29.4.05



Fotografia oferecida a este blogue pelo autor deste.

Barraca



"A Barraca está no Porto para apresentar uma viagem pela história do Teatro, dos gregos aos autores contemporâneos. O espectáculo "SER e NÃO SER" ou estórias da História do Teatro vai estar no Rivoli Teatro Municipal, nos dias 29 e 30 de Abril. Hoje, pelas 20h30 decorre, no bar do Rivoli, o lançamento do livro "Ser e Não Ser", editado pelo Círculo de Leitores."

Entretanto, e a propósito deste espectáculo, o Comércio do Porto publica, na sua edição de hoje, uma interessantíssima entrevista com Maria do Céu Guerra, actriz e encenadora d'"A Barraca".

Faustino

Faustino, que durante quinze anos
Viveu longe da casa e da família,
Regressava, já rico pela usura,
No seu navio à pátria desejada.
"Meu Deus", suspirou o honrado Faustino
Quando ao longe avistou a cidade natal,
"Meu Deus, não me castigues pelos meus pecados,
Nem me dês a paga que mereço!
Deixa que encontre, em tua graça, sãos
E alegres a mulher, o filho e a filha."
Suspirava assim Faustino, e Deus ouviu-o.
Chegou - e achou a casa farta e sossegada.
Encontrou a mulher e os dois filhos,
E - ó benção de Deus! - mais dois ainda.

Gotthold Ephraim Lessing (Alemanha, 1729-1781).
Tradução de Paulo Quintela.

Para um fim-de-semana espiritual



A voz incomparável do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan no disco ("Shahen-Shah") que, em 1988, lançou (pel)a Real World, editora de Peter Gabriel.

It is time Mr Neville

4:49

A situação é delicada, bem o sei. Mas a verdade deve ser respeitada antes de tudo. E eu sei que Sarah Morton preferiria antes passar a noite toda a ouvir nonstop uma única faixa, com o título "The Disposition of the Linen".

Página 83



"Gajevicz abanava a cabeça em ar de aprovação.
- Às vezes as sinas realizam-se, mas ao contrário. Olha o Tadeusz, por exemplo. Avisámo-lo, mas ele não ligou e continuou a repetir: 'Não tenho medo da Gestapo; uma cigana disse-me que vou casar no dia trinta de Maio.' Foi preso no dia treze e fuzilado no dia trinta. A mulher tinha misturado a linha do coração com a linha da vida."

Czeslaw Milosz, A Tomada do Poder.
Tradução de José Jacinto da Silva Pereira.

Pó-de-tijolo: O diário quotidiano de Max Smash

DAY FIVE (4ª-feira, 27 de Abril)

O dia mais quente de sempre do Estoril Open? Não sei. O que sei é que o calor atacou em força.
Cheguei às 11 e picos ao Jamor. Desisti de ver os Pares no court 2, muito exposto à brasa. O croata Karlovic (2 metros e 7) disparava serviços-morteiro. Ganhou 6/3, 6/3. Aquilo até mete impressão.
Pequena entrevista a Nuno Delgado, que está a colaborar numa divulgação de azeite. Ida até à Tenda dos Sponsors.
Fiquei anestesiado, sentado numa cadeira, durante uns 20 minutos. Passado um bocado, um quarteto de cordas da Orquestra Municipal de Lisboa, atacou clássicos de música erudita. Pedro Santana Lopes só chegou mais tarde aos camarotes, por isso perdeu a hipótese de pedir Chopin aos violinos.
Almoço.
Ida até ao Central, para o Garcia-Lopez face ao Pim-Pim Johansson. O sueco falhou demasiado. E lá se foi mais um cabeça-de-série.
Ainda vi um bom bocado do primeiro set do Gaudio-Tabara. Quando saí o Gaudio estava a vencer por 5-1. Acabou por ganhar 6/2,6/1. Mais um progóstico falhado. Desta vez por quatro jogos. O meu palpite era 6/4,6/3. Este ano não devo revalidar o título.

DAY SIX (5ª-feira, 28 de Abril de 2005)

Hoje foi o dia de assistir ao encontro mais cotado de sempre na história do Estoril Open: Carlos Moyà - Juan Carlos Ferrero.
Ganhou o Moyà, após uma interminável batalha em três sets que durou quase três horas.
Eu estava bem encaminhado para sacar uns pontinhos no concurso de prognósticos, mas como o Moyà desperdiçou o primeiro "set-point"... fiquei a zeros. Mesmo assim, tive a grata surpresa de ver que ganhei ontem, mesmo falhando por quatro o número de jogos do Gáudio-Tabara.
E agora estou em quarto lugar, a 10 pontos (uma vitória) do primeiro, uma miúda de A BOLA (Edite Dias) que é mais do andebol.
Dei um pulinho do Centralito, para bronzear o pulso esquerdo (tem a marca do relógio de pulso), mas fugi logo. As miúdas não estavam a jogar nada! Não quis saber que estivesse em acção a irmã do Krajicek!
Amanhã, quartos-de-final. A emoção está ao rubro!

Beijinhos e até amanhã, do vosso:

Max

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Luís Graça

28.4.05

O Silêncio é de Ouro (Bizantino)



Um dos álbuns mais fascinantes saídos das cinzas do terrorismo sónico dos primeiros anos da "cena" industrial é este "Zamia Lehmanni: Songs for Byzantine Flowers" (1996) dos SPK (Socialistiches Patienten Kollektiv), colectivo responsável por agressões sonoras tão memoráveis como "Information Overload" de 1980 e "Leichenschrei", de 1982 (ainda hoje desafios para qualquer apreciador de músicas extremas). Do seio dos SPK sairiam Graeme Revell, que gravou algo de verdadeiramente assombroso e único em 1994, "The Insect Musicians", composições feitas a partir de sons de insectos, e Lustmord, o mago/necromante do "dark ambient", responsável por alguma da música mais assustadora que poderão ouvir ("The Monstruous Soul", "Heresy", "The Place Where the Black Stars Hang", entre outros). Mas neste "Songs for Byzantine Flowers" os SPK deixaram para trás as unidades fabris onde se entretinham a dizimar ouvidos internos com martelos pneumáticos, serras eléctricas, rebarbadoras e outros instrumentos de tortura, às vezes em território próximo dos primeiros Neubauten e dos Throbbing Gristle, e fazem jus ao nome do disco. Trata-se de música verdadeiramente bizantina, de cruzamentos improváveis, de exuberâncias, exotismos, sonoridades e ambiências decadentes, surreais, indutoras de estranhamento e cruzando, tal como na arte bizantina, influências orientais e ocidentais. Como se o canto gregoriano tivesse nascido na Indonésia, estão a ver? Alguns dos instrumentos e matérias-primas sonoras utilizadas provam isso mesmo: "tibetan drums", "balinese bell tree", "balinese puppet gamelan", "african flutes", "javanese flute" ou "new guinea flutes" misturam-se com "orchestra", "choir", "piano", "bells", "drums", "bass", "cello", "violin", "gregorian chants" e com ambiências tipicamente industriais como "printing factory ambience", "factory horns", "sheet metal", "chains", "railway yard ambience" e... "toads" (sapos) e "crows" (corvos) na faixa "Necropolis", baseada na música de Adolph Wolfli. Já estão a imaginar o que pode sair daqui? "In the dying moments", a quarta faixa, é o que o título promete, uma "ars moriendi" medieva em cinco minutos de surrealidade sonora. E já que se fala em decadência, diga-se que uma das faixas tem o nome de uma flor muito apreciada - pelo seu aspecto artificioso e antinatural - por Des Esseintes, o herói de "À Rebours" de Huysmans (com direito a excerto do dito livro no "booklet" do CD ao lado de excertos de Yeats, Mallarmé, Lautréamont, Rimbaud e Baudelaire): "Alocasia Metallica".

Por assim dizer

Amor que tudo move

Baudelaire dedicou dezasseis anos da sua vida a traduzir Edgar Allan Poe. Saíram cinco volumes. Os documentos que atestam ter o francês intuído no filão fantástico de Poe um trampolim para a sua própria projecção de autor satânico jamais podem desdourar (como diria o Manuel) este caso de amor. Não conheço exemplo mais veemente na história literária de um génio obrando, constante e paciente, para a glória de outro. Não conheço milagre semelhante em tradução: cento e cinquenta anos depois, as versões de Baudelaire são ainda as que os franceses de hoje lêem. Cento e cinquenta anos depois continuam a editar-se e reeditar-se em Portugal (é o caso dos mais recentes livros no mercado, da Guimarães) traduções de Poe feitas a partir desse francês tão novo e enérgico, e servil ao seu farol, de Baudelaire.

Margarida Vale de Gato

Abrir aspas. Fechar aspas

as noites não são desertas. há sempre um carro que passa, capítulo sim, capítulo não, estragando a ficção vazia da janela.

ale 2:47 AM

Outro aforismo para os dias que correm

Vale tudo. Até arrancar os olhos aos cegos.

Pó-de-tijolo: O diário quotidiano de Max Smash

DAY FOUR (3ª feira, 26 de Abril de 2005)

12 horas - Encontro no Monumental com o meu amigo Joaquim Cardoso Dias, professor e poeta. Um chaval da colheita do DN-JOVEM, uma escola de formação para escritores, fundada pelo Manuel Dias e fundeada nas nossas almas.
Missão: ofertar ao Alex Corretja um livro de poesia que tem um poema chamado... Alex Corretja.
Vem no "O preço das casas" (Gótica, 2002), com capa de Damião Porto.
E então, na página 35, diz assim:

hoje vou acreditar que ao escrever
o nome de um pássaro branco
o teu silêncio fascinado
se atira ao mar
com estas asas

O Alex esteve no Centralito 2 horas e 46 minutos para perder em três sets com o Feliciano Lopez. Depois, com o auxílio do Miguel Seabra (que nos levou à sala de jogadores), conseguimos ofertar o livro ao Alex, que ficou muito curioso com o poema e agradeceu. Como sempre, uma postura elevada e simpática.
Enquanto esperávamos, ficámos na conversa com outro bom exemplo de simpatia, o encordoador Rui Neves, ainda completamente absorvido pelo ritmo incessante de "amanhar" raquetas umas atrás das outras.
Mas isto foi já de noite.
14h25m - Eu o Quim já almoçámos e fomos de abalada até ao court número 1, onde o campeão do ano passado lutava pela vida com o costa-riquenho Martin, repescado da Qualificação. E não é que o Chelas foi mesmo à vida? Resta-lhe a prova de pares, ao lado de Robredo.
15h45m - Já estamos no court central, mas desta vez na cabeceira mais "batida a sol", porque o Quim não pode entrar na cabeceira destinada à Imprensa. Fiquei com o pescoço vermelho e um "bronze à camionista" nos braços, com direito a marca de relógio de pulso e tudo.
Vemos o Moya a ganhar ao Mantilla. No primeiro "set", o Moya desbaratou completamente o Felix. Mas depois a coisa complicou-se e nunca se sabe o que daria um terceiro "set".
17h55m - Já bem instalados no Centralito. Vimos o Pim-Pim Johansso a despachar o espanhol Calatrava e já estamos a seguir atentamente o Corretja-Lopez.
19h55m - Um casal nas bancadas. O senhor tem nas costas uma foto. Ele e ela de férias. Diz assim: "Made in Antíguas". Very in love, mas o cavalheiro está de óculos escuros à macho latino, com um toque tão subtil de ternura que nem vos digo nem vos conto.
20h02m - Lopez elimina Corretja.

