28.6.04

O Povo é Sereno # 118



BAIRRISTAS E FORASTEIROS


Há gente assim. Não olham para a qualidade dos Homens, para a sua experiência e verticalidade ou para as suas capacidades - mas apenas para a certidão de nascimento que, tanto quanto sabemos, não constitui atestado fiável nem de inteligência nem de competência. Há gente que prefere vinho carrascão, só porque nasceu de algumas vides enfezadas lá da terra, e rejeita um néctar divino, só porque a cepa rebentou em território que não consegue alcançar à vista desarmada. Esquecem que podemos nascer em qualquer canto, até num comboio ou numa avioneta, mas a "pátria" é assunto do coração, crescendo de uma adesão espiritual a um lugar, que tantas vezes não é aquele em que lançámos o primeiro grito. O bairrismo vale a pena quando defende com abertura de espírito e frontalidade crítica as legítimas aspirações duma colectividade. É manifestação de uma sociedade fechada e ignorante sempre que revela uma bacoca miopia, embebida em estupidez quando promove a mediocridade local só porque é local, quando recusa a crítica justa, quando é veículo de reprodução social na promoção do imobilismo e, frequentemente, do caciquismo nas suas expressões mais perigosas ou descaradas.
Exemplos contrários também existem. Há habitantes de aldeias, de vilas, de cidades e de países que vão dando bordoada na qualidade dos seus naturais, mesmo que seja notória e reconhecida fora de portas, sobretudo quando esses naturais provêm de camadas desfavorecidas (ameaçam a pirâmide social) - mas não hesitam em bajular quem vem de fora, mesmo que seja um burlão ou um vigarista, ou apenas um chico-esperto que habilmente manipula a "hospitalidade" local.
Por isto e por muito mais escrevo sem hesitações: nem forasteiros nem indígenas. Melhor dizendo: para nada me interessa o bilhete de identidade de uma cidadã ou de uma cidadão, desde que demonstre verticalidade, qualidade e competência; igual desprezo voto à naturalidade de quem se apresente medíocre ou invertebrado. Prezo quanto de bom foi e vai nascendo em Portugal ou na terra em que nasci, que tanto amo, mas com igual amor tenho no coração os frutos saborosos vindos do resto do mundo.


Ruy Ventura