19.7.05

O granito também quebra (fim)

O Quartzo, Feldspato & Mica encerra hoje definitivamente as suas actividades. Para nós, foram vinte e três meses bem passados na companhia dos leitores e colaboradores, a quem agradecemos a atenção dedicada a este blogue. Talvez num futuro próximo nos encontremos noutro lugar da blogosfera. (Fim da emissão.)

António Pedro Pombo
Nuno Corvacho
Rui Manuel Amaral

Anita na DGCI: online e off the record

A Anita é uma pequena editora em part-time, registada como empresária em nome individual sem contabilidade organizada. Quer dizer que a partir do corrente ano fiscal, a Anita tem de enviar todas as suas declarações de contribuinte pela Internet.
Começou pelo IVA do primeiro trimestre de 2005. A Anita tem formação superior, está até a acabar o doutoramento. A Anita demorou três horas a quitar o computador, importou o Java, alterou os settings de segurança, fez resets, escreveu mails à DGCI, recebeu mails da DGCI. A Anita lá conseguiu aceder ao formulário do IVA. Ficou contente por o seu avô, agricultor que aprendeu a ler sozinho e a escrever quadras populares, partilhando com ela a mesma situação de contribuinte, não ter de perder o tempo que a Anita perdeu. O avô da Anita nunca viu uma Internet, não tem computador, e portanto mandou à neta os dados, as senhas confidenciais, e a Anita preencheu também o formulário do avô. Preencheu ainda o formulário da sogra, professora do ensino secundário, que partilha com o avô da Anita a situação de nunca ter visto uma Internet.
Então a Anita recebeu em casa uma nota da DGCI a dizer que era obrigatório entregar, também pela Internet, o formulário modelo 10 relativo às retenções na fonte dos rendimentos pagos a terceiros. A Anita tinha pago 150 euros ao Filipe, englobado no quadro fiscal dos miseráveis artistas, sem obrigação de retenção na fonte. Mas a Anita era obrigada a reportar que lhe tinha pago, embora não retido. A Anita foi à Internet. Não percebeu como entregar a declaração. Fez uma busca. Apareceram-lhe umas coisas, que depois veio a saber já antigas, com formulários para preencher em ASCII e enviar.
A Anita telefonou para a DGCI. A DGCI ficou indignada porque a Anita, com curso superior e formação avançada, não tinha descoberto que devia ir ao quadro nº cinco da lista à extrema direita da página net, onde dizia "contribuintes" para procurar o modelo 10. A Anita lá foi. A Declaração demorou 50 min a carregar. Quando apareceu, a Anita não soube como enquadrar o caso especial do Filipe.
A Anita decidiu deslocar-se às Finanças. Havia lá muita gente com avisos do modelo 10 na mão. A Anita esperou duas horas para ser atendida. O Sr. das Finanças olhou para o triste recibo verde do Filipe a declarar o pagamento da Anita, e deduziu que tinha sido a Anita a prestar um serviço ao Filipe. A Anita teve de explicar ao Sr. das Finanças como funcionava um recibo verde, demorou ainda mais algum tempo a esclarecer a triste situação que ali a levava, e pediu por favor para entregar a declaração em papel. O Sr. das Finanças disse que não podia ser, e pedia desculpa mas não tinha rede para ir à Net ver com a Anita como fazer. Enfim, lá lhe deu uma dica, apontando para o modelo em papel: se isto aparecer na Net, experimente escrever aqui B1.
Brilhante. A Anita voltou para casa, foi à Net, demorou mais 50 min a carregar a declaração, pôs lá o B1, e a coisa até que ia, não fosse depois o quadro CO1 não jogar com o quadro CO2, e o C05 estar incompleto. Mais meia hora e a Anita lá conseguiu amanhar a coisa. A Anita submeteu a declaração. O sistema Net levou 40min a responder: a declaração não foi submetida com sucesso porque expirou o tempo de utilização.
A Anita da próxima vez vai dizer ao Filipe que não vale a pena gastar os seus recibos. Paga-lhe umas minis e continuam amigos como dantes. Vai ainda dizer ao avô que tenha paciência mas arranje lá um esquema qualquer com o pastor e não a chateie.
Mas ainda bem que a Internet existe para facilitar a vida e dispensar os funcionários públicos.

Margarida Vale de Gato

18.7.05

Documentários portugueses na 2:



Finalmente o canal 2 da RTP resolveu abrir as suas gavetas e mostrar a recente produção documental portuguesa. Até sexta-feira serão exibidos, por volta da 1h00, cinco documentários. O primeiro é "Rabo de Peixe" (hoje), um filme de Joaquim Pinto e Nuno Leonel. Rabo de Peixe (Ilha de S. Miguel, nos Açores), uma das localidades mais pobres de Portugal, é o cenário para uma história de resistência e sobrevivência. O filme acompanha a vida do pescador Pedro durante um ano inteiro.
Amanhã passa "Rebelados - No Fim dos Tempos", de Jorge Murteira. Filmado na Ilha e Santiago, Cabo Verde, o filme acompanha o quotidiano e as expectativas de três rebelados que esperam pelo fim do mundo, anunciado pelos mais velhos para o fim do milénio. Também passado em África, desta feita em Moçambique, é "Kuxa Kanema", um filme admirável de Margarida Cardoso sobre o nascimento do cinema naquele país (quarta-feira).
De regresso a Cabo Verde, "Mais Alma", de Catarina Mourão, acompanha o processo de criação dos espectáculos de teatro de artistas caboverdianos. A cineasta olha para os bastidores do teatro, mas foca, principlamente, a vontade que os artistas têm de procurar e exprimir uma nova identidade.
Sexta-feira, regressa-se ao tema do cinema com "Onde Jaz o Teu Sorriso?", de Pedro Costa. O cineasta português acompanhou a montagem de "Sicília", de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. O filme, que recebeu com toda a justiça rasgados elogios dos "Cahiers du Cinema", é um documento impressionante sobre o processo criativo.

Luísa Marinho

Adeus, amigo! Sabes tão bem a falta que me fazes

Homenagem fúnebre a Luís Carlos Fins Afonso Ferreira Crespo, ao som ao 40ª Sinfonia de Mozart (Molto Allegro), da Pequena Serenata em Sol Maior, KV 525 (Allegro); e de Ballads (do saxofonista de jazz Ike Quebec)

"Obrigado pela visita", disseste, com o teu sorriso sereno a bailar-te na boca. Não percebi onde se consegue ir buscar tanta coragem. Uma visita é coisa tão pouca perante quem sabe estar a olhar a morte de frente.
Falámos de viagens, amigos comuns, passeámos pelos espaços que escolheste, naquele teatro fraterno de iludir uma morte que tu desconfiavas poder apunhalar-te a qualquer momento.
E eu, para te "recuperar" para o mundo dos vivos e te dar força, levei-te nesse dia "Amanhã à mesma hora, diário de uma stripper", de Leonor Sousa. Já não tive tempo de te dar "O Beijo" (José Vilhena), que esteve a apanhar sol em minha casa durante dois dias, para prevenir as infecções que os objectos podem transportar perante quem está tão fragilizado fisicamente.
"Obrigado pela visita", disseste. E nunca mais ouvi palavra da tua boca. Visitei-te sem medos de nenhuma espécie da primeira vez, seis dias após o teu internamento, apenas com a preocupação de te dar ainda um abraço no hospital.
Estavas no teu primeiro dia de quimioterapia. Não pude deixar de perguntar: "Mas qual é o problema em concreto?". O problema era uma leucemia aguda. Galopante. Como não podia deixar de ser. Passaste pela vida a galopar como um corcel fogoso, um tufão, um ciclone de afectos. Com a curiosidade natural de ir ao encontro do Outro, viajando pelo mundo como quem apanha o autocarro para ir a Belém. Da Suécia à Albânia, passando pela Macedónia, da Polónia à Roménia. Onde não estiveste, Luís Carlos?
Telefonaste-me a pedir conselhos sobre Skopje, onde eu tinha estado ao serviço de O JOGO a cobrir um encontro da selecção nacional de basquetebol. Lembro-me disso tão bem como das confissões sobre a tua segunda experiência amorosa.
"Obrigado pela visita", disseste. E eu deixei-te a falar com a Margarida. Ela entrou no quarto e tu estendeste a perna, como um gatinho angorá com medo da chuva, mas com vergonha de o mostrar. De modo a que a Margarida pudesse fazer-te uma festa no pé direito. Já estavas a despedir-te, Luís Carlos? Se estavas a despedir-te, os teus olhos mostravam uma coragem maior do que o mundo.
E tinhas ainda coragem para chegar à cama ao lado e perguntar com voz animadora: "Então, camarada?". E camarada era uma palavra que te ficava bem. Porque camaradagem é fraternidade.
As nossas relações nunca foram normais, Luís Carlos. Nunca discutimos, desde 1979 até ao dia 15 de Julho de 2005. Isto não é normal, Luís Carlos. Que bonito seria o mundo se isto fosse normal, Luís Carlos. Já reparaste numa coisa? Se retirarmos o "Carlos Fins" do meio de "Luís Carlos Fins Afonso Ferreira Crespo" e lermos os primeiros dois nomes que sobram... tens o mesmo nome que eu: Luís Afonso.
"Obrigado pela visita", disseste. E foram as últimas palavras que ouvi da tua boca. Eu é que agradeço a visita que me fizeste durante estes anos todos. E tão poucos foram.
Dizem que a vida começa aos 40. Sendo assim, Luís Carlos, nem chegaste a ter idade para entrar na escola.
Pediste-me para avisar o Alberto da tua hospitalização. E eu avisei. No outro dia, o Alberto visitou-te logo ao almoço. E desfez-se em pequenas peças ao falar comigo ao telefone. Uma semana mais tarde, foi a vez do Gabriel se quebrar em mil pedaços de "puzzles" de cristal, telefonando-me de Gotemburgo. E eu, no meio de um jantar de blogues, dei todas as notícias ao Gabriel, com serenidade. Sabes, Luís Carlos, eu já tinha enviado um "mail" ao Gabriel, a preparar a tua passadeira vermelha que desemboca num bar de valquírias.
Mas o Gabriel deve ter passado uma semana sem perceber o que lia. O Gabriel não queria compreender. O Gabriel conhecia o Luís Carlos que se atirava loucamente pela encostas nevadas da Suécia, a bordo de um trenó. E que tinha logo um acidente à primeira tentativa, porque uma placa de gelo por baixo da neve o impedira de travar como devia.
- Ó Gabriel, vai ali um casal a fazer sexo, na parte de trás do eléctrico.
E o Gabriel, habituado a certos costumes liberais da Suécia, nem queria acreditar, enquanto o Luís Carlos, num dos seus primeiros contactos com Gotemburgo, se começava a compenetrar de que estava a assistir a uma cena normal para a Suécia.
Faz amanhã oito dias, Luís Carlos. Eram 23 horas, mais minuto menos minuto, Luís Carlos. Eu estava num jantar de blogues. E quando o telemóvel tocou era o Gabriel. E eu, a pensar que estava sereno, dei todas as notícias com calma e elevação.

- Desculpa, Luís - disse o Gabriel.
- Desculpa, Luís - disse o Gabriel.
- Desculpa, Luís - disse o Gabriel.

Desculpa, Luís, disse o Gabriel.

- Não consigo ouvir mais. Vou ligar à minha mãe.

E o Gabriel desligou. E quando o Gabriel desligou, as lágrimas que eu tinha chorado pelo Javier Bardem em "Mar Adentro" vieram outra vez esquiar-me pelo rosto abaixo. Mas vinham em grandes grupos de excursionistas muito velozes, a cair nos lábios com o sabor do sal.
E a Matahary, que estava a meu lado, e que eu só tinha conhecido pessoalmente há poucas horas, ficou assim...assim...assim muito triste a olhar para mim. Sem saber o que dizer ou que fazer.
E eu sorri um sorriso bonito, pedi desculpa e fui até à casa de banho. Sabes, Luís Carlos, eu não tinha vergonha de chorar por ti. Nestes dias todos, eu tive orgulho em chorar por ti. Mas eu precisava mesmo de ir à casa de banho.
E depois deslizei parede abaixo, fiquei com os joelhos à altura da cara, abracei as pernas e aquele exército de lágrimas (parecia um exército do Akira Kurosawa em "Ran") veio dar-me beijinhos no rosto, como quem diz:

- Deixa lá, Luís, é assim a vida.

