15.7.05

Há muito que aqui não se fala de BD

David B.



Poucos autores de banda desenhada se aproximaram tanto da literatura como David B., um dos fundadores da mítica editora francesa L'Association (não tem página na net), a qual tem vindo, desde o início dos anos noventa, a revolucionar discretamente a BD europeia, quer a nível do conteúdo quer a nível formal e visual. O gosto pela experimentação (consequente), a ousadia do traço, a abordagem oblíqua do mundo, o trabalho intenso sobre a psicologia das personagens, e, sobretudo, o constante diálogo - melhor dizendo, as transfusões e correspondências - com a pintura, o cinema, o teatro, a poesia, o romance, etc., fazem de L'Association, - onde pontuam, para além de David B., Joan Sfar, Vanoli, Lewis Trondheim, Dupuy & Berberian ou Jean-Christophe Menu - não só uma editora marcante no domínio da BD mas também um movimento estético da maior importância, uma vanguarda num tempo em que as vanguardas de alguma forma se esvaziaram ou redundaram em caricaturas.
Mas a obra-prima desta "escola" pertence, sem dúvida, a David B.: "L'Ascension du Haut Mal", editado em seis volumes entre 1997 e 2003. Mais prático - e bem mais barato - é, no entanto, adquirir a tradução inglesa, num único e belo volume com o título de "Epileptic" (New York, Pantheon Books, 2005). Obra autobiográfica, nela se conta a luta de uma família (pai e mãe com três filhos, dois rapazes, David. B e Jean-Christophe e uma rapariga, Florence) contra a forma gravíssima de epilepsia que atinge o irmão mais velho, Jean-Christophe, e lhe transforma a vida num purgatório. Jean-Christophe sucumbe diariamente a inúmeros ataques epilépticos, sempre muito violentos e prolongados. A sua família, impedida de levar uma vida normal, vê-se assim prisioneira da doença e do doente, confundindo-se as suas expectativas de felicidade com as expectativas de uma cura para a epilepsia de Jean-Christophe. Mostrando-se a medicina tradicional, apesar de todos os esforços, incapaz no caso de Jean-Christophe, a família lança-se numa demanda por uma cura inexistente, espécie de Graal doméstico, o que a leva a percorrer a França e a experimentar todo o tipo de soluções: parapsicologia, religiões e seitas várias, magnetismo, hipnotismo, macrobiótica, exorcismo, alquimia, feitiçaria, ocultismo, etc., pretexto para uma viagem nos meandros das mil e uma formas de espiritualidade, superstição e crenças acumuladas ao longo da História, tudo narrado com uma erudição e um conhecimento histórico extraordinários.



Em simultâneo, assistimos à génese de um artista, David B. (de seu verdadeiro nome Pierre-François), cozinhado neste caldeirão de saberes e experiências e na necessidade de fugir ao martírio, necessariamente solitário, do irmão mais velho, que ele vê como um duplo de si, ou projecção dos seus medos ontológicos e sociais. Para tal, David. B cria para si mesmo uma série de mundos paralelos ao mesmo tempo que, à maneira de Swedenborg, faz o inventário dos seus sonhos como se de entradas de um diário íntimo se tratassem - com a diferença, em relação ao filósofo e visionário sueco, de que os desenha.
O irmão epiléptico é simultaneamente a razão pela qual David B. se mantém preso à (dura) realidade e pela qual navega para fora dessa mesma realidade:

"O que acontece ao meu irmão quando tem um ataque? Sai do seu corpo e vai para outro sítio qualquer? Ou, pelo contrário, mergulha no mais fundo de si mesmo? Flutua rumo à Quarta Dimensão? Ou visita outros mundos regidos por geometrias desconhecidas na Terra, como nas histórias de H. P. Lovecraft? Morre por uma fracção de segundo? Sonha? É uma espécie de vazio? Não se lembra de nada porque não há nada para lembrar? Ou é a sua memória de outros mundos a ser apagada? E se ele estivesse a partir porque é infeliz aqui, connosco?" (p.225)

Surpreendentemente, o livro, que se estende ao longo de 361 páginas, termina com os versos de Pessoa:

Senta-te ao sol.
Abdica
E sê rei de ti próprio.

1 Comments:

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11:48 da tarde  

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