30.6.04

Pausa para publicidade.

O Povo é Sereno # 124

Segundo um dos nossos noticiários televisivos, Manuela Ferreira Leite, quando confrontada com o facto consumado da partida de Vaidosão Barroso, terá dito que ficou "em estado de choque". Por uma vez, a Ministra das Finanças e os portugueses partilham o mesmo estado de espírito, algo que se pensava ser completamente impossível. E é para verem o quanto a situação é grave, a ponto de a nossa "dama de ferro" ter ficado em "estado de choque". E eu que estava convencido de que a Manuela era um rochedo à prova de balas, mísseis, morteiros, obuses, granadas, "rockets", explosivo plástico c3, napalm, dinamite, munições enriquecidas com urânio empobrecido, cacetes, tomates, martelinhos de S. João, "pringles", etc., etc..

O Povo é Sereno # 123

Apenas dois motivos levam Durão Barroso a aceitar o convite para Presidente da Comissão Europeia e a deixar o país nesta desorientação: ambição e vaidade. Todos os outros motivos apresentados são uma grande treta. Eis o sentido da responsabilidade dos nossos governantes. Perante um convite que lhes acaricie o ego, não hesitam em aceitar, independentemente das consequências. Aliás, se Durão tivesse, para além de ambição e vaidade, um pouco de orgulho, nunca aceitaria um convite que lhe foi feito em terceira ou quarta mão, após um sem-número de outros nomes, muito mais fortes do que ele, terem sido afastados ou terem declinado.
Numa situação muito semelhante, António Guterres (o tal que "fugiu"), deu um exemplo de seriedade e mostrou ser um homem correcto. Quando se demitiu de Primeiro-Ministro, alguém se lembra de Guterres ter nomeado um dos seus pares para lhe suceder na condução do governo PS? Sem celeuma e sem delongas, não se convocaram logo eleições antecipadas? Afinal, algo distingue os dois maiores partidos portugueses.
E é assim que Portugal se vê hoje transformado no joguete de duas ambições desmedidas, a de Vaidosão Barroso, e a de um dos mais ineptos e patéticos políticos que o país conheceu desde o 25 de Abril, Santana Lopes, um indivíduo que se candidata a todos os cargos que pode sem que para tal possua um dedo sequer de talento ou competência. E já agora, alguém me sabe dizer qual é o pensamento de Barroso sobre a Europa? Que ideias e que concepções se lhe conhecem sobre a construção europeia? Alguém me pode indicar, por exemplo, artigos ou ensaios onde Vaidosão Barroso exponha a sua visão da Europa?
Quanto ao prestígio que o facto de termos um português como Presidente da Comissão Europeia poderá trazer a Portugal, ainda não consegui perceber se tanta ingenuidade, nos portugueses, é uma qualidade ou um defeito.

Post Scriptum # 283



León Ferrari
(Argentina, n. 1920)

FOGUEIRA

Atearei uma fogueira
com madeira de loureiro,
de oliveira,
e da figueira que secou Jesus,
com ramos do domingo de ramos,
com os óleos que usavam para queimar os mortos,
com fogo do diabo que nunca se apaga,
com chamas de velas acesas
do dia da Imaculada Conceição.


(A tradução é minha.)

Señor Tallon #63

E ainda a propósito da crise política que se vive em Portugal, creio que vale a pena invocar um velho provérbio tripeiro: "Quando os grãos de areia estão contra as pessoas, é melhor as pessoas irem-se embora."

Ilha dos Amores #56



Gabriele Picco, "White House with a White flag", 2003.

O Povo É Sereno #122



O CONHECIMENTO E A SABEDORIA

Há bocadinho, em conversa com o grão-mestre de uma associação secreta - o Grupo Desportivo e Gastronómico de Vila Facaia - tive uma das revelações em que o país tem sido fértil nos últimos dias: o facto, "patente até às fezes" como dizia o Trevor Roper no seu livro sobre o Hitler, de que verdadeiramente realmente os membros das forças de segurança não são tão estúpidos como uma lenda maldosa tem tentado estabelecer. De acordo com o titular em apreço, pelo menos na nossa região são até muito inteligentes e bem informados: eles que até há meia dúzia de dias, por conselho ou devoção da nossa estimada Manuela F. Leite increpavam os cidadãos com ímpeto e facúndia (hoje estou a escrever cá com um garbo, não é assim?) visando aliviá-los de alguma excelsa notazita para estimular a recuperação do erário público (os ordenados dos galifões do mando) volveram-se de súbito doces, quase pacatos, com um ar de ternura nas faces amoráveis. Ou seja: perceberam, com o bestunto potente que deus lhes deu, que os ventos podem começar a soprar de outros quadrantes - e à cautela...
Tá-se a perceber, não tá-se?


Nicolau Saião

29.6.04

Concurso "Santana e Durão, tão amigos que eles são"



O Quartzo, Feldspato & Mica promove, a partir de hoje, o extra ordinário concurso "Santana e Durão, tão amigos que eles são", cujo prémio é uma fantástica viagem às Malvidas*. Para participar, basta imaginar um pequeno diálogo entre estas duas personagens e publicá-lo na respectiva caixa de comentários. O diálogo mais criativo será premiado com a dita viagem.

* Para duas pessoas e cão. Concurso nº 756367/2004, aprovado por todos os governos civis do mundo e submundo.

O Silêncio é de Ouro #103



O saxofonista Julian Adderley (1928-1975) ficou conhecido na história do jazz pela alcunha de "Cannonball" (bala de canhão), segundo parece por causa do seu apetite devorador. Talvez poucas alcunhas tenham sido tão justas como esta. Ao longo da sua carreira, Adderley demonstrou ter sempre um grande apetite por tudo o que soasse a originalidade. Ouça-se, por exemplo, este "Somethin' Else", gravado em Março de 1958, pouco tempo depois de ter entrado para a banda de Miles Davis, o genial criador de "Kind of Blue", que de resto também participa neste disco.

Raul Silva

Post Scriptum # 282

o meu cérebro
a fugir
pelo quarto
e eu, desesperado,
a correr
atrás dele.


a. pedro ribeiro

Ode a uma Urna Grega # 8

Há neste post do valter hugo mãe demasiada sabedoria para que eu fosse capaz de o deixar passar sem eco no Quartzo, Feldspato & Mica:

28.06.2004 - 13.50 h

quando era miúdo pensava que ser adulto tinha que ver com ter muito dinheiro, um carro, uma casa, e sair até tarde sem prestar contas a ninguém. estava errado. ser adulto é amar alguém e só fazer o que a dois tiver sentido, o resto são sobras ou complementos como o silêncio que se faz de uma a outra folha da árvore

Post Scriptum # 281



Arthur Rimbaud
(França, 1854-91)

Coração meu o que são para nós os lençóis de sangue
E de brasa, e mil homicídios, e os longos brados
De raiva, soluços de todo o inferno destronando
O Estabelecido; e ainda, por cima dos destroços,

O Aquilão; e toda a vingança? Nada!... Mas não,
Nós queremos ainda tudo! Industriais, príncipes, senados:
Perecei!, pujança, justiça, história: venha tudo abaixo!
Tudo isso nos é devido. O sangue!, o sangue!, a chama dourada!

