3.2.04

O Povo É Sereno #44

A Semana da Banda Larga

O Barnabé cita criticamente um artigo de Diogo Vasconcelos, Presidente da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (puxa vida, não é mau para começar, um nome tão burocrático).

É destas coisas que, passando despercebidas, me parecem configurar duradouramente a nossa vida social. Estão lá todos os chavões actuais: “progresso”, “inovação”, “crescimento”, “sociedade moderna, inclusiva, aberta às forças internas e externas de mudança”. Só um exemplo:

“Esta sociedade em que acredito, em que me revejo, é a sociedade de todas as ligações, de convergência de todos os portugueses, de activação de todos os circuitos. É, por isso, uma sociedade de libertação - de pessoas, de organizações, de energias. É uma sociedade de conhecimento à vista - que dá valor aos saberes formais e informais, que é tão mais rica quanto mais distribuir o que sabe pelos seus membros. É uma sociedade de inovação - que vai brotar naturalmente, pela interacção constante entre experiências, que exponencialmente constituirão um portfólio cheio de vida.”

Tudo isto porquê? Porque estamos na “semana da banda larga” e “os portugueses fazem questão em colocar-se do lado do mais avançado”. Por seu turno, o Governo faz uma forcinha: “em 2006, teremos uma penetração de 50 por cento no universo das famílias portuguesas”.

Tretas. A famosa sociedade (ou economia?) do conhecimento (como se toda a sociedade industrial e até as anteriores, não o fossem ou não o tivessem sido, sociedades do conhecimento, quer dizer) é uma rede de redes de comunicação, mais nada. Comunica entre o que há, e pouco pode suscitar de novo, se não dispuser de forragem para comer. É, desculpem-me, uma economia canibal.

Os apregoados ganhos de produtividade mais não são do que compressões de custos nos circuitos de comunicação existentes, daí a permanente tendência para a exclusão que todos os dias observamos.

Simultaneamente, sabe-se que em Portugal, a taxa de desemprego dos licenciados é superior à média nacional. Sinceramente, julgam que Portugal, com as estruturas de ensino que tem, pode competir, por exemplo, com a Índia em software e tal e coisa? “Somos” bons para o turismo, enquanto as viagem de avião forem baratas.