Assim, como?
Sim, assim, como?
Luís Carlos, tu dançavas a valsa com a vida como num "Romeu e Julieta" de Shakespeare. E transformavas os golos de Eusébio num tango religioso de expressão máxima.

- Eu lembro-me. Eu era pequeno, eu até chorei. O Eusébio nunca falhava aqueles livres. E daquela vez partiu para a bola e chutou por cima da trave. Eu lembro-me, eu era pequeno, eu até chorei.

Sim, Luís Carlos, tu em pequeno choravas pelo Benfica. Mas sabias que o desporto era uma coisa para conviver, apesar de seres um tanque de guerra a jogar futebol. Eu sei, um dia chutaste-me no pé, quando ele ocupou o sítio onde estava a bola. Fiquei por ali aos saltinhos no jardim da Casa da Moeda, como numa dança da chuva. E tu a coçares a cabeça, a escolher o melhor ângulo para me pedir desculpa.

Rezei por ti de madrugada, na praia de Carcavelos, nesse sábado. Rezei por ti no Estoril, no sábado seguinte, no 60º aniversário de um grande amigo. E não percebi nada, Luís Carlos. Não percebi como é que uma felicidade merecida do meu amigo não se podia conjugar com mais um pedacinho de presunto ou queijo, para petiscar com a tua felicidade. Prepararam uma homenagem ao aniversariante, "construindo-lhe" um DVD-ROM de 20 minutos que atravessava toda a sua vida.
E enquanto eu via Moçambique e um tempo que não era o nosso (mas aquele mundo existiu mesmo?) começou a tocar o "She" do Elvis Costello e as lágrimas do "Mar Adentro" apareceram outra vez à traição. E o filho do aniversariante bateu-me nas costas, olhou-me com ternura, percebeu tudo e disse:

- É humano.

Claro que era humano. Tratava-se das minhas lágrimas para ti, do Estoril para a tua cama do Hospital do Desterro, exílio de coragem onde entraste de peito feito às balas, como se corresses a direito para a morte, como no "Galipolli", do Peter Weir. Não sei se estou a dobrar a letra L no sítio certo, Luís Carlos, mas agora estou a falar contigo, não vou pesquisar na Net, no IMDB. É um site onde se vai para obter dados sobre filmes. Não sabias, Luís Carlos? Ah! sim, tu é mais tinto.
É óbvio que agora não vou à Internet, Luís Carlos. Nem estou para a Taça Davis, em ténis. Sabes, Luís Carlos, estamos a perder com a Argélia por 2-0. Mas isso não tem importância nenhuma, pois não? O que continuo sem perceber é a razão de não teres podido estar comigo na bancada, a dizer uma coisa que eu imagino assim, num diálogo que apenas não aconteceu porque não tinha de acontecer:

- Porra, que estes portugueses não jogam nada. E o sol está forte como o caraças. Vou mas é buscar uma cerveja.
- Mas não estás a gostar do jogo, Luís Carlos?
- Estou a gostar de estar contigo. Mas agora vou buscar uma cerveja. Já venho, espera aí. Também queres uma?

Bem, Luís Carlos, vou passar do sol do Jamor para a penumbra da Igreja de S. João de Deus. Eu sei, às 16 horas, combinei com a Margarida. Mas não estranhes que não te vá cumprimentar e olhar para ti. Quero ficar com o sorriso que tenho dentro do coração. Esse outro Luís Carlos que já és... pertence a outro filme. Enganou-se no casting. Enganaram-no no casting e eu continuo sem compreender. Quero ficar com aquele filme de longa-metragem (e tão curto, tão curto que até dói no Alaska) em que entramos os dois.
Morri por ti um bocadinho todos os dias, Luís Carlos, quando te visitei. Para ver se ao morrer um bocadinho todos os dias te conseguia pescar um bocadinho de vida para além da morte.
Onde foste buscar tanta coragem, Luís Carlos?
Sabes, Luís Carlos, acho que me passaste um bocadinho da tua coragem. Sabes que me ia virando a um malcriadão de uma loja, a mandar-me calar? A fazer cabedal para mim. E se ele era grande, Luís Carlos. Mas eu não tinha medo nenhum. O que me podia fazer ele, Luís Carlos? Tu estavas a lutar na tua cama e eu sei que se a pancadaria começasse ele não tinha hipótese.
Porque era tanta a minha raiva de te ver a emigrar.
Lutaste que nem um leão, Luís Carlos.

- Fisicamente não estou preocupado contigo. Nesse capítulo tu és forte. Moralmente é que já não digo nada.

E foi assim que me despedi de ti na primeira e penúltima visita que te fiz no Hospital dos Capuchos. E uma empregada riu-se, à porta da saída. Porque também há risos nos locais recheados de morte em cemitérios de ilusões.
Foste jantar, Luís Carlos. E três dias depois já fiquei a ver-te jantar um peixinho. Com calma, serenamente, intercalando com a conversa, enquanto a Margarida não chegava. Ou já tinha chegado? Sei que o trânsito estava terrível e ela chegou muito stressada. Chegou ela, saí eu. Era a minha deixa nesse teatro de fingirmos que ainda estavas a tempo de sair dessa peça de teatro em que tinhas o papel do falecido.
Mas deixa-me que te diga, Luís Carlos: não vais faltar com essa facilidade toda ao nosso almoço do dia 31 de Dezembro, no "Hexágono Mais". Deves ser é parvo. Em primeiro lugar, porque já era tradição
(estás a ouvir, Luís Carlos? Está a tocar o saxofone do Ike, em "Nancy - With the laughing face").
em primeiro lugar, porque já era tradição. E depois porque tu insistias sempre em pagar e me passavas para a mão um molhinho dos livros que eu escrevia, para autografar para os amigos.

- Este é para a família Neves.

Sabes, Luís Carlos, eras o meu único amigo e leitor que pedia autógrafos para as famílias. E aquilo caía-me tão bem.

Por isso, Luís Carlos, já sabes. A 31 de Dezembro de cada ano, conto contigo no Galeto entre as 13 horas e as 13 e 30 horas. Apontando para chegar ao "Hexágono Mais" lá para as 14 horas. É perto, mas gostamos de andar devagar.
E se tu não puderes ir por um motivo qualquer, podem ir a Margarida e a tua mãe, mais as pessoas que elas quiserem levar. E uma coisa é certa: vamos beber uma garrafa de tinto alentejano, para brindar à tua presença.
E na mesa vai haver sempre um prato para ti. E prometo que em cima dele todos os anos vai estar um poema novo ou um texto novo em que tu entres, tu fales, tu digas qualquer coisa.
E mesmo que eu não possa estar fisicamente, por um motivo qualquer de trabalho ou de força maior, a Maragarida, a tua mãe e as outras pessoas que elas quiserem levar, vão encontrar dentro de um envelopinho o meu texto anual para ti.
E nessa altura, vamos pedir ao senhor Ramos ou ao senhor António para abrirem uma excepção à política de não beber em serviço. E eles vão desejar-te um Bom Ano, Luís Carlos.
Se houver um Inferno irlandês, Luís Carlos, reserva-me um lugar em frente ao ecrã gigante, à hora do Benfica?Sporting. E pede duas Guiness das grandes. Se o Benfica marcar primeiro, tu dás um salto e uma gargalhada daquelas, assim à duende da floresta, com vozeirão dos trovões e riso puro como uma criança acabada de descer do escorrega. E eu encolho os ombros, porque isto de ser do Sporting é assim mesmo.
E se o Sporting marcar primeiro, tu levantas-te, dás um pontapé na mesa, dizes meia-dúzia de palavrões, bebes o resto da cerveja de um trago e proclamas:

- Tenho de ir buscar mais uma cerveja. Uma coisa é sofrer golos, outra é sofrer desta maneira parva. Alguma vez isto acontecia no tempo do Eusébio?

Sabes, Luís Carlos, ainda pensei em pedir ao Eusébio para te fazer uma visita, se conseguisses voltar para este lado. Já não tive tempo. Mas sei que a culpa não foi tua. Lutaste como um leão. Até ao fim, de espada na mão, como um viking.
Natural. Eras um vagabundo da vida, sempre à procura de outras paragens.
Adeus, amigo. Até sempre! Sabes tão bem a falta que me fazes.

(Passam 11 minutos da meia-noite, mas vamos fingir que ainda consegui acabar de escrever no dia 15, está bem?)

PS - Espero que gostes dos poemas que eu escrevi para ti. Afinal, foste tu que mos deste. São mais teus que meus. Ó Luís Carlos, não sei como não explodi quando a tua mãe me agarrou nos braços com meiguice e me disse, à porta do hospital: "Ai, o nosso Luís, ai, o nosso Luís...".

Ai, Luís... eu não sabia que tinha tantas lágrimas guardadas em teu nome no meu coração...


POEMA PARA O ÚLTIMO VOO

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

E sendo azul
se era o azul do céu
ou era o mar

Sempre soube
o oceano inteiro
nos teus olhos

Em lágrimas de sal
e risos de marfim
recheados de pérolas

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

Sempre soube
o teu voo de águia
sobre as águas

O teu corpo como carpa
a saltitar feliz
no meio da corrente

Nunca soube a razão
do teu adeus
a rebentar nas ondas

Olhos nos olhos
eu e tu sabemos
as palavras em falta

Como gotas a escorrer
de mágoas numa caverna
que nos corta a alma

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

O oceano inteiro
do teu voo de gaivota
a beijar a brisa

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

E sempre soube
o teu lugar de pássaro
é no céu

15/7/2005


A VISITA DO PÁSSARO MALVADO

Um dia
uma sombra
um pássaro
uma ave

Disfarçada de abutre
pendurada do céu
de cabeça para baixo
levou-te para longe

E ficou a noite
a chorar baixinho
triste como breu
só, como um farol

Mas a tua luz
que brilhava ao longe
quando tinhas na mão
o vento da tarde

Acendeu um facho
vestiu-se de lutos
sorriu de mansinho
e depois...silêncios

15/7/2005

Luís Graça

E agora?

E agora, sr. Rui Rio? E agora, sr. Paulo Morais? O que fazer às famílias ilegalmente despejadas? Não faz mal, as demolições já estão feitas, ainda há a hipótese do recurso, o bairro "é dos ciganos" e por cada voto perdido em S. João de Deus ganham-se centenas entre a burguesia bem instalada do resto da cidade.

Só um momento, se faz favor

Sou forçado a reconhecer a minha ignorância. Preciso parar para pensar no assunto.
Até já.

Siluestrem tenui musam meditaris auena


Jean-François Millet - l'Angélus (1857)

Neo-Bucólica

Que bem luzem nos discursos
da boa consciência
onanista e nos poemas light dos
neo-bucólicos as casinhas
com papás, vovós e manos, talvez
com uma sentida perda
de um talher à mesa e uma
horta, couves, alfaces, a doméstica
economia dos quintalórios
com um cão cativo a ladrar
à sina e à honestidade das batatas
que as mães ou avós ainda esmagam
na sopa com uns pingos de azeite e
enfado. Pequeno país do
gasóleo e do futebol, memórias
de mercados e feiras buliçosas,
de escolinhas rústicas, agora desertas,
com a cruz e os presidentes na parede,
pequeno país de bravia
palavra, sofrida crueza
de mato ardido e estrumes, sucatas,
detritos, o hábito endurecido dos
pequenos holocaustos
diários.