Cantinho dos trocadilhos

# 27 Mantilla foi chamado de Mantequilla por um árbitro, em pleno court central, numa fase de qualificação, da primeira vez que veio ao Estoril Open. ESTA HISTÓRIA É VERÍDICA.
# 28 Carlos Moyà está tão interessado no atletismo que vai deixar o ténis e dedicar-se ao Maratona. Por sua vez, Carlos Móia já solicitou um wild-card para Roland Garros.
# 29 Os tenistas ofensivos gostam de subir à rede. Os alentejanos deitam-se nela e esperam que passe. Os internautas navegam.
# 30 Não é preciso ser um jornalista brilhante para brilhar no Estoril Open. Basta ter uma credencial ao sol. O reflexo é perfeito. Parece um espelho.
# 31 Se os fins de tarde no "court" central podem ser muito frios, não há como um Mantilla para trazer calor humano. Os jornalistas podem ajudar os espectadores com frio, cobrindo o acontecimento.
# 32 Felix Mantilla gosta tanto de chá de tília que na sua rua é conhecido pelo "Man-Tílico".
# 33 Todos os grandes toxicodependentes adoram o Estoril Open. É só inspirar. O pó anda no ar em todos os "courts".
# 34 Os senhores que regam o "court" não podem ser confundidos com "O regador mágico", uma sitcom inglesa que foi exibida nos anos 70, na RTP, com o título original de "Pardon, my genie".

Diálogos Identificados da Realidade Jamoral

- Olha uma vespa ! (Quim)
- Deixa-a ir. Se fosse uma Harley-Davidson é que valia a pena. (Max Smash)

Beijinhos e até amanhã, do vosso:

Max

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Luís Graça

27.4.05

Out of Africa

Estou a traduzir um livro muito bom sobre a História da África Negra, da autoria de Elikia M'Bokolo. É curioso mergulhar assim de novo no passado e cotejá-lo com a pobreza intelectual do nosso presente.

Lembrando-me das discussões actuais sobre África, e vendo a perfeita vacuidade das perorações dominantes (e incluo também aqui as dos actuais dirigentes africanos, mas sobretudo os nossos comentadores vazios de história e cheios de estórias) não posso deixar de pensar como é refrescante ler isto de Julius Nyerere:

«O sistema actual foi instituído pelos Estados industrializados para servir os seus interesses. Trata­­-se de um facto histórico e não de um juízo moral! Daí resulta que o grupo das nações industrializadas - que também agem em grupo quando tratam com os outros países - detém as alavancas das finanças e das trocas comerciais internacionais e dispõe também das riquezas acumuladas por séculos de colonização e de diplomacia das canhoneiras, e ainda graças a um avanço inicial nas técnicas de produção de massa. Também neste ponto se trata de factos e não de juízos morais. Se a moral tem algum papel a desempenhar neste assunto, e esse é o meu entendimento, esse papel diz respeito ao futuro. Pois nós, o Terceiro Mundo, exigimos agora que se mudem os sistemas que enriquecem os ricos e empobrecem os pobres, e isso na época das outras mudanças surgidas no mundo: o fim do colonialismo, os progressos da tecnologia e a nova aspiração da humanidade à igualdade e à dignidade humanas.»

Claro que os dirigentes de então foram o mais depressa possível varridos para debaixo do tapete. Não me identifico plenamente com eles, nem com os regimes e Estados saídos da descolonização, mas que tinham outra estatura, tinham.

Existiu noutros tempos um grande gigante



Por estranho que pareça, estas são duas das mais antigas traduções de Gârgantua e Pantagruel existentes em Portugal. Pelo menos a fazer fé nos dados disponibilizados pela Porbase. A primeira data de 1945 e a segunda de 1946. Pertencem à Colecção Pinóquio, de livros para jovens, que era dirigida por Henrique Marques Júnior (que também traduziu os livros), e editada pela Livraria Latina, que, na altura, também era editora.
Estes livrinhos custaram-me apenas cinquenta cêntimos na feira de saldos que a Latina (Rua de Santa Catarina, no Porto) está a promover até ao fim deste mês. E ainda restam vários exemplares.

O Município Plantou um Freixo

O município plantou um freixo
no passeio de casa
da minha tentadora vizinha
para que eu veja com que graça
ela varre as suas folhas no outono

plantou-o o intendente revolucionário
e agora quem o poda é o reaccionário
de maneira que pela sua dialéctica vital
deve ser esta a árvore da ciência
do bem e do mal

eu não vejo a hora
em que este freixo dê maçãs
como o ulmeiro dá peras
e a serpente a convide
e ela me convide a mim.

Francisco Gandolfo (Argentina, n. 1921). A "tradução" é minha.

LA MUNICIPALIDAD PLANTÓ UN FRESNO
La municipalidad planto un fresno/ en la vereda de la casa/ de mi tentadora vecina/ para que yo vea con qué gracia/ ella barre sus hojas en otoño// lo planto el intendente revolucionario/ y ahora lo poda el reccionario/ de modo que por su dialéctica vital/ debe ser este el árbol de la ciencia/ del bien y del mal// yo no veo la hora/ de que este freno dé manzanas/ como peras el olmo/ y la serpiente invite a ella/ y ella me invite a mí.

Buuuu!



Arghhh! Eu sou um poder fáctico e vou-te comer!

Um aforismo para estes dias

As portas do Poder são muito baixas. Só os que se curvam entram por elas.

Pó-de-tijolo: O diário quotidiano de Max Smash

DAY THREE (2ª-FEIRA, 25 DE ABRIL)

13 horas - Chego ao Jamor e vou direito ao Centralito. As meninas do meio-dia já estavam despachadas e em "court" actuavam duas duplas de verdadeiros artistas, que extasiaram o meu coração selvagem e ávido de ténis: Pala/Novak e Chela/Robredo.
O primeiro "set" caiu 7/5 para a dupla Chela/Robredo. Estranhei. Os checos são mais dupla de Pares, o que se nota no estilo de jogo mais entrosado e numa maneira de estar no "court" mais "aparzada".
O segundo "set" pareceu dar razão aos meus comentários: 6/1 e toma lá disto. No terceira e decisiva partida, emoção foi coisa que não faltou. Os ventos andaram a banquetear-se com as angústias dos jogadores e foi num "tie-break" malandro que a coisa tombou para o lado dos menos favoritos. O Chelas e o Tommy. Ah! pois, porque o Novak (o Jiri não tem nada a ver com a Kim do "Vertigo") e o Pala (consta que paga as suas contas honradamente e não vive à pala) eram os cabecinhas-de-série número 4.
No desempate, a dupla vencedora esteve à frente por 6-1, permitiu o 6-6 e acabou por ganhar. Abraços, beijinhos e os cavalheiros cederam o "court" à Neuza, portuguesinha da Silva, que levou um duplo 6-2 da miúda de Madagáscar, que tem um nome complicado de escrever.
14h28m - Estou na Tenda da Imprensa, a cumprir o meu dever cívico, a 25 de Abril, votando no jogo do dia. Eu explico. Isto é um concurso para a Comunicação Social, que existe por esse mundo fora. Há um jogo seleccionado e a malta faz prognósticos, preenchendo um papelinho. Primeiro, é preciso acertar no vencedor. Depois, aposta-se no resultado. Seguidamente, increve-se o número de sets, o número de jogos e o tempo do encontro. Quem andar mais próximo vence. E vai somando pontos para os prémios finais. Eu sou o único tri-vencedor do concurso de prognósticos.
O ano passado empatei a 32 pontos com o meu amigo Manuel Perez (emérito jornalista) e deram um frigorífico a cada um. Também ganhei um micro-ondas, por ter vencido um palpite diário.
No primeiro dia, apostei num 6/3 duplo a favor do Gaudio. Andei longe!
14h35m - No "court" central, para seguir o encontro Leonardo Tavares-Galo Blanco. O português começou bem: dupla falta no serviço e vai buscar um "break", com 4 minutos de toma lá-dá cá.
14h51m - Ao longe, não se ouve o rufar de tambores, mas o rebentar de foguetes. Tavares perdia 3-0. Um camarada de lides jornalísticas (Jorge Figueira) esclarece que deve ser de uma Universidade em Monsanto. Pessoal a formar-se. Monsanto foi uma grande escola de vida para muitas mulheres.
15h10m - Não afirmo a cem por cento, mas a 99. Pareceu-me ver os cabelos louros e encaracolados de Ana Sousa Dias ao lado do professor Martelo. Mas a bancada de Imprensa fica por cima dos camarotes.
15h25m - Um ar de sua graça. Tavares executa um ás a 196 km/h! É d'homem!
16h05m - Mudo de "court". Tenho de comer qualquer coisa. Vão mais dois "cachorros". Emigração para a casa de banho. Retrete. Estou eu a "sair da retrete", vem o hoquista Filipe Gaidão a "entrar para os urinóis".
- Então, ainda está no JOGO?
- Não. Já me correram há quase três anos. Estou a escrever para a TV Guia e para um blogue.
17h35m - De regresso ao "court" central. Estou a assistir desde o princípio ao Gaudio-Hernych. Um jogo entre dois tenistas que nunca se defrontaram.
O Gaudio leva 1 hora e 3 minutos a perder o primeiro "set" no desempate. E a malta a pensar: olha, queres ver que o cabeça-de-série número 2 vai à vida?
E a verdade é que o checo desperdiçou um "match-point". Depois, com muita dificuldade e alguma inconstância, Gaudio conseguiu triunfar na segunda partida por 7/5 e embalou decisivamente para correctivo bazooka: 6/0.
Ainda dei um pulinho ao Centralito, para ver um nadinha do Alonso-Karlovic (o croata é um martelo a servir, mas tem grandes limitações na posta restante). O espanhol ganhou, mas o croata ajudou como o caraças.
20horas - Na tenda de Imprensa, um cartaz grande diz: WC. E tem uma seta a apontar. Pensei que era um sítio para ir buscar "wild cards". Afinal, dei com uma casa de banho de campanha, muito gira. Tipo barraquinha medieval. Funciona tudo a pedal. O pedal do autoclismo é mesmo castiço. Parece de um camião TIR. Um gajo carrega e escorre água azul na retrete. Pacifica a alma. É uma das grandes novidades do Estoril Open.
20h35m - Na palheta com o meu amigo Freitas, com quem frequentei um curso de jornalismo em 1981 na Casa do Alentejo. O filho já foi nº3 no ranking de infantis. O puto é-me apresentado e está grande como o caraças.
Passa o meu amigo Américo e diz: "Queres boleia"?.
Quis. E foi assim que voltei a casa, a tempo de ver o Braga perder em Penafiel.

Cantinho dos trocadilhos
#11 As roupas da Massimo Dutti são pagas. Não é Dutti Free. O dever acima de tudo, mas apenas em inglês é que Dutti é dever.
#12 J. Chela não mora na Zona J de Chelas nem entrou no filme "Zona J".
#13 A 25 de Abril de 1974, os portugueses tiveram uma Revolução dos Cravos. Trinta e um anos volvidos, aguarda-se ansiosamente que se proceda a uma outra revolução: a Renovação dos Cravas. Continua-se a cravar sem vergonha nenhuma e isto não vai lá com flores metidas nos canos de G-3.
#14 O espanhol Galo Blanco quis aderir à Unita, mas o partido do Galo Negro não gostou da ideia. Galo Blanco gostava de beber um Black & White, com Barry White, que tinha uma típica voz negra.
#15 Diz o árbitro: "Jogo Blanco". Quem o mandou jogar na lotaria?
#16 Se Galo tivesse nascido em Barcelos, podia ser um símbolo nacional português e não um símbolo do ténis espanhol.
#17 Galo Blanco quis ir a Almada, para subir ao Crista-Rei.
#18 Gaston Gaudio é um excelente tenista, mas tem duas facetas. Tão depressa provoca o gáudio da assistência com uma excelente jogada, como faz uma "gaffe" tremenda. Nessas alturas, só não é o Gaston Lagaffe porque lhe falta carisma para ser personagem de BD.
#19 Sempre que Gaston entra em campo há Gaudio no "court".
#20 Gaudio fez dois "balões" fabulosos a Hernych. Montgolfier também era bom. E o João. O "balão" do João, sobe, sobe pelo ar...
# 21 "Time", disse o árbitro. Um apanha-bolas magrinho, diligente, chegou 15 minutos depois com uma revista e deu-a ao árbitro.
- Isto é a "Newsweek". Eu pedi expressamente a "Time"!
#22 O tie-break é a pausa para a gravata. O Thai-Break é uma fractura tailandesa.
#23 O slogan do Estoril Open deste ano é: ?Vantagem sua?. Uma organização deste calibre e não arranja um anti-transpirante para a vantagem?
#24 No dia 25 de Abril, não houve verdadeira liberdade nos "courts" do Jamor. Era preciso manter a bola na linha.
#25 Há jogadores de ténis que arriscam imenso quando actuam no Estoril Open. São os que gostam da culinária portuguesa e dos seus maravilhosos petiscos. "Quem não arrisca não petisca".
#26 Gaston Gaudio não é do Pragal. Mas fartou-se de praguejar e dizer "Mierda". O árbitro não acedeu ao seu pedido de estrumar o "court" central. Já bastava a porcaria que Gaudio fez nos dois primeiros "sets".