Tudo para a guerra da vingança, tudo para o terror,
Espírito meu! Há que mexer na ferida: Ah, ide-vos,
Repúblicas deste mundo! Basta de imperadores,
De regimentos, de colonos, basta de povos, basta!

Quem, senão nós, revolveria os turbilhões do fogo
Furibundo, e aqueles que nós imaginamos, irmãos?
Vamos a isso, romanescos amigos - vamos ter um gozo
Danado. Ó tropéis de fogo, chamais a isto trabalho?

Europa, Ásia, América, desaparecei do mapa.
A nossa marcha vigorosa ocupou todas as partes,
Urbes e agros! - Seremos obviamente vencidos!
Os vulcões vão explodir! E o Oceano apanhado em cheio!...

Oh!, meus amigos! - Coração meu, tenho a certeza, são irmãos:
Negros incógnitos, se nos fôssemos! Vamos!, vamos a isso!
Ó destruição! Já me sinto fremente, a velha terra cede,
Sobre mim, sinto cada vez mais que vos pertenço, a terra funde.

Não é nada! Contai comigo!, contai comigo!, sempre.

Tradução de Maria Gabriela Llansol.

O Silêncio É de Ouro #102



"The Times They Are A-Changin'" (Sundazed, 1964), de Bob Dylan. A pose iconográfica, a angústia existencial, o cinismo de uma juventude insatisfeita na América das lutas civis.

Post it # 168

Para os interessados em acompanhar o que se vai dizendo na blogosfera sobre a tempestade política que se vive por estes dias em Portugal, vale a pena visitar o "CPeC - Crise Política em Curso". Trata-se de uma espécie de grande blogue colectivo exclusivamente dedicado ao assunto.

Ilha dos Amores #55



Luo Brothers, Welcome to the World's Famous Brands, series #55, 1998.

28.6.04

Cicatrizes em ferida #9

CEREJAS


Na fila do supermercado, a caixa tenta encontrar, numa lista com frente e verso, o preço do quilo das cerejas para as poder pesar. Vira, e revira, o papel, perante o desespero da fila, até que decide pedir auxilio à caixa do lado:

- Ouve lá... tu sabes onde estão as cerejas?

A outra responde, solicita:

- Procura aí na letra c...

A última da Francisca #7

TELEMÓVEL


Ao almoço, com um casal amigo, a Francisca confidencia que vai pedir um telemóvel como prenda, já no próximo Natal. A mãe faz o reparo da idade.

- Ainda és muito novinha - concorda Mariana, a filha mais velha do casal. - Tu que idade é que tens?
- Sete - responde, determinada, a Francisca.
- A tua mãe tem razão! - remata Mariana. - Olha que eu só tive o meu aos treze.

Post it # 167



Num post recente, a Alexandra Barreto falava sobre as "histórias escondidas" que habitam os livros em segunda mão. "As dedicatórias, os marcadores esquecidos, os sublinhados esbatidos, uma flor seca ou uma borboleta que ali se decidiu guardar. (...) Por mim, gostava muito de conhecer as histórias secretas dos proprietários desses livros."
O repórter Barry Newman, do Wall Street Journal, leu o texto da Alexandra e decidiu investigar. E o resultado é realmente surpreendente.

O Povo É Sereno #121

PEDIDO MUITO INSISTENTE

Confesso: fui apanhado de surpresa pela crise. Entre viagens a Sevilha, ao meu quintal e ao cafézinho do senhor Mantéu, futeboladas e dorminhoquices, a notícia de que o esplêndido José Manuel ia para Bruxelas colheu-me como se costuma dizer com as calças na mão.
Eu não sei se ainda venho a tempo, mas queria pedir ao sr. Presidente de todos os desportistas - ele que com tanto talento tem exautorado a lamúria ou seja, os portugueses queixarem-se por lhe estarem a ir ao pacote (de reformas) - que, por favor, deixe ir o Santana a premier, como se diz na Inglaterra que ele tanto estima.
Digamos que o Santana é quase uma das minhas personagens. Tenho-o como motivo inspirador. E, ante tanto trombudo que por lá tem passado, era refrescante um tipo que nos faça rir a valer. Rir mesmo, não digo chorar. Para isso estaria o Marcelo - que também é um must a não deitar fora, com o seu cinismo de bom recorte, vivaço e espertalhaço como um miúdo de nome Figueira (o Figueirão, como a malta lhe chamava) dos meus tempos de escola que ainda recordo com saudade. E talvez nos intervalos dos conselhos de ministros ele fosse à TV a encantar-nos com as suas análises de livros. Que são de um mortal com senso de humor cair para o lado a relinchar.
Já me estão a perceber, não estão? Como é impossível fazer da política, cá no sítio, um trabalho sério e grave, por favor por favor deixemos que ela se deixe ir pelo terreno fértil da actividade circense. Devastadoramente, uma charlotada.
Santanita, el payaso riquito? Marcelito, el payaso pobrecito? Vai em espanhol, para ter um pouco mais de salero...


Nicolau Saião

Diário de Sophie#18

O Emídio Rangel sempre disse que a SIC era capaz de eleger um Presidente da República. O que eu nunca pensei é que a "Caras" fosse capaz de eleger um Primeiro-ministro, querido diário.

Post Scriptum # 280

A não perder. Os excertos dos "Diários de Juventude" (1920-22) de Bertolt Brecht, seleccionados por Jorge Silva Melo, e traduzidos pelo próprio e Vera San Payo de Lemos, no número 10 (Março de 2004), da revista "Artistas Unidos".
Um exemplo:

Domingo, 27 de Junho de 1920.

Assalta-me por vezes a ideia de que os meus trabalhos são demasiado primitivos ou datados, pesados, pouco ousados. Procuro formas novas e experimento as minhas sensações, como os recém-nascidos. Mas depois volto sempre à ideia de que a essência da arte é a simplicidade, a grandeza e o sentimento e que a essência da sua forma é a frieza. Isto está mal expresso, eu sei. (...)

O Povo É Sereno #120

Santana Lopes primeiro-ministro??? Como??? Manuela Ferreira Leite já fala em "golpe de Estado" se por acaso a nomeação for feita sem haver congresso do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa já anda a insinuar nos seus comentários que o país ficaria muito mal entregue se aquela solução vingasse... enfim, isto está a animar. Por mim, nunca pensei vir algum dia a sentir-me tão próximo da nossa encantadora ministra das Finanças e do nosso prestidigitador-mor. Volta, Zé Manel, estás perdoado!

Post it # 166

Parabéns atrasados ao Alexandre do No Arame, ao Alexandre dos Espelhos Velados e à vasta equipa do Natureza do Mal. No próximo ano seremos mais pontuais.

O Povo É Sereno #119

Durão Barroso vai abandonar o Governo português para ser o próximo presidente da Comissão Europeia? Mas não é o mesmo personagem que criticou António Guterres por ter "fugido" de idêntico cargo após um resultado eleitoral desfavorável? A História repete-se?

Jorge Sampaio vai dispensar a realização de eleições legislativas antecipadas e entregar o poder a um qualquer Santana Lopes? Mas não é o mesmo personagem que convocou idêntico sufrágio após a demissão de António Guterres? A História não serve para nada?

