31.1.05

O povo é sereno # 209

Riquezas da sua avó

Uma estorinha de muito amar: nos fins de 90 estive em Paris, na Livraria Lusófona, a lançar um cartapácio. Assistência diversa... lindas mulheres...um tinto de honra...novos e velhos. Ou seja: tudo muito fixe. Durante a leitura das palavrinhas da ordem, que eu puxara à sustância para não deixar mal os meus ancestros, reparei num senhor de bastante idade, aspecto fino, que seguia atentamente a "oração de sapiência" e que assim se manteve até ao fim.
Antes dos comes-e-bebes, enquanto a malta que eu arteiramente seduzira me vinha afifar uma bacalhauzada, o tal velhote frágil aprochegou-se e deu-me um forte aperto de mau misturado com palavras onde eu percebi coisas como "manter a coragem", "nunca desmerecer" e outras expressões que me fizeram vibrar. Na rota em busca de umas febras e de um especial de corrida da Vidigueira, perguntei a quem me acompanhava, com unção, quem era aquele senhor debilitado pela idade mas com um ar firme que me impressionara. E ela respondeu-me: "Não conheceste? Ah! claro, vives lá longe... Pois aquele velhinho frágil é Willy Gengenbach, um dos anti-nazis sobreviventes dos campos de concentração nazis que Hitler mandou prender pessoalmente...".
Anos antes, por um bambúrrio propiciado por confrades, conhecera no Café de Flore um dos heróis da minha juventude: um sujeitinho gordo e míope, que parecia que não tinha cara para levar uma chapada - Jacques Bergier, escritor, grande conhecedor da sabedoria hermética e herói da resistência, o homem que abateu num duelo à pistola Hans Ziereis, na estalagem onde se refugiara o chefe do campo de concentração de Neue Bremme.
Não era, como o outro, um Hércules... Mas tinha dentro a força da vida.
Ontem, lembrei-me destes dois exemplos de homens de antes quebrar que torcer. Enquanto ouvia as notícias de que o Povo iraquiano, apesar das ameaças terroristas, da falta de competência formal das tropas que lá estão e das inúmeras dificuldades - fora votar contra as feras. As feras da pobreza, dos anos de totalitarismo e do fascismo islâmico fundamentalista e brutal.
Haja o que houver no futuro, mostraram como se responde aos canalhas totalitários, religiosos ou laicos.
Curvo-me, sentidamente, perante a sua coragem.

NS

O Silêncio É de Ouro #193



Primeiro e homónimo álbum dos Violent Femmes, de 1982 (Slash). Uma colecção de hinos que perdurará.

O Silêncio é de Ouro #192



Este fim-de-semana, a Antena 2 dedicou uma boa parte da sua programação à transmissão em directo de alguns espectáculos da Folle Journée de Nantes, este ano dedicada a Beethoven e amigos. Há muito que não se assistia a uma jornada de rádio tão animada. A Antena 2 teve na cidade francesa vários enviados especiais que iam dando conta, em directo, do que estava a acontecer nas várias salas da Cité des Congrés, fazendo lembrar uma reportagem num festival rock, com entrevistas a músicos, espectadores, comentários, críticas, etc. A captação de som não era brilhante, mas dada a natureza da emissão esse pormenor tornou-se irrelevante. Ao fim da tarde de Sábado, tive a sorte de ouvir Burmester oferecer algumas das sonatas para piano de Beethoven, entre as quais uma interpretação absolutamente fabulosa de "Clair de Lune". Ah, tripeiro!

Cimbalino Curto #141

Há alguns anos, num trabalho de pesquisa sobre costumes e tradições que fiz no vale de Campanhã, falei com várias pessoas que me disseram que, ainda há pouco mais de meio século, uma das actividades mais apreciadas pelos habitantes da zona oriental da cidade era, ao domingo, a pesca da truta nos rios Tinto e Torto. Estes dois ribeiros têm origem nos concelhos a oriente do Porto, atravessam o vale de Campanhã e desaguam no Douro, num local chamado Esteiro, na zona do Freixo, onde em tempos também existiu uma das principais praias fluviais da cidade. Tinto e Torto são responsáveis - ou, melhor dizendo, foram - pela espantosa fertilidade dos solos do vale de Campanhã, outrora uma espécie de grande centro de produção de géneros agrícolas, fundamental para o abastecimento das populações que viviam nas zonas mais centrais da cidade.
Entretanto, e em resultado de vários factores, com destaque para o rápido e desordenado crescimento industrial de Campanhã, os rios Tinto e Torto transformaram-se em dois grandes esgotos, com o habitual rol de consequências para o ambiente e saúde pública que já todos conhecemos. Para além de esporádicas denúncias dos grupos ambientalistas, não me recordo de nenhuma iniciativa consequente deste e dos anteriores executivos no sentido de despoluir e requalificar estes ribeiros.
Ora, este fim-de-semana, Rui Rio e o seu staff, acompanhados pelo Secretário de Estado dos Assuntos do Mar, inauguraram, "com pompa e circunstância", como dizem os jornais, o "Pólo Fluvial do Freixo", que inclui uma marina, restaurante, esplanada e oficina, localizados justamente a poucos passos da foz dos rios Tinto e Torto. Até aqui tudo bem. Só podemos aplaudir uma obra que permitirá valorizar uma zona esquecida durante décadas. A verdade, porém, é mais malcheirosa. O complexo foi inaugurado sem um estudo formal de impacto ambiental e, pasme-se, sem a necessária despoluição dos rios Tinto e Torto. Ou seja, temos agora um belíssimo pólo fluvial, no Esteiro, construído sobre um imenso esgoto de águas escuras e terrivelmente malcheirosas. Não sou especialista em matérias ambientais e não sei quanto tempo pode demorar a despoluição de dois ribeiros como os que estão em causa, mas creio que, durante os próximos meses, tomar uma bebida na esplanada da marina será uma experiência verdadeiramente inesquecível.

Umbigo #135



Ao rever uma fotografia da jovem Clarice Lispector no Mil Folhas desta semana, não consigo deixar de pensar que a primeira prova do virtuosismo da escritora brasileira estava no seu próprio corpo: Lispector era boa como o milho! Ou, usando uma expressão com um tom mais próximo do sabor tropical, era gostosa pra caramba!

Señor Tallon #96

Por que é que a maioria dos nossos "fazedores de opinião" - profissionais ou não, colunáveis ou nem por isso - que lamenta a excessiva dependência das instituições do país em relação ao Estado, também já viveu, vive ou continuará a viver à espera das "sopinhas" do dito?

O Silêncio É de Ouro #191



Efeito Guronsan para manhãs de segunda-feira.

29.1.05

O povo é sereno # 208

ÚLTIMA HORA

Santana Lopes processa o Dr. José Jagodes

O cronista José Jagodes, personalidade das mais brilhantes do nosso espectro publicístico e profundo prosador que já nos tem dado o gosto da sua colaboração, vai ser processado pelo sr. primeiro-ministro em trabalhos de gestão.
O facto decorreu da entrevista que JJ propiciou ao jornal britânico "World New News". O dr. Jagodes, que se encontrava na Ilha em pesquisas relacionadas com o seu trabalho ( a sair brevemente) "O fair play alfacinha através dos tempos", ao responder ao conceituado repórter do "News" Robert Peeplewebb despertou as iras judiciais de Santana.
Aqui damos um pequeno extracto da importante peça jornalística:

"R.P. - E que me diz do facto do primeiro-ministro gestionário ser um modesto cidadão que vive do seu ordenado?

J.J. - ... (O nosso entrevistado sorri levemente)

R.P. - Quer comentar as sondagens que dão um espalhanço ao gestionário primeiro-ministro?

J.J. - ... (O nosso entrevistado sorri ainda mais levemente)

R.P. - E quanto ao convite, entretanto encavalitado, ao arquitecto Frank Geary?

J.J. - ... (O nosso entrevistado sorri com uma insuportável leveza)

R.P. - Mas acha mesmo que Sant'Ana Lopez é um fala-barato sem solução?

J.J. - ... (O sorriso do nosso entrevistado é como o da Mona Lisa) ".

Na sequencia da queixa apresentada a quem de Direito, Luís Fininho, o porta-voz igualmente em estado de gestão do primeiro (e tal e tal, vocês já entenderam) declarou e citamos "o acinte que se desprendia dos sorrisos do Dr. Jagodes durante a entrevista eram manifestamente mais ofensivos que as tais sondagens das empresas que também irão apanhar um calor... que é para aprenderem".
Solicitado a produzir um comentário, o nosso colaborador limitou-se a emitir um levíssimo sorriso.

