O povo é sereno # 209
Riquezas da sua avó
Uma estorinha de muito amar: nos fins de 90 estive em Paris, na Livraria Lusófona, a lançar um cartapácio. Assistência diversa... lindas mulheres...um tinto de honra...novos e velhos. Ou seja: tudo muito fixe. Durante a leitura das palavrinhas da ordem, que eu puxara à sustância para não deixar mal os meus ancestros, reparei num senhor de bastante idade, aspecto fino, que seguia atentamente a "oração de sapiência" e que assim se manteve até ao fim.
Antes dos comes-e-bebes, enquanto a malta que eu arteiramente seduzira me vinha afifar uma bacalhauzada, o tal velhote frágil aprochegou-se e deu-me um forte aperto de mau misturado com palavras onde eu percebi coisas como "manter a coragem", "nunca desmerecer" e outras expressões que me fizeram vibrar. Na rota em busca de umas febras e de um especial de corrida da Vidigueira, perguntei a quem me acompanhava, com unção, quem era aquele senhor debilitado pela idade mas com um ar firme que me impressionara. E ela respondeu-me: "Não conheceste? Ah! claro, vives lá longe... Pois aquele velhinho frágil é Willy Gengenbach, um dos anti-nazis sobreviventes dos campos de concentração nazis que Hitler mandou prender pessoalmente...".
Anos antes, por um bambúrrio propiciado por confrades, conhecera no Café de Flore um dos heróis da minha juventude: um sujeitinho gordo e míope, que parecia que não tinha cara para levar uma chapada - Jacques Bergier, escritor, grande conhecedor da sabedoria hermética e herói da resistência, o homem que abateu num duelo à pistola Hans Ziereis, na estalagem onde se refugiara o chefe do campo de concentração de Neue Bremme.
Não era, como o outro, um Hércules... Mas tinha dentro a força da vida.
Ontem, lembrei-me destes dois exemplos de homens de antes quebrar que torcer. Enquanto ouvia as notícias de que o Povo iraquiano, apesar das ameaças terroristas, da falta de competência formal das tropas que lá estão e das inúmeras dificuldades - fora votar contra as feras. As feras da pobreza, dos anos de totalitarismo e do fascismo islâmico fundamentalista e brutal.
Haja o que houver no futuro, mostraram como se responde aos canalhas totalitários, religiosos ou laicos.
Curvo-me, sentidamente, perante a sua coragem.
NS

