O povo é sereno #42
Olho para este Julien Rozenberg (chamemos-lhe assim) com que converso: electricista, 68 anos, pequeno bigode a pedir desculpa de ainda estar ali, mas olhos espevitados e mãos que falam, sustentando-lhe e acariciando-lhe as frases límpidas, misturadas de expressões em várias línguas.
Em miúdo, era a ocupação alemã da Bélgica, ele e o irmão foram acolhidos em sucessivos orfanatos e famílias, mudando várias vezes de sítio em função de denúncias ou de oportunidades surgidas (na Bélgica muitas crianças judias se salvaram assim, graças a uma rede de solidariedade talvez ímpar na Europa). O pai foi para a resistência, pôr bombas, e vivia com a mãe sob identidade falsa.
Nessas andanças, uma vez, o irmão de Julien foi parar a casa de uma "família italiana", durante quinze dias. Nem mais nem menos do que os pais na clandestinidade.

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