Frase do dia
"Quando se cumprimenta uma pessoa, deve-se dar dois beijinhos nas faces e não deixar ninguém pendurado com um beijinho apenas. É manifesta má-educação."
Jorge Figueira, jornalista

Diálogos Anónimos da Realidade Jamoral
Dois chavais por trás de mim, no "court" central, durante o Gaudio-Hernych:
- Eu disse à miúda que lhe pagava um gelado. Ela pediu uma bola de Haagen-Dasz. Foda-se! São 2 euros e meio!
- Emprestas-me dois euros?
- Para?.. Uma fatia de pizza?
- Sim.
-Ainda vim de lá agora.

Diálogos Imaginários da Irrealidade Demencial
As bolas de Leonardo Tavares não estavam a bater no sítio certo do ?court? central. Ana Sousa Dias levantou-se do camarote e berrou para dentro do campo:
- Leonardo, "Por outro lado"! "Por outro lado"!

Cantinho das mágoas
Do desejo e da saudade: Eram quatro. Tiraram os casacos. Ficaram de ombros nus. Rita Hayworth, em "Gilda". Lembram-se?

Nada mais por hoje. Até amanhã e um bom soninho, se for caso disso. Atentamente:

Max Smash

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Luís Graça

26.4.05

Os americanos vêm aí.

A Casa da Música, no New York Times.

Pó-de-tijolo: O diário quotidiano de Max Smash

DAY TWO (DOMINGO, 24 de ABRIL)

11 horas - Toca o despertador. Falta a coragem para ir nadar para o Holmes Place. Parecendo que não, o ar do Jamor puxa. Falho igualmente a corrida de Fórmula Um e mais um êxito do Alonso. Saio da cama perto das 15 horas.
15h45m - Chego à zona de restauração, ao pé do Centralito.
- Já há "cachorros quentes"?
- Claro.
- Quero dois. E uma lata de Pepsi.
- Molhos?
- Poucochinho "ketchup", por favor.
- Quer um tabuleiro?
- Sim. Vou levar lá para fora.
Acabo por me envolver numa conversa a dizer mal do Peseiro. Ajudei à festa. É sempre bom ?catarsear? estes empates que nos ficam atravessados na garganta (Sporting,0 Académica,0).
Uma senhora senta-se ao pé de mim, vê-me de credencial ao pescoço e pergunta:
- O senhor é que organiza isto tudo?
- Não, sou jornalista.
(Vai mais uma dentada no "cachorro" e uma golada generosa de Pepsi. Mas ainda estive para limpar os beiços, dar dois beijinhos na senhora e dizer: "Olá, sou o João Lagos. Muito prazer. Quantos convites quer para a final"?)
15h50m - Atrás de mim está a barraca da Olá, sempre a Olá, este ano com a concorrência da Hagen-Dasz, perto do "court" central. Uma família normal (pai, mãe, dois putos) prepara-se para comprar gelados.
E o pai, para um dos putos:
"A próxima vez que gritares apanhas na boca. Estou-te a dizer".
O puto acalmou. O gajo era homem para lhe dar, palavra de Max Smash, que continuava a lambuzar-se javardamente com o "cachorro", deixando o "ketchup" imiscuir-se perigosamente por entre o farfalhudo bigode black & white, a denunciar a sua qualidade de quarentão e veterano do Estoril Open.
16h12m - Estou no "court" 1, bem recheado de público. O português Hugo Anão está a dar luta ao polaco Chadaz, que bate bem de direita e esquerda (a duas mãos), mas é raro sair do fundo do "court". Pratica um ténis típico de percentagem, arriscando pouco para ganhar os pontos. O chaval lusitano deixa-se enervar e sofre uma quebra de serviço a 4-2, no segundo "set".
16h21m - O público puxa por Anão, mas este revela certas dificuldades em agigantar-se o suficiente.
(Este trocadilho é freelancer, por isso pode haver ocasiões em que os trocadilhos apareçam fora do seu gueto próprio, o Cantinho dos Trocadilhos)
Um cavalheiro, tentando pressionar o árbitro, num ponto perdido por Anão: "O serviço foi um quilómetro fora".
16h28m - Anão reduz para 4-5 e a esperança toma conta do "court".
16h31m - Menos um Anão no Estoril Open (5/7, 4/6).
16h41m - Chego pela primeira vez ao "court" central. Tiago Godinho acabou de perder o primeiro "set", por 7-5, com o espanhol Fraile. O "set" demorou 1h05m. Porra!
O público do "court" 1 vem apoiar o português, que foi assistido na zona do ombro direito pelo "trainer" (o fisioterapeuta do ATP, a Associação dos Tenistas Profissionais). O campo é regado. Tem a sua arte. Não pensem que é só chegar lá e regar. Há uma escola da mangueira, mas a mais famosa só actua no carnaval brasileiro.
A 2-2 do segundo "set" o árbitro proferiu "Bolas Novas" mas não vi ninguém conhecido que tivesse sido operado aos testículos.
17h08m - Godinho sofre "break" a 2-4.
17h35m - Menos um Godinho no Estoril Open (5/7, 2/6). Uma hora e trinta e cinco minutos de abnegada resistência.
17h33m - Cá está o Max no seu "court" favorito, o eminente Centralito. E foi lá que o Max viu o melhor jogo da tarde, já com cheirinho de quadro principal. Mais um espanhol bem dotado tecnicamente, frente a Cernak.
17h37m - Uma lagartixa vem armada em Ayrton Senna da Silva pelo muro acima. Faço sinal de stop com a mão e ela virou de bordo à velocidade da luz. Cabronas das lagartixas, são castiças como o caraças!
18h30m - Cernak venceu em três "sets": 5/7, 6/4, 6/2. O público destroça. Não me apetece nada levantar. Estou com espírito de cair da tarde na praia. Os lábios secos e o cérebro a pingar de indolências.
19h08m - As lonas cobrem os "courts". Acabou a jornada. Moya já acabou o treino.

Cantinho dos Trocadilhos
#5 Vítor foi o Hugo gigante da literatura francesa. Anão é o Hugo do ténis português.
#6 Todos os anos, todos os dias, os jogos do Estoril Open têm uma ordem de jogos. Durante três anos, como jornalista, Max Smash esteve à ordem de O JOGO. Em Setembro de 2002 descobriu que afinal estava a prazo, quando recebeu a carta de "adeus e obrigado".
#7 Ronald Reagan era bom na rega dos "courts". Regazzoni era bom a regar à zona. A zona regada por CLAY Regazzoni era melhor do que a zona regada por Reagan. Vamos "regar" o feliz acontecimento. Mais vinho para esta mesa!
#8 Prefiro estar nos "courts" de ténis do Jamor do que sofrer um corte no meu pénis, o que provoca dor.
#9 A segurança do Estoril Open é da Prosegur. Mas quem segura a Condessa de Ségur? Anda por aí na rambóia e depois põe-se a escrever livros "light" do século passado.
#10 O Estoril Open não está nas lonas. Mas as lonas estão no Estoril Open. Todos os dias, ao final da tarde, depois de concluídos os jogos.
Um grupo de diligentes funcionários ?puxa as orelhas? ao ?court? e cobre-o meigamente. Ficam as rugas nas lonas e os tugas procuram as gajas boazonas. Não há mais ténis. Está na hora de pensar no pénis e outras coberturas.

frase do dia
"Nem os portugueses são bons para os portugueses"
(Uma senhora, descontente com a arbitragem de um árbitro português no encontro entre o Anão lusitano e o polaco mediano Chadaz. Terá andado a ler José Gil?)

Diálogos Anónimos da Realidade Jamoral
- Então, este ano veio mais cedo...
- Vim, é à borla. Amanhã já pago.
- Eu já comprei o bilhete semanal.

Diálogos Imaginários da Irrealidade Demencial
Repórter da RRM (Rádio Rainha Má):
- Branca de Neve, o que pensa da eliminação de Hugo Anão?
- Não faz mal. Ainda sobram seis para as minhas necessidades.

Cantinho das Mágoas
Da inveja: O sol a bater nos cabelos das mulheres bonitas faz-me mal ao coração. É pena eu não ser uma mulher bonita, para fazer sonhar os homens.

Do ciúme: quando beijei os teus lábios promíscuos percebi que eram uma terra batida.

Amanhã há mais. Beijinhos e um queijo da serra, do vosso:

Max Smash

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Luís Graça

Sem Título


Henry Peach Robinson, Desvanecimento, 1858.

Creio que será uma das grandes exposições de 2005. No CPF, até 22 de Maio. "Experimentação na Colecção Fotográfica do IVAM", inclui um amplo conjunto de fotografias da colecção do Institut Valencià d'Art Modern, que percorre os principais momentos da história da fotografia, com obras de Fox Talbot, John Baldessari, Robert Frank, Richard Hamiltom, Moholy-Nagy, Rodchenko, El Lissitzki, Cindy Sherman, Edward Weston, entre dezenas de outros. A fazer lembrar a inesquecível exposição "A Vingança de Verónica", da colecção da baronesa Marion Lambert, que esteve no CPF em 2000.

Liberdade

É muito comum pensar-se que os militares nos trouxeram liberdade, ao depor o regime fascista. No entanto, considero ser mais correcto dizer «esperança de liberdade».
Partindo de duas frases que conhecemos tão bem, que incluem a palavra «liberdade», damos conta de que o discurso corrente perverte o seu autêntico significado. São elas: «posto em liberdade» e «a minha liberdade acaba onde a do outro começa».
A primeira falácia é pensar que há um sujeito que tem o poder de nos pôr em liberdade. Não há ninguém que o possa fazer por nós! Para que faça sentido, sugiro como alternativas «eu liberto-me» ou «tu libertas-te» ou «ele liberta-se». Na 1ª e na 2ª pessoas do plural isso já não é possível, sem que se caia num tamanho disparate. O substantivo abstracto, que remete para algo exterior ao homem, constitui eventualmente um ideal que é conquistado, passo a passo, na vivência diária de cada um. É tão débil por si mesmo que só é capaz de funcionar com a muleta do verbo. Não será mais justo falarmos em «libertação»? Ou, como dizia o outro, em «liberdade livre»?
Na segunda frase, que a professora primária me ensinou, subentende-se que há quem tenha que renunciar à liberdade, para que outro a usufrua, ou seja, um deles pode mandar e o outro obedecer. É uma contradição com a substância própria de liberdade. Como é isso possível? Ou há ou não há!
À parte a gramática, há que viver a liberdade.

André Sousa Martins



Uma das grandes colectâneas pop da década de 80 e talvez o melhor disco dos britânicos The Cure: "Staring at the Sea - The Singles" (Fiction, 1986).

Que "Noites" são estas?



«Acabei de ler "Noites na Granja ao Pé de Dikanka". Espantaram-me. São a verdadeira alegria, sincera, desenvolta, sem denguices, sem afectação. E, por vezes, que poesia, que sensibilidade! Contaram-me que, quando o autor entrou na tipografia onde se imprimiam as Noites, os operários gráficos começaram a rir-se, tapando as bocas com as mãos. O chefe tipógrafo explicou esta animação dizendo-lhe que os compositores, quando imprimiam o seu livro, não paravam de se rir. Moliére e Fielding, com certeza, ficariam muito contentes se fizessem rir os seus tipógrafos.»
A. Púchkin, carta de Agosto de 1931.