28.1.05

O baú do John Silver # 6



Minha cultural folhinha de bloco-notas:

Então não é que dei comigo, companheira, extremamente multidisciplinar?
Apanhando-me num bote para um descanso de dois dias, pus-me a ler, vê lá tu, o "Crime" e o "Público", duas folhecas de couve da Tortuga que melhor fora não ter relanceado. Ainda que na diagonal, deu-me vontade de fazer coisas loucas. E fiz. Um prisioneiro que capturara ao largo das Bahamas mandei-o de imediato empalar num coqueiro e, leitor de Freud que sou, senti que aplacara a contento meu inconsciente: o tal civil, um ex-pugilista com defeito na fala - o que até lhe deu mais graça ao escangalhar-se todo durante a tortura aplicada (e agora digam como em relação ao doutor Louçã que tenho instintos de perseguidor, a ver se eu me ralo...) não vai poder tão depressa participar em actividades partidárias.
Mas o mais giro foi o que uma açafata da esposa do governador de Maracaíbo, uma dueña Margarida Pinto, também Rebelo e muito bem, disse com donaire a uma revista "Qué Leer", espanhola até nas vírgulas: que por sua culpa "Portugal desatou a ler" e o mercado cresceu 25% entrementes. Que, vai não vai, se tinha tornado um fenómeno social e cultural mais importante que os próprios livros! (Em comentário, o entrevistador foi quase cruel no que retorquiu...).
Livros esses que são, parece, de boníssima qualidade. Tão bons que já decidi, na próxima surtida contra os pescadores de pérolas (que um nosso espia comprovou que estavam a ser aleivosamente lançadas a varas de porcos da floresta em torno), apanhar os que puder num quiosque da zona. Com a estaleca talvez me torne, sei lá, um belo cronista da flibusta.
Mas o melhor li-o no "Crime", que é para mim e para mais alguns leitura apetecível e quase indispensável nesta pátria: nele se dizia, com sobriedade, que um político e um moço bonitão, desses de encher o olho às corsárias casadoiras... Mas ah!, bolas, que tenho que deixar de pronto estas breves nótulas pois o grumete que está de meu impedido me veio chamar, afobado, porque a gentalha das direitas começou a disparar sobre as casamatas da costa!
E lá tenho eu de ir, prestes e com o sabre preparado, fazer frente àquela tropa fandanga que não dá descanso a um bucaneiro progressista...
O até que eu me despache, folhinha, do teu
A.

Post Scriptum # 471

Rubrica "BIC Laranja, BIC Cristal, duas escritas à vossa escolha."




Nenhuma lingua do mundo
Saberia dizer o que eu sentia.
(Giacomo Leopardi, A Sílvia.)


Eu não sei como dizer-te que cem ideias
dentro de mim, te procuram.
(Herberto Helder, Tríptico II.)

Post It #251

Porn queen Jenna Jameson calls her autobiography a "cautionary tale," and Mayor Bill White is taking precautions about making it available to Houston library patrons.
White recently ordered that the library's dozen copies of Jameson's best-selling How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale be removed from open shelves.

E, no Porto, ainda nos queixamos do Rio! Livra!

Ilha dos Amores # 123



Ainda a propósito da exposição de pintura de Nicolau Saião, patente no Instituto Politécnico de Portalegre, até 25 de Fevereiro, recebemos este texto de Ruy Ventura.

NICOLAU, PINTOR

Antes de conhecer Nicolau Saião como poeta e como cidadão, conheci-o como pintor. Melhor dizendo: antes de contactar com a poesia e com a vertical acção cívica deste Homem, comecei por me interessar pela sua pintura. Houve mesmo uma época em que, para mim, ela era apenas pintor - não me passando sequer pela cabeça que navegava, sobretudo, nos oceanos da Poesia.
Recordo bem o dia em que descobri os seus quadros. Tinha 15/16 anos. Visitando, em Portalegre, uma exposição de artistas alentejanos na encantadora galeria situada - estranha vizinhança... - entre a igreja do Espírito Santo e os sanitários públicos, fui encontrar duas obras que me tocaram particularmente, pela sua estranheza, pela sua capacidade de penetração, através das cores e dos traços, na Alma humana. Uma das pinturas tinha o vidro partido, colado com fita-cola, o que lhe dava um interessante aspecto subversivo, no meio de alguns óleos com farpela lustrosa, mas com corpo mal-asado.
Quando, mais tarde, comecei a conhecer a obra escrita de Nicolau Saião, foi-se desenhando uma convicção que não mais deixei (e tenho aprofundado): a sua pintura é inseparável da sua poesia. Criação plástica e criação verbal são duas vertentes da mesma montanha, de que fazem parte também as suas crónicas e os seus ensaios (felizmente) heterodoxos, tábuas diversas de um retábulo ainda em crescimento.
Surrealista na melhor acepção da palavra, Nicolau Saião vem construindo há mais de trinta anos uma obra plástica dotada de coerência assinalável. Sem se revestir de monotonia, vai tocando diversas técnicas de expressão e múltiplas formas de representação, para melhor interpretar as imagens interiores e exteriores que a dominam. Chamo-lhe "surrealista" não apenas por ter integrado o movimento logo no início dos anos '70. Fugindo deliberadamente do catecismo banal que muitos epígonos vão imitando com maior ou menor técnica, os quadros de Nicolau assumem aquilo que, de melhor, o verdadeiro Surrealismo nos tem trazido: a libertação total do ser humano e a abertura dos seus olhos a um Universo cheio de maravilha, mesmo quando as sombras desejam obscurecê-lo.
Dramaturgo com obra publicada (ignorada pela companhia portalegrense - o que se lamenta...), autor da poesia intensa d' Os Objectos Inquietantes, de Flauta de Pan e d'Os Olhares Perdidos - Nicolau Saião parece querer corporizar, também na pintura, "a grande aventura" que, segundo Fernando Batalha, no nosso interior "se desenrola".
Com uma liberdade notável, tem construído centenas (milhares?) de obras que combinam - com sabedoria - a nostalgia e o encantamento, imagens vindas da infância com o nojo da hipocrisia social, ironia e sarcasmo com uma religiosidade que tantas vezes timidamente assoma. Traço e cor reúnem-se para elevar formas mais ou menos nítidas, retratos mais ou menos claros - elementos que ultrapassam a representação do real para criarem outra realidade, inquietante e misteriosa.
Desassossega-nos, a sua pintura. Com uma figuração internamente multiplicada, com paisagens povoadas por pequenos seres e por pequenas coisas, faz-nos sentir estrangeiros neste mundo de onde se vai ausentando o maravilhoso, que ela contém na sua plenitude.
Abstraccionista e/ou trabalhador incansável de um figurativismo que atrai quem se aproxima sem preconceitos - creio não errar se afirmar que (mesmo fora dos circuitos comerciais) a pintura de Nicolau Saião será reconhecida pela sua inegável originalidade (reconhecimento que já começa a desenhar-se, em benefício da Arte portuguesa).

(Ruy Ventura)

27.1.05

O Povo É Sereno #207

Afinal o homem mexeu-se ou está parado? Depende. Tudo é relativo, tudo está no ponto de vista e na forma como nos apercebemos, ou não, do movimento. Sobretudo, convém não esquecer que os sentidos nos enganam a toda a hora. Senão, para não irmos mais longe, e porque este é um fenómeno conhecido de todos, lembremo-nos do movimento de rotação da Terra. Que, à luz dos nossos olhinhos, que, como é sabido, se fartam de nos pregar partidas, não é movimento rigorosamente nenhum. Já os nossos antepassados, que eram uns ingénuos de primeira apanha, olhavam para o céu, reparavam no sol a mudar de posição e julgavam muito naturalmente (e quem de nós, se estivesse há muitos e muitos séculos no lugar deles, não julgaria, digam-me? quem somos nós, com os nossos livros, telescópios e cartas celestes, para atirar a primeira pedra?) que era o sol que girava em torno da terra e não o contrário. E o que é válido para os astros é-o também para o movimento das ideias, para a infinita (como o universo, já agora) volubilidade de que um homem é capaz.
Aos nossos olhos, eis que alguém um dia nos aparece a tremeluzir princípios num canto da abóbada celeste e, passado algum tempo, já está, de novo a tremeluzir, com maior ou menor luminosidade, porventura até alguns dos mesmos princípios já expendidos, mas por qualquer razão aparece noutro qualquer ponto do céu observável. É caso para dizermos que a alminha estelar mudou realmente de posição, se mexeu de facto? Não teremos sido antes nós, observadores, a carregar com a casa às costas universo adiante, sem sequer termos dado por isso?
Freitas do Amaral bem pode queixar-se de ser uma espécie de estrelinha incompreendida, que anda há anos a cintilar o mesmo e não tem culpa de aos pobres terráqueos - que, por isso mesmo, vivem colados à Terra pela força da gravidade - lhes parecer que o astro se moveu. Lembremo-nos que o homem sempre disse que era do centro. Desde tempos imemoriais (ou seja, desde o 25 de Abril, que o que está para trás é como se um piedoso aspirador democrático tivesse sugado da memória) que anda a dizer isso, as pessoas é que não se lembram. Já dizia, recorde-se, que era do centro em 1974, quando, ao lado de Adelino Amaro da Costa, fundou o "Centro (et voilá...) Democrático e Social" que depois, para o bem e para o mal, passou a ficar conhecido pela sigla CDS; o país é que estava porventura (pelo menos à luz dos padrões actuais) ligeiramente inclinado para a esquerda e, em vez de ver em Diogo o moderado genuíno que ele era, preferiu ver nele um fascista recalcado. Uns anos depois, mais propriamente nas eleições de 1991, caiu o carmo e a trindade nas hostes centristas (que, como se sabe, lá no fundo, no fundo, são bastante menos centristas do que parecem...) quando Freitas veio com a famosa tese da equidistância, na qual colocava o CDS rigorosamente a meio caminho do PSD e do PS, como um partido tão capaz de se aliar a um como ao outro, conforme as conveniências do país e, naturalmente, os oportunismos de quem o dirigisse. Como vêem, Freitas continuava no centro, os observadores é que estavam um bocadinho desviados para a direita (é um erro comum de perspectiva, que costuma atacar algumas pessoas...) e já quase o veriam como um perigoso espião social-democrata, um renegado potencial. Também foi por coisas como esta que, no ano seguinte, Manuel Monteiro e mais um punhado de jovens turcos tomaram de assalto o velho CDS (moderado e centrista, lá está) e o metamorfosearam no direitista e populista PP. Agora, Freitas continua a reclamar-se do centro e, apesar de independente, a dizer que tanto se identifica com o PS como com o PSD, tudo dependendo das políticas que estiverem em causa. Compreendo que isto cause urticária nas trincheiras da direita mas não é nada que destoe num homem que sempre foi da moderação, num homem que leva a sério como ninguém o princípio de que "no meio é que está a virtude". E, muito naturalmente, depois de em 2002 ter apoiado o PSD, vem agora dizer que vai votar no PS e que o melhor é este ter maioria absoluta. Onde está a estranheza? O que há na proposta de Sócrates capaz de repugnar um centrista? Expliquem-me! O mundo é que mudou; de outra forma não se explica que um partido socialista (que ainda há bem pouco tempo cerrava o punho nos comícios e cantava a Internacional no final dos congressos) possa estar agora num lugar susceptível de agradar a um arauto da democracia cristã. Freitas do Amaral continua na mesma. O mundo é que se deslocou. Também ele pode dizer, como Galileu: "eppur si muove"...

