5.7.05

De como os filhos abrem os olhos dos pais

"Olha, papá, o céu está a ver estrelas."

12 Comments:

Blogger O Bom Selvagem said...

Pois, já o Pessoa pegou na frase "tenho vontade de lágrimas" que uma criança proferiu para chamar atenção para os verdadeiros poetas que ali estão. Muito do segredo da boa escrita é conseguir voltar a um esquema de raciocínio semelhante ao da infância...

11:46 da manhã  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

O Manel António Pina contava, num encontro público, que alguns dos seus melhores poemas lhe tinham sido ditados pelas filhas pequenas.
E o surrealismo?

11:50 da manhã  
Blogger O Bom Selvagem said...

O surrealismo pois. As crianças são capazes de sintetizar as coisas de uma forma que os adultos não conseguem (tão fácilmente) e fazem associações de ideias muito loucas, como mostram os seus desenhos que nos parecem crípticos e que depois eles explicam e são fabulosos!

Mas atenção que pode ter sido o Pessoa a inventar o ?tenho vontade de lágrimas?, isto tendo em conta a multiplicidade de personalidades que ele adoptou na escrita e o facto dele ter confidenciado isso como Bernardo Soares.

É que TODOS guardamos a infância dentro de nós e é por isso que nos identificamos com o que elas dizem ou fazem.

Podemos colocar uma questão interessante?

Será que devemos olhar de outra forma para os melhores poemas do Manel Pina (pressupondo que foram mesmo ditados pelas filhas pequenas)? Perdem validade? Ganham? Mantêm?

Vi num documentário na Tv sobre arte moderna.
Pegaram num elefante do zoo que fazia quadros. Davam-lhe pinceis e ele pimbas, desatava a pintar telas com uma trincha na tromba. Depois levaram os quadros pintados pelo elefante a dois críticos de arte muito conceituados, um americano e um inglês, dizendo que eram obra de um novo artista.

O inglês olhou para os quadros e disse ?hmm? isto parece-me mau. Lamento, mas é muito infantil e tosco. Vejo por estes traços aqui, veja, aqui, isto é obra de um amador? lamento?
E o americano: ?sim senhor, isto tem valor? há aqui uma força no traço que não é dispicienda.. tanta energia e visceralidade??

Foi hilariante. De facto, qual dos dois teria razão? O americano ou o inglês? ;)

2:53 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Claro que não perdem validade. Pelo contrário.
A história do elefante é extraordinária.

3:02 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Não sei se é tão claro assim.

A única validade estará no Manel António Pina ser sensível para prestar atenção ao que as filhas lhe diziam e ainda mais esperto por aproveitar isso.

Mas do ponto de vista de validade artística, penso que a verdade desmistifica totalmente o objecto? é como ver um quadro sem saber nada da vida do artista. Grandes discussões tive eu à pala disso. Acho interessante ver quadros sabendo por quem e como foram feitos e contextualizados. Há gente que acha que ideal é uma reacção espontânea. Penso que andará entre os dois, mas inclino-me mais para a contextualização.

Tomemos o exemplo de alguém a quem é diagnosticado um cancro nos tomates e lhe dizem que só tem uns meses de vida. Esse alguém não só recupera como ganha a volta a França 5 ou 6 vezes como o Lance Armstrong,
Ora a proeza adquire contornos de mito.

Ora um adulto é assim, é alguém com uma imaginação sem tomates.
O adulto que consegue apropriar-se da linguagem infantil na poesia ou na pintura é alguém especial, é um artista talentoso.Consegue sonhar acordado. Todos os seres humanos (e as minhas 3 cadelas) são capazes de sonhar sonhos fabulosos, cheios de metáforas e surrealismo, e quando acordam são o economista que trabalha num banco com uma gravata apertada ou o cão que se baba quando eu lhe mostro a bolacha. As crianças são o ?sonho?. Somos nós quando dormimos. Já fomos nós.

Isto não significa que o que elas dizem ou fazem não tenha validade, dentro do devido contexto. Podiam assumir a autoria dos poemas. É que deve haver crianças com mais capacidade para isso do que outras.
Mas não o fazem porque os poetas crescidos não deixam ;)


Atenção, aviso-o já que se o Rui dissesse que perdiam validade, eu defendia o oposto só para mostrar que não é tão claro, não senhor!

3:44 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Na minha opinião (valha-me deus...), o verdadeiro artista, como dizia o outro, é o tipo que consegue descobrir um minúsculo grão de ouro perdido no meio de um interminável monte de lixo. Portanto, os poemas do Pina, inspirados em "versos" ditos pelas filhas, são extraordinários porque são pequenos grãos de ouro respigados na fala das filhas. Não é só esperteza. O Pina sabe identificar a beleza. E é isso que falta a muitos de nós. Ou seja, creio que estamos de acordo.

4:43 da tarde  
Blogger O Bom Selvagem said...

Estamos de acordo pois.
que pena :(

4:59 da tarde  
Anonymous Fguerra said...

Ainda bem que o Pina é falado, por ter filhas, por isto ou por aquilo, porque pode ser que mais alguém tenha a curiosidade de o ler. Para quem não está metido nisto da poesia, mas gosta, vai gramando sempre os mesmos (ninguem me tira da cabeça que a crítica institucionalizada e as editoras especializadas rodam num círculo muito pequenino). Eu, como tantos que não são batidos nisto, só há pouquíssimo tempo descobri o Pina e o João Luis Barreto Guimarães.

5:05 da tarde  
Anonymous partido surrealista situacionista said...

O Partido Surrealista Situacionista apoia todas as afirmações aqui proferidas pelo camarada Rui Manuel Amaral.

5:17 da tarde  
Blogger Rui Manuel Amaral said...

Absolutamente, Filipe.

5:46 da tarde  
Blogger Maria Heli said...

Só para dizer: lindo!

8:06 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Só queria deixar aqui um agradecimento, quer pelo blogue, quer pela atenção dada à poesia.

Sou professor 'da quarta classe' e há meses fiz uma experiência numa aula. Expliquei-lhes por alto as regras da poesia (se é que tem regras) e deixei-as criar os seus próprios poemas. O tema era amor.
Deixo-vos aqui com um poema do Tiago que um dia será certamente um grande poeta

"O amor dá muitas prendas no Natal.
O amor olha para as mães da novela.
Queria ir ao elefante azul
E lavar o carro."

10:19 da manhã  

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