12.6.05

OS MEUS POEMAS DA VIDA DE URBANO TAVARES RODRIGUES

Nota-se que é escritor e basta. Uma pergunta: porque é que nestas coisas da cultura, os tipos de esquerda são melhores? (Eh, lá, que já vem chumbo do grosso...)

Eis a votação do júri de Leça da Palmeira:

- "Cristalizações", de Cesário Verde, pela surpreendente modernidade (já então) e pelo genial uso, nada lamechas (cf. António Nobre) da rima. Segundo uma biografia romanceada que saiu há tempos na Presença, escrita por José Pinto de Figueiredo (que, aliás, recomendo...) esta "actrizita que hoje pinto", "com seus pezinhos rápidos, de cabra!", poderia ser Tomásia Veloso, uma comediante da capital do inicio de século que ignorava Cesário em favor de um militar (ah, as fardas...!). Lendo este poema, não é de admirar que Álvaro de Campos tenha prestado tributo a Cesário. A primeira vez que li Cesário a sério, corri a confrontar as datas de nascimento dele (n.1855-m.1886, 31 anos) com as de Baudelaire (n. 1821-m.1867, 46 anos), por me ter parecido tão precursor, tão à frente do seu tempo, na esperança patriótica de que Cesário fosse anterior a Baudelaire. Mas não. "Les Fleures du Mal", sabe-se, era leitura de cabeçeira de Cesário... (Isto sem desprimor para com António Nobre, que ficou esquecido lá em cima...)

- "Tabacaria", de Álvaro de Campos - e desculpem estar sempre a escolher Pessoa mas agora que passou o furacão pessoano, já não parece mal dizer que Pessoa é muito bom sem parecer pretencioso. "Come chocolates, pequena;/ Come chocolates!/ Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.". "Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica."

- "Fonte", Herberto Helder, rendido à impressiva capacidade metafórica deste poeta, num poema onde se entrecruzam simbólicamente diversos níveis de leitura. Uma lição, mesmo para os que escrevem poesia mais figurativa...

Now, let's Marcelo...

10 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Que poderá levar um poeta estimável como Barreto Guimarães a escrever muito a sério este tipo de textos? Senso de espírito engomadinho ou gosto ridículo de andar na companhia, mesmo de longe, com os do Poder? É que estas coisas, estes livros não têm importancia real nenhuma, excepto na ajuda que dão a uma visibilidade quase neurótica a indivíduos cujo gosto seria ocuparem sempre toda a ribalta, seja política seja para-cultural.

8:06 da tarde  
Anonymous hmbf said...

Cuidado: Nobre não é tão lamechas quanto possa parecer. E, por vezes, a lamechice é bastante poética (cfr. Adília). [já sinto as balas]

10:46 da tarde  
Blogger João Luís Barreto Guimarães said...

"Anonymous":

Agradecendo o seu comentário, não me dá o benefício de uma terceira hipótese? A poesia, tão só, por exemplo?

Gostaria de discutir consigo porque razão acho que estes livros não fazem mossa nenhuma à poesia (vão como chegaram...) mas era simpático pelo menos saber com quem estou a falar.

10:52 da manhã  
Blogger Serafim said...

Porque é que esta gente (permitam-me referir-me a vós deste modo) de direita sente sempre que "vai levar chumbo" ("já sinto as balas)e esta outra gente (a de "esquerda") fala (escreve) como se nada, mas mesmo nada lhe pudesse acontecer.
Sinto o lápis azul, mas ao contrário... E isso não é bonito.

12:11 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Dou-lhe as hipóteses todas.
Mas o que salienta estes livros é serem escolhas de políticos, e Urbano T.Rodrigues é também um político, vejam-se as suas declarações literárias no tempo do PREC. Não o fossem e pouca gente lhes ligaria. Portanto, mundanismo e do negativo.
Não me identifico porque não estão os tempos bons para se andar à vontade de cara descoberta. A discussão livre sem receios é algo a que não estou habituada e temo isso um pouco.
Sou uma pessoa. Peço desculpa mas creio que isto bastará.

6:15 da tarde  
Blogger Serafim said...

Vá lá, vá lá...
Num país de iliterados, também essas pop-stars que são os políticos possam fazer algo pelo seu país: dar destaque mediático a algo que normalmente circula em meios menos alargados.
Eu sei que o Bê-á-bá irrita sempre os doutorados, mas lembrem-se do conceito de público-alvo e ignorem estes livros. Eles não foram feitos para vós.

10:43 da tarde  
Blogger João Luís Barreto Guimarães said...

Dear "anonymous":

Confesso que fiquei agradado por a saber uma pessoa-a. Claro que respeito a sua opinião e a sua máscara, que não de ferro. Peço-lhe apenas que não me veja - mas não me veja de todo - nem como um espírito "engomadinho", nem - muito menos - como um companheiro do poder. Atravesso uma fase em que a minha confiança nos politicos, nos directores, nas instituições e em Portugal bateu no fundo. O meu próximo livro reflete isso mesmo.
O motivo porque tenho falado das antologias - e se não vos incomodar gostaria de o continuar a fazer - prende-se pelo gozo da poesia e da descoberta ou releitura de poemas que já estavam esquecidos...
Bom, na verdade é um pretexto para "postar" acerca de poesia... Confesso que o nome do antologiador não tem tanto peso para mim quanto isso.
Só mais uma pergunta: posso passar a chamar-lhe "anonymous 45"?

11:01 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A poesia a meu ver não precisa de andar na praça pública. Sei que talvez seja iletrada,que fazer, mas acho que ao andar na companhia de políticos, em sistema de vedetismo, chega às pessoas inquinada. É terrível sintoma da miséria moral dum país achar-se que faz bem às pessoas apanharem poesia das mãos desta gente.
O que lhe fornecem não é poesia, são versos que transportam um cromo como nas colecções de actores de cinema ou da barbie.
Não sei o que é anonymous 45, não estou à altura dos seus conhecimentos. Chamar-me-á como quiser,o senhor é que sabe.

10:27 da manhã  
Blogger João Luís Barreto Guimarães said...

Era uma brincadeira minha, uma tentativa de a identificar através da idade...
E tem razão em muito do que diz. Eu gosto de poemas, de poesia, mas a fórmula encontrada (convidar políticos) não foi seguramente a mais feliz...

11:03 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Não levo a mal a brincadeira, nem a percebi aliás, mas se é isso digo-lhe que tenho um pouco menos de 45 e já nos cruzámos uma vez em que apresentou, ou melhor esteve presente, um livro dum seu amigo. Mais não digo e se calhar já disse demais. Mas leve isto à conta de ter gostado da sua atitude de saber reconhecer razão ao que escrevi, reconhecendo que talvez não tivesse pensado bem. Eu acho que isso é, ou também é, poesia e se calhar a mais positiva.

4:34 da tarde  

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