Post Scriptum # 279



Jean Cocteau
(França, 1889-1963)

O PACOTE VERMELHO

O meu sangue transformou-se em tinta. Era preciso impedir a todo o custo essa nojeira. Estou envenenado até aos ossos. Cantava no escuro, e agora é o canto o que me mete medo. Mais ainda: estou leproso. Sabem daquelas manchas de humidade que parecem um perfil? Não sei que encanto da lepra engana o mundo e o autoriza a beijar-me. Pior para ele! As consequências não me dizem respeito. Nunca exibi senão chagas. Fala-se de graciosa fantasia: a culpa é minha. É loucura alguém exibir-se inutilmente.
A minha desordem empilha-se até ao céu. Os que eu amei existiam pendurados do céu por um elástico. Voltasse eu a cabeça? e já lá não estavam.
De manhã, debruço-me, debruço-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, de dor, de sono. Sou inculto, nulo. Não sei um número, uma data, um nome de rio, uma língua, viva ou morta. Tenho zero em geografia e em história. Se não fossem uns passes de mágica, corriam comigo. Além do mais, roubei os documentos a um tal J.C., nascido em M.L., no dia......, e que morreu com dezoito anos, depois de uma brilhante carreira poética.
Esta cabeleira, este sistema nervoso, mal implantados, esta França, esta terra, não me pertencem. Dão-me agonias. Sempre os dispo à noite, em sonhos. Pois aqui largo o pacote. Que me fechem num hospício, que me linchem. Quem puder que entenda. Eu sou uma mentira que diz sempre a verdade.

Tradução de Jorge de Sena.

Ilha dos Amores #54



Erwin Wurm, Looking for a bomb 2, 2003.

Post Scriptum # 278



VIAJAR COM O VICENTE

A mais bela reflexão sobre "a viagem" não a fez o tal político que deu duas vezes a volta ao planeta sem sair do escritório. Nem o tal escritor de sucesso que faz viagens - que horror! - para depois escrever buques que os interessados e os artolas irão consumir regalados. Nem sequer o estimável Xavier de Maistre, com o seu "Voyage au tour de ma chambre" que nos compraz e nos excita pela evidente convicção e o eficaz discurso literário.
De facto, quem me parece ter feito a tal superlativa reflexão que em 9 páginas arruma de vez a questão, foi mesmo Vicente Blasco Ibañez - e de que maneira inteligente, criativa, realmente lúcida e poética! Exacto, o mesmo autor de "Os 4 cavaleiros do Apocalipse", de "Sangue e arena" cinematograficamente protagonizado por um Tyrone Power novinho pero todo un hombre - o outro, em fita, tinha por lá o Glenn Ford, a Ingrid Thulin, o Charles Boyer...
O livro - "A volta ao mundo" (3 volumes) - foi publicado em Espanha, na França, nos E.U.A. faz este mês precisamente 80 anos. É pois um livro velho - como se tivesse sido escrito agora mesmo. Leiam as páginas sobre Nova Iorque, sobre a China, sobre as ilhas perdidas do Pacífico e depois venham falar comigo. Sujeito de razão e coração este Ibañez e ainda por cima um democrata de antes quebrar que torcer.
Se não encontrarem nos escaparates (saiu por cá na Liv. Peninsular Editora, em bela tradução de Agostinho Fortes) ameacem o editor de lhe ferrarem um tiro caso não reedite. Nunca uma doce ameaça faria tanto sentido.
Recomenda-se aos aventureiros/as e a todos os que souberam conservar o seu vibrante coração de criança.


Nicolau Saião

O Povo é Sereno # 118



BAIRRISTAS E FORASTEIROS


Há gente assim. Não olham para a qualidade dos Homens, para a sua experiência e verticalidade ou para as suas capacidades - mas apenas para a certidão de nascimento que, tanto quanto sabemos, não constitui atestado fiável nem de inteligência nem de competência. Há gente que prefere vinho carrascão, só porque nasceu de algumas vides enfezadas lá da terra, e rejeita um néctar divino, só porque a cepa rebentou em território que não consegue alcançar à vista desarmada. Esquecem que podemos nascer em qualquer canto, até num comboio ou numa avioneta, mas a "pátria" é assunto do coração, crescendo de uma adesão espiritual a um lugar, que tantas vezes não é aquele em que lançámos o primeiro grito. O bairrismo vale a pena quando defende com abertura de espírito e frontalidade crítica as legítimas aspirações duma colectividade. É manifestação de uma sociedade fechada e ignorante sempre que revela uma bacoca miopia, embebida em estupidez quando promove a mediocridade local só porque é local, quando recusa a crítica justa, quando é veículo de reprodução social na promoção do imobilismo e, frequentemente, do caciquismo nas suas expressões mais perigosas ou descaradas.
Exemplos contrários também existem. Há habitantes de aldeias, de vilas, de cidades e de países que vão dando bordoada na qualidade dos seus naturais, mesmo que seja notória e reconhecida fora de portas, sobretudo quando esses naturais provêm de camadas desfavorecidas (ameaçam a pirâmide social) - mas não hesitam em bajular quem vem de fora, mesmo que seja um burlão ou um vigarista, ou apenas um chico-esperto que habilmente manipula a "hospitalidade" local.
Por isto e por muito mais escrevo sem hesitações: nem forasteiros nem indígenas. Melhor dizendo: para nada me interessa o bilhete de identidade de uma cidadã ou de uma cidadão, desde que demonstre verticalidade, qualidade e competência; igual desprezo voto à naturalidade de quem se apresente medíocre ou invertebrado. Prezo quanto de bom foi e vai nascendo em Portugal ou na terra em que nasci, que tanto amo, mas com igual amor tenho no coração os frutos saborosos vindos do resto do mundo.


Ruy Ventura

27.6.04

Ilha dos Amores #53



De Albuquerque Mendes, artista plástico consagrado e residente no Porto, uma obra inédita para o Quartzo, Feldspato & Mica: "T.V. Ipiranga S. Paulo", desenho a tinta da china sobre papel, 29x21. Posted by Hello

26.6.04

O Silêncio é de Ouro # 101


O site de música "pitchfork" publicou ao longo dos últimos dias a sua lista dos cem melhores álbuns dos anos 70 (também já havia publicado os cem melhores dos 80 e dos 90). Vale a pena espreitar: os senhores da "pitchfork" escrevem textos sérios, com pés e cabeça e apurados conhecimentos técnicos, numa prosa elegante e culta, sem grandes excitações, afirmações bombásticas ou juízos hiperbólicos. Alguns críticos musicais portugueses teriam ali muito que aprender. Essencial para conhecer um aspecto importante - talvez mais do que se pensa - da cultura de massas contemporânea. Da cultura moderna, ponto final. Vou ali ouvir o "kangaroo" dos Big Star, o "Outdoor Miner" dos Wire, o "Song to the Siren" do Buckley pai e o "Keep your dreams" dos Suicide, e já volto.

Mensagem da Gerência

Devido a complicações pós-sãojoaninas (a cascata entupida, as sardinhas roubadas pelo gato da vizinha, um surto de icterícia nos manjericos e frouxidão geral do alho-porro) a direcção do Jornal Universitário do Porto fez saber que a inauguração da exposição de pintura do Nicolau Saião prevista para este sábado na galeria do JUP, Rua Miguel Bombarda n.º 187, passa para o próximo sábado, dia 3 de Julho, a partir das 16:00 horas da tarde.

