31.1.04

Cimbalino Curto #58

Cinemas do Porto




Quem só conhece o Porto de hoje não imagina o que foi o Porto de ontem. Mas basta atentar nos edifícios que ainda agora albergam casas de espectáculos para perceber que houve tempos em que a vida cultural da cidade não estava morta, nem por sombras.

O Teatro São João, construído em 1798, não foi feito para criar galinhas: ali se representavam óperas, bailados e peças de teatro, até aparecer o cinema, altura em que passou a cine-teatro. O Rivoli, antigo “Teatro Nacional”, o Batalha, o Águia d’Ouro, o Sá da Bandeira, o Coliseu dos Recreios (a maior sala de espectáculos do país), o Trindade, cada qual da sua época, não eram propriamente casas de penhores.

Há uma página em construção sobre o assunto.

Em matéria de cinema, pode dizer-se até que o Porto foi pioneiro: já na primeira década do século XX havia projecções regulares no Salão High-Life, que, depois, mudado para a Praça Batalha, veio a chamar-se Cinema Batalha (o famoso cinema do “Vai no Batalha”). E a cidade não se limitou a ver, mas aventurou-se também no fazer. Foi aqui que Aurélio da Paz dos Reis fez os primeiros filmes portugueses. Houve também, muito cedo, os Estúdios Invicta Filmes, ao Carvalhido, e a Caldevilla Film.

Ver também esta página, “Quando o Porto era a capital do cinema”.

Mas isso era no tempo em que havia uma burguesia e uma pequena-burguesia relativamente cultas (Manoel de Oliveira, graças à sua longevidade, é talvez um dos últimos representantes dessa gente), as quais vieram a ser substituídas por figuras como o famoso comendador Avílio Vatateiro e os agora não menos famosos empresários do Norte, que, à falta de melhor, têm estátua abstracta na Avenida da Boavista.

É por isso que o actual espectáculo desolante não representa uma incapacidade congénita das gentes da cidade em ascenderem à civilização, mas mais propriamente o que se poderia chamar uma involução, para não lhe chamar decadência, palavra demasiado pesada para o meu estômago. E essa involução corresponde à modernização da cidade. Cinemas no centro não temos, mas “temos” centros comerciais e a Exponorte. Não temos Aurrélio da Paz dos Reis, mas temos o Manuel Serrão.

É esta involução que deixa na boca das gentes do lugar aquele sabor a roubo histórico, aquele ressentimento que por vezes se vira contra todos os “inimigos exteriores”. Nada de mais corriqueiro.

Já agora, vamos salvar o Águia d’Ouro?

WANTED

Comentários, opiniões, críticas e sugestões.
Digite quartzo@sapo.pt.

30.1.04

Post Scriptum #131


De 10 a 29 de Fevereiro, impõe-se uma visita à turística Póvoa de Varzim. Mário Cesariny, o "papa" do surrealismo (em) português, revela aos olhares curiosos aspectos da sua vida e da sua obra, com as devidas ligações às expressões internacionais deste movimento artístico. A exposição intitula-se "O Navio de Espelhos" e pode ser vista no Átrio da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto.

Post Scriptum #130

Chove há horas sobre o Porto. Um excelente pretexto para "Tempo Diferente", de Benjamin Péret, numa tradução de Nicolau Saião.

Benjamin Péret
(França, 1899-1959)



TEMPO DIFERENTE

O sol da minha cabeça é de todas as cores.
É ele que ilumina as casas
de palha
onde vivem os senhores saídos das crateras
e as belas mulheres que em cada dia nascem
e em cada tarde morrem
como os mosquitos.
Mosquito de todas as cores
que vens tu fazer aqui?
O sol este sol é para cães
e o calor sacode as montanhas
enquanto as montanhas nadam
sobre um mar pleno de luzes
onde o calor e o peso da vida
não existem
- onde eu não meteria nem a ponta do meu pé.

Tradução de Nicolau Saião.

29.1.04

Kaváfis Dia#4

TERMÓPILAS

Honra se deve àqueles que na vida
Termópilas fixaram p'ra guardar,
àqueles que ao dever jamais se esquivam
e justos são na acção e sempre rectos,
mas nunca perdem pena e compaixão;
se ricos, generosos, e se pobres
ainda generosos com seu pouco.
que acodem sempre a todos quantos podem;
e, que à verdade sempre são fiéis,
mas sem guardar rancor aos que são falsos.

E maior honra ainda se lhes deve,
se já prevêem (são tantos os que o fazem),
que no fim há­‑de vir um Efiálte,
e os Persas no final hão­‑de passar.

____
Nota: Efialte foi o traidor que mostrou aos persas a forma de atacar os gregos na batalha das Termópilas.

O Povo é Sereno #40

A Cassete.

Já que falamos de futebol, não resisto a citar um texto recente do Carlos Furtado, no Nortadas:

Final do Boavista 1 - Beira Mar 0. As estatísticas dão 12 faltas para o Boavista e 31 para o Beira Mar. Pergunta do jornalista da Sport Tv ao Sanchez no final do jogo. "o Boavista continua a jogar de forma que roça a violência"... Não sei se a pergunta já vinha escrita dos estúdios mas alguém informe o rapaz das contigências do jogo. Assim se fazem opiniões...

Este é justamente um dos lugares comuns mais irritantes do futebol. Quero dizer, o da suposta "violência gratuita do Boavista".
Se o Sporting comete muitas faltas ou o Beira Mar, ou outro clube qualquer, a explicação é muito simples: "o futebol é um jogo viril". Se, pelo contrário, for o Boavista a cometer mais faltas do que seria desejável, a explicação é ainda mais simples: "são um bando de 'sarrafeiros'." Faz lembrar uma célebre cassete, agora aplicada ao futebol.

O Povo é Sereno #39

Também eu fiquei chocado com a morte do Miklos Fehér, como é óbvio. Mas não é concretamente disso que venho aqui falar, pois já tudo foi dito e há alturas em que a contenção é, de facto, a melhor conselheira. No entanto, há coisas que vamos ouvindo aqui e ali e que não devem ficar sem um comentário. Tenho achado alguma graça (se é que o termo é apropriado) a toda esta beatice em torno de um alegado clima de harmonia que se terá instalado entre os agentes desportivos nacionais a pretexto das cerimónias fúnebres do malogrado futebolista húngaro. É ver benfiquistas, portistas, sportinguistas e sei-lá-quantos-mais irmanados em distintivos e cachecóis, apostados em atirar os conflitos para trás das costas e em destrinçar finalmente aquilo que é essencial daquilo que é acessório. Eu nem queria acreditar nos meus ouvidos, mas até o Pimenta Machado (vejam só!!!) aproveitou a deixa para lançar tiradas filosóficas do género "Nós não somos nada, a condição humana não vale nada, para quê tantas zangas?", logo vindas de um dos homens que porventura mais terão contribuído para que a imagem do dirigismo desportivo português seja... aquilo que nós sabemos. Mas tudo bem, pensaríamos nós, vamos até acreditar na sinceridade dele e achar que, depois da morte do Fehér, agora é que vai ser, este pessoal vai ganhar finalmente juízo e o futebol não vai ser mais do que um jogo, talvez o mais fantástico jogo do mundo, em que as equipas hão-de ganhar apenas pelos méritos demonstrados dentro das quatro linhas, em que para sempre será abolido o insulto, a polémica gratuita e o manobrismo de bastidores.
Mas não, afinal estávamos enganados! Ainda o cadáver de Fehér estaria em trânsito para a Hungria e já Dias da Cunha fazia uma declaração incendiária a pensar no próximo jogo com o FC Porto, dizendo que Pinto da Costa incitava os adeptos à violência com referências a "mouros" e outros epítetos pouco dignos. Pois é, meus caros, Fehér já morreu há quatro dias. Benvindos ao mundo real!

Señor Tallon #31

O Ricardo Carvalho mencionou o caro Lutz do "Quase em Português". Já disse aqui quanto gosto deste blogue, mas queria dar-lhe o prémio do pudor. Escreveu ele:

"Morte alheia, pública.

Aproveito esta boa oportunidade para ficar calado."

Conseguiu bater o Rui Amaral em discrição.

Melhor do que isto, só a "Janela Indiscreta", que, desdizendo o nome, nem falou no caso.

A propósito do Lutz, se passearem pelo blogue dele, têm lá de vez em quando traduções de poemas alemães.

O Silêncio é de Ouro #33

We insist!


Mais um clássico. E com uma importância que ultrapassa em muito o universo da música. "We Insist – Freedom Now Suite", de Max Roach, foi gravado em 1960, e é um dos grandes contributos do jazz para o movimento dos direitos civis dos negros norte-americanos. Um disco actualíssimo.

Raul Silva

A propósito deste post do Pedro, e dos comentários que se seguiram na caixa que mudou os blogues, o Ricardo Carvalho pede a palavra, ao abrigo do direito de resposta.

A propósito de fígados.

Não creio que tenha maus fígados relativamente às "gentes do norte"(sic). Não é que goste particularmente de cá viver. Como dizia o outro, "já gostei mais".
Tenho um fígado qualquer, mas mau não creio que seja. Também tenho um bocado de fígado portuense mas outros de muitos sítios mais. É só isso.
Vejo o Porto com os meus olhos que não são tão ingénuos como se calhar eu (mas principalmente tu) gostaria(s). Estudei umas cenas, leio alguma coisa, não tenho televisão, enfim, mantenho-me a par, estou atento. Mas também gosto de sonhar, tenho os meus ideais.
Gostava de viver no centro de uma cidade (check) com um cineminho perto (fechou) uma biblioteca fixe aberta até às 00h00 (continua a sonhar) e malta gira, colorida e alegre, com complexos diferentes uns dos outros e com sonhos e ideais. Será pedir muito? (ok, se calhar estiquei-me um bocado : b)
O resto resume-se à minha falta de jeito para escrever. Gostava de ser mais simpático, assim como o Lutz, mas ya, não tenho jeito. É só isso também.

Ricardo Carvalho

(E agora a parte so demodè, mas muito 80s):
P.S.: eu sei que não devia dizer isto e que pode fazer mal, mas já que estou numa de partilhar intimidades: gosto de figado! de porco, mal passado e com muito alho. (Qualquer dia sou famoso ; )


Señor Tallon #30

Navegando por aqui, fui dar aqui. Este poema de Cesário Verde retrata de uma maneira muito acutilante o poeta na sociedade oitocentista. A inimizade contra os jornais, a hegemonia da prosa, a situação social dos vates.

28.1.04

Bem-vindo ao Quartzo, Feldspato & Mica.
Um blogue com entrada livre e sem consumo obrigatório.
Aberto todos os dias e todas as noites, incluindo sábados e domingos.
A Gerência agradece a sua visita.

Kaváfis #Dia 3


Aqui vai mais um poema, que contém uma ou duas frustrações. Preferi, porém, deixar escapar algum erro de métrica a torturar o discurso.

CANDELABRO

Num quarto pequeno e nu, quatro paredes somente,
recamadas de muito verdes panos,
um belo candelabro brilha incandescente;
e em cada uma das chamas se acende
uma lúbrica paixão, um lúbrico ardor.

