17.6.05

QUESTIONÁRIO - A resposta de Floriano Martins (Agulha)



1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
FM - Recuso tal impossibilidade. É fácil fazer e refazer listas de livros proibidos, ou pura e simplesmente viciar-se nelas. Além do que não tem piada alguma encarnar um livro lido e relido cuja condição de ícone talvez não seja senão fruto da proibitividade. Ao fogo o que é do fogo. A depender (sempre) da sensibilidade de cada um, dá para sair bastante chamuscado do convívio com The Devil: a mask without a face, de Luther Link (1995).

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?
FM - Não propriamente um personagem, em isolado, mas antes por um encontro entre dois personagens, entre Raskolnikov e Marmeladov, no romance Crime e Castigo, de Dostoievski, ou melhor, pelo dilema dilacerante que vivem ambos personagens e a maneira como o primeiro aprende com o segundo neste diálogo em uma taverna. Mas confesso que a maneira intrigante com que Raskolnikov padece as distorções entre o que se pensa e o que se pratica até hoje tem sido algo frequente em tudo o que escrevo.

3. Qual foi o último livro que compraste?
FM - Estou trabalhando na organização da Obra Poética do brasileiro Carlos Drummond de Andrade para a Fundación Biblioteca Ayacucho, da Venezuela, de maneira que há alguns dois meses me encontro completamente tomado por esta tarefa nada fácil. Esta e as próximas perguntas vão encontrar respostas completamente inseridas neste trabalho. O último livro que comprei foi A lição do amigo - Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade.

4. Qual o último livro que leste?
FM - Concluí hoje pela manhã a leitura de O Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto, mas este não vale como exemplo único, porque foi livro lido ao lado de muitos outros.

5. Que livros estás a ler?
FM - A obra completa de Drummond, uma biografia de Drummond, o diário do Drummond, um volume com a série de entrevistas radiofônicas com o Drummond e uns tantos livros de ensaios sobre Drummond...

6. Que livros (cinco) levarias para uma ilha deserta?
FM - Fosse eu para uma ilha deserta agora, agora, exausto como estou diante desta tarefa gigantesca de preparar a obra do Drummond, não levaria livro algum, menos ainda do Drummond [risos]. Contudo, pensando em livros que têm sido freqüentes em minha vida, penso que tais livros, considerada a intimidade imensa que devem guardar conosco, ao escolhê-los, já fazem tanto parte de nós que nem precisaríamos levá-los conosco fisicamente. No meu caso, por exemplo, penso em um livro como Os testamentos traídos, de Milan Kundera, ou A brutalidade dos fatos - a série de entrevistas que Francis Bacon concedeu a David Sylvester, dentre outros. Como desconfio seriamente da existência de uma ilha deserta, arriscaria não levar nenhum livro comigo. Para ler, talvez gibis.

7. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
FM - Pedirei ao acaso que escolha, no Outlook, alguns dos colaboradores mais frequentes da Agulha, por pura provocação.