"Noites na Granja ao Pé de Dikanka", a obra de estreia do jovem Nikolai Gógol, traduzido do russo pela Nina Guerra e o nosso Filipe Guerra, e com edição da Assírio & Alvim, disponível nas melhores livrarias, e nas piores também.
Voltarei a este livro.

Pó-de-tijolo: O diário quotidiano de Max Smash

Olá, o meu nome é Max Smash, mas há quem me conheça por Luís Graça, Dick Hard ou Inocêncio Pinga-Amor. Mergulhem comigo durante 9 dias nas entranhas do maior torneio de ténis português. E não se queixem.

DAY ONE (23 de Abril, sábado)

Olha, um dia cinzento, a ameaçar chuva. Em vésperas da evocação da Revolução dos Cravos. Saio de casa sem chapéu-de-chuva ou o meu boné-fetiche, de felpa azul e carrapitinho no alto. Próprio para o Estoril Open.
Jamor, 12 horas - Direcção: tenda das credenciais. Safei-me em 15 minutos, mas tive sorte. Houve quem esperasse uma hora. Logísticas. Identifico-me: "Luís Graça, TV Guia, já está aí a foto no computador". Encontraram a ficha do ano passado, pela revista "Pessoal".
- Mas podem não aceitar o pedido de credenciação.
Olha, olha, eu sou totalista do Estoril Open. Um veterano destas guerras. Haja respeito. Tiro a foto à la minuta e fico com ar de respeitável escritor. A credencial é o dobro do tamanho dos outros anos.
12.37h - Tenda dos Sponsors (o espaço nobre, mas às vezes os jornalistas plebeus podem entrar. É o caso) - Dá-se início ao sorteio do quadro feminino de singulares, com a presença da segunda cabeça-de-série da Qualificação, uma loura matulona de olhos azuis, a menina Safarova.
12.54h - Chega o Professor Martelo, para ajudar no sorteio do quadro masculino, que tem fichas azuis, ao contrário do feminino, que tem fichas brancas. O rosa ficou esgotado nos casaquinhos de malha oficiais, como o que vestia a dakariana Joana Lemos. Os vestidos às florinhas também são muito queridos, tipo Barbie.
13.10h - Acabou o sorteio. Troco meia-dúzia de palavras com João Lagos. O sorteio não foi nada agradável para a saúde do torneio. Começa logo com lagosta e cozido à portuguesa, sem entradas.
Ah! não estão a perceber? Eu explico. Uma saraivada de craques ocupou despuduradamente a parte de cima do quadro e deu logo encontros como Moya - Mantilla. Na primeira metade do quadro estão nomes como Ferrero, Chela, Novak, Robredo ou Albert Costa.
Vai ser bonito!
14 horas - Almoço bifinhos de peru com cogumelos e bebo Pepsi. Por 6 euros e 45 cêntimos.
14.20m - Chego ao court Centralito e está um português em acção, João Antunes, frente ao polaco Chadaj, um desconhecido do meu arquivo mental. O lusitano está a ganhar o segundo set por 5-3 e vence 30-0 para fechar a segunda partida, com bolas novas.
14.37m - Então, adeus, ó João. Por acaso foi pena (2/6, 5/7).
No court 1, Ricardo Cortes luta com o americano Jim Thomas, um especialista de Pares que aproveita a Qualificação de Singulares para rodar e se adaptar aos "courts".
15 horas - Bato em retirada. Vou para a Luz ver o quinto jogo da final de voleibol. Apanho o comboio na Cruz Quebrada e o mar está com raiva de alguma coisa: cinzento, sujo e encapelado.

Cantinho dos trocadilhos

#1 A propósito da chinesa NA LI e do espanhol MARCOS JIMENEZ LETRADO.

- Então, já leu o "Equador"?
- Na li.
- E "O código Da Vinci"?
- Na li.
- E "Memórias de minhas putas tristes"?
- Na li.
- Eu sei que sou Letrado, mas a menina podia ter lido alguma coisinha, que não lhe punha os olhos mais em bico do que já tem. Afinal, já leu alguma coisa de um autor português?
- "Mao tempo no Turcifal", de Wi Torino Amnésico.

#2 A propósito do jogo entre o americano Jim Thomas e o português Ricardo Cortes.

- O teu apelido, Courts, é muito tenístico. Thomas alguma coisa?
- Pode ser um gin, Thomas.
- Está a sair, Ricardo. E não te cortes. Vai bem aviado.

#3 A propósito da chinesa JIE ZHENG

Diálogo canibal:
- Gostavas de comer a Jie Zheng?
- Preferia beber um Ginseng.

# 4 A propósito do sueco Joachim Johansson, que tem a alcunha de PIM PIM, por causa dos serviços-dinamite.

O Pim Pim esteve no sorteio do quadro principal, mas não deu nenhum pum. Trazia um chapéu da Yonex sem pompom. Quando começar a jogar é que vai ser PUM PUM (1º e 2º serviços).
O chaval diz que não está preocupado com o vento. O Miguel Seabra perguntou-lhe porque é que tinham desaparecido de circulação os suecos de terra batida dos 70's. Ele respondeu com o título de um livro de Margarida Rebelo Pinto: "Sei lá".

Adivinha do dia

Porque é que na Tenda dos Sponsors há muitas vezes barracas?
Solução: Bar Aberto.

Frase do Dia

"Está muito forte, a parte de cima do quadro"
Prof. Martelo Rebelo de Sousa, 13.05horas.

Número do Dia

199 (números de passos entre a entrada da Tenda de Imprensa e a Tenda dos Sponsors)

BEIJINHOS E ATÉ AMANHÃ, DO VOSSO

Max Smash

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(Continua dentro de momentos...)

Luís Graça

25.4.05

Picando o ponto...

25 de Abril, sempre.

Para que não se julgue que estes bloguistas são alguns esquecidos, ou vendidos, ou coisa que tal.

O que se passa é que toda a malta foi aos festejos (ninguém faz poemas de amor enquanto faz amor), e deixou-me aqui de piquete. Tenho de atender aos inúmeros consulentes, fazer a ronda ao blogue todos os quartos de hora, arear os puxadores das portas, etc., um trabalho do camandro. Nem dápararespirar.

Portanto, para que fique aqui de registo: 25 de Abril sempre.

Dímitra Mandrá

Veio-me pelo correio, "O Momento do Amor", um pequeno livro de poemas de Dímitra Mandá, traduzido por José Carlos Marques, e publicado com muito amor pelo próprio na colecção uniVersos (herdeira e filha da diVersos), edições Sempre-em-Pé.

Teria mil coisas a dizer sobre isto. Para encurtar razões, digamos que também na Grécia, a partir da década de 70, os poetas "voltaram ao real". Diria, de outro modo, que, perdidas as "grandes narrativas" (como se diz agora), voltaram ao quotidiano.

Para isso foi precisa a grande desilusão do fim do sonho duma grande Grécia (a expedição falhada à Ásia Menor, esmagada pelo exército turco), uma ocupação alemã, uma guerra civil, uma ditadura. Muitas vidas estragadas.

Dímitra Mandrá recupera os ecos de Elytis, a poesia do Egeu, e reinveste-os no dia a dia. Dois exemplos:

Porque tu és o vento

Nas tuas grandes mãos
agarras os meus dias
e eu sigo-te por ruas
que não sabem o que é domingo
porque tu és o vento o outro
o inabitado.

O Som do silêncio

Oiço o vento
arrastando nomes apagados por antigas chuvas
por sobre casas extintas e mares de lenda.
Oiço o vento do deserto das árvores
que avançam nuas e minguam;
mas mais ainda oiço o silêncio
que de longe ecoa a minha nostalgia.

24.4.05

LONGE DA ALDEIA, PERTO DO CORAÇÃO


Jean-François Millet,1864.

"Praças e Quintais" o livro que Rui Pires Cabral (n. 1967) publicou na Averno em 2003 era excelente, mas "Longe da Aldeia", o último, é magnífico, o seu melhor até à data e um dos melhores livros de poesia que li nos últimos tempos. Fico agora sem saber quem prefiro, se o pai, A. M. Pires Cabral, cujo último, "Douro: Pizzicato e Chula", é divertido e sábio, irónico e belo, ou o filho. Dos poetas atentos aos pequenos acontecimentos do dia a dia, ao que se esconde e espreita (e nos quer falar) na solidão das grandes cidades, dos poetas que não receiam trazer para dentro do poema "a faca suja de manteiga/ na toalha", quer dizer, aquilo habitualmente tido por inestético no sacro templo da literatura mas em que ocupamos tantas vezes o nosso olhar e o nosso pensamento (e tanto do nosso tempo), Rui Pires Cabral é o meu favorito, até porque a sua poesia, nem sempre urbana, também cheira a terra, e o passado (a infância) na aldeia também passa, como um fantasma, por estes versos. Por outro lado, não abdicou totalmente das metáforas e de outros tropos, que usa discreta e estrategicamente, aqui e acolá. Não há neste "Longe da Aldeia" um único poema que mereça nota inferior a muito bom, o que por si só, nos tempos que correm, é obra. Por isso, e porque me é muito difícil escolher, aí vai meio ao acaso:




SHIRLEY ANN EALES.


Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo - mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
e o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville - um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O teu livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira - e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.



Rui Pires Cabral. "Longe da Aldeia"
Lisboa, Averno, 2005.

23.4.05

Carta

Ex.a Sra.

Faleceu o marido de V. Exa., colaborador da nossa empresa, no dia 28 de Março de 2005.

Num primeiro tempo, poderia afigurar-se que, sendo os salários pagos no final do mês, ficava a nossa empresa devedora dos vinte e oito dias de salário decorridos desde o final de Fevereiro. Acontece, porém, que o marido de V. Exa. tinha introduzido um vale sobre vencimentos a haver no valor de um mês de salário, pelo que, pelo contrário, nos ficou devedor de quatro dias de salário (o próprio dia 28, segunda-feira, em que já não compareceu no seu posto, e os dias 29, 30 e 31 de Março).

Mais estava o seu marido na posse de quatro tickets de refeição, no valor de 12 euros, que, como V. Exa. deve saber, são, na nossa empresa, entregues antecipadamente, no princípio do mês, prática que dura desde 1 de Janeiro de 2003.

Como legítima herdeira do falecido deve-nos, pois V. Exa., a soma de 12 + 120 euros, num montante total de 132 euros, que poderá V. Exa. liquidar através de cheque ou numerário, ou por transferência bancária. No caso de inadimplência desta obrigação, reservamo-nos o direito de proceder judicialmente contra V. Exa. e/ou qualquer dos outros herdeiros reservatários do falecido.

Sentidos pêsames.

De V. Exa., atentamente,

José Martins Borracho de Carvalho
em nome de Borracho e Carpinteiro, Lda.

As rosas... e os espinhos!

Xanana Gusmão foi um guerrilheiro corajoso e devotado ao seu povo, um cidadão de corpo inteiro e hoje é presidente da República. Do seu Timor Lorosae que ele mesmo tem cantado em versos sem desdouro. Com ele está gente de muito mérito e que, a seu lado, se bateu bem durante anos e anos contra o invasor. O povo maubere e a comunidade internacional conhece-os, respeita-os e ia dizer que os estima - neste corropio que é a realpolitick. Eles sofreram e sonharam, ganharam justamente o seu pão.

Mas também ali há gente que, visando objectivos aparentemente semelhantes, parece começar a tirar agora a máscara, a mostrar finalmente a sua verdadeira face. Os seus verdadeiros méritos.

A notícia vem no jornal que me habituei a ver interactivamente aqui nesta maquineta. E que epigrafo, porque me parece que vale a pena meditar-se nela. Serão esses manejos já consequência da tal entrada recente?
Acho que o povo maubere vai ter boas razões para não se felicitar futuramente, com estes mancebos em velocidade de cruzeiro...

