odiarão medidas duras de ordenamento do território; autarcas que combaterão a limitação dos seus mandatos; estudantes que rejeitarão qualquer medida que os chame à responsabilidade; empresários que torcerão o nariz a quaisquer medidas que os obriguem a respeitar os direitos dos trabalhadores...
A tarefa não se adivinha fácil. Esperemos que a força nascida de uma vitória tão esclarecedora nas eleições se concretize em medidas que cortem a direito, tendo em vista - sempre - o crescimento de Portugal.

Ruy Ventura

21.3.05

Cinco dias, cinco poemas de Adrienne Rich, em tradução inédita de Margarida Vale de Gato.

Primeiro Dia.

"A Fenomenologia da Ira" é um poema de Adrienne Rich em dez partes, das quais apresentamos hoje a primeira. Durante os próximos dias apresentaremos as quatro restantes. A tradução, inédita, é de Margarida Vale de Gato, bem como a introdução e as notas.





Persistindo na Adrienne Rich, de quem admiro a coragem da poesia feminista, embora nem sempre me orgulhe de a apreciar, proponho uma tradução de um poema de 1972, incluído no livro Diving into the Wreck: Poems 1971-1972. Como pode ser interessante para alguns, e sobretudo para mim, resolvi desta feita comentar em "NOTAS" algumas das minhas dificuldades de tradução. É um exercício que não posso fazer nos livros, e pensei que talvez os leitores do Quartzo estivessem dispostos a aturá-lo, e inclusive a acrescentar de sua justiça.

A FENOMENOLOGIA DA IRA

1. A liberdade de quem é perfeitamente louca
de besuntar & brincar com a sua loucura
escrever com os dedos mergulhados nela
todo o comprimento de uma sala

que não é, claro está, a liberdade
que tens, andando pela Broadway
de parar & voltar atrás ou continuar
outros 10, 20 quarteirões

mas que se calhar parece invejável
a quem fez compromissos

enrolada na placenta do real
que seria alimento & que a estrangula.

1. The freedom of the wholly mad
to smear & play with her madness
write with her fingers dipped in it
the length of a room

which is not, of course, the freedom
you have, walking on Broadway
to stop & turn back or go on
10 blocks; 20 blocks

but feels enviable maybe
to the compromised

curled in the placenta of the real
which was to feed & which is strangling her.


NOTAS:

Título: "Anger": "zanga", substantivo de "zangado", infelizmente não serve, mas é essa a atitude da voz poética. "Raiva" parece-me demasiado próxima de "rancor", inibindo a acção. "Ferocidade" seria a minha escolha pessoal, mas provocaria uma aliteração demasiado eufónica para o tom do poema. O mesmo para "fúria" e com menor proveito. Ficou "ira", apesar de intrusivamente bíblica.
1º verso: eu gostaria de "a liberdade da louca varrida", mais próximo da sintaxe do texto de partida, mas também demasiado idiomático.
10º verso: "to the compromised": são os integrados no sistema, e aqui ainda podem ser femininos ou masculinos, mas não achei melhor.

Margarida Vale de Gato

Rich

Outros poemas de Adrienne Rich neste blogue, traduzidos por Margarida Vale de Gato:

Os tigres da tia Jennifer;
5:30 A. M.;
Mulheres;
Poema VII de "Fontes";
(Dedicatórias);
Despertar nas Trevas (Primeira parte);
Despertar nas Trevas (Segunda parte);
Despertar nas Trevas (Terceira parte);
Despertar nas Trevas (Quarta parte);
Despertar nas Trevas (Quinta parte).

Dúvidas de um renitente

Compro? Não compro? Leio? Não leio? À socapa, na casa de banho? Às escâncaras, no comboio, no trabalho? Espero pelo filme? Digo que sou um corajoso católico ortodoxo e que o leio para melhor o criticar? Digo que sou um fervoroso intelectual de esquerda anticatólico e o leio para melhor o criticar? Leio e digo que não li porque é uma boa merda? Não leio e digo que li e que é uma boa merda? Não digo nada e leio-o como quem lê um policial rafeiro para descomprimir as meninges? Mas se eu tenho oitenta livros em lista de espera! Leio? Se o Vaticano o pôs no Index é porque quer que se leia! Será que o Vaticano se viu ultrapassado pela editora em estratégia publicitária e isto do Index é o último grande golpe publicitário do Papa moribundo? Será que eles estão feitos, os publicitários do Vaticano e os da casa editorial, para se promoverem reciprocamente? Leio? Não leio? Escondo-o no armário da pornografia e leio-o quando for mais velho? Escondo-o no armário da Rebelo Pinto e leio-o quando alguém genial descobrir o génio nas entrelinhas de um e de outra? Compro, não compro? Compro o boneco insuflável do Garcia Márquez?

Filipe Guerra

Efeito Guronsan para uma manhã de um dia muito digno, muito irrepreensível e muito santo!

Estou confundido com tanta eloquência.

Este é o dia em que a poesia tem destaque de primeira página nos jornais e honras de abertura nos noticiários da rádio e da tv. Afinal, onde está a novidade? Não é assim todos os dias?

Já se vai fazendo tarde

More than half of non-buyers say they would buy books if they became cheaper, and if they became more accessible. The research clearly shows that discounting expands the market, with cost the most quoted reason why non-buyers are rejecting books: 21% say new books are too expensive.

"Mago", 39 - Antunes, 37

Pois. São 25 anos do Jornal de Letras, com direito a suplemento especial. Tempo de celebração e de parabéns. E de sondagem a 40 escritores, que "votaram" nos seus livros favoritos.
Saramago foi citado 39 vezes, Lobo Antunes 37. O livro que "ganhou" foi "Para sempre", de Vergílio Ferreira. Logo atrás, ficaram "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde" (Mário de Carvalho) e "Memorial do Covento", de José Saramago.
O primeiro Lobo Antunes ("Manuel dos Inquisidores") é apenas 14º.

Luís Graça

18.3.05

Um país mais pobre.

"- Como responde às críticas de ser o principal responsável por a JSD não ter, facto inédito, nenhum deputado na Assembleia da República?

- Acho que quem perdeu com isso não foi a JSD, mas o Parlamento, o PSD e o país."
[Jorge Nuno Sá, líder e candidato à liderança da JSD]

Duas semanas após as eleições, o país mergulhou na mais completa consternação, ao descobrir que a nova Assembleia não inclui nenhum representante da JSD. É triste. É injusto. É o fim.

Más notícias #1000

Por acaso, não sei o que pensa a maioria das pessoas, acantonada em cidades, mas a mim faz-me uns frémitos absolutamente íntimos. E tem a ver com o seguinte: falta a água. Ora, não sei quantos por cento de nós e de todas as coisas vivas são, isso mesmo, ÁGUA.

Faltando a água, não é só problema de não podermos tomar banho, nem sequer duche, nem de as torneiras enferrujarem ou por qualquer outro modo se tornarem disfuncionais: é o problema de não haver comidinha. Claro, claro, sempre se pode importar, que nos importa? Ponham essa no arquivo, se faz favor. Importa que não há bagulho para pagar toda essa importação. Reparem, havia aqui uns palermas a fazer (como se diz) os tomates, o milho, até o trigo, quem sabe, kivis, feijão, batata. Alguns dos palermas foram para o Luxemburgo e puxa, agora, é só espanhóis, que é como quem diz, marroquinos em Espanha, a colher morangos e tal.

