9.7.05

O Verão, como em redacção infantil

O céu com um pouco de fumo, como nos tempos em que a fábrica da cortiça fazia figuras no ar. O dia seco, urgente, cheio de momentos indiscerníveis. E o furacão p'rós lados de Cuba. E o senhor Carrajola que morreu (o senhor pequenino mas todo dinâmico e musculoso, alisadinho, dono do Café Central da minha adolescência e um pouco mais, onde via o Régio sentado e depois uma que outra vez me sentei com ele). O pedacinho de praia entrevisto de relance, mas ao pé das ondas, em Ofir - lugar meio real meio imaginado pelo nome, pela eventual sombra num interior de gente.
E afinal eram figuras de fogo estas de agora. De estação alucinada ou melhor: feita para peculiares assombrações. E o político declarante e o futebolista titubeante e os escritores de um blog que não conhecia exercitando o seu talento realmente de facto universitário mas que não vê não distingue que é preciso não ter razão ou melhor: estarem fora dessa razão que sendo a mais inteligente é a mais estúpida, dado que dançam a valsa como roscas moídas, suaves como um tiro no ombro (direito?esquerdo?).
E a água - o vinho fresco e a limonada que se recordam - que não chega para as encomendas e que lá no outro lado do mundo vai quilhando os despossuídos.
E isto e aquilo e o que se vê e não se topa e o outro e o seu contrário e a ilusão viajando de autocarro ecológico citadino como nas fábulas do Claude Aveline.
E, também, num relance, o partidão que está com cada vez menos popularidade, apesar da crise das críticas dos embalos de quem devia ser mas se recusa a ser, que marotos, o "proletariado". E a constatação que o seu chefe vai perdendo a graça, a marca de fábrica, o olhar de lince. O olhar de Verão?
Como, evidente e certo muito verdadeiro - como um almoço ao sol, tal qual reza na expressão cintilante e comum.

8 Comments:

Anonymous alexandra said...

quando cheguei ao Quartzo, no Inverno passado, andava a pesquisar no Google sobre a utilização da mica (muscovite), nas artes conventuais da Idade Moderna (século XVI, para ser exacta). a pesquisa inicial não deu em nada, mas encalhei aqui, neste rochedo flutuante, onde aproveitei para descansar.

desde então, volto ao rochedo para ver poemas guardados nas florestas, nas fogueiras, nos dias de Verão.

acho que já nem me importo com o fumo, o impropério, a cegueira.

ainda assim, queria encontrar o que há sobre a utilização da mica (muscovite) nas artes conventuais da Idade Moderna (século XVI, para ser exacta).

6:53 da tarde  
Anonymous ns said...

That's the spirit, alexandra! Uma atitude como deve ser: entrar nos blogues, neste blogue, nos rochedos, para viajar pelas florestas onde há mistérios a rodos, saltar as fogueiras (por vezes apanham-se lá coisas sãojoaninas que nos acalentam for life)nos dias de Verão e em todas as noites sejam de outono, inverno, primavera. Ou verão, com o seu espaço salubre, sedutor mesmo que em trabalho.
Sem se importar com cegueiras, fumos, impropérios. Ou seja: colher a pepita e quanto ao resto estar-se rentando.
...Mas parece que agora andam aí na esfera bloguística uns senhores sisudos e de boas contas muito atrapalhados porque - deuses do céu! - há uns tipos que vão para os blogues ofender os senhores que lá estão no condomínio! Que viviam lá descansados, fazendo a sua escrita boa ou má, os seus pontos reflexivos, em paz e pacificamente - gente séria e boa que são e que não se metem em barafundas - vai senão quando...
Ficaram com a paz comprometida, (...) - (aqui uma enorme série de asneiras ao nível do mais rasca que se imagina).
Coitados desses cultores da forma e do conteúdo! Pobres escritores, trabalhadores intelectuais conscientes e probos sacaneados por tipos sem escolha!
As palavras e as frases charras podem destruir um cérebro, uma carreira, uma determinação. Podem fazer perder a cabeça ao mais ousado, enervar de tal maneira que o mínimo que um homem/mulher decente pode fazer em sua alma e consciência positiva é pedir cacete (ou pelo menos acabar-lhes com a língua) a esses torpes maltrapilhos, esses enfarruscados por palavras que matam como actos...
( De repente, como num sonho mau, um raio de puro diabólico sentimento atravessa-me o bestunto e eu penso com imensa celeridade: Mas não é esta malta uma gente de alta qualidade, que deviam estar a milhas desses considerandos pequenos burgueses de escritorzinhos afinal bempostinhos, virgens pudicas ofendidas pelos galfarros da floresta dos monstros?). Pelos vistos não, estes pequenos lutadores que armam em Primos Carneras têm afinal a configuração de um Ribeirinho jogador de boxe numa pessegada do Vasco Santana...
Importam-se com os dichotes que lhe lancem na vestimenta, destroçados se lhes salpicam a página.Habituados ao respeito respeitinho que existe nos areópagos, calculo eu, ardem como bonecozinhos num arraial de pacotilha.
E que tal se se vestissem todos de bobos, para nos fazer rir melhor a bandeiras despregadas?
...Quanto à utilização da mica, nas artes conventuais da Idade Moderna, quando encontrar diga, cara alexandra, que fiquei curioso.
...E obrigado por o seu comentário me ter despoletado esta reflexão - que de há uns tempos me andava de facto a fazer cócegas.
Depois disto até a tarde de Verão me está a saber melhor...