Cimbalino Curto #140



Depois do celebradíssimo Desfile de Pais Natal, que resultou num dos melhores momentos televisivos de 2004, e do estrondoso sucesso das Olimpíadas da Columbofilia, eis que o Porto é de novo o palco de outro grande acontecimento internacional, que irá honrar o país e assombrar o mundo. Senhoras e senhores, meninas e meninos, a Câmara do Porto apresenta - ó, a glória! - o Maior Desfile do Mundo de Carros de Bombeiros. Terá lugar em Maio e a organização, trémula de excitação, promete "colorir a cidade" com "milhares de carros", contrariando assim o falso ambiente de crise que se vive na cidade e calando de vez os eternos profetas da desgraça.
Ora, como fica demonstrado, este executivo não brinca em serviço. E, por isso, creio, já estará a estudar alternativas para outros eventos a realizar depois de Maio. Nós, neste blogue, estamos solidários com o esforço da câmara e queremos contribuir com algumas ideias. Para isso, contamos também com a colaboração e criatividade dos nossos leitores. Deixem, por favor, as vossas sugestões de eventos na caixa de comentários ou enviem-nas para o nosso mail quartzo@sapo.pt.

Nota importante: não serão aceites propostas de campeonatos internacionais de sameirinha ou grandes prémios do mundo de corridas de rãs, por falta de originalidade.

26.1.05

O Silêncio É de Ouro #190



Em "Ambassador Satch" (Columbia, 1955), Louis Armstrong veste-se de diplomata do jazz para legar um registo de uma digressão europeia com os All-Stars.

Post It #250

Para saber qual é o dia mais deprimente do ano, basta fazer as contas:

[W + (D-d)] x TQ
-----------------
M x NA

Cimbalino Curto #139



Ainda a propósito dos números espectaculares de Serralves, o Serafim levanta o problema de saber se a maioria dos visitantes será do Porto. "Não será que Serralves continua a ser estranha aos portuenses?" Parece-me evidente que só uma leitura muito ingénua destes números nos poderia fazer supor que Serralves reflecte os gostos e interesses culturais do portuense médio. E reconheço que uma parte importante dos visitantes, com os portuenses à cabeça, rumam a Serralves por motivos exteriores ao interesse substantivo pela arte. Serralves vende muito bem o seu produto, é capaz de criar modas, necessidades, expectativas e até delírios colectivos (os últimos dias da exposição de Paula Rego é um bom exemplo disso mesmo), graças a um excelente trabalho de promoção e marketing que envolve suportes publicitários convencionais, e os próprios meios de informação. Nesse sentido, Serralves corresponde também a uma espécie de cultura de consumo rápido, de fachada, sem substância. Há pessoas que vão a Serralves como vão ao Shopping (basta pensar nas intermináveis vagas de visitantes aos domingos de manhã). Mas qual é o mal? O gosto pela arte cultiva-se como se cultiva outra coisa qualquer. E tem que se começar por algum lado. E esse "algum lado", no Porto, é Serralves. O único senão é que há apenas Serralves. Mais importante do que saber o número exacto de portuenses que vão ao museu, é perceber que Serralves criou na cidade um ambiente muito favorável ao gosto pela arte, uma espécie de efervescência em torno da arte. Por isso, o museu está a contribuir para nivelar por cima a cultura dos portuenses. Mesmo que isso não seja imediatamente visível.

Post It #249

João Serenus é quem diz.

Señor Tallon #95

PROVÉRBIOS PARA OS DIAS DE HOJE

"Se os contabilistas se põem a fazer guerras, deviam calcular também as probabilidades."

Apenas uma sugestão para juntar aos provérbios elencados por Pacheco Pereira.

25.1.05

Umbigo # 133

A filha do senhor Lopez

A filha do senhor Lopez parece que tinha azougue. O seu pai, honestíssimo bedel na Universidade de Barcelona, bem se fartava de lhe dizer:"Moça, não cantes tão alto! Ainda ontem dois professores me chamaram a atenção para os teus gorgeios...".
O senhor Lopez era o mesmo cidadão amante da cultura e das letras em forma que uma vez por outra, quando a "nena" o acompanhava até à bem provida biblioteca que ele também tinha o encargo de vigiar, lhe dizia acariciando as lombadas dos magnificentes cartapácios:" Moça, olha que os livros até com o acto de lhes passares a mão ensinam!". E a "nena" nunca se esqueceu...
O senhor Lopez, bom cidadão e bom bedel, era o senhor Joan de los Angeles. E a mocita era a grande Victoria de los Angeles, que há dias calou para sempre os seus gorgeios.
Vai uma de ópera, da boa e da grande?

( Estas reminiscências encontram-se no livro "La edad de oro" de Vicente Molina Foix, onde são evocadas outras figuras, da literatura ao cinema, passando pelo canto e o teatro, editado pela "El País-Aguilar").

Post Scriptum # 470

O HOMEM E SUA SOMBRA - 4

Um homem deixou de alimentar
a sombra que carregava. Alegou razões de economia.
Afinal para quê de sobejo levar algo que o duplicava?

Sem sombra, pensou
melhor carregaria o que nele carregava.

Equivocou-se. Definhou.
Descobriu, então, que a sombra o sustentava.

Affonso Romano de Sant'anna
No suplemento literário do jornal Globo, esta semana (registo gratuito mas obrigatório).

Post Scriptum # 469



Página de "Sexo, Noitadas & Rock'n'Roll", de António Pedro Ribeiro. Um livro que aguarda homologação da Senhora Ministra da Cultura, nos termos da lei.
(Pedidos para apedroribeiro@hotmail.com)

O Silêncio É de Ouro #189



Soul Coughing, "Ruby Vroom" (Slash, 1994).

Post Scriptum # 468


Por doença prolongada...

...como dizem os órgãos de comunicação com a delicadeza habitual que lhes é própria - ou com o sentido mágico-hipócrita que Fernando Savater analisou - faleceu o poeta Orlando Neves.
Alentejano, portalegrense, o autor de "Decomposição. A casa" já de há muito residia no norte: no Porto, por exemplo, onde escreveu muitos dos seus últimos versos.
Nos tempos mais chegados pude dá-lo a conhecer mais intensamente no Brasil, na Extremadura e na Andaluzia. Também Ruy Ventura muito fez para que a sua poesia, que por exemplo em "Loca Obscura - pranto de Leonor de Sepúlveda" atingiu alturas pouco vulgares em português, visse a sua qualidade ser plenamente reconhecida entre os ziguezagues deste tempo peculiar.
Aqui fica, à guisa de adeus intemporal, um dos poemas do livro além citado:

O Lençol

Este linho horizontal, entre o que fomos
e seremos, vislumbre póstumo do deserto,
é um saco de ossos e acidez, visão
antecipada da espuma da terra.

Este linho branco e ilusório, outra
pele da pele, nome em que se arde,
é uma extrema ferida, dor que não dói
na superfície. Começa nele a ruína

da infância e, fora do seu alcance,
vamos desejando que nada aconteça
para que nada se desmorone, não seja

o fogo carência, aparição ou mudança
ou que em obsessiva pedra se transforme
este pano, puro começo de parte alguma.


