30.9.05

O impossível acontece

às vezes

19.7.05

O granito também quebra (fim)

O Quartzo, Feldspato & Mica encerra hoje definitivamente as suas actividades. Para nós, foram vinte e três meses bem passados na companhia dos leitores e colaboradores, a quem agradecemos a atenção dedicada a este blogue. Talvez num futuro próximo nos encontremos noutro lugar da blogosfera. (Fim da emissão.)

António Pedro Pombo
Nuno Corvacho
Rui Manuel Amaral

Anita na DGCI: online e off the record

A Anita é uma pequena editora em part-time, registada como empresária em nome individual sem contabilidade organizada. Quer dizer que a partir do corrente ano fiscal, a Anita tem de enviar todas as suas declarações de contribuinte pela Internet.
Começou pelo IVA do primeiro trimestre de 2005. A Anita tem formação superior, está até a acabar o doutoramento. A Anita demorou três horas a quitar o computador, importou o Java, alterou os settings de segurança, fez resets, escreveu mails à DGCI, recebeu mails da DGCI. A Anita lá conseguiu aceder ao formulário do IVA. Ficou contente por o seu avô, agricultor que aprendeu a ler sozinho e a escrever quadras populares, partilhando com ela a mesma situação de contribuinte, não ter de perder o tempo que a Anita perdeu. O avô da Anita nunca viu uma Internet, não tem computador, e portanto mandou à neta os dados, as senhas confidenciais, e a Anita preencheu também o formulário do avô. Preencheu ainda o formulário da sogra, professora do ensino secundário, que partilha com o avô da Anita a situação de nunca ter visto uma Internet.
Então a Anita recebeu em casa uma nota da DGCI a dizer que era obrigatório entregar, também pela Internet, o formulário modelo 10 relativo às retenções na fonte dos rendimentos pagos a terceiros. A Anita tinha pago 150 euros ao Filipe, englobado no quadro fiscal dos miseráveis artistas, sem obrigação de retenção na fonte. Mas a Anita era obrigada a reportar que lhe tinha pago, embora não retido. A Anita foi à Internet. Não percebeu como entregar a declaração. Fez uma busca. Apareceram-lhe umas coisas, que depois veio a saber já antigas, com formulários para preencher em ASCII e enviar.
A Anita telefonou para a DGCI. A DGCI ficou indignada porque a Anita, com curso superior e formação avançada, não tinha descoberto que devia ir ao quadro nº cinco da lista à extrema direita da página net, onde dizia "contribuintes" para procurar o modelo 10. A Anita lá foi. A Declaração demorou 50 min a carregar. Quando apareceu, a Anita não soube como enquadrar o caso especial do Filipe.
A Anita decidiu deslocar-se às Finanças. Havia lá muita gente com avisos do modelo 10 na mão. A Anita esperou duas horas para ser atendida. O Sr. das Finanças olhou para o triste recibo verde do Filipe a declarar o pagamento da Anita, e deduziu que tinha sido a Anita a prestar um serviço ao Filipe. A Anita teve de explicar ao Sr. das Finanças como funcionava um recibo verde, demorou ainda mais algum tempo a esclarecer a triste situação que ali a levava, e pediu por favor para entregar a declaração em papel. O Sr. das Finanças disse que não podia ser, e pedia desculpa mas não tinha rede para ir à Net ver com a Anita como fazer. Enfim, lá lhe deu uma dica, apontando para o modelo em papel: se isto aparecer na Net, experimente escrever aqui B1.
Brilhante. A Anita voltou para casa, foi à Net, demorou mais 50 min a carregar a declaração, pôs lá o B1, e a coisa até que ia, não fosse depois o quadro CO1 não jogar com o quadro CO2, e o C05 estar incompleto. Mais meia hora e a Anita lá conseguiu amanhar a coisa. A Anita submeteu a declaração. O sistema Net levou 40min a responder: a declaração não foi submetida com sucesso porque expirou o tempo de utilização.
A Anita da próxima vez vai dizer ao Filipe que não vale a pena gastar os seus recibos. Paga-lhe umas minis e continuam amigos como dantes. Vai ainda dizer ao avô que tenha paciência mas arranje lá um esquema qualquer com o pastor e não a chateie.
Mas ainda bem que a Internet existe para facilitar a vida e dispensar os funcionários públicos.

Margarida Vale de Gato

18.7.05

Documentários portugueses na 2:



Finalmente o canal 2 da RTP resolveu abrir as suas gavetas e mostrar a recente produção documental portuguesa. Até sexta-feira serão exibidos, por volta da 1h00, cinco documentários. O primeiro é "Rabo de Peixe" (hoje), um filme de Joaquim Pinto e Nuno Leonel. Rabo de Peixe (Ilha de S. Miguel, nos Açores), uma das localidades mais pobres de Portugal, é o cenário para uma história de resistência e sobrevivência. O filme acompanha a vida do pescador Pedro durante um ano inteiro.
Amanhã passa "Rebelados - No Fim dos Tempos", de Jorge Murteira. Filmado na Ilha e Santiago, Cabo Verde, o filme acompanha o quotidiano e as expectativas de três rebelados que esperam pelo fim do mundo, anunciado pelos mais velhos para o fim do milénio. Também passado em África, desta feita em Moçambique, é "Kuxa Kanema", um filme admirável de Margarida Cardoso sobre o nascimento do cinema naquele país (quarta-feira).
De regresso a Cabo Verde, "Mais Alma", de Catarina Mourão, acompanha o processo de criação dos espectáculos de teatro de artistas caboverdianos. A cineasta olha para os bastidores do teatro, mas foca, principlamente, a vontade que os artistas têm de procurar e exprimir uma nova identidade.
Sexta-feira, regressa-se ao tema do cinema com "Onde Jaz o Teu Sorriso?", de Pedro Costa. O cineasta português acompanhou a montagem de "Sicília", de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. O filme, que recebeu com toda a justiça rasgados elogios dos "Cahiers du Cinema", é um documento impressionante sobre o processo criativo.

Luísa Marinho

Adeus, amigo! Sabes tão bem a falta que me fazes

Homenagem fúnebre a Luís Carlos Fins Afonso Ferreira Crespo, ao som ao 40ª Sinfonia de Mozart (Molto Allegro), da Pequena Serenata em Sol Maior, KV 525 (Allegro); e de Ballads (do saxofonista de jazz Ike Quebec)

