21.6.05

Declaração peremptória dirigida a todos os importantes

Saibam os pertinentes leitores deste blogue que não falo em função de esquemas pré-definidos, mas em função de uma experiência de vida. Sou eu próprio ex-funcionário público, embora de tipo especial.

Também no meu serviço, por diversas razões que, não são, no caso, baseadas na especiosa justiça social, também no meu ex-serviço vão aumentar a idade da reforma para os 65 anos. (Porque é o que está a dar. Nuns sítios por isto, noutros por aquilo.) Porém, ao mesmo tempo, introduziram, por motivos outros que têm a ver com a contenção orçamental, um programa ad hoc para dar pré-reforma, excepcionalmente, a um grupo de pessoas, entre as quais este vosso servidor.

As justificações invocadas (as pessoas com mais de 55 anos dificilmente se adaptam a estes tempos modernos, de alta tecnologia e internet e tal) eram completamente estranhas ao verdadeiro motivo. Calhou-me a pré-reforma. Visto isto, acham que acredite nesta gente, e nas razões que dão? Era o que me faltava.

Estas argumentações avulso dão-me vontade de rir e de vomitar, sucessivamente.

É que a razão de fundo é outra: reduzir o Estado nas suas funções sociais (mas expandindo o Estado nas suas funções policiais e militares). Poupar. Porque, dizem, não dá, cada vez há mais velhos. Etc.

Esquecem-se de nos dizer que cada vez é maior o fosso entre os de baixo e os de cima. E, em Portugal, estamos a atingir exageros estratosféricos. Com os salários miseráveis que vejo, vejo também o preço das casas e das rendas, e que os gestores ganham tanto como em qualquer país europeu. Essa é que é essa.

Onde estão os frutos do chamado progresso, do aumento da produtividade do trabalho que é hoje muito superior à de vinte anos atrás? Onde? Onde?

E outra coisa: quanto mais um país "evolui" (constrói estradas, pontes de Rio Tinto e alhures, universidades, escolas, porque precisa de mão-de-obra qualificada, não é assim?) mais precisa de fundos. É matemático. Onde ir buscá-los? Aos impostos, caros senhores. Pagos por todos, os de baixo e os de cima (e estes mais do que aqueles: no pós-guerra, nos EUA, havia taxas marginais de 90%). Só que os de cima não querem. Ai o meu rico dinheirinho...

Não, esta conversa não é a dum atrasado de Maio de 68. Esta conversa poderia ser dita, menos truculentamente, por Keynes, que não era um social-democrata (nunca pertenceu ao Partido Trabalhista), mas um reformador burguês e um grande economista, um dos poucos que merece respeito.

Mas hoje em dia, até Keynes está à esquerda do Partido Socialista. Isso é que é a verdade. Até Keynes passa por perigoso revolucionário, enquanto José Sócrates anda a catar pequenos privilégios no caixote do lixo da História.

21 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O Estado é tudo isso é verdade. Também não confio neles, quem é que confia? Mas não é razão para pensar que vai acabar tudo à solha ou numa grande foleirada. As pessoas eu acho não vão deixar e que podem os do Estado fazer matar toda a gente? No que penso, a seguir a esta tramóia toda a coisa vai modificar-se, também os do muro era o que era e acabou-se. O Sócrates não é anjinho, mas os outros nao seria pior? E o Jerónimo e o antes dele, o Carvalhas? Minha nossa...
Não podemos é deixar que os da UE façam pouco da gente e sair daquilo ou acabar é o melhor. São piores que os americanos se formos a ver.

11:25 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

12:02 da manhã  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

De acordo, Manel.

9:41 da manhã  
Anonymous hmt said...

Habitualmente vinha visitar o Quartzo. Valia a pena: artigos interessantes, um humor ágil, crítica desempoeirada.
Mas este Resende é insuportável, com o seu jeito de salvador da Humanidade e maneiras intolerantes.
Assim, não voltarei mais.
Ficamos todos a ganhar.

9:10 da manhã  
Anonymous F. Guerra said...

hmt, bye! Eu também estive quase a deixar de cá vir, mas por razões opostas: pensava que o quartzo era maioritariamente de direita. Felizmente é plural, felizmente é tudo menos intolerante, felizmente tem o Manuel resende. Eu sei, eu sei, as verdades custam muito a ouvir, e o debate parece não ser a especialidade de hmt (porra, o que me chateia estar a falar com uma sigla!).

10:05 da manhã  
Blogger Manuel Resende said...

Caro hmt:

Não me custa nada admitir que sou um chato e um azedo e um bocado abrupto. É verdade.

Sou-o por várias razões que não têm nada que vir a público e mais esta: desde há uns anos tenho vindo a sentir com cada vez mais força que caminhamos alegremente para a barbárie e que é cada vez mais tarde demais. Várias vezes tenho tido vontade de me calar, mas sempre me aparece qualquer coisa que me «pica» e, bumba, lá vai bomba.

Salvador da Humanidade? Ah... Eu diria antes profeta da desgraça.

