8.7.05

Fascismo e Al Qaeda

Em vários comentários disse que a Al Qaeda não é fascista, coisa que não foi bem recebida pelas massas. Não me admira. Quando, por várias vezes, tenho tido discussões destas a propósito de outros fenómenos, as pessoas costumam achar que sou um picuinhas, um esquisito.

Mas não. Neste caso, uma das coisas que distingue a Al Qaeda do fascismo é que a Al Qaeda não é um movimento de massas, contrariamente ao fascismo. Dessa forma, é o instrumento ideal para lutar contra um inimigo militarmente muito mais poderoso.

Bastam pequenas células espalhadas no território em luta para lançar a confusão no campo adversário.

E, mais, bastam pequenas células espalhadas por qualquer canto do mundo para lançar o pânico e o terror no adversário e abalar a moral das tropas no terreno e da retaguarda. Não se pode atacar no sítio em que o adversário tem mais força?

Ataca-se noutro sítio qualquer, sobretudo contra alvos fáceis e indefesos,para causar o maior estrago possível.

Com meia dúzia de combatentes, cria-se uma auréola de heroísmo nos jovens islamistas de todo o mundo que servirá de base para novos recrutamentos.

Aí está porque a política errada de Bush no Iraque e no Médio Oriente não nos tornou mais seguros, mas menos seguros. Aí está porque atacam em Londres. Aí está porque tentar ser rigoroso na análise só nos faz bem.

11 Comments:

Blogger O Bom Selvagem said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

11:33 da manhã  
Anonymous partido surrealista situacionista said...

Os atentados de Londres são condenáveis. Mas também o são os atentados diários do capitalismo que matam milhões de fome e outros milhões de tédio.

12:09 da tarde  
Anonymous Filipe Guerra said...

Fui eu que lhes chamei fascistas. Não à Al Qaeda em particular, mas ao movimento terrorista islâmico internacional (está provado que é internacional). «Não é fascismo», de acordo. «Porque não é um movimento de massas», errado. É, ou pretende ser, uma «vanguarda» dos movimentos de massas dos países onde actua, logo faz parte dos movimentos de massas. Não falo com o coração, mas como penso, e tento soccorrer-me o menos possível dos livros e das citações avulsas dos pensadores encartados. Também ninguém disse aqui que os estavas a defender, mas apenas a interpretar mal. Tentei clarificar um pouco mais o que penso ser a ideologia que move estes criminosos não-fascistas, mas piores do que isso, noutro local. Mas como parece que a discussão passou para aqui, reproduzo esse comentário:
Está bem, M. Resende e outros, retiro o «fascismo» e a «internacional fascista», já que tendes tantos escrúpulos geográficos, históricos, linguísticos e gostais da palavrinha certa. Retiro então o fascismo e substituo-o por uma merda sem nome, bem pior que o fascismo, e direi, já agora, que Pinochet não era fascista, não senhor, era uma merda sem nome ainda bem pior. E o Stálin também. E acrescento que estes dois, assim como o Bush, o Blair, o Che Guevara, a Madre Teresa de Calcutá e o poeta Rimbaud, p. ex., são produtos perfeitos da civilização ocidental. E os integristas islâmicos também são isso que não é fascismo, e que não é por sermos anti-ocidentais, e eles também, que os devamos desculpabilizar subliminarmente (defendê-los atacando-os, atacá-los defendendo-os). A propósito, Manel: anti-ocidental uma ova! Não há coisa mais civilizaçãozinha ocidental do que o anti-ocidental do Ocidente. Isto daria pano para mangas mas fica para outra vez. Penso que, e tentei dizê-lo, as bases ideológicas do terrorismo assentam, segundo as palavras e os actos dos próprios terroristas, na dstruição pura sem ter em vista qualquer renovação a não ser no céu (o factor religioso bem aproveitadinho, e lá vêm de novo os taliban à baila); daqui decorre o culto da morte redentora e criadora, da desvalorização da vida humana. Ainda por cima, como acontece sempre com a abstracção religiosa, é tudo muito hipócrita: quando têm de organizar o poder e a vida dos homens, estes inomináveis são muito terra a terra: ferozmente conservadores, esclavagistas, rebaixadores da condição das mulheres à de cadelas, castradores de todas as liberdades e de toda a cultura. Embora a civilização ocidental tenha provado que não tem autoridade moral nem «civilizacional» para os condenar, não é razão para que nós, como homens e amantes da vida, não os condenemos.

12:18 da tarde  
Anonymous ns said...