"Obrigado pela visita", disseste, com o teu sorriso sereno a bailar-te na boca. Não percebi onde se consegue ir buscar tanta coragem. Uma visita é coisa tão pouca perante quem sabe estar a olhar a morte de frente.
Falámos de viagens, amigos comuns, passeámos pelos espaços que escolheste, naquele teatro fraterno de iludir uma morte que tu desconfiavas poder apunhalar-te a qualquer momento.
E eu, para te "recuperar" para o mundo dos vivos e te dar força, levei-te nesse dia "Amanhã à mesma hora, diário de uma stripper", de Leonor Sousa. Já não tive tempo de te dar "O Beijo" (José Vilhena), que esteve a apanhar sol em minha casa durante dois dias, para prevenir as infecções que os objectos podem transportar perante quem está tão fragilizado fisicamente.
"Obrigado pela visita", disseste. E nunca mais ouvi palavra da tua boca. Visitei-te sem medos de nenhuma espécie da primeira vez, seis dias após o teu internamento, apenas com a preocupação de te dar ainda um abraço no hospital.
Estavas no teu primeiro dia de quimioterapia. Não pude deixar de perguntar: "Mas qual é o problema em concreto?". O problema era uma leucemia aguda. Galopante. Como não podia deixar de ser. Passaste pela vida a galopar como um corcel fogoso, um tufão, um ciclone de afectos. Com a curiosidade natural de ir ao encontro do Outro, viajando pelo mundo como quem apanha o autocarro para ir a Belém. Da Suécia à Albânia, passando pela Macedónia, da Polónia à Roménia. Onde não estiveste, Luís Carlos?
Telefonaste-me a pedir conselhos sobre Skopje, onde eu tinha estado ao serviço de O JOGO a cobrir um encontro da selecção nacional de basquetebol. Lembro-me disso tão bem como das confissões sobre a tua segunda experiência amorosa.
"Obrigado pela visita", disseste. E eu deixei-te a falar com a Margarida. Ela entrou no quarto e tu estendeste a perna, como um gatinho angorá com medo da chuva, mas com vergonha de o mostrar. De modo a que a Margarida pudesse fazer-te uma festa no pé direito. Já estavas a despedir-te, Luís Carlos? Se estavas a despedir-te, os teus olhos mostravam uma coragem maior do que o mundo.
E tinhas ainda coragem para chegar à cama ao lado e perguntar com voz animadora: "Então, camarada?". E camarada era uma palavra que te ficava bem. Porque camaradagem é fraternidade.
As nossas relações nunca foram normais, Luís Carlos. Nunca discutimos, desde 1979 até ao dia 15 de Julho de 2005. Isto não é normal, Luís Carlos. Que bonito seria o mundo se isto fosse normal, Luís Carlos. Já reparaste numa coisa? Se retirarmos o "Carlos Fins" do meio de "Luís Carlos Fins Afonso Ferreira Crespo" e lermos os primeiros dois nomes que sobram... tens o mesmo nome que eu: Luís Afonso.
"Obrigado pela visita", disseste. E foram as últimas palavras que ouvi da tua boca. Eu é que agradeço a visita que me fizeste durante estes anos todos. E tão poucos foram.
Dizem que a vida começa aos 40. Sendo assim, Luís Carlos, nem chegaste a ter idade para entrar na escola.
Pediste-me para avisar o Alberto da tua hospitalização. E eu avisei. No outro dia, o Alberto visitou-te logo ao almoço. E desfez-se em pequenas peças ao falar comigo ao telefone. Uma semana mais tarde, foi a vez do Gabriel se quebrar em mil pedaços de "puzzles" de cristal, telefonando-me de Gotemburgo. E eu, no meio de um jantar de blogues, dei todas as notícias ao Gabriel, com serenidade. Sabes, Luís Carlos, eu já tinha enviado um "mail" ao Gabriel, a preparar a tua passadeira vermelha que desemboca num bar de valquírias.
Mas o Gabriel deve ter passado uma semana sem perceber o que lia. O Gabriel não queria compreender. O Gabriel conhecia o Luís Carlos que se atirava loucamente pela encostas nevadas da Suécia, a bordo de um trenó. E que tinha logo um acidente à primeira tentativa, porque uma placa de gelo por baixo da neve o impedira de travar como devia.
- Ó Gabriel, vai ali um casal a fazer sexo, na parte de trás do eléctrico.
E o Gabriel, habituado a certos costumes liberais da Suécia, nem queria acreditar, enquanto o Luís Carlos, num dos seus primeiros contactos com Gotemburgo, se começava a compenetrar de que estava a assistir a uma cena normal para a Suécia.
Faz amanhã oito dias, Luís Carlos. Eram 23 horas, mais minuto menos minuto, Luís Carlos. Eu estava num jantar de blogues. E quando o telemóvel tocou era o Gabriel. E eu, a pensar que estava sereno, dei todas as notícias com calma e elevação.

- Desculpa, Luís - disse o Gabriel.
- Desculpa, Luís - disse o Gabriel.
- Desculpa, Luís - disse o Gabriel.

Desculpa, Luís, disse o Gabriel.

- Não consigo ouvir mais. Vou ligar à minha mãe.

E o Gabriel desligou. E quando o Gabriel desligou, as lágrimas que eu tinha chorado pelo Javier Bardem em "Mar Adentro" vieram outra vez esquiar-me pelo rosto abaixo. Mas vinham em grandes grupos de excursionistas muito velozes, a cair nos lábios com o sabor do sal.
E a Matahary, que estava a meu lado, e que eu só tinha conhecido pessoalmente há poucas horas, ficou assim...assim...assim muito triste a olhar para mim. Sem saber o que dizer ou que fazer.
E eu sorri um sorriso bonito, pedi desculpa e fui até à casa de banho. Sabes, Luís Carlos, eu não tinha vergonha de chorar por ti. Nestes dias todos, eu tive orgulho em chorar por ti. Mas eu precisava mesmo de ir à casa de banho.
E depois deslizei parede abaixo, fiquei com os joelhos à altura da cara, abracei as pernas e aquele exército de lágrimas (parecia um exército do Akira Kurosawa em "Ran") veio dar-me beijinhos no rosto, como quem diz:

- Deixa lá, Luís, é assim a vida.

Assim, como?
Sim, assim, como?
Luís Carlos, tu dançavas a valsa com a vida como num "Romeu e Julieta" de Shakespeare. E transformavas os golos de Eusébio num tango religioso de expressão máxima.

- Eu lembro-me. Eu era pequeno, eu até chorei. O Eusébio nunca falhava aqueles livres. E daquela vez partiu para a bola e chutou por cima da trave. Eu lembro-me, eu era pequeno, eu até chorei.

Sim, Luís Carlos, tu em pequeno choravas pelo Benfica. Mas sabias que o desporto era uma coisa para conviver, apesar de seres um tanque de guerra a jogar futebol. Eu sei, um dia chutaste-me no pé, quando ele ocupou o sítio onde estava a bola. Fiquei por ali aos saltinhos no jardim da Casa da Moeda, como numa dança da chuva. E tu a coçares a cabeça, a escolher o melhor ângulo para me pedir desculpa.

Rezei por ti de madrugada, na praia de Carcavelos, nesse sábado. Rezei por ti no Estoril, no sábado seguinte, no 60º aniversário de um grande amigo. E não percebi nada, Luís Carlos. Não percebi como é que uma felicidade merecida do meu amigo não se podia conjugar com mais um pedacinho de presunto ou queijo, para petiscar com a tua felicidade. Prepararam uma homenagem ao aniversariante, "construindo-lhe" um DVD-ROM de 20 minutos que atravessava toda a sua vida.
E enquanto eu via Moçambique e um tempo que não era o nosso (mas aquele mundo existiu mesmo?) começou a tocar o "She" do Elvis Costello e as lágrimas do "Mar Adentro" apareceram outra vez à traição. E o filho do aniversariante bateu-me nas costas, olhou-me com ternura, percebeu tudo e disse:

- É humano.