Na pequena alcova, que ilumina refulgente
a forte luz que vem do candelabro,
não é vulgar fogo esta luz ardente.
Não foi feita para os corpos tementes
a volúpia que há neste calor.

Cimbalino Curto #57


A RTP vai mudar-se temporariamente para os chamados estúdios do Porto (por acaso em Vila Nova de Gaia). Talvez a mudança de ambiente e os ares do Monte da Virgem lhes façam bem. Talvez moderem o hábito de ver o país pelo monóculo do lisboetismo. Mas, bem vistas as coisas, até estou a ser injusto. A SIC e a TVI são muito mais míopes do que a RTP, neste como noutros domínios. Quem nunca reparou nos noticiários a abrir com reportagens de cinco minutos sobre um buraco numa rua de Lisboa, a derrocada de um prédio ou a construção de um túnel? E os cenários das séries e telenovelas nacionais, quase sempre em redor de Lisboa e das suas "colónias de lazer" (Algarve, Alentejo, Ribatejo...)? O resto do país, com a pontual excepção do Porto, é remetido para a salazarenta categoria da "província", como se nada de relevante se passasse em nove décimos do território nacional. Por estas e por outras razões, devemos ter uma das mais incultas televisões do mundo, as três estações incluídas.

O Povo É Sereno #38


Fui às "Fraternités Ouvrières" (Fraternidades Operárias) comprar sementes. Estão a rir-se? Fui, sim senhor.

Desde há muitos anos, nesta terra belgo-picarda de Mouscron, um grupo de sócios (são agora mais de mil) fez um grupo de jardinagem. Junto à sede, há um grande quintal cheio de árvores em cima e hortícolas em baixo. Trata-se de uma forma de agricultura sem lavrar a terra, utilizando os próprios ciclos biológicos das plantas para alimentar o solo, que se inspira no fim de contas nas florestas, as quais, sem adubos, sem pesticidas e sem tractores, se reproduzem ao longo dos séculos.

É um jardim comestível, pleno de imaginação (até tem um pequeno "lago", isto é, um charco, para as rãs). Dado o pequeno espaço, as árvores (de fruto) são mantidas pequenas, cortando-lhe no Verão os últimos botões, por onde crescem. É um modelo para as hortas populares dos sócios. Enfim, só visto.

Dentro da sede, enormes prateleiras com milhares e milhares de sementes de toda a espécie de plantas e um grupo de sócios a organizar aquilo tudo. Escolhi as minhas sementes, fui para pagar, só tinha uma nota de 50 euros. "Não tenho troco; a tesoureira não está. Paga para a próxima" - disse-me o presidente.

Ficámos a falar disto e daquilo, eu a beber café e eles a trabalhar. Falámos de agricultura, da vida das pessoas da zona, do dialecto picardo, das fábricas que fecharam, da evolução da organização das empresas (os antigos engenheiros humanistas, os patrões com todos os seus defeitos próximos dos ofícios, depois os "japoneses", isto é os novos quadros dos anos setenta e oitenta que trouxeram novos planos, "racionalizaram" as empresas e as iam levando à falência, depois os financeiros).

Falámos do altermundialismo, do Bourdieu, do Michael Moore, do Wesley Clark. Cuspimos no Bush.

Tive que me vir embora, pois a noite descia.

Post Scriptum #129

Um blogue de pedra. Mas com muitos cérebros.

Sim, somos um dos blogues com mais sorte da blogosfera. Ao fim de seis meses de emissões mais ou menos regulares, o Quartzo, Feldspato & Mica ganhou amigos como estes: Manuel Resende, Margarida Vale de Gato, Jorge de Sousa Braga, Rui Lage, Isa Mara Lando ou Nicolau Saião. Graças à sua amizade tivemos a sorte de poder publicar dezenas de textos inéditos de autores estrangeiros, alguns dos quais praticamente desconhecidos em Portugal. Hoje recebemos em casa mais um amigo: Jorge Vilhena Mesquita. Coordenador da revista DiVersos e tradutor de autores como Rimbaud, Keats e Shakespeare. E o começo não podia ser mais auspicioso. Jorge Vilhena Mesquita lança-nos ao Tigre de Blake.

Mais uma vez, a gerência e os nossos leitores agradecem.



O TIGRE
William Blake
(Inglaterra, 1757-1827)


Tigre! Tigre! flamejando,
Selvas da noite aclarando,
Que mão, que olhar imortal,
Criou simetria tal?

Em que abismos arde ou céus
O fogo dos olhos teus?
Em que asas ousou voar?
Que mão o ousa agarrar?

Com que ombros, que artesão
Te deu fibra ao coração?
Quando a bater começou,
Que mão, que pé aterrou?

Que martelo? Que corrente?
Que fornalha teve ardente
Teu cérebro? Que mão forte
Lhe aplaca os pavores de morte?

Quando as estrelas dardejam
E de choro os céus marejam,
Tal obra vendo sorri?
O Cordeiro fez e a ti?

Tigre! Tigre! flamejando,
Selvas da noite aclarando,
Que mão, que olhar imortal,
Ousou simetria tal?

Tradução inédita de Jorge Vilhena Mesquita.

A propósito deste poema, Jorge Mesquita sugere ainda a leitura das traduções feitas por Jorge de Sena e A. Herculano de Carvalho. O nosso leitor Mesquita Alves aponta ainda a tradução realizada por Ruy Belo para os antigos cadernos da Editorial Inova, do Porto.

Pequeno pensamento do dia.

As coisas podem repetir-se indefinidamente na vida e suportamo-las, mas se se repetem uma vez que seja em literatura tornam-se cliché.

Joseph Brodsky


Envie este texto a pelo menos cinco amigos. Não quebre a corrente.

27.1.04

Post It #54

Num post recente, Caim relata a estranha relação de afinidade que terá surgido entre o artista David Daniel e uma embalagem de Bongo. Este texto foi uma extraordinária descoberta, pois permitiu-me fazer uma leitura totalmente diferente de um dos meus poemas preferidos de Sandro Penna. São apenas dois versos que ganham agora uma nova, inesperada e reveladora luz. Este é o poema:

Imóvel e perdido, lentamente
ia animando no escuro a mão.


Assim, parece-me óbvio que o que Penna tentou mostrar foi a extraordinária beleza que pode existir no simples acto de beber um refrigerante a meio da noite. Apenas uma dúvida persiste: Penna estaria a pensar num bongo ou antes num capri-sonne?

Write now!

Dê-nos sem dó. Envie as suas críticas, sugestões, opiniões e comentários para quartzo@sapo.pt. A gerência agradece e retribuirá.

Correio dos Leitores

Sou um dos mais experientes e eficazes ladrões de livros de bibliotecas. Queres saber algumas das minhas técnicas? Envia um sms para o 965 765 897 ou escreve para furtoculto@clix.pt. Se não ficares satisfeito, devolvo-te o dinheiro.

Leitor devidamente identificado.


Vendo manuscritos de diversos autores portugueses contemporâneos, com garantia de proveniência. Alguns exemplos: João Cerqueira Lopes, Miguel Montano, Júlio Moinhos, Carlos Moreira e Hipólito Estevão Gago. Muito bom preço. Motivo: mudança de gostos literários.

Miguel Neto
Miguelneto@ibermail.es

Kaváfis Dia#2


Segue-se a minha versão do poema "Ítaca". Há várias outras versões em português e noutras línguas. Por exemplo: tradução de Haroldo de Campos aqui (procurar ao fundo da página); tradução inglesa de Rae Dalven aqui; este e outros poemas de Kaváfis traduzidos por José Paulo Paes aqui.

ÍTACA

Quando abalares, de ida para Ítaca,
Faz votos por que seja longa a viagem,
Cheia de aventuras, cheia de experiências.
E quanto aos Lestrigões, quanto aos Ciclopes,
Ao irado Poséidon, não os temas,
Disso não verás nunca no caminho,
Se o teu pensar guardares alto, e uma nobre
Emoção tocar tua mente e corpo.
E nem os Lestrigões, nem os Ciclopes,
Nem o fero Poséidon hás-de ver,
Se dentro d'alma não os transportares,
Se não tos puser a alma à tua frente.

Faz votos por que seja longa a viagem.
As manhãs de Verão que sejam muitas
Em que o prazer te invada e a alegria
Ao entrares em portos nunca vistos;
Hás­‑de parar nas lojas dos fenícios
Para mercar os mais belos artigos:
Ébano, corais, âmbar, madrepérolas,
E sensuais perfumes de todas as sortes,
E quanto houver de aromas deleitosos;
Vai a muitas cidades do Egipto
Aprender e aprender com os doutores.

Ítaca guarda sempre em tua mente.
Hás­‑de lá chegar, é o teu destino.
Mas a viagem, não a apresses nunca.
Melhor será que muitos anos dure
E que já velho aportes à tua ilha
Rico do que ganhaste no caminho
Não esperando de Ítaca riquezas.

Ítaca te deu essa bela viagem.
Sem ela não te punhas a caminho.
Não tem, porém, mais nada que te dar.

E se a fores achar pobre, não te enganou.
Tão sábio te tornaste, tão experiente,
Que percebes enfim que significam Ítacas.

26.1.04

O Povo É Sereno #37

Alguém falou em greve nacional da função pública? Regressado hoje ao meu "serviço" (como se usa dizer em dialecto administrativo), onde labutam umas três dezenas de almas, constatei ter sido o único a fazer gazeta na passada sexta-feira... Dúvidas sobre a eficácia da greve como instrumento de pressão sindical todos teremos, mas que diabo, assobiar para o lado é que não! Não foram os resultados expressivos da greve divulgados pela comunicação social, que algum alento me deram, e neste triste canto dir-se-ia que nada se passou. O povo anda mesmo muito sereno...

Kaváfis Dia #1,5

Mais algumas achegas sobre Kaváfis


Já neste blogue se falou das várias traduções que correm na blogosfera sobre um poema de Kaváfis. Entretanto, a Bomba Inteligente postou outra nova tradução, esta de Vasco da Graça Moura.

A fim de aumentar a confusão e o barulho, resolvi tecer umas mesquinhas considerações sobre o assunto que poderão ser consultadas num sítio que já digo. Talvez as patacoadas indigestas que expendo possam contribuir para alegrar um ou dois astronautas ou chatear outros tantos. Já se avisa, é indigesto. Mas quem quiser pode ir aqui.

Amanhã, deito mais traduções à rua.

Hoje, durante o noticiário da hora de almoço, emitido pela SIC Notícias, o Fehér morreu mais vinte vezes. Com comentários, sem comentários, com câmara lenta, sem câmara lenta, com música de fundo, sem música de fundo, com zoom, sem zoom.
Começou o festim. E há alimento para muitas horas de almoço e muitas horas de jantar.

Post Scriptum #128

Nicolau Saião (Monforte do Alentejo, 1946) é poeta, tradutor, pintor, jornalista, actor e, a partir deste dia, faz também o favor de ser colaborador deste blogue. Editou vários livros de poemas, entre os quais Flauta de Pan (Colibri, 1998), Os objectos inquietantes (Caminho, 1992), Os olhares perdidos (Universitária, 2000) e Passagem de nível (1992), e é também presença habitual em várias revistas literárias. Nicolau Saião junta-se agora ao nosso grupo de colaboradores com uma tradução deste "Três Poemas" do jovem autor norte-americano Cedric Elliot Morrison (n. 1961).

