Cimbalino Curto #60
Talvez seja isso que me agrada nas estações ferroviárias do Porto. Isso e também o cheiro a madeira velha e ferrugem. E a electricidade. Sim, a electricidade flutuando por todo o lado. Sei, por experiência própria, que certas pessoas estão impedidas de se beijarem em estações por causa da electricidade. Os lábios ao tocarem-se produzem um violento choque eléctrico*.
É preciso sublinhar, porém, que os comboios não têm qualquer responsabilidade sobre estes fenómenos. Os comboios estão cansados de assumir todas as responsabilidades. E não são raras as ocasiões em que não lhes resta outra alternativa senão recorrerem à greve. Um belo dia, pela manhã, recusam-se a partir. Ficam deitados, imóveis, em cima das linhas frias. Em S. Bento ou Campanhã ou Contumil. E por mais que os maquinistas lhes batam nos olhos e na cabeça, mantêm-se firmes. A greve para os comboios, mais do que um direito, é um dever sagrado.
À parte estas veleidades revolucionárias, levam uma vida perfeitamente banal e absolutamente insuspeita. Quando passam uns pelos outros emitem um breve píuíí de cortesia. E ao final da noite, de regresso às gares, juntam-se como um rebanho ordeiro e cansado, e deitam-se justamente numa nuvem de electricidade.
Bem vistas as coisas, passar o tempo a observar o interminável movimento dos comboios é uma arte. É preciso não esquecer que o mundo foi criado numa estação ferroviária. Por outro lado, também vale a pena lembrar que nada de ruim pode acontecer a alguém que passe a maior parte do seu tempo numa estação de comboios. E essa é a única razão que explica a notável longevidade dos guarda-freios do Porto, mais do que os maquinistas e os cobradores de bilhetes.

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