Inês Lourenço. "Logros Consentidos".
Lisboa, &Etc, 2005, p. 19

15.7.05

O petisco que alguns adoram

Nisto de gastronomia, já lá o dizia Brillat-Savarin, "Não há como visitar os lugares onde as preparações são efectuadas".
Baseado neste salutar princípio, utilizei algum do meu tempo a incursionar na Rede.
E acontece que encontrei uma receita adequada, no caso vertente numa Casa que - apesar de não ser um gastrónomo que vai a todas - nunca me deixou faminto.
Refiro-me a "Rua da Judiaria", local onde encontro inteligência e humor mas também coisas a sério - muito a sério!
Aqui vos deixo portanto este fragmento, um verdadeiro petisco que não deixará ninguém com estômago em condições indiferente.
...Embora, se eu me tivesse encontrado, como entrevistador, com o pitéu entrevistado, talvez tivesse perdido a vontade de comer durante uns dias. É que há pratos que nos deixam muito enjoados. Enjoados e enojados.
Aqui fica a preparação, dedicada a quem gosta de comidas bárbaras...

Fragmento de entrevista feita por um jornalista a um sr. Omar Bakri

P.Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares de civis inocentes?
R. Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade.
P. Mas havia muçulmanos entre as vítimas.
R. Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires. Quanto aos outros, o problema é deles. Deus mandou-lhes mensagens, os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não acreditaram. Deus disse: "Quando os descrentes estão vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem, não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe, porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles".(...)
P. O Corão diz isso?
R. Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam com quem sabe. Os seculares dizem que "o Islão é a religião do amor". É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: "eu sou o profeta da misericórdia". Mas também disse: "Eu sou o profeta do massacre". A palavra "terrorismo" não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: "Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo". Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.
P. Isso quer dizer que o terrorismo é natural e legítimo?
R. Só é legítimo o terrorismo divino.(...)

O Eduardo e o Cláudio

Pois é, já me quilharam o Verão. Também por este lado, mortal mas menos brutal. Mas também desconsolador.
Como não leio jornais lusitanos - e por meu mal também revistas, não por serem más mas por serem carotas e as lecas da reforma não me darem para tudo - só mesmo mesmo há bocadinho é que soube que o Eduardo e o Cláudio tinham desaparecido do nosso convívio no Aquém.
Do Cláudio tenho o livro que nos meus tempos de festarola aventureira lisboeta o Cesariny me deu, foi aliás quem o traduziu. Do Eduardo tenho mais coisas, que ia mercando nos alfarrabistas, nas mulheres das padiolas, na livraria local do sr. Zé Tavares que tanta coisa me permitiu comprar...
Digamos que o Eduardo era mais tasqueiro do que o Cláudio, mas nunca fiando. E se o Eduardo ia mais aos comes-e-bebes da literatura em mangas de camisa, o Cláudio também não deixava os seus créditos por mãos alheias: a sua relativa gravidade estava ali mais para que a gente percebesse que, tal como o Eduardo, se movia no campo onde as coisas são a valer, pois então, visitando para além disso os salões onde o Eduardo, por maneira de ser, por enfoque, por deliberação de duro, nunca punha os pés.
Isto deixa-me um pouco...desiluminado. Tristonho, 'tão a ver?
O Ed McBain e o Claude Simon...Quem havia de dizer que iriam quase ao mesmo tempo!
Saravah, malta catita, companheiros de tantos minutos do meu tempo e do meu espaço que passaram mas que continuam!

Russos 1

Dínamo de Moscovo, o clube que agora se tornou um eldorado para os mercenários da bola, incluindo portugueses. Como tudo na Rússia, desconfio que por trás da criação deste monstro artificial se encontra qualquer grande manobra esconsa. Talvez venhamos a conhecê-la um dia.
Nos anos 80, ainda na Rússia soviética e quando Moscovo era ainda o centro do «outro» mundo, reunia-se uma maltosa multinacional, em casa de um ou de outro, para ver a bola na televisão, o pretexto para as belas jantaradas moscovitas: éramos portugueses, russos, franceses, etc., dependia. Os russos podiam conviver com estrangeiros, ao contrário do que se diz, mas só a necessidade deste «podiam» já indicia qualquer coisa: não era natural que convivessem, ainda restava do passado uma memória muito pesada (de ambos os lados) que impedia a universalidade e a naturalidade do convívio. Na altura, o Dínamo de Moscovo era um clubezinho simpático, ligado a uma grande fábrica, a que as massas operárias da zona e não só também tinham acesso para a prática de todos os desportos (mas não tinha a popularidade nem a grandeza do Spartak), e nós gostávamos dele. Nessa noite, no decurso de um jantar bem regado, baptizámo-lo, muito familiarmente mas também muito internacionalmente, o «clube dos três acentos»: os portugueses diziam Dínamo, os russos Dinâmo, os franceses Dinamô. Mais tarde ouvi um puto vietnamita chamar-lhe, muito sincopadamente, qualquer coisa como Tính mâ.

Filipe Guerra

Há muito que aqui não se fala de BD

David B.



Poucos autores de banda desenhada se aproximaram tanto da literatura como David B., um dos fundadores da mítica editora francesa L'Association (não tem página na net), a qual tem vindo, desde o início dos anos noventa, a revolucionar discretamente a BD europeia, quer a nível do conteúdo quer a nível formal e visual. O gosto pela experimentação (consequente), a ousadia do traço, a abordagem oblíqua do mundo, o trabalho intenso sobre a psicologia das personagens, e, sobretudo, o constante diálogo - melhor dizendo, as transfusões e correspondências - com a pintura, o cinema, o teatro, a poesia, o romance, etc., fazem de L'Association, - onde pontuam, para além de David B., Joan Sfar, Vanoli, Lewis Trondheim, Dupuy & Berberian ou Jean-Christophe Menu - não só uma editora marcante no domínio da BD mas também um movimento estético da maior importância, uma vanguarda num tempo em que as vanguardas de alguma forma se esvaziaram ou redundaram em caricaturas.
Mas a obra-prima desta "escola" pertence, sem dúvida, a David B.: "L'Ascension du Haut Mal", editado em seis volumes entre 1997 e 2003. Mais prático - e bem mais barato - é, no entanto, adquirir a tradução inglesa, num único e belo volume com o título de "Epileptic" (New York, Pantheon Books, 2005). Obra autobiográfica, nela se conta a luta de uma família (pai e mãe com três filhos, dois rapazes, David. B e Jean-Christophe e uma rapariga, Florence) contra a forma gravíssima de epilepsia que atinge o irmão mais velho, Jean-Christophe, e lhe transforma a vida num purgatório. Jean-Christophe sucumbe diariamente a inúmeros ataques epilépticos, sempre muito violentos e prolongados. A sua família, impedida de levar uma vida normal, vê-se assim prisioneira da doença e do doente, confundindo-se as suas expectativas de felicidade com as expectativas de uma cura para a epilepsia de Jean-Christophe. Mostrando-se a medicina tradicional, apesar de todos os esforços, incapaz no caso de Jean-Christophe, a família lança-se numa demanda por uma cura inexistente, espécie de Graal doméstico, o que a leva a percorrer a França e a experimentar todo o tipo de soluções: parapsicologia, religiões e seitas várias, magnetismo, hipnotismo, macrobiótica, exorcismo, alquimia, feitiçaria, ocultismo, etc., pretexto para uma viagem nos meandros das mil e uma formas de espiritualidade, superstição e crenças acumuladas ao longo da História, tudo narrado com uma erudição e um conhecimento histórico extraordinários.



Em simultâneo, assistimos à génese de um artista, David B. (de seu verdadeiro nome Pierre-François), cozinhado neste caldeirão de saberes e experiências e na necessidade de fugir ao martírio, necessariamente solitário, do irmão mais velho, que ele vê como um duplo de si, ou projecção dos seus medos ontológicos e sociais. Para tal, David. B cria para si mesmo uma série de mundos paralelos ao mesmo tempo que, à maneira de Swedenborg, faz o inventário dos seus sonhos como se de entradas de um diário íntimo se tratassem - com a diferença, em relação ao filósofo e visionário sueco, de que os desenha.
O irmão epiléptico é simultaneamente a razão pela qual David B. se mantém preso à (dura) realidade e pela qual navega para fora dessa mesma realidade:

"O que acontece ao meu irmão quando tem um ataque? Sai do seu corpo e vai para outro sítio qualquer? Ou, pelo contrário, mergulha no mais fundo de si mesmo? Flutua rumo à Quarta Dimensão? Ou visita outros mundos regidos por geometrias desconhecidas na Terra, como nas histórias de H. P. Lovecraft? Morre por uma fracção de segundo? Sonha? É uma espécie de vazio? Não se lembra de nada porque não há nada para lembrar? Ou é a sua memória de outros mundos a ser apagada? E se ele estivesse a partir porque é infeliz aqui, connosco?" (p.225)

Surpreendentemente, o livro, que se estende ao longo de 361 páginas, termina com os versos de Pessoa:

Senta-te ao sol.
Abdica
E sê rei de ti próprio.

Ainda a propósito

"A Jihad, que significa «perseverar no caminho de Deus», é um dos conceitos mais mal interpretados do Islamismo. Ela abrange todas as actividades que visam defender o Islamismo ou aprofundar a sua causa. Neste sentido, as guerras através das quais os muçulmanos tentaram trazer novas terras para o domínio do Islamismo ficaram conhecidas como guerras Jihad e eram entendidas e justificadas pelos muçulmanos de uma forma semelhante ao entendimento que os cristãos tinham das Cruzadas. Na actualidade, qualquer guerra que seja vista como uma defesa do país, da comunidade ou da terra em que se vive é considerada uma Jihad. Esta acepção é muito semelhante àquilo a que na sociedade ocidental se chama 'guerra justa'. De modo semelhante, é frequente os extremistas políticos que acreditam na justeza da causa que defendem referirem-se às suas guerras terroristas ou de guerrilhas como Jihad, mesmo quando a maioria da sociedade em que se inserem considera os seus actos completamente injustificados.
Para a maioria dos muçulmanos, uma guerra Jihad é quase o mesmo que qualquer guerra justa para o cristão comum do Ocidente. A teoria da Jihad permite que o soldado mate o inimigo justificadamente; se assim não fosse, estaria a cometer um assassínio, que é um pecado muito grave no Islamismo. Da mesma maneira, quem morre pela causa justa da Jihad tem uma morte de mártir e são-lhe perdoados todos os pecados.
Os eruditos islâmicos referem uma Jihad exterior, que tanto pode ser uma Jihad da Espada (como a «guerra justa» acima referida) ou uma Jihad da Pena - elaborar defesas escritas do Islamismo, envolver-se na actividade missionária ou simplesmente aprofundar a sua própria educação e aprendizagem. Existe, no entanto, também uma Jihad interior - a batalha que todos os indivíduos travam contra os seus próprios instintos mais baixos. Devido à sua inerente dificuldade, esta é frequentemente chamada a Grande Jihad."

Jamal J. Elias, Islamismo.

O inferno

Augustin Pyrame de Candolle refere que uma rosa é ainda mais perfumada quando ao lado cresce uma cebola. Quem poderá dizer que isto é um mero capricho da natureza sem importância nenhuma?

Castelo de Vide



Descobri, sem esperar, a casa onde viveu Ventura Porfírio. Depois de deambular pelo labirinto da vila, como sempre, desde a infância. (Tocam-me estes recantos frescos e sombrios...)
De súbito, por detrás de Santo Amaro, uma ruela abandonada, rodeada por muros que a chuva, o sol e as ervas foram corroendo. Assomo por um buraco duma velha porta e contemplo a torre da igreja (carcomida no meio de um quintal), onde um sino virado aos canteiros e às figueiras parece querer tocar a qualquer momento, despertando séculos e séculos de silêncio.
Que ruína contemplo nesta terra se não a ruína da própria humanidade que, ao passar dos dias, se foi enterrando entre pedras e pedaços de telha partida, entre musgos e mato, entre ervas que o tempo sufocou?
Subi a calçada, íngreme mas fresca. Destaca-se uma casa. Simples, mas lançando para o meu corpo uma emanação estranha. Não soube, na altura, reconhecer o seu proprietário. Houve, contudo, uma suspeita: pareceu-me encontrar ali algo do espírito de Ventura Porfírio. Ao mesmo tempo: tranquilidade e drama, harmonia e angústia, serenidade e melancolia. Nunca o conheci pessoalmente, mas tenho recebido estas linhas da sua pintura.
Cheguei a casa e procurei de imediato a fotografia daquela habitação, num livro que sobre ele foi publicado. Não me enganara.

