22.6.05

Mistérios

Na minha qualidade de emigrante, passados os primeiros tempos de perplexidade e de habituação a novos estilos de vida, passei a interrogar-me consistentemente (eh eh) sobre um mistério da vida portuguesa.

Como é possível (sobre)viver neste país, com preços europeus e salários portugueses?

Pouco a pouco, percebi.

1) Boutique C. Boutique C? Sim, boutique C. Para além dos hipermercados e centros comerciais, há as feiras espalhadas por esse país, onde a troco de um dois três euros se compram camisas lacoste, etc., de contrafacção fornecidas pelos chineses e vendidas pelos ciganos (Boutique C: stands dos ciganos).

2) CP. CP? Sim, CP. Casa dos Pais. Aí onde se vive até aos vinte e tal, trinta anos. Numa certa altura, não sei se ainda é assim, a CP era comprada em nome dos filhos ao abrigo do «crédito jovem».

3) "Privilégios" ocultos. Você vai ganhar pouco, caro amigo. Mas olhe que tem assistência médica melhor, nuns casos, olhe que tem uma carreira regulamentada, noutros casos, etc., etc., etc.

Subitamente, há um défice de quase 7%, escondido pelo Santana Lopes. E toca de invocar repentinamente os privilégios, a justiça social.

Como quem diz, os culpados são vocês, horríveis privilegiados.

Daqui a pouco, vão eliminar as boutiques C, as CP vão falir por causa das taxas de juro, os "privilégios" vão acabar

e

este país vai transformar-se num imenso «arrastão».

Entretanto, temos um Presidente da República furioso por não haver capital de risco para apoiar as novas economias. Que se esquece de dizer o que foi o circo, em 1999 e 2000, do capital de risco nos EUA, o circo das novas economias, empresas de ar e vento que rebentaram logo a seguir ao 9 de Março de 2000, dia do meu aniversário, em que o Nasdaq pela primeira vez ultrapassou o índice 5000, para logo cair a pique (nunca mais recuperou e está hoje a 2000).

10 Comments:

Blogger DL said...

Muitas empresas sobreviveram à bolha das dotcom. Acho que esses processos são necessários, apesar de difíceis. Tomáramos nós ter uma economia tão dinâmica que permitisse o aparecimento rápido de muitas empresas, ainda que depois muitas viessem a falir. O capital de risco nos EUA é maioritariamente privado.

9:51 da manhã  
Anonymous LuisC said...

Tem razão no que escreve; e quando a maioria perceber isso, será, como sempre, tarde demais.

11:32 da manhã  
Blogger Amélia said...

O senhor Presidente acordou demasiado tarde.Até pode ter razão -mas tarde demais...
Até aqui era a lágrima ao canto do olho(nada tenho contra os emotivos -mas levando ao excesso ao condecorar os jogadores da selecção de futebol do euro 2004...que eram apenas vice-campeões)e os inevitáveis conselhos
à serenidade.Agora que está quase a passar à categoria de ex-presi-
dente, lembra-se de fazer os alertas e a criticar todos, com ou sem razão - até os professores,(quie a meu ver foram maltatados por toda a gente - embora eu não tenha concordado com esta greve a exames) comparando-os com os da Finlândia.
Esqueceu-se foi também de comparar os altos salários auferidos por quem manda os outros apertar o cinto - e os ministros da educação da Finlândia e de Portugal...Neste momento comporta-se como uma espé-
cie de 1ºMinistro e Ministro de todas as pastas...
Claro, ele também vive com dificul-
dades -como disse ao receber um pré
mio em Espanha por ter convidado Santana Lopes para 1ºministro, mostrando isenção política...
Triste e infeliz país o nosso!Orgulham-se do prémio recebido por António Damásio(que o não deve aos apoios portugueses para investigar)
e pelo 3ºlugar num Fórmula 1 ...onde havia 6 concorrentes.
Tudo bem...temos os egrégios netos que temos...

1:36 da tarde  
Blogger Osvaldo M. Silvestre said...

Faltou uma, Manuel: os S.C.S.H.Q.
Ou seja, Salários com Suplemento de Horta e Quintal. É o que acontece no famoso Vale do Ave (que Cavaco dizia ir ser o nosso Sillicon Valley...) e pelo país fora. Ou seja, o que vale aos trabalhadores é que, quando chegam a casa, vão para a horta ou para o quintal tratar das couves e das galinhas, de modo a não morrerem de fome.
É o pré-moderno a cavalo do pós-moderno... A «nova economia» em versão lusa.