Cimbalino Curto #138



A Administração do Museu de Serralves fez ontem um balanço da sua actividade durante 2004, apresentando mais alguns dados interessantes sobre a afluência de visitantes ao museu do Porto. Se me permitem, e à boleia destes dados, gostava de retomar o tema do papel da Cultura para a projecção e desenvolvimento do Porto. Ou, utilizando uma expressão cara aos nossos contabilistas oficiais, como uma "mais-valia do ponto de vista da economia da cidade".
De acordo com os responsáveis do museu, Serralves recebeu em 2004 a visita de 330.525 pessoas, as actividades do serviço educativo envolveram cerca de 98.578 participantes, 2600 participaram em visitas guiadas, e 28.371 em visitas escolares. A iniciativa "Serralves em Festa", que assinalou o 5º aniversário do museu, recebeu 42.000 visitantes, e, na área da divulgação, foram distribuídas 400.000 "newsletters" e houve 10.000.000 de visitas ao seu sítio na internet. Desnecessário será dizer que Serralves foi o museu mais visitado em Portugal e um dos que mais cresceu na Europa.
Tudo isto numa cidade onde a Cultura é entendida pelos seus principais representantes políticos como uma dimensão menor da vida pública. Tudo isto numa cidade onde a cartilha oficial reproduz o velho lugar comum de que arte não gera riqueza. A verdade é que, se excluirmos o futebol, nenhuma outra iniciativa ou instituição atraiu tantos visitantes ao Porto, nos últimos anos, como as exposições de arte de Serralves. E se somarmos a estes, os visitantes da Capital Europeia da Cultura, o cenário é ainda mais esclarecedor. Ou seja, uma parte muito importante do turismo que rumou ao Porto teve por motivação - ó céus! que horror! - a Cultura.
De qualquer maneira, ainda acredito que há situações que podem fazer o mais impenitente dos contabilistas reflectir sobre o valor de certos números com menos preconceitos.

Post Scriptum #467



Joaquín O. Giannuzzi
(Argentina, 1924-2004)

A HASTE CAÍDA

Uma rajada de vento quebrou
a haste do gladíolo vermelho.
Tombado junto à cerca de arame
é como um braço vencido por um súbito cansaço.
Em volta a paisagem observa
o seu próprio esplendor verde depois da chuva.
A flor vermelha esmorece
sob a intensidade do sol
e o caule extingue-se de volta à terra.
Sabemos vagamente como tudo isto acontece,
ébrios de identidade e permanência:
em poucos dias completar-se-á a dissolução.
Mas lenta é a morte
por dentro deste fim que acabaremos por esquecer.

LA RAMA CAÍDA:
Una ráfaga de viento ha quebrado/ la rama del gladiolo bermejo./ Caída junto a la cerca de alambre/ es como un brazo vencido por una brusca fatiga./ En el vasto entorno, el paisaje atiende/ a su propio verdor creado por la lluvia./ Ahora, la intensidad del sol/ marchita el bermejo hacia un marrón reseco/ y el tallo oscurece adherido a la tierra./ Muy vagamente sabemos por qué sucede esto ante nosotros/ ebrios de identidad y permanencia:/ unos pocos días consumarán la disolución/ pero lenta es la muerte/ en este final que olvidaremos.


A tradução, talvez demasiado livre, é minha. Mais poemas de Giannuzzi aqui.

24.1.05

Post Scriptum #466 ter

O Rui Manuel Amaral falou num comentário dum professor de literatura que inventou um programa para fazer poemas. Seria este o professor?

Se sim, então uma das versões do programa é esta.

Post Scriptum #466 bis

Livro de Leitura da 4a. Classe, 1961

"A terra precisa de ser cortada profundamente pela charrua, abundantemente adubada e limpa das ervas daninhas, que prejudicam as sementeiras.

Todo o esforço feito pelo homem, para obrigar a produzir a terra, não é uma tarefa de escravo, mas um trabalho útil, que será generosamente recompensado." (Sublinhado nosso).

E Salazar continuou a obra de Deus.

Post Scriptum #466

Génesis 1, 26

26 Então Deus disse: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra». 27 E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. 28 E Deus os abençoou e lhes disse: «Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra». 29 E Deus disse: «Vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e estão sobre toda a terra, e todas as árvores em que frutos que dão semente: tudo isso será alimento para vocês. 30 E para todas as feras, para todas as aves do céu e para todos os seres que rastejam sobre a terra e nos quais respiração de vida, eu dou a relva como alimento». E assim se fez. 31 E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: foi o sexto dia.

Deus começou muito mal.

Post Scriptum # 465

24 de Janeiro de 1938.

No fundo, não procuro outra coisa na vida a não ser as provas para lhe poder chamar "vaca". (...)
Se fosse diferente, é que nos devíamos espantar: acumulamos, acumulamos raivas, humilhações, ferocidades, angústias, lágrimas, diabetes, uma esclerose que nos aniquila. E pronto.

Cesare Pavese, O Ofício de Viver.

A Gêrencia recomenda.



A partir de hoje, no Instituto Politécnico de Portalegre.

Cimbalino Curto #137



A exposição de Paula Rego, em Serralves, recebeu a visita de cerca de 160.000 pessoas. Muitas das quais vindas do exterior do Porto. Um dado que talvez merecesse - talvez - uma pequena reflexão por parte dos nossos grandes contabilistas locais e especialistas em números e orçamentos.

O Silêncio É de Ouro #188



Efeito Guronsan para manhãs de segunda-feira.

21.1.05

O povo é sereno # 206


"Um rio majestoso e fértil..."

Era assim que o conde de Lautréamont dizia que a poesia era. Tudo bem. Mas se o mesmo Isidore Ducasse (era o verdadeiro nome do nosso conde poeta, tão conde como eu sou o Senhor da Cana Verde e ainda bem) conhecesse o discurso autárquico em geral e o do autarca do Porto em particular, talvez achasse que tal coisa era água dum rio se calhar pouco fértil e pouco majestoso.
Porque é que digo isto? Cá por coisas do passado, mas eu vou já descriptar: sugestionado pela lábia sugestiva e profícua do nosso Rui Amaral, eu - depois de engorlipar a última pinga de cimbalino curto que ele nos propiciou - fui à cata do que o senhor presidente dissera. E depois de ler a pequenina, mas sugestiva, tirada em que ele refere com aspas uma certa intelectualidade, lembrei-me dum sargento - classe que aliás admiro - que tive na Guiné, estância onde andei aos pulos nos idos de fins de 6O por motivos de tiro ao alvo...
Esse excelente cidadão, de cada vez que lhe calhava um fabiano peculiar, quer fôsse superior ou inferior, dizia sempre para os seus botões mas suficientemente alto para que alguém ouvisse e se (em hipótese) escangalhasse: "Este tá-se a armar em intelectual...". O sorja em causa - e de que eu aliás muito gostava - fazia por que o vissem como um cidadão positivo, terra a terra, sem essas mosquices da "intelectualidade".
Quem sabe se ele não é hoje, ou foi, autarca em qualquer lugar...
Foi dele que me lembrei, confesso que com alguma saudade, ao ler a pequenina tirada do fértil - talvez - Presidente Rio.

NS

Cimbalino Curto #136

Tenho que admitir que o Manuel tem razão. Perante as provas que apresenta, sou obrigado a vergar-me e, com toda a humildade, reconhecer que fomos injustos no julgamento que fizemos do trabalho da Câmara do Porto na área da Cultura. Mas quem nunca acusou, quem nunca injuriou sem motivo? Por isso, quero aproveitar este post para me desculpar e apresentar a prova definitiva de que esta Câmara está efectivamente empenhada na promoção das belas artes: este é o primeiro executivo na história da cidade composto exclusivamente por artistas. Sim, e artistas da mais alta craveira. E só uma "venda bem presa e bem escura nos olhos", como bem lembrou recentemente o presidente Rio , nos impediu de ver isto durante tanto tempo.
Repare-se, por exemplo, na arte do vereador Paulo Cutileiro, que aposta numa mistura original de pequenos fragmentos da realidade com material anedótico. Citemos o repórter do Comércio do Porto que ontem testemunhou a mais recente performance do artista Cutileiro: "Paulo Cutileiro, que falava durante uma visita ao local [das XXIX Olimpíadas da Columbofilia, a decorrer no edifício da Alfândega], disse que a Câmara do Porto pretende que a prática da columbofilia extravase a dimensão familiar. Nesse sentido, anunciou a criação de dois pombais em escolas básicas da cidade. O autarca considera que o contacto com os pombos-correio desperta 'atitudes positivas e comportamentos relevantes'." Mais: Cutileiro classificou ainda as XXIX Olimpíadas da Columbofilia, como uma "mais-valia do ponto de vista da economia da cidade".
Dito isto, calo-me de vez.

O Silêncio É de Ouro #187



Shins, "Chutes Too Narrow" (Sub Pop, 2003).

O povo é sereno # 205



Duelo ao pôr-do-sol

- Ouve, Tahoma - disse o xerife Peter MacIntosh com a mão oscilando perigosamente a escassos milímetros do seu colt 44 Frontier - Todos nós sabemos que quando conseguiste ser ajudante do marshall de Durango, no Novo México, entregaste a exploração dos bosques a um mestiço, antes mesmo que o novo marshall tomasse posse da estrela...
- Quando falar assim, sheriff, sorria... - respondeu P.C.Tahoma, os olhos acastanhados brilhando como os de um puma - Senão terei de o considerar não mais que um caluniador...um pequeno pulha...
Era quase tardinha. O pó de um dia invulgarmente abafado erguia remoínhos na rua principal junto ao saloon, aos estábulos de Bagoon e ao hotel de Morales, o mexicano de barbicha à Pancho Villa e agitava os cabelos revoltos do pistoleiro mais rápido a oeste do rio Tiejo. MacIntosh olhou Tahoma com os seus acerados olhos cinzentos de aço e deslocou-se um pouco para a direita, onde o sol declinante não o encandeava.
- Limito-me a dizer o que penso, Tahoma - tornou o xerife na sua voz metálica de batalhador - Tu e esse marshall Gutierrez, esse mexicano meio-atravessado, fizeram das boas em Dodge... E no fundo o que conta é o princípio. Pouco importa se o nomeaste madeireiro-mor ou não...E também podia falar noutras jogadas...
- E você, sheriff, com a colocação dos vaqueiros do Círculo Tê à última hora? E andar a pavonear-se de Carson City até Viana del Castillo? Até às reservas dos comanches e dos apaches você foi à cata de pepitas... - e a mão esquerda de Tahoma pôs-se rígida, sem um tremelicar, enquanto ele olhava a dextra de MacIntosh e, por cima do seu ombro, as montanhas del Cristo Rey e o deserto, que já azulavam naquele dramático pôr-do-sol.

