22.10.04

O Povo é Sereno #174



UM LONGO E DURO OLHAR

Há um filme, espécie de bíblia do mundo dos "gangsters" a sério, que a certa altura nos dá uma cena crucial. Já lá vou, mas convirá referir que nessa fita ("Dillinger") o papel principal é sustentado por um Warren Oates superlativo - esse mesmo, o do "Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia" do nosso colega "Bloody Sam" Peckimpah.
A talhe de foice eu aconselhava o seu visionamento a deputados, juízes e secretários de Estado e juro pelas alminhas santas que estou de boa-fé. Porque ficariam esclarecidos sobre o que é que um arquétipo dos "enragés", dos "gangsters" honrados (ou seja, todos nós, às tantas, numa sociedade torpe como a que temos) pensava sobre as suas profissões de risco. Mas adiante...
E a cena é esta: estando o Dillinger - na clandestinidade - num café a tomar uma refeição com a amada calha de ser topado, inteiramente por acaso, pelo Ben Johnson que faz de chefe detective e perseguidor-mor. Cavalheirescamente este entende que ali e no momento se está em território neutro e deve haver contemplação. Por isso, depois de uns minutos de umas estocadas de conversa, estende a mão nobremente ao seu adversário - que pura e simplesmente não lha aperta e o olha de maneira que demonstra que a vida para ele não é uma comédia de cavalheiros...
Este episódio cinematográfico ocorreu-me ao meditar nas recentes esgrimas entre o estimável professor Marcelo e a ainda mais estimável confraria de ministros e outros jovens que lhe querem dar o pontapé pl'a escada acima (como se dizia no tempo em que o paizinho do brilhante comunicador era do staff do regime de Salazar).
Porque, vejamos, censura tem havido sempre na nossa saborosa democracia - para os não pertencentes ao jet set (um pouco rasca, convenhamos) de que o professor é um brilhante e quase genial ornamento. Ainda há pouco tempo eu referi o que despudoradamente se está a tentar fazer a um radialista da RDP e podia aqui revelar-vos muitos outros casos de censura de que tenho conhecimento.
Este fungagá em torno do bravo Marcelo cheira-me a zaragata inter pares, a bulha entre gente "da panelinha" como dizia o Eça que o nosso professor, pondo-se estrategicamente à parte, há dias numa apresentação livresca atirou sobre os rivais.
Meus manos: atiremos nós a esta gente, com a dose quanto baste de altivez, um longo e duro olhar.
E mai'nada!...


Nicolau Saião