Vai no Batalha #9
CARTA ABERTA AO PAI NATAL (E BALANÇO PESSOAL DE 2003)
«Caro Pai Natal,
Antes que te interrogues por que razão te escrevo, deixa-me que explique desde já: não sei mais a quem recorrer para obter algum conforto espiritual. E acredita que já bati a várias portas, desde o padre Vítor Melícias à taróloga Maya, sem que conseguissem apaziguar-me a alma. Estou positivamente desesperado! Nota que os do futebol deixam de dormir uma ou outra noite devido à azia quando a vida lhes corre mal, segundo li nos jornais, mas eu não repouso como deve ser há tantos meses que já lhes perdi a conta…
Primeiro – decerto ainda te lembras – foram as “modernices” do Paulo Portas, que quase me obrigaram a demiti-lo perante a chuva de protestos de toda a oposição, não fora acarretar o fim de uma coligação que tantos sacrifícios tem custado; depois, as saídas de ministro do Valente de Oliveira e do Isaltino de Morais, este às voltas com falsas declarações de rendimentos e estranhas contas bancárias na Suíça; há menos tempo, o escândalo da “cunha” que envolveu o meu (ex-amigo…) Martins da Cruz e o Pedro Lynce. Já para não falar, claro, das constantes inabilidades e gaffes da maioria dos meus ministros (ainda) em funções, alguns a dar sinais de uma preocupante incompetência política. Não sei por quanto tempo mais poderei adiar uma remodelação…
Outro problema que me tirou o sono durante grande parte do ano foi o apoio à guerra contra o Iraque movida pelos nossos fiéis aliados de sempre, os EUA e o Reino Unido. Apesar de ainda hoje não perceber bem as vantagens do conflito para a segurança mundial – afinal, nenhuma arma de destruição em massa foi encontrada e o Bin Laden continua a fazer atentados –, lá tive que alinhar na patranha das “provas inequívocas”, ceder as Lajes para uma cimeira de guerra e enviar um punhado de soldados da GNR para uma base italiana, a troco de uns contratos de reconstrução e uns lugares na administração provisória do Iraque. Boa parte da opinião pública do meu país não está comigo nesta prova de amizade transatlântica, mas quero crer que o negócio – quero dizer, a opção política – valeu a pena.
Mais outro sério engulho: a periclitante situação económica do país. Já não posso mais ouvir falar do desemprego galopante, dos despedimentos, das falências, dos salários em atraso, do aumento da pobreza, da quebra do investimento, do crescimento da dívida pública, etc.. Eu bem avisei a Ferreira Leite que tanta obsessão pelo défice não podia dar bom resultado. Até a França considera a nossa política económica um exemplo a evitar! E é vê-la, e à Alemanha, a ignorarem alegremente o Pacto de Estabilidade e Crescimento, sob o olhar invejoso dos países sacrificados, como o meu, que ainda perdoam todas as prevaricações.
Ainda podia falar-te dos fogos florestais que, este ano, arruinaram uma quantidade inimaginável de matas e de vidas humanas e que não conseguimos controlar; do absoluto desastre em que redundou o novo regime de concurso para a docência, que violou todas as normas previamente fixadas e atirou milhares de professores para o desemprego; das inclinações extremistas do nosso parceiro de coligação, o PP, como nos casos da imigração e do aborto; daquele egocêntrico Santana Lopes, sempre mais preocupado com a protocandidatura à Presidência da República do que em governar Lisboa; do obstinado e quezilento Rui Rio, às turras com meio mundo e de costas voltadas para outro meio; e de outros, tantos outros problemas que me foram deixando (e, por arrastamento, ao meu Governo), dia a dia, semana após semana, no estado em que estou hoje: cansado, desmotivado, desiludido, amargo, sem ideias, rodeado por incompetentes e falsos amigos.
O que me vai aguentando? Presumo que aquela característica que os meus assessores de marketing tão bem souberam “vender”, a perseverança, e que me tem ajudado a subir montes e vales (sobretudo nos Açores). E, claro, também me vai valendo a letargia do Ferro Rodrigues e do PS, um PCP cada vez mais inofensivo e apagado, a retórica inconsequente do BE, o semi-anonimato do PND, a docilidade da UGT, os métodos estafados da CGTP, um patronato anestesiado pela recessão económica e uma sociedade civil despolitizada. São ajudas preciosas que, a bem dizer, um primeiro-ministro não pode dar-se ao luxo de desperdiçar.
Meu caro Pai Natal, agradeço o tempo que te tomei ao dirigir-te esta carta aberta, que me deu a oportunidade de partilhar com os portugueses algumas das minhas amarguras e dar-lhes a conhecer o meu "lado humano", algo tão valorizado nesta quadra. Se os teus afazeres te permitirem, aparece logo à noite em S. Bento para entregares as prendas aos miúdos e continuarmos a conversa.
Sinceros votos de bom Natal,
J. M. D. B.»
(Publicado na edição de 24-12-03 d'O Primeiro de Janeiro, com ligeiras adaptações.)




