25.6.04

Ilha dos Amores #52



À dúzia é mais barato e custa só 60 euros (passe geral). O Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde atinge este ano as doze edições e assinala-o com um vasto programa sob o signo da guitarra eléctrica, apresentada como "o ícone essencial da cultura pop". Como não poderia deixar de ser, lendas da guitarra como Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Velvet Underground, White Stripes e outros vão encher de riffs o Auditório Municipal de Vila do Conde. Mas há mais, muito mais, para ver e ouvir, de 3 a 11 de Julho.

O Silêncio É de Ouro #100



L'important c'est la rose, deve ter pensado o alemão Maximilian Hecker ao segundo álbum ("Rose", Kitty-Yo, 2003).

24.6.04

Mensagem da Gerência.

A Gerência do Quartzo, Feldspato & Mica deseja a todos os seus sócios e amigos um excelente Dia de S. João.

23.6.04

Fly, fly, blackbird flyer.



Este fim-de-semana, o Quartzo, Feldspato & Mica vai fazer história. Pela primeira vez, um blogue lança uma campanha publicitária de promoção e divulgação dos seus produtos e serviços. Concebida pela Sophie - sim, ela mesmo -, a campanha consistirá na distribuição de pequenos flyers em vários pontos estratégicos do Porto (junto a semáforos, lojas minipreço e galerias da Rua Miguel Bombarda). Esta campanha resulta de um estudo prévio que encomendamos à Mcpherson & Friends, Inc. e que apontava para a necessidade do blogue se expandir para novos públicos e mercados emergentes.

Cimbalino Curto #97



Logo à noite, depois da sardinha assada, do caldo verde e do copo de tinto, não esquecer de fazer rimas, hastear o alho porro ou bater com os martelinhos (conforme as gerações), cheirar o manjerico (pondo a mão, não aproximando o nariz), saltar a fogueira, correr os bailaricos das Fontaínhas a Miragaia, ver o nascer do dia na praia e mergulhar convictamente na mais longa e animada noite do ano. Bom S. João!

Vai no Batalha # 22



Acabei de saber pela pivô do noticiário da TVI que em Portugal há três milhões de pessoas que sofrem de perturbações mentais. Isto explica muita coisa, não é assim? Mas o que mais me deixou perturbado foi o facto de, pela força dos números, isso significar que um em cada três portugueses sofre de perturbações mentais. Uma vez que aqui em casa somos quatro, tal significa que aqui em casa, com toda a credibilidade que nos merecem os cientistas que elaboram estes estudos, pelo menos um de nós sofre de perturbações mentais, algo de que eu ainda não me tinha apercebido (e confesso que logo me perguntei se não serei eu mesmo o doentinho). Com três milhões de pessoas com perturbações mentais, a que se vêm juntar os dois milhões de alcóolicos, os dois milhões de deficientes e o milhão e meio que não consegue mastigar chicletes e caminhar em simultâneo, como é que querem que o país saia do marasmo?

Post it # 165

Nebraska. Essa pequena aldeia portuguesa de 381 habitantes.

Post it # 164

A onda de naturalizações está a correr mundo. O Homem-aranha, esse incontornável ícone da cultura norte-americana, vai emigrar para a Índia e, segundo parece, o processo de naturalização está muito bem encaminhado. O herói até agora conhecido por Peter Parker em breve terá apenas um nome: Pavitr Prabhakar.

Marvel is working with [Gotham Entertainment studio] to completely reinvent the whole Spiderman mythology, to remake it set in India with all the characters and villains being Indians.

Para conferir aqui.

Cimbalino Curto # 96

Como o Pedro Pombo mencionou a propósito de mais uma comezaina no "Portuense", o Nicolau Saião inaugura uma exposição de pintura na galeria do Jornal Universitário do Porto (é no n.º 187 da R. Miguel Bombarda, o "soho" portuense) ao longo da tarde de sábado. Não se trata de uma exposição gráfica no sentido estrito do termo, mas de uma saturação visual do espaço (da galeria), de um assalto de cor e de formas. A pintura do Nicolau é uma pintura original, que traz a marca de um poeta (o NS é um poeta que pinta e não um pintor que faz poemas) e nos seus quadros ganha corpo um universo onírico, onde o surrealismo e o imaginário da tradição popular se encontram (como se os quadros quisessem contar uma história mas adormecessem antes de o conseguir, e fossem sonhar). A pintura do NS também incide sobre a dimensão gráfica dos textos: por exemplo, quando utiliza como motivo de um dos seus quadros um livro de horas medieval. Muitos dos trabalhos evocam as ilustrações para livros infantis ou para fábulas e lembram por vezes desenhos de crianças. Para os visitantes, há vinho do porto e as sardinhas que sobrarem do S. João.

Post Scriptum # 277

SATANÁS DIZ, de Sharon Olds.

A versão de Margarida Vale de Gato de "Satanás Diz", uma das obras fundamentais de Sharon Olds, já chegou às livrarias. Mas tudo começou aqui.

Post Scriptum # 276



William Butler Yeats
(Irlanda, 1865-1939)

POLÍTICA

Como posso eu, com essa moça ali,
Fixar a atenção
Na política russa,
Romana ou de Madrid?
No entanto, há nesta reunião
Um homem competente e viajado,
Que sabe do que fala.
E temos um político connosco
Que já muito tem lido e meditado;
Pode bem ser que eles se enganem pouco
No que afirmam da guerra e seus ameaços;
Mas ai! se eu voltasse a ser novo
E a tivesse nos braços!

Tradução de A. Herculano de Carvalho.

Ilustração: caricatura da autoria de Kate Carew (1869-1960).

Ilha dos Amores #51



"O QUE SERÁ FEITO DE O. W. FISCHER?"

Em conversa de cá para lá com Floriano Martins, vem à baila Axel Munthe. O autor de "Homens e bichos" e "O livro de San Michele", essas obras-primas. Suscito o meu irmão do outro lado do Atlântico a apanhá-los com velocidade e a lê-los mesmo pela noite dentro (como se fosse necessário sugerir...). E vem-me à memória o Munthe do cinema, o grande actor O. W. Fischer que com Rossana Schiaffino (oh, Rossana!) nos deu um "San Michele" que nos colava à cadeira do "Crisfal" da minha década dos anos 60. Moderno, espertalhão, interactivo, vou procurar Fischer nas ruas da net.
E sei que "bateu os engaços", como se diz por aqui, em Fevereiro deste aninho. Com 88. Bela idade. Na última foto, ainda com a boquilha cigarral entre os lábios.
Tenho de me deixar destas pesquisas. Prefiro ficar palonço, sem estas sabedorias descoroçoantes. Senão qualquer dia, distraindo-me e já do outro lado do espelho, ainda vou saber que fui para os anjinhos. E isso não me convinha - por enquanto, raios!


Nicolau Saião

22.6.04

Diário de Sophie#17

... as famosas capas de CD estilo Kim-il-Sung. Senão repara, querido diário:
Karajan a pilotar avião. Karajan na garagem com os carros. Karajan a passear pelo jardim-pomar-lago das traseiras (sozinho, com os cães ou com a mulher e descendentes). Karajan pensativo ao pôr do sol. Karajan, com echárpe, pensativo ao pôr do sol. Novamente avião, agora nas escadas de acesso. Só falta mesmo uma capa com Karajan a receber ramos de flores de jovens Bávaros em trajes tradicionais. Bom... pensando melhor, não falta.
E claro, sempre em perfil ou a 3/4 de frente, querido diário.
Agora, e cá para nós que ninguém nos lê, de todas as opções estéticas do brilhante Herbert, a que mais me toca é a sua adoração pelo Grande "Lieder" austro-alemão... de Gustav Mahler.