Pede-se, porém, a extrema atenção de todos os circunstantes para o seguinte: há uns anos, esta seca seria um acidente de percurso. Hoje em dia, tem de entrar nos nossos cálculos a possibilidade de ser mais uma manifestação do estado caótico do clima, a coisa pior que podia acontecer com o efeito de estufa: a absoluta impresibilidade das condições do tempo.

Tenho aqui as sementes, já comecei mesmo a semear. Mas que fazer, que fazer? Riam-se, riam-se à vontade com a malta atrasada dos campos.

Um uivo para a sexta-feira



CARLOS ALVAREZ


As árvores contemplam-me; os pirilampos
dissimulam a luz quando caminho
e o murmúrio inocente do regato
exprime-se a meia voz e esconde-me algo.
Os vastos pedregais, o fugitivo
espírito do vento, tudo
transforma o seu tamanho, tudo
se transfigura quando passo
- na mão que me denuncia
na voz que me assinala.
Já o sabem
os que açulam os cães, os que preparam
o meu pescoço para o laço de mil nós.
E na forja o ferreiro põe à prova
contra mim a sua arte...os vagarosos muros...
o poço aonde um cíclope invisível
vigiará os meus gestos encadeados...

Porque no fundo obscuro do espelho
não vi só o meu rosto ao desnudar-se
quando à noite me olhei;
nele não estavam só
o meu golpe de garra e o seu uivo de gozo
a deleitar-se co'a intriga: um olhar de susto
recordo que também ali havia
e uma rápida fuga
que me cobriu de quartzo...

E me cravou esta lápide no peito.


de "O uivo do lobisomem"

Trad. NS

Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica. Um blogue dedicado a todas as artes em proporções iguais, mas não exactamente.

É preciso falar também no Báltico.


Petras Kalpokas, Pavasario pradzia, 1907.

Chegou a Primavera. Quando assim é, dá-me para escrever à toa, peço desculpa, dão-me as saudades do viajante, ânsias do que não tenho; e decido: vou-me embora, e percorro os mapas da memória. As amigas da minha filha, com namorados e amigos, zarparam para a Finlândia, e eu sei que lá a Primavera é mais forte do que aqui e cai como um machado em brasa no gelo. Voo sobre as fronteiras: Estónia, Letónia, Lituânia, as três irmãs bálticas. Não chega, a minha primavera dura o tempo de um sonho. Percorro então os sítios russos e bálticos e as notícias são más: incremento do neonazismo na Estónia e na Letónia, grandes manifestações fascistas com apoio tácito das autoridades (saem ao encontro dos marchistas jovens contra-manifestantes vestidos de prisioneiros dos campos de concentração nazis e quem é que as autoridades prendem? Quem havia de ser?). Repressão, fome e frio, ainda não chegou ali a Primavera. Na Lituânia, nada disto, sempre foi uma irmã diferente, até na língua (temos cinco dedos na mão...); ora à esquerda, ora à direita, os lituanos sempre fizeram uma oposição coerente, nacional (e não nacionalista) à injustiça (mesmo os comunistas no tempo dos seus tutores soviéticos). Por que é que nem na Primavera se fala do Báltico? Também, se se falasse, já sei, era para dizer: «vai lá, vai, achas que era melhor no tempo dos soviéticos?», e assim se justificaria a repressão, a fome e o frio de hoje.

Filipe Guerra

Olha o Estoril Open!

Olha o Estoril Open a espreitar e a fazer festinhas no meu coração de jornalista e amante de ténis! Já lá vão 15 anos e ainda não falhei nenhuma edição. Este ano vou cobrir o evento para a TV Guia, obviamente numa perspectiva televisiva.
Avançou no calendário e radicou-se entre 25 de Abril e 1 de Maio, entalado entre dois feriados. E vai valer a pena. Os espanhóis voltam a estar representados por três verdadeiros craques: Juan Carlos Ferrero, Carlos Moya e Albert Costa. Os suecos têm no "bombardeiro" Joachim Johansson e em Robin Soderling dois homens que prometem cativar a atenção dos espectadores. E cuidado com os argentinos: Gaudi, Chela e Calleri.
Belo ténis em perspectiva, agora que uma eliminatória da Taça Davis deixou de ser no fim-de-semana de qualificação e os tenistas já vêm rodados do pó-de-tijolo de Monte Carlo e Barcelona.
No que toca às meninas, dentro do possível para a cotação do torneio, o panorama também é apetecível: Jelena Dokiv, Dinara Safina, Flavia Penetta e até duas chinesas, Li e Zheng.
Venha de lá esse colorido e 9 dias de bom ténis no paraíso do Jamor!

Luís Graça

17.3.05

Real, real, porque me abandonaste?

Ao lermos num comentário do João Luís Barreto Guimarães que a poesia deste se inscreve numa "poesia quotidiana, real, coloquial" ficamos logo a cismar e a tentar imaginar o que possa ser o contrário de uma "poesia quotidiana, real, coloquial". Parece que afinal muita da poesia que tenho lido ao longo dos anos não é real, e eu, ingénuo como sou, pensando estar a ler sobre coisas reais, eis que constato que mais não fiz do que ler versos sobre coisas irreais. Como ainda sou novo talvez não seja tarde de mais para corrigir o erro, desenjoar de tanta irrealidade e deixar-me conduzir, como bom aluno, para a realidade. Ainda bem que não falta quem pregue a moral do real. Nem tudo está perdido enquanto tivermos entre nós os apóstolos da realidade.
Real, se excluirmos o emprego da palavra como ferramenta de trabalho em algumas tentativas de explicação fenomenológica do mundo, significa rigorosamente nada. E quanto ao quotidiano, eu pergunto: o que é o quotidiano? O quotidiano é feito de pormenores, pequenos acontecimentos, minudências e detalhes mais do que de reflexões, abstracções, pensamentos obscuros, exaltações, ejaculações, achaques ou crises de patetice? E existem uns sem outros? Que bizarra e, numa palavra, IRREAL concepção é essa do quotidiano? O que eu sei é que o quotidiano é feito de tudo e de nada, é feito de tempo, que corre por nós dentro seguindo o seu curso e levando na corrente alegrias e misérias, baixeza e elevação, pequenos acontecimentos e grandes tragédias. Eu não sei o que possa ser uma poesia que não seja do quotidiano. Alguém mo poderá explicar?