Petróleo caro e raro, emissões de CO2, esta sempre constante corrida para a frente, cada vez mais altos, cada vez mais fortes, cada vez mais rápidos, na tentativa de obter um crescimento tendencialmente infinito, e ao mesmo uma degradação permanente das condições de vida, com as consequentes bolhas de violência urbana, mais polícias, mais exércitos...

10:23 da manhã  
Anonymous mariagomes said...

repercute-se aqui o estado a que as coisas estão a chegar! isto é um ventinho, apenas, mas sinal de que realmente caminhamos todos para... (onde?) parafraseio o poeta da infância, eugénio de andrade: " o futuro pertence ao reino das bruxas"
(para bom sítio não é de certeza, estou de acordo com o MR.)

2:06 da tarde  
Anonymous rbv said...

O quartzo de direita? A seu ver direita deve ser tudo o que não é comunista de obediencia.
Deve de ser isso.

2:31 da tarde  
Blogger Rui Lage said...

Tirou-me as palavras da boca, rbv.

3:15 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

RBV e Rui Lage, comentais de má-fé. Só pelo que eu tenho escrito por aqui de vez em quando sabeis muito bem que não é isso que eu penso, pelo contrário. O quartzo, para mim, vale por ser plural, como digo acima, e não por ser de direita ou de esquerda.

4:50 da tarde  
Blogger Rui Lage said...

Filipe Guerra, peço desculpa se o li mal. A minha interpretação do seu comentário foi semelhante à do rbv, fruto, é o mais provável, de falta de discernimento da minha parte.

4:55 da tarde  
Blogger Rui Lage said...

Uma dúvida subsiste, no entanto, relativamente à frase que me levou, Filipe, a interpretá-lo mal: porque é que "pensava que o quartzo era maioritariamente de direita"? Digo isto porque nunca tal me passou pela cabeça.

5:02 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

Rui Lage, tratou-se de uma resposta a hmt, tudo partiu da ameaça de hmt deixar de ser leitor do blogue (no que não acredito, francamente) com base nos escritos de Manuel Resende, que eu, e hmt pelos vistos, identifico como sendo de esquerda; ora, se aos outros o hmt tolera, é porque seriam de «direita»; logo, foi um recado irónico que eu quis dar a hmt. Quanto a mim, insisto: a maioria dos textos que nós publicamos aqui vejo-os sempre do ponto de vista da qualidade e inteligência, e aprecio, sobretudo, que sejam polémicos, que provoquem a comunicação entre nós, como foi o caso do seu último texto sobre os «privilégios» a que Manuel Resende du réplica. Mas é deste intercâmbio e desta discussão (do debate) que muitos hmts não gostam.

6:43 da tarde  
Anonymous hmt said...

As namoradas também servem para isto, para na quadra do Sâo João nos avisarem de que há pessoas que nos querem mal e que nos tratam mal e que nos dizem bye.
Para esclarecer F.G.venho aqui de novo e pode ter a certeza de que não voltarei. Não era preciso despedir-se assim.Sei que não faço falta.
Critiquei com desgosto MR porque os seus artigos participam numa obsessão excessiva não porque fossem de esquerda. Eu nem sei de que lado sou mas sou do lado dos que aguentam as fúrias do grandes seja na América do Sul ou na antiga URSS ou em qualquer outro lado. Sou estudante e nunca tive privilégios a não ser uns pais que se sacrificam para eu poder ser potencialmente menos explorado do que eles que trabalharam sempre numa fábrica de roupa, tive sorte que a fábrica não faliu.
MR responde-me sem azedume e até com alguma simpatia apesar do que eu disse. FG responde-me com azedume. FG tomou as dores de MR.
Não era preciso zangar-se.

7:51 da tarde  
Anonymous F. Guerra said...

hmt.não percebo essa das namoradas do S. João. O MR não precisa que eu o defenda, apenas critiquei uma atitude que, em vez de indicar onde está a intolerância e a insuportabilidade de um blogger, toma ares de menino caprichoso: não gosto deste gajo, nunca mais cá venho. E depois? O que é que isso interessa aos outros leitores? Teve a delicadeza de justificar as suas acusações? Ou vinha aqui apenas para ler o que lhe dava jeito?

8:14 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Caríssimo hmt:

Sei que vai voltar a espreitar aqui,não se faça de desligado...

Sabe uma coisa? O que eu aprecio neste blogue é a diversidade de opiniões, de esquerda, globalmente falando. Não concebo, não posso conceber, um mundo de papagaios a dizer o que dizem os chefes. Por isso, acho salutar até algumas picardias.

Sei também que reajo à bruta, mas olhe que não é por mal, nem por intolerância. E se posso dizer-lhe uma coisa, é que muito me tocaram os seus comentários.

Tem toda a razão em dizer que eu pareço obcecado. É que estou mesmo obcecado. Tenho perfeita consciência disso. E olhe que não é fácil uma pessoa levantar-se de manhã (geralmente às seis ou sete e tal) e dizer: porra, não estarás a ficar louco?

Mas, não, não estou a ficar louco: todos os dias vejo sinais de degradação do nosso viver colectivo. Puxa, eu que não sou pró-capitalista, mas muito pelo contrário, até já tenho saudades dos tempos em que as várias estruturas burocráticas, do Estado, dos sindicatos, dos patrões, se reuniam para concertarem estratégias comuns, com um certo respeito entre si.