Mas isso é evidente!
No entanto, uma pergunta: se isso é evidente porque é que a extrema-esquerda coloca sempre no seu discurso este contraponto?
E já agora uma coisa: também é evidente que só por razões irónicas, que no entanto também têm uma parte de irrazoável irrisão, é que vos podeis apelidar de surrealistas situacionistas, ainda por cima em partido.
O surrealismo, não o "surrealismo" de aragons, navilles e outros pelo estilo, incluindo o avida dolars, não é de partido nem de partidão e quanto aos situacionistas, como tal, sempre deles se quis manter à distância - pois eram semelhantes às testemunhas falsas contra quem tanto teve de se bater e que tanto mentiu sobre ele.

12:23 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Filipe Guerra:

É claro que é muito difícil circunscrever esta discussão. E não estou nada a desculpar subliminarmente os tais que não têm nome.

E, sim, a Al Qaeda, que foi quem pôs as bombas, é um movimento terrorista de reduzidas dimensões, é uma organização de quadros.

Outra coisa são os islamistas radicais da Argélia e do Irão, por exemplo. Parece-me que convém distinguir muito bem as coisas.

No Irão ganhou agora um ultraconservador as eleições presidenciais. Por mais que se queira, por mais distorcidas que sejam essas eleições, não podemos deixar de pensar duas vezes.

Não se combate o islamismo radical do Irão da mesma maneira que a Al Qaeda, acho eu.

Não vamos meter tudo no mesmo saco, dizer: é o mal, não interessa analisar, é tudo igual ao litro.

Essa atitude é a morte do artista.

Quanto ao anti-ocidental ocidental, plenamente de acordo. A liberdade individual é, como ideia, produto do ocidente, e nisso, meu amigo, não quero ceder. Embora tenha sido desvirtuada, traída por igrejas estados e empresas e classes possidentes. De certa maneira é uma mentira e daí a necessidade de a realizar ainda.

Mas há um traço na nossa cultura que eu definitivamente abomino: aquilo que poderia chamar de darwinismo social, cada um por si e o inferno para todos: vencer, vencer e vencer. Ai dos vencidos. Dominar a natureza, submetê-la, lei do mais forte. Nem sei se este traço é sequer próprio exclusivo e característico da nossa tradição.

Continuo a achar que é preciso ter cuidado com a terminologia.

1:50 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

F Guerra:

Explicando melhor, e desculpa a insistência.

Percebo agora que estavas a referir-te não aos autores do atentado em si, mas ao islamismo radical em geral.

Mea culpa.

Mas, então desculpa uma coisa: também não concordo. São realidades diferentes. O FIS da Argélia ou os islamistas shiitas do Irão não são a mesma coisa que a Al Qaeda nem são a mesma coisa que os talibãs.

Não te esqueças que no Irão por exemplo 60% dos estudantes universitários são mulheres, com ou sem tchador. Isto é só um exemplo.

Numa palavra: há que tentar compreender. Acho eu.

2:07 da tarde  
Anonymous Filipe Guerra said...

Manel, mais uma acha para a fogueira, mais a conversa como as cerejas, palavra puxa palavra, nem tenho mais máximas populares para isto. Além disso não quero ganhar nada, que me dera que me derrotassem esta visão amarga que tenho das coisas. O que é que vem fazer este penúltimo parágrafo? («Mas há um traço na nossa cultura que eu definitivamente abomino: aquilo que poderia chamar de darwinismo social, cada um por si e o inferno para todos: vencer, vencer e vencer. Ai dos vencidos. Dominar a natureza, submetê-la, lei do mais forte. Nem sei se este traço é sequer próprio exclusivo e característico da nossa tradição.»)
Não percebi. Não poderíamos manter-nos no tema e ajudarmo-nos a pensar uns aos outros? É claro que eu nunca falei só da Al Qaeda, mas da ideologia islâmica radical! E estou a ter o maior cuidado que posso com a terminologia e até já concordei em não chamar fascismo a «isso» dos radicais islamistas.

2:10 da tarde  
Blogger Manuel Resende said...

Bem aquilo do tal parágrafo vem porque fui acusado de ser anti-ocidental ao que retorqui que sim, como os surrealistas, aliás, coisa que o Jean Clair etc.

Ao que tu disseste, a latere, que ser anti-ocidental é uma ideologia ocidental, com o que eu concordei, sublinhando por um lado a liberdade individual, mas dizendo por outro lado que o tal de darwinismo social não me cabe no gargomilo.

Pronto. É só isto.

Então, indo ao principal, ainda fico mais perplexo e incomodado e preocupado ao perceber finalmente, acho eu, agora, o cerne da tua argumentação, que é isto: o radicalismo islâmico é o perigo, é o mal. As bombas em Londres são resultado do radicalismo islâmico tal como a resistência no Iraque.