Ruy Ventura

14.7.05

O homem que de fora se pôs dentro



Uma carta de Arsénio Robalo

Sem comentários mas com um abraço ao autor e a nossa compreensão, aqui fica a missiva endereçada a estes serviços pelo actual ponta-esquerda do Valcourense, que em conversa privada nos informou poder vir a representar, se o actual presidente perder as eleições, o grande...Mas não, não revelo pensando melhor - não devo antecipar-me aos jornais desportivos que em breve se farão eco da retumbante notícia.

"Meu caro Nicolau: Foi com surpresa e, porque não dizê-lo, mágoa, que tive na altura conhecimento de que consideraras dever manter-me à parte deste teu serviço cultural à nação que tantos aedos tem glorificado (a talhe de foice estou a lembrar-me de dois, ou melhor, um mas não digo o nome para não ferir susceptibilidades). Seja como fôr, o pretexto pareceu-me, tu desculparás, fracote: o ter eu sido constituído arguido no caso que todos conhecem. Mas...como fui constituído arguido? O que estará por detrás desse tentame?
Nada melhor do que exemplificar: acontece que num dia do final da Primavera me desloquei a Vila Figueira para cumprimentar o meu amigo Vítor, que está vereador do pelouro desportivo da autarquia daquela ridente povoação. Ele tinha zumzuns para mim, parece que um dos grandes clubes estava interessado na minha entrada para o seu grupo de trabalho. Como era altura do lanche, o Vítor disse-me com a cordialidade que o exorna: "Ó Arsénio, vai uma bucha?". E eu, que já estava com "galga": "Ó Vítor, então baza aí uma Grunnewaisser e uma sandes de presunto!".
E só pouco antes do nosso contacto é que eu soube que fora constituído arguido por recebimento ilícito de géneros...
Recordo-te que, conforme diz na sabedoria das nações, ninguém deve ser condenado na praça pública e eu até estou convencido que o que está por detrás é eu ter andado com a prima do (...) que, para se vingar, me está a enredar nesta marosca!
Mas não é o teu afastamento, um pouco injusto, que me vai impedir de ter escolhido um poema precisamente teu, que aqui deixo também para te causar um certo enrubescimento e para poderes ser acusado pelos tais de estares a fazer um brilharete, uma habilidade...":

O árbitro

Como Jesus entre os ladrões, orquídeas negras
porque três somos com bandeiras apito decisão
um homem faz de conta que não é alvo negro mou-
che e capital de dor para milhares de bocas ávidas
entre dentes e pernas e gritos de quem soletra
a vitória e as derrotas maiores de hoje,
ontem, amanhã.
Subo por mim acima e o meu gesto é uma flor car-
nívora que adeja na ponta de um braço um dedo
preparado apitando como um comboio um deus um homem.
Às vezes levo com uma garrafa na cabeça um
insulto no coração uma obscenidade nas
partes baixas. O meu território é o do Deve
Haver o lume nos olhos à coca de pisaduras
cotovelos cabeçadas. Sacerdote de potências
obscuras comando redimo restauro derrotas e
figas feitas com um cartão vermelho outro a-
marelo sóis negativos no poente ou no nas-
cente da terra palpitante onde quem os tem
no sólido é que pode ganhar.
Conhecem minha Mãe melhor/pior do que eu
sem nunca a terem visto. E fico enfeitado como
um sátiro um touro uma anedota. Caricatura
franca de flores e traques eu é que não ligo
um homem que corre por gosto não cansa.

Lá por andar de preto não vou desaparecer
ingloriamente. É para distinguirem a
geografia íntima terreal convicta da minha
qualidade.
Pelo-me por penalties. Mas o jogo é que tem
o redondo de tudo o que é volta à tristeza
à alegria ao frio das tripas de fora de den-
tro da bola que em nós corre como um rega-
to de Verão seja em dia seja em noite de final.

E nunca irei pr'ó penico, mesmo que insistam.

(in "Os objectos inquietantes")

...Na hora da despedida



Como tudo o que é bom na vida - menos o amor, esta é para os românticos, alevantados ou pirosos - o folhetim chega ao fim. Durante semanas...e bom, seguem-se as palavrinhas usuais que todos conhecem e muitos costumam ler nas evocações que fazem as nossas delícias mas francamente não vou epigrafar.
Pois modificações sensíveis se fizeram na vida dos nossos convidados, quase tantas como na de um treinador conhecido, um novelista, um simples cidadão... Porque a vida não pára - nem com uma rasteira nem com uma bombarda: segue sempre, porque é condição dos homens e dos planetas não ficarem no primeiro ou até mesmo segundo capítulo deste conto que é a existência.
Mas deixemo-nos de filosofias e vamos a el grano como dizem os espanhóis incluindo o Sancho Pança:
Joaquim Sacarreta é hoje presidente do seu Sindicato e casou com uma actriz de telenovela, grrr!; Arminda Raposo será a assessora-conselheira principal da candidatura de quem já calculam; Remígio Guerra (e não podemos esquecer a acção positiva de seu primo, que o incentivou fraternalmente) vai traduzir para cantonês as obras completas de Vasco Mourão, alargando a presença lusitana de forma ímpar e ficando ocupado nos próximos 30 anos; Dionísio Valdez, como os noticiários deram conta, conseguiu escapar-se à vigilância enfermeiral e sumiu-se. Consta no entanto que após o seu regresso gravará um disco (desta vez não com letras de A.P.Ribeiro) e dará um grande concerto nas imediações da Casa da Música, ali terá mais espaço; Josefina Bamdarra vai lançar - agora em seu nome - os livros que dantes eram assinados por um conhecido autor de sucesso e já assinou contrato com a "New Yorker" de modo a poder entrar no circuito internacional para gáudio dum excelso crítico local; Salomão Castelo continua morto, mas com o correr dos tempos e os progressos da ciência genética o seu estado pode sofrer alterações; Tomás Videira, depois de aqui ter aparecido, foi convidado a participar no programa da manhã da Antena 2, onde receberá o cachet simbólico de um CD de gargalhadas dos apresentadores; finalmente, Georgy Sampievicz vai unir-se pelos laços de matrimónio com uma sobrinha do seu antigo pretendente, o playboy Alípio Santaclara, herdeira da fortuna dos Viscondes da Ramalhosa e uma das suas esculturas foi adquirida, supõe-se que com foros de verdade, para ornamentar uma das avenidas portuenses.
E este vosso cronista, que também merece a quota-parte de sorte, editará estes textinhos acompanhados de uma boa soma de outros com outras personalidade numa editora que já o contactou para o efeito.
As boas obras são sempre recompensadas, como consta no respectivo breviário de moral...

A pintura que acompanha este texto é de Joan Brossa, o grande dramaturgo e pintor catalão recentemente falecido.

Sinais de vida

"Pode entrar-se no Verão de faca em punho, assentando os joelhos e os braços sobre uma melancia. Como a mulher que na praça me perguntou 'Quer provar a melancia?'. Eu quis. A mulher espetou a faca na polpa alagada da melancia, desenhou uma linha curta, apenas da altura do gume; depois outra, e depois outra, oblíquas e em direcção a um centro comum, recortando uma pirâmide que a cada golpe se cobria de sumo quase espumoso, translúcido. Com a faca longa e reluzente estendeu-me o pedaço de melancia, que peguei com os dedos e comi. O mistério: da polpa ligeiramente áspera, granulosa como cristais de açúcar, faz-se água."

Há mais Verão aqui.

Wishful Thinking

Harder over time to believe
human beings will be pretty
much the same everywhere.

Margarida Vale de Gato

O primeiro sinal de retoma


aguasfurtadas, Revista de Literatura, Música e Artes Visuais.
Número 7 já disponível nas boas livrarias. E nas outras também.

13.7.05

O Folhetim continuará

Por motivos alheios à vontade dos leitores, só amanhã a carta do atleta Arsénio Robalo poderá ser dada a lume.

Entretanto, nos diversos palcos do país - seja jazz, seja rock, seja simplesmente fado - a música continua e quem a pode fruir tem largos motivos para se felicitar!

Hasta mañana!

Pound. Canto XXII

E diz o juiz: Esse véu é muito longo.
E a garota tira o véu
Que ela havia prendido em seu chapéu com um alfinete,
"Não é um véu", diz ela, "isto é um xale."
E diz o juiz:
Você não sabe que não lhe são permitidos todos esses botões?
E diz ela: Não são botões, são perebas.
O senhor não percebe que não há casas de botões?
E diz o juiz: Bem, de qualquer modo não lhe é permitido o arminho.
"Arminho?" fala a moça. "Nada de arminho,
É lattittzo."
E diz o juiz: E o que é exactamente lattittzo?
E diz a garota:
"É um animal."


Signori, sigam vocês e façam cumprir.

Tradução de José Lino Grünewald.

Crise

Se a sondagem divulgada hoje pelo Público estiver certa, a crise vai durar pelo menos mais quatro anos.

Simples

Quando acordei, esta manhã, a mesa do céu já estava posta. Comi nuvens ao pequeno-almoço.

Voltar atrás.

A matança dos inocentes

Vivemos em tempos de guerra: uma guerra sem convenções, sem honra, sem objectivos aceitáveis ou, sequer, compreensíveis - e muito menos justificáveis (ao contrário do que tem feito gente da nossa praça, com ingenuidade, desonestidade ou hipocrisia...). Afirmar que nada pode justificar o terrorismo contra cidadãos inocentes deveria ser um lugar comum. Mas, lamentavelmente, tal atitude ainda não se generalizou, mesmo em Portugal...
Esta guerra com que todos estamos a lidar tem causas profundas. Não me refiro à pobreza dos povos (promovida pelos seus líderes políticos ou religiosos que, depois, os manipulam, atirando todas as culpas para "o Ocidente"), pois quem está a liderar a matança dos inocentes vive na Europa ou na América com todo o conforto ou, vivendo no Oriente, não passa fome nem necessidades. Nem menciono a diplomacia (hábil ou desastrosa) das grandes potências. Estou a pensar numa grande miopia na leitura dos sinais que a História nos oferece (como, por exemplo, o facto do Islamismo ser uma religião que, desde o início, fez a sua expansão à custa da guerra). Recordo ainda, ao escrever este parágrafo, um pseudo-pacifismo cobarde que, ao longo dos séculos, tem sido causa de tantas desgraças na sociedade e no mundo, não esquecendo Lou Andréas-Salomé, que considerava o "pacifismo" uma frieza perante o sofrimento humano, e Marcel Proust que, numa das suas obras, afirmou: "o pacifismo multiplica às vezes as guerras e a indulgência a criminalidade". Meditemos todos nestas últimas afirmações...
Ao escrever estes parágrafos sobre a guerra terrorista que vivemos neste momento, não pude deixar de recordar dois poemas, de autores espanhóis, que reflectem de forma eloquente a dureza do confronto do ser humano com a violência gratuita. Aqui ficam as suas traduções - como homenagem aos mortos que a loucura tem levado da nossa existência física.

