10.2.04

Post Scriptum #136

Um poema de Gérard Calandre (França, n. 1952), numa tradução de Nicolau Saião.

A UMA LUPA

Contigo vi os versos de Virgílio
As cores elementares dum torso de Piranesi
Posso simular que vejo como num sonho as árvores
e as casas que entre elas se dissimulam
Num manuscrito muito antigo

Quanto tempo mais isto me será dado

O recorte de um tê
o pedúnculo duma magnólia
o olho dum peixe de águas profundas
o cirandar dum relâmpago numa página de acaso

Abandonar-me-á uma noite a poesia

Vidro e metal e em minutos
a definitiva cegueira

Aproximo-te das letras e eis
Crescem como troncos Como troncos desaparecem
E já só resta a memória dum minuto febril.