11.2.04

Cimbalino Curto #62

Sempre ao fim da manhã e sempre ao fim da tarde. O bibliotecário recolhe os livros abandonados em cima das mesas. Aproveita para afagar as lombadas, ajeitar as folhas, limpar as capas. Depois, e usando de todo o cuidado para não lhes causar algum desgosto ou perturbação, conduz cada livro ao seu exacto lugar. Com veemente paciência, o bibliotecário procura então colocar cada livro na posição mais cómoda, alinhando as lombadas com um rigor milimétrico. As mãos tremem-lhe de tanto zelo.
Porém, apesar do genuíno cuidado com que o bibliotecário se entrega à sua difícil tarefa, os livros dedicam-lhe uma profunda inimizade. Conspiram e manobram nas suas costas, desde o primeiro dia. O bibliotecário ouve-os falar e de tudo dá conta. E tudo ignora porque ama verdadeiramente os livros. Porque ama apaixonadamente os livros com todas as suas forças. Os livros, no entanto, não se deixam intimidar por estas demonstrações de afecto. Os livros escarnecem do seu irritante desejo de agradar, lançam ofensas, urdem as piores armadilhas: os livros de história disfarçam-se de livros de botânica, os livros de medicina vestem as capas dos livros de teologia, e assim por diante.
Ora, os mais acérrimos inimigos do bibliotecário são os livros de poesia. Já vi livros de poesia enterrarem os dentes, sem cerimónias, nas mãos pequenas do bibliotecário. Mais do que isso: já vi bons livros de poesia cuspirem no bibliotecário. Felizmente, são dos livros menos solicitados pelos leitores. De facto, apesar dos seus esforços para atraírem as atenções, com as suas capas extravagantemente coloridas ou desmesuradamente grandes, raramente têm a oportunidade de sair do lugar. E, por isso, o ódio cresce cada dia que passa. E à noite, colados à sua imensa imobilidade, os livros de poesia sonham com a morte do bibliotecário.