Mas entrando nesse jogo da poesia "quotidiana, real, coloquial", o que é um poema como "Acerca de Gatos", de Eugénio, senão um poema do "quotidiano", com "a leitura do Público ao domingo" metida ao barulho e tudo? E quando o Cesariny escreve "Gerente, este leite está azedo!", o que é isso? Não é o quotidiano? Não é o "real"? Então é o quê? E quando o Manuel António Pina, que é o que de melhor tem a poesia portuguesa contemporânea, escreve "resta-me ver televisão, / votar, passear o cão/ (a cidadania!)./ Prosa também podia, / e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria", isso é o quê? E não é que o António Franco Alexandre - pois, até ele! - escreve, no "Aracne", uma coisa tão pouco "quotidiana, real, coloquial", como "Abro a porta do armário; na janela/ há um reflexo bom de lua esguia;/ com patas firmes vou à sala, espreito/ o teu corpo dourado que dormita/ diante da tv; ainda não sabes/ que vim de viagem, dentro de uma mala"? E quando o A. M. Pires Cabral vê vir os ciganos "dos lados de Grijó/ e estão todos de frente para mim/ e parecem-me gente - nada mais", o que é isso? Ah mas esperem lá, o A. M. Pires Cabral não é um gajo da cidade, não escreve poesia urbana mas poesia rural, e o campo - toda a gente sabe! - não é real. Aliás, estamos mesmo em condições de dizer que no campo não há quotidiano, e que por isso mais vale não escrever sobre ele. E o Vasco Graça Moura, quando diz "na praia lá do guincho as velas/ de windsurf saltam sobre as ondas/ e o meu olhar, equestre, / pula nos peitos das banhistas, enquanto/ um cachorro tenta agarra a cauda"? Não tem "real" suficiente? Não é do "quotidiano"? E a Sophia? Querem o "real" da Sophia? Ora tomem lá: "Brilha a cidade dos anúncios luminosos/ Com espiritismo bares cinemas/ Com torvas janelas e seus torvos gozos/ Brilha a cidade alheia. // Com seus bairros de becos e de escadas/ De candeeiros tristes e nostálgicas/ Mulheres lavando a loiça em frente das janelas". Ah mas isto não é poesia "quotidiana"!? Ah então desculpem-me, por quem sois! E o Gastão Cruz, tão suspeito de aridez e de abstracção, não é que foi escrever, o malandreco, uma coisa tão "literal" como esta no "Rua de Portugal": "Na horta atrás da casa laranjeiras/ figueiras e uma/ romãzeira junto à nora"; ou como esta, no ainda fresco "Repercussão": "Reabro uma/ gaveta da infância/ e encontro a colher em desuso caída/ a sopa lentamente se escoando/ no prato fundo"? Ah mas querem ver que afinal não é isto o quotidiano, mas outra coisa qualquer! E a Fiama, com o seu louva-a-deus morto em cima da toalha de mesa, também não é real? E o Sena? E o Ruy Belo? E o Sá-Carneiro mais os Cafés da sua preguiça? E o O'Neill? O Cesário, pois claro. Mas e então o Fernando Pessoa!? Se alguém em Portugal escreveu sobre o "quotidiano", foi ele: sobre um quotidiano universal, comum a qualquer homem de qualquer parte do mundo, e não só sobre o quotidiano de um guarda-livros da baixa lisboeta, o que faz toda a diferença.
E é com a superficialidade e a vacuidade de todos estes conceitos que alguma crítica literária tem estupidamente compartimentado e peneirado a poesia portuguesa recente. Como se alguns poetas tivessem o monopólio do real, do quotidiano e do coloquial! A questão é que muitos dos nossos poetas (alguns bons e alguns maus) são uns complexados. Não lhes basta dizer que escrevem poesia, têm que ostentar um cartão de sócio, como se tivessem vergonha de serem confundidos com os outros, os poetas do "irreal" (ou os poetas irreais), que, coitadinhos, escrevem a poesia errada. Não existe poesia real e poesia irreal, só poesia boa e poesia má. Nem há que tomar à letra aquilo que foi apenas uma "boutade" do Joaquim Manuel Magalhães, cuja poesia, aliás, é tudo menos despojada, tudo menos literal (e toda cheia de qualidades).

E querem saber que mais?

O real
é tão natural
quanto a sua sede.

Não faças isso



Um título nada recomendável nos tempos de pirataria generalizada que correm: "Download This" (Virgin, 2001), dos ingleses New Sector Movements.

Exilado no Quarteto.



Sinal dos tempos, onde já vão as meias-noites do cinema Quarteto, a Universidade Cinematográfica da Rua Flores do Lima! Hoje fui "obrigado" a colher uma sessão das 21 e 45, para não deixar fugir "Exílios", do realizador argelino (Argel, 1948) Tony Gatlif.
Sentei-me na cadeira e a sala estava vazia, tal como o átrio. Da última vez tinha ficado só na sala, imerso na solidão de estar rodeado de tubarões.
Desta vez, os "exilados" acabaram por chegar a uma dezena.
Abre-se o ecrã com uma música crua, em grande plano sobre as costas de Romain Duris, o principal motivo que me levou a ver o filme, já que apreciei sobremaneira a comédia "O albergue espanhol".
Romain Duris está todo nu, à janela. Depois deixa cair um copo para a rua e a cerveja desce vertiginosamente uns bons 15 ou 20 andares. Duris vira-se e fica em nu frontal. Na cama está deitada, a olhar para ele, Lubna Azabal. Nua. A comer gelado e a ouvir música.
O filme está enunciado nesta abertura: nudez, crueza, música forte, marcadamente étnica, desilusão, desenraizamento. Um pouco como na abertura de "Bonnie and Clyde". Mas os rostos que Tony Gatlif escolheu estão longe do glamour hollywoodiano de uma vedeta em ascensão como Warren Beaty e uma diva a estrear-se nos patamares da glória: Faye Dunnaway.
"Road movie", um pouco como "Easy Rider", este "Exílios" fica a meio caminho entre a ficção e o documentário. É um projecto muito pessoal, ou não tivesse Gatlif composto grande parte da música para o filme, escrito o argumento e redigido o guião.
Gatlif, nascido em Argel e com raízes romenas na família, parte em cruzada à descoberta do mundo magrebino e cigano, com passagem pela zona de Sevilha, Marrocos e Argélia. Nem sequer faltam os ciganos portugueses!
A busca de raízes de Duris na Argélia é acompanhada pelo percurso de sensualidade autofágica de Lubna Azabal, um dos trunfos maiores do filme, a transpirar sexo (ou desespero?) por todos os poros, numa das presenças mais fortes dos novos rostos do cinema europeu.
Nota-se que Gatlif deu muita amplitude de movimentos aos actores. A sua câmara passeia pela estrada e detém-se nos rostos dos marroquinos e argelinos com uma grande autenticidade. Tudo é credível. Como num documentário do "Odisseia" ou "Discovery", mas com uma carga demasiado crua para poder ser um documentário normal.
Diz-se pouco. Mostra-se muito. Expõe-se a paleta de sentimentos humanos e exibe-se sem pudores a diferença entre o modo de vida ocidental e uma África bem próxima da Europa e afinal tão longe, em que a língua francesa funciona como uma ponte.
Às vezes o filme parece quebrar, mas depois endireita-se. Não é uma obra-prima. Mas é suficientemente consistente para poder reivindicar-se como um objecto raro no panorama actual do cinema europeu.