Em causa o ensino de religião nas escolas

Xanana Gusmão acusa Igreja Católica de instigar manifestações

O Presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão, responsabilizou hoje a Igreja Católica do país pelos protestos anti-governamentais que exigem a obrigatoriedade do ensino de religião nas escolas.

22.4.05

Estatísticas homéricas

A palavra "sangue" (haima) aparece 116 vezes em Homero. A palavra "piedade" ("eusébeia", respeito pelos deuses, sem ser o Eusébio) aparece 0 vezes.

Hitler/Ganz: a face do monstro



Lotação esgotada na estreia do Festival Indy no Forum Lisboa. Eram 20h30m. E lá ficou o Luís Graça a olhar para a menina da bilheteira com cara de parvo. Não que a surpresa fosse total. Ficarão para outras núpcias (será?) as imagens de "Born into Brothels".
Tempo para sentar num banco da Av. Roma e esperar pela chegada do meu amigo Álvaro, com quem tinha combinado a sessão. Aceitou o meu plano B. Regressei às cadeiras do Londres depois de uma longa ausência.
Mesmo assim, mais longa que "A Queda", que teve direito a intervalo pelas 23 horas. Não se pode absorver o senhor Adolf Hitler de uma assentada.
Belo filme, que me prendeu ao ecrã do princípio ao fim. A mim e à trintena de espectadores que rumaram ao Londres em noite de estreia. "A queda", filme-choque em 2005, sobre uma guerra que acabou em 1945. Que mistério encerra Hitler para que, tantos anos passados, a evocação da sua figura ainda faça tremer muita gente?
Já vi muitos documentários sobre a morte de Hitler, nomeadamente no Canal História. Já li um bocado sobre o tema. Mas "A queda" apresenta a mais-valia cinematográfica de se basear num livro de memórias da sua secretária. É uma viagem aos infernos do "bunker", com demoradas paragens e apeadeiros na monstruosidade de Hitler, espectacularmente interpretado (ou mimado, os encarnado, ou vestido) por um Bruno Ganz a anos-luz do anjo de "As asas do desejo".
Até aqui nada de novo. Conhecedor das capacidades de Ganz, limitei-me a confirmar os seus talentos. Que mais não fazem do que encaixar como uma luva num filme extremamente credível e que não faz campanha como Michael Moore.
Já se disse e escreveu que o filme humaniza demasiado a figura de Hitler, o que não seria aceitável na Europa de hoje, de um ponto de vista ético. Se o que nos é dado ver humaniza demasiado Hitler...vou ali e já venho. O filme mostra meia-dúzia de afirmações perfeitamente terríficas, seja em relação ao holocausto, seja em relação ao povo alemão, que Hitler entrega ao seu destino de forma fria e cruel, responsabilizando-o por todas as desgraças da Alemanha.
O casting é bastante eficiente e a reconstituição de Berlim é muito bem feita. As cenas de guerra urbana estão quase ao nível de "Estalinegrado", que era nitidamente um filme de guerra, ao contrário de "A queda", que é um filme sobre a culpa e sobre Hitler.
Porque é com a aceitação plena da culpa, por parte da sua secretária, que o filme abre e fecha. Pelo meio, explicam-se as razões dessa culpa.
Um grande filme.

Luís Graça

Os gloriosos dias da rádio



A Festa da Música começou hoje e decorre até domingo, no CCB, em Lisboa. A Antena 2 está a transmitir em directo alguns dos melhores concertos da Festa, numa espécie de emissão non-stop. Dos concertos que a rádio nos ofereceu esta tarde, gostaria de destacar as Vinte e Seis Variações sobre "La Folia di Spagna", de Salieri, seguidas da 5ª Sinfonia de Beethoven, numa interpretação da Sinfonia Varsovia, com direcção de Peter Csaba. E, neste preciso momento, o grandioso Requiem de Cherubini, pelo Coro do Teatro Nacional de S. Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção de Donato Renzetti. Ambos decorreram na sala Waldstein, no CCB, e num obscuro gabinete de trabalho situado algures no grande Porto.

Bruxarias para o fim de semana



Nada de sustos, que estamos no domínio da magia branca! Ou seja, a Márcia Frazão é uma bruxinha daquelas que engendram poções e artilham engrimanços, mas tudo visando a melhoria da espécie.
Digo bem: pois as suas preparações - que vos recomendo e se recomendam - vão do "beijo ardente" à perfeita adequação de uma tarde, de uma manhã, de uma noite. E tudo com produtos naturais, fiáveis e irrepreensíveis.
O que não obstaria, dou-vos entretanto de barato, que se fosse no tal tempo que o tal mancebo gostaria retornasse, a Márcia não a mandassem grelhar numa inestética e atravancante fogueira. Se calhar a par cá com o manguerlas, mas deixemos isso por ora - que se me arrepiam os cabelos...
Eis senão quando, intuindo que também me locomovo por esses lugares de sonho, a Márcia - brasileira que só voa pelas vassouras da Internet - me mandou um trechinho amorável que aqui vos deixo para se regalarem. Porque é sobre comidas, em estilo singular:

Artes Culinárias

Depois das refeições, Vitalina recolhia-se à cozinha. Lavava a louça, enxugava os pratos, arrumava os talheres na gaveta, sacudia a toalha de mesa e pendurava o pano de prato no varal do quintal. Depois, servia-se de um cálice de vinho do Porto, acendia um cigarro, sentava-se à velha mesa e ligava o rádio. As notas de Moon Light Serenade aninhavam-se no bolso de seu avental que não era sujo de ovo, mas guardava estrelas. Sílvio Caldas, talvez por ciúmes de Duke Ellington ou por não resistir a um regaço moreno, aveludava ainda mais a voz e cantava só para ela. Vitalina gostava desses galanteios.
Cresci dentro de uma cozinha que cantava e recitava trechos de antigas novelas. Por premonição estética ou por vergonha de não saber ler, Vitalina tinha na cozinha (para ser usado no futuro) um grosso volume de poesias de Cruz e Souza. Não sabia decifrar as letras, mas aprendera a gostar do moço que dentro do livro morava. Ah, o livro! Um livro que aprendeu a falar à medida que na escola eu conhecia as letras. E, quando cheguei ao Z e ao domínio dos verbos, dos pronomes, das conjunções, dos hiatos e dos objetos diretos e indiretos, o moço do livro soltou a fala. Disse que era um poeta. Vitalina gostou tanto de suas palavras, que lhe pediu para trazer os amigos "para uma prosinha". O moço não se fez de rogado e trouxe um animado bando que, num piscar de olhos, transformou a velha cozinha num recanto boêmio. Todos os dias, enquanto Vitalina refogava o feijão ou assava um bolo, lá se reuniam Neruda, Eluard, Camões, Castro Alves, Gregório de Matos, Rimbaud, Allen Ginsberg, Baudelaire, Elisabeth Bishop, Pound, Augusto dos Anjos, Dorothy Parker, Lorca... para beber licor de jenipapo ao som da Rádio Nacional e das histórias que Vitalina tão bem narrava.
O endereço da boemia espalhou-se, e vieram os pintores. Picasso ficou maluco com os potes de barro que Vitalina ganhara de Mestre Vitalino. Dali levou Gala. Goya chegou desacompanhado. Degas apareceu com umas bailarinas. Vieram muitos, aos bandos. Os atores chegaram por último (trabalhavam até tarde), acompanhados por amigos cantores. Maria Callas chegou com Theda Bara, uma chegada triunfal; Callas nas vestes de Medéia, e Theda nas de Cleópatra. Procópio Ferreira surgiu com um querubim baixinho chamado Grande Otelo; Cacilda Becker com Pixinguinha e Donga; Fernanda Montenegro com uma nereida chamada Chiquinha Gonzaga. E foram tantos que lá foram, que eu poderia jurar que Eurípedes e Shakespeare também por lá apareceram.
Aos domingos, as mulheres da minha família se reuniam, e Vitalina narrava as artes da boemia. Ninguém se espantava. Afinal, eram bruxas, e se bruxas podiam voar em vassouras por que seria impossível poetas saírem dos livros, pintores surgirem das telas, atores representarem à mesa e cantores fugirem dos discos? Não, as "artes" não eram nada improváveis.
Os anos se passaram e a boemia cresceu. Vieram os vizinhos e em pouco tempo o bairro inteiro. Vitalina cozinhava e o improvável acontecia. Os noivos se casavam, os feios embelezavam, os malvados adocicavam, e os velhos rejuvenesciam.
Um dia, Deus, que já estava cansado (e com ciúmes) de ouvir as histórias da tal boemia, não resistiu ao cheirinho do bolo que Vitalina assava e a chamou para viver com Ele. Vitalina aceitou o convite e fez de Deus sua última conquista. Dizem que ela foi a primeira a conquistá-Lo pela boca!

Deus-sol



"Circuladô" (Polygram, 1991), obra maior de Caetano Veloso.

Saudades de FERNANDO ASSIS PACHECO e do MANDRAKE



CHULA DAS FOGUEIRAS

Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas

pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas

em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas

estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma

tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio

fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado

mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia



Fernando Assis Pacheco. "Variações em Sousa".
Lisboa, Angelus Novus - Cotovia, 2004
(colecção Inimigo Rumor)

Um Quixote moderno

O nosso José Saramago tornou-se finalmente útil: escreveu o prefácio para o Don Quijote ilustrado que Hugo Chávez, para fins de alfabetização e iluminação cultural (e quiçá política, de forma indirecta), vai mandar distribuir gratuitamente, a partir de amanhã, por um milhão de venezuelanos! Na nossa fatuidade de pretensos detentores da verdadeira cultura, teremos sem dúvida duas reacções: uma pavloviana, aquela que surge sempre que ouvimos as palavras «Chávez», «Lula» ou «Fidel» e que nos faz salivar uma inteligente baba irónica; outra mais elaborada e racional que vai dizer que Chávez sim senhor, mas provará também, por a mais b, que se trata de um gesto ridículo e megalómano, com evidentes fins políticos, enfim, que vai dizer que é o regresso do Livro Vermelho em forma de Quixote. (Não o digo por suposição, mas por ter lido um debate sobre o assunto no excelente blogue francês sobre livros que se chama La République des Livres, donde tirei esta notícia.) Mas haverá quem se imagine venezuelano, ou tão-só tente compreender com humildade mais uma cultura diferente da nossa, para dizer que se trata de um gesto visionário de libertação, de perfeita identificação simbólica e política de um presidente que, como Quixote contra os moinhos de vento, ousa lutar contra o inelutável?

Filipe Guerra

A Terra, como na adolescência



Apenas uma rua. Que tinha tudo ou quase tudo: a leitaria da dona Tomásia, a carvoaria do senhor Manel e da senhora Maria dos Potes (sempre meio enfarruscados) a tasca do Manuel Calha que era de sua profissão de Estado cantoneiro, a minha mestra menina D. Emília, a padaria da Margarida gorda. E os sapateiros: com mestre João Mateus à cabeça, ali havia desde o Benfica ao Sporting, desde a pesca à linha aos bailaricos na Sociedade Euterpe, na Robinson, na União Operária...E as patuscadas na taberna do senhor Abreu.
A minha Terra. A minha rua, que era a minha Terra. Perdida para sempre, mesmo que lá passe agora - como passo, por mor de obras ingentes na cidade - todos os dias. Casas fechadas, portas onde só repassam fantasmas...De olhos arrasados, de mãos muitas vezes a tremer.
Não percam a Terra. Ajudem a não perder a Terra. É que se se perder a Terra perder-se-ão, por dentro e por fora, até todas as ruas desaparecidas.