Postal de Nicolau Saião.


Cedric Elliot Morrison nasceu em Lewiston (Maine) em 1961. Viveu vários anos em Providence (R. Island) tendo-se debruçado sobre a vida e obra de H.P.Lovecraft. Vive, neste momento, em Nova Iorque.


TRÊS POEMAS
Cedric Elliot Morrison
(E.U.A., 1961)


1.
E assim chego
- colete, calça e paletó.

E sento-me, feliz da vida
na esplanada quase deserta.

Espero os ventos do sul
os musgos do norte
o sol de um pouco à esquerda do sudeste.

Talvez relinche como uma estrela fogosa
talvez chame o criado e fique mudo.

Talvez, quem sabe, me espante um bom bocado
chapéu de feltro cinzento na cabeça
dócil e omnipresente.

Que pergunta, interrogo-me perplexo
fiz a mim mesmo há pedacinho?

2.
As árvores
Não as que vi em criança
umas de roda do luar espelhado
no pequeno tanque
outras em dia de mortos
aparecendo desaparecendo
como presenças incertas
Não as árvores de repente ternas
como sementes
remotas como pedras

Mas as que gravitam em torno de nós
aflitas

silenciosas como um pensamento.

3.
Nas arribas de Cape Cod
aí pela manhã
um tipo pensativo põe-se a recordar
os tempos dilectos da juventude
quando trabalhava com o velho Miles
o carpinteiro tisnado de camisas de algodão
E ambos galhofavam serenamente
um em frente do outro, de pés em cima da mesa

na sala traseira da vetusta lojeca
atestada de móveis como dantes se faziam
perto do farol do arquipélago de Shoals.

"Quando o vento acalmava, rapariga
a morte e a doença à porta não chegavam
à porta não chegavam, digo-te eu
minha garota, minha garota bela!"

Miles, rei das cadeiras e das mesas
o das camisas baratas de algodão

Colete, calça e paletó
e às vezes uma rosa na mão direita
- mas não como se fosse um troféu.

E tudo sem palavras, sem um gesto
sem sequer uma canção que vem de longe

que vem de muito longe e ressoa.


Tradução de Nicolau Saião.

Mais uma vez se provou que a bola nem sempre é redonda.
Paz à sua alma. E à de todos nós.

24.1.04

O Silêncio é de Ouro #32

.

23.1.04

Ilha dos Amores #27

Rubrica "O meu Pipi é mais antigo do que o teu"


Pornógrafos de todo o mundo, regozijai-vos. De acordo com alguns estudiosos, a Vénus de Willendorf poderá ser a mais antiga imagem pornográfica conhecida. O clássico dos clássicos da arte licenciosa.

KAVÁFIS DIA #1


Tendo reparado que Konstantínos Kaváfis (1863-1933) tem um certo público na blogosfera, resolvi derrogar a uma regra que tinha imposto a mim próprio e que era a de só publicar aqui traduções inéditas. Sucede que andam por aí espalhadas, em publicações de pouca expansão, algumas versões minhas do vate de Alexandria e pensei que não seria de todo impertinente dá-las a conhecer também neste blogue. A primeira será o poema “A Cidade” que foi traduzido também por José Paulo Paes , grande tradutor brasileiro, e Joaquim Manuel Magalhães.

A CIDADE

Dizes: «Vou para outra terra, vou para outro mar.
Noutro lugar, melhor cidade há­‑de haver certamente.
Será malogro, está escrito, tudo o que aqui tente
E ─ como morto ─ o coração sepultado aqui me jaz.
Por quanto tempo há­‑de ficar minh'alma em tão podre paz?
Pra todo o lado olhei, em todo o lado vi
Ruínas negras desta minha vida aqui,
Que tantos anos eu gastei a estragar, a dissipar."

Novo lugar não vais achar, nem achar novos mares.
Vai­‑te seguir esta cidade. Ruas vais percorrer,
serão as mesmas, e nos mesmos bairros hás­‑de viver,
nas mesmas casas ficará de neve o teu cabelo.
Hás­‑de ir ter sempre ao mesmo sítio, sem qualquer apelo.
Para outro lugar não há navio ou caminho
e estragares a vida tu neste cantinho
é pois igual a nesse largo mundo a dissipares.

[23, 1910]

22.1.04

Post It #53

O Ricardo Carvalho enviou-nos esta sugestão de leitura: o "Manifesto Incompleto" do famoso designer e artista canadiano Bruce Mau.
O texto integral está disponível aqui.
Em jeito de intróito, deixo-vos o ponto 5 do manifesto, aquele que mais aprecio:

5. Go deep. The deeper you go the more likely you will discover something of value.

Post Scriptum #127

Sandro Penna
(Itália, 1906-1977)



Devo estar a ficar velho, se fiz uma longa viagem
sempre sentado, se nada vi
senão a chuva, se um débil raio
de vida silenciosa… (os operários
entravam e saíam do comboio,
levando de uma aldeia para um lago tranquilo
o sono e as ferramentas de trabalho).
Quando cheguei à cama também gritei:
somos homens, mais cansados que cobardes.

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo.
Sandro Penna, No Brando Rumor da Vida, Assírio & Alvim, 2003.

Post It #52

Mais uma para a caixa.

As caixas de comentários têm essa grande virtude: são uma espécie de segunda pele do blogue. Ou uma espécie de janela das traseiras, mais pequena e discreta, mas, justamente por isso, muitas vezes mais interessante e surpreendente do que a janela da frente (não há aqui novidade nenhuma: os voyeurs profissionais sabem isto há muito tempo).
Hoje, no Blogue de Esquerda, há mais um exemplo que, na minha opinião, confirma esta regra. Margarida Ferra publicou um pequeno post intitulado "Vinte anos é muito tempo", no qual lamenta a perniciosa influência dos livros da Anita nas crianças dos nossos dias.
Eis o texto de Margarida Ferra na íntegra:

Comenta uma mãe, maravilhada, que os livros da Anita fazem as delícias da filha, como fizeram as dela. «São histórias intemporais», conclui, «pena tê-las deitado fora.» A minha pena não vai para o destino que aquela família deu aos livros, antes para o destino daquela filha que repetirá a história da mãe. E assim por aí adiante. O que queremos mudar, quando resistimos a mudar o cliché?
(Margarida Ferra)

E este é o texto que Alexandre Monteiro, autor do excelente No Arame, deixou na respectiva caixa de comentários:

Como te compreendo... a Anita era a típica filha abusada, violada, forçada pelos pais a trabalhar nas fábricas de sapatos do Vale do Ave. E, claro, sempre me repugnou aquele hábito que a Anita tinha de masturbar página sim, página não, fantasiando com um homem que a desposasse e a levasse ao altar, entre um cigarrito de canabis e um copo de vodka bisonte, impostos pela sociedade de consumo que é tão glorificada nessa série - sempre achei que a miúda, para a idade que tinha, era um pouco avançada demais... caraças, se calhar até vota PP!
Resumindo, estou contigo. Se precisares de ajuda para adaptar a Valerie Jane Solanas para o público infantil, cá estou eu.

(Alexandre Monteiro)

21.1.04

Post Scriptum #126

Mais um grego

Se não estão fartos, aí vai. E, se estão, também vai.



Andréas Empeiríkos (1901-1975) - um (ou o principal) dos introdutores do surrealismo na Grécia. Foi também pioneiro da psicanálise nesse país. Escrevia numa linguagem muito dominada pelo katharévoussa, língua utilizada pelos gregos fanariotas (de Istambul, na Turquia) e da diáspora em geral, mais complexa e próxima do grego antigo do que o demótico falado pelo povo do continente; era também a língua oficial, administrativa. Diziam por graça, que "o inconsciente do Empeiríkos falava katharévoussa" (esta piada era por causa dos textos de escrita automática que ele publicava), o que é uma estupidez como outra qualquer: a gente fala "espontaneamente" a língua que a nossa mãe nos ensinou. Incompreendido no seu tempo, a obra dele veio depois a subir na consideração da gente literata.

A RAPARIGA

A casa está a transbordar de alegria
Como uma bilha cheia de leite ao sol
Uma rapariga à janela ocultamente
Dá os seus seios às pombas.

Repletos palpitam os seios
Espetam-se os mamilos
Titilam-nos as aves
E subitamente o leite transborda.

de "A Ternura dos Seios"


AVES DO PRUT*

10

Vou apanhar na minha rede a barca
Que me levará hoje para junto de ti.


13

Há flores que se parecem com mãos
Os seus dedos tacteiam e soltam perfume.

16

As minhas pálpebras são cortinas transparentes
Abro-as e vejo à minha frente o que calha
Fecho-as e vejo à minha frente os meus desejos.

* Prut - rio da Roménia

Post It #51

Não posso resistir

Voltei a roubar. OK, não é bonito e vou tentar emendar-me. Mas não tenho culpa, parece que a "Janela Indiscreta" faz de propósito: este post, por exemplo, veio recordar-me todos aqueles a quem Jakobson chamou a "geração que desperdiçou os seus poetas". Nos anos vinte e trinta do século XX, uma grande parte dos poetas experimentalistas russos acabou a escrever literatura infantil e/ou a "desaparecer". Daniil Harms foi um deles. Directamente da "Janela":

Ilusão de óptica

Semião Semionovitch põe os óculos, olha para um pinheiro e vê que nesse pinheiro está sentado um tipo que lhe mostra o punho.

Semião Semionovitch tira os óculos, olha para o pinheiro e vê que não há ninguém no pinheiro.

Semião Semionovitch põe os óculos, olha para o pinheiro e volta a ver um tipo sentado no pinheiro que lhe mostra o punho.

Semião Semionovitch tira os óculos, olha para o pinheiro e volta a ver que não há ninguém no pinheiro.

Semião Semionovitch volta a pôr os óculos, olha para o pinheiro e volta a ver um tipo sentado no pinheiro que lhe mostra o punho.

Semião Semionovitch recusa-se a acreditar no fenómeno, concluindo que se trata de uma ilusão de óptica.

O Povo é Sereno #36

Já chegamos, perdão, chegámos* à Libéria?

Ora vejam lá que notícia me impressionou hoje: a formação do mercado ibérico liberalizado da electricidade!

E porquê? Porque tudo ali é trapalhice (ia a fugir-me boca para a verdade, mas, graças a Deus, há eufemismos).

Primeira trapalhice: o mercado vai reduzir os preços da energia, “se a economia está certa”, corrige Durão Barroso. “Se a economia está certa” – já lá vamos. Primeiro, esta afirmação: “vai reduzir os custos da energia”. Isto é bom? Pode ser a curto prazo, mas a redução dos preços da energia facilita o esbanjamento. Os países industrializados têm vindo a “poupar” energia, mas fazem-no exportando as suas indústrias (deslocalização) e aumentando o consumo da electricidade. A ilusão é perfeita, as consciências ficam tranquilas, mas não estamos melhor. O mecanismo dos preços não reflecte a necessidade de chegarmos a uma economia mundial frugal em energia.