Luís Graça

Os galos de Apolo



Sim, eles eram justamente célebres. Cantavam que era um regalo alertando toda a confraria dos deuses e de alguns humanos mais dorminhocos. Algum deles teria cocoricó de cana rachada? Mas, isto digo eu, mesmo que tivesse não se devia notar no meio daquele coro celeste.
Mas isso eram os deuses. Quanto aos humanos, mais propriamente quanto a mim, se não tenho galos tenho pombos. Ou seja: tenho meia dúzia de pombos no rebordo da varanda por cima da janela do meu quarto. Pombos, pombinhos? É como vos digo - pombos sem dono, pombos órfãos devido ao passamento - que lá esteja em paz! - do seu defunto ex-proprietário, adepto até ao fim da nobre arte da columbofilia.
Morreu, morreu - que se lixe a taça: e sem querer, sem nada fazer, herdei-lhe a equipa sem herdar. Porque os pobres voláteis, desertos de casa e de carinhos, foram então criar o seu lar no tal cantinho que lhes pareceu acolhedor.
Todas as manhãs me acordam com o seu doce arrulhar.
E eu deito-lhes restos de pão, punhaditos de milho, uma mancheia de miolos de bolo caído em desuso...
Mas - diabos ou deus do céu - comecei com esta estorieta e perdi-me! Porque nem era disto que eu vos queria falar! Estas madurezas de poeta bissexto...
O que eu vos queria contar, com natural aprazimento, era que finalmente o Dan Brown foi posto no Index da hierarquia de Roma. Conforme declarou o sr. cardeal Tarcísio Bertone - que não sendo um crítico literário é contudo uma pessoa muito atenta - "Devia ter tomado posição mais cedo!..." (cito de memória). Sim, se fôsse mais expedito podia ter evitado a compra de uns milhares ou milhões de tomos do prosador em causa.
Mas bom - bom mesmo! - era se o Santo Ofício pudesse, como antigamente, tomar conta do pêlo àquele ficcionista. Seria um regalo - e Torquemada, lá nos "transcendentes recantos" como dizia o Eça, decerto rejubilaria.
Que Deus nos valha, Eminência! Ou então, ao menos, que o cantar dos galos de Apolo acordem os dorminhocos para o quotidiano dum mundo que já não vai lá com actos-de-fé...

16.3.05

Post Scriptum

Aqui há uns tempos, a Margarida Vale de Gato enviou-me esta tradução de Haroldo de Campos de um poema de Mallarmé. Afazeres vários e a natural distracção do personagem (eu) deixaram-no esquecido algures nos mails. Aqui vai com um grande obrigado a MVG. A nota é dela.

O Sineiro

Embora o sino acorde uma voz que ressoa
Clara no ar puro e limpo e fundo da manhã
E desperte(*), infantil, uma outra voz que entoa
Um angelus por entre a alfazema e a hortelã,

O sineiro evocado à clave da ave, irmão
Sinistro cavalgando, a gemer sua loa,
A pedra que distende a corda em sua mão,
Só ouve retinir um vago som que ecoa.

Esse homem sou eu. Dentro da noite louca
Agrada-me puxar a corda do Ideal,
De pecados se alegra a plumagem leal

E a minha voz me vem aos pedaços e oca!
Mas um dia, cansado deste afã obscuro,
Ó Satã, eu roubo esta pedra e me penduro.

(*) O meu texto diz "desperta", mas não acorda com o texto de partida

ERRATA: Onde se lê "Haroldo de Campos", leia-se: "Augusto de Campos"

Eu já estive no telhado da Casa da Música

Meus caros amigos, deixem-me partilhar convosco uma pequena experiência pessoal. Vejam só que ontem estive em cima da Casa da Música. É isso mesmo. Não me limitei a entrar no edifício, a andar lá por dentro, a olhar para cima e para baixo, a subir e a descer escadas, a abrir e a fechar portas, a conhecer salas e auditórios, a desvendar bastidores e camarins, a esgueirar-me para debaixo de um palco, a sentar-me em cadeiras da Finlândia, a ouvir as peripécias daquela que parecia ser uma "obra impossível" e a imaginar as músicas do futuro. Também fui ao telhado da Casa da Música. Aquilo é íngreme o bastante e tive de apelar ao pouco de funâmbulo que há em mim para me manter na posição vertical. Dir-se-ia que o "meteorito" de Rem Koolhaas tinha acabado de cair do espaço sideral e só faltou, a mim e aos dois engenheiros que me acompanhavam, fazermos como os astronautas americanos: ir até ao ponto mais alto da casa e plantar lá uma bandeirinha.

Tu também, Zang, meu filho?



Um homem entra na sala de cinema para ver "O segredo dos punhais voadores", de Zang Yimou. Meia-dúzia de pessoas na sessão da madrugada. Até aqui, tudo normal.
Um homem vai mesmo preparado para ver um filme que não lhe encha totalmente as medidas. Um homem sabe que os filmes orientais estão na moda, venham da China, Hong Kong, Japão ou Coreia. A crítica anda delirante com as orientalices cinematográficas.
Um homem até viu o "trailer", por isso não se pode queixar muito. Um homem até gostou mesmo muito de filmes do Zang, como "Ju Dou", "Raise of the Red Lanters" (não me lembro do título português) e, principalmente, "A Tríade de Xangai".
Um homem está preparado para dar um desconto.
Mas um homem não aguenta ver um Autor a fazer um cinema menor de forma superior. Um homem fica deslumbrado com uma direcção de fotografia verdadeiramente notável, com uma qualidade de som absolutamente espectacular e uns efeitos especiais à "Matrix".
Um homem fica com a alma em paz ao contemplar as cavalgadas fantásticas com a copa das árvores em fundo. Lembra o mestre Kurosawa ou a fotografia de Shoei Imamura em "A balada de Narayama". Um homem até fica maluco de prazer ao fruir a beleza plástica das cenas de combate numa floresta de bambu, numa orgia de verde de vários tons. Um homem até sabe apreciar tremendamente um duelo mano-a-mano com a neve a cair, como se fosse Estalinegrado. Um homem percebe as piscadelas de olho a "Duelo ao sol" (mas na neve), mas falta ali qualquer coisa: Gregory Peck e Jennifer Jones.
Mas um homem passa o filme quase todo com vontade de gritar: "Ah! Lin Chung!". Um homem passa o filme quase todo a lembrar-se do terrível tirano Kao Chiu. Um homem passa o filme quase todo a lembrar-se daqueles saltos impossíveis, que provocavam gargalhadas a miúdos de 12 anos.
Um homem não pode aceitar um argumento alinhavado de forma completamente incompetente, com incongruências atrás de incongruências. Um homem pode aceitar que as leis da física sejam constantemente violadas por punhais, homens e animais. Mas não valia a pena dar tantas punhaladas ao nível do argumento. Que, de qualquer forma, já é quase inexistente, servindo apenas para promover um "blockbuster" destinado a vingar num mercado de espectadores McDonald.

Um homem pode trocar as pipocas por arrozinho.
Sair da sala de mansinho e ouvir críticas completamente diferentes ao filme.
Um homem vai até ao Galeto comer uma ceiazinha. A pensar: "Tu também, Zang, meu filho?". Se calhar merecias uma bambuada no toutiço, sem receio de danificar a gramínea, que não tem culpa nenhuma.
Mas depois um homem pensa: olha que coisa, o chaval já passou dos 50 anos, também tem direito a filmes menores, ou não tem?
Sei lá...
Estou a ficar velho...
Esta mania de ir para o cinema alimentar a alma com obras-primas...

Luís Graça

Os bois de Apolo.



Hermes nasceu pela manhã. Ao meio-dia já tocava cítara e à tarde era um consumado ladrão de bois.