E vai a seguir, para amenizar, um poema meio ecológico do Gérard Calandre:

NOTÍCIA

Ao declinar da tarde chego à cabana velha
de muitas gerações. O silencio deixa-me respirar.
As paredes ainda são as mesmas. Grandes manchas
de humidade, a luz de astros distantes, a presença
de pássaros desconhecidos. Os meus pensamentos que
iniciam a ronda das sombras. Era um dia era uma hora
propícia de repousos, de vozes como antigamente.
Coisas construídas e eu estou aqui
ladrar de cães entre as árvores. Eu vejo
mais do que a luz, as linhas leves dos montes.
Desce neles o perfil divino da terra molhada.
As estações na ombreira da porta Raramente lembramos
os lugares como um livro que se abre Horizonte já
inacessível.
O primo pequeno o calção sujo de terra Fotografias
pacientemente dispostas sobre a mesa de madeira
Sem detença me abandono Veredas perfumadas flores voando
pulsa lento o sangue junto ao esqueleto

Neste chão vos imagino calados como outrora
vida sem desenlace o fogo que se desenrola
amei em vós o fulgor do coaxar das rãs
o alfabeto sensível do que a escuridão me dizia.

Devagar. Deus dá-se por satisfeito espreguiça-se
no sereno entardecer. Devagar digo de mim para mim
Longa criatura arfando na terra nas horas que passam.

Abro a porta, aguardo a quietude abro a saída
uma chuva mais frágil entre duas águas que se reúnem.

in "Vestígios"
Trad. NS, prefácio de Ruy Ventura

da série ISTO NÃO É UM POEMA

Esta coisa de
(agora)
se vestir o banco da frente
com o colete
fluorescente

El sicópata

Me da una gran alegría cuando me dan guita (aunque sea una miseria) por mis versos. Es como si me dijeran «qué lindo es usted, tome por su belleza»

Francisco Gandolfo.

Uma rua para o Hermínio



Chega-me à caixa do correio um envelope da Câmara Municipal de Lisboa, com um convite:

"A CML convida V. Exª a assistir à cerimónia de descerramento da placa toponímica da:
Rua Hermínio Monteiro, Editor, 1952-2001
que terá lugar no dia 22 de Abril de 2005, pelas 12 horas".

Viro o convite. Bem perto da rua do Hermínio existe já a Rua David Mourão Ferreira. Boa companhia para o Hermínio.
Questão básica: estou com coragem para ir?
Sabes, Hermínio, 2001 parece que foi ontem. E ando cobarde.

Luís Graça

21.4.05

Estamos tratados!

Que dizer de um Tratado-Constituição em que a palavra "banque" aparece 417 vezes e a palavra "liberté" 102 vezes?

Que dizer de um Tratado-Constituição em que a palavra "entreprises" aparece 112 vezes no plural e 51 vezes no singular e a palavra "citoyens" 33 vezes no plural e 26 vezes no singular?

(Nota do postante: Vai mesmo em francês, porque só nessa língua disponho da frequência das palavras, graças a Jean Véronis. Por acaso, uma das ocorrências de "entreprises" não é o substantivo, mas o particípio passado de "entreprendre").

Cidadania europeia, só com autorização de grandes pensadores



José Gil, o pensador cinzento da moda, para quem tudo se explica por medos, complexos, angústias e "não-inscrições", escreve umas cinzentíssimas tretas na revista "Visão" desta semana. Diz-nos que "não há cidadania abstracta", para negar a viabilidade de uma cidadania europeia, ou do estatuto de "cidadão europeu" (muito paleio para, no fundo, poder escrever que "a União Europeia nunca foi, como tantos politólogos, sociólogos e historiadores insistem, uma ideia entusiasmante"), porque "a cidadania identificou-se ao carácter singular de cada nacionalidade" ou "dentro do Estado-nação, a cidadania teceu-se à volta da ideia de nação e de unidade nacional" (foi preciso aparecer este iluminado para ficarmos a sabê-lo). José Gil toma-nos por lorpas e transforma, ele sim, a cidadania numa coisa abstracta, nada mais fazendo no resto do texto senão sofismar a partir da ideia que antes repudiara. Ai o Gil pensa que nós, cidadãos portugueses e europeus, precisamos de pedir licença ao Estado-nação para nos sentirmos (ou para sermos) cidadãos portugueses e europeus? Ai ele é assim que a gente se identifica com uma "nação"? Abstractamente? Ou é viajando até Londres, Paris ou Roma, e lá, isso sim, sentirmo-nos ou não cidadãos europeus e portugueses? E isto como se algum dia fosse possível sermos portugueses sem sermos primeiramente europeus, ou sem nos pensarmos dentro da Europa, "inscritos" (e escritos) em séculos de História comum. O Gil acha, vejam só, que "o território identitário (material e mental) da nova comunidade está ainda por definir"; é que, escreve ele, "o próprio solo fundador tem ainda uma dinâmica viva e resistente (nos Estados-nações)" - mal de nós se assim não fosse pois já não seríamos Europa! Mas eu e o Gil estaremos a falar da (ou a viver na) mesma Europa? Naquela cujas nações dialogaram, para o bem e para o mal, ao longo da História, mutuamente se influenciando na cidadania, no direito, na política, na guerra, no pensamento, na religião, nos costumes, na arte, na literatura e por aí fora? Naquela cujas fronteiras tantas vezes se moveram para lá e para cá, tendo várias nações sido absorvidas por outras, outras insuspeitamente nascidas do interior de outras, etc., etc? Naquela que acolhe trabalhadores de diversos países do espaço europeu, e que os integra, que os faz sentir em casa? Será que quando o Gil vai lá fora se sente assim tão tão português (tão "little portuguese alien in New York") que se ponha depois, complexado e cinzento, a pensar nestes macaquinhos de sótão de terceira categoria, nestas noções medievas? Alguém lhe diga que a cidadania europeia, precisamente porque não é coisa abstracta, é já um facto, um facto do foro íntimo e mental que tenderá a ser cada vez mais do foro material.
Ah, um Victor Hugo que se levantasse da tumba e lhe comesse os fígados com cebolada! Se são estes os pensadores que temos, a Europa está bem tramada. Em vez de se esforçarem por tornar a União Europeia "uma ideia entusiasmante", dão-lhes com os pés. Arre que são reaccionários e conservadores por demais, estes livres-pensadores europeus! Venham de lá os "neo-cons" americanos, que ao menos não andam com falinhas mansas. Deve ser à conta de gajos destes que o "não" à Constituição Europeia ameaça ganhar em França.
Mil vezes ler o Ricardo Araújo Pereira na página anterior! Esse sim, sabe qual é a questão essencial: "felizmente, eu sei exactamente qual é a questão essencial. Seria, aliás, ridículo se estivesse a falar sobre isto e não soubesse".

Death by paracetamol (esteve para ser o título do poema IV de "The Waste Land")

Foi o barbeiro que mo disse, enquanto me cortava as fartas melenas e cavaqueava a propósito da liberalização da venda de alguns medicamentos. Segundo ele, embora prático, não é assim tão inofensivo o paracetamol, vulgo aspirina, e isto porque - disse-lhe um médico que ali vai espontar a juba de vez em quando - há quem cometa suicídio por ingestão do mesmo, que é tóxico em grandes quantidades. Isso mesmo: há quem se mate com aspirinas (acabando de vez com as dores de cabeça). Agora porque é que as corporações farmacêuticas ainda não fizeram sair esta da manga é que me ultrapassa. Sobretudo não digam aos vossos filhos e filhas adolescentes que esse veneno se vai poder comprar nas bombas.

Em Abril águas mil



Isto é, quando chove. Porque por vezes não chove ou chove tão pouco, tanta escassez para tão grande sede da terra!
Mas naquela madrugada choveu. E não foi chuva - foi um aguaceiro de esperanças, de entusiasmos, de expectativas, de sonhos bem/mal localizados. De desejos e de paixões. Por exemplo: de elaborarmos o nosso próprio percurso. A nossa rota. A vida que por fora, no quotidiano político/social, nos coube.
Éramos ingénuos? Éramos. E com muita honra. Mas não diria bem ingénuos; inocentes, talvez, da mais bela inocência - que é a da alegria aberta.
Alegria? Sim senhor. Eu podia dizer-vos, da minha própria experiência: quando o dia levantou e...Mas chut! Ná, não vou pôr-me aqui a... Porque depois houve pontos mui negros. Mas vamos é ao que agora importa e que é dizer-vos que no Museu República e Resistência, no dia 26 e pelas xis horas...
Mas o melhor é mostrar-vos a notícia que o Nuno Rebocho (o meu Rebochão amigo, essa rebochal figura de voz forte e toeira que tantas vezes nos quase acorda aos microfones da Antena 2) me enviou agora mesmo e que passo a fornecer a vosselências:

AS NOITES DA LIBERDADE
na Biblioteca Museu República e Resistência
(homenagem ao 25 de Abril)

Poesia em Liberdade
26 de Abril - 21H30


A palavra dos poetas é a voz de homens livres que não esquecem quem acende as madrugadas da esperança e solta a alegria dos ventos. Terça-feira, 26 de Abril, juntam-se cultores da liberdade para afirmar a cidadania. Participam, entre outros:
José Fanha, Aurelino Costa, Fernando Fitas, Mário Contumélias, José do Carmo Francisco, Mário Máximo, Joaquim António Emídio, Nuno Trinta de Sá, Nuno Rebocho.
E há um cheiro a "cegadas", vindo da Nazaré (Manuel Carvolha), e o sempre inesperado MAL (Movimento de Arte Livre)

Em colaboração com
Antena 2

Biblioteca-Museu República e Resistência (Espaço Cidade Universitária) - Rua Alberto de Sousa, 10-A, à Zona B do Rego, Lisboa. Tel 21 780 27 60. Fax 21 780 27 88

Querido, estás pálido



The Soft Boys, "Nextdoorland" (Matador, 2002).



Fotografia oferecida a este blogue pelo autor deste.

Post da Revelação



"Só pode ter sido o Espírito Santo a grande ajuda para que de forma tão rápida se chegasse à eleição deste Papa".

Carvalho Guerra, Reitor da Universidade Católica do Porto.

Viegas longe de Manaus



"Longe de Manaus" é o título do último livro de Francisco José Viegas, lançado com cheiro de maresia, ali para as vizinhanças do Tejo, no recomendável estabelecimento irlandês Hennessy's.
Fui.
Cheguei atrasado. Já não ouvi a apresentação do jornalista Rui Lagartinho.
Mas ouvi o Chico a prometer que ia escrever outro livro, pela simples razão de "ter prazer em juntar os amigos, a quem agradeço a presença".
E como Rui Lagartinho tinha feito destaque de Daniela, figura do livro, o Chico manifestou-se "disponível para a Daniela", confessando-se agradado pelo realce dado.
"Já me têm perguntado porque é que há personagens que aparecem e desaparecem. Não sei. Há aparições na nossa vida que valem a pena. Há cerveja. É óptimo. Obrigado por terem vindo".
Mas que livro é este romance de Francisco José Viegas, longo de 76 capítulos, 444 páginas (como a saudosa sala de cinema, Estúdio 444) e uma capa lindíssima?
"Reconstruindo a sua própria linguagem do romance policial, subvertendo as suas regras, escrito em tons e linguagens distintos, 'Longe de Manaus' é o romance da solidão portuguesa, o retrato distante e desfocado de um país abandonado às suas memórias e ao seu desaparecimento".
É um livro em que o detective Jaime Ramos "é levado a percorrer caminhos que o transportam entre Portugal, o Brasil e a memória de Angola". Um viajante, este Francisco. Tão depressa está a escrever um artigo sobre Trancoso (na Bahia) para a "Volta ao Mundo", como está de regresso a Portugal, concretamente a Aviz.
Digo eu: "Portanto, teoricamente temos mais hipóteses de nos encontrarmos".
Sai uma gargalhada discreta: "Teoricamente".
Os escritores como o Francisco são assim: não param quietos.
Regressei a casa, com um livro autografado. Para o meu pai, que nasceu em Manaus e tinha uma jibóia no sótão.

Luís Graça

20.4.05

Ele morde.