"Com o sangue até à cintura, por vezes / com sangue até ao limite da boca, / vou / avançando / lentamente, com o sangue até ao limite dos lábios / por vezes, / vou / avançando sobre este velho chão, sobre / a terra submersa pelo sangue, / vou / avançando lentamente, submergindo os braços / em sangue, / por / vezes engolindo sangue, / vou sobre a Europa / como na proa de um barco desmantelado / que escorre sangue, / vou / olhando, por vezes, / o céu / baixo, / que reflecte / a luz do sangue vermelho derramado, / avanço / com sacrifício, submergindo os braços em espesso / sangue / é / como um esperma vermelho empresado, / meus pés / pisam sangue de homens vivos, / mortos, / de súbito golpeados, subitamente feridos, / meninos / com o pequeno coração perturbado, vou / afundado em sangue / à porta, / por vezes / sobe até aos olhos e não me deixa ver, / não / vejo mais do que sangue, / sempre / sangue, / sobre a Europa não há mais do que / sangue. // Trago uma rosa em sangue entre as mãos / ensanguentadas. Porque nada mais existe / do que sangue, // e uma horrorosa sede / dando gritos no meio do sangue." (Blas de Otero, "Enchente" in "Ángel fieramente humano", 1950)

"Uma revolução. // Depois, uma guerra. // Naqueles dois anos - que eram / a quinta parte de toda a minha vida ? / eu havia experimentado sensações distintas. // Imaginei mais tarde / o que é a luta na qualidade de homem. / Mas para mim, criança, a guerra era apenas: // suspensão das aulas na escola, / Isabelita em cuecas na cave, / cemitérios de automóveis, andares / abandonados, fome indescritível, / sangue descoberto / na terra ou nas pedras da calçada, / um terror que durava / o mesmo que o frágil rumor dos vidros / depois da explosão, / e a quase incompreensível / dor dos adultos, / suas lágrimas, seu medo, / sua ira sufocada, / que, por alguma ponta, / entrava na minha alma / para desvanecer-se logo, rapidamente, / perante um dos muitos / prodígios quotidianos: descobrir / uma bala ainda quente, / o incêndio / de um edifício próximo, / os restos de um saque / - papéis e retratos / no meio da rua... // Tudo passou, / é tudo confuso agora, tudo / menos aquilo que apenas entendia / naquele tempo / e que, anos mais tarde, / ressurgiu dentro de mim, então para sempre: // este medo difuso, / esta ira repentina, / estas imprevisíveis / e verdadeiras vontades de chorar." (Ángel González, "Cidade Zero" in "Tratado de urbanismo", 1967)

Ruy Ventura

12.7.05

Resende sob o signo de Rimbaud

O Manuel Resende criou um blogue próprio. Chama-se Rimbaud Warrior.
O Manuel vai continuar a escrever no Quartzo, Feldspato & Mica.

O homem que juntou em si a noite e o dia



O nosso convidado de hoje é um caso muito especial, pois nele se congrega um somatório de factos que fazem de Georgy Anatoly Karpov Sampiewicz um exemplo não só de humanidade como de bom relacionamento entre comunidades muito afastadas no espaço geográfico europeu e mundial. Mas o que por trás se perfila é também a prova de que esta nação não esclerosou e está à altura da própria altura de quem a visita e procura - no caso de Georgy e sem ironias escusadas cerca de dois metros e cinco.
Mas deixemo-lo ser ele a relatar, da forma sucinta - alguns dirão que quase sincopada - que caracteriza este "duro de coração de pomba" como lhe chamou algures o nosso melhor novelista, Archibaldo Sarapatel:
"Tinha lá as dificuldades inerentes a qualquer trabalhador. Um dia caiu-me nas mãos uma brochura artística dos serviços turísticos lusitanos e eu vi que o Porto era uma cidade granítica. Conseguira formar-me em belas-artes. Ali até os esfomeados são doutores e engenheiros. Sendo escultor, ainda que não praticante por falta de matéria-prima, pensei que poderia cá arranjar p'lo menos um lugar como pedreiro ou ladrilhador. Alguém me falara também em patos-bravos, mas para caçador nunca dei e nem dispunha de ferramenta adequada. De modo que" - continuou Georgy com um leve suspiro - num belo dia muni-me do escopro e de duas t-shirts e desembarquei dum chasso perto da Avenida dos Aliados indo ter com o contacto que o passador me deixara".
"As coisas estavam momentaneamente difíceis - acrescentou o meu convidado passando-me o terceiro copo de uísque e as castanhas de caju - pois ainda não se entrara na onda de progresso imobiliário fomentada pelo eng. Rui Rio. Mas como em cada polaco vive um actor e um músico (não esqueçamos que o maior compositor do mundo, Amadeus Mozart, é de Varsóvia embora alguns pretendam o contrário) e como o Areias me sugerira o golpe, decidi-me a entrar no music-hall...como bailarina excêntrica!".
E depois de me passar as tapas de caviar, continuou: " Como te recordarás o êxito foi imediato. O jet set nortenho e depois nacional adoptou-me como mascote. Com o nom de guerre de Georgina fui da Quinta dos Alhinhos ao casino da praia dos Macarecos, de Odelira até Figueira de Algoz numa sarabanda artística que só uma vez correu mal: quando o conhecido playboy argentário Alípio Santaclara, creio que sugestionado pelas minhas qualidades relativamente eslavas, me pediu secretamente em casamento. Naturalmente que teve azar nos condutos, porque aquilo era jogo de cena e nada mais...Mas o homem - sorriu Georgy com ironia - meteu empenhos e tentou estragar-me a carreira ... porque, não sei se sabes, infelizmente em certos meios há gente muito corrupta!" E a finalizar, antes de me estender a bandeja com o presunto patanegra: "De forma que me resolvi a largar o music-hall e a ingressar num trabalho mais...terra-a-terra, como diz uma doçura das minhas relações: hoje estou solidamente colocado numa empresa de construção civil e pratico também como escultor. É minha a estátua que hoje ornamenta a praça principal de Vila Chafarica, sou delegado sindical da comunidade branco-e-negra e...sinto-me realizado!".
E desdobrando do sofá os seus dois metros e sete (eu lá em cima enganara-me por dois centímetros) foi buscar o gelo para a nossa segunda garrafinha da sossega.
O poema escolhido por Georgy é o "Figura de mulher" de Cesare Pavese numa tradução de Martins Napoleão (Brasil):

Tens rosto de pedra esculpida,
sangue de terra dura,
emergiste do mar.
Tudo acolhes e sondas,
e repeles de ti
como o oceano. Tens na alma
silêncio, tens palavras
tragadas. És turva.
A alva em ti é silêncio.

E pareces com as vozes
da terra - a pancada
do balde no poço,
o cântico do fogo,
um tombo de maçã,
as palavras resignadas
e escuras nas soleiras,
o grito do menino - as coisas
que não passam jamais.

Não mudas. És turva,
és a taberna fechada
com o chão de terra batida,
onde entrou certa vez
o garoto descalço
em que pensamos sempre.

Tu és a sala sombria
em que pensamos sempre
como no velho pátio
onde a aurora se abria.

Nota de última hora - Já com esta edição praticamente fechada recebi do futebolista Arsénio Robalo uma foto acompanhada de uma carta a que não posso deixar de dar provimento. Assim este folhetim, que devia encerrar hoje, pelos motivos expostos só terminará amanhã...

This country is under construction

Os jornais de hoje dão conta dos resultados altamente negativos obtidos pelos estudantes portugueses nas provas nacionais do 9.º ano. Nestes tempos difíceis, esta é uma notícia que destoa do clima geral de crise. É a pura da verdade: o país continua a ter motivos para sentir orgulho nos seus jovens. Os estudantes provaram que são dignos dos velhos valores nacionais da modéstia e humildade. Não querendo envergonhar os seus colegas europeus, esmagando-os com os seus amplos conhecimentos de matemática e língua materna, os jovens portugueses, num gesto de grande nobreza, fizeram questão de chumbar nos exames. Insuflados por uma indescritível alegria interior, não cederem um milímetro ao apelo mundano da glória. E isso é muito bonito.

Notas de rodapé

(2) Printer and writers in France and Holland defied their German occupiers by publishing resistance newspapers, as well as limited editions of classic books, sometimes as few as a dozen copies. Many who engaged in such "verbotten" activity were arrested and executed.

Talvez

Talvez a resposta esteja em Strindberg. Strindberg não disse exactamente isto. Mas disse qualquer coisa parecida com isto: quando nos pomos a procurar deus acabamos por encontrar o Demónio.

Começar mal o dia

Ouvir o novo programa da manhã da Antena 2 (8h00-11h00), surgido com a grelha de Verão da estação. O programa mais imbecil e insuportável da rádio. A música não merece isto. Todos os dias, dois tipos e os seus convidados conversam sobre qualquer coisa de elevado interesse cultural (acho eu) e riem-se muito. Nos intervalos da conversa e das gargalhadas com valor artístico, fazem o favor de passar alguma música. Uma verdadeira merda. Mas uma merda que rompe as barreiras do convencionalismo, quer dizer, muito bela, muito elevada, muito cultural, claro.

11.7.05

O homem que da noite fez dia



Foi uma longa conversa a que mantivemos com Tomás Maurício Nobre Videira, andando ao longo da noite por ruas e ruelas desta linda cidade capital onde a lua nos olhava ternurenta e os ruídos que vinham, da madrugada, embalavam a nossa jornada.
"Continuo guarda-nocturno porque é um imperativo da minha formação. Já em pequeno o meu maior gosto era acompanhar minha mãe, cantadeira numa casa da especialidade, ou meu pai, guarda-livros num cabaret da zona. Foi depois, já grandote, que pude conhecer e depois ganhar a estima de muitos escritores e artistas, como se sabe pessoas que gostam da boémia e, porque não dizê-lo, dos copos. O grande Benjamim Cadamosto, esse novelista de excepção, quantas vezes o ajudei a ir para sua casa, dado que se encontrava algo perturbado. E quantas vezes também suportei financeiramente os arroubos de J.M.Paternoster, ajudando o seu estro a desenovelar-se. E a própria Celestina Bencatela, antes de proceder à operação que a transformou no grande poeta Celestino, era no meu ombro que desabafava mágoas".
"Entrei depois para a polícia - continuou o dr. Videira a evocar " até que o...problema em que me enredaram determinou que tivesse de me afastar da corporação. Tornei-me de imediato guarda-nocturno e nas longas horas de serenidade estudei, meditei e, mais importante, pude então poetar à vontade sem me ver...entravado pelo Chefe (hoje sei que está residente numa unidade de acamados pois a seguir ao...diferendo não pôde mais levantar-se da cadeira de rodas onde permanecia)".
"Recebi então, dum dos meus antigos conhecidos - referiu ainda o dr. Tomás - o convite para escrever sketches para a TV. E apesar do êxito alcançado, não sou capaz de deixar a noite, as ruas, os passeios fora de horas e a devoção ao bem público através dos sonos que ajudo a conciliar. Agora estou neste bairro de qualidade onde residem políticos e outros executivos e, tanto quanto sei, depois de eu para aqui vir passaram a dormir melhor. Não será ainda o sono dos justos, mas que há diferenças para melhor, lá isso posso assegurar-lho!".
Quando o deixámos no final da entrevista, alguns roncos discretos mas perceptíveis senti que chegavam até mim vindos de algumas janelas entreabertas.

O poema escolhido pelo meu convidado de hoje é o "Os grilos" de Sebastião da Gama:

Quem os ouvir, os grilos
que trilam trilam na escuridão,
há-de julgar que os grilos
têm razão.

Enchem a Noite de trilos.
Nem sei que absurda causa os leva
a serem mais presentes e reais
do que o perfume da esteva.

Cantam. De quanto é bom me alheiam.
Não há Estrelas, nem rouxinóis, nem nada:
há eles só, riscando a Noite
com a sua voz encarnada.

Que é das Fadas que vêm com a Noite?
Que é dos sonhos que a gente
sonha, mesmo acordados,
só porque a Noite nos pressente?

Que é dos versos nascidos
quando as brisas da Noite nos embalam?

(Zanga-se o Poeta, à noite, com os grilos...

Mas eles não se ralam!).

Epigrama

Avisando alguém Inês
para deixar o marido,
que anda entre putas metido,
ela disse dessa vez:

"Bem que eu veja claramente
o mal que faz ao deixar-me,
não irei dele aforrar-me
mas desforrar-me, contente."

Baltasar del Alcázar (Espanha, 1530-1606).
Tradução de José Bento.

A nova guerra dos mundos


A Guerra dos Mundos, na visão de Gorey.

Circo

Rui Rio tem uma missão: "equilibrar as contas da Câmara do Porto." Por isso, Rio é implacável quando se trata de gastar um cêntimo dos cofres públicos: nada de despesas supérfluas. Este fim-de-semana, Rio gastou mais sete milhões de euros nas corridas dos calhambeques. Um investimento fundamental para a cidade. Mas foram rigorosamente sete milhões, note-se, nem mais um cêntimo.

9.7.05

Último aviso à navegação

Para todos os que julgam ou dizem que os ataques terroristas de Londres são sobretudo resultado directo do Corão e do islamismo radical e de atavismos psico-sociais, etc., e que qualquer outra tentativa de os compreender e explicar é justificá-los subliminarmente ou tangencialmente ou por qualquer outra forma incorrer num pecadilho anti-ocidental, ou não sei quê,lanço um último aviso.