Nesta imagem extraordinária, que surge numa hídria datada de 530 a.C., Hermes está deitado no seu berço, enquanto Apolo, Maia e Zeus (estes últimos mãe e pai do recém-nascido) discutem acaloradamente. Apolo queixa-se que o pequeno Hermes assaltou o rebanho dos deuses. Deitado no berço, Hermes nega tudo. Mas, depois, acaba por confessar o crime. E sem muito esforço, graças ao som irresistível da lira que ele próprio inventara, consegue convencer Apolo a aceitar este instrumento em troca dos animais. Desta forma, a lira passou a ser propriedade de Apolo que, desde então, se tornou um admirável intérprete da lira. E Hermes, por sua vez, ficou na posse dos bois que roubara.

Boas Notícias #2

Houve uma vez várias guerras, morticínios e simples genocídios que provaram que a barbárie não era coisa do passado, reminiscência duma idade negra da Humanidade que o progresso varrera com os seus ares salubres, mas, sim, produto industrializado, ainda que eventualmente, secundário, de alguns dos mais brilhantes cérebros e processos e instituições da Europa desenvolvida e avançada.

No meio duma dessas guerras, a primeira grande mundial, ainda enebriados de expressionismo (expressão da nova época), alguns poetas, descobrindo que os seus irmãos caíam como tordos por força dos factores externos ambientais, embora é verdade mais raramente por genuíno impulso interno de overdose, acharam por bem dizer merda a tanta civilização, incluindo a que dera tão excelsos versos antigos e modernos e, inclusive, irreverentes ejaculações literárias.

Surgiu assim dada.

Eis senão quando outros também irritados com a qualidade do ar acharam que não bastava. E, após várias experiências laboratoriais, em que arriscaram não poucas vidas e cometeram não pequenos erros, como compete, chegaram à eventual conclusão de que a poesia devia ritmar a acção, como também dissera outro zangado muito antes, e inventar novos mitos civilizacionais, onde ainda e sempre não seria perigo nem medo dizer a palavra liberdade. Acharam também que, se os bois devem ser chamados pelo nome, a liberdade e o amor não lhes devem ficar atrás, coisa que na altura chocou talvez por antiquada. Estas experiências foram interrompidas por outra Grande Guerra Mundial e o consequente domínio dos Grandes Ignóbeis que tanto marcaram os chamados anos que se seguiram que ainda hoje muitos elegantes gostam de discutir no quadro do horizonte que os tais fixaram como imortal, pelo que a palavra fascismo é correntemente utilizada para eliminar qualquer rival numa discussão de balão.

Pensam porém dois ou três sobreviventes e adventícios dessas surrealidades que é urgente, sim, não termos pressa. E várias outras coisas que agora não lhes apetece dizer.

Boas notícias # 1



Do Dr. Malte Laurids Brigge, com pedido de publicação, recebêmos um pequeno texto - e citamos - "com um abraço a esse fixe desse Manel, que já passou comigo um par de horas muito profícuas, nomeadamente tagarelando sobre agricultura biológica...".
O distinto ensaísta, como se sabe, foi galardoado com vários prémios de qualidade, entre eles o "Duíno Booker Prize" e o "Von Thurn und Taxis Award", além de quase ter sido condecorado pelo Dr. Mário Soares e quase traduzido pelo Prof. Vask Giéme.
Recorda-se que àcerca do Dr. Brigge, tempos atrás e após ter visitado o nosso país (fez férias nomeadamente no Algarve), se falou que iria ter coluna no incontornável "Jornal de Letreiros e Artesanato". Contudo, após meditação competente, os dirigentes da prestimosa organização intelectual acharam e bem que "o estilo do Dr. Brigge não se adequava muito à brandura das nossas concepções" devido "ao discurso vincadamente das bandas do Osterreich", tendo-se optado antes por ali inserir uma secção depois justamente célebre, "Textos de circunstância", da lavra do grande Edmundo Prates Carmelo. E segue o texto:

Prezado amigo:

É possível que se não tenha ainda visto, reconhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milénios para observar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os milénios como um recreio da escola em que se come o pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, a despeito de invenções e progressos, a despeito da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado à superfície da vida? É possível que se tenha recoberto mesmo esta superfície - que ao fim e ao cabo seria ainda alguma coisa - com uma substancia incrivelmente enfadonha, que a torna parecida com móveis de salão durante as férias de Verão?
Sim, é possível.
É possível que se julgasse ser preciso recuperar o que aconteceu antes de se ter nascido? É possível que fosse preciso recordar a cada um que nasceu dos anteriores, que o sabia portanto e não devia dar ouvidos a outros que pretendiam saber cousa diferente?
Sim, é possível.
(...) Mas se tudo isso é possível, se tem mesmo só uma ligeira aparência de possibilidade, - então, por quem sois!, é preciso fazer qualquer coisa(...) escrever dia e noite: sim, ter-se-á de escrever e isso será o fim...

Aceitem, srs. directores, os protestos da minha extrema consideração.

PS - Também sei que tencionou escrever-vos o sr. Pablo de Nepomuceno Ruiz Picasso, a propósito de um enfoque sobre pintura - mas como tinha o seu tempo ocupado por uma natureza morta como que delegou em mim o esclarecimento do assunto.

Pelo nó do estômago.

Um poema biligue de Margarida Vale de Gato.

SYLVIA'S BABIES

Could I ever have muffled your babies,
boogey-woman fashion, following
your own footsteps stomping
off the nursery to roast
ourselves in the kitchen oven?

The voice of their sleep seeping
away in dusky darkness,
mum, mummy, mother dumb,
the two little heads giddy
like helium balloons.

Later on came big daddy bear terrified
that someone had not slept in his bed,
mightily he pulled down the airy
jerky toddlers he held fast to
the knot in his belly.

FILHOS DE SYLVIA PLATH

Pude eu alguma vez calar as tuas crias,
seguir-te as pisadas de mulher do saco
em marcha decidida rasando
rumo à cozinha a soleira das crianças
para nos cozermos no forno?

A voz do seu sono ressuma
nas semi-trevas, mum,
mamã, muda mummy,
as duas pequenas cabeças tontas
como balões de hélio.

Depois veio o grande papá urso assustado
pois alguém não dormira na sua cama,
muito valente puxou os miúdos
cabriolando aéreos e apertou-os com força
pelo nó do estômago.


Margarida Vale de Gato

Dois.

Ainda a propósito do poema de Margarida Vale de Gato, eis as duas versões da mesma história.

Ariel, de Sylvia Plath | Cartas de Aniversário, de Ted Hugues.

Coisas que muito importam a nós, mortais.


Gustave Moreau, "A Aparição", 1874-76.

Trata-se de um diálogo de "Là-Bas", de Huysmans (1848-1907), romance obrigatório para os fãs da Besta, aspirantes a necromantes, demonólogos de fim-de-semana, médiuns de família, seguidores de Gilles de Rais e afins. "Là-Bas" nunca foi traduzido para português, como acontece, aliás, com toda a obra de Huysmans à excepção de "En Rade" ("O Castelo do Homem Ancorado", Estampa, 1985). É uma pena, porque poucos romances da "decadência" conseguem ser tão divertidos. Em finais do século XIX, "Là-Bas", publicado em 1891, era o que os franceses tinham de mais parecido com as sessões das três da manhã no Fantasporto.