Claro que era humano. Tratava-se das minhas lágrimas para ti, do Estoril para a tua cama do Hospital do Desterro, exílio de coragem onde entraste de peito feito às balas, como se corresses a direito para a morte, como no "Galipolli", do Peter Weir. Não sei se estou a dobrar a letra L no sítio certo, Luís Carlos, mas agora estou a falar contigo, não vou pesquisar na Net, no IMDB. É um site onde se vai para obter dados sobre filmes. Não sabias, Luís Carlos? Ah! sim, tu é mais tinto.
É óbvio que agora não vou à Internet, Luís Carlos. Nem estou para a Taça Davis, em ténis. Sabes, Luís Carlos, estamos a perder com a Argélia por 2-0. Mas isso não tem importância nenhuma, pois não? O que continuo sem perceber é a razão de não teres podido estar comigo na bancada, a dizer uma coisa que eu imagino assim, num diálogo que apenas não aconteceu porque não tinha de acontecer:

- Porra, que estes portugueses não jogam nada. E o sol está forte como o caraças. Vou mas é buscar uma cerveja.
- Mas não estás a gostar do jogo, Luís Carlos?
- Estou a gostar de estar contigo. Mas agora vou buscar uma cerveja. Já venho, espera aí. Também queres uma?

Bem, Luís Carlos, vou passar do sol do Jamor para a penumbra da Igreja de S. João de Deus. Eu sei, às 16 horas, combinei com a Margarida. Mas não estranhes que não te vá cumprimentar e olhar para ti. Quero ficar com o sorriso que tenho dentro do coração. Esse outro Luís Carlos que já és... pertence a outro filme. Enganou-se no casting. Enganaram-no no casting e eu continuo sem compreender. Quero ficar com aquele filme de longa-metragem (e tão curto, tão curto que até dói no Alaska) em que entramos os dois.
Morri por ti um bocadinho todos os dias, Luís Carlos, quando te visitei. Para ver se ao morrer um bocadinho todos os dias te conseguia pescar um bocadinho de vida para além da morte.
Onde foste buscar tanta coragem, Luís Carlos?
Sabes, Luís Carlos, acho que me passaste um bocadinho da tua coragem. Sabes que me ia virando a um malcriadão de uma loja, a mandar-me calar? A fazer cabedal para mim. E se ele era grande, Luís Carlos. Mas eu não tinha medo nenhum. O que me podia fazer ele, Luís Carlos? Tu estavas a lutar na tua cama e eu sei que se a pancadaria começasse ele não tinha hipótese.
Porque era tanta a minha raiva de te ver a emigrar.
Lutaste que nem um leão, Luís Carlos.

- Fisicamente não estou preocupado contigo. Nesse capítulo tu és forte. Moralmente é que já não digo nada.

E foi assim que me despedi de ti na primeira e penúltima visita que te fiz no Hospital dos Capuchos. E uma empregada riu-se, à porta da saída. Porque também há risos nos locais recheados de morte em cemitérios de ilusões.
Foste jantar, Luís Carlos. E três dias depois já fiquei a ver-te jantar um peixinho. Com calma, serenamente, intercalando com a conversa, enquanto a Margarida não chegava. Ou já tinha chegado? Sei que o trânsito estava terrível e ela chegou muito stressada. Chegou ela, saí eu. Era a minha deixa nesse teatro de fingirmos que ainda estavas a tempo de sair dessa peça de teatro em que tinhas o papel do falecido.
Mas deixa-me que te diga, Luís Carlos: não vais faltar com essa facilidade toda ao nosso almoço do dia 31 de Dezembro, no "Hexágono Mais". Deves ser é parvo. Em primeiro lugar, porque já era tradição
(estás a ouvir, Luís Carlos? Está a tocar o saxofone do Ike, em "Nancy - With the laughing face").
em primeiro lugar, porque já era tradição. E depois porque tu insistias sempre em pagar e me passavas para a mão um molhinho dos livros que eu escrevia, para autografar para os amigos.

- Este é para a família Neves.

Sabes, Luís Carlos, eras o meu único amigo e leitor que pedia autógrafos para as famílias. E aquilo caía-me tão bem.

Por isso, Luís Carlos, já sabes. A 31 de Dezembro de cada ano, conto contigo no Galeto entre as 13 horas e as 13 e 30 horas. Apontando para chegar ao "Hexágono Mais" lá para as 14 horas. É perto, mas gostamos de andar devagar.
E se tu não puderes ir por um motivo qualquer, podem ir a Margarida e a tua mãe, mais as pessoas que elas quiserem levar. E uma coisa é certa: vamos beber uma garrafa de tinto alentejano, para brindar à tua presença.
E na mesa vai haver sempre um prato para ti. E prometo que em cima dele todos os anos vai estar um poema novo ou um texto novo em que tu entres, tu fales, tu digas qualquer coisa.
E mesmo que eu não possa estar fisicamente, por um motivo qualquer de trabalho ou de força maior, a Maragarida, a tua mãe e as outras pessoas que elas quiserem levar, vão encontrar dentro de um envelopinho o meu texto anual para ti.
E nessa altura, vamos pedir ao senhor Ramos ou ao senhor António para abrirem uma excepção à política de não beber em serviço. E eles vão desejar-te um Bom Ano, Luís Carlos.
Se houver um Inferno irlandês, Luís Carlos, reserva-me um lugar em frente ao ecrã gigante, à hora do Benfica?Sporting. E pede duas Guiness das grandes. Se o Benfica marcar primeiro, tu dás um salto e uma gargalhada daquelas, assim à duende da floresta, com vozeirão dos trovões e riso puro como uma criança acabada de descer do escorrega. E eu encolho os ombros, porque isto de ser do Sporting é assim mesmo.
E se o Sporting marcar primeiro, tu levantas-te, dás um pontapé na mesa, dizes meia-dúzia de palavrões, bebes o resto da cerveja de um trago e proclamas:

- Tenho de ir buscar mais uma cerveja. Uma coisa é sofrer golos, outra é sofrer desta maneira parva. Alguma vez isto acontecia no tempo do Eusébio?

Sabes, Luís Carlos, ainda pensei em pedir ao Eusébio para te fazer uma visita, se conseguisses voltar para este lado. Já não tive tempo. Mas sei que a culpa não foi tua. Lutaste como um leão. Até ao fim, de espada na mão, como um viking.
Natural. Eras um vagabundo da vida, sempre à procura de outras paragens.
Adeus, amigo. Até sempre! Sabes tão bem a falta que me fazes.

(Passam 11 minutos da meia-noite, mas vamos fingir que ainda consegui acabar de escrever no dia 15, está bem?)

PS - Espero que gostes dos poemas que eu escrevi para ti. Afinal, foste tu que mos deste. São mais teus que meus. Ó Luís Carlos, não sei como não explodi quando a tua mãe me agarrou nos braços com meiguice e me disse, à porta do hospital: "Ai, o nosso Luís, ai, o nosso Luís...".

Ai, Luís... eu não sabia que tinha tantas lágrimas guardadas em teu nome no meu coração...