O Silêncio É de Ouro #99



Peter Hammill, ex-líder da banda de rock progressivo Van Der Graaf Generator e notável poeta, mostra neste disco ("The Future Now", Blue Plate, 1978) as duas faces da loucura: a direita com barba e a esquerda escanhoada.

Post Scriptum # 275



Nunca consegui entender as pessoas que consideram os gambozinos seres imaginários com que se enganam as crianças e, digamos, os pacóvios. O meu velhote só teve uma profissão durante toda a vida: pescador de gambozinos. E todos os seus antigos colegas de profissão são unânimes em reconhecer que foi um dos melhores. Cheguei a acompanhá-lo muitas vezes e, quando a idade lhe começou a pesar nas costas, era eu quem lançava e recolhia as redes. Ele limitava-se a dar indicações.

No entanto, admito que haja ainda muita falta de informação. Há gambozinos peixes e gambozinos pássaros. Presumo que algures no seu processo evolutivo a espécie se tenha dividido em dois ramos distintos. Seguramente os biólogos saberão explicar isso melhor do que eu. Não são animais que se reproduzam com facilidade, como os pardais ou as trutas, mas em condições normais, são bastante resistentes e duram muito tempo.

Para encerrar este assunto, acrescento apenas que a mais importante comunidade de pescadores de gambozinos ainda existente na Europa encontra-se numa pequena vila piscatória do Norte de Portugal, chamada Afurada.


Ernesto Abruzzo, Il laboratorio personale, Ed. A. Deias, Nuoro, 1984.

A tradução infelizmente é minha.

Umbigo #42



Nicolau Saião, nosso muito prezado colaborador, visitou ontem o Porto no âmbito de uma exposição de pintura com a sua assinatura que inaugura no próximo sábado, nos Espaços JUP (a breve trecho daremos mais notícias sobre o evento). A pretexto desta visita, a gerência do Quartzo, Feldspato & Mica não podia deixar de encontrar-se com o Nicolau para um almoço (é verdade, não perdemos uma oportunidade de dar ao dente), essencialmente composto pelos afamados filetes de polvo do Portuense (também é verdade, não gostamos muito de variar de poiso), ao longo do qual o nosso escritor-pintor-cinéfilo & outros ofícios revelou-se, para quem não o conhecia cara a cara, um exímio conversador e um poço de histórias cativantes. Volta mais vezes ao Porto, amigo Nicolau!

Post Scriptum # 274



Já chegou às livrarias o sexto número da "Águas Furtadas: Revista de Literatura, Música e Artes Visuais". Editada pelo Núcleo de Jornalismo Académico do Porto e dirigida pelo Rui Lage, é uma das mais eclécticas e graficamente apetecíveis revistas que se publicam em Portugal. Este número para além de vários poemas, uma pequena peça de teatro, dois argumentos cinematográficos, dois contos, uma crónica, vários ensaios, e uma evocação de J. O. Travanca-Rêgo (falecido em 2003), apresenta ainda uma excelente novidade: as partituras musicais de cinco pequenas peças de três compositores portugueses contemporâneos, acompanhadas de um CD com a respectiva interpretação. Mas há mais. No mesmo CD edita-se também uma pequena maravilha: a peça "El Mal Foco Arda", pertencente ao manuscrito musical designado como "Porto 714", que terá sido compilado por Robertus de Anglia, em Itália, no terceiro quartel do século XV, e que se encontra desde 1834 na Biblioteca Pública do Porto. Absolutamente a não perder.

Post Scriptum # 273



Hans Magnus Enzensberger
(Alemanha, n. 1929)

PARA UM LIVRO DE LEITURAS ESCOLARES

não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exactos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão-de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana, úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito

e são meticulosos por ti.

Tradução de Jorge de Sena.

O Povo é Sereno # 117



PERGUNTEM À ALICE

"Alice - A questão está em saber o que é que queremos que as palavras signifiquem!
Humpty Dumpty - A questão está em saber quem é que manda"
in "Alice no outro lado do espelho"

Esta Alice também era fresca! Num país um pouco menos democrático que o nosso concerteza andaria vigiada ou, pelo menos, com rédea bastante curta.
Porque a sabia toda... Talvez por causa daquela brincadeira de comer um pedacinho de cogumelo e ficar grande, comer outro pedacinho e ficar pequena, tinha a experiência do alfa e do ómega e não lhe faziam o ninho atrás da orelha. Sabia o que queria e para onde ia, como o excelente botas de Santa Comba.
Aqui há dias, mediante a bela invenção que é a Net, um correspondente que decerto apanhou o meu e-mail numa coluna que mantenho num jornal teve o gosto de me escrever - e usa um nome bem sugestivo.
A seu ver, nos meus escritos pelos diversos lugares onde estaciono literariamente eu empregaria muito calão (?) e também parece que utilizo uma sistemática irrisão contra os que foram eleitos pela vontade do povo, como refere com verdade. E, finalmente, que eu não seria um cronista a valer porque falo a brincar (sic) de coisas muito sérias, percebendo-se porém ? e vou citá-lo, demonstrando que não é totalmente atoleimado - "a sua vontade de deitar abaixo as instituições democráticas". (Democráticas, para este grave cidadão, deve querer significar o regime barrosista ou portasista).
Talvez seja verdade mas quanto ao calão só acentuo que eu sou um menino de coro ao pé do Perez-Reverte (o das crónicas "Carta de Corso" do "El Semanal") e, no que respeita ao estrangeiro, podia citar-lhe um ror de cronistas que me deixam a grande distância... vernácula.
No que ao resto diz parte, apenas recordo que nos tempos de Baudelaire (um conhecido bêbado e boémio) quem os correspondentes consideravam gente séria eram pessoas como o Bouguereau e o Cabanel, que hoje jazem serenamente nas caves do Louvre. Por último, relembro-lhe que é constitucional a intenção e a vontade de "deitar abaixo" os governos, porque em democracia não existem actos literários subversivos.
Charles: anda daí tomar um absinto!


Nicolau Saião

21.6.04

Post Scriptum # 272



Um poema delicioso de Fernando Pessoa publicado por Jorge de Sena no "Diário Popular" em 1974. Depois de o ler, confesso que fico sem perceber muito bem porque é que durante tantas décadas a esquerda portuguesa, e os movimentos políticos e sociais de índole progressista em geral, olharam o Pessoa com desconfiança, procurando manter esse génio que reputavam de conservador (às vezes de bem pior) a uma confortável distância. Danos colaterais da "Mensagem"?


ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

..............................................

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...

.............................................

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.



Fernando PESSOA - "Da República (1910-1935)".
Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta
e Maria Paula Morão. Introdução e organização
de Joel Serrão. Lisboa, Ática, 1978, pp. 349-350
.