"- Permita-me, caro senhor, mas nós podemos escolher de entre doutrinas diversas e, atrevo-me a dizê-lo, muito claras. - Ou a aparição se forma pelo fluído que sai do médium em transe combinado com o fluído das pessoas presentes; - ou então existem no ar seres imateriais, elementais, como lhes chamam, que se manifestam em condições mais ou menos conhecidas; - ou ainda, e temos aqui a teoria espírita pura, estes fenómenos devem-se às almas dos mortos evocadas.
- Bem o sei, disse Durtal, e isso horroriza-me. Conheço também o dogma Hindu das migrações das almas que erram após a morte. Estas almas desencarnadas estão condenadas à vagabundagem até que reencarnem e possam alcançar, de avatar em avatar, uma pureza completa. Bom, a mim parece-me suficiente viver uma vez; agrada-me mais o nada, o buraco, do que todas estas metamorfoses; consola-me mais! Quanto à evocação dos mortos, o mero pensamento de que o salsicheiro da esquina possa forçar a alma de Hugo, de Balzac, de Baudelaire, a conversar com ele, pôr-me-ia fora de mim, se eu acreditasse em semelhante coisa. Ah! Não, ainda assim, por mais abjecto que possa ser, o materialismo é menos vil!"


Huysmans, Joris-Karl. Là-Bas.
Paris, Garnier-Flammarion, 1978, p. 143.

Manual de instruções para uma vida banal



Raymond Aron (1905-1983) traduzido por um dos maiores poetas portugueses do século XX, Ruy Belo:

"Os marxistas-leninistas gabam-se de criar um homem novo, que se adaptaria à sociedade comunista com que sonham. Embora se esqueçam disso amiúde, os ocidentais também querem criar um certo tipo de homem - não um homem novo, porque não acreditam que a natureza humana possa ser modificada nas suas profundidades, mas um homem que dá vida e confere excelência às instituições - livre relativamente à sociedade cujas leis respeita e cujas imperfeições denuncia, livre porque reivindica e obtém o direito de procurar, sozinho se for preciso, a verdade e a salvação"

Ensaio sobre as liberdades. Trad. de Ruy Belo.
Lisboa, Editorial Aster, [c.1965], p. 210.

Olho surrealista (III da série)



Fotogramas do filme "Un Chien Andalou", realizado por Luis Buñuel e Salvador Dalí em 1929.

Más Notícias #2

Decidido a estragar o almoço de toda a gente, gostaria de chamar a atenção para o seguinte.

M. King Hubbert, geólogo americano, formulou uma lei pela qual, logo que estivesse gasta metade das reservas de petróleo de um país a respectiva produção atingiria o pico e que a partir daí só poderia decrescer. A "lei de Hubbert" verificou-se correcta nos EUA.

Pergunta muita gente se não estaremos a atingir o pico de Hubbert a nível do mundo. Nesse caso, calma, não é o princípio, nem o fim do mundo, é apenas um pouco tarde.

Para estragar mesmo o almoço, aconselho a ler esta peça, que não sendo da autoria dum profeta da desgraça nem dum louco tresvairado (inventemos esta, que nos estava a fazer falta), não deixa de ser de um pessimista.

Más Notícias #1

Para variar, aqui vão más notícias.

Pensa muito boa gente que a poesia é aquela parte criadora e jovem da língua, que o poeta é o visionário que mostra o mundo a partir de novos prismas nunca antes utilizados. Erro fatal e grave.

Quem se tenha debruçado sobre o nobre Homero ou os poetas da tradição oral em geral (por exemplo, os bardos finlandeses que entoavam esses cantos a certa altura reunidos por Elias Lönnrot no "Kalevala") logo percebe que um dos instrumentos de "criação" poética é a repetição monótona de fórmulas estereotipadas, as quais como que marcam o ritmo do poema.

Exactamente assim como nos rimos das anedotas que (habilidosamente, insinuando) confirmam os nossos preconceitos: elas são variações sobre um tema comummente aceite, que nos fazem sentir seguros. E esses poemas também serviam para reforçar o sentimento de pertença a uma comunidade, eram pois factores de conservação - não de inovação.

Como os bebés que riem quando vêm aparecer de novo a face da mãe ou do pai que se havia escondido, ou que tiram prazer da incessante repetição de um gesto.

Grande pedra.



Ao fim de um ano e meio de existência, o Quartzo, Feldspato & Mica é o preferido por vários dos mais destacados actores do meio político, empresarial e cultural da cidade do Porto.

Nomes como Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto Moura, Oliveira Marques, Orlando Gaspar e até, imagine-se, Rui Rio, convergem no elogio ao Granito, que é o mesmo que dizer ao Quartzo, Feldspato & Mica. Siza Vieira, em declarações ao Jornal de Notícias, defendeu que a aposta no granito, para além de outros motivos, é uma aposta na "estética". Orlando Gaspar, o histórico dirigente socialista do Porto, por sua vez, considerou que o granito "é uma questão de gosto". E Rui Rio disse, no seu habitual tom significativo, que no Quartzo, Feldspato & Mica "não se toca". Entretanto, toda a imprensa de terça-feira fazia eco destes elogios ao Quartzo, Feldspato & Mica. O Comércio do Porto anunciava que "é o granito quem mais ordena por estas bandas" e o Público lembrava que, a partir de agora, "o Quartzo, Feldspato & Mica será o mais adoptado".

No entanto, também há quem não tenha embarcado nesta onda de euforia em torno do granito. Rui Sá, o vereador comunista da Câmara do Porto, considera que o Quartzo, Feldspato & Mica torna a cidade "demasiado escura", e Laura Rodrigues, a inefável presidente da Associação de Comerciantes do Porto, vai ainda mais longe: "Infelizmente, o granito tornou-se uma moda." Bem, todos os grandes protagonistas têm os seus maus hábitos. E a este propósito, aliás, vale a pena citar um dos nossos principais admiradores, Rui Rio: "No Porto é impossível escolher o que quer que seja sem haver contestação."

15.3.05

Primeiro post de Filipe Guerra.


Dostoiévski, fotografado por Panov, a 9 de Junho de 1880

Sou tradutor dos clássicos russos, todos os dias e a toda hora; vivo, salvo seja, com eles. «Nesse clássico mundo paralelo, estás com certeza fora da realidade actual», direis. Então, olhando para tantos políticos, com Santana Lopes e Paulo Portas à cabeça, por que raio o jovem Fiódor (Dostoiévski), preso na fortaleza de Pedro e Paulo (a mais terrível do regime czarista), escreveu isto que lereis adiante no ano de 1849 e nos parece tão contemporâneo, tão nosso companheiro de hoje? Parafraseando Manuel Resende, ando a traduzir isto (do conto «O Pequeno Herói»):