5:21 da tarde  
Anonymous Zé Povão said...

Não esqueçam o FOF, rapazes (Fuga ó Fisco) nem o MAPODEDAME (Massinha por debaixo da mesa).
Querer que a Banca seja humana é como, por exemplo, querer que no filme 'Meet Joe Black' a Morte acabe por não levar o empresário velhote. Está-lhes no sangue, que hão-de eles fazer?
Claro que há sempre a solução das sangrias, tão de uso noutros tempos...

7:27 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Osvaldo:

Sim no vale do Ave, mas não em Setúbal, ou nos bairros periféricos de Lisboa, presumo eu.

Uma hipótese:

Uma coisa são essas regiões em que houve um transcrescimento da agricultura e do artesanato para a indústria têxtil e etc., outras aquelas em que a indústria proveio do grosso capital financeiro e arrancou populações ao Alentejo, a África etc. para as sujeitar, desenraizadas, aos grandes ventos do largo.

As primeiras têm hortas, ou até vacas a que se acolherem, as outras, têm o vazio e o desespero.

Digo eu. Não?

9:50 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

10:36 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Caro dl:

Uma pergunta e uma ou duas observações:

Pergunta:

Quando diz
«O capital de risco nos EUA é maioritariamente privado.»
quer dizer «privado» no sentido americano, não? Isto é, capital avançado por pessoas singulares e não por empresas ou sociedades cotadas na bolsa. É isso?
Creio que deve ser, porque, nos EUA uma empresa que vai para a bolsa «goes public».

Observação
Diz:
«Muitas empresas sobreviveram à bolha das dotcom.»
Muitas? Quantas? Que percentagem?

Prefiro índices mais abrangentes. No ano 2000, quando se deu a explosão final das dotcom, das empresas da chamada «nova economia» (designação que, diga-se de passagem, entrou em desuso, precisamente e sobretudo nos EUA, o volume total dos investimentos em capital de risco atingiu mais de 100 mil milhões de dólares.

Hoje está pelos 20 mil milhões. O que há-de considerar que foi um tombo do camandro.

Estatísticas recolhidas aqui:
http://www.nvca.org/ffax.html

Diz que «Tomáramos nós ter uma economia tão dinâmica [como a dos EUA] que permitisse o aparecimento rápido de muitas empresas, ainda que depois muitas viessem a falir.»

Não é esse o meu juízo. A loucura das dotcom foi um enorme desperdício de recursos sociais. Isso foi possível nosEUA, porque esse país tem uma moeda que é reserva de valor a nível mundial, dada a posição que conquistou. Mas não se esqueça que a economia dos EUA está altamente endividada, que vive dos empréstimos dos chineses e japoneses. Os quais emprestam aos EUA o dinheiro para que lhes possam vender os seus produtos.

A indústria americana é decadente (quase falência da General Motors, por exemplo) e a sua economia só se sustém porque ainda conserva um lugar político central no mundo de hoje, numa palavra, porque tem o exército mais poderoso do mundo.

10:37 da tarde  
Blogger pedro said...

sampaio.com - ele sabe do que fala, o país é um capital de risco, risco muito elevado

11:32 da tarde  
Blogger DL said...

Caro Manuel,

Quando escrevi "o capital de risco nos EUA é maioritariamente privado" quis dizer que é capital avançado por sociedades em que o Estado não é o principal accionista ou não o é de todo.


["A loucura das dotcom foi um enorme desperdício de recursos sociais."]

Pertencendo o capital aos accionistas, parece-me legítimo que estes arrisquem o seu dinheiro, caso o desejem, com o objectivo de o recuperar acrescido de mais-valias. Muitos investidores terão vendido antes da bolha rebentar e ganharam com isso, outros não.

O que contesto no seu post é apenas que parece ser contra o aumento do capital de risco em Portugal. Ora parece-me que estamos muito abaixo do nível desejável de capital de risco. Tomando dados de 2003, em Portugal o investimento em capital de risco foi de 100m de euros, e nos EUA de 20000m de dólares (fonte Portugal: http://www.apcri.pt/New/apcri_informacoes/Capital%20de%20Risco%201sem2004.pdf).
O PNB per capita é cerca de 4 vezes menor em Portugal que nos EUA. Tomando este indicador, temos um nível de capital de risco 40 vezes menor do que poderia proporcionalmente ser! Acho que há espaço para crescer, mesmo tendo em conta que em Portugal uma grande parte do produto provém do Estado e não de entidades privadas.

10:57 da manhã  

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