2.6.05

Só 3 ou 4 notas sobre o Referendo

1 - A decisão de realizar o referendo em simultaneo com outra eleição (qualquer que seja), visa unicamente diminuir a margem de abstenção e de desinteresse pelo mesmo. É, portanto, uma fuga para a frente do poder político que assim consegue urdir ardilosamente um incremento de interesse pela questão europeia que não se verificaria, certamente, se o eleitor se tivesse de deslocar DE PROPÓSITO às urnas. Estão, portanto, a forçar-nos a ter uma atitude que começa logo aí por não ser livre.

2 - O português médio está muito mal informado acerca do que tem que decidir neste referendo. Povos culturalmente superiores (e não escrevo isto com alegria...) como os franceses ou os holandeses informaram-se e, ou pela politica interna (caso dos franceses) ou pelas consequencias no que diz respeito, por exemplo, à emigração (caso dos holandeses) disseram NÃO, e disseram-no expressivamente. Outros países onde houvesse realmente referendo popular e não decisão parlamentar, reservar-nos-íam semelhante resultado, tivesse o povo possibilidade directa de votar. Escusado será dizer que, nesses países, se verifica outra falta de liberdade. A impressão que por vezes fica é a de que os politicos têm vindo a decidir tudo (independentemente dos fundos e das auto-estradas) CONTRA a opinião (silênciosa) dos povos.

3 - Os povos dos países mais ricos, que mais contribuem para a União, tenderão a responder NÃO. Povos de países menos desenvolvidos, que têm beneficiado desses fundos, tenderão a dizer SIM. Não há aqui, portanto, qualquer espécie de sentimento elevado, de espírito colectivo, de união cultural. Não. Estamos apenas, e só, a falar de dinheiro. E isto alguma vez teria que vir à baila. Acabar com as fronteiras, tudo bem. Pagarmos todos em EUROS, OK, excepto o Reino Unido. Agora, uma constituição comum? Mesmo sendo abusivamente interpretada (exclusivamente) como um "vou deixar de mandar em mim próprio"? Isso não! Muitos desses povos ainda estão a aprender-se a eles próprios (portugueses, por exemplo), quanto mais serem um estado federal europeu.

4 - Não sei se alguma vez irá existir esse espírito europeu, unido, cultural, intrínseco que alguns sonharam. Esta coisa da Comunidade Europeia não tem alguma coisa de contranatura? A Espanha, por exemplo, uma parte desse todo, sonha, ao invés, em desintegrar-se, num movimento de implusão que ocorre simultaneamente com a intenção de união. Ao fim e ao cabo, a história de um continente está inscrita no código genético dos seus povos, e eu estou muito céptico (por muito que admire certas caracteristicas de algumas sociedades europeias) sobre se alguma vez esses mesmos povos esquecerão de vez as guerras e os conflitos que os levaram a estabelecer o puzzle europeu como está para passarem a viver GENUINAMENTE como um povo comum.