12.12.03

Post Scriptum #97

De volta aos gregos. De todos os poetas do século XX que aqui temos publicado, os gregos são os que estão em maior número. E tudo graças à generosidade de Manuel Resende. Recordo que nos nossos arquivos encontram-se vários poemas de Kiki Dimoulá, Michális Ganas e Nikos Engonópoulos, para além de Giórgios Seféris, em versões inéditas de Manuel Resende. Hoje acrescentamos a esta lista a poetisa Jenny Mastoráki (n. 1949), ainda inédita em quase todas as línguas, à excepção do inglês. A tradução e apresentação são de Manuel Resende. 


JENNY MASTORÁKI (n. 1949). Poetisa grega definitivamente nascida depois da guerra, assume uma posição crítica relativamente aos seus antecessores (de resto, quase todos homens). Os seus últimos livros são recolhas de visões oníricas. Seguem-se, porém, dois poemas tirados do seu segundo livro – este é o primeiro -, «To Soi» («Os meus», no sentido de «os meus familiares»), de 1978.


O RIO


O poema omnipotente,

como rio mítico,

barbudo,

de cartucheira à bandoleira,

vem pela rua abaixo a buzinar

enfadando as amantes.

E o poeta

por que te apaixonaste aos dezoito

já não existe,

pois existir quer dizer

tenho casa na rua kypséli

vá visitar-me no fim-de-semana

ou apresento-lhe a minha esposa.

Há uns tipos, em altos estrados,

a fazerem truques com lenços coloridos,

como outrora os charlatães

que vinham de carroça

e te tiraram o dente são

por dois taleres.


De To Soi, 1978.