Segunda trapalhice: o mercado vai certamente reduzir os custos da energia eléctrica num primeiro tempo. Foi tudo feito para isso: uma entidade reguladora vai fixar as tarifas de acesso à rede para as empresas fornecedoras e a concorrência inicial certamente obrigará esses fornecedores a reduzir os seus custos para entrarem no mercado, utilizando a margem que lhes resta entre a tarifa de acesso e o preço facturado aos clientes.

Mas, num segundo tempo, o que se vai dar é simples: compressão dos investimentos, envelhecimento da rede, apagões. Foi o que aconteceu na Califórnia, por exemplo. E quando aconteceu, quem foi acorrer às empresas "em dificuldade", aos "piratas", como os qualificou a certa altura o governador Gray Davis? Os "contribuintes" claro, o poder público, que ficou completamente endividado, situação que custou o cargo ao desgraçado e timorato governador e conduziu ao poder... precisamente o representante e amigo do lobby da electricidade, Schwarnegger. Escusado será também dizer que as facturas de electricidade acabaram por aumentar, depois de terem baixado.

E ainda o que está para vir. Como o “mercado” não sai todo armado da coxa de Zeus, instituem-se bolsas de energia, onde as empresas fornecedoras vão comprar Watts-hora (para já, reina a maior confusão sobre a sede deste negócio, que não se sabe onde fica). O que antes era feito pelas empresas públicas e indirectamente dirigido ou controlado pelo Estado, vai ser feito por uma entidade “independente”. Em que imperarão meia dúzia de empresas dominantes. Lembram-se da Enron? Era precisamente uma corretora de electricidade, filha da liberalização, e utilizou a sua posição dominante para as falcatruas que levaram a um dos maiores escândalos financeiros dos EUA. Porque, meus caros amigos, na electricidade, a concorrência é sempre fictícia: a dimensão dos investimentos, a limitação dos recursos primários (petróleo, carvão, hidroelectricidade, etc.), tudo isso impede a entrada no mercado de muitos concorrentes.

Claro, claro, quando surgirem os problemas, os adeptos da liberalização vão dizer: havia esta e aquela imperfeição no mercado, vamos já corrigir. E inventarão novas trapalhices, até à próxima crise. Assim vai a vida.

Entretanto, é menosprezado aquilo que é mais importante, que é crucial para a nossa sobrevivência como seres humanos: o desenvolvimento das energias renováveis. O isolamento das habitações, a redução das necessidades de transporte, o apoio às pequenas centrais fotovoltaicas (sim, sim), os colectores solares, o desenvolvimento de uma agricultura menos voraz em energia, a par com a reflorestação, e sei lá que mais. Tudo um imenso campo em que as energias criadoras poderiam ser mobilizadas, criando emprego e vivendo melhor gastando menos.

Enfim, bem-vindos à Libéria, novo nome da nossa península luso-espanhola.

* É nestas subtilezas que se vê quem é do Porto: não consigo distinguir foneticamente "chegamos" de "chegámos".

O Silêncio é de Ouro #31

A Jazz Supreme



Um dos discos obrigatórios em qualquer discoteca de jazz é obviamente "A Love Supreme", de John Coltrane. Gravado em 1964, com os músicos que habitualmente acompanhavam Coltrane, nomeadamente Elvin Jones, McCoy Tyner, and Jimmy Garrison, "A Love Supreme" é um dos momentos mais importantes da música do século XX, tendo inspirado muitos outras obras das mais variadas áreas da expressão artística. É o caso, por exemplo, deste livro de Ashley Kahn.

Raul Silva

20.1.04

PAUSA PARA PUBLICIDADE


No contexto social actual, a segurança dos lares é uma das principais preocupações dos portugueses.
Para fazer frente a invasões de privacidade a Fábrica de Chaves do Areeiro tem uma vasta gama de fechaduras de alta segurança, que se adequam às necessidades e respondem à ansiedade de todos.
Venha ter connosco, pela sua segurança.
Fábrica de Chaves do Areeiro. Desde 1956.

(Anúncio publicado no jornal Público de 19 de Janeiro de 2004, p. 11.)

Señor Tallon #29

ZonaNon, "revista de cultura crítica" do mais estimulante que havia na net, migrou para La Plage, de armas e bagagens (leia-se colaboradores). Ainda está a dar os primeiros passos mas já é uma promessa. Bem vindos à esfera!

Post Scriptum #125

Experiência com Kaváfis

Uma pequena experiência, instigada por um post do abrupto personagem. JPP apresentou uma tradução de um poema de Konstantinos Kaváfis no seu blogue. Outros blogues apresentaram outras. Aventurei-me a fazer a minha versão portuguesa provisória, que é a seguinte:

Mar da Manhã

Vou deter-me aqui. E fitar também eu um pouco a natureza.
Deste mar da manhã e deste céu sem nuvens
azuis fundos brilhantes e praia amarela – tudo
banhado em bela e sumptuosa luz.

Vou deter-me aqui. Na ilusão de que é isso que vejo
(e, na verdade, vi, um instante, ao chegar)
e não também aqui as minhas fantasias,
minhas recordações, imagens do prazer.



JPP apresentou esta tradução de R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos,



MAR DA MANHÃ

Hei de deter-me aqui. Também eu contemplarei um pouco a natureza.
Do mar da manhã e do céu inube
azuis brilhantes, e margem amarela; tudo
belo e grandiosamente iluminado.

Hei de deter-me aqui. E me enganar que os vejo
(em verdade os vi por um momento ao deter-me)
e não também aqui minhas fantasias,
minhas recordações, as imagens do prazer.

[51, 1915]

ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ

Εδώ ας σταθώ. Κι ας δω κ’ εγώ την φύσι λίγο.
Θάλασσας του πρωιού κι ανέφελου ουρανού
λαμπρά μαβιά, και κίτρινη όχθη• όλα
ωραία και μεγάλα φωτισμένα.

Εδώ ας σταθώ. Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά
(τα είδ’ αλήθεια μια στιγμή σαν πρωτοστάθηκα)•
κι όχι κ’ εδώ τες φαντασίες μου,
τες αναμνήσεις μου, τα ινδάλματα της ηδονής.

O blogue Absorto, apresentou esta versão de Jorge Sena:


O mar pela manhã

Deixem-me estar aqui. Que também eu contemple,
um pouco, a natureza - o mar, nesta manhã,
o céu azul sem nuvens, de um e de outro a luz
onde se alonga amarelada praia.

Deixem-me estar aqui. Que eu pense que isto vejo
(não é que o vi um instante, quando aqui parei?)
Tudo isto só - e não, também aqui, visões,
memórias, e os espectros do prazer antigo.

(1915)

A Bomba Inteligente, esta outra de Joaquim Manuel Magalhães e Níkos Pratsínis

MAR DA MANHÃ

Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.
De um mar da manhã e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações, os modelos da volúpia.


A finalizar umas pequenas notas, muito breves e meramente exploratórias. A expressão "Edô as stathô" (que traduzi por "vou deter-me aqui") é o equivalente ao inglês "Let me stay here". Não percebo porque Jorge de Sena traduz "indálmata" por "espectros" e JMM-NP traduzem a mesma palavra por "modelos": "índalma", em todos os meus dicionários, significa "imagem", "reflexo", "imagem fantasiosa" e pode significar ídolo em expressões como "Madonna é o ídolo da juventude". Por fim, nenhuma das versões procura reproduzir o ritmo do original (que não tem métrica igual à portuguesa, mas aí está o desafio): Jorge de Sena reduz a versificação ao alexandrino. Não quero dizer que a minha versão está perfeita neste aspecto, mas na minha modesta opinião aproxima-se mais do modelo grego.

SHARON OLDS: DIA 3 E ÚLTIMO.

Terceiro poema de Sharon Olds, numa tradução ainda inédita de Margarida Vale de Gato.



A LINGUAGEM DA BAZÓFIA

Desejei ser a primeira a fazer pontaria com a faca,
desejei usar os meus braços extraordinariamente robustos e certeiros
e a minha postura erecta e os músculos ágeis e eléctricos
para alcançar algo no centro da multidão,
o fio da navalha perfurando profundamente o casco,
o punho vibrando lento e pesado como o caralho.

Desejei uma função épica para o meu excelente corpo,
um qualquer heroísmo, uma qualquer proeza americana
para além do ordinário para a minha pessoa extraordinária,
magnética e tênsil, junto ao campo de terra batida
vi os rapazes jogarem.

Desejei bravura, pensei em fogo,
em atravessar cataratas, arrastei por toda a parte

a barriga cheia de cobardia e segurança,
a minha bosta negra com as ampolas de ferro,
as minhas grandes mamas exudando muco,
as minhas pernas inchando, as minhas mãos inchando,
a minha cara inchando enegrecida, o meu cabelo
caindo, o forro do meu sexo
esfaqueado vezes sem conta por uma dor terrível como um punhal.
Jazi estendida.

Jazi estendida e suei e tremi
e expeli sangue e fezes e água e
devagar sozinha no centro de um círculo
expeli a nova pessoa
e eles ergueram a nova pessoa já livre do acto
e limparam a nova pessoa já livre
dessa linguagem de sangue tal louvor sobre todo o corpo.

Fiz aquilo que quisestes fazer, Walt Whitman,
Allen Ginsberg, fiz isto,
eu e as outras mulheres este acto
excepcional com o corpo excepcional e heróico,
este dar à luz, este verbo brilhante,
e deponho aqui a minha jactante bazófia americana
em pé de igualdade com outras.


De "Satanás Diz", livro a editar em breve pela Antígona, com tradução de Margarida Vale de Gato.

Encontros imediatos

Quase em Português

Este blogue não é do Norte, não, é de fora. Saúdo a coragem de escrever numa língua que não é a sua materna e congratulo-me com a oportunidade de ver as nossas idiossincracias através de olhos alemães, ainda por cima, inteligentes e empáticos.

E tudo assim saído directamente do forno, sem arrebiques. Ora, aqui para nós, uma das poucas vantagens de andar pelos blogues é esta: ver coisas que não se vêem nos jornais, por exemplo, com discursos que não são os do costume. Eu, que sou emigrante noutro sítio, te saúdo, irmão imigrante.

Cimbalino Curto #56



MONÓLOGO DO 82.
Peça em 1 Acto


Monólogo para várias vozes.

A peça decorre no interior de um autocarro, no Porto, durante a viagem entre a Boavista e Gaia, na linha 82.

Personagens: Velhota, Rapaz, Velhota do lado, Velhote do fundo e Motorista de autocarro.

