30.6.05

Ainda o petróleo

Em comentário a um post que aqui pus sobre o "fim do petróleo", o Bom Selvagem escreveu:

"Lamento pôr em causa esta recorrente ficção mas depois do petróleo virá o gás natural. Ainda vai dar para muitos anos e com uma transição suave, visto que os carros a gasolina podem, com uma pequena transformação, funcionar a GPL."

Será. Lembro apenas que recentemente se realizou em Lisboa uma conferência científica sobre o assunto na Fundação Calouste Gulbenkian (25 deMaio), a qual deve ter tido mais cobertura jornalística lá fora do que em Portugal. As comunicações e contributos para essa conferência encontram-se disponíveis na página da Universidade de Évora.

A Conferência chamava-se IV INTERNATIONAL WORKSHOP ON OIL AND GAS DEPLETION (sublinhado meu) e era organizada pela Associação para o Estudo do Pico de Produção do Petróleo e do Gás (ASPO). A tese central é a de que chegámos ou estamos a chegar ao pico de produção mundial de petróleo e gás, e que as consequências económicas e sociais serão profundas e gravíssimas.

18 Comments:

Blogger O Bom Selvagem said...

Bom, mas aí era questão do automóvel em concreto e dentro do contexto de comentário a um texto ficcional e humorístico, com cenário apocalíptico tipo day after em que as auto-estradas seriam ciclovias...

Note bem caro Manuel Resende, os Smarts, Lupos, Yaris etc. são modelos automóveis que fazem do baixo consumo a principal bandeira.
A eficiência dos motores tem aumentado na proporção do aumento do preço do petróleo.
Tanto que o carro do ano foi um híbrido da Toyota, o familiar Prius, comercializado numa loja perto de si, e que funciona a gás e electricidade.

Esteja descansado que voltam ao nuclear para a electricidade enquanto o diabo esfrega um olho.
E espero bem que voltem. Japão, EUA, europa e china estão a trabalhar no primeiro reactor de fusão. A energia é quase 100% limpinha e muito mais eficiente e segura que a cisão nuclear, por mais histéricos que estejam os ambientalistas oportunistas que mal ouvem a palavra "nuclear" aparecem com os seus cartazes, preferindo, talvez, um mundo ainda mais poluído ou o regresso a uma espécie de pré-história.

O metano orgânico aparece como fonte de gás e remeto-o para os exemplos de algumas ETARS que já dão lucro só com a lectricidade que produzem.

Ainda tem, só no Alentejo, um projecto para a maior central solar da EUROPA e uma das maiores do mundo.

Em Portugal também, e finalmente, avançam para a contrução de centrais que funcionam com a energia das ondas!

Isto passa-se por todo o mundo desenvolvido. A China ou a India podem sofrer mais com a escassez do petróleo, muito mais.

Em vez de ver o fim do petróleo como uma coisa má, veja-a antes como a salvação que vai permitir ao mundo ocidental perpetualizar a supremacia sobre os países em vias de desenvolvimento.

O perigo, o único perigo para a transição suave de uma economia movida a petróleo para outra onde ele não existe, é que os preços sejam artificialmente mantidos baixos. E isso sim pode ser grave. Ninguém sabe ao certo a dimensão das reservas mas há de certeza o receio por parte dos regimes árabes de perderem o poder que actual detêm.

Quando me referia a transição suave, até estou a incluir a guerra no Iraque e no Afeganistão.

5:35 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Olhe Bom Selvagem:

A ITER é uma "central" um pouco peculiar, destina-se a investigar um aspecto da produção de energia nuclear por fusão. O último nobel da física alertou para os triunfalismos.

Etc., etc.,

Não acredito na transição suave. Mas, olhe, aconselho-o a dar uma volta pela página que indiquei. Não custa nada. Repare que o Workshop não foi organizado por «ecologistas iluminados» (como sabe, os ecologistas são sempre iluminados,assim como os intelectuais são pseudo).

Um abraço.

5:50 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Se acha que o nosso objectivo na vida é defender a supremacia ocidental sobre os países subdesenvolvidos, então, boa noite.

Esqueceu-se daquele verso da Ode à Alegria:

«E todos os homens serão irmãos.»

5:52 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Uma coisa é o que eu acho que deve ser o nosso objectivo na vida, a outra coisa é a realidade e aquilo que acho que é melhor para, por exemplo, os portugueses, os europeus, etc. por aí a fora.

Sim, admito que me preocupo mais com o bem estar de países semelhantes aos meus, admito que não acho piada a ver trabalhadores europeus que, por não se satisfazerem com uma tigela de arroz e 5 euros ao dia, vão para o olho da rua.
Tenho visão realista do que é a globalização. A globalização poderia, em teoria, ajudar os países em vias de desenvolvimento, o que seria positivo, mas prejudica os nossos países (excepto os empresário etc.)
Repare, acabar com a fome em África pode significar ter desertificação em Portugal porque não há agricultores cá.

A suavidade da coisa depende da manutenção da supremacia.

