8.7.05

Anatomicamente Imperfeitos

"Requiem por Ruth Handler" é um poema delicioso - e formalmente perfeito - de Inês Lourenço (n. 1942). Está no último livro da autora, provavelmente o seu melhor, "Logros Consentidos" (Lisboa, &Etc., 2005, pp. 40-41). A partir da boneca Barbie (portanto de um brinquedo, mesmo que na sua essência um símbolo), chega-se à vanidade da condição humana e à futilidade das sociedades do artifício e do desperdício, das aparências e do plástico. Só um(a) grande poeta poderia escrever um poema assim.


Requiem por Ruth Handler


Morreu ontem a mãe da Barbie,
a boneca adolescente. À semelhança de
Atena, Barbie saiu armada dum
cérebro, não divino, mas industrioso,
com a longa cabeleira e a azúlea mirada.

Morreu a mãe da Barbie, a filha
que nunca será órfã, pequeno duende
de soutien 38 e de 33 polegadas
de altura. Trinta e três polegadas
multidesejantes de sonho
anatomicamente impossível.

Morreu a mãe da Barbie, que
faz ballet, ski, patins em linha e
todos os desportos radicais e tem
um namorado elegante, que jamais
a trairá e amigos tão anatomicamente
imperfeitos como ela.

Morreu a mãe da Barbie, que vai
a todas as festas com muitos
vestidos de gala e enegreceu
há uns anos, qual Naomi Campbell, para
ser consumida pela boa
consciência racial do Ocidente.

Morreu a mãe da Barbie, que jamais
a viu, assim anatomicamente imutável,
padecer de uma gravidez adolescente.
A Barbie é sabida e deve ter tido educação
sexual. Que fará ela, com o Ken
no regresso de tantas festas?

Nem paixão, nem desgosto, nem fome
ou uma boa tareia dos adultos, alteram
a sua fábula de plástico, muito menos
fabulosa que a Branca de Neve ou a
Bela Adormecida, onde existiam
humanas bruxas, vencidas maldições
e príncipes que davam beijos ao acordar.

Morreu a mãe da Barbie, cedo demais
para inventar uma Barbie de burka,
ou de explosivos escondidos no cinto. No
fim da vida continuava a vender milhões
de próteses mamárias, na sequência da sua
própria mastectomia. Coisas sem brilho,
impossíveis de acontecer
à Barbie.


Inês Lourenço

2 Comments:

Anonymous hmbf said...

Li este poema, numa aula, a uma das minhas turmas. Alguns alunos, no final, sorriram. Achei que a poesia se havia cumprido.

4:08 da tarde  
Anonymous ns said...

A minha neta - apesar da minha juventude, atenção! - com oito anos, costuma vir aqui a ver o site da Berbie (é inevitável, as miúdas, todas feminis, gostam de ver a boneca) correndo comigo delicadamente. Ontem cá estava ela com uma amiguinha. De repente lembrei-me duma coisa e pedi-lhe que me deixasse ver o blog. Generosa, consentiu. E apareceu o poema da mãe da Barbie... De relance primeiro, elas viram-no. Ficaram quase estarrecidas! "Ó avô, morreu a mãe da Barbie???!!!". E leram o resto.
No fim, ela disse-me: "A senhora está a brincar, não está avô? Mas os versos são giros!".
Acho que foi um enorme elogio à autora e por isso aqui fica com o meu obrigado a ela por o ter escrito e ao Rui por o ter colocado.

12:28 da tarde  

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