Post Scriptum # 271



INSÓLITO MAS VERDADEIRO

Naquele sótão, verdadeira caixa de Pandora, encontram-se as coisas mais díspares. Desde cartas de alguns dos melhores autores quando ainda não eram famosos - e muito vos faria rir a leitura de algumas delas - até alguns trajos a carácter (uma sotaina de prior, um vestido de prima-dona, a túnica de um militar pré-republica...) há lá quase de tudo em matéria de jornais e livralhada. Há dias, numa feliz incursão, topei com um periódico lisboeta já extinto e li notícias certificadas pela excelência do seu autor, Prof. Virgolino Lumbrales, que seria uma espécie de Charles Fort do insólito luso. Um pequeno mas selecto extracto:


"O chefe da Polícia de Vilar de Filhozes, Amadeu Paciência, é um ciclope. Nascido com dois olhos, como é costume suceder, estes foram a pouco e pouco aproximando-se e acabaram por se deter a meio da testa, tinha ele 27 anos e era ainda simples agente. Ponderado o assunto que lhe fora apresentado através de comunicação de um superior, o sr. ministro do sector entendeu razoavelmente que nada obstava a que o agente Paciência continuasse na corporação e seguisse cumprindo exemplarmente o seu dever como até ali. Colocado posteriormente na brigada de homicídios, onde o seu aspecto pouco usual conseguiu um record de confissões espontâneas, subiu velozmente na hierarquia estando agora a lutar para que a sua característica visual seja considerada doença adquirida em serviço."

"O bispo italiano Romualdo Vitacelli foi anão até aos 19 anos. Um médico florentino de gabarito deu como explicação mais provável a hipótese do prelado ter antepassados pigmeus. Sua mãe, senhora muito piedosa, todas as manhãs orava trinta terços a S. Petronilho. Como consequência, talvez, Romualdo começou a desenvolver-se atingindo a breve trecho um metro e oitenta e sete. Daí em diante deu-se outro facto surpreendente: o cocoruto do adolescente ultrapassou a superfície da cabeleira, ficando com uma coroa perfeita no alto da cabeça. Tal caso inusitado foi considerado um evidente estigma miraculoso."



Pesquisa e recolha de Nicolau Saião.

O Silêncio É de Ouro #98



De uma das melhores bandas do país do Euro 2004, uma das mais conseguidas capas da recente discografia nacional: "Rosa Carne", dos também graníticos Clã (EMI, 2004).

Post it # 163

E a festa continua. O Tempo Dual também faz um ano. Muitos parabéns.

O Silêncio É de Ouro #97



Editado pela Blue Note, em 1965, "Maiden Voyage" foi gravado com o quinteto de Miles Davis, e prova o virtuosismo de Herbie Hancock na composição. Quase todos os temas do disco passaram a integrar o cancioneiro do jazz, de "Little One" a "The Eye Of the Hurricane", passando obviamente por "Dolphin Dance", um dos temas de culto dos pianistas de jazz. Recorrendo às palavras do compositor e multi-instrumentista brasileiro Ed Motta, este é o álbum que "influenciou todo o pessoal de soul-jazz". De audição obrigatória.

Raul Silva

Diário de Sophie#16

... e Castela lá perdeu. Foi tão bonito, querido diário. Tal como nos jogos do Jamor nos anos 40, os castelhanos eram novamente os favoritos. Eles têm aquela vantagem da requisição pública que obriga Catalães, Andaluzes, Bascos e alguns Galegos a jogarem pela equipa. E geralmente resulta. Só que ontem, o brasileiro percebeu a táctica. E então, num rasgo de génio, fez exactamente o mesmo, querido diário. Obrigou a equipa do Porto a trabalhar e dois ou três emigrantes a acompanhar. Táctica perfeita. Quando o Iñaki percebeu que estava a jogar com a nata dos Campeões Europeus, sintonizou logo o telemóvel 3G na Sic para ver se a Grécia perdia por mais de dois golos.
Enfim, uma delícia. Só faltou mesmo é que os castelhanos tivessem jogado com o seu equipamento favorito, aquele branco... à Real Madrid...


Post it # 162

Alexander Boyka, recordista mundial do lançamento da frase, morreu ontem, no Hospital Central de Sofia, cerca das 19h30. As causas da sua morte ainda não foram totalmente esclarecidas, aguardando-se o resultado da autópsia que estava marcada para esta manhã. De acordo com o jornal local Dnevnik, o famoso lançador de frases búlgaro, um dos mais importantes da história da modalidade, terá deixado cair uma frase no pé direito durante um treino, tendo causado um processo fulminante e irreversível de gangrena. Os médicos ainda terão tentado amputar vários membros para controlar o avanço da gangrena, mas sem sucesso. Alguns comentadores afirmam que se poderá tratar de um estranho caso de suicídio, uma vez que a frase que vitimou Boyka estava carregada de segundas leituras e inúmeras sugestões, insinuações e mesmo acusações nas entrelinhas, apresentando por isso um peso anormalmente superior ao que é permitido pelas regras da modalidade.

Post Scriptum # 270



Manuel Hermínio Monteiro
(Portugal, 1953-2001)

Este poema de Manuel Hermínio Monteiro foi enviado a Nicolau Saião pouco tempo antes da sua publicação. E foi por este dado a lume, em Fevereiro de 81, na página literária do semanário alentejano "A Rabeca", que orientava.


ANTÓNIO MARIA LISBOA

Senhora mãe é uma escadaria de costas para o poente
as mãos no peito, "as mamas na varanda".
No passe-vite, nos brinquedos do menino
na fome do menino
Senhora mãe vai esmigalhando deus e o diabo
pela tarde fora
pelo silêncio adentro.

Um pardal poisa em frente ao sol do poema
vem do Norte
vem de trás do tempo
na Senhora mãe o pardal goteja
a loucura inominada
do nome das casas
um pardal de erva submete a primavera
em Novembro, Senhora mãe,
um pardal sem choro semeia o vendaval
parte vidros
sorri atrás da porta
chupa-te os dedos Senhora mãe
aniquila no teu vestido vermelho
o teu palácio apocalíptico
o teu silêncio de mina
as serpentinas de arame
nos teus olhos de escadaria
batendo maternalmente no poema
que um poema
é maior que um filho penteado.


Este post é o resultado de uma acção que junta o Quartzo, Feldspato & Mica e Eduardo Prado Coelho numa homenagem despretensiosa ao ex-editor da Assírio & Alvim. A acção, previamente combinada entre este blogue e o conhecido ensaísta, e que contou com a inestimável colaboração de Nicolau Saião, consiste na edição deste poema pouco conhecido de Manuel Hermínio Monteiro, acompanhado de uma crónica no Mil Folhas desta semana.
Obrigado, Eduardo, por teres aceite o nosso convite.

Umbigo # 41



À VOLTA DO MEU OUTRO NOME

Quando o Rui Amaral me convidou para colaborar com o «Quartzo, Feldspato e Mica», vim espreitar a página e achei logo piada ao nome.
Além da imediata associação ao granítico Porto e do paralelo quantitativo entre os elementos que compõem a rocha e o «núcleo duro» deste blog, esta denominação exprime um paradoxo. Por um lado, vem afirmar a materialidade em oposição ao âmbito virtual da net; por outro, adivinha-se uma consciência do lugar de pertença, que se tem vindo a perder, como se esbatem as fronteiras dos particularismos, como se vão perdendo todas as referências e valores.
Neste sentido, adivinhamos neste nome, em que o fundo é torgiano e a forma Gedeão, a força bruta/ genuína e pré-histórica dum calhau, ainda que disfarçada sob a bizarria dessas palavras.
Mas se o granito pode definir um espaço, quando cinzelado e disposto numa certa ordem em parede, muro ou muralha, não impede que esse espaço tenha portas, janelas ou ameias: é o granito fluído. É este que eu prefiro, é o granito das trocas, num mundo de intransigências, detonadoras de guerras( e não justifiquemos nenhuma!).
Chamo-me André Martins e oxalá que a minha colaboração seja «especial» e dentro do espírito daquelas palavras. Até já.