Atenção pais e mães de Portugal e do mundo. Uma nova raça de cães de fila entrou para a lista dos canídeos potencialmente perigosos para o homem, ao lado dos tristemente célebres Rotweiller ou Doberman, entre outros. Trata-se do Ratzinger, de origem alemã. Acautelai as vossas crianças.

Bento XVI ou Pio XIII?

E pronto, lá acabou por ser eleito o cardeal Ratzinger... Pelo andar da carruagem, confesso que nos últimos dias andava com um "feeling" de que o velho cão-de-guarda doutrinal iria ser o escolhido. Sendo ele uma figura temida por muitos e de uma grande tenacidade na formatação das mentalidades, não custa a crer que ele exercesse um certo ascendente moral sobre a maioria dos cardeais. E querendo ele ser papa (porque estou intimamente convencido de que ele não queria outra coisa), parece-me que muito dificilmente a oportunidade lhe fugiria. Aliás, o facto de o conclave ter sido tão rápido e consensual é uma demonstração de que Ratzinger tinha aquilo tudo dominado e os outros cardeais se limitaram a confirmar o óbvio. É por isso que há determinadas coisas que se dizem e que eu tenho alguma dificuldade em aceitar. Podem dizer que Ratzinger é um tipo "soberbamente inteligente" ou até, embora isso seja subjectivo, o "melhor teólogo vivo" (como referiu um surpreendente D. Januário Torgal). O que não é defensável é que venham com o retrato de um Ratzinger modesto, quase "naif" , alguém que, na varanda da basílica de S. Pedro, ainda estaria meio embaraçado ou atordoado com as suas novas vestes de Sumo Pontífice. Como se a escolha do conclave o tivesse surpreendido e ele ainda precisasse de se recompor do choque. Benza-os Deus! Um homem que desempenhou o cargo de "grande inquisidor" (para simplificar...) da maneira por todos conhecida, alguém que foi a "sombra" de João Paulo II e, para todos os efeitos, o ideólogo do Vaticano, alguém que conhecia como nenhum outro cardeal os corredores do poder pontifício... alguém acredita que ele próprio não quisesse ser papa, que não tenha feito disso mesmo o projecto da sua vida? Aos 78 anos, terá sido esta a maior alegria da vida dele, a maior graça que lhe puderam dar, algo para o qual ele se terá preparado durante anos e anos. Não me parece é que uma boa parte dos católicos tenha ficado muito contente com a escolha. Mas essa é outra história...

P.S.- Se bem me recordo, naquela lista de perfis de papa que escrevi há dias, não constava o nome de Bento. O que só prova, se necessário fosse, os meus sofríveis dotes de Zandinga. Mas, cá para mim, Ratzinger não passa de um Pio disfarçado. Ou estarei enganado?

O Vaticano lava mais branco



Niels Köhler, "Auferstehungspornografie", 2001 (detalhe)

Quem pedala por gosto não cansa



Diz na capa que saíu em Janeiro, mas vocês sabem como são estas coisas... Na verdade viu a luz do dia agorinha - e de isso até saímos a ganhar: está fresquinha, apetitosa, bem oleada nos carretos e muito expedita.
A "Bicicleta". A revista que, dirigida pelo Bruno Vilão e congeminada pelo Manuel Almeida e Sousa, contou com certas cumplicidades lusitanas e de muito lugar de aqui e de além mar: do Brasil, da Sérvia, da Argentina, da Espanha, da França, da Itália...
Dos portugueses colaboram: este que vos escreve, o José Carlos Breia, a Sandra Costa, o Carlos Garcia de Castro, o Fernando Aguiar, o Ruy Ventura, o Manuel Bolinhas, o Fernando Rebelo, o João Garção, o Alberto Pimenta, o Abdul Affi, o Ricardo Mestre, o Tiago Gomes, a Maria Augusta, o Nuno Rebocho, o Victor Belém e o Manel e o Bruno também, para além da outra função.
Lá de fora estão os... Mas olha, não digo mais nada - para que estou eu a fazer a papinha toda? Comprem a revistinha, que diabo, não é mesmo nada cara e vale a pena, está mesmo muito apetecível. Não encontram em todas as lojas? Digam à gente do Grupo de Teatro "Mandrágora", eles mandam logo e assim como assim a revista destina-se a assinalar os 25 anos que já levam de vida.
E pedalem, pedalem, que de bicicleta, com o dizia o Prévert, vê-se melhor a paisagem. E se não foi ele foi outro também estupendo - mas ele era menino para o dizer. Com o que, vale a poesia. Não é assim?



Fotografia oferecida a este blogue pelo autor deste.

Nunca em Lisboa ouvi sinos repicar com tanto desencanto.

Margarida Vale de Gato

Papa morto, Papa posto

Foi quase assim, monarquicamente, o que indicia que já estava tudo feito. O catolicismo continua a espantar-nos com as suas práticas hipócritas, desde o celibato impossível à encenação de discussão democrática (quanto ao celibato, é facílimo para Ratzinger, tem 78 anos!). Note-se, no entanto, que Ratzinger foi o principal assessor teológico de Wojtyla, uma espécie de seu braço direito, logo, nada muda na Igreja, há apenas uma involução na continuidade. O meu amigo Fiódor Dostoiévski, ao atacar o catolicismo do ponto de vista outro tanto «fundamentalista» da sua ortodoxia russa, não deixava porém de ser certeiro: o catolicismo é uma religião comercial, interesseira, capaz de tudo para manter e arranjar clientela. Não sei se com a designação deste Ratzinger a estratégia comercial da Igreja será a melhor: como vai ele promover o produto com ideias e métodos medievais? Não esqueçamos que o homem é contra tudo o que é moderno, desde a ópera (!) ao preservativo! Mas não esqueçamos também que os golpes de rins são a especialidade desta gente (estratégia comercial oblige).
Ratzinger pertenceu às Juventudes Hitlerianas (mas diz que na altura era obrigatório), tem sido o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé (a velhinha Inquisição, que só já não pode queimar hereges mas, enfim, faz o que pode). Para ele, só a raça católica conta, o resto é merda (no fundo, a ideologia nazi, e não sabemos quantos golpes de rins terá de fazer para manter a estratégia do seu antecessor neste particular). Tentam mostrar-nos o homem como um intelectual asséptico: nada mais falso, Ratzinger é um fanático militante. A sua divisa (camuflada pelas falinhas mansas próprias desta gente) é: tudo o que é laico deve ser condenado. O regresso às trevas medievais. Agora ouvimos nas televisões os porta-vozes do rebanho (à civil e fardados), com as atávicas falinhas melífluas, a tentarem caracterizar o personagem como humano. É claro que é humano, resta saber de que parte da humanidade. Dizem que ele come, sorri, diz a sua piada... E eu acrescento: é mesmo capaz de dar o seu peidito nos soturnos convívios cardinalícios. E depois?

Filipe Guerra

Nem loira nem morena, venha de lá essa "Ruiva"



Agora sou eu a jogar. Saco mais rápido do que a minha carteira, na FNAC Chiado. E lá vão 9 euros e 90. Com esperanças elevadas de terem sido bem gastos.
Começo a ficar afectivamente preso à colecção "Beltenebros", da Assírio & Alvim. E ainda a procissão vai no adro. Banhei-me no sangue das virgens sacrificadas pela "Condessa Sanguinária" e agora vou mergulhar de cabeça em "A ruiva", de Fialho de Almeida, com edição de António Cândido Franco, que recordo, além do mais, por uma extraordinária dissertação sobre a poesia do meu querido amigo Fernando Botto Semedo.
"Fialho de Almeida pertence àquela família de médicos que se tornam escritores porque vêem na literatura uma forma de medicina e na palavra um ácido corrosivo mas terapêutico".
Ora vamos lá a um cheirinho, só um cheirinho:
"-Vamos, disse eu. Há uma cousa pior que um cão danado; é um coveiro bêbedo. E saí.
Um dia antes, o meu escalpelo penetrara o corpo dessa perdida criatura, que veio a fornecer subsídios notáveis à minha tese inaugural".
Uma operária lisboeta (Carolina, a ruiva) filha de um coveiro e de uma varina, que dá em puta. A história é esta. Estão a ver-me a falhar a leitura disto?

Luís Graça

Porto, cidade abençoada



O profissionalíssimo Comércio do Porto, com o seu habitual e agudíssimo sentido de oportunidade, lembra, na sua edição de hoje, que Bento XVI já esteve no Porto, tendo "apreciado imenso o rio Douro e o contacto com os portuenses". Segundo Jorge Cunha, uma das personalidades que teve o privilégio de privar com o novo Papa durante a sua visita à cidade, em Março de 2001, Ratzinger "foi às caves Ferreirinha e apreciou muito o vinho do Porto". "Recordo-me que ele achou muita graça ao Palácio Episcopal. Ficou admirado por ser muito grande." Carvalho Guerra, reitor da Universidade Católica, por sua vez, "disse ao Comércio do Porto ter 'gostado muito do contacto com o Papa', realçando por diversas vezes que 'só pode ter sido o Espírito Santo a grande ajuda para que de forma tão rápida se chegasse à eleição deste Papa'".

19.4.05

Ai o meu umbigo

Resposta ao convite da Alexandra Barreto.

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
O livro que o Faulkner não chegou a escrever.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Fiz amor com pelo menos um personagem de cada livro que li. Personagens de ambos os sexos, devo dizer. E não raras vezes mudei de parceiro durante a leitura. Se assim não fosse a literatura não serviria para nada.

Qual foi o último livro que compraste?
"Pele Calejada", de Raymond Guérin, numa tradução da Luiza Neto Jorge. Descoberto ontem ao fim da tarde entre manuais de criação de periquitos e ABC's de Electrónica, numa pequena campanha de saldos da livraria Latina (Rua de Santa Catarina, Porto). Custou-me 0,75 euros.
A campanha decorre até ao fim deste mês.

Qual o último livro que leste?
"Tu Consegues, Noddy", da Enid Blyton. Ontem à noite. O meu filho também gostou.

Que livros estás a ler?
"A Tomada do Poder", de Czeslaw Milosz (Dom Quixote, 1987) e o terceiro volume das obras completas de Paulo Quintela (Fundação Gulbenkian, 1999).

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Levava apenas o Guia American Express dedicado a essa ilha.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
À Cristina;
ao Rui;
e ao Pedro.

Porque sim.

Juntos

Alexandra Monteiro, Manuel Resende, Rui Carlos Souto, Alexandra Barreto, Diana Almeida, Pedro Sena-Lino, Isabel Fernandes Pinto, Margarida Vale de Gato, Ângela Mendes Ferreira, António Pedro Ribeiro, João Alexandre Borges, Pedro Correia de Jesus, José Rui Teixeira, Vítor Oliveira Jorge, Marianna de Sá, Vasco Graça Moura, Ana Luísa Amaral, Rui Lage, Nuno Casimiro, Ana Cordeiro, Manuela Degerine, Ana Gomes, Pedro Martins, Teixeira Moita, Jorge Palinhos, Fernando Moreira, Sophie Kanawa, Paulo Castro, Micaela Maia, Orlando Neves, Alexandre Andrade, José Ribamar Neves Filho, Nicolau Saião, Otília de Sá, Alexandre Delgado, Teresa Ferreira Gentil, Virgílio Melo e Ângela Lopes.

Neste preciso momento, todas estas senhoras e senhores têm cara de papel couché de 150 gramas e estão a ser passados a tinta de offset, prensados, cortados, colados, cosidos e embalados.
O sétimo número da revista Aguasfurtadas está quase nas livrarias.

Os lenhadores

(entram, violentos e grosseiros)

Arreda! Lugar!
Queremos espaço!
Derrubamos árvores
Que estalam e caem;
E, quando as carregamos,
Lá vai encontrão!
Pra nosso louvor,
Vede se entendeis: -
Pois que se os grosseiros
Nunca trabalhassem,
Como se arranjavam
Sós os delicados,
Por mais que engenhassem?
Sabei isto bem:
De frio morríeis
Se nós não suássemos!