VELHOTA (de pé, junto ao motorista): Então, então, bê lá se tens mais cuidado.
RAPAZ: Não bê que quero passar?
VELHOTA: Passa mas não empurres. Respeita, se queres ser respeitado.
RAPAZ: Ó f***-se, lá pá beilha…
VELHOTA (elevando a voz): Ó malcriadom da m***a, bai chamar beilha pó c*****o que te f**a.
RAPAZ: Bá bocê, bá-se f***r.
VELHOTA: malcriadola… só sabe dizer asneiras, o filho da p**a. (Ainda mais alto) isto já não há respeito. Ó sr. motorista, não bê este malcriado de m***a a dizer asneiras no meio do autocarro?
MOTORISTA: …
Alguns passageiros abanam a cabeça e trocam cúmplices olhares de troça entre si. Outros olham distraídos para a rua. Outros ainda nem chegam a levantar os olhos do jornal desportivo.
VELHOTA: Isto já não há respeito.
VELHOTA DO LADO: Cale-se, minha senhora. A falar dessa maneira perde a razom.
VELHOTA: Eu não me calo… A mim ninguém me cala.
OUTRO VELHOTE (do fundo do autocarro): Ainda nom se calou a m***a da beilha?
VELHOTA (entre dentes): hhhhmmm, bai pó c*****o.


19.1.04

O Povo É Sereno #

Hoje, dois bons artigos de opinião sobre o projecto de "descentralização" do Governo que nos desgoverna. Um, de Elisa Ferreira, no Público. Outro, de João Teixeira Lopes, n'O Comércio do Porto (terão de ler em papel). Ambos lúcidos, informados, informativos e certeiros nas críticas. Para ler e meditar, porque o país é nosso e não o queremos pior do que já está.

Post It #50

Indesculpável


O que se segue é indesculpável. Não é só mais um miserável roubo, é também um acto de perfeito vandalismo contra uma obra de arte. Mas que querem, há caracteres que não têm emenda.


Ilha dos Amores #

A edição do programa para os próximos sete meses (Janeiro a Julho) do Teatro Nacional S. João é, de novo, um primor gráfico e um festim para os sentidos, graças ao notável trabalho do designer João Faria (parabéns, João!). O lema não é grande coisa ("1 casa, 2 teatros") mas o resto compensa largamente: um livrinho com algumas dezenas de páginas, muitas fotografias, poesia de Alfred Jarry (Ubu Cornudo) traduzida por Luísa Costa Gomes na contracapa (dura, crua, vai chocar muito burguês) e um pormenor de Adão e Eva (1507) de A. Durer na capa, com os seios de Eva a sobressair numa embalagem negra. Já em exibição.

O Silêncio É de Ouro #30

Escrítica Pop é o título de um livro antigo do Miguel Esteves Cardoso agora reeditado pela Assírio & Alvim (não tem site, é pena) e distribuído no final do ano que se finou pelo Blitz por ocasião da sua milésima edição (parabéns, é obra!). E é também, sem qualquer hipótese de dúvida, a melhor colecção de críticas de música Pop que em Portugal se deu à estampa (a concorrência é fraquíssima, é verdade, mas arrisco dizer que mesmo nuns mais prolíficos EUA ou Grã-Bretanha o opúsculo faria muito boa figura). O escriba, já se sabe, escreve como respira e goza de (com) um apurado sentido de humor, mesmo nos idos de 1980, década em que muitos dos textos compilados no dito livro foram escritos. Apetecia-me citar uma ou outra frase para mostrar-vos de que cepa é ele feito (o livro), como fazem os profissionais da recensão literária, mas não tenho memória para tanto e não quero estragá-lo (ao livro) andando com ele (o livro) na rua. Em alternativa, podeis sempre correr para as livrarias (aquelas lojas que vendem livros, que são uns maços de papel capeados) e começai por folhear a introdução do livro; se resistirdes a comprá-lo, pedi-o emprestado a um amigo, por caridade; e anunciai depois a boa nova aos infiéis, que gratos ficarão. É verdade, o monárquico conservador mas desempoeirado MEC voltou a assinar escríticas pop no jornal milenário!

SHARON OLDS: DIA 2.

Segundo poema de Sharon Olds, numa tradução ainda inédita de Margarida Vale de Gato.



JOVENS MÃES I

Esse olhar atento
no rosto da jovem mãe
como um animal,

debruçando-se sobre o carrinho, levantando os olhos,
de orelhas esticadas, os olhos exibindo
o branco a toda a volta.

Assustada como um recém-nascido, olha para todos os lados.
Foi ela que empurrou, deitada sozinha sobre um leito,
suando, isolada pela dor,
apartando-se devagar. Foi ela que espremeu
o filho dentro de si. Ei-lo que jaz, separado,
abrindo e fechando a boca, as mãos
mirradas da longa imersão em água salina.

Agora a mãe é a outra,
os seios sacos duros de pedra de sal,
o leite azulado que exsuda, a sua alma
ali no carrinho, a criança que tinha dentro
e veio ao de cima, como nata,
e foi sacudida.

Agora está alerta contra a violação,
com um ouvido agudo tal veado, as pupilas
velozes, o corpo dobrado numa curva,
uma corda húmida que secou e enrijou,
uma tortura em certas culturas.
Sonha com a morte pelo fogo, morte
numa queda, morte com as tripas de fora,
morte por afogamento, morte com a cabeça
decepada. Alguém começa a gritar
e acorda-a, o bebé esfomeado
acorda e salva-a.


De "Satanás Diz", livro a editar em breve pela Antígona, com tradução de Margarida Vale de Gato.

Post It #49



Ainda a propósito de Sharon Olds, autora norte-americana de quem estamos a publicar alguns poemas traduzidos por Margarida Vale de Gato, os quais irão fazer parte do livro "Satanás Diz", a editar em breve pela Antígona, podem encontrar-se na rede diversas referências extremamente interessantes. Para começar, há uma breve biografia aqui, uma ampla mostra de poemas neste sítio uma extraordinária e reveladora entrevista na Salon, e aqui pode escutar-se a sua voz.

Post Scriptum #123

Herberto Hélder

Eis como ouço "O Amor em Visita".

18.1.04

Señor Tallon #28

Comem mel na casa de granito

Agora, na "Janela Indiscreta", comem mel na casa de granito.

Cimbalino Curto #55

Ontem, sábado, 17 de Janeiro de 2004, podia consultar-se a secção "Local Porto" do "Público" na Internet.

E tínhamos até acesso a um artigo do Nuno Corvacho sobre "O Que o Porto Tem de Melhor", o qual terminava assim, depois de abordar a política de preservação do património, que reconhecia necessária:

"A Torre dos Clérigos é um "ex-libris" e nunca há-de desabar (até já substituiu os Paços do Concelho como distintivo da câmara!), o vinho do Porto há-de ser sempre o "precioso néctar" e uma "marca de referência" e até o FC Porto só por distracção se lembrará de perder ou empatar um jogo. O problema é que, por este andar, ainda acordamos um dia destes com os museus impecáveis, as igrejas um brinco, as estátuas equestres cheias de glória e as placas toponímicas a reluzir, mas sem uma única sala de cinema, a música ao vivo reduzida aos bailaricos da Rádio Festival, exposições só de arte sacra ou naturezas-mortas e alguém na sombra "a puxar da calculadora sempre que ouve falar de cultura". Será que, ao chegar esse dia, o Porto gostará de se ver ao espelho? "

Post Scriptum #122

Encontrei esta prosa bárbara no meu computador e, com o dedo mais rápido do que o pensamento, lancei-a no blogue. Pronto, agora já está, paciência, aqui fica, bárbara e inacabada como saiu do disco duro:

"O centralismo real conduzira em França a uma exaltação da coisa política que deu origem à revolução francesa e aos seus ecos por todo o século XIX. Praticamente todas as gerações francesas desse século assistiram a um episódio revolucionário ou contra-revolucionário de características exacerbadas. Isto implicou, como é evidente, bastantes tempestades no domínio da vida espiritual e afectou duradouramente todos os pensadores, entre eles os escritores.

Paralelamente, a revolução industrial conduzira, como corolário, ao surgimento dos grandes jornais de massas modernos e a França foi pioneira neste capítulo. O "Petit Journal" foi o primeiro periódico em todo o mundo a ultrapassar o milhão de exemplares diários, em 1886.

A imprensa de massas trouxe uma revolução no jornalismo. Antes dela, a imprensa era veículo de ideias, um instrumento ao serviço dos pensadores (se descontarmos a literatura de cordel que levava às ruas e às feiras, sem carácter regular, os crimes horríveis e os sucessos extraordinários). Depois dela, a "última notícia", o facto bruto passou a dominar. E também passou a dominar a vontade do capitalista, que organizava o empreendimento.

A produção de um jornal diário exigia grandes investimentos e um enorme aparato de produção e distribuição. Não era possível sem modernas (e caras) máquinas de impressão, sem meios de comunicação como a diligência e o caminho de ferro, sem um batalhão de tipógrafos e revisores de provas, repórteres e correspondentes, sem uma miríade de pontos de distribuição e de reclame (mais tarde chamado publicidade). E implicava a pressa da escrita e a facilidade da leitura. O jornal ia buscar o leitor quase casa a casa, criava o público, mas, na relação superficial que com ele estabelecia (o jornal era para deitar fora, salvo neuropatias), estava dependente da sensação imediata, do pensamento fácil. Por outro lado, impunha-se neutralizar um pouco os debates de ideias: não se ia perder num arrebatamento o custoso capital investido; e, sobre isto, outro valor mais alto se alevantava: não devia o jornal violar os princípios sagrados do seu proprietário e da propriedade -- debates, sim, mas ligeiros, e dentro dos limites da legalidade jornalística. Tudo isto junto significava prosa ligeira, pensamento caseiro, amansamento dos voos românticos, truculência só contra o anormal e o insólito.

Num país centralizado e politizado como a França, o aparecimento da imprensa de massas teve repercussões fulminantes na vida intelectual.

Os grandes patrões da imprensa francesa eram autênticos aventureiros, autodidactas, sem qualquer pedigree social ou cultural, gente brutal: Emile de Girardin, fundador de "La Presse" que não precisara de pai para fazer um nome e só deixava de mudar de ideias para mudar de camisa, matara um adversário em duelo; Hippolyte de Villemessant (de verdadeiro nome Hippolyte Cartier, também filho de pai incógnito), dono do "Figaro", quando se cansava de um escritor seu colaborador, convidava-o para almoço e dava-lhe uma bela bengala "para ir passear", Moïse Polydore Millaud, fundador do "Petit Journal", tinha de letras o bastante para assinar o nome e contratou um autor de contos fantásticos para escrever "qualquer coisa, seja lá o que for", na primeira página.

Contudo, estes homens tinham os escritores de Paris a seus pés. Chateaubriand escreveu as suas "Mémoires d'Outre-Tombe" para uma sociedade anónima impulsionada por Girardin, que publicou a obra no seu jornal após a morte do escritor. Balzac, Eugène Sue, George Sand, etc., etc., todos os romancistas escreviam folhetins para os jornais. Alexandre Dumas, não contente de escrever ele próprio 12 horas por dia, contratou um grupo de ajudantes para o ajudar.

Numa palavra, os grandes e pequenos prosadores transformaram-se em meios ou meros criados dos patrões da Imprensa. Claro que isto que se passou em França também se passou noutros países; mas não com a mesma brutalidade e clareza (a famosa clareza do pensamento francês). Claro que a Imprensa, mesmo esta Imprensa semi-despolitizada, desempenhou um certo papel na luta contra a censura, inclusivamente por ter nascido durante o segundo Império de Napoleão III; mas, por outro lado, nesse jogo do gato e do rato, acabou por ajudar os escritores a compreenderem onde estavam os seus interesses, a ajeitarem os seus ardores intelectuais aos imperativos categóricos da circunstância.