Abri os olhos. Aquilo não são irracionais ataques movidos por um ódio visceral à nossa civilização. São actos de guerra frios e calculistas,lógicos e racionais, aprendidos no Afeganistão, às tantas com os conselheiros americanos da guerrilha e contra-guerrilha e da guerra psicológica.

Trata-se do seguinte: com parcos meios, contra um exército superior, causar o maior mal possível. Para isso, atacar a retaguarda, para desmoralizar o adversário. Se possível, matar o maior número possível de civis.

O resto, a justificação de que os mortos não são crentes, e etc., destina-se apenas a sossegar moralmente os combatentes e atemorizar ainda mais os adversários. Não adiantam pois nada, mas mesmo nada, as diatribes contra a barbárie dessa gente que não olha a meios. É precisamente isso que eles querem que se pense. Faz parte da campanha de terror.

De resto, ainda estou para ver qual o resultado dos ataques de Londres. Mas até aqui a táctica tem-lhes corrido bem: nos EUA, que é o que conta, a opinião pública tem vindo a deslizar constantemente para o lado da anti-guerra.

Mas, por favor, só posso voltar a aconselhar a leitura da entrevista de Michael Scheuer à Visão.

Tirado daqui 2

Continuando o post abaixo (e tirando do mesmo sítio), vemos como Rush Limbaugh grande cronista da direita nos EUA, aproveitou para dizer que os críticos americanos da política americana são aliados do Bin Laden (sounds familiar...):

Rush Limbaugh, meanwhile, suggested that everyone should just get over it, implying that "40 people dead" just isn't a big deal:

That's, ah, the mayor of London, Ken Livingstone. Very powerful, excellent. And it was such a great contrast to what we're seeing in our own media this morning with the hand-wringing I was speaking about and the "Oh, woe is us" and "Oh, what did we do to cause this?" and "Oh, does this mean we're going to get hit?" and "Oh ..." It's like I said -- 40 people dead, 150 seriously wounded, 1,000 wounded, out of over 1 million people in that transit tube. It's not a successful terrorist attack, folks.

Limbaugh also accused Sen. Barbara Boxer (D-CA), Democrats, and critics of the prisoner treatment at Abu Ghraib of "aiding and abetting" the terrorists, adding that Osama bin Laden "sounds like John Kerry":

When bin Laden talks about the "evils" of the United States and why it must be attacked -- it sounds like John Kerry in his 2004 presidential campaign. When whoever did this in London explains why they did it -- sounds like any liberal criticizing a successful capitalist country to me. So when you want to talk about, Sen. Boxer, the insurgents are winning the propaganda war, my question is, "Who's helping them? Who's assisting them? Who's going ape and bananas over Abu Ghraib and Gitmo? Who is aiding and abetting them? Who, who is it when they speak in this country -- the terrorists sit back and laugh themselves silly?" It's you, Sen. Boxer, and members of your party.

Tirado daqui

Tirado daqui.

Fox News reacts to London bombings ...

In the hours after the June 7 terrorist attacks on the London mass transit system, three Fox News hosts offered appalling and callous opinions of the tragedy.

Fox & Friends host Brian Kilmeade suggested that the attacks were somehow beneficial:

And he [British Prime Minister Tony Blair] made the statement, clearly shaken, but clearly determined. This is his second address in the last hour. First to the people of London, and now at the G8 summit, where their topic Number 1 -- believe it or not -- was global warming, the second was African aid. And that was the first time since 9-11 when they should know, and they do know now, that terrorism should be Number 1. But it's important for them all to be together. I think that works to our advantage, in the Western world's advantage, for people to experience something like this together, just 500 miles from where the attacks have happened.

Fox News Washington managing editor Brit Hume saw the attacks as a way to make a quick buck in the futures market:

I mean, my first thought when I heard -- just on a personal basis, when I heard there had been this attack and I saw the futures this morning, which were really in the tank, I thought, "Hmmm, time to buy."

And Big Story host John Gibson suggested that the real tragedy of the bombings wasn't that they happened at all, but that they didn't happen in Paris:

The bombings in London: This is why I thought the Brits should let the French have the Olympics -- let somebody else be worried about guys with backpack bombs for a while.

The Fox News callousness wasn't limited to Kilmeade's ability to find the bright side of a deadly terrorist attack, Hume's greed, and Gibson's frustration that the French weren't attacked. Fox News correspondent Simon Marks distinguished between Arabs and "regular" Londoners:

It [Edgeware Road] is an area that has a very large Arab population. Surrounding that station, a large number of Middle Eastern restaurants. So, it's a further indication, if in fact these attacks were carried out by Al Qaeda-affiliated cells that these people are, if necessary, prepared to spill Arab blood in addition to the blood of regular -- of non-Arab people living in London.

We wonder how long it would take for Hume or Gibson or Bill O'Reilly to call for resignations if employees of another news outlet -- say, CBS -- had made these comments.

O Verão, como em redacção infantil

O céu com um pouco de fumo, como nos tempos em que a fábrica da cortiça fazia figuras no ar. O dia seco, urgente, cheio de momentos indiscerníveis. E o furacão p'rós lados de Cuba. E o senhor Carrajola que morreu (o senhor pequenino mas todo dinâmico e musculoso, alisadinho, dono do Café Central da minha adolescência e um pouco mais, onde via o Régio sentado e depois uma que outra vez me sentei com ele). O pedacinho de praia entrevisto de relance, mas ao pé das ondas, em Ofir - lugar meio real meio imaginado pelo nome, pela eventual sombra num interior de gente.
E afinal eram figuras de fogo estas de agora. De estação alucinada ou melhor: feita para peculiares assombrações. E o político declarante e o futebolista titubeante e os escritores de um blog que não conhecia exercitando o seu talento realmente de facto universitário mas que não vê não distingue que é preciso não ter razão ou melhor: estarem fora dessa razão que sendo a mais inteligente é a mais estúpida, dado que dançam a valsa como roscas moídas, suaves como um tiro no ombro (direito?esquerdo?).
E a água - o vinho fresco e a limonada que se recordam - que não chega para as encomendas e que lá no outro lado do mundo vai quilhando os despossuídos.
E isto e aquilo e o que se vê e não se topa e o outro e o seu contrário e a ilusão viajando de autocarro ecológico citadino como nas fábulas do Claude Aveline.
E, também, num relance, o partidão que está com cada vez menos popularidade, apesar da crise das críticas dos embalos de quem devia ser mas se recusa a ser, que marotos, o "proletariado". E a constatação que o seu chefe vai perdendo a graça, a marca de fábrica, o olhar de lince. O olhar de Verão?
Como, evidente e certo muito verdadeiro - como um almoço ao sol, tal qual reza na expressão cintilante e comum.

Um clarão laranja

Todos os verões, temo-nos limitado a esperar pelo Outono. A única novidade é o inteligentíssimo telemóvel da última geração onde apanhamos sempre uma carinha roliça. No entanto, as linhas e as cores cruzam-se perigosamente. Em Londres, na linha amarela, antes de chegar às Picoas, rebenta uma, e logo outra entre a Saint Sulpice e a Maiakovskaia. Na Itália escura, onde «o poder é viscoso como mãos de barbeiro» (Mandelstam), espera-se o pior. Por cá, em vez da carinha roliça no ecrã a dizer pai dá-me dinheiro para os ténis vá lá, o teu telemóvel pode muito bem apanhar um clarão laranja saturado de membros.

Filipe Guerra

8.7.05

Para o Filipe Guerra

Sobre os Tchetchenos, um poema que publiquei em 1998 e escrevi alguns anos antes, não sei quando:

POEMA PARA UM TCHETCHENO

"Não odeio os meus inimigos, mas tem de ser."
Era professor de História e um dia, passeando pelo meio
. dos tanques russos, e os russos não brincam,
Viu uma metralhadora desempregada. Pegou lhe às escondidas.
Esvaziou se lhe o coração. Em casa tinha alguns livros por ler
Sobre a construção de Bizâncio, um guia da Internet,
Um computador roubado em Hamburgo, RFA, e comprado na
. candonga à mafia local,
Estava a escrever um livro, e tinha pouco tempo e mesmo assim
. deu-o à chamada pátria.

"plo buraco na parede do disparo do canhão do tanque russo
entrou te o míssil o medo
e com ele a pátria em casa
tapaste mal o buraco
com um jornal irrisório
irrisório contra o frio
com irrisórias notícias
cartaz de um mundo já morto
. e ela nunca mais saiu de lá de lá de dentro do fundo
. da casa
. e de ti.

Robespierre o puro o puro o casto o perfeito
a partir dos inimigos
foi fabricando inimigos
que depois tev' que abater
e acabou por ir pousar o pescoço no paridor de
. órfãos donde a cabeça lhe rolou para o chão
a História é assim salta nos ao caminho e não convém
estar em sítios que não convém quando ela passa.

porém ela
. não avisa quando vem."

Então isto que a gente faz tanto faz?
Então esta cara mais ou menos imprestável que todos
. mais ou menos temos,
Não nos ilumina o caminho no espelho de noite,
. quando falta a luz
Por causa da porcaria duns tanques russos?
Podemos continuar a não odiar os nossos inimigos?
Podemos cuspir o sujo e abrir um espaço limpo no coração?
Há, por outro lado, ódios bons, de coração
. quente e cabeça fria?
Podemos varrer os mortos para debaixo do tapete, antes
. de chegar a inspecção?
Eis muitas perguntas e que vamos nós responder lhes?

Literatura em férias



- Não concordo consigo, Pizarro - referiu Viracocha esboçando um sorriso - Acho a maioria dos críticos do lugar uns (...) e ainda é dizer pouco!
- "Em torno de minha casa, junto ao pequeno jardim, passeavam pombas e um que outro pardal ia ali poisar..." - disse Alexandre Magno levantando a cabeça e observando atentamente o Capitão Barbanegra que podava roseiras - E os adeptos do golfe, do chito, Viracocha? Aqueles desqualificados éticos que desculpabilizam batoteiros e hostilizam as suas vítimas só para manterem o status quo que lhes preserve os privilégios corporativos em que se enleiam como uma verdadeira (...) que são?
- Não me lixe, Viracocha - regougou Luís XIV sem lhes ligar meia e dando um jeito na peruca - Esses tipos são uns perfeitos(...). Nem sei que mais lhes chamar! Repare nas suas conversinhas, nas suas...escriturazinhas: falam muito a sério na qualidade de um texto de Rilke, de Marcial Lafuente Estefania, de Marcel Proust, de Gide, de Silver Kane - quando deviam era estar moídos de pancada por três cidadãos, desses que se estão rilhando para as famas e demais traquitanas de tal forma que já só andam na escrita para apoquentar o sistema dentro do seu raio de acção. Repare que...
- Ouça, seu luisão das dúzias - atirou-lhe Pizarro com um sorriso meio escarninho - Tem de notar que agora o que faz moda no reino são os trechinhos entre o lírico e o irónico dumas moçoilas requentadas, sem ponta de talento ou de (...), mas que os donos da fita acarinham como ovelhinhas...É a altura da graça meio-sacana meio-poética, tá a ver...? Em épocas de decadência e já nem falo de decadência ética mas em malta sem (...), percebe? estimula-se a galhofa, isso é bom para os vivaços-espertalhaços!
- A um desses safados fiz eu a cabeça em água. Literalmente... - disse Ricardo Coração-de-Leão pespegando um murro na mesa - Levou com uma massa-de-armas no alto da cachimónia que nunca mais escreveu uma linha, esse fedorento! Se todos procedessem assim, acabavam-se os abusos num ápice. Mas vocês é só conversa de xáxa, Pizarro...
- Isso é o que você pensa, Ricardo - volveu Viracocha pondo-se de pé com modos impetuosos - Ainda ontem eu e aqui o Hernan Cortez démos cabo do canastro a três "artistas" duma revista de análise literária com prosaria de fugir, empalando-os que até ficaram hirtos... O que os biltres espumaram antes de darem as tripas ao Criador... Não foi, Rob Roy?
As risadas ecoaram pela vasta quadra celestial. Como rajadas. Como chuva de temporal...
Pé ante-pé, antes que alguém reparasse que eu estava a espreitar pela nesga de firmamento, escapuli-me sem um sussurro. Mui pianinho...
Pudera não! As coisas, estava a comprová-lo, também não andam a correr lá muito bem na pradaria das caçadas eternas.