POEMA PARA O ÚLTIMO VOO

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

E sendo azul
se era o azul do céu
ou era o mar

Sempre soube
o oceano inteiro
nos teus olhos

Em lágrimas de sal
e risos de marfim
recheados de pérolas

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

Sempre soube
o teu voo de águia
sobre as águas

O teu corpo como carpa
a saltitar feliz
no meio da corrente

Nunca soube a razão
do teu adeus
a rebentar nas ondas

Olhos nos olhos
eu e tu sabemos
as palavras em falta

Como gotas a escorrer
de mágoas numa caverna
que nos corta a alma

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

O oceano inteiro
do teu voo de gaivota
a beijar a brisa

Nunca soube
se era azul
o azul dos teus olhos

E sempre soube
o teu lugar de pássaro
é no céu

15/7/2005


A VISITA DO PÁSSARO MALVADO

Um dia
uma sombra
um pássaro
uma ave

Disfarçada de abutre
pendurada do céu
de cabeça para baixo
levou-te para longe

E ficou a noite
a chorar baixinho
triste como breu
só, como um farol

Mas a tua luz
que brilhava ao longe
quando tinhas na mão
o vento da tarde

Acendeu um facho
vestiu-se de lutos
sorriu de mansinho
e depois...silêncios

15/7/2005

Luís Graça

E agora?

E agora, sr. Rui Rio? E agora, sr. Paulo Morais? O que fazer às famílias ilegalmente despejadas? Não faz mal, as demolições já estão feitas, ainda há a hipótese do recurso, o bairro "é dos ciganos" e por cada voto perdido em S. João de Deus ganham-se centenas entre a burguesia bem instalada do resto da cidade.

Só um momento, se faz favor

Sou forçado a reconhecer a minha ignorância. Preciso parar para pensar no assunto.
Até já.

Siluestrem tenui musam meditaris auena


Jean-François Millet - l'Angélus (1857)

Neo-Bucólica

Que bem luzem nos discursos
da boa consciência
onanista e nos poemas light dos
neo-bucólicos as casinhas
com papás, vovós e manos, talvez
com uma sentida perda
de um talher à mesa e uma
horta, couves, alfaces, a doméstica
economia dos quintalórios
com um cão cativo a ladrar
à sina e à honestidade das batatas
que as mães ou avós ainda esmagam
na sopa com uns pingos de azeite e
enfado. Pequeno país do
gasóleo e do futebol, memórias
de mercados e feiras buliçosas,
de escolinhas rústicas, agora desertas,
com a cruz e os presidentes na parede,
pequeno país de bravia
palavra, sofrida crueza
de mato ardido e estrumes, sucatas,
detritos, o hábito endurecido dos
pequenos holocaustos
diários.

Inês Lourenço. "Logros Consentidos".
Lisboa, &Etc, 2005, p. 19

15.7.05

O petisco que alguns adoram

Nisto de gastronomia, já lá o dizia Brillat-Savarin, "Não há como visitar os lugares onde as preparações são efectuadas".
Baseado neste salutar princípio, utilizei algum do meu tempo a incursionar na Rede.
E acontece que encontrei uma receita adequada, no caso vertente numa Casa que - apesar de não ser um gastrónomo que vai a todas - nunca me deixou faminto.
Refiro-me a "Rua da Judiaria", local onde encontro inteligência e humor mas também coisas a sério - muito a sério!
Aqui vos deixo portanto este fragmento, um verdadeiro petisco que não deixará ninguém com estômago em condições indiferente.
...Embora, se eu me tivesse encontrado, como entrevistador, com o pitéu entrevistado, talvez tivesse perdido a vontade de comer durante uns dias. É que há pratos que nos deixam muito enjoados. Enjoados e enojados.
Aqui fica a preparação, dedicada a quem gosta de comidas bárbaras...

Fragmento de entrevista feita por um jornalista a um sr. Omar Bakri

P.Mas o que pode justificar matar deliberadamente milhares de civis inocentes?
R. Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade.
P. Mas havia muçulmanos entre as vítimas.
R. Isso está previsto. Segundo o Islão, os muçulmanos que morrerem num ataque serão aceites imediatamente no paraíso como mártires. Quanto aos outros, o problema é deles. Deus mandou-lhes mensagens, os muçulmanos levaram-lhes mensagens, eles não acreditaram. Deus disse: "Quando os descrentes estão vivos, guia-os, persuade-os, faz o teu melhor. Mas quando morrem, não tenhas pena deles, nem que seja o teu pai ou mãe, porque o fogo do Inferno é o único lugar para eles".(...)
P. O Corão diz isso?
R. Sim. As pessoas não percebem, porque a televisão e os jornais só entrevistam os seculares. Não falam com quem sabe. Os seculares dizem que "o Islão é a religião do amor". É verdade. Mas o Islão também é a religião da guerra. Da paz, mas também do terrorismo. Maomé disse: "eu sou o profeta da misericórdia". Mas também disse: "Eu sou o profeta do massacre". A palavra "terrorismo" não é nova entre os muçulmanos. Maomé disse mais: "Eu sou o profeta que ri quando mata o seu inimigo". Não é portanto apenas uma questão de matar. É rir quando se está a matar.
P. Isso quer dizer que o terrorismo é natural e legítimo?
R. Só é legítimo o terrorismo divino.(...)

O Eduardo e o Cláudio

Pois é, já me quilharam o Verão. Também por este lado, mortal mas menos brutal. Mas também desconsolador.
Como não leio jornais lusitanos - e por meu mal também revistas, não por serem más mas por serem carotas e as lecas da reforma não me darem para tudo - só mesmo mesmo há bocadinho é que soube que o Eduardo e o Cláudio tinham desaparecido do nosso convívio no Aquém.
Do Cláudio tenho o livro que nos meus tempos de festarola aventureira lisboeta o Cesariny me deu, foi aliás quem o traduziu. Do Eduardo tenho mais coisas, que ia mercando nos alfarrabistas, nas mulheres das padiolas, na livraria local do sr. Zé Tavares que tanta coisa me permitiu comprar...
Digamos que o Eduardo era mais tasqueiro do que o Cláudio, mas nunca fiando. E se o Eduardo ia mais aos comes-e-bebes da literatura em mangas de camisa, o Cláudio também não deixava os seus créditos por mãos alheias: a sua relativa gravidade estava ali mais para que a gente percebesse que, tal como o Eduardo, se movia no campo onde as coisas são a valer, pois então, visitando para além disso os salões onde o Eduardo, por maneira de ser, por enfoque, por deliberação de duro, nunca punha os pés.
Isto deixa-me um pouco...desiluminado. Tristonho, 'tão a ver?
O Ed McBain e o Claude Simon...Quem havia de dizer que iriam quase ao mesmo tempo!
Saravah, malta catita, companheiros de tantos minutos do meu tempo e do meu espaço que passaram mas que continuam!

