7.7.05

O homem que se parecia com Soares



"Foram muitos milhares os que, profundamente consternados, assistiram ontem ao funeral de Salomão Castelo, numa cerimónia impressionante com que o país culto, democrático e bem vestido se despediu do criador do 'traje reversível', da 'casaca multi-usos', da 'Oeiras Fashion 2005', de tantas realizações que se projectaram internacionalmente no campo da moda e do design de fatos de senhora e cavalheiro que não só vestiram durante anos as figuras gradas do regime - desde Isaltino Machado a Valentim Lourenço, passando por Ruben Pinto, Margarida Rebelo de Carvalho ou Cunha Dias - mas também personalidades estrangeiras como Saddam Rockfeller, Laura Castel-Branco e Al Capush ou, porque o mestre era profundamente popular, pessoas vulgares mas distintas como uma Maria Manuela Carrilho, um Cavaco e Sousa, uma Leonor Bondades, um Aventino Ferreira Gomes...
Muitos dirão que uma parte da multidão presente era constituída por inimigos do homem público com quem Salomão se parecia e que, já que o original não se mostra disponível em ir desta para melhor - ou pior, dado que é laico - iam ao menos contemplar na câmara ardente o perfil do seu adversário ainda que só, digamos assim, em simulacro. No entanto estamos em condições de afirmar que o 'grosso do pelotão', para empregarmos a expressão imaginativa e realista do poeta João Leandro Palma Cavalão, era constituído por gente simples ou grada que nutria profunda admiração pelo homem que, saído da classe trabalhadora (seu pai era também alfaiate e a sua progenitora trabalhou como aprendiz de costureira) soube projectar-se nos domínios da moda com talento inovador. 'Um trabalhador da agulha e da tesoura sempre coerente com os seus princípios. Não dava ponto sem nó, o que mostra a qualidade das suas confecções! Na fashion, a sua palavra avisada era uma verdadeira sentença!' - diria com emoção o seu rival e amigo Jerónimo Ratana ao abandonar o cemitério onde o invólucro terreno de Salomão, que era profundamente crente (foi ele que desenhou e confeccionou o actual new-look das sotainas eclesiásticas nacionais), ficou depositado 'et saecula saeculorum'.
A multidão debandou após prolongadas ovações ao designer criativo que, de certa forma, mudou a indumentária de Portugal!".
(Dos jornais)

Salomão Eduardo Pote Castelo nasceu em Braga e especializou-se em corte e costura com o mestre Fernando de Assaz, que lhe ensinou como virar uma casaca a preceito e lhe deu o segredo de do velho fazer novo como ele dizia com chiste. Recebeu diversos prémios nas feiras de fashion de Frankfurt e S.Paulo e, ainda, o "Prémio Camoens" para fato de três peças. Deixa viúva a senhora D.Antonieta Lopo Antunes Castelo, a quem endereçamos os nossos sentidos pêsames.
O poema escolhido pelo artista/artesão desaparecido é o "O paletó" do grande poeta brasileiro Mauro Mota:

Nas mangas, moles túneis, onde enfio
os braços, colho o paletó semeado,
vindo da terra quente contra o frio;
dos estágios botânicos passado

à flor industrial: fio por fio
longo do algodão vivo no trançado
do brim que a estamparia coloriu
e expôs no manequim abotoado.
Nem o tear, nem a alfaiataria,
lembro ao colhê-lo: vejo-o nas matrizes
do chão, para onde há-de voltar, um dia,

comigo. As mãos, nos bolsos quando afundo,
antecipa-se o gesto mais profundo,
plantam-se os dedos como dez raízes.


Nicolau Saião

7 Comments:

Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Bem haja, ó voz do além!

10:56 da manhã  
Anonymous ns said...

Voltei do norte - não do "Grande Norte" como dizia Salgari, mas mais prosaica ainda que gostosamente do nosso Norte, do berço da nacionalidade...
Dorminhoco como sou, digamos que inda não me reconfigurei - o que causa a pessoas do meu lidar um riso cristalino e incontornável.
Mas estou a voltar ao activo...
A bientôt, mes amis!

11:25 da manhã  
Anonymous Guerra said...

Bem-vindo, Nicolau.

11:33 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

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12:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

o rui lage censurou os meus comentários no seu artigo sobre as florestas. o rui lage é um atrasado mental. nhã nhã nhã nhã nhã.

12:05 da tarde  
Anonymous o texto que o rui lage censurou said...

Anonymous said...



Ó Rui Lage, eu para lhe responder tinha de ir ler o seu texto outra vez. E caramba, isso é um sacrifício que você não pode pedir a uma pessoa razoável. Mas pode sempre chamar-me nomes, como fez aos outros comentadores do seu post. Um abraço.

12:10 da tarde  
Anonymous ns said...

Solicito-lhe - já que não lho posso pedir com um pontapé no traseiro, que é o que você pequenote merece - que não polua os meus posts com os seus comments de nulo interesse. As suas batalhas são coisas de pessoa acintosa - logo só valem este pedido. Ou um sorrido de comiseração.

1:43 da tarde  

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