Lamento informar mas a tua formulação justifica a minha primeira interpretação errada:
" Pobre Iraque, que tem como opositores mais activos da ocupação apenas estes fascistas."

Dizes que o Iraque "tem como opositores mais activos da ocupação apenas" (repara, apenas) "estes fascistas". Ora se até aqui só falavas da Al Qaeda, depreendia-se necessariamente que te estavas a referir apenas à Al Qaeda, ou não?

Ora a Al Qaeda é uma organização de quadros, de dimensões muito reduzidas, como diz o Michael Scheuer na entrevista à Visão.

Afinal, depreendo agora que falavas de todos os islamistas radicais (desde o FIS na Argélia, aos talibãs, à Aliança do Norte, à ideologia oficial da Arábia Saudita, aos Irmãos Muçulmanos, às diversas correntes do Irão e quem sabe da Indonésia). Ora, são fenómenos completamente diferentes, e não se podem meter todos no mesmo saco. Aí percebo a lógica de lhes colar o rótulo fascistas: são aqueles muito maus.

Não podemos raciocinar assim, na minha modesta opinião. Não podemos meter no mesmo saco tudo isso, porque então estamos a dar razão aos terroristas da Al Qaeda que querem precisamente arrastar todos os outros atrás de si através dos ataques bombistas.

Assim, já eles ganharam...

10:43 da tarde  
Anonymous Filipe Guerra said...

Manuel, vou tentar simplificar: posso estar errado, mas continuo convencido de que posso meter no mesmo saco (por certos indícios) o que se insere na mesma ideologia, que tem a mesma estratégia e que, possivelmente, beneficia das mesmas fontes de financiamento. Assim, não sou perito, mas essa ideologia está presente nos grupos islamistas europeus, do Cáucaso (Beslan, lembras-te?), da Albânia/Kosovo, do Afeganistão, em Marrocos e Argélia (não todos, segundo informações que tirei do Monde), na Jordânia, na Arábia Saudita, no Iraque, etc. Não se trata apenas da Al Qaeda, segundo parece. Excluo, evidentemente, os islamistas radicais palestinianos, que não se encontram em nenhuma organização do tipo Al Qaeda e que a Al Qaeda não consegue infiltrar. Há uma concomitância muito grande no pensamento e na acção entre estes «quadros», que no entanto se politizaram e se inseriram em movimentos de massaa de resist~encia justos, influenciando-os (na TChehénia e no Iraque, os casos mais flagrantes). A tese de que são franco-atiradores não é admissível perante este panorama, as ligações entre todos são muito fortes e evidentes. O meu post que deu origem a isto tudo tem tantos defeitos de raciocínio que não percebo como não foi mais atacado, foi emocional, é verdade, e vai ao ponto de contrapor uma frase de Blair estereotipada para o pôr em superioridade moral em relação aos terrorists, o que não é assim tão evidente. É a minha autocrítica. O título «Em Londres como no Iraqie» continuo a defendê-lo: trata-se da mesma gente. Quanto às minhas deficiências de terminologia, são evidentes: não sou historiador nem conheço a linguagem da geopolítica e da economia política, é a pecha dos literatos. Mas nota que não quero ter razão à força (quem me dera não a ter, e que não houvesse essas ligações perigosas). Também não aceito que os outros me queiram impor verdades rígidas, porque isso não existe. Podem-se mandar para o ar para discussão, e já não é mau.

11:47 da tarde  
Anonymous partido surrealista situacionista said...

Caro Nicolau Saião,
O Partido Surrealista Situacionista remete para http://tripnaarcada.blogspot.com e, em especial, para o Manifesto 37.

7:07 da manhã  
Anonymous ns said...

Já vi. Percebo a v/ intenção - que é a de recusar tudo o que constranja o humano (que por vezes até pode parecer desumano). Tudo bem. Mas o que quis referir, referindo, é que os situacionistas foram - provou-se - testemunhas falsas.
O que se pode esperar de uma gente que diz(ia), sem discernir e duma forma primária:"só haverá liberdade quando o poeta não puder sair à rua, por ficar logo com um olho negro"? Ou "a arte é um alibi de patifes" - quando os fascistas vermelhos(digamos assim, para lhes darmos mais desprezo) metiam gente nos campos de concentração onde morriam? Quando os governos dos outros fascistas sul-americanos prendiam e torturavam artistas, muitos deles surrealistas?
Tão a ver o meu ponto de vista, não é?
E por portas-travessas, sei que vocês são pessoas sérias, desculpem o epíteto se não vos agradar mas é dito de boa-fé.
Por isso, o abraço.

2:30 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home