Assim foi que a III República veio encontrar a República das Letras definitivamente ganha para a causa da vida prática. Toda? Não. Havia uma pequena aldeia que lhe resistia, porque votada ao abandono por essa mesma vida prática: a aldeia dos poetas."


Aqui se interrompe abruptamente o manuscrito. Entretanto, quem quiser ver outra versão, de outro autor, mais comprida e de outro ponto de vista, pode ir aqui, ao blog do romance.

17.1.04

Señor Tallon #27

Febre de Sábado à Noite

38,2º, com tendência para descer. Isto, claro, a fazer fé nas conhecidas virtudes terapêuticas da aspirina.

16.1.04

Última Hora #1

Uma vez sem exemplo, não podemos resistir a dar uma notícia actual, nós que andamos sempre atrasados, dias, anos e por vezes séculos.



Em Nova Iorque há muita artrite reumatóide.

A Gerência Agradece #18

Eu sou rapariga de Polonia, agora moro meio ano no Portugal perto de Lisboa. Neste tempo estou procurar alguns informacoes sobre Polonia em portugues e encontrei a tua pagina. Muito obrigada para estes informacoes sobre literatura polaca. Estou muito contente que alguns portugues conhece um pouco szymborska, herbert e outras pessoas.
Cumprimentos,
desejo te muito sorte e felicidade.

Aleksandra Chomicz

Cimbalino Curto #54

Respigado do JN:

Saguenail é apaixonado pelo Porto. "Mas não pelos sonhos da cidade", ressalva. "Metade do Porto é um sonho americano importado. A outra metade é ruína". Daí que o cineasta esteja a finalizar um filme chamado "Mourir beaucoup".

"É o Porto entre Nova Iorque e Cabul", explica. "Não é um documentário nem uma ficção. Não sei ainda o que é". Além disto, o cineasta e Regina Guimarães estão a apresentar na Gulbenkian, em Lisboa, um ensaio cinematográfico, em seis filmes, sobre o cinema nacional.


Ah, grande Saguenail. Quem fala assim não é gago. Tu é que me compreendes.

Claro que a ideia de isto foi roubado à Janela Indiscreta.

SHARON OLDS: DIA 1.

Como já vem sendo hábito, iniciamos hoje mais um pequeno ciclo de poemas inéditos, desta vez dedicado à autora norte-americana Sharon Olds (n. 1942). Este ciclo marca também o regresso de um dos grandes colaboradores deste blogue: Margarida Vale de Gato. Os poemas – três – pertencem ao livro Satan Says (1980) que conhecerá uma versão em português, a editar em breve pela Antígona, e com tradução, claro está, de Margarida Vale de Gato.



Nascida em 1942, em São Francisco. Publicou oito livros de poesia, entre os quais se destacam "Satan Says" (1980), "The Dead and the Living" (1983), "The Father" (1992) e "Blood, Tin, Straw" (1999).


TEME-SE QUE SE TENHA AFOGADO

De repente ninguém sabe onde estás,
o teu fato negro como algas, o teu rosto
barbudo escorregadio como foca.

Alguém olha pelas crianças. Avanço até
à fímbria da água, agarrando-me à toalha
como um véu de viúva sobre mim.

Nenhum dos nadadores condiz.
Muito baixos, corpulentos, de barba feita,
erguem-se da ressaca, a água
escorrendo-lhes pelos ombros.

As rochas despontam junto à costa como cabeças.
A barrilha espalha-se como um fato negro esfarrapado
e não te consigo encontrar.

O meu estômago começa a contrair-se como que
para vomitar água salgada.

quando subindo a areia ao meu encontro vem
um homem que se parece muito contigo,
a sua barba eriçada como as ervas da praia, o seu fato
negro como uma concha húmida contra o seu corpo.

Aproximando-se, afinal ele
és tu - ou quase.
Quando se perde alguém nunca é
exactamente a mesma pessoa que regressa.

De "Satanás Diz", livro a editar em breve pela Antígona, com tradução de Margarida Vale de Gato.

Vai no Batalha #10

História exemplar




Sabattai Sevi viveu no séc. XVII. Nasceu em 1626 em Esmirna. Era um jovem judeu estudioso da cabala, mas por volta dos vinte anos começou a mostrar indícios de psicose maníaco-depressiva. Nos períodos de depressão escondia-se de todos e sentia-se abandonado por deus. Mas logo sobrevinham períodos de iluminação, durante os quais saía em público praticando blasfémias como invocar o nome do senhor e comer carne não kosher, por exemplo.

Em 1650 uma voz revelou-lhe que ele era o ungido de Israel, o Messias tão esperado. E o cabalista Nathan de Gaza, tendo-o interrogado, confirmou.

Sabattai Sevi foi então pelo mundo pregando a boa nova, empenhado na restauração de deus, que a petrificação da igreja judaica tornara impossível. Por onde andava incendiava as gentes que o seguiam apesar de violar constantemente as leis, abolindo os dias festivos, proclamando a igualdade das mulheres e dos homens, comendo carne não kosher, e cantando o novo lema, "aquele que permite o que é proibido".

Judeus de todo o mundo conhecido e desconhecido, da Ucrânia a Marrocos, de Amesterdão a França, vendiam tudo o que tinham para o seguir, convencidos de que os levaria à Terra Santa.

Os seus seguidores diziam que fazia milagres, que soltava uma luz da cabeça quando falava e que com o seu magnetismo quebrava a vontade dos assaltantes de estrada. Em 1665, decretou que o ano seguinte inaugurava o novo milénio e que chegara a altura de libertar o mundo dos gentios.

Com esse intuito, dirigiu-se em marcha triunfal a Istambul. Mas o sultão mandou-o prender e deu-lhe a escolher: a morte ou a conversão ao Islão. E Sabattai Sevi escolheu a conversão. Nathan de Gaza continuou a defendê-lo, dizendo que aquela era mais uma provação do Messias, que, descendo ao fundo da degradação, se preparava pois para ascender ao cimo do sublime. No fim de contas, a mesma teoria que sempre tinha advogado.

Post Scriptum #121

CENA DA TENTAÇÃO

Diálogo entre o arcebispo Tomás Becket e o Primeiro Tentador, incluído na Primeira Jornada, da peça "Assassínio na Catedral", de T. S. Eliot.


TOMÁS:
Muito não sabemos do futuro.
Só que de geração a geração
Coisas iguais sempre se repetem.
Pouco a experiência dos homens ganha com a dos outros.
Mas à vida do homem nunca o mesmo tempo volta.
Quebrai-lhe o fio;
Caem dos olhos escamas;
Só o louco obstinado pensar pode
Ser ele quem move a roda que o transporta.

(…)

PRIMEIRO TENTADOR:
Não nesta andadura!
Tão depressa… doutros incitareis o ardor.
Vossa senhoria, orgulho tem em demasia!
Fera bem segura mais não rugiria…
Tais não são as vias do Rei nosso senhor!
Não costumáveis ser duro assim para o pecador
Quando éreis amigos… Aceitai!
Quem não é difícil come do melhor.
Segui conselho amigo: deixa o bem em paz
Ou vosso pato assado só ossos vos traz…

TOMÁS:
Vindes vinte anos atrasado.

PRIMEIRO TENTADOR:
Deixo-vos pois o vosso fado.
Vos fica o prazer de bem mais altos vícios
Que pagareis com altos sacrifícios.
Adeus, senhor: não faço cerimónia;
Vou como vim esquecida a acrimónia;
Espero que vossa presente gravidade
Possa escusar-me a vã leviandade.
Se em vossas preces, senhor, minha pessoa for lembrada,
Eu de vós me lembrarei… à hora dos beijos… sob a escada…

Tradução de José Blanc de Portugal.
Edições Cotovia, 1989.

15.1.04

O Silêncio é de Ouro #29



Foi roubado aqui e martirizado no Granito.

O Silêncio é de Ouro#28

Post Scriptum #120

FALA DA PRINCESA BRANCA
Rainer Maria Rilke (1875-1926)




Olha: a morte está na vida; ambas seguem
tão entrançadas, como num tapete
os fios seguem; e daqui se forma
para nós, que passamos, uma imagem.
Quando se morre, nem só isto é morte.
Morte, é viver sem saber que se vive;
morte, é ainda não saber morrer.
Muitas coisas são morte; sem o enterro.
O morrer e o nascer andam connosco
e isto sentimos como a natureza,
que dura simplesmente, sem pesar
e sem partido. A dor ou a alegria
são cores para os estranhos que nos vêem.
Por isso nos importa mais que tudo
achar o espectador que ao contemplar-nos
bem fundo nos abrange em seu olhar
e apenas diz: vejo isto ou vejo aquilo,
onde outros adivinham só ou mentem.

Fragmento de "Die weisse Fürstin"

Tradução de A. Herculano de Carvalho.
Oiro de Vário Tempo e Lugar, 2ª Ed., Asa, 2001.
Tradução de

Serve este post para anunciar formalmente a minha candidatura à direcção da Sociedade Portuense dos Amigos de Paulinho Assunção, Rubem Focs, Kafka, Vicente Gunz e Lucas Baldus.
Em breve, visitarei todos os seus 25.766 sócios activos para apresentar pessoalmente o meu ambicioso programa de candidatura.
Aproveito para cumprimentar os meus adversários mais directos e desejar-lhes uma boa campanha.

O Silêncio é de Ouro #27

Acaba de ser editada uma nova biografia dedicada a Glenn Gould. Mais pormenores aqui e aqui.

14.1.04

ÉPOCA DE SALDOS: TERCEIRO DIA.


Fotografia de Ricardo Carvalho.

Post It #48



Grande poesia hebraica de todos os tempos na Rua da Judiaria.

Press Release #6

Encontros imediatos.

Quem, por qualquer razão, perdeu o seu "Eu" e pretende reencontrá-lo, tem agora uma oportunidade única para o fazer. O mestre Sant Thakar Singh vai estar na Junta de Freguesia de Massarelos, no Porto, no dia 24 de Janeiro, para uma "Conferência Pública", durante a qual os participantes terão o privilégio de testemunhar um "encontro consigo mesmos". Uma espécie de Ponto de Encontro entre o "eu" e o "eu", com a vantagem de ainda receber umas dicas sobre os "benefícios da ligação interior com a Música Celestial e a Luz Divina". E tudo isto por nada: a entrada é gratuita. Uma pechincha. Eu e o eu já decidimos: nós vamos.

