Post Scriptum #135
A propósito de Benjamin Péret (1899-1959) e dos posts (este e este) publicados no nosso blogue, deixo aqui meia dúzia de frases de sua autoria. Este poeta surrealista, que, sendo na altura trotsquista, combateu na guerra de Espanha contra Franco nas fileiras anarquistas, andou pelo Brasil, de onde foi expulso por actividades subversivas e onde escreveu "A República dos Palmares", e durante a II Guerra Mundial se exilou no México, onde organizou uma antologia de mitos índios, praticamente nunca escreveu poemas "comprometidos". O texto que se segue é tirado de "A Desonra dos Poetas", panfleto em que ataca a poesia panfletária:
"Os inimigos da poesia desde sempre tiveram a obsessão de a sujeitar aos seus fins imediatos, de a esmagar sob o seu deus, ou então, agora, de a agrilhoar à prisão da nova divindade castanha ou "vermelha" — castanho-vermelha do sangue seco — mais sangrenta ainda do que a anterior. Para eles, a vida e a cultura resumem-se em útil e inútil, sendo que se subentende que o útil toma a forma de uma picareta manejada em proveito deles. Para eles, a poesia não é mais do que o luxo do rico, aristocrata ou banqueiro, e se quiser ser "útil" à massa, terá de resignar-se à sorte das artes "aplicadas", "decorativas", "domésticas", etc. Instintivamente, porém, sentem que ela é o ponto de apoio reclamado por Arquimedes e temem que o mundo venha a erguer-se e cair-lhes em cima da cabeça. Daí a ambição de a rebaixarem, de lhe retirarem toda a eficácia, todo o valor de exaltação, para lhe darem o papel hipocritamente consolador de irmã de caridade.
Mas o poeta não tem que alimentar nos outros uma ilusória esperança humana ou celeste, nem que desarmar os espíritos incutindo-lhes uma confiança sem limites num pai ou chefe contra o qual toda a crítica se torna sacrilégio. Muito pelo contrário, cabe-lhe pronunciar as palavras sempre sacrílegas e as blasfémias permanentes. O poeta deve antes do mais tomar consciência da sua natureza e do seu lugar no mundo. É um inventor para o qual a descoberta não é mais do que o meio de atingir nova descoberta, pelo que tem de combater sem tréguas os deuses paralisantes que se obstinam a manter o homem servo das potências sociais e da divindade que se completam mutuamente. Há-de ser, pois, revolucionário, mas não daqueles que, opondo-se ao tirano de hoje, que lhes é nefasto por ser contrário aos seus interesses, louvam o de amanhã, de que já se instituiram servidores. Não, o poeta luta contra toda a opressão: a começar pela do homem pelo homem e a continuar pela opressão do seu pensamento pelos dogmas religiosos, filosóficos ou sociais. Combate para que o homem atinja um conhecimento de si próprio e do universo que se vá aperfeiçoando sem parar. Donde não se segue, porém, que deseje pôr a poesia ao serviço de uma acção política, mesmo que revolucionária. Mas a sua qualidade de poeta faz dele um revolucionário que tem de combater em todos os terrenos: o da poesia pelos meios próprios à poesia e o da acção social, sem nunca confundir os dois campos de acção, sob pena de restabelecer a confusão que há que dissipar, deixando assim de ser poeta, isto é, revolucionário."

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