«Estes senhores fazem carreira dirigindo todos os seus instintos para, precisamente, a má-língua grosseira, a censura mais míope e o orgulho mais desmesurado. Como não têm mais nada que fazer senão descobrir e registar os erros e as fraquezas alheios, e os seus bons sentimentos são tantos quantos os de uma ostra, não lhes custa nada viver a sua vidinha [...] Envaidecem-se muito com isso. Têm quase a certeza, por exemplo, de que a maior parte do mundo lhes deve pagar tributo; que o mundo é como uma ostra, de novo, que encomendam para o caso de lhes apetecer comê-la; que toda a gente, menos eles, é parva; que todo e qualquer um, que não eles, se assemelha a uma esponja ou a uma laranja que espremem quando precisam de sumo; que são senhores de tudo e que toda esta louvável ordem das coisas existe precisamente pelo facto de eles serem tão inteligentes e especiais. No seu orgulho desmedido, não admitem ter defeitos, alguns defeitos. [...] Habituaram-se de tal modo à vigarice que acabam por se convencer de que a vida é mesmo assim, isto é, aldrabar para viver; e passaram tanto tempo a convencer toda a gente de que são honestos que acabam por se convencer também de que o são e de que a sua vigarice é precisamente isso: honestidade. [...] Colocam em primeiro plano, sempre e em tudo, a sua pessoa, que é a sua jóia preciosa, o seu Moloch e o seu Baal, o seu ego magnífico. [...] Têm uma frase feita de reserva para tudo, uma frase que - cúmulo da sua habilidade - é a frase que está na moda. [...] Costumam munir-se das suas frases, sobretudo, para exprimirem a sua profundísssima simpatia pela humanidade, para definirem qual a mais correcta e razoável filantropia [...]. Não reconhecem a verdade na sua forma incerta, transitória e não acabada, rejeitam tudo o que ainda não amadureceu, não se estabilizou, tudo o que está ainda a fermentar. O homem cevado vive toda a sua vida alegremente, com tudo feito e servido, nunca fez nada nem sabe como é duro o trabalho [...] Resumindo: o meu herói é nem mais nem menos do que um saco gigantesco, cheio até não caber mais, atafulhado de sentenças, de frases da moda e de etiquetas de todos os géneros.»

Filipe Guerra

Olho psicadélico (II da série)



Do fundo do caldeirão do rock psicadélico da década de 60, 13th Floor Elevators e "The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators" (Collectables, 1966).

Fugir, fugir.

"Queria fugir com o gato que está no muro. Porque o gato tem dono, mas é livre. Eu não sou".

Isto é que diz um dos jovens do Centro Educativo de Santo António (Tutoria do Porto), no filme "Liberdade/ Opressão", de Regina Guimarães e Saguenail.

A Cidade Surpreendente



Um regalo para a vista, este blog. Um poema visual sobre o Porto. Uma cidade sempre surpreendente.

Dêem-me com um asfódelo.

Ptolomeu Hefestião conta a história de uma rocha marinha que resistia imutavelmente a todos os ataques dos homens e à fúria mais terrível das águas e dos ventos. Mas que era incapaz de resistir ao suave toque de um asfódelo. Ora aqui está uma bela história sem qualquer intenção moral para começar bem o dia. Ou mal. Dependendo do ponto de vista.

Eu fechei o meu livro. Eles abriram o deles.

Domingo, 7 da manhã - Termino de ler "Tusa", de Melvin Burgess e fecho o meu livro. Olho de soslaio para "Chega de Saudade" (Ruy Castro) e penso: "Põe-te a pau. És o próximo".
9 e 45 da manhã, Parque de Jogos 1º de Maio, Inatel, Lisboa - Os adversários do par Luís Graça/Jorge Roxo abrem o livro deles. Duas derrotas (3-0 e 3-1) no campeonato de pares do Inatel.
Resultados com alguma contundência, como é natural, talvez inspirados pela peça teatral que o Inatel editou: "Meia-dúzia de maldades", 3º prémio Novos Textos/2000. Nos Pares do Inatel acho que não nunca de antepenúltimo. Em último já fiquei umas três vezes. O meu antigo parceiro ia correr pela ponte.
Jogo Pares uma vez por ano, sem treinos.
É um desleixo ímpar.

Luís Graça

O putativo que já não é.

Leio nos jornais que José Lello, até agora um dos putativos candidatos socialistas à Câmara do Porto, já não está interessado em candidatar-se à autarquia. Isto a avaliar pelas suas mais recentes declarações sobre a matéria. Ora, Lello terá dito que o papel de presidente da Câmara do Porto se resume "à gestão de matérias de intendentes", sendo pouco mais do que um "burocrata". Mais: Lello terá confessado ao Expresso que "para a Câmara do Porto basta um contabilista. E para isso já lá temos um".
Estas declarações podem parecer talvez um pouco despropositadas vindas de alguém que foi candidato a candidato durante vários meses. Mas a verdade é que revelam uma clarividência invulgar para um político. Lello fez uma leitura irrepreensível do sentimento da maioria dos portuenses. Tal como Lello, estou plenamente convencido que o Porto prefere ver o deputado socialista ocupado com outras tarefas que se coadunem melhor com o seu génio. Ou seja, bem longe da Câmara.

14.3.05

Olho em fundo negro



De José Mário Branco, "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (EMI-VC, 1971).

Uma fotografia de André Sousa Martins.

Metzengerstein

Nenhum leitor terá paz enquanto existirem no mundo palavras como esta.

Efeito Guronsan para manhãs de segunda-feira.

A tusa dos adolescentes.



É verdade. Estou mais uma vez a ler um livro de temática vincadamente sexual. Ou sociológica? Uma ficção pura e dura ou escalpelização de uma fase da vida de toda a gente, a adolescência?
Bem, estou a ler (vou quase no final, o livro lê-se à velocidade de um Fangio) "Tusa" (D. Quixote), de Melvin Burgess, um inglês nascido em 1964, tendo-se fixado em Londres em 1983. Vive em Manchester e é um dos mais famosos autores de livros para a juventude.
À partida, poderia ser mais um livro a usar o sexo como isco de vendas. Mas vai muito para além disso. Num estilo que apresenta semelhanças com o de Sue Towsend (os diários de Adrian Mole), evidencia-se pela grande capacidade narrativa, pelo realismo que imprime e pelos diálogos verdadeiramente deliciosos.
A linguagem dos jovens é captada de forma bastante conseguida. A linguagem, de forma geral, anda muito longe do obsceno, mas não se inibe de usar termos mais fortes. E muito bem. Qualquer suavização se tornaria artificial e faria o livro perder o pé.
O autor consegue "penetrar" nas cabeças de rapazes e raparigas a caminho de ter idade para votar. O seu universo de traumas e sonhos, de alegrias e desilusões, a sua relação com a família e os camaradas de liceu, o despertar das pulsões sexuais de forma perfeitamente avassaladora. Ou seja, fala do amor, do sexo, da amizade. No fundo, fala da vida, numa Inglaterra dos nossos dias. Mas consegue "tocar" os jovens pelo seu carácter universalista.
O trio de protagonistas (Dino, Jon e Ben) é pintado de forma consistente, passando muito para além de esboços. É um prazer acompanhar as suas desventuras e aventuras, num registo que é essencialmente divertido mas sabe também deixar transparecer uma ternura imensa pelos dramas de uma fase da vida em que tudo nos é possível ainda, embora na altura se possa questionar esta "certeza".
Fica uma amostra, extraído da página 28, capítulo 3 (O Grande Segredo), relatando a cena de sedução entre uma jovem professora e Ben, um seu aluno de 17 anos:
"Já no apartamento dela, ela fez café e sentaram-se no sofá a bebê-lo, em silêncio. Depois ela levantou-se, correu as cortinas, fê-lo pôr-se em pé no meio da sala e começou a despi-lo.
Costumava fazê-lo e Ben pensou que um dia destes gostava de ser ele a comandar. Ali despiu-o todo, peça atrás de peça, como se estivesse a desembrulhar um presente. E agora ali estava ele, nu até aos tomates, no centro da sala com uma erecção que nem um pilar de cimento. Se por um lado era extremamente desconfortável estar naquela figura com uma professora a rondá-lo, o que se seguiria era tão deliciosamente indescritível que pouco lhe importava repeti-lo as vezes necessárias. Ela agarrou nessa erecção com uma das mãos quentinhas e deu-lhe um longo, espaçado beijo. Dava para matar leões marinhos com aquele arpão. Puxou a blusa dela para cima e debruçou-se para lhe soltar o soutien, e ela agachou-se e engoliu-o todo com a boca.
Era um chavalo de sorte."