Russos 1

Dínamo de Moscovo, o clube que agora se tornou um eldorado para os mercenários da bola, incluindo portugueses. Como tudo na Rússia, desconfio que por trás da criação deste monstro artificial se encontra qualquer grande manobra esconsa. Talvez venhamos a conhecê-la um dia.
Nos anos 80, ainda na Rússia soviética e quando Moscovo era ainda o centro do «outro» mundo, reunia-se uma maltosa multinacional, em casa de um ou de outro, para ver a bola na televisão, o pretexto para as belas jantaradas moscovitas: éramos portugueses, russos, franceses, etc., dependia. Os russos podiam conviver com estrangeiros, ao contrário do que se diz, mas só a necessidade deste «podiam» já indicia qualquer coisa: não era natural que convivessem, ainda restava do passado uma memória muito pesada (de ambos os lados) que impedia a universalidade e a naturalidade do convívio. Na altura, o Dínamo de Moscovo era um clubezinho simpático, ligado a uma grande fábrica, a que as massas operárias da zona e não só também tinham acesso para a prática de todos os desportos (mas não tinha a popularidade nem a grandeza do Spartak), e nós gostávamos dele. Nessa noite, no decurso de um jantar bem regado, baptizámo-lo, muito familiarmente mas também muito internacionalmente, o «clube dos três acentos»: os portugueses diziam Dínamo, os russos Dinâmo, os franceses Dinamô. Mais tarde ouvi um puto vietnamita chamar-lhe, muito sincopadamente, qualquer coisa como Tính mâ.

Filipe Guerra

Há muito que aqui não se fala de BD

David B.



Poucos autores de banda desenhada se aproximaram tanto da literatura como David B., um dos fundadores da mítica editora francesa L'Association (não tem página na net), a qual tem vindo, desde o início dos anos noventa, a revolucionar discretamente a BD europeia, quer a nível do conteúdo quer a nível formal e visual. O gosto pela experimentação (consequente), a ousadia do traço, a abordagem oblíqua do mundo, o trabalho intenso sobre a psicologia das personagens, e, sobretudo, o constante diálogo - melhor dizendo, as transfusões e correspondências - com a pintura, o cinema, o teatro, a poesia, o romance, etc., fazem de L'Association, - onde pontuam, para além de David B., Joan Sfar, Vanoli, Lewis Trondheim, Dupuy & Berberian ou Jean-Christophe Menu - não só uma editora marcante no domínio da BD mas também um movimento estético da maior importância, uma vanguarda num tempo em que as vanguardas de alguma forma se esvaziaram ou redundaram em caricaturas.
Mas a obra-prima desta "escola" pertence, sem dúvida, a David B.: "L'Ascension du Haut Mal", editado em seis volumes entre 1997 e 2003. Mais prático - e bem mais barato - é, no entanto, adquirir a tradução inglesa, num único e belo volume com o título de "Epileptic" (New York, Pantheon Books, 2005). Obra autobiográfica, nela se conta a luta de uma família (pai e mãe com três filhos, dois rapazes, David. B e Jean-Christophe e uma rapariga, Florence) contra a forma gravíssima de epilepsia que atinge o irmão mais velho, Jean-Christophe, e lhe transforma a vida num purgatório. Jean-Christophe sucumbe diariamente a inúmeros ataques epilépticos, sempre muito violentos e prolongados. A sua família, impedida de levar uma vida normal, vê-se assim prisioneira da doença e do doente, confundindo-se as suas expectativas de felicidade com as expectativas de uma cura para a epilepsia de Jean-Christophe. Mostrando-se a medicina tradicional, apesar de todos os esforços, incapaz no caso de Jean-Christophe, a família lança-se numa demanda por uma cura inexistente, espécie de Graal doméstico, o que a leva a percorrer a França e a experimentar todo o tipo de soluções: parapsicologia, religiões e seitas várias, magnetismo, hipnotismo, macrobiótica, exorcismo, alquimia, feitiçaria, ocultismo, etc., pretexto para uma viagem nos meandros das mil e uma formas de espiritualidade, superstição e crenças acumuladas ao longo da História, tudo narrado com uma erudição e um conhecimento histórico extraordinários.



Em simultâneo, assistimos à génese de um artista, David B. (de seu verdadeiro nome Pierre-François), cozinhado neste caldeirão de saberes e experiências e na necessidade de fugir ao martírio, necessariamente solitário, do irmão mais velho, que ele vê como um duplo de si, ou projecção dos seus medos ontológicos e sociais. Para tal, David. B cria para si mesmo uma série de mundos paralelos ao mesmo tempo que, à maneira de Swedenborg, faz o inventário dos seus sonhos como se de entradas de um diário íntimo se tratassem - com a diferença, em relação ao filósofo e visionário sueco, de que os desenha.
O irmão epiléptico é simultaneamente a razão pela qual David B. se mantém preso à (dura) realidade e pela qual navega para fora dessa mesma realidade:

"O que acontece ao meu irmão quando tem um ataque? Sai do seu corpo e vai para outro sítio qualquer? Ou, pelo contrário, mergulha no mais fundo de si mesmo? Flutua rumo à Quarta Dimensão? Ou visita outros mundos regidos por geometrias desconhecidas na Terra, como nas histórias de H. P. Lovecraft? Morre por uma fracção de segundo? Sonha? É uma espécie de vazio? Não se lembra de nada porque não há nada para lembrar? Ou é a sua memória de outros mundos a ser apagada? E se ele estivesse a partir porque é infeliz aqui, connosco?" (p.225)

Surpreendentemente, o livro, que se estende ao longo de 361 páginas, termina com os versos de Pessoa:

Senta-te ao sol.
Abdica
E sê rei de ti próprio.

Ainda a propósito

"A Jihad, que significa «perseverar no caminho de Deus», é um dos conceitos mais mal interpretados do Islamismo. Ela abrange todas as actividades que visam defender o Islamismo ou aprofundar a sua causa. Neste sentido, as guerras através das quais os muçulmanos tentaram trazer novas terras para o domínio do Islamismo ficaram conhecidas como guerras Jihad e eram entendidas e justificadas pelos muçulmanos de uma forma semelhante ao entendimento que os cristãos tinham das Cruzadas. Na actualidade, qualquer guerra que seja vista como uma defesa do país, da comunidade ou da terra em que se vive é considerada uma Jihad. Esta acepção é muito semelhante àquilo a que na sociedade ocidental se chama 'guerra justa'. De modo semelhante, é frequente os extremistas políticos que acreditam na justeza da causa que defendem referirem-se às suas guerras terroristas ou de guerrilhas como Jihad, mesmo quando a maioria da sociedade em que se inserem considera os seus actos completamente injustificados.
Para a maioria dos muçulmanos, uma guerra Jihad é quase o mesmo que qualquer guerra justa para o cristão comum do Ocidente. A teoria da Jihad permite que o soldado mate o inimigo justificadamente; se assim não fosse, estaria a cometer um assassínio, que é um pecado muito grave no Islamismo. Da mesma maneira, quem morre pela causa justa da Jihad tem uma morte de mártir e são-lhe perdoados todos os pecados.
Os eruditos islâmicos referem uma Jihad exterior, que tanto pode ser uma Jihad da Espada (como a «guerra justa» acima referida) ou uma Jihad da Pena - elaborar defesas escritas do Islamismo, envolver-se na actividade missionária ou simplesmente aprofundar a sua própria educação e aprendizagem. Existe, no entanto, também uma Jihad interior - a batalha que todos os indivíduos travam contra os seus próprios instintos mais baixos. Devido à sua inerente dificuldade, esta é frequentemente chamada a Grande Jihad."

Jamal J. Elias, Islamismo.

O inferno

Augustin Pyrame de Candolle refere que uma rosa é ainda mais perfumada quando ao lado cresce uma cebola. Quem poderá dizer que isto é um mero capricho da natureza sem importância nenhuma?