André Sousa Martins

20.6.04

O Povo é Sereno # 116


Há coisas que todos os portugueses deviam ler. É o caso, por exemplo, do editorial que Xavier Vidal-Folch, Director-adjunto do "El Pais", escreveu para o suplemento "Tribuna Central" que saiu hoje com o grande jornal espanhol e que é dedicado a Portugal e ao Euro 2004. São apenas algumas linhas que oferecem uma sinopse do Portugal das últimas três décadas que vale mais do que anos de verborreia produzida pelos "fazedores de opinião" nacionais.

Los portugueses han hecho bien sus deberes. En los últimos treinta años han aprobado todas las asignaturas pendientes, seguramente con mejor nota que sus vecinos españoles. Se desembarazaron antes de su dictadura; se adaptaron con rapidez desde su integración en 1986 al nuevo escenario europeo; imprimieron un impresionante salto a su economía desde el atraso productivo a la modernización tecnológica, social y cultural; se incorporaron a la unión monetaria con menores dificultades... Y sin embargo, parte de su clase dirigiente atraviessa, al menos desde el cambio de siglo, un período de introspección y desorientación.

E fica feito o diagnóstico da nossa classe política com pouco mais que uma frase.

Os portugueses deviam ler este texto, fazia-lhes bem à "auto-estima". Deviam lê-lo, mas andam ocupados com coisas mais importantes.

Ode a uma Urna Grega # 7


"Um dia de luto para os eurocépticos britânicos", diz o "Público". E um dia de luto para os eurocépticos em geral. A Constituição Europeia, aprovada anteontem pelos estados membros da UE, passará a ser o mais importante documento para a condução do nosso país, logo a seguir à Constituição da República Portuguesa.

18.6.04

O Silêncio É de Ouro #96



O universo bizarro e egocêntrico, mas também melodioso e cativante, dos californianos Eels, a banda liderada por E, encontra retrato fiel na capa do seu excelente trabalho inaugural, "Beautiful Freak" (DreamWorks, 1996).

Cimbalino Curto #95

Para quem gosta do Porto, a referência, surgida ontem no Abrupto, ao fadista tripeiro Neca Rafael é absolutamente impagável. Segundo parece, Neca Rafael era uma espécie de versão portuense do Alfredo Marceneiro, e frequentador habitual das famosas noites longas do Café Luso. O seu fado mais popular, de acordo com Pacheco Pereira, era "Já estás c'os copos", e a letra é realmente do outro mundo. Para conferir aqui.

Adenda:
Entretanto, e através de um depoimento publicado no Museu da Pessoa, descobri que Neca Rafael vivia em Lavadores, Vila Nova de Gaia.

Señor Tallon #62

Falando-se da História, alguém pegou num punhado de terra e disse: "Eis tudo o que sabemos da História Universal. Mas isto sabemo-lo, vemo-lo; pegamos-lhe; agarramo-lo bem nas mãos."
Que veneração nestas palavras!


Francis Ponge.

Vai no Batalha # 21



Sim, somos uns desleixados. Só ao fim de dois dias é que publicamos algo sobre a gloriosa prestação portuguesa no Campeonato Europeu de Futebol. Um atraso altamente condenável do ponto de vista patriótico. Mea culpa, mea culpa. Mesmo assim, arriscamos uma breve referência sobre o assunto, em forma de homenagem. Até porque depois do jogo de quarta-feira, dissiparam-se todas as dúvidas em relação às excelentes marcas que a selecção de todos nós está a deixar pelos relvados deste Europeu. Esta é, pois, a nossa forma de homenagear esse irrepreensível grupo de patriotas cujo contributo para elevar a nossa auto-estima está a revelar-se inestimável. São estes os nomes que estão a conduzir o nome de Portugal mais longe:

Ricardo Luziaves Pereira
Fernando Hyundai Couto
Nuno Periscope Maniche
Tiago Sumol Mendes
Rui Pepsi Costa
Cristiano Espírito-Santo Ronaldo
Luís Galp Figo
Anderson de Sousa City Desk Deco
Simão Sacoor Sabrosa
Nuno McDonald's Gomes
Pedro Terra Nostra Pauleta

Luís BPN Scolari (Mister)

Viva Sagres! Viva Portugal!

Umbigo # 40



SANTA SIMPLICIDADE

Sou pessoa de hábitos simples, práticos e vulgares. Dantes, nos tempos do pântano, em que o país esteve quase a perder a sua independência (de espírito) e se atravessou uma violenta crise (de reumatismo), contentava-me em ir a uns humildes restaurantes e a comer uma pescadita frita com salada e aos supermercados onde nunca me senti a ofender o progressismo e as Musas ou apenas a qualidade da vulgar inteligência.
Mas sou de facto pessoa de hábitos simples. Afável, quotidiano e, acima de tudo, ornamentado com uma simpática modéstia, até creio convencional e burguêsmente que o uso do cartão é importante, coisa que defendo ante os mais sofisticados. Permite-nos uma facilidade de movimentos que dantes não havia. Permite-nos comprar coisas que muitos não compram. Permite-nos chegar ao fim do mês sempre com algum dinheiro na carteira. Vejam lá se o cartão não é importante!
Multibanco? Mas qual Multibanco? Não estou a perceber bem?
Eu estou a referir-me é ao cartão de membro do Partido!


Nicolau Saião

17.6.04

Post it # 161

É a velha questão de saber se os gostos se discutem ou não. No blog do Jorge Reis-Sá, revelações do poeta e editor, algumas delas tenebrosas, como, por exemplo, a confissão de que gosta da última música da Avril Lavigne e a de que não gosta da P. J. Harvey. Eu também não gosto da P.J. Harvey. O Miguel Esteves Cardoso odeia (conferir no "Blitz" desta semana).

Post Scriptum # 269

Não sei quando é que a literatura dos séculos XVII e XVIII voltará a estar na moda. Como estou convencido de que o fenómeno literário - como quase tudo na vida - é cíclico, adivinho que o barroco, o neoclássico e o arcádico voltarão, mais tarde ou mais cedo, a cair nas boas graças do público leitor. Com algumas honrosas excepções, quer a poesia do quotidiano quer a poesia dita órfica ou metafísica começam a cansar-me. Ultimamente tenho lido alguns textos em poesia e prosa que me atraem pelo puro gozo linguístico, pelo jogo de máscaras que colocam em cena, pelo desfile de palavras de sonoridades bizarras, pelo apuro formal e pelas imagens e figuras eruditas ou mitológicas, que obrigam a um esforço de decifração. É o equivalente poético de um "puzzle". Francisco de Vasconcelos é um poeta do período barroco que nasceu no Funchal em 1665 e faleceu em 1723. Aqui fica um soneto extraído da Fénix Renascida.