Post It #47

A arte de furtar

Já pensei começar a fazer assim: ia aqui todos os dias e roubava posts para pôr neste blogue. Não dava trabalho nenhum e tinha qualidade garantida. Só um exemplo dos mais simples, como amostra da técnica a utilizar:

João César Monteiro
no Cinema Nun' Álvares, no Porto, de 15 a 21 de Janeiro:

quinta-feira, 15 Jan.
À FLOR DO MAR | às: 15h00 / 21h30
O ULTIMO MERGULHO | às: 18h15

sexta-feira, 16 Jan.
SILVESTRE | às: 15h00 / 21h30 / 00h00
VEREDAS | às: 18H15

sábado, 17 Jan.
RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA | às: 15h00 / 18h15 / 21h30 / 00h00

domingo, 18 Jan.
A COMÉDIA DE DEUS | às: 15h00 / 18h15 / 21h30

segunda-feira, 19 Jan.
AS BODAS DE DEUS | às: 15h00 / 18h15 / 21h30

terça-feira, 20 Jan.
BRANCA DE NEVE | às: 15h00 / 21h30
LE BASSIN DE J.W. | às: 18h15

quarta-feira, 21 Jan.
VAI E VEM | às: 15h00 / 18h15 / 21h30

Post Scriptum #119

Mais Giórgos Markópoulos (1951-)



Aí vai outro poema do poeta grego Giórgos Markópoulos (depois do exemplo dado no Post Scriptum #116), onde é mais transparente a utilização da linguagem quotidiana com efeito expressivo. Tenho consciência de que esta tradução ainda está imperfeita, mas não queria deixar de a pôr aqui, mesmo assim como está. Talvez mais tarde consiga algo de melhor e se possa ver então, quer a força do original quer o trabalho do tradutor. Observações: Kaisarianí é um bairro popular de Atenas; o rembétiko é um tipo de canção popular que se pode comparar ao fado, quer pelos temas das letras (embora a canção grega aborde temas mais ousados como a droga), quer pelo seu contributo para a criação de uma ideologia urbana popular.

A CRÉDITO

Goulas, o Korátos, apelidado Thorís,
de Sálona de Stereá
no dia da Páscoa mandou pintar o retrato
a um pintor­‑funileiro ambulante
por um pouco de azeite arroz e um bocado de sabão.

Goulas, o Korátos, apelidado Thorís,
pintado, foi vendido pela velha
numa feira da ladra
por uma escova de nylon por uma velha balança
e um espelho do Congo.

A tua tristeza, eh pá, tesouro,
É como a Kaisarianí nas noites de Outono.

Pára lá de me chagar com o rembétiko
por detrás das tascas, nas ruas
Os marujos naufragaram, os marujos nos petroleiros
pegando-se pelo quinhão, perderam-se para sempre.

A última vez que me escreveste, lembra­‑te!
O teu recado soube-o num bar
“tens carta”, disse o fogueiro do navio,
choviam grupos de clientes que praguejavam e gritavam
e havia um rádio que chorava ao canto
“O miúdo pirou­‑se na outra noite”, escrevias,
às tantas foi comprar fósforos à esquina”
.


Noites enormes duplamente esfaqueadas com a amargura do infinito,
noites de barulhos surdos tirânicas e infindas
mil momentos e eternidade mil momentos e morte,
e era uma época difícil, ninguém a ouvia,
só alguma “rapaziada” despejava as noites nas tascas
a juntar­‑se ao mal e à guerra civil, diz­‑se,
mas quem sabia dessas coisas
via a solidão a torturar e a culpa a espreitar,
até que certa noite te voltámos a ver num palácio mudo sozinha
“ei... como vais?” gritámos, deus meu.
O nosso corpo e o teu corpo
molde de gesso estragado pela chuva e pelos anos
como quartel da guarda em ruinas quartel da guarda
“hão­‑de vir uma noite aqueles que esquecemos, dissemos­‑te,
de rosto inexistente
o crânio cheio de lagartos e nu
descerão passo a passo sozinhos
descobrirão uma alegria pela vida
por sobre as casas e os túmulos
descobrirão uma alegria pela vida
um amargor de amor por nós e pelos mortos”
,
e depois tornaste a desaparecer.

– Abri um pouco o rádio, a luz e as janelas
porque, na verdade, que vergonha morrermos nos nossos lençóis brancos
enquanto todos os nossos amigos foram assassinados nos passeios.


Os assaltantes do inferno

O Silêncio é de Ouro #26

Cinco linhas de Jazz.

Há já algum tempo que o Raul Silva, nosso estimado colaborador para a área do Jazz, não aparecia cá em casa. Cheguei a temer que o Raul pudesse ter tropeçado em algum disco e partido uma corda. Afinal, foram apenas "umas curtas férias." Bem-vindo de novo, Raul.

Jazzportugal é o melhor sítio português dedicado ao Jazz. Críticas de discos, agenda de espectáculos, sugestões, livros, fotografias, artigos de autores estrangeiros, temas para escuta, etc., etc. E tudo isto envolvido num excelente grafismo, agradável e equilibrado. De consulta obrigatória.

Raul Silva

13.1.04

ÉPOCA DE SALDOS: SEGUNDO DIA.


Fotografia de Ricardo Carvalho.

Cimbalino Curto #53

Lê-se n'O Primeiro de Janeiro de hoje e não se acredita. Então não é que os taxistas do Porto, em número nada despiciendo de sessenta e dois, começaram já a ter aulas de inglês e de relações interpessoais, a pensar na turistada do Euro 2004! Trata-se, meus amigos, de um verdadeiro atentado cultural à classe, à cidade e ao país, se a moda pega. Então agora querem polir os modos bruscos mas eficazes dos nossos condutores profissionais, rebuscando o seu típico praguejar com vocábulos "cámones"? O que vai ser daquela reconfortante sensação, pacientemente cultivada ao longo de décadas, de ao entrarmos num táxi encontrarmos ao volante não um mero chauffeur mas sim um psiquiatra, um sociólogo ou um comentador político, disposto a brindar-nos com as melhores análises sobre o estado da nação em particular e do mundo em geral que a leitura cruzada do Jornal de Notícias e d'O Jogo pode proporcionar? Rui Rio, numa original estimativa do custo do curso de reciclagem de Taxismo, disse "não ser nada de transcendente". Eu discordo. O seu custo financeiro talvez não seja, mas o património cultural do Porto sai gravemente lesado. Se acham que exagero, tentem habituar-se a isto: "Uére tu? Dragon Steidium? Bai de Vi Ci I ór Circunvalaishón?"*

* Tradução do inglês taxista: "Para onde? Estádio do Dragão? Pela VCI ou pela Circunvalação?" (com a devida vénia ao Manuel Resende e ao Rui Manuel Amaral)

Post Scriptum #118

Secção "Isto é que eu sou uma besta!"

Realizou-se ontem na "Casa Fernando Pessoa" uma sessão de apresentação do n° 7 da revista semestral de poesia e tradução "diVersos", a que me ligam evidentes laços sentimentais, quanto mais não seja por ter sido um dos coordenadores e continuar a ser um dos colaboradores activos permanentes. Não fiz qualquer menção a esse acontecimento aqui no blogue porque sempre me ensinaram a não me aproveitar das situações e etc.

Só que as notícias que recebi deixam-me furioso e a dizer comigo próprio "isto é que tu és uma besta!"

Passo a explicar. A sessão segundo um correspondente na capital

"foi muita fixe, meus. A sala estava praticamente cheia, com gente muito interessada, e algumas figuras gradas da cena cultural, não é verdade?"

Notava-se entre os participantes a presença de Judith Herzberg, poetisa holandesa que figura nesse número, e Jorge Silva Melo. Jorge Silva Melo? perguntará o visitante. Pois: de vez em quando, ele e os "Artistas Unidos" dão uma mãozinha para ajudar a divulgar. Obrigado.

Só que acontece o seguinte, e espantai-vos, bloguistas (não vos desejo quererem ser divulgadores ou operadores culturais - rais parta estes incisos), acontece que distribuidor não há. Soube agora pelo telefone, junto de um dos "editores", que as reivindicações do distribuidor apalavrado implicavam certas manobras que me escuso a divulgar, mas que, vos garanto, são esdrúxulas. Está a ser organizado um mecanismo ad hoc para tentar pôr nas livrarias as revistinhas, mas se a gente nem ao mercado consegue chegar, como funciona o mercado? Não sei se estão a ver aonde quero chegar.

Note-se que, segundo o dr. (ou será doutor, ou professor doutor, ou professor?) EPC a "diVersos" é uma excelente revista (ou melhor tem excelentes traduções - obrigado, doutor, ou professor doutor, ou professor), tal como a "Inimigo Rumor" e a "Relâmpago", afirmação que me espanta: alguma vez terá ele lido o objecto de estudo? Onde o encontrou, se não costuma frequentar lugares de má fama como a "Abril em Maio"? Mistérios. (Ora, que burro sou: claro, segundo me informaram depois, recebeu um exemplar como crítico).

Bem, retomando o fio do horizonte ao discurso. Dentro de alguns dias, se o tempo estiver de feição, talvez a revista chegue às livrarias. Depois disso, talvez os livreiros queiram expô-la, estão a perceber? Depois disso, pode acontecer que se junte o acaso com o acaso e algum curioso pergunte por ela no preciso instante em que está exposta ou presente na precisa livraria em que ele se encontre. Passados uns dias, a revistinha passa ao passado, e pronto.

Resumindo e concluindo: se quiserem mesmo a diVersos, dou-lhes um conselho: escrevam ao por assim dizer editor:

Edições Sempre-em-Pé
Rua Camilo Castelo Branco 70/52
4425-037 Águas Santas
por fax: (+351) 22 975 9592
sempre-em-pe@oninet.pt

Percebem porque estou furioso?

Ainda bem que percebem.

A tempo. Autores e tradutores que constam deste número: Antonio Porchia, Edgar Allan Poe, Gérard Calandre, Jacques Borel, Judith Herzberg, Jules Morot, Marcel Delpach, Mikhális Katsarós, Nietzsche, Odysseas Elytis, Aurélio Porto, Avelino de Sousa, Cristino Cortes, Else Ruiz Borges, Frederico Lemos Cabral, Isabel Santos, Jacinto Silva Santos, Joana Coder Barbosa, João Garção, Jorge Vilhena Mesquita, Manuel Teixeira, Maria Nazaré Sanches, Nicolau Saião, Paulo da Costa, Sofia Sampaio, Vítor Oliveira Jorge

e este vosso criado.

Escusam de aplaudir.

Post Scriptum #117

Charles Bukowski
(E.U.A., 1920-1994)




UMA NOVA GUERRA

e pensar que, depois de desaparecer,
haverá mais dias para os outros, outros dias,
outras noites.
cães a passear, árvores oscilando
ao vento.

não deixarei muita coisa.
algo que ler, talvez.

um rebelde na estrada
devastada.

Paris às escuras.


(de "A New War", Black Sparrow Press, 1997)

A tradução é minha.
A Tatiana Antunes ajudou-me num verso. E o Manuel Resende em dois.



A NEW WAR

and to think, after I’m gone,
there will be more days for others, other days,
other nights.
dogs walking, trees shaking in
the wind.

I won´t be leaving much.
something to read, maybe.

a wild onion in the gutted
road.

Paris in the dark.


Charles Bukowski, "A New War", Black Sparrow Press, 1997.