Castelo de Vide



Descobri, sem esperar, a casa onde viveu Ventura Porfírio. Depois de deambular pelo labirinto da vila, como sempre, desde a infância. (Tocam-me estes recantos frescos e sombrios...)
De súbito, por detrás de Santo Amaro, uma ruela abandonada, rodeada por muros que a chuva, o sol e as ervas foram corroendo. Assomo por um buraco duma velha porta e contemplo a torre da igreja (carcomida no meio de um quintal), onde um sino virado aos canteiros e às figueiras parece querer tocar a qualquer momento, despertando séculos e séculos de silêncio.
Que ruína contemplo nesta terra se não a ruína da própria humanidade que, ao passar dos dias, se foi enterrando entre pedras e pedaços de telha partida, entre musgos e mato, entre ervas que o tempo sufocou?
Subi a calçada, íngreme mas fresca. Destaca-se uma casa. Simples, mas lançando para o meu corpo uma emanação estranha. Não soube, na altura, reconhecer o seu proprietário. Houve, contudo, uma suspeita: pareceu-me encontrar ali algo do espírito de Ventura Porfírio. Ao mesmo tempo: tranquilidade e drama, harmonia e angústia, serenidade e melancolia. Nunca o conheci pessoalmente, mas tenho recebido estas linhas da sua pintura.
Cheguei a casa e procurei de imediato a fotografia daquela habitação, num livro que sobre ele foi publicado. Não me enganara.

Ruy Ventura

14.7.05

O homem que de fora se pôs dentro



Uma carta de Arsénio Robalo

Sem comentários mas com um abraço ao autor e a nossa compreensão, aqui fica a missiva endereçada a estes serviços pelo actual ponta-esquerda do Valcourense, que em conversa privada nos informou poder vir a representar, se o actual presidente perder as eleições, o grande...Mas não, não revelo pensando melhor - não devo antecipar-me aos jornais desportivos que em breve se farão eco da retumbante notícia.

"Meu caro Nicolau: Foi com surpresa e, porque não dizê-lo, mágoa, que tive na altura conhecimento de que consideraras dever manter-me à parte deste teu serviço cultural à nação que tantos aedos tem glorificado (a talhe de foice estou a lembrar-me de dois, ou melhor, um mas não digo o nome para não ferir susceptibilidades). Seja como fôr, o pretexto pareceu-me, tu desculparás, fracote: o ter eu sido constituído arguido no caso que todos conhecem. Mas...como fui constituído arguido? O que estará por detrás desse tentame?
Nada melhor do que exemplificar: acontece que num dia do final da Primavera me desloquei a Vila Figueira para cumprimentar o meu amigo Vítor, que está vereador do pelouro desportivo da autarquia daquela ridente povoação. Ele tinha zumzuns para mim, parece que um dos grandes clubes estava interessado na minha entrada para o seu grupo de trabalho. Como era altura do lanche, o Vítor disse-me com a cordialidade que o exorna: "Ó Arsénio, vai uma bucha?". E eu, que já estava com "galga": "Ó Vítor, então baza aí uma Grunnewaisser e uma sandes de presunto!".
E só pouco antes do nosso contacto é que eu soube que fora constituído arguido por recebimento ilícito de géneros...
Recordo-te que, conforme diz na sabedoria das nações, ninguém deve ser condenado na praça pública e eu até estou convencido que o que está por detrás é eu ter andado com a prima do (...) que, para se vingar, me está a enredar nesta marosca!
Mas não é o teu afastamento, um pouco injusto, que me vai impedir de ter escolhido um poema precisamente teu, que aqui deixo também para te causar um certo enrubescimento e para poderes ser acusado pelos tais de estares a fazer um brilharete, uma habilidade...":

O árbitro

Como Jesus entre os ladrões, orquídeas negras
porque três somos com bandeiras apito decisão
um homem faz de conta que não é alvo negro mou-
che e capital de dor para milhares de bocas ávidas
entre dentes e pernas e gritos de quem soletra
a vitória e as derrotas maiores de hoje,
ontem, amanhã.
Subo por mim acima e o meu gesto é uma flor car-
nívora que adeja na ponta de um braço um dedo
preparado apitando como um comboio um deus um homem.
Às vezes levo com uma garrafa na cabeça um
insulto no coração uma obscenidade nas
partes baixas. O meu território é o do Deve
Haver o lume nos olhos à coca de pisaduras
cotovelos cabeçadas. Sacerdote de potências
obscuras comando redimo restauro derrotas e
figas feitas com um cartão vermelho outro a-
marelo sóis negativos no poente ou no nas-
cente da terra palpitante onde quem os tem
no sólido é que pode ganhar.
Conhecem minha Mãe melhor/pior do que eu
sem nunca a terem visto. E fico enfeitado como
um sátiro um touro uma anedota. Caricatura
franca de flores e traques eu é que não ligo
um homem que corre por gosto não cansa.

Lá por andar de preto não vou desaparecer
ingloriamente. É para distinguirem a
geografia íntima terreal convicta da minha
qualidade.
Pelo-me por penalties. Mas o jogo é que tem
o redondo de tudo o que é volta à tristeza
à alegria ao frio das tripas de fora de den-
tro da bola que em nós corre como um rega-
to de Verão seja em dia seja em noite de final.

E nunca irei pr'ó penico, mesmo que insistam.

(in "Os objectos inquietantes")

...Na hora da despedida



Como tudo o que é bom na vida - menos o amor, esta é para os românticos, alevantados ou pirosos - o folhetim chega ao fim. Durante semanas...e bom, seguem-se as palavrinhas usuais que todos conhecem e muitos costumam ler nas evocações que fazem as nossas delícias mas francamente não vou epigrafar.
Pois modificações sensíveis se fizeram na vida dos nossos convidados, quase tantas como na de um treinador conhecido, um novelista, um simples cidadão... Porque a vida não pára - nem com uma rasteira nem com uma bombarda: segue sempre, porque é condição dos homens e dos planetas não ficarem no primeiro ou até mesmo segundo capítulo deste conto que é a existência.
Mas deixemo-nos de filosofias e vamos a el grano como dizem os espanhóis incluindo o Sancho Pança:
Joaquim Sacarreta é hoje presidente do seu Sindicato e casou com uma actriz de telenovela, grrr!; Arminda Raposo será a assessora-conselheira principal da candidatura de quem já calculam; Remígio Guerra (e não podemos esquecer a acção positiva de seu primo, que o incentivou fraternalmente) vai traduzir para cantonês as obras completas de Vasco Mourão, alargando a presença lusitana de forma ímpar e ficando ocupado nos próximos 30 anos; Dionísio Valdez, como os noticiários deram conta, conseguiu escapar-se à vigilância enfermeiral e sumiu-se. Consta no entanto que após o seu regresso gravará um disco (desta vez não com letras de A.P.Ribeiro) e dará um grande concerto nas imediações da Casa da Música, ali terá mais espaço; Josefina Bamdarra vai lançar - agora em seu nome - os livros que dantes eram assinados por um conhecido autor de sucesso e já assinou contrato com a "New Yorker" de modo a poder entrar no circuito internacional para gáudio dum excelso crítico local; Salomão Castelo continua morto, mas com o correr dos tempos e os progressos da ciência genética o seu estado pode sofrer alterações; Tomás Videira, depois de aqui ter aparecido, foi convidado a participar no programa da manhã da Antena 2, onde receberá o cachet simbólico de um CD de gargalhadas dos apresentadores; finalmente, Georgy Sampievicz vai unir-se pelos laços de matrimónio com uma sobrinha do seu antigo pretendente, o playboy Alípio Santaclara, herdeira da fortuna dos Viscondes da Ramalhosa e uma das suas esculturas foi adquirida, supõe-se que com foros de verdade, para ornamentar uma das avenidas portuenses.
E este vosso cronista, que também merece a quota-parte de sorte, editará estes textinhos acompanhados de uma boa soma de outros com outras personalidade numa editora que já o contactou para o efeito.
As boas obras são sempre recompensadas, como consta no respectivo breviário de moral...