(Infelizmente, caros leitores, o resto do relato perdeu-se devido a um bloqueio interactivo qualquer. É o que acontece, se mal nos precatamos, nestes duelos intensamente virtuais...).
NS

Umbigo #131

"Faça-me o favor de me dar algum assunto, engraçado ou não, uma anedota, um gracejo, um quiproquó... Faça-me esse favor, dê-me um assunto. Far-lhe-ei imediatamente um post de dez ou vinte linhas, e ele será, juro-lhe, um dos mais divertidos."
Carta de Gogol para Puchkine, 1835.

"Pede sobretudo ao Annenkov que me escreva. Ele tem matéria para o fazer, certamente que se passou alguma anedota na Câmara do Porto."
Carta de Prokopovitch para Gogol, 1837.

Post It #248

Emanuel Félix comenta Lyndon Johnson.

20.1.05

Post It #247



[Via Hotel Sossego]

Post Scriptum # 464

"(...) uno escribe, otro imprime, otro lee, otro comenta, otro recomienda, otro lee el comentario y busca el libro, y lee el libro con el comentario en la cabeza, otro lee a otro autor y relaciona las lecturas, otro lee y a su vez escribe, otro se pregunta cómo será escribir a orillas del Gualeguay y escribe a orillas del Napostá, otro mira por la ventana y escribe y lee el diario y relaciona las lecturas, otro alza un dedo docto y determina que eso de leer el diario y relacionarlo con la Obra Literaria no tiene nada que ver con nada, otro le dice 'callate, salame', otro responde que 'salame' no es una palabra con pedigree literario y que mejor no usarla, otro dice que sí, que major usar todo, otro hace cosas que no son ni escribir ni leer pero que no las haría si no hubiese escrito, si no hubiese leído (...)"

Excerto de um press-release da Cooperativa Editora El Calamar, de Buenos Aires.

Post Scriptum # 463

Mais vale tarde

Agora fiquei sabendo que o aparelhómetro, por sua vontade ou por incipiência do postador, pode tirar-nos uma parte do texto. Como a morte pode tirar parte da vida a um poeta.
O pedaço que faltou e que iniciava a prosa, era como segue:"Sim, foi há 35 anos que veio a lume este livro, "Corpo Agrário" - e que parece ter sido escrito mesmo agora. O seu autor, Nuno Guimarães, continua a ser um dos mais interessantes poetas contemporâneos e nele se reconhecem como parentes alguns dos que hoje vão fazendo o seu percurso pelos caminhos da linguagem mais certeira".
Resta dizer que a morte, tal como os aparelhómetros traquinas, não tem poder contra uma obra. Mesmo que demore um bocado, acabam por ser fintados.
Nós não desistimos.

NS

Post Scriptum # 462

Faz trinta e cinco anos...

Sim, foi há 35 anos que veio a lume este livro, "Corpo Agrário" - e que parece ter sido escrito mesmo agora. O seu autor, Nuno Guimarães, continua a ser um dos mais interessantes poetas contemporâneos e nele se reconhecem como parentes alguns dos que hoje vão fazendo o seu percurso pelos caminhos da linguagem mais certeira.
Nascido em Vila Nova de Gaia faleceria ainda não cumpridos os 31 anos, após ter publicado "Os Campos Visuais", livro com que ficou findada a sua breve carreira.
De "Corpo Agrário", como homenagem sentida, aqui ficam dois poemas:

Arte que se desdobra sobre a mesa
ao longo da toalha. Rigorosa
nas formas da madeira. No esforço
do linho semeado sobre a mesa.

Arte também do trigo que repousa
enérgico no pão sobre a toalha.
Negado à boca fria. E ao palato
sem poder de motor e já sem água.

Dobadoira que lavras a secura
do corpo de erosão. Que sem palavras
emigra a sua morte sobre a cama.

Dobadoira do pão e da pobreza
articulada à boca como um fruto
aberto e apodrecido sobre a mesa.

*

DE BRUÇOS
Ao M.C.F.S.

Que uma nave poisada no teu rosto
com o seu peso de metal, te cubra.
E habites lento na memória. Cheio
de fendas, cal e coisas fixas. Morte

que chamo rio, pedra ardente (sol)
de morte que chamo arado, lento autor
de lábios comovidos. Terra. Edema.
Tombar apenas, breve oscilação.

Junto à terra te perdes meu amigo
(na memória) da terra que te leva
e te arrefece. Mais que o mundo antigo.

Junto à terra te perdes na memória
(de um corpo que vai gasto e é ainda)
cheio de fendas. Tarde e na memória.

O Povo é Sereno # 204

Ano após ano fomos obrigados a ouvir que a má condução, o excesso de velocidade e a falta de civismo eram os principais culpados no triste caso do IP4. Afinal bastou que se colocassem uns "mecos" a separar as faixas de rodagem, um piso com melhor aderência nas curvas e uma melhor sinalização para que os acidentes mortais acabassem na "estrada da morte". Desde a intervenção de há cerca de dois meses atrás não há notícia de um único ferido grave e ninguém perdeu a vida. O que prova de forma evidente que o problema daquela estrada é o seu traçado absurdo, os seus declives e as suas curvas que parecem ter sido desenhadas pelo diabo. Se tivessem ouvido os condutores que percorrem diariamente o IP4 e os alertas da sua associação de utilizadores teriam poupado a vida a centenas de pessoas e um sofrimento atroz a centenas de famílias. Espero que se faça justiça e que se encontrem os responsáveis, que os há.
Todo este caso é bem revelador da falta de visão e de senso dos políticos responsáveis pelas obras públicas no nosso país. E o desprezo e sobranceria com que continuam a olhar para o interior. É que não há pior forma de provincianismo do que pensar que os distritos de Bragança e Vila Real, por serem província, não têm importância suficiente para merecer uma auto-estrada ficando os que aí moram e trabalham muito bem servidos com uma via rápida. Porque embora não seja isto o que os nossos governantes dizem é no fundo isto o que pensam.

Post It #246



The greatest essay on Oedipus ever written.

O Povo é Sereno # 203

"O professor [do curso de História da Faculdade de Letras do Porto] Ribeiro da Silva comparou aos actuais governantes os antigos senhores da Idade Média das terras de Santa Maria, e de Portugal, que apenas recebiam os impostos do povo para o defender das pestes e da guerra. Durante um painel de discussão intitulado 'Fome, Peste e Guerra: Há 500 anos - S. Sebastião intercessor -Que movimentações? Hoje, que caminhos?', realizado anteontem em Santa Maria da Feira [no âmbito das comemorações dos 500 anos da festa das fogaceiras], o professor, comparando a época medieval com a contemporânea, afirmou que era preciso outro reinado dos Filipes para pôr ordem no país. 'Na altura vieram os Filipes e puseram isto na ordem. Não sei se não será preciso virem outros Filipes para pôr tudo na ordem', afirmou."

Talvez o patrão da Zara esteja disponível.

19.1.05

O Povo é Sereno # 202

Sai mais uma guerra para a mesa do canto.

Cimbalino Curto #135

Hoje chega-nos a notícia de que o Porto é, por este dias, o palco privilegiado de um dos principais eventos desportivos do mundo. A partir de hoje e até domingo, a cidade recebe as XXIX Olímpiadas da Columbofilia, que irão colocar em competição cerca de 800 pombos, provenientes de 32 países.
Não queremos dar largas ao sentimento e não é nosso hábito embandeirar em arco. Mas lemos isto e de imediato a nossa imaginação agita-se, o nosso orgulho bairrista inflama-se, a nossa esperança renasce. O Porto está definitivamente na rota dos grandes acontecimentos internacionais.
Sempre gostava de ver a cara dos parisienses, berlinenses e londrinos quando souberem disto.

EUGÉNIO DE ANDRADE

Hoje faz anos o poeta Eugénio de Andrade.
Não interessa quantos.
Leiam uma das suas poesias.

O Sal da Língua



Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade nasceu a 19 de Janeiro de 1923. O aniversário será assinalado através de uma discreta sessão com Manuel António Pina e o lançamento da revista Textos e Pretextos, dedicada ao escritor. Esta noite, na Fundação Eugénio de Andrade (Passeio Alegre, no Porto).

Ilha dos Amores # 122


Yousef Karsh, "Zulu: Ulla Jacobsson, with Extras", 1963.
(Fotografia realizada durante a rodagem de Zulu, filme de Cy Endfield, estreado em 1964.)

18.1.05

O Silêncio É de Ouro #186



O negrume dos norte-americanos 16 Horsepower em "Low Estate" (A&M, 1998).