7:41 da tarde  
Anonymous Filipe said...

O Alentejo é sempre quente, mesmo de Inverno. Conheço nortenhos que vão para lá dar aulas e lá querem ficar, mas parece que o inverso também acontece. Quanto à mica da Alexandra, sei vagamente que era muito utilizada na Rússia (daí o moscovite)para vidros e vidraças. Nõ será uma pista a explorar, a arte russa do século XVI? Não havia só os ícones, também vitrais, e creio que de mica. Quanto a mosteiros, eram aos milhares. Procurando para os lados de Kiev e Moscovo, talvez se encontre material sobre isso.

7:55 da tarde  
Anonymous Filipe said...

Nicolau, essas imprecações e tal contra os virgens e as virgens dos condomínios de luxo (sabe Deus o que vai lá dentro) em que até os pensos higiénicos têm um nome em inglês para não ser tão ordinário nomeá-los, essas imprecações, portanto, que eu subscrevo com as duas mãos, não se referem, concretamente, à caixa de comentários livre que eles abominam? Por mais voltas explicativas que eles dêem aos intelectos, a razão é mais simples: querem falar sozinhos e chamar a isso conversa inteligente. São acrobatas.

8:12 da tarde  
Anonymous ns said...

Claro que me interpretou bem, Filipe - o que não me espanta nem a sua posição firme e inteligente.
É isso, sim. Habituados, nos respectivos lugares onde pontificam como chefes-da-banda, rodeados de discípulos liminares que os acatitam e bajulam, utilizam o seu talento inegável e a sua boa formação (pois são gente inteligente e preparada na área respectiva) para estabelecer o deserto à volta, campeando como heróis. Mas, afinal, são heroizinhos de trazer pela nação. Afinal, pouco diferentes da maltosa cobarde e medíocre que tem feito desta pátria uma coutada privada para o jet-set de pacotilha que temos, mas que mandam porque são a escora do poder.
Dão-se portanto mal com este território relativamente virgem, os maganos, pois de vez em quando comem com chuva oblíqua nos costados.
Mas isso é inevitável num continente livre, leia-se: na liberdade.
No fundo, dêem as desculpas que derem para a reivindicação olímpica que fazem (não aceitam que nos bosques, além de pássaros e essências e plantas também haja répteis e aracnídeos)o que desejam é, a pretexto de rigor, seriedade e boa postura - criarem um mundo asséptico que se parece muito com outros que já houve e que são repelentes de higiene.
O que merece que os lamente e, juro que a meu desdouro, os despreze sem delongas.

12:06 da tarde  
Anonymous alexandra said...

sobre as utilizações da mica (a que chamei 'muscovite', pelo contágio/hábito de ler mais coisas - poucas - sobre mica em inglês, mas que é 'moscovite', em bom português, porque o nome tem origem na palavra-cidade Moscovo):

- os romanos utilizavam-na, fragmentada, para o espectáculo da morte brilhasse mais, nas arenas;
- os ícones ortodoxos eram habitualmente protegidos dos beijos (perigosos : ) dos fiéis por uma folha de mica;
- em certas zonas pobres, a folha de mica moscovite foi tb utilizada como protecção de janelas, substituindo o vidro.
- durante a Idade Média, parece que foi designada como 'Glacies Mariae', pela utilização decorativa em imagens da Virgem;
- no período barroco, em Portugal, foi utilizada a poalha de mica nos presépios;
- até ao século XIX era um material raro, na Europa, por não existir uma tradição de recolha; acresce a este facto um outro, mais ou menos geral: é difícil conseguir uma boa folha de mica;
- também foi conhecida com o nome de 'ouro dos tolos', porque o brilho confunde;
- actualmente, tem uma utilização como material isolante, entre outras coisas igualmente prosaicas (e necessárias, ok).

é tudo o que sei. já consultei gente ligada à conservação e restauro de materiais invulgares, e nada! já pedi a gente que pula de fórum em fórum para fazer a pergunta aos seus muitos e internacionais interlocutores, e nada!

quanto à utilização do impropério, referia-me à piadinha torpe de alguns comentadores, à agulhadazita, à alusão desnecessária sobre a vida das pessoas, à necessidade manhosa de afirmação, reivindicando um naco de terra no território alheio e apetecido que o blogue lhes parece ser. uma questão de propriedade, parece-me, e das piores, dado todo o etéreo do lugar das palavras que, pelo menos a mim, e também aqui, me parece prevalecer.

nada de novo, certo?

1:40 da tarde  
Anonymous ns said...

Alexandra, obrigado pelas suas informações sobre a mica. É um assunto fascinante.
...E agora, a todos os amigos, despeço-me até logo - que vou visitar "a casa onde sempre cheira bem", ou seja a do meu amigo José Travassos Valdez, médico homeopata que para além de me pôr em forma me oferece nesses dias, sempre, cá uns jantares ecológicos que nem vos digo nada!
A bientôt.

1:58 da tarde  
Anonymous alexandra said...

não, fascinante é o uso que damos ao adjectivo.

3:45 da tarde  

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