A pintura que acompanha este texto é de Joan Brossa, o grande dramaturgo e pintor catalão recentemente falecido.

Sinais de vida

"Pode entrar-se no Verão de faca em punho, assentando os joelhos e os braços sobre uma melancia. Como a mulher que na praça me perguntou 'Quer provar a melancia?'. Eu quis. A mulher espetou a faca na polpa alagada da melancia, desenhou uma linha curta, apenas da altura do gume; depois outra, e depois outra, oblíquas e em direcção a um centro comum, recortando uma pirâmide que a cada golpe se cobria de sumo quase espumoso, translúcido. Com a faca longa e reluzente estendeu-me o pedaço de melancia, que peguei com os dedos e comi. O mistério: da polpa ligeiramente áspera, granulosa como cristais de açúcar, faz-se água."

Há mais Verão aqui.

Wishful Thinking

Harder over time to believe
human beings will be pretty
much the same everywhere.

Margarida Vale de Gato

O primeiro sinal de retoma


aguasfurtadas, Revista de Literatura, Música e Artes Visuais.
Número 7 já disponível nas boas livrarias. E nas outras também.

13.7.05

O Folhetim continuará

Por motivos alheios à vontade dos leitores, só amanhã a carta do atleta Arsénio Robalo poderá ser dada a lume.

Entretanto, nos diversos palcos do país - seja jazz, seja rock, seja simplesmente fado - a música continua e quem a pode fruir tem largos motivos para se felicitar!

Hasta mañana!

Pound. Canto XXII

E diz o juiz: Esse véu é muito longo.
E a garota tira o véu
Que ela havia prendido em seu chapéu com um alfinete,
"Não é um véu", diz ela, "isto é um xale."
E diz o juiz:
Você não sabe que não lhe são permitidos todos esses botões?
E diz ela: Não são botões, são perebas.
O senhor não percebe que não há casas de botões?
E diz o juiz: Bem, de qualquer modo não lhe é permitido o arminho.
"Arminho?" fala a moça. "Nada de arminho,
É lattittzo."
E diz o juiz: E o que é exactamente lattittzo?
E diz a garota:
"É um animal."


Signori, sigam vocês e façam cumprir.

Tradução de José Lino Grünewald.

Crise

Se a sondagem divulgada hoje pelo Público estiver certa, a crise vai durar pelo menos mais quatro anos.

Simples

Quando acordei, esta manhã, a mesa do céu já estava posta. Comi nuvens ao pequeno-almoço.

Voltar atrás.

A matança dos inocentes

Vivemos em tempos de guerra: uma guerra sem convenções, sem honra, sem objectivos aceitáveis ou, sequer, compreensíveis - e muito menos justificáveis (ao contrário do que tem feito gente da nossa praça, com ingenuidade, desonestidade ou hipocrisia...). Afirmar que nada pode justificar o terrorismo contra cidadãos inocentes deveria ser um lugar comum. Mas, lamentavelmente, tal atitude ainda não se generalizou, mesmo em Portugal...
Esta guerra com que todos estamos a lidar tem causas profundas. Não me refiro à pobreza dos povos (promovida pelos seus líderes políticos ou religiosos que, depois, os manipulam, atirando todas as culpas para "o Ocidente"), pois quem está a liderar a matança dos inocentes vive na Europa ou na América com todo o conforto ou, vivendo no Oriente, não passa fome nem necessidades. Nem menciono a diplomacia (hábil ou desastrosa) das grandes potências. Estou a pensar numa grande miopia na leitura dos sinais que a História nos oferece (como, por exemplo, o facto do Islamismo ser uma religião que, desde o início, fez a sua expansão à custa da guerra). Recordo ainda, ao escrever este parágrafo, um pseudo-pacifismo cobarde que, ao longo dos séculos, tem sido causa de tantas desgraças na sociedade e no mundo, não esquecendo Lou Andréas-Salomé, que considerava o "pacifismo" uma frieza perante o sofrimento humano, e Marcel Proust que, numa das suas obras, afirmou: "o pacifismo multiplica às vezes as guerras e a indulgência a criminalidade". Meditemos todos nestas últimas afirmações...
Ao escrever estes parágrafos sobre a guerra terrorista que vivemos neste momento, não pude deixar de recordar dois poemas, de autores espanhóis, que reflectem de forma eloquente a dureza do confronto do ser humano com a violência gratuita. Aqui ficam as suas traduções - como homenagem aos mortos que a loucura tem levado da nossa existência física.

"Com o sangue até à cintura, por vezes / com sangue até ao limite da boca, / vou / avançando / lentamente, com o sangue até ao limite dos lábios / por vezes, / vou / avançando sobre este velho chão, sobre / a terra submersa pelo sangue, / vou / avançando lentamente, submergindo os braços / em sangue, / por / vezes engolindo sangue, / vou sobre a Europa / como na proa de um barco desmantelado / que escorre sangue, / vou / olhando, por vezes, / o céu / baixo, / que reflecte / a luz do sangue vermelho derramado, / avanço / com sacrifício, submergindo os braços em espesso / sangue / é / como um esperma vermelho empresado, / meus pés / pisam sangue de homens vivos, / mortos, / de súbito golpeados, subitamente feridos, / meninos / com o pequeno coração perturbado, vou / afundado em sangue / à porta, / por vezes / sobe até aos olhos e não me deixa ver, / não / vejo mais do que sangue, / sempre / sangue, / sobre a Europa não há mais do que / sangue. // Trago uma rosa em sangue entre as mãos / ensanguentadas. Porque nada mais existe / do que sangue, // e uma horrorosa sede / dando gritos no meio do sangue." (Blas de Otero, "Enchente" in "Ángel fieramente humano", 1950)

"Uma revolução. // Depois, uma guerra. // Naqueles dois anos - que eram / a quinta parte de toda a minha vida ? / eu havia experimentado sensações distintas. // Imaginei mais tarde / o que é a luta na qualidade de homem. / Mas para mim, criança, a guerra era apenas: // suspensão das aulas na escola, / Isabelita em cuecas na cave, / cemitérios de automóveis, andares / abandonados, fome indescritível, / sangue descoberto / na terra ou nas pedras da calçada, / um terror que durava / o mesmo que o frágil rumor dos vidros / depois da explosão, / e a quase incompreensível / dor dos adultos, / suas lágrimas, seu medo, / sua ira sufocada, / que, por alguma ponta, / entrava na minha alma / para desvanecer-se logo, rapidamente, / perante um dos muitos / prodígios quotidianos: descobrir / uma bala ainda quente, / o incêndio / de um edifício próximo, / os restos de um saque / - papéis e retratos / no meio da rua... // Tudo passou, / é tudo confuso agora, tudo / menos aquilo que apenas entendia / naquele tempo / e que, anos mais tarde, / ressurgiu dentro de mim, então para sempre: // este medo difuso, / esta ira repentina, / estas imprevisíveis / e verdadeiras vontades de chorar." (Ángel González, "Cidade Zero" in "Tratado de urbanismo", 1967)

Ruy Ventura

12.7.05

Resende sob o signo de Rimbaud

O Manuel Resende criou um blogue próprio. Chama-se Rimbaud Warrior.
O Manuel vai continuar a escrever no Quartzo, Feldspato & Mica.

