15.10.03

Post Scriptum #40

Mais dois poemas de Nikos Engonópoulos (1910-1985), na excelente tradução inédita de Manuel Resende. A nota bio-bibliográfica do autor encontra-se em Post Scriptum #38.




ROMÃS = SO4H2

Escutai as lágrimas a correr
como árvores imóveis
mudas
e
calmas
quando cai a noite

e contudo o jardim
- digo -
com as incontáveis janelas
era infinito
e os seus relvados
chegavam lá abaixo junto ao mar
precisamente ali onde começa
o areal amarelo

sobre este amarelo
areal
dissemos
- acho -
as nossas mais belas canções

e contudo ali
apedrejaram-nos
com pedras
e seixos
aos punhados

e os seixos eram
os brancos
eróticos dentes
das mulheres
que amámos



POESIA 1948

Esta época
de guerra civil
não é época
para poesia
e coisas do género:
quando vamos
para
escrever
é
como se
escrevêssemos
nas costas dum
anúncio
de enterro

por isso é que
os meus poemas
são tão amargos
(e quando - de resto - o não foram?)
e são
- sobretudo -
também
tão
raros

Tradução de Manuel Resende.