O Silêncio é de Ouro #25



Os Xutos & Pontapés foram a maior banda rock portuguesa de sempre. O seu primeiro concerto, ouço hoje nos noticiários, realizou-se há exactamente 25 anos, no dia 13 de Janeiro de 1979, na sala dos Alunos de Apolo. Temas como "Sémen" (single, 1981), Avé Maria" e "Mãe" (LP, "Xutos & Pontapés 78-82"), "Remar, Remar" (single, 1984), "Barcos Gregos" e o "Homem do Leme" (single, 1986) e todos os de "Circo de Feras" (LP, 1987), revolucionaram completamente a música moderna em Portugal. Foram um dos melhores produtos que a herança punk nos ofereceu. E a sua importância ultrapassa as nossas fronteiras. A banda durou cerca de 10 anos, tendo acabado logo após a digressão nacional de apresentação do "Circo de Feras", em 1987.

12.1.04

ÉPOCA DE SALDOS: PRIMEIRO DIA.


Fotografia de Ricardo Carvalho.

Cimbalino Curto #52

Quando entrámos, vindos da Rua da Nau Vitória, duas sonolentas cabras, que estavam debruçadas numa varanda do 2º andar, fitaram-nos com um ar desconfiado. Do outro lado da rua, um miúdo passeava orgulhosamente o seu imenso porco rosado, preso por uma trela de fios eléctricos. Caía uma insistente chuva miudinha parecida com nevoeiro. A rua era um mar de pequenos pedaços de alcatrão, flutuando sobre a lama. E nós parecíamos dois gatos apavorados, voando desajeitadamente de um pedaço para o outro, com os nossos guarda-chuvas azuis e sapatos de boas marcas.

Mas é impossível evitar a lama. A lama está por toda a parte. A lama salta em golfadas pelas ruas, entra nas casas, fecha-se nos quartos, deita-se com as pessoas. As janelas não têm vidros, as portas são indecisos bocados de madeira e plástico, as paredes são quantidades intermináveis de tijolos amontoados sem ordem, com os seus arames e fios de terra irrompendo do meio do cimento, e lançando-se para o ar como se a sua única vontade fosse sair rapidamente dali.

Um estranho silêncio abateu-se sobre os carros parados. Muitos estão queimados, esventrados, abandonados, ao longo das bermas e no meio das ruas. Dizem que é para impedir o avanço rápido dos carros da polícia durante as rusgas. Sob a chuva, homens e mulheres revolvem o lixo, o lixo, o lixo. À procura, à procura, à procura. Como os ratos.

As pessoas vivem assim. Como se estivessem mortas, sepultadas em buracos escuros de 70 m2, dois ou três andares acima do solo. E nada do que se possa dizer sobre isto corresponde inteiramente à verdade. O bairro camarário de São João de Deus, no Porto, para todos os efeitos, não existe.

Post Scriptum #116

Mais um poeta grego




Giórgos Markópoulos (1951-) Este poeta fala a língua do povo, a língua das cidades, isto é, utiliza o corriqueiro quotidiano, entenda-se, o linguajar do dia a dia, como arma de criação. Diga-se que estou a ter algumas dificuldades em traduzi-lo. Imaginem-se a traduzir o Assis Pacheco para turcomeno! Este não é bem Assis Pacheco (falta-lhe um pouco mais de licença com a sintaxe), mas quase. Mas olhem lá que o poema que se segue é coisa que se admire. De facto, vai tocar uma corda sensível da vivência grega, vai brincar com a guerra virtual permanente entre a Grécia e a Turquia. Na Grécia, não se brinca com estas coisas. Mas Markópoulos brinca. Tem a citação oficial como mote, e depois dá-lhe as suas voltas. Bravo, Gíórgos!

Aí vai


“Nada a recear. Em resultado de vivos protestos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, os turcos voltaram a confinar­‑se às suas fronteiras.”
dos jornais

OS TURCOS

Mas porquê, porque dizem que os turcos
se confinaram às suas fronteiras?
Os turcos passeiam­‑se à vontade pelas ruas,
compram tesouras de poda, serras,
black & deckers para as oliveiras. Comem bacalhau.
Invadiram os subúrbios chiques e fizeram deles seus feudos.
Preparam armadilhas para os pássaros, fecham-se nas caves.
– Que diabo fazem lá dentro? – Põem minas.
De tarde ouvem­‑se esporádicas as suas explosões
no perturbado sono dos poetas.

Os pirotécnicos

Señor Tallon #26

Mao, Maria!

O director do "Público", feito eco ou clone, tomou de assalto o fio do horizonte;) Esta crónica vai passar a chamar-se certamente "Linha de Aço" (Stal-line) ou "A Linha Justa é uma Boa Coisa e Não uma Má Coisa".

Este post não interessa nem ao Menino Jesus. E só vale enquanto eles não derem pelo erro e corrigirem, perdão, até eles darem pelo erro e o corrigirem.

11.1.04

Post Scriptum #115


Ao longo dos últimos dias recebemos longas e incontáveis pressões por parte dos nossos patrocinadores, exigindo “medidas rápidas e radicais que façam aumentar de forma clara e convincente as audiências do Quartzo, Feldspato & Mica”. E em resposta aos nossos insistentes pedidos de moderação, fomos brindados com mensagens como esta: “Na guerra das audiências, caros amigos, não há lugar para acordos de paz”.
De facto, a situação da sociedade está longe de ser inteiramente risonha. A contratação milionária do Manuel Resende traduziu-se num encaixe de 123.897 novos leitores. O que ficou ligeiramente abaixo do inicialmente esperado: as nossas previsões apontavam para o número exacto de 123.901 novos leitores. De qualquer maneira, e apesar da verba faraónica envolvida na sua contratação, a entrada de Resende deu um novo e importante impulso à sociedade. Os patrocinadores, porém, não fazem a mesma leitura dos factos. Exigem mais.
Por isso, não nos resta outra alternativa senão aquela que já todos sabem. Sim, nada é mais eficaz em tempos de crise do que a pornografia. A pornografia rende visitas, faz crescer o sitemeter e os patrocinadores gostam. Em todo o caso, e porque este é um projecto sério e “de qualidade”, os nossos conteúdos de teor pornográfico estão também muitos pontos acima da vulgar pornografia de esquina e blog barato. E a melhor prova disso é o poema que agora publicamos. Adquirido directamente ao Sr. Verlaine, ilustre escritor parisiense, que, mesmo morto, continua a oferecer-nos coisas como esta.
Finalmente, aproveitamos para agradecer a preferência de todos os nossos leitores. Mesmo daqueles que nos procuram apenas pelo “vil vício” da pornografia.



POEMA 12

Éramos, no café, entre a gente imbecil,
Apenas nós os dois adeptos do tal vil
Vício de ser “pró-macho”; e com simulação
Ríamo-nos do parvo, ar de bonacheirão,
De seus amores normais, com a moral à coca.
Punhetas mil fazendo, a desbastar a moca,
À bruta, à tripa-forra, e nisso apostados,
Plo fumo do cachimbo apenas meio velados
(Assim como Hero outrora a copular com Zeus),
As nossas piças, quais pencas e Karrogheus
Assoados à mão, aprazível limpeza,
Em jactos de langonha espirravam sob a mesa.
(1891)

Paul Verlaine, Hombres e algumas Mulheres, Assírio & Alvim, 2002.
Tradução de Luíza Neto Jorge.

Post It #46

O Blogue de Esquerda faz-se eco do Eco que, em crónica, mostra como as mulheres são esquecidas e abafadas na filosofia. E o BE cita a propósito, como uma das poucas excepções, o caso de Hipátia, filósofa de Alexandria.

Não resisto a falar também aqui da primeira mulher filósofa conhecida, Hipárquia de Maroneia (c. de 300 AC), casada com Crates, o filósofo cínico. Eis o que conta dela Diógenes Laércio:

Também Hipárquia, irmã de Metrocles, foi cativada pelos discursos [dos Cínicos]. Irmão e irmã nasceram ambos em Maroneia.

Ela apaixonou­‑se pelas palavras e pela vida de Crates, e não queria saber dos pretendentes que a cortejavam, das riquezas que tinham, da linhagem de que procediam nem dos belos ares que mostrassem. Para ela, Crates era tudo. Chegava a ameaçar os pais de que se suicidaria se não lhe fosse dada em casamento. Assim sendo, os pais imploraram a Crates que dissuadisse a donzela, e que tudo fizesse para isso. Por fim, não tendo conseguido convencê-la, ele levantou­‑se, tirou as roupas diante dela e disse: "Eis o teu noivo, eis tudo o que possuo; toma a tua decisão em conformidade, pois não serás minha companheira se não compartilhares do meu modo de vida.

A donzela escolheu, e adoptando o seu modo de vestir, andava com o marido por todo o lado, unia-se a ele em público e acompanhava­-o aos simpósios. Foi assim que compareceu no banquete dado por Lisímaco, onde pôs na ordem Teodoro, a quem chamavam o ateu, por meio do seguinte argumento:

“Nenhum acto que não seja errado feito por Teodoro será errado se feito por Hipárquia. Ora, Teodoro não faz nenhum mal se bater em si próprio. Portanto, também Hipárquia não fará qualquer mal se bater em Teodoro.”

Teodoro ficou sem resposta para este argumento, mas tentou tirar-lhe o manto. Hipárquia não mostrou porém qualquer perturbação como é normal nas mulheres. E quando ele lhe perguntou: "Foi esta que deixou a tela e a lançadeira?", ela respondeu: "Fui eu, Teodoro. Mas achas que escolhi mal, por não ter desperdiçado ao tear o tempo que gastei na educação?"

Estes ditos e muitos outros são contados da mulher filósofa.


Diógenes Laércio. “Vidas dos Filósofos Ilustres”. Livro VI, 96-98.


Crates dizia: “Não tenho por pátria uma só cidade, uma só torre, um só tecto; O Universo todo é a cidade, a casa, a habitação que me foi preparada.”

10.1.04

Post Scriptum #114

O Poeta Que Se Atirou para o Céu

Baptista-Bastos volta hoje no "Público" a falar de Eduardo Guerra Carneiro, num artigo emotivo que começa assim:

"O Eduardo Guerra Carneiro atirou-se do desespero para um local indefinido onde se presume o desespero não existir. Aliás, ele andou sempre à procura de qualquer coisa. Direi que andou sempre à procura da felicidade. Nas mulheres, no álcool, nos jornais, nos países que habitou. Sobretudo na poesia, instância de imolação onde se narrou e se martirizou sem complacência e com luminosa grandeza. Porém, no mais obscuro do seu íntimo há muito se instalara uma ausência de fundamento, e uma incompatibilidade absoluta com o mundo circundante. Sentia vergonha da vida e recolhia-se nos claustros dos silêncios - frágil, assustado, incapaz de defender-se."

Conheci o Eduardo há muito, muito tempo, noutro século e noutra sociedade. Era mais velho do que eu, mas tinha olhos de menino e uma espécie de loucura que espreitava imperceptível por entre a voz delicada e suave. Depois, entre exílios e emigrações nunca mais nos vimos nem ouvimos (a não ser uma vez de raspão pelo telefone).

Surrealismo, poetas beatnick on the road, revolta, aprendi com ele. Acho que isso continua cá, espero.

Não sei porquê, mas adivinho, caiu agora de uma elevada altura, como diziam as agências.