O homem que juntou em si a noite e o dia



O nosso convidado de hoje é um caso muito especial, pois nele se congrega um somatório de factos que fazem de Georgy Anatoly Karpov Sampiewicz um exemplo não só de humanidade como de bom relacionamento entre comunidades muito afastadas no espaço geográfico europeu e mundial. Mas o que por trás se perfila é também a prova de que esta nação não esclerosou e está à altura da própria altura de quem a visita e procura - no caso de Georgy e sem ironias escusadas cerca de dois metros e cinco.
Mas deixemo-lo ser ele a relatar, da forma sucinta - alguns dirão que quase sincopada - que caracteriza este "duro de coração de pomba" como lhe chamou algures o nosso melhor novelista, Archibaldo Sarapatel:
"Tinha lá as dificuldades inerentes a qualquer trabalhador. Um dia caiu-me nas mãos uma brochura artística dos serviços turísticos lusitanos e eu vi que o Porto era uma cidade granítica. Conseguira formar-me em belas-artes. Ali até os esfomeados são doutores e engenheiros. Sendo escultor, ainda que não praticante por falta de matéria-prima, pensei que poderia cá arranjar p'lo menos um lugar como pedreiro ou ladrilhador. Alguém me falara também em patos-bravos, mas para caçador nunca dei e nem dispunha de ferramenta adequada. De modo que" - continuou Georgy com um leve suspiro - num belo dia muni-me do escopro e de duas t-shirts e desembarquei dum chasso perto da Avenida dos Aliados indo ter com o contacto que o passador me deixara".
"As coisas estavam momentaneamente difíceis - acrescentou o meu convidado passando-me o terceiro copo de uísque e as castanhas de caju - pois ainda não se entrara na onda de progresso imobiliário fomentada pelo eng. Rui Rio. Mas como em cada polaco vive um actor e um músico (não esqueçamos que o maior compositor do mundo, Amadeus Mozart, é de Varsóvia embora alguns pretendam o contrário) e como o Areias me sugerira o golpe, decidi-me a entrar no music-hall...como bailarina excêntrica!".
E depois de me passar as tapas de caviar, continuou: " Como te recordarás o êxito foi imediato. O jet set nortenho e depois nacional adoptou-me como mascote. Com o nom de guerre de Georgina fui da Quinta dos Alhinhos ao casino da praia dos Macarecos, de Odelira até Figueira de Algoz numa sarabanda artística que só uma vez correu mal: quando o conhecido playboy argentário Alípio Santaclara, creio que sugestionado pelas minhas qualidades relativamente eslavas, me pediu secretamente em casamento. Naturalmente que teve azar nos condutos, porque aquilo era jogo de cena e nada mais...Mas o homem - sorriu Georgy com ironia - meteu empenhos e tentou estragar-me a carreira ... porque, não sei se sabes, infelizmente em certos meios há gente muito corrupta!" E a finalizar, antes de me estender a bandeja com o presunto patanegra: "De forma que me resolvi a largar o music-hall e a ingressar num trabalho mais...terra-a-terra, como diz uma doçura das minhas relações: hoje estou solidamente colocado numa empresa de construção civil e pratico também como escultor. É minha a estátua que hoje ornamenta a praça principal de Vila Chafarica, sou delegado sindical da comunidade branco-e-negra e...sinto-me realizado!".
E desdobrando do sofá os seus dois metros e sete (eu lá em cima enganara-me por dois centímetros) foi buscar o gelo para a nossa segunda garrafinha da sossega.
O poema escolhido por Georgy é o "Figura de mulher" de Cesare Pavese numa tradução de Martins Napoleão (Brasil):

Tens rosto de pedra esculpida,
sangue de terra dura,
emergiste do mar.
Tudo acolhes e sondas,
e repeles de ti
como o oceano. Tens na alma
silêncio, tens palavras
tragadas. És turva.
A alva em ti é silêncio.

E pareces com as vozes
da terra - a pancada
do balde no poço,
o cântico do fogo,
um tombo de maçã,
as palavras resignadas
e escuras nas soleiras,
o grito do menino - as coisas
que não passam jamais.

Não mudas. És turva,
és a taberna fechada
com o chão de terra batida,
onde entrou certa vez
o garoto descalço
em que pensamos sempre.

Tu és a sala sombria
em que pensamos sempre
como no velho pátio
onde a aurora se abria.

Nota de última hora - Já com esta edição praticamente fechada recebi do futebolista Arsénio Robalo uma foto acompanhada de uma carta a que não posso deixar de dar provimento. Assim este folhetim, que devia encerrar hoje, pelos motivos expostos só terminará amanhã...

This country is under construction

Os jornais de hoje dão conta dos resultados altamente negativos obtidos pelos estudantes portugueses nas provas nacionais do 9.º ano. Nestes tempos difíceis, esta é uma notícia que destoa do clima geral de crise. É a pura da verdade: o país continua a ter motivos para sentir orgulho nos seus jovens. Os estudantes provaram que são dignos dos velhos valores nacionais da modéstia e humildade. Não querendo envergonhar os seus colegas europeus, esmagando-os com os seus amplos conhecimentos de matemática e língua materna, os jovens portugueses, num gesto de grande nobreza, fizeram questão de chumbar nos exames. Insuflados por uma indescritível alegria interior, não cederem um milímetro ao apelo mundano da glória. E isso é muito bonito.

Notas de rodapé

(2) Printer and writers in France and Holland defied their German occupiers by publishing resistance newspapers, as well as limited editions of classic books, sometimes as few as a dozen copies. Many who engaged in such "verbotten" activity were arrested and executed.

Talvez

Talvez a resposta esteja em Strindberg. Strindberg não disse exactamente isto. Mas disse qualquer coisa parecida com isto: quando nos pomos a procurar deus acabamos por encontrar o Demónio.

Começar mal o dia

Ouvir o novo programa da manhã da Antena 2 (8h00-11h00), surgido com a grelha de Verão da estação. O programa mais imbecil e insuportável da rádio. A música não merece isto. Todos os dias, dois tipos e os seus convidados conversam sobre qualquer coisa de elevado interesse cultural (acho eu) e riem-se muito. Nos intervalos da conversa e das gargalhadas com valor artístico, fazem o favor de passar alguma música. Uma verdadeira merda. Mas uma merda que rompe as barreiras do convencionalismo, quer dizer, muito bela, muito elevada, muito cultural, claro.