À FRAGILIDADE DA VIDA HUMANA

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em vesúvios incendido
Foi zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que é rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.


Francisco de Vasconcelos

Pausa para a Publicidade



Excepcional. A mais recente campanha de imprensa do jornal l'Humanité, desenvolvida pela agência Leg, de Paris. Além deste, há ainda mais três anúncios. Este, este e este.

Post Scriptum # 268



Mário Henrique Leiria
(Portugal, 1923-1980)

ORIGEM DOS SONHOS ESQUECIDOS

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

(1949)


Publicado, inédito, por Mário Cesariny na revista "MELE - International Poetry Letter", revista de Honolulu dirigida por Stefan Baciu cujo número de Março de 81 foi integralmente dedicado aos poetas surrealistas portugueses.

Nicolau Saião

O Povo é Sereno #115

O Ministério da Educação confirma: a expressão "responsabilidade política" não existe na língua portuguesa.

16.6.04

Post it # 160

E ainda a propósito do centenário do Bloomsday, o excelente Arts & Letters Daily seleccionou um conjunto de ligações que funcionam como uma espécie de pequena biblioteca joyceana. A não perder.

Post it # 159



O Francisco faz hoje um ano. Muitos parabéns.

O Silêncio É de Ouro #95



"Monty Python's Flying Circus" (Pye, 1970), o primeiro registo discográfico da notável trupe de comediantes britânicos + um americano que consagrou o humor como uma arte. Dedicado à Sophie ("com amizade", como gostava de dizer outro grande humorista da televisão portuguesa, o engenheiro Sousa Veloso).

O Povo é Sereno #114



AH! QUE BELEZA!

Por influência do Morot, que achava o meu trabalho pouco fino, mudei de emprego. Sou, agora, bookmaker. Para quem não saiba, angariador de apostas. Trabalho com gente um pouco dura e que de vez em quando é alvo de coscuvilhices por parte dos chuis. Não importa - é trabalho gratificante, dá gosto, sentimo-nos realizados, conhecemos gentes diversas, da política às artes (teatro, falsificação de quadros, futebol...) e as senhoras olham-nos com um relanceio romântico. Sente-se que estou a realizar-me? Pois é isso mesmo, perceberam-me na perfeição.
E tenho muita saída, como costuma dizer-se. Talvez porque me especializei numa modalidade de apostas que está a fazer furor entre a gente de qualidade: a de acertar em qual o próximo político a ir preso por malfeitorias diversas ou, em ramo subsidiário, qual o político que terá parente a contas com a lei (o caso de primos abonados na Suíça já não é facturável).
Poderão dizer-me: é fácil fazeres carreira, o país e os tratantes da coisa pública (a res publica, não sei se me entendem) facilitam-te a bela vida. E é verdade, mas queriam que deitasse a sorte às urtigas?
Vai uma apostinha?


Nicolau Saião

O Povo É Sereno #113

Acho que preciso de ajuda com urgência. Ando triste, acabrunhado, com dores na alma. Cada vez que ligo a televisão ou leio um jornal, o mal estar agrava-se. Se saio à rua, é o pânico. Em casa, no trabalho, com os amigos, a conversa é sempre a mesma: Portugal, Euro, futebol, Scolari, ganhar, perder, passar, não passar, apoiar... E é este último verbo que me dilacera o espírito e mo enche de sentimentos de culpa. Pronto, vou dizer a ver se me alivio: não consigo apoiar esta selecção nacional (paf, estalo na cara). Não gosto do Scolari, nem do profissional arrogante nem da pessoa reaccionária admiradora do Pinochet (zás, vergastada nas costas). Estou farto do Figo, do Costa, do Couto e das outras primas donas (pumba, bordoada no lombo). Não suporto a mediocridade do Madaíl (trás, pontapé nas canelas). Acho a moda das bandeiras uma pirosice patrioteira (pum, murraça no nariz). Se garantirem que não me batem mais, até digo tudo: não me importava nada que a nossa equipa fosse eliminada logo à noite se isso levasse os atrás citados a perceber que devem deixar a selecção de pronto, sem dramas. E já iam com pelo menos dois anos de atraso, que a malta ainda não se esqueceu do Mundial da Coreia do Sul e do Japão.

Post Scriptum # 267

Grande efeméride do dia.



Para assinalar os cem anos do Bloomsday, o Quartzo, Feldspato & Mica tem o orgulho de publicar uma carta quase inédita de James Joyce. Trata-se de uma breve missiva que nos foi gentilmente cedida por Clara Obligado e Angel Zapata, na qual o autor de "Ulisses" felicita Nora pelas suas peculiares qualidades pessoais. Caras leitoras e caros leitores: James Joyce na primeira pessoa e quase em exclusivo, aqui no Granito.

8 de Dezembro de 1909
44 Fontenoy Street, Dublin

Minha doce, pequena, lasciva Nora, fiz o que me disseste e bati duas punhetas enquanto lia a tua carta. Sinto-me entusiasmado por saber que gostas que te fodam pelo cu. Agora, inesperadamente, posso mencionar aquela noite em que te fodi tantas vezes por trás. Nunca passei contigo um serão de foda com mais merda, querida. O meu caralho esteve enterrado em ti durante horas, entrando e saindo pela parte inferior do teu cu levantado. Sentia uns grossos e suados presuntos debaixo das minhas bolas e via a tua cara ruborizada e os teus olhos febris. A cada estocada minha, a tua língua febril brotava ardente por entre os teus lábios e, se a estocada era mais enérgica que de costume, soltavam-se por detrás peidos fortes e imundos. Tinhas o cu peidão naquela noite, querida, e fui arrancando-os, gordos eles, impetuosos, rápidos, miúdos, alegres petardos, e muitos peidos pequenos e desobedientes que acabam num prolongado balbuciar do teu buraquinho. É maravilhoso foder uma fêmea que se peida e se a cada investida lhe arrancas um peido. Julgo que reconheceria os peidos de Nora em qualquer parte. Ruído juvenil, não como essas bufas húmidas que, suponho, darão as gordas casadas. Repentino, seco e hediondo, como o que uma rapariga descarada daria à noite para se divertir no dormitório de um internato. (...)
Dizes que mo chuparás quando regressares, e que queres que te coma a cona, malandrinha depravada. Espero que me surpreendas numa altura em que adormecer vestido, te aproximes com fogo de puta nos teus olhos sonhadores, desabotoes a minha braguilha botão a botão, exponhas com amabilidade o vigoroso pássaro do teu amante, o introduzas na boca húmida e o chupes até ficar grosso e teso teso e se venha na tua boca. Também eu te surpreenderei adormecida, levantar-te-ei a saia, abrir-te-ei os calções ardentes, deitar-me-ei ao teu lado e começarei a lamber sem pressas a tua pentelheira. Estremecerás inquieta quando lamber os lábios da cona do meu amor. Gemerás, resmungarás, suspirarás e peidar-te-ás de prazer nos teus sonhos (...)
Boa noite, Nora, pequena peidorra, malandrinha, desvairada. Há uma palavra adorável, querida, que sublinhaste para que pudesse bater uma punheta mais à vontade. Escreve-me mais coisas desse estilo e também a ti, com doçura, com merda, com mais merda.

James Joyce