Já viu o estrépito brutal que a China ou a Índia estão a fazer na Europa e nos EUA? Ou o Manuel é um sonhador? É que se é, então estamos conversados em termos de geopolítica ou economia ou globalização e podemos discutir ideiais.

Os meus prendem-se mais com os meus próximos, como as empresas do vale do ave a estoirar a torto e a direito porque na china é mais barato fazer peúgos.

Quanto a transições, olhe bem para história do mundo e veja lá se houve isso de "transição suave"...
O suave é relativo. O meu suave é a China implodir quando o preço do petróleo subir mais uns 50% e a balança de exportações estoirar.
O meu suave é que África tenha de pedir à Europa umas vacinas e perdão de dívidas.
O meu suave implica as tradicionais guerras.

Não se esqueça que o mundo actual já é uma "crise" para dois terços da população mundial e petróleo não falta.

Não acho os ecologistas todos uns iluminados. Saiba que minha 2ª opção universitária foi Engenharia do Ambiente (mas entrei na primeira) por isso veja lá as minhas preocupações sobre o tema.

Aquilo que sei é que existem actualmente tecnologias alternativas ao petróleo e ao gás.
Os resultados têm sido animadores. Mas quando as Exxon, Shell e Galps, Bush e Blairs começarem a ter de fazer pela vida o Rui vai ver MILHARES DE MILHOES de euros injectados em novas tecnologias alternativas. Já não vai ser brincadeira. Vai ser a doer.
O mesmo para os fabricantes automóveis! Acha que a Porsche e a Ferrari não vão criar o desportivo eléctrico ou a hidrogénio?

E nessa altura, aquilo que são hoje pequenas eólicas aqui e acolá, ou centrais hídricas ou solares, vão ter de ser base, a força maior.

E isso tudo exige investimento e tecnologia. E os países pobres vão andar sempre atrás.

Tudo o que não for isto, então sim, será uma crise.

6:13 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

E claro que vou investigar o link! Até já.

6:15 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Fui lá ler o workshop. Para já encontrei este texto com o discurso do próprio Kjell Aleklett, o Presidente da ASPO e gostei. Selecciono este parágrafo:

"
The Deutsche Bank, for example, has released a research report about
Peak Oil and supports our position with the comment:
?The end-of-the-fossil-hydrocarbons scenario is not therefore a doom-and-gloom picture
painted by pessimistic end-of-the-world prophets, but a view of scarcity in the coming
years and decades that must be taken seriously. Forward-looking politicians, company
chiefs and economists should prepare for this in good time, to effect the necessary
transition as smoothly as possible.?

Portanto é exactamente o que eu tenho andado a dizer aqui Manuel.

Depois, uma intervenção um pouco idiota de um C.J.Campbell, a THE END OF THE FIRST HALF OF THE AGE OF OIL.

Note que não vem referido em lado nenhum o que ele é (economista? geólogo? Político? ambientalista?) mas quando termina o texto com "But as the
Century passes, the survivors will come to terms with their new environment. It may herald a new regionalism as world trade declines, and people again come to live within their own resources. It might indeed be a time of happiness giving people a new-found respect for themselves, each other and the environment within which Nature has ordained them to live." ... dá para perceber que estamos perante um neo-hippie ignorante e estúpido.

Não me parece que antes do petróleo o mundo fosse um 'time of happiness giving people a new-found respect for themselves'.

Esse texto é um manifesto obscurantista de arrepiar qualquer cientista, progressista ou humanista.

7:29 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

O que você acha idiota é o mais interessante.

8:44 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

E aconselho-o a não desperdiçar adjectivos, que são precisos para coisas mais decisivas.

8:45 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

O que você acha idiota é o mais interessante.

8:45 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

~
After being awarded a Ph.D at Oxford in 1957, Dr Campbell joined the oil industry as an exploration geologist. His career took him to Borneo, Trinidad, Colombia, Australia, Papua New Guinea, the USA, Ecuador, United Kingdom, Ireland, and Norway.

He is now a Trustee of the Oil Depletion Analysis Centre ("ODAC"), a charitable organisation in London that is dedicated to researching the date and impact of the peak and decline of world oil production due to resource constraints, and raising awareness of the serious consequences. He has published extensively, and his recent articles have stimulated lively debate. His views are provocative yet carry the weight of a wide international experience.

http://www.hubbertpeak.com/campbell/

8:50 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Além disso vem referenciado na página da Universidade de Évora:

COLIN J. CAMPBELL

Colin J. Campbell was born in 1931 spending his early years in England. After securing a Ph D in Geology at Oxford in 1957, he joined the oil industry as an exploration geologist, undertaking field work in Trinidad, Colombia and Papua. In 1968, he moved to New York as Regional Geologist for South America, being also involved in an assessment of worldwide oil resources and exploration potential, before being appointed Chief Geologist of a venture in the Amazon headwaters of Ecuador. In 1972, he returned to England as General Manager of an oil company organising exploration ventures in the North Sea and other areas, before ending his career as an Executive Vice-President in Norway, where he was involved in another study of world reserves and depletion for the Government.
In "retirement" he found himself consulting for major companies and governments. In 1995, he co-authored a definitive study by a consultancy, based on details of some 24 000 oilfields, which drew attention to the issue of Peak Oil.
He has written five books on oil depletion, as well as numerous scientific publications. He was the founder of ASPO, and his work now attracts much media interest. He has given presentations to the House of Commons in London and the Irish Senate. He now lives in Ireland.

http://www.cge.uevora.pt/aspo2005/biographies.php#CAMPBELL

eu acho que o Bom Selvagem às vezes treslê.

