11.7.05

O homem que da noite fez dia



Foi uma longa conversa a que mantivemos com Tomás Maurício Nobre Videira, andando ao longo da noite por ruas e ruelas desta linda cidade capital onde a lua nos olhava ternurenta e os ruídos que vinham, da madrugada, embalavam a nossa jornada.
"Continuo guarda-nocturno porque é um imperativo da minha formação. Já em pequeno o meu maior gosto era acompanhar minha mãe, cantadeira numa casa da especialidade, ou meu pai, guarda-livros num cabaret da zona. Foi depois, já grandote, que pude conhecer e depois ganhar a estima de muitos escritores e artistas, como se sabe pessoas que gostam da boémia e, porque não dizê-lo, dos copos. O grande Benjamim Cadamosto, esse novelista de excepção, quantas vezes o ajudei a ir para sua casa, dado que se encontrava algo perturbado. E quantas vezes também suportei financeiramente os arroubos de J.M.Paternoster, ajudando o seu estro a desenovelar-se. E a própria Celestina Bencatela, antes de proceder à operação que a transformou no grande poeta Celestino, era no meu ombro que desabafava mágoas".
"Entrei depois para a polícia - continuou o dr. Videira a evocar " até que o...problema em que me enredaram determinou que tivesse de me afastar da corporação. Tornei-me de imediato guarda-nocturno e nas longas horas de serenidade estudei, meditei e, mais importante, pude então poetar à vontade sem me ver...entravado pelo Chefe (hoje sei que está residente numa unidade de acamados pois a seguir ao...diferendo não pôde mais levantar-se da cadeira de rodas onde permanecia)".
"Recebi então, dum dos meus antigos conhecidos - referiu ainda o dr. Tomás - o convite para escrever sketches para a TV. E apesar do êxito alcançado, não sou capaz de deixar a noite, as ruas, os passeios fora de horas e a devoção ao bem público através dos sonos que ajudo a conciliar. Agora estou neste bairro de qualidade onde residem políticos e outros executivos e, tanto quanto sei, depois de eu para aqui vir passaram a dormir melhor. Não será ainda o sono dos justos, mas que há diferenças para melhor, lá isso posso assegurar-lho!".
Quando o deixámos no final da entrevista, alguns roncos discretos mas perceptíveis senti que chegavam até mim vindos de algumas janelas entreabertas.

O poema escolhido pelo meu convidado de hoje é o "Os grilos" de Sebastião da Gama:

Quem os ouvir, os grilos
que trilam trilam na escuridão,
há-de julgar que os grilos
têm razão.

Enchem a Noite de trilos.
Nem sei que absurda causa os leva
a serem mais presentes e reais
do que o perfume da esteva.

Cantam. De quanto é bom me alheiam.
Não há Estrelas, nem rouxinóis, nem nada:
há eles só, riscando a Noite
com a sua voz encarnada.

Que é das Fadas que vêm com a Noite?
Que é dos sonhos que a gente
sonha, mesmo acordados,
só porque a Noite nos pressente?

Que é dos versos nascidos
quando as brisas da Noite nos embalam?

(Zanga-se o Poeta, à noite, com os grilos...

Mas eles não se ralam!).

5 Comments:

Anonymous Zé Povão said...

Categoria!!!

7:02 da tarde  
Anonymous Rui Almeida said...

Ó senhor Nicolau... isto já vai nuns quantos poemas escolhidos por personalidades e ainda não apareceu nenhum do Manuel Alegre... será q isto não é mais uma antologia contra Coimbra? (ou coisa do género, sei lá...)

8:42 da tarde  
Anonymous ns said...

Pode dizer-se que sim, meu caro Rui Almeida - e aproveito para o felicitar pelo seu blog, um dos que visito com proveito.
Acontece que dirigi convite a uma personalidade para estar aqui presente - o conhecido massagista desportivo Eleutério de Paiva Boléu (actualmente no desemprego após muitos anos de exercício na "Briosa"). Ele aceitou - e confidenciou-me que ia escolher um poema do vate preferido dos guarda-redes da Académica, o grande Manuel Alegre. No entanto, após declarações por este proferidas sobre a sua hesitação/conflito entre o poeta e o político, que estariam em luta e por isso não se determinavam em ir a Belém (e como o meu amigo compreende não pode ir um sem ir o outro, pois fazem parte integrante do mesmo corpo) o Pai Fundador (refiro-me como todos já perceberam, a Mário Soares) disse a um jornalista que, e cito "Esse gajo pensa que por eu um dia o ter considerado, num momento em que me senti empolgado, o maior poeta português vivo, também serve para me ir substituir?! Ora, o que agora lá está como Soares, o Jorge e coisa, já é suficientemente(...) para me fazer a paciência num oito, quanto mais se p'ra lá fôsse este com as suas picuínhas de pescador à linha!".
Não sei se percebeu a piada, caro confrade... É que o nosso aedo é um pescador compulsivo, sabia? (A graça assenta nisso!).
Por este motivo, para não estabelecer pontos de não retorno - parece que personalidade aparecida aqui no folhetim é personalidade condenada ao sucesso imediato -(por exemplo o meu primeiro convidado, o grande Joaquim Sacarreta, foi logo a seguir eleito presidente do respectivo sindicato, acabando com o monopólio de 28 anos do marxiano Cascão da Silva), Paiva Boléu resolveu não participar (igualmente porque havia o perigo de ele se tornar a seguir também o poeta preferido dos avançados da Académica, e os craques da Briosa necessitam concentração no próximo ano).
Eis o porquê do autor de "Auto da Alma" (...parece-me que não será bem este, mas de momento varreu-se-me o título exacto, tenho andado com problemas de memória que combato com pilulas de alho do Dr. Rogoff)não ir figurar nesta pequena mas selecta antologia.
Mas posso revelar que estará cá outro que faz as mesmas vezes e também é capaz de ser quase tão giro como o Dr. Alegre, o novel versejador Cesare Pavese. Talvez a malta aprecie - tanto mais que é conforme me disseram o poeta preferido dos centrais do AC Milan.

11:21 da tarde  
Anonymous ns said...

Ontem, esquecimento imperdoável, não saudei Zé Povão com o abraço proverbial ao responder a Rui Almeida.
Muito embora o textinho em comentário fôsse uma saudação aos dois, aqui fica em expresso esse bacalhau do alto estival.

12:07 da tarde  
Anonymous Zé Povão said...

Obrigado. Sabe que há dias em que os meus ossos não me permitem ter paz de espírito para me sentar e nevegar pela Internet. Daí alguns longos silêncios. Mas volto sempre aqui com todo o gosto.

12:36 da tarde  

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