O quadro que acompanha este texto é da autoria de Joan Benàssar, o artista argentino naturalizado espanhol e residente em Barcelona.

À guisa de explicação

Do dr. Tomás Videira, meu próximo convidado do folhetim literário que recentemente o Quartzo em boa hora estimulou cumprindo a sua tarefa de aproximar os leitores das diversas classes, nomeadamente e exponencialmente literário-operativas (não sei se a expressão está correcta mas a intenção é perceptível) e visto que é, para além de sociólogo estimado, novelista com provas dadas e ex-polícia, mantendo-se como guarda-nocturno "Por inclinação, por maneira de ser, por devoção ao bem público, por nostalgia poética...Eu sei lá!", mas sendo de igual modo coordenador de condomínios, gerente de um bar, praticante de enki-do - disciplina que se pratica com espada curta e adaga, como alguns saberão - além de...
Mas não nos alonguemos - eis pois a carta que me endereçou:
"Nicolau - Tu desculpa lá a pôrra da maçada mas só posso aí estar na segunda-feira, catano!".
Aqui ficam, portanto, as suas explicações aos leitores.

Anatomicamente Imperfeitos

"Requiem por Ruth Handler" é um poema delicioso - e formalmente perfeito - de Inês Lourenço (n. 1942). Está no último livro da autora, provavelmente o seu melhor, "Logros Consentidos" (Lisboa, &Etc., 2005, pp. 40-41). A partir da boneca Barbie (portanto de um brinquedo, mesmo que na sua essência um símbolo), chega-se à vanidade da condição humana e à futilidade das sociedades do artifício e do desperdício, das aparências e do plástico. Só um(a) grande poeta poderia escrever um poema assim.


Requiem por Ruth Handler


Morreu ontem a mãe da Barbie,
a boneca adolescente. À semelhança de
Atena, Barbie saiu armada dum
cérebro, não divino, mas industrioso,
com a longa cabeleira e a azúlea mirada.

Morreu a mãe da Barbie, a filha
que nunca será órfã, pequeno duende
de soutien 38 e de 33 polegadas
de altura. Trinta e três polegadas
multidesejantes de sonho
anatomicamente impossível.

Morreu a mãe da Barbie, que
faz ballet, ski, patins em linha e
todos os desportos radicais e tem
um namorado elegante, que jamais
a trairá e amigos tão anatomicamente
imperfeitos como ela.

Morreu a mãe da Barbie, que vai
a todas as festas com muitos
vestidos de gala e enegreceu
há uns anos, qual Naomi Campbell, para
ser consumida pela boa
consciência racial do Ocidente.

Morreu a mãe da Barbie, que jamais
a viu, assim anatomicamente imutável,
padecer de uma gravidez adolescente.
A Barbie é sabida e deve ter tido educação
sexual. Que fará ela, com o Ken
no regresso de tantas festas?

Nem paixão, nem desgosto, nem fome
ou uma boa tareia dos adultos, alteram
a sua fábula de plástico, muito menos
fabulosa que a Branca de Neve ou a
Bela Adormecida, onde existiam
humanas bruxas, vencidas maldições
e príncipes que davam beijos ao acordar.

Morreu a mãe da Barbie, cedo demais
para inventar uma Barbie de burka,
ou de explosivos escondidos no cinto. No
fim da vida continuava a vender milhões
de próteses mamárias, na sequência da sua
própria mastectomia. Coisas sem brilho,
impossíveis de acontecer
à Barbie.


Inês Lourenço

Já se ouvem daqui os primeiros roncos



O Grande Prémio Histórico do Porto - Circuito da Boavista será um grande acontecimento internacional. Diz que vem gente de Braga.

Por onde começar?

Quando saí de casa, esta manhã, parecia meia-noite. O sol estava encoberto por uma espessa camada de fumo negro. Sobre a Boavista impendia a tirania dos incêndios. Das serras de Gondomar e Valongo veio um vento quente cheio de cinzas tristonhas, anoitecendo tudo à sua volta. No quiosque, dois tipos trocavam opiniões sobre as explosões em Londres e a chuva de cinzas no Porto, reforçando os seus arrojos especulativos com significativas nuvens de tabaco. Eu não aguentei mais e acendi também um cigarro, pensando como é maravilhosa a civilização.

Fascismo e Al Qaeda 2

A Al Qaeda também não é fascista pelo seguinte.

O fascismo, sobretudo na sua forma mais virulenta, o nazismo, foi a resposta das massas pequeno-burguesas em errância a uma crise catastrófica em sociedades industrializadas democráticas desenvolvidas. Concentrando os ódios em inimigos fáceis (os judeus, pretensos representantes da plutocracia, bem como os ciganos, etc., sendo que estas duas categorias também representavam os estrangeiros; os sindicalistas, socialistas e comunistas, apresentados como aliados daqueles), o nazismo teve como primeira tarefa destruir os partidos e organizações de esquerda.

Só triunfou (digo só, mas é talvez um pouco abusivo, pois ninguém sabe o que teria acontecido se?), devido à política criminosa da Internacional Comunista, política chamada de classe contra classe, que assimilava os social-democratas ao imperialismo e se recusava a fazer alianças com estes contra o inimigo comum: quando Hitler subiu ao poder tinha menos votos do que os social-democratas e comunistas juntos.

A via para lutar contra eles era pois uma aliança entre organizações de massa dentro dos países em questão.

A Al Qaeda e outros radicalismos islâmicos é a resposta de uma civilização decadente que já foi brilhante à contínua humilhação que lhe é imposta pelas potências ocidentais e mais recentemente pelos EUA, principal ou única superpotência. Repare-se que durante dezenas de anos foram eliminados nos países islâmicos os movimentos laicos com a complacência ou até por iniciativa das potências ocidentais (sendo que o caso mais notório foi o Mossadegh e o partido comunista do Irão, bem como o partido comunista da Indonésia).

O radicalismo islâmico não é qualquer coisa inscrita nos genes dos árabes, ou dos turcos, ou dos persas ou dos indonésios, mas o reflexo monstruoso (peso as palavras) de sociedades que se sentem (e são) fracas, perante o poderio do ocidente, sobretudo nos países petrolíferos, sociedades ainda por cima abafadas na sua generalidade por ditaduras, onde a expressão da chamada sociedade civil foi emasculada.

O radicalismo islâmico de massas é, além disso, um fenómeno recente, surgido após o falhanço de movimentos mais laicos ou pluriconfessionais (FNL argelino, nasserismo, Baas, Mossadegh, Al Fatah, etc.)

A via para lutar contra o radicalismo islâmico é pois uma mudança de política dos governos ocidentais.

Fascismo e Al Qaeda

Em vários comentários disse que a Al Qaeda não é fascista, coisa que não foi bem recebida pelas massas. Não me admira. Quando, por várias vezes, tenho tido discussões destas a propósito de outros fenómenos, as pessoas costumam achar que sou um picuinhas, um esquisito.

Mas não. Neste caso, uma das coisas que distingue a Al Qaeda do fascismo é que a Al Qaeda não é um movimento de massas, contrariamente ao fascismo. Dessa forma, é o instrumento ideal para lutar contra um inimigo militarmente muito mais poderoso.

Bastam pequenas células espalhadas no território em luta para lançar a confusão no campo adversário.

E, mais, bastam pequenas células espalhadas por qualquer canto do mundo para lançar o pânico e o terror no adversário e abalar a moral das tropas no terreno e da retaguarda. Não se pode atacar no sítio em que o adversário tem mais força?

Ataca-se noutro sítio qualquer, sobretudo contra alvos fáceis e indefesos,para causar o maior estrago possível.

Com meia dúzia de combatentes, cria-se uma auréola de heroísmo nos jovens islamistas de todo o mundo que servirá de base para novos recrutamentos.

Aí está porque a política errada de Bush no Iraque e no Médio Oriente não nos tornou mais seguros, mas menos seguros. Aí está porque atacam em Londres. Aí está porque tentar ser rigoroso na análise só nos faz bem.

Michael Scheuer à Visão

«A actual administração não tem qualquer ideia do inimigo que representam Bin Laden, a Al Qaeda e os seus aliados. A política americana para fazer frente ao extremismo islâmico foi elaborada e aplicada por ideólogos neo-conservadores, aliados de Israel e das suas políticas, que enganam o povo americano, dizendo que Bin Laden e os seus acólitos odeiam e atacam a América exclusivamente pelo que somos - as nossas liberdades e cultura - e não pelo que fazemos. Este argumento ou é tremendamente desinformado ou é uma mentira deliberada e mortífera. O movimento que Bin Laden dirige e personifica odeia e ataca a América por causa da sua política externa, em especial devido à presença das forças armadas americanas no mundo islâmico. Se a América altera ou não estas políticas, depende, como sempre, do povo americano e dos seu processo democrático.»

Mas vale a pena ler toda a entrevista.

O suicídio de Masada

Naqueles tempos os romanos ocupavam Israel.

Entre os judeus, os sicários eram os mais ardentes lutadores contra a ocupação romana e iam ao ponto de matar os seus próprios compatriotas que suspeitavam de colaboração. Injustamente, porque muitos destes últimos também os acompanharam na luta contra os romanos.

Mas os sicários não eram os piores.

Seja como for, um sicário de qualidade estava acolhido em Masada, quando o general Flavius Silva marchou contra ela.

Eleazar reuniu toda a gente de Masada e disse: «Não vamos deixar que os romanos nos apanhem vivos,pois seríamos sujeitos à servidão. Matemos as nossas mulheres e filhos, queimemos as riquezas, e matemo-nos uns aos outros. Mas deixemos os víveres para que os romanos vejam que não foi por fome que nos matámos.»

Quando viu que alguns fraquejavam, retomou o seu discurso, explicando que a alma era imortal.

Ao fim deste discurso, estavam todos entusiasmados. Cada homem matou a sua mulher e os seus filhos. Depois, designaram dez homens para matarem os outros. E, no fim, um desses dez matou os outros. E a si próprio deu a morte, depois de queimar todas as riquezas.

O número de mortos elevava-se a novecentos e sessenta, contando com as mulheres e as crianças. Este desastre aconteceu no dia 15 do mês de Xanthicos.

(Muito) adaptado de Flavius Josephus, "Guerra dos Judeus".

Falta saber se houve suicídio colectivo ou não, ou simples resistência até à morte. Se os sicários eram isso que dizia FJ ou não (Flávio Joseph era um aristocrata judeu que se passou para o lado dos romanos). Não sou historiador, não sei. Mas o tema «liberdade ou morte» é muito antigo.

7.7.05

Que bem se está nos Aliados.



