7.7.05

Contra a barbárie, também a poesia

Londres
Visitei Londres pela primeira vez numa manhã de Primavera.
Numa das margens do rio, um pouco ao estilo vitoriano
rapazolas snifavam tranquilamente
tornavam real e popular o mistério que William
Blake espalhou pelas coisas do inferno e do céu.
Velho carola
O que eu lhe li nas entrelinhas
o que eu inventei à sua custa com a proverbial
lucidez mediterrânica
Mas passemos adiante. Salvo erro
- e creio que isto é exacto -
daquela maneira desasada é que habitualmente circulavam
os que numa serena e fresca noite resolveram limpar o sebo
mesmo sob o nariz dos transeuntes
à jovem Elisabeth Douglas com sete naifadas no baço
(a sua mãe, o seu pai choroso
o ar compungido da locutora boazona
o cheiro provável a cera fria dos demais figurantes...)
Os cisnes em Datchet Court
solenes como dois turistas numa pensão da linha.
Londres Londres dali vejo partir os velhos aventureiros
G.A.Henty com a sua gravata verde os olhos piscos
Poetas envinagrados conjurando-se a uma esquina
lançando a âncora num pub despertando lembranças
Sucheu Bali as savanas do monte Kenya
lá passam de autocarro até Hampstead
não naturalmente pelos livros mas sobretudo
pelos leitores "recordo-me que uma vez
tentei trabalhar numa casa depois de uma outra quadrilha
lá ter estado
" O meu vizinho que sabe
que tudo é citação faz-me sorrir
conta-me coisas adormece-me.

Muitas coisas ficam desconstruídas, do grave
ao divertido
ao fim duma meditação intempestiva
Os domingos de sol
As prímulas na pradaria de Runnymede
O choro de Defoe ou de Donne sobre os rochedos de Chaltenham
O amplexo de um preto velho numa lojeca de Carnaby Street.
Mas a inocência
é já matéria sem relevo
é uma pérola uma pedra fibra descarnada e melancólica.
Londres exactamente e tudo o mais é divagação
há 300 anos eu aqui seria um inimigo.
Os salpicos de lama feriam-me a concentração
mas não havia bruma ouvia-se
um piano mecânico nas redondezas
Deserta a cidade rapaziada pedante mariquices isabelinas
- o obelisco como um carvalho nas colinas de Cape Staines.
É difícil pensei eu lançar o olhar em volta
tanta coisa poderia eu sei lá acontecer
A rapariga junto ao poste de iluminação pensativa
Cinco sonatinas para violoncelo e a sombra de Mateus Pipperbarem
uma voz que ondula de repente e pára.
Ferrovias contudo desdobravam-se ao longo dos continentes e foi então
que me ocorreu mas que faço
eu aqui
No entanto uma doçura muito velha percorria-me de cima a baixo
a Inglaterra florida e violenta martelava-me na cabeça
Robinson surgia de súbito acenando com um jornal na mão
Interrogativo um pouco alucinado.

A minha alegria ousará abrir caminho por aqueles labirintos.
A tepidez do Inverno num lugar mais aprazível.
Olho de novo o céu. A multidão comprime-se.
Noutras condições pergunto ainda estarei no recanto que sonhara?

Juan Pedro Moro

Trad. NS

Nota - Nasc. Alcalá de Henares, 1966. Trabalha em Inglaterra como decorador. Em 1998, ao encontrar-me com ele na sua terra natal, entregou-me este poema que imediatamente traduzi e entreguei à revista DiVersos, onde ficou para publicação.
Com amargura pelo acontecido mas decisão para ajudar a enfrentar a fera, aqui o publico já.