8:55 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

fosga-se

não saiu direito o último endereço.

recapitulando:
http://www.cge.uevora.pt/aspo2005/
biographies.php#CAMPBELL

ATENÇÃO ATENÇÃO TIVE DE PARTIR O ENDEREÇO EM DUAS LINHAS. SE NÃO NÃO SE CONSEGUIA LER. FAVOR RECOLAR AS DUAS LINHAS PARA OBTER O ENDEREÇO CORRECTO

8:59 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Portanto, devagarinho com esses qualificativos

hippie

ignorante

estúpido

um pouco mais de humildade.

E

de

senso

crítico.

9:09 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Além disso, o nosso bom selvagem não sabe mesmo ler.

Campbell diz-nos que após o petróleo,

após o petróleo,

após o petróleo, note-se

teremos finalmente a hipótese de viver reconciliados com o ambiente.

Está escrito no futuro. Quer ele dizer que encontraremos uma saída. Repare-se como é o futuro, não o passado, como pensa o Bom Selvagem:

"But as the
Century passes, the survivors will come to terms with their new environment. It may herald a new regionalism as world trade declines, and people again come to live within their own resources. It might indeed be a time of happiness giving people a new-found respect for themselves, each other and the environment within which Nature has ordained them to live."

Ora Bom Selvagem interpretou esta frase da seguinte maneira:

"Não me parece que antes do petróleo o mundo fosse um 'time of happiness giving people a new-found respect for themselves'."

Fantástico, estimados ouvintes.

Palavras, para quê? É um artista português. Desculpe lá o mau jeito, mas estava mesmo a pedir.

9:19 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

A não ser que você seja mais um zulmiro.

9:27 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Não me parece é que o Manuel tenha percebido o que eu disse.

Não duvide da minha capacidade de ler, por favor. Obrigado.


Recapitulando:

1-
O COLIN J. CAMPBELL diz que quando o petróleo acabar vamos viver dos próprios recursos em comunhão com a natureza blah blah e que pode ser um 'time of happiness giving people a new-found respect for themselves'.

2- O petróleo nem sempre existiu, e antes do petróleo existir as coisas estavam longe de ser assim como Campbell prevê, pelo que não se pode deduzir, ou sequer esperar, que depois do petróleo o hão de ser.

3- outras formas de energia virão, (nem que seja a nuclear rudimentar e em enorme escala com os países do 3ºmundo a servir de depósitos)


Parece-me um raciocínio lógico.

Pode haver uma crise financeira, alguma histeria, disso não duvido, nada de muito pior que a bolha das .com ou a crise dos 70s mas daí até cenários apocalípticos como o traçado no post que originou o meu primeiro texto, vai uma enorme diferença.

Bom, mas o Manuel está a pessoalizar o debate. Eu gostei de coisas que li e não concordei com outras.

Não tenho nenhum apego pessoal ao tema.

10:55 da manhã  
Blogger Manuel Resende said...

Talvez esteja a pessoalizar.

Mas acho que não tem razão ao qualificar o Campbell de hippie,obscurantista, estúpido, etc.

Esse Campbell também defende novas fontes de energia. Limita-se a dizer, no que estou 200% de acordo com ele que depois do petróleo teremos de inventar formas de viver colectivas mais frugais em energia, mais em consonância com os ciclos da natureza.

Temos de encarar as fontes de energia como um fluxo, integrado nos ciclos naturais, não como um depósito donde extraímos sem pensar.

Eu, contrariamente ao Bom Selvagem, tenho muito apego ao tema. Creio mesmo que é O TEMA.

4:36 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Eu espero que pelo menos as energias alternativas sejam menos poluentes e a utilização dos recursos mais racional. Mas não creio que isso venha a ter uma influência no modo de vida das pessoas. Continuarão a existir sempre diferenças, fortes e fracos, exploração etc. e atentados à natureza. Por exemplo, o Japão agora recomeça a caça à baleia...

Não tenho apego pessoal ao tema "fim do petróleo". Acho que as possibilidades são tantas e é-me tão óbvio como algumas empresas se estão já a posicionar para o dia seguinte, que tenho total confiança que, à parte alguma turbulência, o mundo continuará a girar mais ou menos no mesmo sentido no dia depois.
Ok ok, talvez não devesse ter chamado o senhor de hippie entre outras coisas.
Eu desconfio muito dos que têm visões a, b ou c para o mundo, mantenho-me sempre à parte desses idealistas porque a sua pura boa vontade azeda muito mais depressa do que a necessidade do homem prático.
Aliás a história mostra-nos isso mesmo.

10:56 da manhã  

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