J. W. Goethe, Fausto, II Parte, Acto I.
Tradução de Paulo Quintela.



Fotografia oferecida a este blogue pelo autor deste.

Tens um filho a sério, ó Erico!

Erico Veríssimo tinha muitos méritos literários. Um deles é seu filho: Luiz Fernando Veríssimo. Dei com ele nas sagradas páginas da Playboy brasileira, que começou a chegar a este lado do riozinho em 1982. Digo eu, que nisto de corpos nus não falho muito. Comecei a ler prosas várias e o argumento para os desenhos de Edgar Vasques do divertidíssimo "Analista do Bagé".
Agora tenho já lidos vários livros do Luiz Fernando. E com as colectâneas que vão saindo umas atrás das outras, já começo a ficar baralhado.
A última maravilha não me deixou na dúvida: "Já tenho? Não tenho? Tem coisas que eu já li noutro sítio?". Não, desta vez fui-me ao livro como gato a bofe. Chama-se "O melhor das comédias da vida privada" (D. Quixote).
Vou estragar-vos deliberadamente o gozo de descobrir o final da crónica intitulada "Batalha", que trata de um marido que desistiu de extraordinário sexo, porque a mulher fez batota a jogar à "batalha naval" em plena lua de mel:

"(...) Os amigos concordaram que seria perigoso ficar casado com uma mulher que esquartejava e espalhava o seu porta-aviões. Por melhor que fosse o sexo, era preciso pensar no resto da vida, quando os intervalos ficariam cada vez maiores. Jorge nem chegou a contar que os submarinos de Gisela não constavam do diagrama da sua frota. Segundo ela, estavam submergidos, podiam estar em qualquer lugar, nem ela saberia onde encontrá-los. Era melhor pedir o divórcio".

Luís Graça

18.4.05

Olha, olha, ainda mexe


Anúncio saído no "Público" de ontem.


"Cinema Batalha vai reabrir as portas
O cinema Batalha, no Porto, vai reabrir. A autarquia chegou a acordo com os proprietários da emblemática sala da Baixa portuense e tem agora um ano para provar que o cinema é viável, avançou a TSF."

Notícia do "Público", de 16 de Janeiro de 2001.

Só mais uma passa



The Walkmen, "Everyone Who Pretended To Like Me Is Gone" (Talitres, 2002). Fotografia: "Newsies at Skeeter Branch, St. Louis, Missouri, 11:00 A.M., May 9, 1910", de Lewis Hine (Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque).

Se for eleito Papa, prometo:

1- Lugares para todos no céu, cerca de um bilião, portanto, mas sujeitos a confirmação por e-mail, fax ou telefone até 24 horas antes do Dia do Juízo.

2- Acabar com as escutas telefónicas ilícitas no Vaticano. Não voltarei a permitir que uma conversa entre o Papa e Deus surja escarrapachada nos jornais do dia seguinte.

3- Pôr a máfia fora dos muros do Vaticano. A partir de agora, só com marcação prévia.

4- Deixar as mulheres participarem mais activamente no culto. Defendo um modelo de evolução serena e ponderada. Poderão começar, por exemplo, por ajudar os senhores padres a vestir a batina, sempre, e sublinho este sempre, no recato da sacristia.

5- Criar uma série de produtos multimédia que lancem definitivamente a Santa Igreja no século XXI, como, por exemplo, orações ou ícones de santos descarregáveis em telemóveis.

6- Resolver o problema das finanças do Vaticano com o recurso à venda de fragmentos da capela sistina a museus de renome internacional.

7- Defender o uso do preservativo, mas só em casos excepcionais, após requerimento endereçado à paróquia responsável, autorização desta, e estrita vigilância médica.

8- Alargar o intervalo de tempo em que Deus criou o mundo de, por que há a coisa dos dinossauros e tal, 7 dias para 77 anos.

9- Reconhecer, perante tanta evidência, que, de facto, há homens - e mulheres - que parecem ter fortes parentescos com o macaco.

10- Concessionar as casas de banho do Santuário de Fátima.

11- Aparecer à janela para dar a bênção aos crentes pelo menos dez vezes por dia, e - aqui é que reside a verdadeira novidade - cada dia em sua janela diferente.

Papa Morto, Papa Posto?



Não, isso é para reis. Fechou-se o Conclave na Casa, incomunicável, para decidir. O que havia a fazer de propaganda eleitoral já foi feito nestes curtos dias. A eleição do futuro papa interessa a todos: católicos, ateus e assim-assim, porque isso influi na nossa vida, sobretudo na vida que as televisões querem moldar para nós. (Não são as televisões que o querem, são os poderes que delegam nelas.) Sobre a eleição do futuro papa, pessoalmente não acredito que os inteligentes cardeais escolham, de entre as muitas hipóteses que se aventam, duas delas, muito assustadoras: a de Ratzinger, o medievo alemão, um fanático racional e frio; e a de Policarpo, o chico-esperto português. Pessoalmente, mais uma vez, não acredito que tanto Ratzinger como Policarpo tenham grandes possibilidades de vencer. Mas nunca se sabe... Quando o cidadão pensante lê os escritores do século XIX (e alguns são tão reaccionários e retrógrados!) e sente que, ao lê-los, não recua ao passado mas como se catapulta para a frente, algo vai profundamente mal no espírito da nossa época. Regressamos às trevas? Os católicos, e os cristãos em geral, têm um grande trunfo: Jesus Cristo, homem pensado como honesto, trabalhador, desinteressado, com ideias, corajoso e até heróico. Mas parece que Jesus Cristo e o próprio Deus estão na boca dos católicos como a palavra freedom e democracy estão na boca de Bush: um mero insulto propagandístico.
Mas somos portugueses, mordamos no português Policarpo. Vejo nele algum santanismo de carácter e de conversa, muito populismo. Também Santana Lopes, antes de cair em desgraça, tinham assim uns tiques de bon vivant. Não é que Policarpo não seja simpático, que até é. Não é que não seja humano, que até é: fuma, só lhe falta a mulher (ou as mulheres) ao lado. Humano, igual aos homens, como deviam ser todos os clérigos: assim pensarão os religiosos mais modernos. Até pode ter alguma santidade: a santidade está onde menos se espera. Não é que não dê para o cargo: a Igreja, hoje em dia, não se pode dar ao luxo de ter quadros geniais. Não é que não seja «bom político», ao nível de um Santana Lopes (de novo). Mas eu, que tenho de gramar um papa nas televisões, por mais que fuja, sentir-me-ia derrotado, amargamente derrotado, se o Policarpo fosse para chefe do Vaticano, e isto à vista da porca, porca campanha eleitoral nas televisões a que ele se dedicou nos últimos dias. Dois exemplos, um de «abertura» de espírito: acha ele que a monstruosa máquina de propaganda e lavagem cerebral que envolveu a morte de Woytila é natural, mesmo divina, e que, a haver problema nisso, tal problema é apenas de quem não aceita semelhante manipulação e a critica (o argumento indigente do chico-esperto); outro exemplo, inqualificável: como Woityla era popular, toca de se identificar com ele (com falsa modéstia) e de o propor para santo! Meu Deus, tanta areia para os olhos! Será que eles acreditam mesmo em Deus, ou se servem d'Ele? Do papa morto servem-se, isso de certeza!

Filipe Guerra

A lira e o pandeiro

Estava eu a dar autógrafos na livraria Assírio e Alvim do "King Triplex" (já lá vão uns mesitos), sem despertar grandes "Erecções" em homens e senhoras, quando a mão amiga e fraterna do Pedro me veio proporcionar a descoberta deste fenomenal "Se a lira pulsas e o pandeiro tocas", de António Lobo de Carvalho, o Lobo da Madragoa.
Como a ignorância é um monstro, o meu está bem alimentado e esta obra tinha-me passado completamente ao lado. O livrinho maldito tem a chancela da "& Etc" e tiraram-se mil exemplares em Abril de 1984.
Provavelmente a ganhar balanço para os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Pode-se mesmo dizer que este "Se a lira..." tem muito mais do que os mínimos para enfileirar com a poesia digna do nosso muito amado Manuel Maria. Ou seja, o Bocage.
De resto, este Lobo da Madragoa, que não um lobo qualquer em extinção, nasceu nos princípios do século XVIII em Guimarães. Não andou assim tão longe de Bocage.
Minhas senhoras e meus senhores, directamente das profundezas da poesia, aqui neste palco sem talco, só para vós, a voz do Lobo da Madragoa, o soneto dedicado ao berço da nacionalidade "que é a pátria do amor". Vai disto:

Olha tu, Guimarães, das cortes velhas
Nenhuma a primazia te disputa;
Ainda que baixa, és terrinha enxuta,
Onde são bem chuchadas as botelhas:

Panelas, socos, nabos e cernelhas
Do país foram sempre a melhor fruta;
Só dos dois animais o frade, e a puta,
Podes ter de alquiler três mil parelhas!

Daí vêm os heróis de marca e selo,
Que indo as honras buscar ao chão acima,
Acabam laureados de capelo:

Assim Jove imortal, que os bons estima,
Te ponha a mesma mão pelo cabelo,
Que pôs há tempos em Calhau de Lima.

Luís Graça

Efeito Guronsan para manhãs de segunda-feira

15.4.05



Fotografia oferecida a este blogue pelo autor deste.

A mais velha discussão do mundo

"In distinguishing between the erotic and the pornographic, it seems to me, we are really distinguishing two kinds of interest: interest in the sexual subject and interest in the sexual object."

Roger Scruton, "The Times Literary Supplement" (texto parcialmente on line)

O fim da Vandoma?

A Câmara Municipal do Porto ameaça "legalizar" a feira da Vandoma, ancestralmente acampada ao sábado lá para os lados das Fontainhas. Legalizar uma ilustríssima e espontânea manifestação do engenho mercantil portuense, mercado subterrâneo do regateio, paraíso anarca das pechinchas, oportunidades, velharias, segundas e terceiras mãos, economia paralela dos pobres, destino das limpezas dos sótãos e caves, expediente ganha-cobres de fim-de-semana? É a morte do artista. Não faz sentido. Já agora, porque não, numa segunda fase, transformar a Vandoma num shopping vistoso e pôr a senhora dona Laura Rodrigues, da Associação de Comerciantes do Porto e porta-voz de Rui Rio para o sector, à frente da coisa?

"Justine" e Sporting passam no teste

14 de Abril de 2005, 18 horas e 30 minutos, Culturgest, Lisboa. Comunidade de Leitores liderada pela Helena Vasconcelos marca pontos. O debate em volta de "Justine" (primeiro livro do "Quarteto de Alexandria", de Lawrence Durrell, ou Lourenço Duracell, como tive o desplante de lhe chamar) foi de elevadíssimo nível.
Logo à chegada, deparei com cinco edições diferentes de "Justine". Na sala havia ainda mais três ou quatro diversas, desde o grafismo da capa até à língua. Desde o português ao inglês, passando inclusivamente pelo francês.
Post-it nos livros era coisa que não faltava. Desde os amarelinhos do Zé (que começa a colocar marcas e depois vai desistindo, se o livro for muito bom) até aos meus vermelhinhos da Silveira. O "Mountolive" já vai ter em verde, esgotei os vermelhinhos.
(Sabem que cada embalagem de post-it custa o preço de um bilhete de cinema?)
A meio da sessão, a visita agradável de Maria João Seixas, "oficial do mesmo ofício" e também "líder" de outras Comunidades de Leitores. Maria João leu "Justine" ainda antes dos 15 anos, por conselho da Tia Júlia, às escondidas da mãe. O livro tinha vindo da Rodésia e Maria João vivia em Lourenço Marques.
Foram duas horas que passaram a correr. Cheguei a casa, olhei para a TV e vi o Sporting a perder 1-0. Pensei: "Já fomos". Afinal, a segunda parte deu-me a segunda alegria do dia, depois da Comunidade.

Luís Graça