Post Scriptum #136
Um poema de Gérard Calandre (França, n. 1952), numa tradução de Nicolau Saião.
A UMA LUPA
Contigo vi os versos de Virgílio
As cores elementares dum torso de Piranesi
Posso simular que vejo como num sonho as árvores
e as casas que entre elas se dissimulam
Num manuscrito muito antigo
Quanto tempo mais isto me será dado
O recorte de um tê
o pedúnculo duma magnólia
o olho dum peixe de águas profundas
o cirandar dum relâmpago numa página de acaso
Abandonar-me-á uma noite a poesia
Vidro e metal e em minutos
a definitiva cegueira
Aproximo-te das letras e eis
Crescem como troncos Como troncos desaparecem
E já só resta a memória dum minuto febril.

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