30.9.04

Ilha dos Amores #92



HITCHCOCK NO TIRO AO ALVO

(Re)vendo alguns filmes que Alfred Hitchcock - que estão agora a sair em DVD com a revista TV Guia, penso eu - reparei nalgumas coisas de que ainda não me tinha apercebido. Uma das características que achei mais interessante descobrir foi a notória falta de respeito que Hitchcock tinha para com a autoridade. É indiscutível que o cineasta inglês sempre foi subversivo e que gostava de quebrar todas as regras. A homossexualidade latente em personagens de filmes como "A Corda" ou "O Desconhecido do Norte Expresso" é um facto já mais que estudado, bem como a destruição dos estereótipos de género. A simpatia pelo criminoso é outro dado certo. E a este junta-se a ridicularização das personagens ligadas à autoridade. Os "heróis" dos filmes de Hitchcock são quase sempre pessoas vulgares ou então espiões, principalmente na conturbada altura que ronda a II Guerra Mundial. Mas raramente são, de facto, polícias ou detectives. Apesar destas figuras estarem presentes, são sempre vítimas de um sarcasmo absolutamente perverso e delicioso. O que me fez perceber isso foi uma das cenas finais de "O Homem Que Sabia Demais" (na versão original de 1934). A determinada altura, um grupo de terroristas está encurralado pela polícia dentro de um apartamento. O chefe manda um dos polícias chegar-se ao prédio e quando este se aproxima da casa é morto por um dos criminosos que está na janela, de guarda. Logo a seguir aproxima-se outro e a cena repete-se. Hitchcock continua com isto durante algum tempo e os polícias vão caindo que nem tordos. A mim, parece-me que Hitchcock se divertiu imenso com esta cena de tiro ao alvo aos agentes da autoridade. No fim, quem acaba por resolver a situação é uma mulher, a quem os terroristas tinham raptado a filha. Em diversos filmes acontecem coisas do género. É só verificar "39 Degraus", "Blackmail", "Sabotage", entre outros.


Luísa Marinho