Teve lugar no auditório da Fundação Eng. António de Almeida, ontem à noite, um debate que juntou várias associações culturais e ambientalistas e muitos cidadãos portuenses interessados no destino da Avenida dos Aliados e da Praça da Liberdade. Em causa esteve o polémico projecto de Sisa Vieira e Eduardo Souto Moura. A iniciativa é de louvar, e teve o mérito de despoletar dezenas de intervenções de cidadãos mais ou menos anónimos. Do ponto de vista da participação cívica, foi um sucesso. Mas o debate pecou por não ter apresentado soluções para esse espaço apresentado como "o coração da cidade". Surpreendeu-me que nenhum dos oradores presentes na mesa tenha mostrado estar consciente de que os Aliados têm um grave problema de funcionalidade urbana. Limitaram-se a contestar o projecto numa corrida aos adjectivos mais duros com que qualificá-lo, e quase sempre se serviram de fracos argumentos e de um discurso mal articulado. A partir do momento em que se passou a palavra à assistência, o debate transformou-se rapidamente numa catarse colectiva em que cada um procurava mostrar-se mais revoltado e indignado que o interveniente anterior, como se houvesse ali uma competição para saber quem mais amava e venerava a cidade do Porto. Não digo que a revolta e a indignação não fossem sentidas, ou, em muitos dos casos, plenamente justificadas, mas como não se discutiu de cabeça fria e como não se tiveram em conta todos os aspectos do problema, o debate resultou improdutivo, ainda que dele tenham saído uma série de abaixo-assinados.
Do meu ponto de vista, há três pontos essenciais a ter em consideração:

1- A falta de cultura democrática de Rui Rio é o aspecto mais grave de todo este processo. Que dizer de um homem que hostiliza tudo e todos, que compra guerras a um ritmo frenético, que se recusa a ouvir sugestões, opiniões ou pontos de vista diferentes dos seus? Que dizer de um homem que não aceita ou encaixa uma crítica? Que se faz constantemente de vítima, na linha da melhor escola santanista? Que dizer de um homem que, ao invés de promover o debate público, de encorajar o envolvimento dos cidadãos, de querer ouvi-los, faz precisamente o contrário, fechando-se em copas e tapando os ouvidos? Trata-se do grau zero da pedagogia cívica e política por parte de quem tinha a obrigação de dar o exemplo. Só por isto Rui Rio merece ser severamente castigado pelos cidadãos do Porto nas eleições autárquicas do próximo mês de Outubro.

2- O projecto de Sisa Vieira e Souto Moura é um projecto viciado à partida porque, em lugar de aliviar o peso do trânsito e devolver os Aliados aos peões, cede perante a ditadura do automóvel. Ora isso não é requalificar ou reabilitar coisa nenhuma, mas apenas maquilhar o espaço apelidado de "sala de visitas" do Porto. Não é de uma operação de cosmética que os Aliados necessitam, mas de uma intervenção profunda e que tenha em conta as acessibilidades. Com uma estação de metro que vem respirar à superfície bem no centro da Avenida, podia-se muito bem limitar a circulação automóvel aos transportes públicos. Mais uma vez, faltou a coragem.

3- A massa crítica da cidade que se opõe ao projecto pretende que os Aliados permaneçam incólumes, que tudo fique como está. Ora é precisamente aqui que erram e aqui que perdem a razão. Foi num ápice que o Porto, onde o granito é rei e senhor - o que lhe confere a tão característica e apreciada tonalidade cinzenta - se mudou, perante o olhar enternecido de respeitáveis figuras da cidade (alguns deles arquitectos) numa virgem branca e luminosa ameaçada por um escuro monstro de pedra. Subitamente, como que por artes mágicas, os Aliados, que são apenas um lugar de passagem para quem quer ir aos bancos, ao correio, à C.M.P. tratar de papelada ou apanhar o autocarro, tornaram-se num local aprazível, usufruído e frequentado por todos. As placas centrais, enfeitadas com canteiros de flores e mobilada com uns quantos bancos de jardim passaram, de um dia para o outro, a ser um ponto de encontro, um sítio de convívio e reunião onde pais e filhos passeiam, casais de pombinhos namoram, ruidosos amigos falam de futebol e velhinhos jogam placidamente às cartas enquanto deitam, por cima do ombro, um comovido olhar aos netos que brincam na lustrosa brancura da calçada portuguesa. Tal cenário é pura ficção e nunca, em momento algum, correspondeu à realidade. Afirmar o contrário é desonestidade intelectual. Como é que os cidadãos do Porto podem usufruir dos Aliados se nada há nos Aliados para ser usufruído? A não ser que se esteja a pensar nas cinco ou seis ocasiões anuais em que o Porto ali acorre em massa (S.João, passagem de ano e vitórias do F.C.P.). Mas para isso tanto adianta o que lá existe neste momento como outra configuração qualquer, porque nessas ocasiões os automóveis praticamente não circulam. É dar um salto aos Aliados depois de jantar e verificar o quanto os portuenses usufruem desse espaço. Encontram-no, é claro, completamente deserto. Muitos dos que agora apresentam a "sala de visitas" do Porto como um espaço aprazível e humanizado não se preocupam, ao longo do ano, em frequentar os poucos cafés que ainda ali resistem, à custa de muito sangue, suor e lágrimas. Não é lá que vão tomar o cimbalino, isso é garantido. A isto, senhores e senhoras, chama-se demagogia. Qualquer discussão séria terá de passar pela proposta de alternativas ao actual cenário.

Em Londres como no Iraque

Tão assustadora como os ataques terroristas é a ideologia que está por trás deles. As declarações de Al Zarqui no Iraque, ontem, ferem como bombas as consciências humanas: o embaixador egípcio teria de ser morto porque é «apóstata», «aliado de judeus e cristãos». Logo, para os ideólogos do terror, ser apóstata, judeu e cristão já é ser não-humano, logo, não ser respeitado sequer como adversário ou inimigo. Quando Blair diz, sobre os bombistas de Londres, que «estas pessoas não respeitam a vida humana», além de ter razão, está nos antípodas da ideologia profundamente fascista que move os terroristas, já que ainda os considera como «pessoas». Pobre Iraque, que tem como opositores mais activos da ocupação apenas estes fascistas.

Filipe Guerra

Contra a barbárie, também a poesia

Londres
Visitei Londres pela primeira vez numa manhã de Primavera.
Numa das margens do rio, um pouco ao estilo vitoriano
rapazolas snifavam tranquilamente
tornavam real e popular o mistério que William
Blake espalhou pelas coisas do inferno e do céu.
Velho carola
O que eu lhe li nas entrelinhas
o que eu inventei à sua custa com a proverbial
lucidez mediterrânica
Mas passemos adiante. Salvo erro
- e creio que isto é exacto -
daquela maneira desasada é que habitualmente circulavam
os que numa serena e fresca noite resolveram limpar o sebo
mesmo sob o nariz dos transeuntes
à jovem Elisabeth Douglas com sete naifadas no baço
(a sua mãe, o seu pai choroso
o ar compungido da locutora boazona
o cheiro provável a cera fria dos demais figurantes...)
Os cisnes em Datchet Court
solenes como dois turistas numa pensão da linha.
Londres Londres dali vejo partir os velhos aventureiros
G.A.Henty com a sua gravata verde os olhos piscos
Poetas envinagrados conjurando-se a uma esquina
lançando a âncora num pub despertando lembranças
Sucheu Bali as savanas do monte Kenya
lá passam de autocarro até Hampstead
não naturalmente pelos livros mas sobretudo
pelos leitores "recordo-me que uma vez
tentei trabalhar numa casa depois de uma outra quadrilha
lá ter estado
" O meu vizinho que sabe
que tudo é citação faz-me sorrir
conta-me coisas adormece-me.

Muitas coisas ficam desconstruídas, do grave
ao divertido
ao fim duma meditação intempestiva
Os domingos de sol
As prímulas na pradaria de Runnymede
O choro de Defoe ou de Donne sobre os rochedos de Chaltenham
O amplexo de um preto velho numa lojeca de Carnaby Street.
Mas a inocência
é já matéria sem relevo
é uma pérola uma pedra fibra descarnada e melancólica.
Londres exactamente e tudo o mais é divagação
há 300 anos eu aqui seria um inimigo.
Os salpicos de lama feriam-me a concentração
mas não havia bruma ouvia-se
um piano mecânico nas redondezas
Deserta a cidade rapaziada pedante mariquices isabelinas
- o obelisco como um carvalho nas colinas de Cape Staines.
É difícil pensei eu lançar o olhar em volta
tanta coisa poderia eu sei lá acontecer
A rapariga junto ao poste de iluminação pensativa
Cinco sonatinas para violoncelo e a sombra de Mateus Pipperbarem
uma voz que ondula de repente e pára.
Ferrovias contudo desdobravam-se ao longo dos continentes e foi então
que me ocorreu mas que faço
eu aqui
No entanto uma doçura muito velha percorria-me de cima a baixo
a Inglaterra florida e violenta martelava-me na cabeça
Robinson surgia de súbito acenando com um jornal na mão
Interrogativo um pouco alucinado.

A minha alegria ousará abrir caminho por aqueles labirintos.
A tepidez do Inverno num lugar mais aprazível.
Olho de novo o céu. A multidão comprime-se.
Noutras condições pergunto ainda estarei no recanto que sonhara?

Juan Pedro Moro

Trad. NS

Nota - Nasc. Alcalá de Henares, 1966. Trabalha em Inglaterra como decorador. Em 1998, ao encontrar-me com ele na sua terra natal, entregou-me este poema que imediatamente traduzi e entreguei à revista DiVersos, onde ficou para publicação.
Com amargura pelo acontecido mas decisão para ajudar a enfrentar a fera, aqui o publico já.

Outra vez

BBC

O homem que se parecia com Soares



"Foram muitos milhares os que, profundamente consternados, assistiram ontem ao funeral de Salomão Castelo, numa cerimónia impressionante com que o país culto, democrático e bem vestido se despediu do criador do 'traje reversível', da 'casaca multi-usos', da 'Oeiras Fashion 2005', de tantas realizações que se projectaram internacionalmente no campo da moda e do design de fatos de senhora e cavalheiro que não só vestiram durante anos as figuras gradas do regime - desde Isaltino Machado a Valentim Lourenço, passando por Ruben Pinto, Margarida Rebelo de Carvalho ou Cunha Dias - mas também personalidades estrangeiras como Saddam Rockfeller, Laura Castel-Branco e Al Capush ou, porque o mestre era profundamente popular, pessoas vulgares mas distintas como uma Maria Manuela Carrilho, um Cavaco e Sousa, uma Leonor Bondades, um Aventino Ferreira Gomes...
Muitos dirão que uma parte da multidão presente era constituída por inimigos do homem público com quem Salomão se parecia e que, já que o original não se mostra disponível em ir desta para melhor - ou pior, dado que é laico - iam ao menos contemplar na câmara ardente o perfil do seu adversário ainda que só, digamos assim, em simulacro. No entanto estamos em condições de afirmar que o 'grosso do pelotão', para empregarmos a expressão imaginativa e realista do poeta João Leandro Palma Cavalão, era constituído por gente simples ou grada que nutria profunda admiração pelo homem que, saído da classe trabalhadora (seu pai era também alfaiate e a sua progenitora trabalhou como aprendiz de costureira) soube projectar-se nos domínios da moda com talento inovador. 'Um trabalhador da agulha e da tesoura sempre coerente com os seus princípios. Não dava ponto sem nó, o que mostra a qualidade das suas confecções! Na fashion, a sua palavra avisada era uma verdadeira sentença!' - diria com emoção o seu rival e amigo Jerónimo Ratana ao abandonar o cemitério onde o invólucro terreno de Salomão, que era profundamente crente (foi ele que desenhou e confeccionou o actual new-look das sotainas eclesiásticas nacionais), ficou depositado 'et saecula saeculorum'.
A multidão debandou após prolongadas ovações ao designer criativo que, de certa forma, mudou a indumentária de Portugal!".
(Dos jornais)

Salomão Eduardo Pote Castelo nasceu em Braga e especializou-se em corte e costura com o mestre Fernando de Assaz, que lhe ensinou como virar uma casaca a preceito e lhe deu o segredo de do velho fazer novo como ele dizia com chiste. Recebeu diversos prémios nas feiras de fashion de Frankfurt e S.Paulo e, ainda, o "Prémio Camoens" para fato de três peças. Deixa viúva a senhora D.Antonieta Lopo Antunes Castelo, a quem endereçamos os nossos sentidos pêsames.
O poema escolhido pelo artista/artesão desaparecido é o "O paletó" do grande poeta brasileiro Mauro Mota:

Nas mangas, moles túneis, onde enfio
os braços, colho o paletó semeado,
vindo da terra quente contra o frio;
dos estágios botânicos passado

à flor industrial: fio por fio
longo do algodão vivo no trançado
do brim que a estamparia coloriu
e expôs no manequim abotoado.
Nem o tear, nem a alfaiataria,
lembro ao colhê-lo: vejo-o nas matrizes
do chão, para onde há-de voltar, um dia,

comigo. As mãos, nos bolsos quando afundo,
antecipa-se o gesto mais profundo,
plantam-se os dedos como dez raízes.


Nicolau Saião