Hoje em dia só há um actor digno de respeito oficialmente falando: o empresário, o gestor, o "promotor da inovação". Tudo o resto (operários, agricultores, quadros técnicos, professores, polícias, até os polícias) são interesses corporativistas.

O empresário é o sujeito da História. Os outros todos são sujeitos, e se o não quiserem ser, caixote do lixo com eles.

Quando comparo este mundo com aquele em que nasci e cresci, quando vejo as esperanças que em todos nós, de direita e esquerda,tínhamos,isto é, um mundo sempre melhor, só posso dizer uma coisa: que esperar de filhos que acham que, regra geral, vão viver pior do que os pais? Que contribuam para o esforço colectivo da sociedade? A que propósito? Para ainda ficarem pior? Pois é isso que se lhes exige sempre, sejam quais forem os governos.

Repare, eu não digo que José Sócrates é igual a Santana Lopes. José Sócrates é um adversário com quem se pode discutir. Santana Lopes, abstenho-me de comentar para não ir a tribunal.

O que eu digo é que o horizonte de esperança não existe.

Pessoalmente, isso não me afecta. Estou absolutamente coberto. Mas eu não sou só eu. Eu sou todos aqueles que vivem à minha volta.

Pronto, desculpe lá o mau jeito.

Peço-lhe que acredite que não me considero salvador da humanidade, mas simples profeta da desgraça. O que já não é mau.

Um abraço.

9:34 da tarde  
Anonymous M.E.V. said...

Para o Sr.Filipe Guerra:Fui eu que avisei o Henrique que tinha um comentário a ele dirigido. Sou a namorada do Henrique (hmt) e por isso ele diz que eu o avisei.
Não há nada de alusivo, portanto.
É só.

11:21 da tarde  
Blogger Serafim said...

Nesta altura seria mais interessante que as pessoas não perdessem tempo a entrincheirarem-se em facções denominadas "esquerda" e "direita".
Nesta altura seria mais importante munirmo-nos de pragmatismo e despirmos preconceitos ideológicos poeirentos.
Este país está na lama porque não tem rumo (a não ser o abismo) e ninguém está preocupado com isso, desde que não lhe toquem nos privilégios.
E isto não tem a ver com o Governo A ou B, com o Sócrates ou o Santana: é uma questão de todos querermos um Estado que nos dê tudo, mas para o qual não estamos dispostos a contribuir.
A dita "esquerda" fala, fala, mas esquece-se que a perda de privilégios corporativos que estimula as greves que apoia pode significar que os realmente desfavorecidos mantenham alguma da solidariedade que o Estado poderia veicular (senão para que serve um Estado?).
A dita "direita" é simplista, reduzindo ao dito "mercado" a solução de todos os problemas, esquecendo-se que esse "mercado" é reposnsavel por boa parte das desigualdades.
Sem querer ser vulgar, acho que mais do que nunca se impõe a famosa frase do Kennedy.

Realmente, o que é que cada um de nós pode fazer por Portugal?

Por exemplo: aceitar perder algum benefício que colha do Estado.

PS: ok,ok, já sei que me vão falar dos benefícios dos políticos, das reformas chorudas, etc, etc. Aí realmente estou de acordo, mas as manifestações e greves deveriam ser por esses motivos e não por se alterarem as condições de cada corporação, do tipo "o dente cariado só ao dono doi."

3:23 da tarde  
Anonymous Zé Povão said...

Esta discussão entre ser de esquerda ou de direita já me pareceu mais produtiva.
É que umas vezes somos lixados por tipos que se dizem de esquerda, cheios de ética republicana; outras, por tipos que se proclamam de direita, cheios de princípios católicos.
Outras vezes, pelo contrário, somos auxiliados, das mais diversas formas, por indivíduos que reivindicam essas mesmas condições pessoais.
De certeza que ao lerem isto discordarão dos lugares comuns que empreguei - nem só os de esquerda é que são republicanos nem apenas os de direita é que são católicos.
É que a decência, a humanidade e a dignidade são - creio eu - pouco compartimentáveis nesta dicotomia.
Tão abominável foi a ditadura de Ceausescu como a de Pinochet, por exemplo.
As etiquetas pouco importam, pois não é negativo que tenhamos opiniões divergentes - o que é mau é que essa divergência promova o afastamento e mesmo, em casos mais extremos, o ódio entre seres humanos. E, nesta armadilha, tanto cai gente de esquerda como gente de direita.

Sabem que mais? O Zé Povinho preferia o carneiro com batatas às ideologias políticas. O Zé Povão acha que por vezes - só por vezes -ele tinha toda a razão...

5:46 da tarde  
Anonymous rbv said...

Zé Povão um grande bravo é mesmo assim, e o importante é as pessoas, mas com a dignidade delas, autêntica, serem fraternais, uns para os outros em face de quem as explora, e quando digo explora também refiro ditadores deste ou daquele lado.

9:34 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Serafim:

Provérbios para bois, não são para mim.

11:42 da tarde  

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