Post Scriptum # 461



Eis senão quando

Se fôsse habitual, ou se tivéssemos de dar um prémio ao melhor suplemento cultural do mês, por minha fé que o de Janeiro iria direitinho para o El Cultural que o El Mundo tem a dita de dar a lume em terras de Quixote.
A surpresa, que constituiu um gosto para mim, foi que logo ao abrir do aparelhómetro topei com a capa do livro posto em letra de forma, por cá, numa colecção que foi fazendo muitas adolescências. Precisamente, por lembrança indómita do Rui Amaral, o volume do fidalgo da Triste-Figura que com os seus 400 anos de vida se certifica para o florilégio que, com inteira propriedade, aquela revista espanhola artilhou com brio, honra e caballerosidad à altura do modelo.
De Kundera a Francisco Umbral, de Cézanne a Jackson Pollock - passando por Guillermo Solana, Ernesto Caballero, Orson Welles, Henri Kamen, Javier Villán, André Masson, Fernán-Gomez, Picasso, etc. - autores e pintores comparecem neste suplemento para se baterem com o grande Quijote e o seu Sancho, figura que o completa, o acolita tanto no território das gracias y de los donaires como no mais inquietante et pour cause da escrita e da pintura.
Se puderem, merquem ainda o El Mundo de 6 a 12. Acreditem que não ficarão defraudados. O petisco vale a pena, deixa-nos uma sensação de plenitude.
Que não é muito vulgar - não é mesmo nada vulgar, hélas - conseguirmos obter por cá.

NS

Señor Tallon #94

Um poema só é bom enquanto não sabemos quem foi que o escreveu.

Post Scriptum # 460



Dizem que não há amor como o primeiro. E eu concordo. Este foi o meu primeiro Dom Quixote. Adquirido há muitos anos no Candelabro, o alfarrabista do largo mais bonito da Baixa do Porto, o Largo Mompilher.

"Numa aldeia da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito tempo, um fidalgo dos de lança velha, escudo ferrugento, cavalicoque magro e galgo corredor. (...)
O nosso fidalgo roçava pelos cinquenta anos. Era robusto, seco, de rosto magro, muito madrugador e caçador entusiasta. Conta-se que tinha o sobrenome de Quijada ou Quesada, mas as opiniões divergem. Afigura-se mais verosímil que se chamava Quinjana. Porém, isto pouco importa: basta que os factos relatados sejam verdadeiros.
Quando este fidalgo tinha intervalos de ócio (o que sucedia todo o ano), entregava-se à leitura de livros de cavalaria, com tanto gosto e apego que se esqueceu da caça e da administração dos seus bens. (...)
Em suma, tanto se enfrascou D. Quixote naquelas leituras, que passava a noite a ler, do sol-posto até madrugada, e os dias, de manhã à tarde. E assim, de pouco dormir e muito ler, se lhe secou o cérebro, perdendo o juízo. Aquela pobre cabeça encheu-se de encantamentos, batalhas, desafios, amores, tormentos e todas as demais loucuras que lia nos livros. Para ele não havia neste mundo histórias mais verdadeiras."

É o volume XVI da "Biblioteca dos Rapazes", da Portugália. A tradução e adaptação é de Maria Ponce. A fazer fé num pequeno selo que se encontra no verso da capa, o livro foi vendido, pela primeira vez, numa livraria de Guimarães, L. Oliveira & C.ª (Rua da Rainha D. Maria II, 13). E, na folha de rosto, há uma assinatura que suponho terá sido escrita pela anterior proprietária: Helena Maria Brochado Ribeiro da Costa.

O Povo é Sereno # 201

Ping

Pong

Ping

Pong

Piiiiiing


(Do Público de ontem.)

17.1.05

Post Scriptum # 459


Claudio Rodriguez (Zamora, 1934-1999)

Ao Fogo da Lareira

Não coloqueis ainda as mãos junto do fogo.
Já refresca, e as minhas
estão sós; e que importa, se depressa
vais chegar, que fiquem frias.
Então que rescaldo, que alto lenho,
quanto fumo subirá, como se o sonho
toda a vida se prendesse. Rama
que não dura, rebento que num instante
é um palhal e se consome, nunca,
nunca arderá bastante
o lume, ainda que se faça com estrelas!
Este pelo menos é fogo
de cepa e aquece-nos todo o dia.
Mãos queridas, mãos que agora chego
quase a tocar, aquela, mais minha,
pensar que é cedo e o lar crepita,
e está já ao rubro vivo,
e é frágua eterna, e funde, e ressuscita
aquele tição, aquele de que recebo
todo o calor agora,
esse da infância! Como o ar que à volta
da chama também é chama, à volta
daquelas brasas fumo fui. A hora
do adagiário branco, da velha
conta, da grande jorna sempre segura.
Dizei-me que não é tarde! Lá fora deixa
a sua ventania o inverno e está escuro.
Hoje ou já nunca mais. Bem sei. Julgava
poder estar ainda convosco, porém
vede-me, frias as mãos todavia
nesta noite de Janeiro
junto ao lar de sempre. Quanto fumo
sobe. Quanto calor terei perdido.
Deixai-me ver aquilo em que se converte,
cheirá-lo ao menos, ver onde chegou
antes que desperte,
antes que o lar esteja apagado.

Recolha, edição e tradução
de António Salvado

Post It #245



[Via Hotel Sossego]

Diario de Sophie # 29

O do Boavista canta. O do Porto declama. O do Salgueiros faz desaparecer. Aos de Lisboa só resta uma solução: "presidencializar" o Castelo-Branco. Ouvi dizer que ele faz tudo...

Señor Tallon #93

Separados à nascença.



Ferreira de Castro, cerca de 1930 | José Castelo Branco, 2004.

Ilha dos Amores # 121


Virgem com o Menino,
Oficina do Espinheiro (Frei Carlos), c. 1520.


Na escola, a minha geração aprendeu que a pintura portuguesa do Renascimento tinha sido pouco mais do que banal. Uma espécie de parente pobre e envergonhado da grande arte da Renascença italiana e nórdica. Vasco Fernandes (Grão Vasco) seria apenas uma excepção que servia para confirmar a regra. A realidade, como é óbvio, é bem mais complexa do que isto. E a pequena exposição que está actualmente patente no Museu Soares dos Reis (a página não está actualizada), no Porto, mostra justamente que a arte portuguesa de quinhentos foi muito mais interessante do que os velhos estereótipos deixam entrever.
A exposição, intitulada "Cores, Figura e Luz - Pintura Portuguesa do Século XVI", reúne obras de Frei Carlos, Mestre da Lourinhã, Garcia Fernandes, Cristóvão de Figueiredo, Vasco Fernandes, Gaspar Vaz, Gregório Lopes e Francisco de Campos, algumas das quais pertencentes à colecção do museu do Porto e que normalmente não estão acessíveis ao público. Absolutamente a não perder (ao domingo de manhã a entrada é livre).

O Silêncio É de Ouro #185



Efeito Guronsan para manhãs de segunda-feira.

14.1.05

Post Scriptum # 458

Mas os verdadeiros viajantes são aqueles que partem/ por partir; corações ligeiros, semelhantes a globos,/ da sua fatalidade jamais escapam,/ e, sem saber porquê, dizem sempre: vamos!

Baudelaire, "Poema CXXVI - A Viagem", de "As Flores do Mal".

Post Scriptum # 457



13 de Janeiro de 1949.

Desencanto perante o já feito, perante as opera omnia. Impressão de estar doente, de decadência física. Curva em declínio. E a vida, os amores, onde estão? Conservo certo optimismo: não acuso a vida, acho que o mundo é belo e digno. Declínio. O que fiz, fiz. Como é possível? Ambição, desejo ardente, ansiosa carência de agarrar, morder, fazer. Chegarei ainda a tal?
(Tudo isto porque chovem os juízos negativos sobre "O Diabo sobre as Colinas".)

Cesare Pavese, O Ofício de Viver.

Armazém & Cantina # 8


Literatura, a quanto obrigas...

Recentemente, no anfiteatro da Univ. de Westphalia, o prof. Hans von Greffier proferiu uma conferência sobre literatura comparada. O professor, um dos maiores peritos alemães na difícil disciplina da dissecação, fazia-se acompanhar de dois cadáveres - um fresco, outro mumificado.
À pergunta de um dos participantes, que o questionava sobre a arte da escrita, von Greffier respondeu do seguinte modo: "A língua tem 4 espécies de papilas: o amargo é apercebido pela parte posterior, o doce pela ponta, o sal pela ponta e os bordos e o ácido pela região média".
Acto contínuo, decepou a mão direita do cadáver mumificado, que imediatamente começou a escrever com grande celeridade.
Na colação que se seguiu à conferência, van Graffier teve ensejo de exemplificar in loco, socorrendo-se do préstimo de duas personalidades presentes, o conteúdo do seu postulado.

***

Conforme prometera no A & C # 7, descriptando o enigma proposto nos versinhos extraídos de "Lo adevinancero culto" aqui fica a solução do engenhoso enigma: trata-se, tão-só e de forma tão senhoril, do nosso familiar arrôto.
Desta vez ninguém acertou...

NS

Post It #244

"Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. (...)"

Este é um dos textos mais lidos por editores, impressores, publicitários e designers, desde sempre e em todo o mundo. É conhecido, na gíria das artes gráficas, por "texto simulado". Mas, afinal, de simulado tem muito pouco.

