12.7.05

O homem que juntou em si a noite e o dia



O nosso convidado de hoje é um caso muito especial, pois nele se congrega um somatório de factos que fazem de Georgy Anatoly Karpov Sampiewicz um exemplo não só de humanidade como de bom relacionamento entre comunidades muito afastadas no espaço geográfico europeu e mundial. Mas o que por trás se perfila é também a prova de que esta nação não esclerosou e está à altura da própria altura de quem a visita e procura - no caso de Georgy e sem ironias escusadas cerca de dois metros e cinco.
Mas deixemo-lo ser ele a relatar, da forma sucinta - alguns dirão que quase sincopada - que caracteriza este "duro de coração de pomba" como lhe chamou algures o nosso melhor novelista, Archibaldo Sarapatel:
"Tinha lá as dificuldades inerentes a qualquer trabalhador. Um dia caiu-me nas mãos uma brochura artística dos serviços turísticos lusitanos e eu vi que o Porto era uma cidade granítica. Conseguira formar-me em belas-artes. Ali até os esfomeados são doutores e engenheiros. Sendo escultor, ainda que não praticante por falta de matéria-prima, pensei que poderia cá arranjar p'lo menos um lugar como pedreiro ou ladrilhador. Alguém me falara também em patos-bravos, mas para caçador nunca dei e nem dispunha de ferramenta adequada. De modo que" - continuou Georgy com um leve suspiro - num belo dia muni-me do escopro e de duas t-shirts e desembarquei dum chasso perto da Avenida dos Aliados indo ter com o contacto que o passador me deixara".
"As coisas estavam momentaneamente difíceis - acrescentou o meu convidado passando-me o terceiro copo de uísque e as castanhas de caju - pois ainda não se entrara na onda de progresso imobiliário fomentada pelo eng. Rui Rio. Mas como em cada polaco vive um actor e um músico (não esqueçamos que o maior compositor do mundo, Amadeus Mozart, é de Varsóvia embora alguns pretendam o contrário) e como o Areias me sugerira o golpe, decidi-me a entrar no music-hall...como bailarina excêntrica!".
E depois de me passar as tapas de caviar, continuou: " Como te recordarás o êxito foi imediato. O jet set nortenho e depois nacional adoptou-me como mascote. Com o nom de guerre de Georgina fui da Quinta dos Alhinhos ao casino da praia dos Macarecos, de Odelira até Figueira de Algoz numa sarabanda artística que só uma vez correu mal: quando o conhecido playboy argentário Alípio Santaclara, creio que sugestionado pelas minhas qualidades relativamente eslavas, me pediu secretamente em casamento. Naturalmente que teve azar nos condutos, porque aquilo era jogo de cena e nada mais...Mas o homem - sorriu Georgy com ironia - meteu empenhos e tentou estragar-me a carreira ... porque, não sei se sabes, infelizmente em certos meios há gente muito corrupta!" E a finalizar, antes de me estender a bandeja com o presunto patanegra: "De forma que me resolvi a largar o music-hall e a ingressar num trabalho mais...terra-a-terra, como diz uma doçura das minhas relações: hoje estou solidamente colocado numa empresa de construção civil e pratico também como escultor. É minha a estátua que hoje ornamenta a praça principal de Vila Chafarica, sou delegado sindical da comunidade branco-e-negra e...sinto-me realizado!".
E desdobrando do sofá os seus dois metros e sete (eu lá em cima enganara-me por dois centímetros) foi buscar o gelo para a nossa segunda garrafinha da sossega.
O poema escolhido por Georgy é o "Figura de mulher" de Cesare Pavese numa tradução de Martins Napoleão (Brasil):

Tens rosto de pedra esculpida,
sangue de terra dura,
emergiste do mar.
Tudo acolhes e sondas,
e repeles de ti
como o oceano. Tens na alma
silêncio, tens palavras
tragadas. És turva.
A alva em ti é silêncio.

E pareces com as vozes
da terra - a pancada
do balde no poço,
o cântico do fogo,
um tombo de maçã,
as palavras resignadas
e escuras nas soleiras,
o grito do menino - as coisas
que não passam jamais.

Não mudas. És turva,
és a taberna fechada
com o chão de terra batida,
onde entrou certa vez
o garoto descalço
em que pensamos sempre.

Tu és a sala sombria
em que pensamos sempre
como no velho pátio
onde a aurora se abria.

Nota de última hora - Já com esta edição praticamente fechada recebi do futebolista Arsénio Robalo uma foto acompanhada de uma carta a que não posso deixar de dar provimento. Assim este folhetim, que devia encerrar hoje, pelos motivos expostos só terminará amanhã...

14 Comments:

Blogger sandra costa said...

:)

4:26 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Gostei. Poético e dramático. E no entanto não sou polaco.

7:19 da tarde  
Blogger S. said...

Eu também sei fazer desenhos.

7:46 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Sob o humor percebe-se a vilania permanente contra o "leste" em que este senhoreco é venenoso, este pulha.

7:48 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Temos de aturar este cabrão ainda mais uma vez?

8:14 da tarde  
Anonymous Margarida Vale de Gato said...

Pois eu acho um exemplo simpático das virtudes do humor, igualizadoras do(s) humano(s).

10:24 da tarde  
Anonymous carlos said...

Não desista. Gostamos de o ler. Poemas e comentários e para quando mais traduções?

11:24 da tarde  
Anonymous juliana said...

Quando é que lhe vão dizer que a única piada que tem é ser piroso?

1:51 da manhã  
Anonymous ns said...

Juliana não é pirosa é apenas uma boa peça.
Felizmente não ando na vida dependente de juliana.
Mas garanto-lhe que lamento ter uma tão evidente propensão para ser incapaz. Não por me atacar, mas porque isso corresponde a qualquer coisa que não está bem em si.
No aspecto literário, fico satisfeito por a ver, se acaso é mulher, ou o ver, se é homem, do outro lado.
É que estes textos também são feitos um pouco contra o seu tipo de mentalidade. É em parte essa a razão da sua existência.

12:17 da tarde  
Anonymous Zé Povão said...

A Juliana está tão habituada aos 'Malucos do Riso' e às ?Lições do Tonecas' que já não consegue ir mais além, Nicolau. Não lhe leve a mal...

12:33 da tarde  
Anonymous ns said...

Vou-me deitar, Zé Povão, mas antes vim aqui ver o blog, que os especialistas em guerrilha enxovalhante tomaram como depósito de acintes porque aqui há homens livres e é um blog livre (gostariam que o não fôsse).
Tem razão no que refere em relação a esta tal juliana - que eu acho que não é uma mulher, é um homem disfarçado e até, se quer que lhe diga, mais próximo destas paragens do que se suporá (não foi por acaso que na tropa fui especialista em "análise de textos"): nenhuma mulher, que têm uma delicadeza interior específica, poderia ser tão corrupta como espírito e tão limitada como mente. A meu ver é uma simulação torpe e cobarde.
Deve ser o mesmo canalha que tem como missão atirar-me lama para cima, seguindo a táctica de tentar criar um caso para os companheiros me verem como problema, porque não me limito.
Pela minha parte, desiludam-se todas as julianas,risíveis ou simplesmente miseráveis eticamente.
Quando nos encontrarmos dir-lhe-ei os passos que já dei para este tipo de gente a seu tempo ficar desmascarada.

1:05 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Enjoyed a lot!
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10:02 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

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12:53 da tarde  

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