Luís Graça

12.3.05

Contra mim falo

Sentia que me tinha esquecido de qualquer coisa. Não sabia bem o que era. Uma espécie de zoeira a ratar, a desbastar por dentro... O Valdez - o meu Zé, o Prof. Travassos Valdez que me trata do pêlo quando faz falta - bem me disse tempos atrás: "O problema resolve-se comendo muito alho...Isso é uma questão de irrigação, pá. A carótida, 'tás a ver? Casca-lhe no alho, seis sete dentes por dia. Não há melhor para a artériazinha...". E eu lá tentava. Vai que não vai, alho p'ra cima. Mas por vezes distraio-me - e já está! Pois. Uns esquecimentos, coisa de chatear: chaves aqui ou acolá? Este poeta belga que afinal é suíço. A data dos anos do primo amado ou da cunhada saudosa que foram à viola. Já perceberam, meus passarinhos?
E hoje descobri. Ao ler num blog visitado por acaso. O nome? Um dos muitos que há. Daqueles que estimo e que, agora que já sou um pesquisador encartado, de vez em quando leio ou relanceio com aprazimento.
Pois foi o Cesário. O meu verdinho. Da côr do meu Sporting - esta coisa da bola para mim é uma espécie de aventura exactamente na desportiva. Como fazia em pequeno... Mas adiante!
É que fazia anos que o mestre do nosso Pessoa em Fevereiro batera a bota. Já há uns aninhos, tá de ver. Vocês sabem. E na imprensa, Net incluída, terçaram-lhe lembrança. E a mim ficou-me este hiato - que vou agora colmatar.
Este que vai a seguir foi um poema que em tempos me solicitaram para uma antologia de homenagem. Mandei. Passou tempo. Não saíu na antologia. Nas tintas...Mas ficou-me a pergunta: porque teria sido? Depois de o ter publicado mais tarde no "Flauta" (um dos meus cartapácios, o sr. Flauta de Pan de seu nome completo) alguém meu conhecido me descriptou o mistério: um dos beltranos da editora achou - juro-vos que é verdade! - que o poema gozava um bocado o Cesário...
Aquilatem, se tiverem pachorra para tal. Ele aqui fica, para se divertirem eventualmente durante um minuto. A mim serve-me para assim pedir desculpa ao filho do sr. Verde pelo esquecimento.
E bom fim de semana...


CESÁRIO REVISITADO

Um armário, quando se abre, faz sair
de qualquer prateleira sonetos ou memórias.
E então é assim: deverá dizer-se infância?
Ou burguesa dengosa? Ou repolhos franceses?
Ou manjericão, que alinda as estrofes várias?
A palavra é, como se sabe, inútil
se pelo meio perdemos anos ou dedos impacientes
pondo-se em tudo: sentimentos nutridos
de coisas que encontramos ou buscamos achar
em seios parisienses ou vamos lá lisboetas
connosco em férias numa esplanada de manhã
ou seja em Carcavelos fumando o velho cigarro
ligeiramente a Sul da loja onde guardava
a memória dum Pai, a côdea manducada
no verdadeiro "Sentimento dum Ocidental". Sim
moçoilas, saudáveis e prestantes
como nos louváveis alexandrinos
de bastante coleguia p'ra depois
do desmaio amoroso ou antes manuscrito
na Quinta se calhar de Linda-a-Pastora
que é recanto onde laranjas bem se encontram
como versos roubados e que logo
após se recomendam aos fregueses
do poema próprio ou alheio. Indiferente substância
desta e doutras
comerciais casas. O vate

procura em diversos estancos sua matéria
de viver ou morrer com chapéu na cabeça
e exegetas ao lado, perna fina
de escrita ou surrobeca nacionais. Peixe pôdre
afinal e rimas inglesas bem ferradas
com algum leve foco de infecção
bem para dentro dos versos e das cores: azul
ou verde ou vice-versa (como na anedota)
onde deviam estar violeta
ou branco nocturno. E é bom dizer-se
- para quem saiba destas coisas singulares -
que o Mestre o querido Mestre o tal do corpo
setentrional e sapiente (um pouco
digamos ao jeito do António Nobre, que por pirraça
habitava caspité! outro Parnaso)
nos seus melhores momentos dorme agora
entre braçados de camélias
ou erros tipográficos
- espinafres, beldroegas, pimentões
que é esse o melhor prato da Poesia. E isso tem
uma tal melancolia, podeis crer
que a mostrar-se em Lisboa explodiria

e rimas que aparecessem lhes chamaria um figo.

11.3.05

Em busca do Proust perdido.

In the United Kingdom, all volumes of the new translation project of Marcel Proust's "In Search of Lost Time" were published together in 2002. But readers in the United States have been left stranded midway through the novel, forced to endure two of the most Proustian of experiences: jealousy and loss.
Only the first four volumes of the new translation - from "Swann's Way through Sodom and Gomorrah" - are available here. (...) It will therefore be at least 2018 before readers in the United States can find the final three installments of the new translation ("The Prisoner and The Fugitive", and "Time Regained") in their local bookstores. Mais.

Estou a traduzir isto

Não digo de que livro.

" Dois dos homens e a mulher pediram a graça de morrerem como cristãos, que lhes foi concedida. Um carrasco encapuçado pôs­?lhes, um a um, um colar de ferro enferrujado à volta do pescoço e apertou­?o com um torniquete. Os membros das vítimas asfixiadas estremeciam em convulsões horríveis, e os olhos pareciam querer saltar das órbitas, mas em poucos instantes tudo se acabou. Pendiam flácidos presos nas cordas como se tivessem sido apanhados numa rede."

Quasi perfeito



Uma discreta pérola pop: "Field Studies" (Up, 1999), dos norte-americanos Quasi.

A minha rolha é melhor do que a tua



O "Grande Debate sobre a Cortiça" está em curso na Wine Spectator. Não perca a oportunidade de eleger a sua rolha favorita.

AMC's há muitos

"Sr. Dr. Rui Neves, Director dos cinemas AMC,
de que lhe serve ter os seus funcionários desmotivados? De que lhe serve as perseguições e a caça às bruxas? Acredite nos empregados que tem, seja honesto connosco. O que tem a ganhar a empresa AMC com as suas políticas de gestão? Políticas arcaicas utilizadas em países do Terceiro-Mundo e que à muito passou à história. Acorde para esta realidade, o sr. ainda não reparou que é visto pelos seus empregados como o mau da fita, aquele de quem ninguém gosta, o sr. de todos os males. Porquê? (...)"

Citação do blog Têm Frio? Arranjem Outro Emprego.