Post It #243



Let's not kid ourselves: everyone hates translations. The evidence is everywhere in the history of literature. Cervantes wrote that reading a translation was "like looking at the Flanders tapestries from behind: although you can see the basic shapes, they are so filled with threads that you cannot fathom their original luster. "Goethe took issue with translators themselves, whom he likened to "enthusiastic matchmakers singing the praises of some half-naked young beauty: they awaken in us an irresistible urge to see the real thing with our own eyes. "Gide observed that the translator was "a horseman who tries to put his steed through paces for which it is not built." Madame de Lafayette equated the translator with "a lackey whose mistress sends him to pay someone a compliment; whatever she said politely, he renders rude.

Excelente texto de Wyatt Mason, a propósito das novas traduções de Proust surgidas recentemente nos Estados Unidos.

13.1.05

O Povo é Sereno # 200



A função do mito

Já alguém disse um dia que governar era uma actividade pouco séria. E tratava-se não de um anarquista ou de um cidadão com os azeites mas sim de um dos grandes estadistas do século passado - e vou na aposta de que também o será deste. Precisamente, Winston Churchill. E acrescentava o velho buldogue, num exagero de lucidez, que por isso mesmo é que os oficiantes dessa ocupação devem ser pessoas completas - e se possível íntegras. E como corolário, naquela maneira de ser que os cidadãos de qualidade possuem, rematava: "E nem precisam de ser muito bem apessoados, basta que não sejam ridículos".
Sabe-se que a política em Portugal é peculiar, traiçoeira e frequentemente cruel - inter pares, para não falar na crueldade para com os de fora. Num mundo mediatizado, muitos políticos são olhados não pela sua competência mas pelo seu aspecto, pelos sinais exteriores de elegância para dizer ironicamente.
Não tenhamos dúvidas: há gente que liga mais importância ao parecer do que ao ser. Pois se foi para isso que a prepararam, através de uma política televisiva rigorosamente controlada, cimentada por serigaitas e rapazolas sem nada ou com muito pouco dentro da cabeça mas arrreados com esmero ou segundo a última moda!
Vestir com esmero não faz mal a ninguém (dizia Marañon que aos sevandijas nem a vantagem de vestir bem lhes devemos deixar) principalmente se se dispuser de dinheiro para isso. Mas o cenário que vai na nossa praça é supinamente ridículo - e inquietante. As aparências terem o prato principal, num país que é o mais pobre da União Europeia e um dos mais pobres da Europa, onde campeia a corrupção ética e os sistemas (de saúde, judicial, educacional, de segurança, etc.) estão a dar as últimas - é um dado esclarecedor e que nos devia preocupar.
Para quando, com equilíbrio, a atitude popular de julgar as coisas e as pessoas pelo seu lado de humanidade, de competência, de verticalidade? Deixando de lado os que só sabem empenachar-se como pavões pretensiosos e que, no fundo, só querem desabrochar à custa de todos nós.

Post Scriptum # 456

Uma lady na mesa, uma louca na cama.
Marco Paulo, Taras e Manias.

Muitas coisas que à mesa revelam mau gosto são na cama um bom condimento. E vice-versa. A maior parte das uniões são assim infelizes pela simples razão de não se proceder a esta separação entre cama e mesa.
Karl Kraus, O Apocalipse Estável.

O Blogue é de Ouro



UM ANO COM LETRA GRANDE.

O Silêncio É de Ouro #184



Garlic, "The Murky World of Seats" (Bella Union, 2002).

DUELO, novo livro de poesia de Luís Quintais

Há um novo livro de poesia do qual pouco se tem falado (mas fala-se de outras coisas, sei lá, fala-se de Pôncio Monteiro, esse personagem, fala-se da Quinta dos bichos, fala-se de São Tomé e Príncipe...), um livro que me parece digno de registo pelo menos por duas boas razões.

A primeira, - para quem leu bem a obra de Luís Quintais, - porque esta colecção de textos representa um passo à frente na poesia de um poeta que se ocupa do mesmo quotidiano e do mesmo real que alguns dos poetas da sua geração, porém com uma vontade intelectual (há que não ter medo da palavra) e uma procura culta e referênciada (algo hermética, dirão outros, não sendo - admito - o livro por onde começar a ler Luís Quintais) que denota o ensejo de nivelar pelos domínios da filosofia essa atitude muito ao gosto, por exemplo, de um Fernando Guimarães. Nota-se claramente o seu gosto pelos poetas americanos como também (eu, que acredito que a so called geração de 90 um dia será lembrada como os que leram mais Joaquim Manuel Magalhães e os que leram mais João Miguel Fernandes Jorge), a leitura interessada que fez deste último.
A segunda razão é - de acordo com esse gosto pela intelectualização do real - a extrema riqueza vocabular destes poemas, o trabalho de linguagem que lhes assiste, a técnica e os silêncios. Como um dia escreveu o crítico António Guerreiro no Expresso, (e cito de cor) lê-se um poema de Luís Quintais e percebe-se que é um Luís Quintais.

Há um poema que me agradou particularmente porque se insere (inaugura?) aquilo que se poderia chamar de MINIMALISMO ABSTRACTO na poesia portuguesa no seu tema (nada agradável) da morte e da cremação de um corpo. Com apenas 12 palavras e sabe-se lá quantos silêncios, descreve-se passo a passo o referido processo, num rol de vocábulos muito bem achados e que termina com um iniciado pela letra "z", (o fim do alfabeto como fim da oralidade e da vida), mas que alberga pelo meio outras sugestões narrativas como a da natureza cíclica das gerações ("Portas giratórias"), da extrema efemeridade da vida ("Luxo", e a adiante "colapso", ou o salto da dureza do "mármore" para a fragilidade da "madeira"), da aguda dor interior de um luto ("surdez") ou a imagem mais digna, ("serenidade", a adiante, "Zelo").

Fica o dito poema:



Crematório


1

Luxo, serenidade, mármore.


2

Portas giratórias.


3

Câmara, plasma, vapor.


4

Madeira, colapso, surdez.


5

Zelo.



Luís Quintais, DUELO, Edições Cotovia, 2004.


Claro que é preciso já ter lido muita poesia para entrar nisto. Como escreveu Pedro Mexia (e cito de cor): "quem pensa que a renovação da poesia portuguesa não se vai fazendo..."

Post Scriptum # 455

Alfredo Pérez Alencart (Puerto Maldonado, 1962)


Quando se sente a cidade

Serás apenas aquele homem que celebra a sua cidade
a todo o momento, em qualquer campanário
ou torre profanadora dos ventos.

E não haverá cansaços. Demiurgo algum
afirmará que telhados ou que terraços
formarão parte das tuas recordações.

Não encontrarás outro céu como este,
propício às aparições
de vasos de luz
e de orvalho.

Não terás cadeiras: somente presenças.
Não ouvirás elogios: apenas o silencio.
Não farás tagarelices: apenas apogeu.

E não poderás deixá-la,
pois a sua sombra estará disposta para amanhecer
nas cornijas de qualquer cidade estranha
até que a tua memória fique saturada
com o fogo do seu nome.


in "O Feitiço da Vontade"

Selecção, prefácio e tradução de António Salvado
(Sirgo, Letras & Artes - Castelo Branco)

Post Scriptum # 454

13 de Janeiro de 1949.

Viver entre as pessoas é sentirmo-nos como folha ao vento. Vem a necessidade de isolar-se, de fugir ao determinismo de todas aquelas bolas de bilhar.

Cesare Pavese, O Ofício de Viver.

Umbigo #129

Ljogkim zefirom letit.

O Povo é Sereno # 199



OBRIGADO, DANIEL

Nunca, como hoje, se sofreu tanto para se ser neste país um professor exigente e consciencioso. A História da Educação em Portugal sempre foi feita de sobressaltos, de avanços e de recuos, de momentos de euforia e de desencanto, de manipulações subreptícias e de instrumentalizações descaradas - mas nunca, como hoje, o professor se viu no papel de bode expiatório dos males da Educação.
Numa sociedade ingénua que, a partir de 1974, não achou melhor maneira de reagir ao autoritarismo do que instituir um sistema educativo que consagra direitos sem obrigar ao respeito pelos deveres mais elementares, os professores têm sido vítimas de um país que os deseja sobre-humanos, que tudo lhes exige dando muito pouco em troca. Deixam de ensinar para serem burocratas, são estóicos perante as agressões (psicológicas, mas também físicas) de um número crescente de pais e de alunos, abdicam dos seus princípios para "concordarem" com um sistema educativo que não promove valores como o da exigência, engolem sapos perante um regime de avaliação que promove a preguiça e a estupidez, esquecem o que aprenderam para descerem até mínimos inaceitáveis o nível de exigência na aquisição dos conhecimentos, substituem o Estado como assistentes sociais quando têm nas suas turmas crianças pobres ou no limiar da pobreza, são psicólogos quando as escolas não os têm ao seu serviço, assumem o papel de pais e de mães quando estes "abandonam" os seus filhos na Escola, demitindo-se do seu papel de educadores... E, como se isto não bastasse, os professores deste país têm ainda que ser surdos quando escutam os palpites de "especialistas" míopes ou interesseiros, quando ouvem - da boca de gente que não conhece a realidade de uma escola básica ou secundária - que "trabalham pouco", que "gozam muitas férias", que "ganham bem e saem cedo" (gente essa que esquece o facto de os docentes serem os pacientes mais assíduos de psicólogos e de psiquiatras).
Por tudo quanto escrevo, fiquei comovido quando li a crónica de Daniel Sampaio, dada à estampa no dia 8 de Janeiro na revista "Xis". Nada do que afirmou era para mim novidade. Mas vê-lo escrito como o escreveu confortou-me - na medida em que abriu uma centelha de esperança para todas as pessoas de bem que tiveram oportunidade de ler o artigo. O reconhecimento público do desrespeito de que têm sido alvo os professores e um Ensino rigoroso nos últimos decénios é meio caminho para a construção de um sistema educativo em que o trabalho dos bons docentes seja reconhecido, em que os profissionais menos competentes sejam incentivados a melhorar a sua prática, em que se promova um verdadeiro sucesso educativo (e não um insucesso camuflado) baseado numa relação sã entre docentes, alunos, pais e comunidade envolvente.
Daniel Sampaio propõe: "neste novo ano, (...) pensemos o que poderemos fazer pelos professores, em vez de estarmos sempre a exigir o que eles devem fazer pelos nossos filhos".
Por estas e por todas as palavras do seu artigo, respondo - comovido - de forma simples, mas sentida: - Obrigado, Daniel!

