Post Scriptum #139
Não tenho paciência para escrever diários. Já tentei em várias ocasiões – mas a empreitada fica sempre no início, como um edifício embargado, de que restam apenas restos de telha e de tijolo, pilares enferrujados onde mal se agarram pedaços de cimento e de cascalho que entretanto se esboroam.
Com grande pena minha não consigo escrever um diário. A disciplina necessária esbarra sempre com a minha veia contemplativa que prefere observar o mundo a registar metodicamente os dias que passam num caderno ou num ficheiro do computador. Admiro quem o faz. Terá no futuro à sua disposição uma memória qualificada de tempos e lugares, de seres, alegrias e inquietações que foram esculpindo esse grão de areia no mundo.
Partilho, porém, como muitas pessoas a ideia de que um livro nunca nos trai, companheiro inseparável nas boas e nas más horas. Os livros que compro ou que me oferecem fazem parte de uma construção interminável. Neles registo viagens e encontros, amizades e alegrias, mágoas e descobertas que me vão acompanhando. Se existir, no futuro, diário dos meus dias deverá ser coligido a partir das folhas de rosto de todos os livros que me pertencem. Datas e locais, nomes e sentimentos – está tudo lá.
Diário? Tenho apenas um diário de leituras. Em cadernos pautados, com negra capa de cartolina baça, transcrevo pedaços de livros, de artigos, de poemas, frases soltas que ouvi em qualquer parte. Nada me pertence – e tudo me pertence. Guardo nesses relicários fragmentos de corpos que me foi dado tocar.
Há frases que valem uma biblioteca. Aforismos ou máximas dilatadas em que encontramos séculos de sabedoria condensada, perante os quais apenas conseguimos reagir com silêncio e recolhimento. Veiculam a dura consciência de verdades amargas que preferiríamos ignorar, pilares de coragem e de esperança que há muito gostaríamos de ter saboreado, perguntas que nos desenvolvem enquanto seres viventes que procuram alimentar o tesouro interior.
Van Gogh escreve-nos: "(...) um homem tem um grande lar na sua alma, e ninguém vem jamais aquecer-se lá. E os que passam só avistam um bocadinho de fumo no alto da chaminé e depois seguem o seu caminho. Agora o que há a fazer é alimentar esse lar dentro de si, ter o sal em si mesmo, esperar pacientemente, e contudo com tanta impaciência, esperar a hora (...) em que alguém queira, venha e se sente, e fique lá...". Séneca adverte-nos: "Passa frente às escadarias dos ricos senhores, aos seus átrios suspensos como terraços: se lá puseres os pés será como estares à beira de uma escarpa, e de uma escarpa prestes a ruir. Dirige antes os teus passos na via da sapiência, procura os seus domínios cheios de tranquilidade, mas também de horizontes ilimitados. (...) A via que conduz ao cume da dignidade é extremamente árdua; mas se te dispuseres a trepar até estas alturas (...) o teu caminho será plano até ao supremo bem."
"Há certas coisas que a gente é sempre incapaz de suportar. (...) Injustiça e afronta e desonra e vergonha. Não importa que se seja muito novo ou se tenha chegado a muito velho. Nem por glória nem por dinheiro: o retrato no jornal ou valores no banco", diz William Faulkner aos Homens de hoje e do futuro. A esses homens dirige o poeta galês Dylan Thomas estes versos: "A luz irrompe onde nenhum sol brilha / (...) / e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos, / os objectos da luz / atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos."
(Ruy Ventura)
Ruy Ventura é poeta, tradutor e crítico literário. E o mais recente colaborador deste blogue.

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