(Ruy Ventura)

12.1.05

O Silêncio É de Ouro # 183



The Twilight Singers, "Twilight as Played By the Twilight Singers" (Sony, 2000).

Post Scriptum # 453



Boujema El Aoufi
(Marrocos, n. 1961)

O SONHO DO POEMA

Por duas razões que resistem à especulação
O poema recolhe-se cedo
Ao corpo do poeta:
Ou porque o poema se priva de sonhar
Ou porque o guerreiro
Decidiu descansar!
Apenas entre mãos sonhadoras o poema dorme na posição correcta!

Tradução de Pedro Amaral, a partir da versão inglesa, de Norddine Zouitni.

Armazém & Cantina # 7

Quarta-feira...Meio da semana... Mas isto merece festejo! E precisamente para que isso seja formoso - que melhor do que extrair uma adivinha do livrão de José Luís Gárfer e Concha Fernandez "Adivinancero Culto", saído há pouco na "Edimat" com uma bela capa cartonada de Juan Manuel Domínguez?
Vai no original para ter mais sabor e além disso por cá toda a gente percebe espanhol. Aos que me quiserem dar o gosto de acertar (na próxima A & C se descriptará a solução) oferecerei como prémio...a satisfação do dever cumprido.

"Cuál es el que no pecó
y sin culpa fue prendido
y en una prisión metido
hasta el dia que murió.
Habla casi como yo,
es discreto, aunque villano,
tiene nombre de cristiano
- y nunca se bautizó?

NS

Cimbalino Curto #134

O acontecimento mais importante da semana cultural portuense terá lugar hoje, no edifício da Câmara Municipal. Mário Cláudio, Prémio Pessoa 2004, vai ser recebido na Sala Dona Maria, pelo presidente da autarquia, Rui Rio, num encontro que se adivinha intelectualmente muito estimulante. Recorde-se que a separar as duas personalidades estão as suas opiniões divergentes no que respeita à gestão autárquica protagonizada pelo dirigente do PSD, em especial na área da cultura. Mário Cláudio considerou recentemente que, em três anos, o autarca "dinamizou a cidade, do ponto de vista cultural". Rui Rio, pelo contrário, considera que, ao fim de três anos, "a cidade está mais dinâmica, do ponto de vista cultural". Infelizmente, o acesso ao espectáculo só é possível com convite.

Post Scriptum # 452



"Sexo, Noitadas e Rock'n'Roll", de António Pedro Ribeiro.
Um livro de poemas e outros escritos que revelam uma lamentável falta de sentido de Estado.
(Pedidos para apedroribeiro@hotmail.com).

11.1.05

Post Scriptum # 451



TREMER COM GOSTO

Um pouco de terror nunca fez mal a ninguém - principalmente se é originado pela literatura preparada a preceito. No caso vertente a de H.P.Lovecraft, posto em site pelo confrade brasileiro Denilson Carareto.
A página tem contos com muitos ebooks para download (já repararam na minha progressiva sabença interactiva?), biografias, fotos e figuras, além de resenhas e levantamentos bibliográficos sobre o autor. Vá por mim: é de facto um dos melhores da rede no que ao criador de "O caso de Charles Dexter Ward" diz parte.
Caso queira conferir, é fácil - basta entrar aqui e um mundo de horror e maravilha se abrirá lestamente por um bom bocado: http://www.sitelovecraft.cjb.net
E ainda por cima não encontrará lá nenhum politicão. Os monstros que por lá há são todos gente séria e de qualidade rigorosamente controlada...

Post Scriptum # 450

11 de Janeiro de 1940.

As grandes florações [literárias] são precedidas por uma geração de intensos tradutores (neòteroi, stillnovistas, elisabetianos, trio da dor, romance russo, neo-realismo americano).
Quanto mais a história se avizinha da nossa época, mais frequentemente se dá a fusão entre duas civilizações através do papel, e não pela carne. As traduções substituem as invasões.

Cesare Pavese, O Ofício de Viver.

Ilha dos Amores # 120


Zhang Huan, Family Tree, 2000.

I invited 3 calligraphers to write texts on my face from early morning until night. I told them what they should write and to always keep a serious attitude when writing the texts even when my face turns to dark. My face followed the daylight till it slowly darkened.
(Zhang Huan)

Cimbalino Curto #133

"Interviemos de forma contundente no Bairro S. João de Deus [considerado o maior 'supermercado' de drogas do país], que constituía e, em parte, ainda constitui a maior chaga social da nossa cidade, pela miséria e pelo sofrimento humano que ali, vergonhosamente, se tinha instalado."
(Rui Rio, na sessão comemorativa que assinalou os seus três anos de mandato à frente da Câmara do Porto).

"Com a demolição de casas [em S. João de Deus] os principais problemas do bairro não foram resolvidos, mas sim agravados e estendidos a outros bairros."
(Padre José Maia, presidente da Fundação Filos e responsável por múltiplos projectos de apoio social no Bairro S. João de Deus, em curso há mais de duas décadas).

10.1.05

Post Scriptum # 449



RICARDO PASEYRO
(Uruguai, 1925)

VIAGEM

À deriva caminho. Estas veredas
dissimulam o rumo das florestas
onde velam as vespas e os besoiros.
Busco na sombra um sítio de frescura
e a fragrância do sal vejo sumir-se
entre o perfume intenso dos pinheiros.
A praia; o mar difunde luzes
e pinta-se de azul, de anil, de prata,
de vermelho e rosado, de ouro velho.
A carícia da brisa virá breve
e ao despertar, quando entardece o dia,
cantarão as criaturas e as árvores
ao compassar universal dos astros.


EM MONTPARNASSE

Em Montparnasse era de azul e rosa
a tarde, era um crepúsculo
de carne e coração, era a minha carne,
era um tremor daquilo que o tempo extingue:
animais morosos, flores perdidamente
moribundas, noctâmbulas estrelas
que desatam o frágil infinito.
Apenas eu e os sinos da tarde chamando
a que eu morra, a que dobre
o meu corpo à terra e ao carvão a minha sombra
como dádiva ao sol, ao vento, ao céu.
Sinos emaranhados
entre voos de pássaros e luzes,
trinai por mim, trinai para que eu morra,
trinai quando eu morrer para que seja
ruína e menos do que pó, do que vazio,
que sinta porém a alma da tarde
e o rumor das coisas que se extinguem.

in "Poemas"

Tradução, introdução e edição de António Salvado
(Sirgo, Letras & Artes - Castelo Branco)

Umbigo #127

O papel rosado dos jornais de economia é péssimo para acender o lume nas lareiras e salamandras domésticas.
Em compensação, os suplementos literários oferecem uma chama intensa e abundante, que se propaga rápida e facilmente de linha para linha.

Armazém & Cantina # 6

Para animar a semana que se antevê criadora e fecunda - assim Zeus nos oiça - um cheirinho do nosso querido Miguel de Unamuno:

"Com razão ou sem ela, ou mesmo contra ela, não tenho ganas de morrer. E quando chegar a minha hora sem apelo nem agravo isso não será por minha culpa, isto é: não me terei deixado morrer mas ter-me-á matado sim o destino humano.
Se não ficar fraco da cabeça ou, dizendo ainda melhor, fraco do coração, não me demitirei da vida - ter-me-ão destituído dela".

Trad. NS

O Silêncio É de Ouro #182



Deerhoof, "Apple O'" (Kill Rock Stars, 2003).

Post Scriptum # 448



Carl Sandburg
(E.U.A, 1878-1967)

SOPA

Vi um homem famoso comer sopa.
Vi que levava à boca o gorduroso caldo
com uma colher.
Todos os dias o seu nome aparecia nos jornais
em grandes parangonas
e milhares de pessoas era dele que falavam.
Mas quando o vi,
estava sentado, com o queixo enfiado no prato,
e levava a sopa à boca
com uma colher.

Tradução de Alexandre O'Neill.
Carl Sandburg, "Antologia poética", Tempo, 1962.

Poema enviado pela Amélia Pais.